{"id":24480,"date":"2025-02-05T12:08:44","date_gmt":"2025-02-05T15:08:44","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24480"},"modified":"2025-02-02T12:11:22","modified_gmt":"2025-02-02T15:11:22","slug":"america-do-sul-um-continente-partido-e-tutelado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/02\/05\/america-do-sul-um-continente-partido-e-tutelado\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica do Sul \u2013 um continente partido e tutelado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori &#8211;\u00a0<\/strong>A hist\u00f3ria sul-americana foi sempre condicionada por uma geografia extremamente dif\u00edcil, por uma economia fragmentada e voltada para fora, e por uma submiss\u00e3o uma geografia extremamente dif\u00edcil, por uma economia quase permanente \u00e0 tutela militar da Inglaterra, no s\u00e9culo XIX, e dos Estados Unidos, no s\u00e9culo XX. E \u00e9 poss\u00edvel afirmar, de alguma forma, que at\u00e9 hoje o continente se debate com esses constrangimentos origin\u00e1rios e estruturais.<\/p>\n<p><strong>Uma geografia partida<\/strong><\/p>\n<p>O continente sul-americano est\u00e1 situada entre o Mar do Caribe, ao norte; o Oceano Atl\u00e2ntico, ao leste, nordeste e sudeste; e o Oceano Pac\u00edfico, a oeste. Sua superf\u00edcie, de 17.819.100 km2, ocupa 12% da Terra e possui 6% da popula\u00e7\u00e3o mundial. Est\u00e1 separado da Am\u00e9rica Central pelo Istmo do Panam\u00e1; e da Ant\u00e1rtida, pelo Estreito de Drake, e tem uma extens\u00e3o de 7.500 km desde o Mar do Caribe at\u00e9 o Cabo Horn, no extremo sul. Cerca de quatro quintos do continente ficam abaixo da Linha do Equador, que corta Peru, Col\u00f4mbia, Brasil e o pa\u00eds que leva o nome de Equador.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica do Sul possui tr\u00eas grandes bacias hidrogr\u00e1ficas: do Rio Orinoco, do Rio Amazonas e do Rio da Prata, e seus rios interiores possuem enorme potencial para navega\u00e7\u00e3o e aproveitamento de energia hidr\u00e1ulica. Os tr\u00eas sistemas drenam em conjunto uma \u00e1rea de 9.583.000 km<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>No entanto, o mais importante, do ponto de vista geopol\u00edtico, \u00e9 que se trata de um espa\u00e7o geogr\u00e1fico inteiramente segmentado por grandes barreiras naturais que dificultam enormemente sua integra\u00e7\u00e3o f\u00edsica, como \u00e9 o caso da Amaz\u00f4nia e da Cordilheira dos Andes, que tem 8 mil Km de extens\u00e3o e atinge 6.700m de altitude, oferecendo apenas alguns pontos de passagem naturais. Na regi\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica, predominam as terras \u00famidas; na regi\u00e3o central do continente, \u00e1reas alagadas, como o Pantanal brasileiro e o Chaco boliviano; mais ao sul, h\u00e1 plan\u00edcies e cerrados; e na costa leste, a floresta original cedeu lugar a agricultura, urbaniza\u00e7\u00e3o e ind\u00fastria.<\/p>\n<p>O litoral atl\u00e2ntico \u00e9 baixo e possui uma larga plataforma mar\u00edtima, ao contr\u00e1rio do litoral do Pac\u00edfico, que possui grandes profundidades e onde n\u00e3o existem plataformas continentais. Nos Pampas de Argentina, Uruguai, Paraguai e sul do Brasil, encontram-se as terras mais f\u00e9rteis do continente e algumas das melhores do mundo. Existem, ainda, algumas pequenas \u00e1reas com bons solos nos vales andinos e na zona central do Chile, na plan\u00edcie equatoriana de Guayas e no vale colombiano de Cauca, al\u00e9m das terras roxas, no lado brasileiro da bacia do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Por outro lado, as terras da bacia Amaz\u00f4nica e a maior parte das plan\u00edcies tropicais s\u00e3o muito pobres e de baixa fertilidade, o que explica o fato de que a popula\u00e7\u00e3o das terras tropicais da Venezuela, Guiana e Suriname viva quase toda a poucos quil\u00f4metros da costa. A combina\u00e7\u00e3o de montanhas e florestas tropicais tamb\u00e9m limita enormemente as possibilidades de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dentro do arco de pa\u00edses que se estende da Guiana Francesa at\u00e9 a Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>No caso do Peru, por exemplo, existe uma clara divis\u00e3o econ\u00f4mica e social em seu territ\u00f3rio, entre as zonas costeiras, onde se concentra a atividade extrativa e de exporta\u00e7\u00e3o, e um interior extremamente isolado e atrasado economicamente. O Chile, por sua vez, possui um clima temperado e terras produtivas, mas \u00e9 um dos pa\u00edses mais isolados do mundo, o que dificulta sua integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com os demais pa\u00edses do \u201ccone sul\u201d \u2013 Argentina, Uruguai e Brasil \u2013 e o transforma obrigatoriamente numa economia aberta a exportadores, voltada quase exclusivamente para os EUA e os pa\u00edses asi\u00e1ticos do Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>O mesmo se pode dizer dos demais pa\u00edses sul-americanos. Sua inser\u00e7\u00e3o na divis\u00e3o internacional do trabalho, na condi\u00e7\u00e3o de exportadores de commodities, refor\u00e7ou sua ocupa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e demogr\u00e1fica inicial, dispersa e voltada para o litoral, sempre em busca dos mercados centrais, e com escasso interesse nos mercados regionais. At\u00e9 o final do s\u00e9culo XX, o Atl\u00e2ntico foi mais importante do que o Pac\u00edfico para o com\u00e9rcio de largo curso da Am\u00e9rica do Sul, e a presen\u00e7a de importantes bacias hidrogr\u00e1ficas articuladas ao litoral atl\u00e2ntico, al\u00e9m da maior proximidade da Europa e dos EUA, desfavoreceu o lado pac\u00edfico do continente nos dois primeiros s\u00e9culos de sua hist\u00f3ria independente.<\/p>\n<p>Este panorama econ\u00f4mico vem mudando no s\u00e9culo XXI, com o aumento da import\u00e2ncia da bacia do Pac\u00edfico, gra\u00e7as ao deslocamento do centro mais din\u00e2mico da economia mundial para o Leste e Sudeste Asi\u00e1tico, e \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o da China no novo d\u00ednamo da economia sul-americana. A \u201cvirada\u201d ao Pac\u00edfico, entretanto, representa ao mesmo tempo um desafio e uma amea\u00e7a. Desafio pela dimens\u00e3o financeira do projeto de integra\u00e7\u00e3o bioce\u00e2nica, e amea\u00e7a porque o desenvolvimento deste projeto s\u00f3 se viabilizar\u00e1 com a participa\u00e7\u00e3o da China, que est\u00e1 sendo definida pelos Estados Unidos, neste momento geopol\u00edtico do mundo, como seu grande competidor estrat\u00e9gico que deve ser cercado e bloqueado em todos os pontos do sistema econ\u00f4mico mundial.<\/p>\n<p><strong>Uma hist\u00f3ria tutelada<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista geopol\u00edtico, entretanto, a Am\u00e9rica do Sul viveu quase toda a sua hist\u00f3ria independente sob a tutela anglosax\u00f4nica: primeiro da Gr\u00e3-Bretanha, at\u00e9 o fim do s\u00e9culo XIX, e depois dos Estados Unidos, at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI. Al\u00e9m disso, durante o s\u00e9culo XIX, foi uma zona de experimenta\u00e7\u00e3o do \u201cimperialismo de livre com\u00e9rcio\u201d da Gr\u00e3-Bretanha, e no s\u00e9culo XX em particular, depois da 2\u00aa Guerra Mundial, transformou-se num aliado incondicional da pol\u00edtica externa norte-americana, que promoveu ativamente a redemocratiza\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento do continente na d\u00e9cada de 1950.<\/p>\n<p>Nos anos 1960, entretanto, depois da vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, os Estados Unidos apoiaram os golpes de Estado e a forma\u00e7\u00e3o de governos militares em quase todo o continente sul-americano. E ap\u00f3s o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende no Chile, em 1973, incentivaram a mudan\u00e7a da pol\u00edtica econ\u00f4mica dos governos sul-americanos, que abandonaram \u2013 em sua maioria \u2013 seu \u201cdesenvolvimentismo\u201d do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 1980, a pol\u00edtica do \u201cd\u00f3lar forte\u201d do governo americano provocou um forte desequil\u00edbrio dos balan\u00e7os de pagamento na Am\u00e9rica Latina e deu origem \u00e0 \u201ccrise da d\u00edvida externa\u201d que atingiu toda a regi\u00e3o, liquidando definitivamente o modelo desenvolvimentista brasileiro que havia sido o mais bem-sucedido da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A crise se prolongou por toda a d\u00e9cada, mas ao mesmo tempo conviveu com o fim das ditaduras militares e com o in\u00edcio dos movimentos de redemocratiza\u00e7\u00e3o de quase todos os pa\u00edses do continente. Mais uma vez, entretanto, os novos governos democr\u00e1ticos sul-americanos aderiram em conjunto ao projeto da \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o liberal\u201d liderado pelos Estados Unidos, e \u00e0s pol\u00edticas neoliberais do chamado \u201cConsenso de Washington\u201d, que produziram sucessivas crises cambiais \u2013 no M\u00e9xico, em 1994; na Argentina, em 1999; e no Brasil, em 2001 \u2013, antes de serem abandonados e substitu\u00eddos por governos que tentaram levar \u00e0 frente, durante uma d\u00e9cada, uma agenda experimental antineoliberal, sem deixar de alinhar-se \u00e0 estrat\u00e9gia geopol\u00edtica global de combate ao terrorismo comandada pelos norte-americanos.<\/p>\n<p>Relembrando a hist\u00f3ria: depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Washington e New York, a pol\u00edtica externa norte-americana mudou de rumo, relegando ao segundo plano as quest\u00f5es econ\u00f4micas e priorizando o combate global ao terrorismo. Nesse novo contexto, o governo republicano de George W. Bush manteve seu apoio ao projeto da ALCA de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Am\u00e9rica do Sul, proposto na d\u00e9cada de 90 pela administra\u00e7\u00e3o Clinton, mas j\u00e1 sem o entusiasmo das administra\u00e7\u00f5es democratas. At\u00e9 porque a resist\u00eancia sul-americana e, em particular, a oposi\u00e7\u00e3o do Brasil e da Argentina ap\u00f3s 2002, esvaziaram e logo engavetaram a proposta norte-americana em 2005.<\/p>\n<p>Os EUA mudaram, ent\u00e3o, seu projeto inicial e passaram a negociar tratados comerciais bilaterais com alguns pa\u00edses do continente. Assim, depois do fracasso das pol\u00edticas neoliberais do Consenso de Washington, do abandono do projeto da ALCA e da desastrosa interven\u00e7\u00e3o norte-americana a favor do golpe militar da Venezuela, em 2003, os Estados Unidos mudaram sua posi\u00e7\u00e3o no que se referia aos assuntos continentais, atra\u00eddos cada vez mais pelos novos desafios que vinham da \u00c1sia e do Oriente M\u00e9dio, e do avan\u00e7o da OTAN na dire\u00e7\u00e3o da Europa do Leste.<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia se fortaleceu na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, quando o esfacelamento da \u201cordem mundial\u201d estabelecida depois da Guerra Fria e a mudan\u00e7a do foco geopol\u00edtico mundial reduziram a quase nada a aten\u00e7\u00e3o americana em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica do Sul, o que n\u00e3o impediu que eles apoiassem os golpes de Estado de Honduras, Paraguai e Brasil durante o governo democrata de Barack Obama.<\/p>\n<p>Na terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo, entretanto, depois da cat\u00e1strofe da pandemia de Covid-19 e frente ao desafio das guerras da Ucr\u00e2nia e de Gaza, e mais ainda, face ao deslocamento do eixo din\u00e2mico da economia mundial na dire\u00e7\u00e3o da \u00c1sia e da China, em particular, a Am\u00e9rica do Sul reduziu ainda mais sua import\u00e2ncia geopol\u00edtica e geoecon\u00f4mica no sistema internacional, dividindo-se de cima abaixo frente ao conflito entre Estados Unidos e Venezuela, e desintegrando-se como um ator geopol\u00edtico global.<\/p>\n<p>As vezes de forma mais lenta, \u00e0s vezes mais acelerada, algumas mudan\u00e7as v\u00eam acontecendo no panorama geopol\u00edtico e geoecon\u00f4mico da Am\u00e9rica do Sul. Em algumas mudan\u00e7as v\u00eam acontecendo no panorama alguns casos, refor\u00e7ando velhos caminhos e \u201cvoca\u00e7\u00f5es\u201d do continente; em outros, abrindo novas perspectivas e oportunidades que poder\u00e3o ou n\u00e3o ser aproveitadas pelos 12 pa\u00edses que convivem lado a lado dentro desse territ\u00f3rio recortado por tantas barreiras geogr\u00e1ficas, e t\u00e3o pr\u00f3ximo dos Estados Unidos. Destacamos em seguida quatro mudan\u00e7as que dever\u00e3o pesar decisivamente sobre o futuro continental.<\/p>\n<p><strong>O aumento da assimetria sul-americana<\/strong><\/p>\n<p>Em 1950, os dois pa\u00edses mais ricos da Am\u00e9rica do Sul \u2013 Brasil e Argentina \u2013 tinham mais ou menos o mesmo PIB, apesar de que os argentinos tivessem uma renda per capita, homogeneidade social, n\u00edvel educacional e qualidade de vida extraordinariamente superiores em rela\u00e7\u00e3o aos brasileiros. Hoje, setenta anos depois, a situa\u00e7\u00e3o mudou radicalmente: se o PIB dos dois pa\u00edses girava em torno de US$ 80 bilh\u00f5es em 1950, 70 anos depois, o PIB brasileiro multiplicou 23 vezes e \u00e9 hoje de cerca de US$ 2,17 trilh\u00f5es, enquanto o argentino multiplicou-se apenas oito vezes no mesmo per\u00edodo, sendo hoje de 640 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Uma assimetria entre os dois pa\u00edses que tende a aumentar exponencialmente nos pr\u00f3ximos anos, e muito mais ainda entre o Brasil e os demais pa\u00edses sul-americanos. Hoje, o Brasil j\u00e1 possui metade da popula\u00e7\u00e3o e do produto sul-americano, e \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds da regi\u00e3o que tem alguma presen\u00e7a no tabuleiro geopol\u00edtico internacional.<\/p>\n<p>Depois do Golpe de Estado de 2016, entretanto, e at\u00e9 2022, dois sucessivos governos de direita alteraram radicalmente a pol\u00edtica externa, afastando o Brasil de todas as iniciativas integracionistas na Am\u00e9rica do Sul, ao mesmo tempo que se alinhava aos Estados Unidos e \u00e0 OTAN, frente aos conflitos internacionais fora do continente. Em 2023, entretanto, o pa\u00eds retomou o rumo anterior de sua pol\u00edtica externa e vem assumindo posi\u00e7\u00f5es cada vez mais ativas no campo internacional, no grupo do BRICS, na presid\u00eancia rotativa do G20 e na lideran\u00e7a mundial da luta pela sustentabilidade e controle das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>No seu pr\u00f3prio continente, entretanto, o Brasil vem encontrando grandes resist\u00eancias, que muito t\u00eam a ver com o aumento da assimetria regional, em que o Brasil aparece hoje como uma esp\u00e9cie de \u201celefante no meio da sala\u201d.<\/p>\n<p><strong>A expans\u00e3o da presen\u00e7a chinesa<\/strong><\/p>\n<p>A segunda grande transforma\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI, foram o surgimento e a expans\u00e3o acelerada do papel da China no desenvolvimento econ\u00f4mico do continente. Em apenas tr\u00eas d\u00e9cadas, o fluxo comercial entre Am\u00e9rica do Sul e China cresceu de US$ 15 bilh\u00f5es em 2001, para cerca de US$ 300 bilh\u00f5es em 2019. E o fluxo dos investimentos diretos chineses na regi\u00e3o cresceu e se manteve em torno de US$ 10 bilh\u00f5es anuais, em m\u00e9dia, entre 2011 e 2018. Brasil, Peru e Argentina receberam a maior parcela desses investimentos at\u00e9 2022, ficando o Brasil com 22% deste total, incluindo a fabrica\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos el\u00e9tricos, aquisi\u00e7\u00e3o de ativos de l\u00edtio, expans\u00e3o da Huawei e de outras empresas chinesas de data centers, computa\u00e7\u00e3o em nuvem e tecnologia 5G, e em grande quantidade de infraestrutura el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Nas duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI, a China tamb\u00e9m dobrou sua participa\u00e7\u00e3o nas importa\u00e7\u00f5es realizadas pelos pa\u00edses sul-americanos, cujo valor bruto cresceu mais de 700%, enquanto as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para a Am\u00e9rica do Sul, por exemplo, no mesmo per\u00edodo, cresceram menos de 40% do crescimento chin\u00eas. Mesmo durante a crise econ\u00f4mica de 2008, a participa\u00e7\u00e3o brasileira no mercado argentino recuou de 42% para 31,5%, enquanto a participa\u00e7\u00e3o chinesa subiu de 21,5% para 30,5%. E o mesmo aconteceu na Venezuela, onde a participa\u00e7\u00e3o chinesa subiu de 4,4% em 2008, para 11,5% nos quatro primeiros meses de 2009.<\/p>\n<p>Hoje, a China \u00e9 o maior parceiro comercial do Brasil, do Chile e do Peru no continente sul-americano, e est\u00e1 entre os tr\u00eas maiores parceiros comerciais de todos os pa\u00edses do continente. S\u00f3 no caso brasileiro, 30,6% de suas exporta\u00e7\u00f5es em 2023 foram para a China, que foi ao mesmo tempo o maior fornecedor de bens importados pelo Brasil. E oito pa\u00edses sul-americanos j\u00e1 fazem parte da iniciativa da\u00a0<em>Belt and Road<\/em>\u00a0chinesa: Argentina, Peru, Bol\u00edvia, Chile, Guiana, Suriname, Uruguai e Venezuela.<\/p>\n<p>Na linguagem estruturalista cl\u00e1ssica, pode-se afirmar que nesse per\u00edodo a China se transformou no novo \u201ccentro c\u00edclico principal\u201d da economia sul-americana. E hoje, como no passado, o principal interesse dos chineses na Am\u00e9rica do Sul segue sendo seus recursos naturais e minerais, apesar de tamb\u00e9m estarem participando das grandes licita\u00e7\u00f5es governamentais da regi\u00e3o. E o cen\u00e1rio para os pr\u00f3ximos anos promete uma oferta excedente de produtos e capitais chineses, que deve derrubar barreiras e constituir um imenso desafio competitivo para os capitais norteamericanos e brasileiros.<\/p>\n<p><strong>A nova estrat\u00e9gia norte-americana de \u201cpolariza\u00e7\u00e3o mundial\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A terceira grande mudan\u00e7a aconteceu no campo das rela\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica do Sul com os Estados Unidos, que nunca abandonaram sua Doutrina Monroe, formulada em 1823 com o objetivo de combater e expulsar a influ\u00eancia europeia do continente sul-americano. A diferen\u00e7a \u00e9 que, no s\u00e9culo XIX, esse discurso era contr\u00e1rio aos interesses das pot\u00eancias coloniais europeias, e favor\u00e1vel \u00e0 independ\u00eancia de suas col\u00f4nias sul-americanas.<\/p>\n<p>Na primeira metade do s\u00e9culo XX, entretanto, a mesma doutrina legitimou a interven\u00e7\u00e3o norte-americana na Am\u00e9rica Central e Caribe, para mudar governos e regimes que eles consideravam contr\u00e1rios aos seus interesses. E na segunda metade do s\u00e9culo, ela voltou a ser utilizada para \u201cproteger\u201d os pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, s\u00f3 que agora contra a \u201camea\u00e7a comunista\u201d, que justificou o apoio norte-americano a uma sucess\u00e3o de golpes e regimes militares que liquidaram a democracia no continente, destruindo ao mesmo tempo sua soberania e seus projetos aut\u00f4nomos de futuro.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, durante a sua \u201cguerra global ao terrorismo\u201d, os Estados Unidos reduziram seu grau de envolvimento pol\u00edtico com os assuntos sul-americanos. Um \u201cd\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o\u201d que durou at\u00e9 o \u201cdesembarque\u201d econ\u00f4mico dos chineses na Am\u00e9rica do Sul na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo, e at\u00e9 o in\u00edcio do conflito entre os Estados Unidos e a R\u00fassia, na Ucr\u00e2nia, ap\u00f3s o golpe de Estado de 2014.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, os Estados Unidos v\u00eam se propondo \u201crepolarizar o mundo\u201d no estilo da Guerra Fria do s\u00e9culo XX, de maneira que os demais pa\u00edses do sistema internacional, e tamb\u00e9m da Am\u00e9rica do Sul, teriam que se posicionar de um lado ou de outro da \u201clinha vermelha\u201d estabelecida por eles e seus aliado europeus.<\/p>\n<p><strong>O decl\u00ednio do projeto de integra\u00e7\u00e3o sul-americano<\/strong><\/p>\n<p>A maioria dos pa\u00edses sul-americanos superou o impacto da crise de 2008 mais rapidamente do que no resto do mundo, gra\u00e7as \u00e0 grande demanda de seus produtos de exporta\u00e7\u00e3o por parte das economias asi\u00e1ticas, da China em particular, que sustentaram as quantidades e os pre\u00e7os das commodities sul-americanas num n\u00edvel extremamente elevado.<\/p>\n<p>Mas este sucesso de curto prazo provocou um efeito inesperado em toda a Am\u00e9rica do Sul, ao aprofundar, de forma paradoxal, as velhas dificuldades enfrentadas desde sempre pelo projeto de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Am\u00e9rica do Sul. Basta dizer que, na Am\u00e9rica do Norte, o com\u00e9rcio intrarregional \u00e9 da ordem de 40% do seu com\u00e9rcio global; na \u00c1sia, de 58%; e na Europa, de 68%; enquanto na Am\u00e9rica do Sul, mal chega aos 18%.<\/p>\n<p><strong>Os caminhos do futuro<\/strong><\/p>\n<p>Dividida em blocos, e com a maior parte dos pa\u00edses separados ou distantes do Brasil, por conta do contencioso venezuelano, a Am\u00e9rica do Sul dever\u00e1 se manter na sua condi\u00e7\u00e3o tradicional de periferia econ\u00f4mica do sistema internacional, mesmo diversificando e ampliando seus mercados na dire\u00e7\u00e3o da \u00c1sia. Para n\u00e3o ser assim, o Brasil ter\u00e1 que assumir a \u201clideran\u00e7a material\u201d do continente, construindo uma estrutura produtiva que combine ind\u00fastrias de alto valor agregado e tecnologias de ponta, com a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e commodities de alta produtividade, mantendo sua condi\u00e7\u00e3o de grande produtor de energia tradicional e \u201cenergia limpa\u201d.<\/p>\n<p>Neste caso, o Brasil poder\u00e1 mudar o rumo da regi\u00e3o, transformando-se na sua \u201clocomotiva econ\u00f4mica\u201d, por cima das diverg\u00eancias pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas que hoje dividem e imobilizam um continente que \u2013 sem o Brasil \u2013 n\u00e3o tem a menor relev\u00e2ncia geopol\u00edtica dentro do Sistema Mundial.<\/p>\n<p>Neste ponto, entretanto, n\u00e3o h\u00e1 como enganar-se: o Brasil enfrentar\u00e1 nos pr\u00f3ximos anos uma concorr\u00eancia acirrada e um boicote explicito do governo de Donald Trump que considera que a \u00fanica relev\u00e2ncia da Am\u00e9rica do Sul \u00e9 pertencer ao \u201cquintal dos Estados Unidos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori \u2013 <\/strong>Professor em\u00e9rito dos Programas de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Economia Pol\u00edtica Internacional (IE\/UFRJ), e em Bio\u00e9tica e \u00c9tica Aplicada (PPGBIOS\/UFRJ), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenador do GP do CNPQ, \u201cPoder Global e Geopol\u00edtica do Capitalismo\u201d, e do Laborat\u00f3rio de \u201c\u00c9tica e Poder Global\u201d, do NUBEIA\/ UFRJ.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori: Am\u00e9rica do Sul, um continente partido e tutel &#8211; https:\/\/jornalggn.com.br\/america-latina\/jose-luis-fiori-america-do-sul-um-continente-partido-e-tutelado\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori &#8211;\u00a0A hist\u00f3ria sul-americana foi sempre condicionada por uma geografia extremamente dif\u00edcil, por uma economia fragmentada e voltada para fora, e por uma submiss\u00e3o uma geografia extremamente dif\u00edcil, por uma economia quase permanente \u00e0 tutela militar da Inglaterra, no s\u00e9culo XIX, e dos Estados Unidos, no s\u00e9culo XX. 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