{"id":24487,"date":"2025-02-10T12:01:57","date_gmt":"2025-02-10T15:01:57","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24487"},"modified":"2025-02-09T15:04:43","modified_gmt":"2025-02-09T18:04:43","slug":"ainda-estou-aqui-os-extremistas-estao-na-sala-de-jantar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/02\/10\/ainda-estou-aqui-os-extremistas-estao-na-sala-de-jantar\/","title":{"rendered":"Ainda estou aqui \u2013 os extremistas est\u00e3o na sala de jantar"},"content":{"rendered":"<p><strong>IVANA BENTES*<\/strong> &#8211; O humanismo de\u00a0Ainda estou aqui\u00a0\u00e9 um alento, mas como poderemos restituir um tecido social esgar\u00e7ado, quando os extremistas se instalaram na sala de jantar e na pr\u00f3pria fam\u00edlia normativa?<\/p>\n<p>Enquanto o filme\u00a0<em>Ainda estou aqui<\/em>\u00a0estava sendo exibido nos cinemas de todo o Brasil em novembro de 2024, um extremista de direita, vestido de roupa com naipes de baralho como do personagem Coringa se autoexplodia com uma bomba e artefatos destinados a destruir a est\u00e1tua da Justi\u00e7a e o pr\u00e9dio do STF em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Nesse dia, fiquei me perguntando quantos outros \u201ccoringas\u201d temos em gesta\u00e7\u00e3o hoje no Brasil, arquitetando planos antidemocr\u00e1ticos fact\u00edveis ou ris\u00edveis, ou ainda quais as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para \u201csurtos\u201d coletivos, organizados e planejados, como os do 8 de janeiro de 2023, quando partid\u00e1rios do ex-presidente Jair Bolsonaro, derrotado nas elei\u00e7\u00f5es de 2022, invadiram e vandalizaram o Pal\u00e1cio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) em uma tentativa de golpe de Estado.<\/p>\n<p>Vendo o filme de Walter Salles \u2013 que acaba de dar a atriz Fernanda Torres, o Globo de Ouro, por sua atua\u00e7\u00e3o magistral como Eunice Paiva, a vi\u00fava do ex-deputado Rubens Paiva \u2013 preso, torturado e assassinado pelos militares em 1971 \u2013 fiquei me perguntando como o golpe militar de 1964 e tamb\u00e9m os acontecimentos do per\u00edodo sanguin\u00e1rio do governo M\u00e9dici, puderam ser reapropriados e ressignificados pelos \u201ccoringas\u201d, pelos bolsonaristas, pelos extremistas, por parlamentares de direita no Congresso. Como a apologia a regimes de exce\u00e7\u00e3o foram \u201cnormalizados\u201d?<\/p>\n<p><strong>Dos tanques militares ao golpe instagram\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p>Fato \u00e9 que \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d naturalizaram um regime de morte, de viola\u00e7\u00e3o de direitos, de interven\u00e7\u00e3o militar e buscaram reedit\u00e1-lo em uma tentativa de golpe militar que culminou com o 8 de janeiro de 2023.<\/p>\n<p>38 anos depois do fim de uma ditadura militar que atuou \u201cnas sombras\u201d, nos por\u00f5es, nos desaparecimentos, um regime de obscuridade que deixou sequelas profundas na hist\u00f3ria do Brasil \u2013 uma nova tentativa de golpe foi filmada e postada nas redes sociais por milhares de pessoas em tempo real, de forma midi\u00e1tica e explicita, a luz do dia, histri\u00f4nica, de forma instagram\u00e1vel e exibicionista, com a participa\u00e7\u00e3o de militares, empres\u00e1rios e pessoas comuns.<\/p>\n<p>A tentativa de reedi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica de um golpe por interven\u00e7\u00e3o militar em 2023 tinha um lastro. De todos os pa\u00edses assolados por ditaduras militares nos anos 70, Paraguai, Bol\u00edvia, Chile, Uruguai, Argentina, o Brasil foi o que menos investigou, julgou e puniu os crimes da ditadura. A Argentina, ainda em 1983, criou sua Comiss\u00e3o Nacional sobre os Desaparecidos durante o regime de 76 a 83, investigou crimes, prendeu generais e condenou mais de mil pessoas por crime de terrorismo de Estado.<\/p>\n<p>Aqui tivemos a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, que trouxe a luz 1121 depoimentos impressionantes e chocantes. Fotos e documentos reveladores de acusados e v\u00edtimas da ditadura. O relat\u00f3rio final foi entregue a ent\u00e3o presidente da rep\u00fablica Dilma Roussef em 2014, ela mesma torturada pelos militares, mas, apesar do trabalho primoroso nossa \u201cjusti\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o puniu ningu\u00e9m.<sup>[1]<\/sup><\/p>\n<p>Por isso o golpismo instagram\u00e1vel e espetacular de 8 de janeiro de 2023 precisa de uma puni\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica e rigorosa, que come\u00e7ou com a condena\u00e7\u00e3o pelo STF de 371 pessoas, mais de 2 mil investigadas, 146 condenadas por incita\u00e7\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o criminosa, e 527 liberadas mediante pagamento de multas. Uma in\u00e9dita revers\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o de impunidade e concilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O 8 de janeiro provou como se passa da narrativa aos atos, dos memes e\u00a0<em>fake news<\/em>\u00a0para uma a\u00e7\u00e3o real e violenta que come\u00e7a com incita\u00e7\u00f5es nas redes sociais e uma minuta de golpe de estado, impressa no Pal\u00e1cio do Planalto envolvendo generais, coron\u00e9is e o alto escal\u00e3o das For\u00e7as Armadas no final do governo de Jair Bolsonaro.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio questiona a ideia de uma \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d que legitime a incita\u00e7\u00e3o a crimes ou a apologia \u00e0 viola\u00e7\u00e3o do estado de direito, assim como outras \u201cliberdades\u201d criminosas.<\/p>\n<p>A minuta golpista, elaborada com a participa\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o presidente da Rep\u00fablica, Jair Bolsonaro, invoca a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, a constitui\u00e7\u00e3o mais radicalmente democr\u00e1tica, para propor um golpe de Estado no Brasil, diante da derrota de Jair Bolsonaro nas urnas em 2022: \u201cAfinal, diante de todo o exposto e para assegurar a necess\u00e1ria restaura\u00e7\u00e3o do Estado Democr\u00e1tico de Direito no Brasil, jogando de forma incondicional dentro das quatro linhas, com base em disposi\u00e7\u00f5es expressas da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, declaro o Estado de S\u00edtio; e, como ato cont\u00ednuo, decreto Opera\u00e7\u00e3o de Garantia da Lei e da Ordem.\u201d (Minuta do Golpe, publicada nas 884 p\u00e1ginas de investiga\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal em 21\/11\/2024).<sup>[2]<\/sup><\/p>\n<p>Em nome da Constitui\u00e7\u00e3o, os militares prop\u00f5em violarem a Constitui\u00e7\u00e3o! Eis o que diz a espantosa minuta.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Invers\u00f5es do sentido<\/strong><\/p>\n<p>As invers\u00f5es da extrema direita s\u00e3o assombrosas, mas como \u00e9 poss\u00edvel mudar o sentido da hist\u00f3ria? Quantos brasileiros sabem o que de fato foi a ditadura militar no Brasil?<\/p>\n<p>Em parte da minha adolesc\u00eancia em Rio Branco no Acre nos anos 1970, nunca ouvi a palavra \u201cditadura\u201d na minha casa, na minha escola, na vizinhan\u00e7a. Nunca soube que havia tido um golpe militar, que se praticava tortura e que haviam desaparecidos pol\u00edticos, repress\u00e3o e censura no Brasil.<\/p>\n<p>S\u00f3 em 1984, j\u00e1 na gradua\u00e7\u00e3o em comunica\u00e7\u00e3o na UFRJ soube que o Brasil tinha sofrido um golpe militar em 1964, com os protestos pelas Diretas J\u00e1, primeira manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que fui na vida. Eu era a exce\u00e7\u00e3o alienada vinda das bordas do Brasil? Temo que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA esquerda grita \u2018ditadura nunca mais\u2019 e comemora Globo de Ouro, mas ignoram a ditadura que vivemos\u201d, leio em um grupo direitista que monitoro no Telegram ao mesmo tempo que as janelas de Copacabana gritavam o nome de Fernanda Torres celebrando o pr\u00eamio in\u00e9dito no dia 05 de janeiro de 2025.<\/p>\n<p>A invers\u00e3o dos sinais, a falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, a apropria\u00e7\u00e3o das palavras, cria sentimentos de \u201cresist\u00eancia\u201d e de \u201cluta\u201d contra seus \u201calgozes\u201d, e extrema-direita usa a mesma linguagem, as mesmas palavras, as mesmas estrat\u00e9gias narrativas, semi\u00f3ticas, emocionais usadas para denunciar a ditadura militar de 1964.<\/p>\n<p>Nas redes da fam\u00edlia Bolsonaro os \u201cpresos pol\u00edticos\u201d s\u00e3o os pr\u00f3prios golpistas: \u201cEstamos falando sobre Justi\u00e7a, sobre pacificar o pa\u00eds. Os presos do 8 de janeiro s\u00e3o presos pol\u00edticos e n\u00f3s n\u00e3o vamos desistir deles. Todos os dias estamos lutando por eles! (Fl\u00e1vio Bolsonaro, 19\/11\/2024 no Telegram). Citam tamb\u00e9m o jornalista Allan dos Santos, como \u201ccensurado\u201d e o ex-deputado Daniel Silveira, \u201cpreso injustamente\u201d, como \u201cv\u00edtimas da ditadura atual\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>O afeto antidemocr\u00e1tico \u00e9 uma \u201ccola\u201d poderosa<\/strong><\/p>\n<p>A extrema direita vem se apropriando de todas as palavras de ordem e da linguagem ativista das esquerdas. Hackearam o humor mem\u00e9tico, o sentimento de rebeldia, a ideia de revolu\u00e7\u00e3o, a linguagem dos protestos, ocupa\u00e7\u00f5es, acampas, a defini\u00e7\u00e3o de \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d, a ideia de \u201cresist\u00eancia\u201d, de \u201cpresos pol\u00edticos\u201d, \u201cgoverno do povo\u201d, etc.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o discursos pol\u00edticos racionais que movem essas invers\u00f5es e ressignifica\u00e7\u00f5es de sentido. Tudo isso v\u00eam antes de qualquer entendimento ideol\u00f3gico, como temos visto nos comportamentos de grupos, no que viraliza e enxameia nas redes sociais, no que engaja nos grupos e multiversos extremistas, dentro e fora do Brasil.<\/p>\n<p>O afeto antidemocr\u00e1tico \u00e9 uma \u201ccola\u201d poderosa, porque tem base moral, \u00e9 da vida que a extrema direita fala, uma vida atravessada por afetos tristes, ressentimentos e morte, mas uma constru\u00e7\u00e3o que autoriza praticamente qualquer coisa.<\/p>\n<p>O p\u00e2nico moral mobiliza grupos inteiros assombrados por uma delirante doutrina\u00e7\u00e3o LGBTQ+ nas escolas; pelo medo da cultura e das artes como vetores de \u201cpervers\u00f5es\u201d de toda sorte; que demoniza artistas, intelectuais, professores, cientistas, ativistas como vetores de movimentos progressistas e emancipat\u00f3rios como o feminismo, o antirracismo, o ambientalismo e tudo que coloque em xeque a mentalidade patriarcal e predat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O mundo contempor\u00e2neo \u00e9 visto como caos e amea\u00e7a afetiva e efetiva, amea\u00e7a comportamental, amea\u00e7a e destrui\u00e7\u00e3o dos valores da fam\u00edlia. Eis a for\u00e7a da extrema direita no mundo: A defesa da fam\u00edlia id\u00edlica patriarcal, base de milhares de filmes e narrativas hollywoodianas e mitologias.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Ainda estamos aqui. Contra polariza\u00e7\u00f5es, a for\u00e7a arquet\u00edpica da fam\u00edlia?<\/strong><\/p>\n<p>O que o filme\u00a0<em>Ainda estou aqui<\/em>\u00a0faz, como narrativa, e o que o livro de Marcelo Rubens Paiva j\u00e1 indicava, \u00e9 exatamente usar essa for\u00e7a arquet\u00edpica da fam\u00edlia e da mulher (sim brancas, sim abastadas, sim, normativas) para colocar Eunice Paiva, a m\u00e3e de cinco filhos, a vi\u00fava arrancada de uma ideia feliz de fam\u00edlia amorosa e jog\u00e1-la no inferno com coragem e pragmatismo assertivo.<\/p>\n<p>Eunice Paiva \u00e9 despida de alguns dos seus privil\u00e9gios de classe e colocada diante de um Estado carrasco que costuma direcionar sua crueldade e viol\u00eancia contra os pobres, contra os pretos, contra os favelados. Mas aqui, \u00e9 a fam\u00edlia normativa que deixa de ser intoc\u00e1vel. \u201cMeu marido est\u00e1 em perigo\u201d, diz Eunice. \u201cTodo mundo est\u00e1 em perigo\u201d, responde a amiga a quem ela pede ajuda.<\/p>\n<p>No filme, Walter Salles mostra sua destreza narrativa, ao apresentar e nos envolver com essa fam\u00edlia abastada, progressista, branca, desej\u00e1vel e feliz que ser\u00e1 violentada pelo Estado brasileiro. Eis a identifica\u00e7\u00e3o e cola \u201cuniversal\u201d de Eunice Paiva com qualquer espectador, o trauma pol\u00edtico n\u00e3o diz respeito apenas a uma ruptura da ordem social ou a uma disputa ideol\u00f3gica, \u00e9 o ataque a uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p><em>Ainda estou aqui<\/em>\u00a0tende, narrativamente, a dissolver ou amenizar as polariza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas j\u00e1 arraigadas, no Brasil de 2024, pelos afetos em cena e pelo seu humanismo centrado na fam\u00edlia? O filme indica um caminho poss\u00edvel, um cap\u00edtulo no manual da guerrilha afetiva que teremos que travar em 2026 e depois.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel construir \u201credes cordiais\u201d, espa\u00e7os de conviv\u00eancia e di\u00e1logo, firmar pactos democr\u00e1ticos diante do engajamento nas redes t\u00f3xicas, diante do neg\u00f3cio do \u00f3dio, do gozo com a brutalidade e viol\u00eancia das polariza\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 sa\u00eddas que n\u00e3o sejam coletivas ou que n\u00e3o passem por pol\u00edticas p\u00fablicas, mudan\u00e7as de mentalidade, justi\u00e7a efetiva, mas o filme ganha pot\u00eancia nesse microcosmo, na escala reduzida da fam\u00edlia, na reconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria pessoal de Eunice Paiva, que nos leva a nos solidarizarmos \u2013 para al\u00e9m de sofrermos com ela e com sua fam\u00edlia ador\u00e1vel \u2013 com os demais vitimados pela macro hist\u00f3ria da ditadura militar no Brasil.<\/p>\n<p>\u00c9 por identifica\u00e7\u00e3o, analogia. proje\u00e7\u00e3o, ou por constrangimento humanista (no caso de um espectador conservador) que o filme nos instala nesse devir resistente de Eunice diante de um Estado criminoso. Quem p\u00f4de e quem pode peitar o terrorismo de Estado, seus agentes, sua pol\u00edcia, seu descontrole?<\/p>\n<p>O filme cuida em defender e afastar Rubens Paiva de qualquer simpatia pela luta armada ou qualquer gesto ou discurso radical. Paiva foi deputado federal eleito e cassado em 1964, fez um discurso hist\u00f3rico na R\u00e1dio Nacional, em defesa da legalidade do presidente Jo\u00e3o Goulart no dia 1\u00ba de abril de 1964.<\/p>\n<p>Com o golpe em pleno andamento. Rubens Paiva \u00e9 cassado, sai do Brasil, volta para se dedicar as suas obras como engenheiro, mas n\u00e3o deixa de atuar contra a ditadura, como \u201ccorreio\u201d entre os exilados pol\u00edticos, fazendo chegar informa\u00e7\u00f5es para a imprensa internacional sobre a ditadura no Brasil, ajudando perseguidos pol\u00edticos escaparem do pa\u00eds. Paga seu ativismo com a vida: \u00e9 preso, torturado e morto em 1971.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 dito, o Rubens Paiva (Selton Mello) do filme \u00e9 sobretudo o pai bonach\u00e3o e amoroso, o marido de Eunice Paiva, a m\u00e3e liberal e dedicada. Os dois formam um casal\u00a0<em>bom vivant<\/em>\u00a0que cria os cinco filhos entre festas com os amigos, banhos de mar no Leblon, uma casa confort\u00e1vel e espa\u00e7osa e os ares libert\u00e1rios da contracultura. Embalados pelas m\u00fasicas de Gil, Cetano, Mutantes, Serge Gainsbourg, pelos livros, pela arte, pela boa comida, pelo bom viver.<\/p>\n<p>Nos 30 minutos iniciais, a fam\u00edlia de Rubens Paiva \u00e9 retratada com imagens de intensa vivacidade e frescor, usando a est\u00e9tica fragmentada e amadora do super-8, como as da c\u00e2mera usada pela filha \u201cVeroca\u201d, cr\u00f4nicas e di\u00e1rios audiovisuais de ver\u00f5es, viagens e festas, e tamb\u00e9m as in\u00fameras imagens de uma caixa\/\u00e1lbum transbordante de mem\u00f3rias felizes.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia das meninas dan\u00e7ando ao som de\u00a0<em>Je t\u2019aime , moi non plus<\/em>, de Gainsbourg e Jane Birkin; Eunice e Rubens Paiva rodopiando com os filhos ao som de\u00a0<em>Take me Back to Piaui<\/em>, de Juca Chaves, s\u00e3o tocantes e vibrantes. Quem ousaria atentar contra tal felicidade?<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>A vida das imagens. O super-8 e o \u00e1lbum de fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Na contram\u00e3o das an\u00e1lises moralistas demais sobre o narcisismo e a felicidade postada nas redes sociais, hoje, vejo a ostenta\u00e7\u00e3o das micro e macro felicidades cotidianas nas plataformas como a continuidade das fotos anal\u00f3gicas dos \u00e1lbuns de fam\u00edlia, uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>imagerie<\/em>\u00a0delirante que \u00e9 um escudo contra o caos, escudo contra o sofrimento infinito do mundo.<\/p>\n<p>Walter Salles usa todo o poder das imagens amadoras e dom\u00e9sticas em\u00a0<em>Ainda estou aqui<\/em>: filmagens e proje\u00e7\u00f5es de super-8, \u201cfilmes-cartas\u201d da filha adolescente em Londres, a c\u00e2mera anal\u00f3gica Pentax nas m\u00e3os do pai, as caixas abarrotadas de fotografias da m\u00e3e, a presen\u00e7a das c\u00e2meras de filmar e fotografar em casa, na rua, na praia, no carro, as fotografias nas p\u00e1ginas de jornais.<\/p>\n<p>Somos imersos em uma iconografia familiar que j\u00e1 \u00e9 a mem\u00f3ria do presente, o que fica com o desaparecimento de Rubens Paiva s\u00e3o suas imagens. N\u00f3s seremos apenas imagens, um dia. Eis nossa mais prov\u00e1vel forma de ressurei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>A casa como microcosmo<\/strong><\/p>\n<p>A ditadura militar no filme vai aparecendo (como em um filme de detetive ou de terror) por pequenos ind\u00edcios: sons de helic\u00f3pteros sob o mar, carros militares atravessando as ruas da orla do Leblon, uma blitz no t\u00fanel Rebou\u00e7as, not\u00edcias na TV do sequestro do embaixador sui\u00e7o, ru\u00eddos distantes e aparentemente incapazes de alterar o cotidiano solar, festivo, confort\u00e1vel que embala essa fam\u00edlia da classe alta em seu casar\u00e3o a beira-mar.<\/p>\n<p>Mas o que est\u00e1 l\u00e1 fora vai adentrar a casa e mudar tudo. A destreza de Fernanda Torres, em sua atua\u00e7\u00e3o precisa e magn\u00e2nima, contida e tensa, \u00e9 mostrar essa mulher arrancada desse meio e se despindo de uma vida, tentando \u201cblindar\u201d os filhos de tudo que acontecia.<\/p>\n<p>A casa viva \u00e9 um dos personagens eloquentes da narrativa e vai morrendo, com cortinas sendo fechadas, tomada de assalto pelos agentes que levam Rubens Paiva para sempre e se instalam na casa. Portas fechadas, vozes baixas, e uma falsa normalidade da m\u00e3e diante dos filhos que ignoram o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>O tratamento diferenciado que os agentes militares d\u00e3o a fam\u00edlia de classe alta chama aten\u00e7\u00e3o. S\u00e3o pobres no casar\u00e3o de ricos, jantam e jogam tot\u00f3, bem diferente do p\u00e9 na porta e do abuso de autoridade institu\u00eddo nas favelas.<\/p>\n<p>As iniquidades da ditadura e da pris\u00e3o s\u00e3o compartilhadas apenas por Eunice e uma das filhas, Eliana, de apenas 15 anos, as duas levadas ao DOI-Codi e interrogadas.<\/p>\n<p>A adolescente, encapuzada, atordoada, ficou presa por 24 horas. Eunice Paiva por 12 dias no DOI-Codi da Tijuca, aqui no Rio de Janeiro, no maior centro de tortura da Am\u00e9rica Latina. Rubens Paiva, preso em 20 de janeiro, dia de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, foi interrogado, torturado e executado na noite de 21 para 22 de janeiro de 1971.<\/p>\n<p>Mas nada disso est\u00e1 no filme, sem datas ou detalhes, a experi\u00eancia que temos \u00e9 de Eunice Paiva, desorientada, jogada de uma cela para outra, interrogada, ouvindo os gritos de torturados, vendo manchas de sangue no ch\u00e3o, perguntando em desespero pela filha de 15 anos e pelo marido.<\/p>\n<p>A sequ\u00eancia se encerra quando Eunice Paiva \u00e9 libertada e volta para casa e se lava no banheiro esfregando cada peda\u00e7o de pele como se quisesse arrancar do corpo a mem\u00f3ria, os cheiros e sons dessa temporada no inferno.<\/p>\n<p>Mas o terror que se instaura na casa \u00e9 algo igualmente apavorante que transforma Eunice, de mulher refinada, bem servida, bem casada, em uma m\u00e3e aterrorizada pelo Estado que tem que dispensar a empregada dom\u00e9stica, vender a casa a beira mar, criar cinco filhos, voltar a estudar e recome\u00e7ar a vida em outra cidade.<\/p>\n<p>Uma transforma\u00e7\u00e3o que vai sendo sentida pelos filhos e pelo espectador como em um filme de terror ou de assombra\u00e7\u00e3o que vai deixando pistas, evid\u00eancias fragmentadas, criando uma narrativa sufocante. As perdas afetivas na fam\u00edlia, o desaparecimento do pai, v\u00e3o sendo acompanhadas dessas perdas materiais.<\/p>\n<p>Um dos maiores medos universais, seja da classe m\u00e9dia, seja da elite econ\u00f4mica, seja entre os mais pobres n\u00e3o \u00e9 justamente despencar na escala social? Para os que tem, muito ou pouco, perder o provedor, perder a casa, o sal\u00e1rio, o emprego, as redes de apoio, \u00e9 traum\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Enterrar o pai<\/strong><\/p>\n<p>Narrativamente, os dois momentos mais simb\u00f3licos e apavorantes do filme s\u00e3o, cinematograficamente, o enterro do c\u00e3ozinho de estima\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de Eunice, atropelado, acidentalmente ou propositadamente, enquanto a casa \u00e9 vigiada por agentes militares.<\/p>\n<p>As m\u00e3os das crian\u00e7as e da m\u00e3e que cavam freneticamente um buraco no quintal e enterram o corpo embrulhado de Pimp\u00e3o em um cobertor, sua morte violenta e atroz, \u00e9 praticamente o enterro simb\u00f3lico e imposs\u00edvel do pai, pren\u00fancio e press\u00e1gio da sua morte arbitr\u00e1ria e violenta. Uma catarse familiar aterradora.<\/p>\n<p>Outra cena despeda\u00e7ante \u00e9 a sa\u00edda do casar\u00e3o da fam\u00edlia, os c\u00f4modos vazios, os restos de mudan\u00e7as, o inconformismo dos filhos deixando o para\u00edso: o Rio, a praia, a inf\u00e2ncia, a adolesc\u00eancia, os amigos, com o pai desaparecido. Qualquer pessoa na plateia sente o amargor e melancolia da cena: mudar de cidade de maneira for\u00e7ada ou por circunst\u00e2ncias desfavor\u00e1veis da vida.<\/p>\n<p>Mais uma vez, um sentimento universal, um luto cotidiano vivido por todos os que partem, migram, fogem, mudam para garantir sua sobreviv\u00eancia. Mais uma vez a micro hist\u00f3ria familiar traduz um misto de sentimentos contradit\u00f3rios: adeus e vida nova.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>A vida se ajeita<\/strong><\/p>\n<p>Toda a terceira parte do filme, depois do para\u00edso perdido e do inferno \u00e9 de paulatina normalidade, 25 anos depois a vida se ajeita. Do mar e do sentimento oce\u00e2nico do Leblon para as \u00e1guas azulejadas de uma piscina no clube paulista, eis a vida se reorganizando como pode.<\/p>\n<p>Eunice se torna advogada e ativista da causa ind\u00edgena, a hist\u00f3ria dos povos ind\u00edgenas expropriados de suas terras e dizimados durante a ditadura militar ainda n\u00e3o foi contada; o filho Marcelo Rubens Paiva torna-se escritor. Li\u00a0<em>Feliz ano velho<\/em>, em 1982, a hist\u00f3ria do seu mergulho fatal que o deixa tetrapl\u00e9gico, vibrando com seu humor e ironia, sem atentar que descrevia o contexto pol\u00edtico p\u00f3s-ditadura militar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do filho escritor, as filhas de Eunice Paiva j\u00e1 est\u00e3o adultas. Ela mergulha no trabalho, nos documentos, coleciona tudo que sai sobre o desaparecimento do marido, batalha e recebe, em 1996, 26 anos depois, o atestado de \u00f3bito do Estado brasileiro que reconhece que Rubens Paiva est\u00e1 morto. Tudo \u00e9 mais \u201cleve\u201d e factual nessa \u00faltima parte do filme.<\/p>\n<p>Eunice Paiva posa sorridente com o atestado de \u00f3bito de Rubens Paiva, porque trata-se de uma vit\u00f3ria pessoal e coletiva gigante, conseguida n\u00e3o s\u00f3 por sua resili\u00eancia e estoicismo, mas por meio da Lei dos Mortos e Desaparecidos, uma pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>Lei que foi sancionada em 1995, reconfortou fam\u00edlias dos mortos pela ditadura, mas foi extinta em 2022 pelo governo de Jair Bolsonaro e s\u00f3 retomada pelo presidente Lula, em 2024. Uma repara\u00e7\u00e3o no campo da mem\u00f3ria, as certid\u00f5es de \u00f3bito, mas n\u00e3o no campo da justi\u00e7a, pois n\u00e3o se puniram os criminosos.<\/p>\n<p>Toda a interpreta\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de Fernanda Torres tem como base o autocontrole perturbador de Eunice, capaz de \u201cblindar\u201d, em um primeiro momento, a fam\u00edlia e os filhos da viol\u00eancia do regime militar. Mas n\u00e3o se trata obviamente de um simples e inabal\u00e1vel senso de autoestima individual admir\u00e1vel, mas uma no\u00e7\u00e3o clara de seus direitos, e a percep\u00e7\u00e3o de sua mobilidade social.<\/p>\n<p>Se Eunice Paiva silencia sobre a ditadura dentro de casa, ao final do filme e da vida, nada mais \u00e9 tabu, a Hist\u00f3ria e as hist\u00f3rias voltam a circular nos almo\u00e7os familiares e reencontros cotidianos, porque o Brasil j\u00e1 podia falar da ditadura, era a abertura pol\u00edtica. A mem\u00f3ria e a hist\u00f3ria s\u00e3o liberadas aos poucos.<\/p>\n<p>Eunice Paiva \u2013 ao lado de outros familiares de desaparecidos e mortos de 64, com apoio de organiza\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio Estado, \u00f3rg\u00e3os internacionais de defesa dos direitos humanos \u2013 reestabelece a verdade hist\u00f3rica sobre o desaparecimento, tortura e assassinato de Rubens Paiva pelo regime militar. Mas, paradoxalmente, o Alzheimer apaga sua mem\u00f3ria pessoal \u00e9 o que vemos no semblante alheado de Fernanda Montenegro (Eunice velha) ou levemente sorridente.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 no filme, mas \u00e9 a pr\u00f3pria Eunice Paiva, segundo relata Marcelo Rubens Paiva, que pediu sua interdi\u00e7\u00e3o judicial diante do Alzheimer, como boa advogada que era. S\u00f3 o coletivo nos salva, literalmente, desse apagamento final da mem\u00f3ria individual.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Extracampo: onde estavam os pobres?<\/strong><\/p>\n<p>Nas redes de extrema direita e os que fazem apologia do estado de exce\u00e7\u00e3o, d\u00e3o a entender que a ditadura militar de 64 manteve \u201ctudo normal\u201d exceto para os que foram presos, assassinados, torturados, exilados, artistas, jornalistas, pol\u00edticos estudantes, os \u201ccomunistas\u201d, \u201csubversivos\u201d, cabeludos, \u201cbicho grilos\u201d, as camadas m\u00e9dias urbanas intelectualizadas, sindicalizadas, politizadas.<\/p>\n<p>O mesmo discurso do golpismo de 2024 e do populismo de extrema direita que fala de uma elite cultural corrompida em oposi\u00e7\u00e3o \u201cao povo\u201d.<\/p>\n<p>Em uma postagem no grupo de Telegram de Jair Bolsonaro se l\u00ea: \u201cas turmas do Leblon, da Vila Madalena, das reda\u00e7\u00f5es perfumadas,\u00a0<em>et caterva<\/em>, bebem vinhos gourmet e comem queijos caros enquanto debatem o qu\u00e3o chique e engajadE \u00e9 o cinema brasileiro e planejam a pr\u00f3xima viagem a Nova York \u2013 isto porqu\u00ea Havana s\u00f3 \u00e9 boa nas hist\u00f3rias socialistas da carochinha de mesa de bar. O qu\u00ea importa \u00e9 que o \u201camor venceu\u201d. (Publica\u00e7\u00e3o de 13\/12\/2024. Telegram de Jair M. Bolsonaro 1).<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>Ainda estou aqui<\/em>, Zez\u00e9, a empregada negra da fam\u00edlia Paiva (Pri Helena), \u00e9 a testemunha leal e silenciosa da hist\u00f3ria familiar, a empregada dom\u00e9stica que mora na casa e cuida dos filhos de Eunice Paiva quando ela \u00e9 levada para o Doi-Codi.<\/p>\n<p>Se Eunice Paiva, para proteger a fam\u00edlia e recome\u00e7ar a vida sem o marido, pode vender o casar\u00e3o, pode pegar dinheiro no banco, pode mudar do Rio para S\u00e3o Paulo e manter certo padr\u00e3o de vida, a empregada Zez\u00e9 tem que ser dispensada e fica desempregada. N\u00e3o se sabe seu destino na narrativa, mas sabemos o quanto a ditadura militar agravou a vida dos mais pobres.<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio em torno do \u201cMilagre Econ\u00f4mico\u201d, do \u201cBrasil Grande\u201d, do \u201cBrasil, ame-o ou deixe-o\u201d ainda perdura como mem\u00f3ria p\u00fablica e popular da ditadura militar de 64?<\/p>\n<p>Parece que sim! Pouco se fala de quanto a ditadura agravou a vida dos brasileiros comuns e pobres, produziu um \u00eaxodo da popula\u00e7\u00e3o rural desassistida para as cidades e favelas, abortou agendas sist\u00eamicas, como a da Reforma Agr\u00e1ria, agravou o trabalho injusto no campo, agravou e tentou esconder a fome end\u00eamica no Nordeste, dizimou grupos ind\u00edgenas e tomou suas terras.<\/p>\n<p>A capa da\u00a0<em>Revista Isto\u00c9<\/em>\u00a0de outubro de 1985 fala da \u201cFome Censurada\u201d pela ditadura. A imagem traz uma crian\u00e7a pobre, nua, segurando um rato. Os dados s\u00e3o de um estudo sobre a fome no Brasil do IBGE. O Censo de 1970 j\u00e1 trazia dados alarmantes e produziram forte debate nacional e incomodaram a ditadura ao revelar os n\u00edveis de desigualdade de renda do pa\u00eds.<sup>[3]<\/sup><\/p>\n<p>O presidente militar do per\u00edodo mais sanguin\u00e1rio da ditadura, Garrastazu M\u00e9dici, que em\u00a0<em>Ainda estou aqui<\/em>\u00a0aparece apenas em um retrato na parede, declara em 1974: \u201cO Brasil vai bem, o povo vai mal\u201d. O milagre econ\u00f4mico ia se desfazendo com os dados sobre a distribui\u00e7\u00e3o desigual de renda, problema de emprego, precariedade das moradias, do saneamento, da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil de M\u00e9dici que ia bem era o da economia narrativa, a justificativa da ditadura militar para afastar o p\u00e2nico moral e alimentar os fantasmas que reaparecem com a turba justiceira de 8 de janeiro de 2023.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma narrativa moral compensat\u00f3ria em todos os regimes de exce\u00e7\u00e3o. O filme\u00a0<em>Ainda estou aqui<\/em>\u00a0\u00e9 o filme dos resilientes, dos familiares dos mortos e desaparecidos, das Eunices de todos os grupos sociais que se d\u00e3o conta de seus direitos. Mas, quase fora de cena, j\u00e1 vislumbramos os extremistas que jantam conosco e jogam tot\u00f3 com as crian\u00e7as. Hoje eles est\u00e3o nas redes sociais, como os cidad\u00e3os de bem disseminando\u00a0<em>fake news<\/em>\u00a0ou fazendo circular discursos de \u00f3dio.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Micropol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>O humanismo de\u00a0<em>Ainda estou aqui<\/em>\u00a0\u00e9 um alento, mas como poderemos restituir um tecido social esgar\u00e7ado, quando os extremistas se instalaram na sala de jantar e na pr\u00f3pria fam\u00edlia normativa?<\/p>\n<p>Podemos imaginar Eunice Paiva tendo que conversar com os apologistas da ditadura, a hist\u00f3rica e a midi\u00e1tica do 8 de janeiro, escutar na academia (de gin\u00e1stica, por enquanto) ou ler nas redes sociais os discursos de \u00f3dio contra o STF, discursos sexistas, racistas, homof\u00f3bicos.<\/p>\n<p>Nas redes extremistas que monitoro e pesquiso uma das mais recorrentes formas de deboche \u00e9 do \u201cgoverno do amor\u201d. A disputa afetiva na pol\u00edtica impacta e incomoda. A amorosidade e afetividade de Lula produzem um efeito pol\u00edtico e um c\u00edrculo virtuoso que o odioativismo tem que combater.<\/p>\n<p>Depois do hackeamento e malversa\u00e7\u00e3o das palavras de ordem das esquerdas, a extrema-direita bombardeia o humanismo (\u201cpobre n\u00e3o come amor\u201d), os direitos humanos, como uma fraqueza.<\/p>\n<p>As vidas-linguagens, a singularidade que humaniza, a micro hist\u00f3ria proposta por Ginzburg, contar, entender, analisar como as pessoas comuns se comportam, interpretam, resistem ou se conformam \u00e0s doutrinas religiosas e culturais, s\u00e3o cada vez mais importantes.<\/p>\n<p>As pautas pol\u00edticas abstratas n\u00e3o comovem? Temos as hist\u00f3rias de vida, a micropol\u00edtica como pensadas por Guattari\/Deleuze, temos as micro-hist\u00f3rias de Carolina Maria de Jesus, ou as narrativas midi\u00e1ticas esfuziantes de Erika Hilton, os di\u00e1rios de um jovem entregador de aplicativo, a pedagogia do tijolo de Paulo Freire e outras mil hist\u00f3rias de an\u00f4nimos ou celebridades para contar.<\/p>\n<p>Eis um campo decisivo de disputa e ativismo: rela\u00e7\u00f5es familiares, redes de amizade, ambientes de trabalho, ali onde valores e comportamentos s\u00e3o negociados e reproduzidos.<\/p>\n<p><strong>*Ivana Bentes<\/strong><em>\u00a0\u00e9 professora titular da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o da UFRJ. Autora, entre outros livros, de<\/em>\u00a0M\u00eddia-Multid\u00e3o: est\u00e9ticas da comunica\u00e7\u00e3o e biopol\u00edticas\u00a0<em>(Mauad X).\u00a0<\/em>[<a href=\"https:\/\/amzn.to\/4aLr0vH\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>https:\/\/amzn.to\/4aLr0vH<\/strong><\/a>]<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p><em>Ainda estou aqui<\/em><br \/>\nBrasil, 2024, 135 minutos.<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o: Walter Salles.<br \/>\nRoteiro: Murilo Hauser e Heitor Lorega.<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o de Fotografia: Adrian Teijido.<br \/>\nMontagem: Affonso Gon\u00e7alves.<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o de Arte: Carlos Conti<br \/>\nM\u00fasica: Warren Ellis.<br \/>\nElenco: Fernanda Torres; Fernanda Montenegro; Selton Mello; Valentina Herszage, Luiza Kosovski, B\u00e1rbara Luz, Guilherme Silveira e Cora Ramalho, Olivia Torres, Antonio Saboia, Marjorie Estiano, Maria Manoella e Gabriela Carneiro da Cunha.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p>[1]\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/memoriasreveladas\/pt-br\/assuntos\/comissoes-da-verdade\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.gov.br\/memoriasreveladas\/pt-br\/assuntos\/comissoes-da-verdade<\/a><\/p>\n<p>[2]\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2024\/11\/veja-integra-do-relatorio-da-pf-que-indiciou-bolsonaro-por-trama-golpista.shtml\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2024\/11\/veja-integra-do-relatorio-da-pf-que-indiciou-bolsonaro-por-trama-golpista.shtml<\/a><\/p>\n<p>[3]\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cx0z199k8n3o\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cx0z199k8n3o<\/a><\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\">Fonte da mat\u00e9ria: Ainda estou aqui \u2013 os extremistas est\u00e3o na sala de jantar &#8211; &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/ainda-estou-aqui-os-extremistas-estao-na-sala-de-jantar\/<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IVANA BENTES* &#8211; O humanismo de\u00a0Ainda estou aqui\u00a0\u00e9 um alento, mas como poderemos restituir um tecido social esgar\u00e7ado, quando os extremistas se instalaram na sala de jantar e na pr\u00f3pria fam\u00edlia normativa? 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