{"id":24470,"date":"2025-01-29T12:39:09","date_gmt":"2025-01-29T15:39:09","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24470"},"modified":"2025-01-29T12:39:09","modified_gmt":"2025-01-29T15:39:09","slug":"sobre-a-esperanca-radical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2025\/01\/29\/sobre-a-esperanca-radical\/","title":{"rendered":"Sobre a esperan\u00e7a radical"},"content":{"rendered":"<p><strong>Claudio Alvarez Teran<\/strong> &#8211; Por n\u00e3o esgotar-se no consumo, ela \u00e9 ant\u00edtese da l\u00f3gica capitalista, sugere fil\u00f3sofo. \u00c9 a portadora do futuro, mas s\u00f3 surge da negatividade da cr\u00edtica. Est\u00e1 em rupturas. Exige cr\u00edtica, desespero e escuta. E sempre \u00e9 cega, pois move-se ao desconhecido.<\/p>\n<p>Adaptado a partir de v\u00eddeo de\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@claudioateran\">Claudio Alvarez Teran<\/a>\u00a0<\/strong>sobre uma confer\u00eancia de Byung-Chul Han, intitulada Sobre a Esperan\u00e7a. Tradu\u00e7\u00e3o:\u00a0<strong>Glauco Faria<\/strong><\/p>\n<p>Em abril de 2023, o fil\u00f3sofo coreano radicado na Alemanha\u00a0<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tag\/byung-chul-han\/\">Byung-Chul Han\u00a0<\/a>deu uma palestra na Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa de Lisboa, intitulada\u00a0<em>On Hope<\/em>\u00a0(Sobre a esperan\u00e7a), que faz parte do primeiro volume de palestras do autor, publicado em 2024 com o t\u00edtulo\u00a0<em>The Tonality of Thought<\/em>\u00a0(A tonalidade do pensamento).<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, diz Byung-Chul Ham, tem muito a ver com transcend\u00eancia, f\u00e9 e amor. Mas hoje trabalhamos, produzimos e consumimos, e nesse modo de vida n\u00e3o h\u00e1 transcend\u00eancia e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Vivemos em uma \u00e9poca desprovida de celebra\u00e7\u00e3o, e uma \u00e9poca sem celebra\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 uma \u00e9poca sem esperan\u00e7a. Em nossa sociedade de consumo e desempenho, celebramos, mas somos capazes de nos alegrar e regozijar? Ainda temos a capacidade de festejar e celebrar?<\/p>\n<p>O tempo sublime da celebra\u00e7\u00e3o desapareceu completamente em favor do tempo do trabalho, que ocupa tudo. At\u00e9 as pausas est\u00e3o integradas nesse tempo de trabalho, servem para nos dar descanso para continuarmos trabalhando. Mas a esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 produtiva, ela \u00e9 orientada para o que ainda n\u00e3o existe. S\u00e3o Paulo disse em sua carta aos Romanos que, quando vemos o que esperamos, n\u00e3o esperamos mais.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ter esperan\u00e7a no que se v\u00ea? O modo de esperan\u00e7a \u00e9 o \u201cainda n\u00e3o\u201d. Ela se abre para o que est\u00e1 por vir, para o que \u00e9 poss\u00edvel. Gabriel Marcel, o chamado fil\u00f3sofo da esperan\u00e7a, argumentou que a esperan\u00e7a pode ser encontrada no tecido de uma experi\u00eancia cont\u00ednua. Esperan\u00e7a significa dar cr\u00e9dito \u00e0 realidade. Ou seja, acreditar na realidade como portadora do futuro. A esperan\u00e7a nos torna crentes no futuro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Transcend\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Como eu disse no in\u00edcio, a experi\u00eancia mais intensa de esperan\u00e7a ocorre na transcend\u00eancia. O escritor e pol\u00edtico tcheco Baclav Havel define a esperan\u00e7a como um estado de esp\u00edrito, uma dimens\u00e3o da alma. Em sua ess\u00eancia, ela n\u00e3o depende de uma observa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do mundo. N\u00e3o \u00e9 um progn\u00f3stico, \u00e9 uma orienta\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o que transcende o mundo imediato da experi\u00eancia e se ancora em algum lugar al\u00e9m do horizonte.<\/p>\n<p>As ra\u00edzes da esperan\u00e7a est\u00e3o em algum lugar transcendente. \u00c9 por isso que ter esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 o mesmo que estar satisfeito com o fato de as coisas estarem indo bem. \u00c9 a capacidade de trabalhar por algo porque \u00e9 bom, n\u00e3o porque \u00e9 um sucesso garantido. \u00c9 por isso que a esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 o mesmo que otimismo, n\u00e3o \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que algo vai dar certo, mas a certeza de que algo faz sentido, n\u00e3o importa como vai dar certo. Fazer algo que faz sentido, \u00e9 isso que \u00e9 esperan\u00e7a, n\u00e3o calcular o sucesso de um empreendimento. A esperan\u00e7a pressup\u00f5e coragem e f\u00e9. \u00c9 o que nos d\u00e1 for\u00e7a para viver e tentar algo de novo e de novo, mesmo que as condi\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia sejam desesperadoras.<\/p>\n<p>Uma cr\u00edtica comum \u00e0 esperan\u00e7a \u00e9 que ela n\u00e3o tem determina\u00e7\u00e3o para agir. Que aqueles que t\u00eam esperan\u00e7a fecham os olhos para a realidade e se entregam a ilus\u00f5es. Albert Camus compartilhava essa vis\u00e3o desvalorizada da esperan\u00e7a, que ele chamou de armadilha daqueles que n\u00e3o vivem a vida pela vida em si, mas por alguma grande ideia que a supere e lhe d\u00ea sentido. Identificar esperan\u00e7a com resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bj\u00f6rn Schulj\u00e1n se op\u00f5e a essa vis\u00e3o de Camus e o faz perguntando o que Camus quer dizer com a vida em si: \u00e9 simplesmente uma vida nutritiva, uma vida sem mais? Sem uma ideia, sem significado, a vida \u00e9 reduzida \u00e0 mera sobreviv\u00eancia ou, como \u00e9 hoje, \u00e0 pura iman\u00eancia do consumo. A uma vida sem mais nada, para usar o conceito de Camus, apenas desejos a satisfazer sem futuro, apenas dedicada a viver no presente do consumo. O capitalismo se concentra em maximizar as necessidades e os desejos, por isso a esperan\u00e7a n\u00e3o faz parte da l\u00f3gica capitalista. Porque quem tem esperan\u00e7a n\u00e3o consome. \u00c9 por isso que o capitalismo aniquila a esperan\u00e7a e nos transforma em um rebanho de consumidores.<\/p>\n<p>Camus ignora a dimens\u00e3o ativa da esperan\u00e7a, que nos incita a agir em prol do novo, um n\u00facleo ativo que d\u00e1 asas \u00e0 nossa a\u00e7\u00e3o. Erich Fromm nos diz, ao contr\u00e1rio de Albert Camus, que a esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 nem uma espera passiva nem uma a\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. \u00c9 como o tigre agachado que s\u00f3 pula quando chega a hora certa.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Proje\u00e7\u00e3o para o futuro<\/strong><\/p>\n<p>Ter esperan\u00e7a \u00e9 estar alerta o tempo todo para o que ainda n\u00e3o nasceu. Os esperan\u00e7osos est\u00e3o prontos para ajudar no advento do que est\u00e1 pronto para nascer. A esperan\u00e7a \u00e9 vision\u00e1ria e prof\u00e9tica. Ela agu\u00e7a nossa aten\u00e7\u00e3o para o que ainda n\u00e3o existe. \u00c9 a parteira do novo. Sem esperan\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o nem futuro. H\u00e1 apenas um presente otimizado.<\/p>\n<p>Como a esperan\u00e7a \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o para o futuro, Bj\u00f6rn Schulzhan se concentra nela, tirando de Derrida a exist\u00eancia de duas formas de futuro. O futuro e o avenir. O futuro \u00e9 aquilo a que nos referimos em rela\u00e7\u00e3o ao que acontecer\u00e1 no futuro. Amanh\u00e3, no pr\u00f3ximo m\u00eas, daqui a dois anos\u2026 O futuro \u00e9 o futuro previs\u00edvel e planej\u00e1vel, que pode ser gerenciado e otimizado. Por outro lado, o futuro como avenir refere-se a eventos que acontecem inesperadamente. \u00c9 por isso que ele envolve mais possibilidades do que o futuro, pois permite que outros mundos poss\u00edveis apare\u00e7am no horizonte. O futuro como avenir \u00e9 o advento do outro, cuja chegada n\u00e3o \u00e9 previs\u00edvel. O avenir \u00e9 caracterizado por sua indisponibilidade.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a \u00e9 projetada no futuro do avenir. Bj\u00f6rn Schulzhan argumenta que os cr\u00edticos de seu trabalho sempre o censuraram por expressar um modo de pensar pessimista. Sua resposta a essa cr\u00edtica \u00e9 que ela est\u00e1 parcialmente correta. Parcialmente porque embora seu pensamento n\u00e3o esteja relacionado ao otimismo, ele tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 relacionado ao pessimismo. Seu pensamento est\u00e1 ligado \u00e0 esperan\u00e7a. \u00c9 um erro pensar que o pessimismo \u00e9 o negativo do otimismo, porque eles n\u00e3o s\u00e3o essencialmente diferentes um do outro. A ess\u00eancia do otimismo \u00e9 a positividade imaculada. O otimista vive com a convic\u00e7\u00e3o de que, de alguma forma, as coisas v\u00e3o melhorar. Para o otimista, o tempo est\u00e1 fechado, nada acontece, porque ele v\u00ea o futuro como um assunto fechado e acabado. Tudo ficar\u00e1 bem, ponto final.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, tamb\u00e9m para o pessimista o tempo est\u00e1 fechado. O pessimista est\u00e1 preso no tempo como em uma pris\u00e3o. Ele nega tudo sem se aventurar em outros mundos poss\u00edveis. O pessimista \u00e9 t\u00e3o teimoso quanto o otimista. Ambos s\u00e3o cegos para as possibilidades, porque o poss\u00edvel \u00e9 estranho para eles. Falta-lhes a paix\u00e3o pelo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Em contraste com ambos, aquele que tem esperan\u00e7a aposta em ir al\u00e9m do que n\u00e3o deveria ser. A esperan\u00e7a nos permite escapar do tempo conclu\u00eddo como uma pris\u00e3o. O indispon\u00edvel e o distante s\u00e3o inerentes ao futuro. Mas o otimista nunca olha para o futuro. Ele n\u00e3o conta com o inesperado e o incalcul\u00e1vel. E, acima de tudo, o otimista nunca questiona as estruturas sociais nas quais ele e as coisas est\u00e3o inseridos e determinam seu futuro. O otimista se submeteu irremediavelmente ao sistema existente, mas n\u00e3o tem consci\u00eancia disso.<\/p>\n<p>O otimismo, diz Ham, \u00e9 uma coisa parada. O otimista n\u00e3o age, porque toda a\u00e7\u00e3o implica um risco. E como ele n\u00e3o quer correr esse risco, o otimismo n\u00e3o tem negatividade. Ele n\u00e3o conhece a d\u00favida nem o desespero. No entanto, diz Byung Chul Han, encontrar o desespero nessa sociedade \u00e9 a raz\u00e3o de sua esperan\u00e7a. Ao contr\u00e1rio do otimismo, a esperan\u00e7a busca, tenta encontrar uma dire\u00e7\u00e3o e se dirige para o desconhecido, o intranspon\u00edvel, o aberto. Indo al\u00e9m do que j\u00e1 \u00e9, ela se move em dire\u00e7\u00e3o ao que ainda n\u00e3o nasceu.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a estabelece um curso em dire\u00e7\u00e3o ao novo. Por outro lado, o otimista n\u00e3o precisa de motivos para justificar seu otimismo. Ele simplesmente \u00e9. J\u00e1 a esperan\u00e7a n\u00e3o vem naturalmente, ela emerge. Muitas vezes, ela precisa at\u00e9 ser invocada porque, como dissemos, \u00e9 caracterizada por sua indisponibilidade e pressup\u00f5e um compromisso ativo.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Han reconhece que n\u00e3o \u00e9 um otimista, mas um esperan\u00e7oso, e afirma que o que precisamos hoje n\u00e3o \u00e9 otimismo, mas uma esperan\u00e7a radical no novo, em um modo de vida completamente diferente que nasce da negatividade da cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Byung-Chul Han tamb\u00e9m diferencia a esperan\u00e7a do pensamento positivo ou da chamada psicologia positiva. A psicologia positiva, ao se afastar da psicologia do sofrimento, est\u00e1 interessada apenas no bem-estar, na felicidade e no otimismo das pessoas. De acordo com o pensamento positivo, basta substituir os pensamentos negativos por positivos para viver uma vida mais feliz. Por meio desse mecanismo simples, os aspectos negativos da vida s\u00e3o completamente omitidos. E o mundo \u00e9 apresentado como um mercado amaz\u00f4nico que nos fornecer\u00e1 o que quisermos gra\u00e7as \u00e0 nossa atitude positiva.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Vida al\u00e9m da sobreviv\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Concluindo, se nossa disposi\u00e7\u00e3o de pensar positivamente \u00e9 suficiente para nos fazer felizes, ent\u00e3o cada um \u00e9 o \u00fanico respons\u00e1vel por sua pr\u00f3pria felicidade. Sabemos que o sofrimento \u00e9 sempre um fator condicionado pela sociedade. Mas a psicologia positiva privatiza tudo. Paradoxalmente, o culto \u00e0 positividade isola as pessoas, torna-as ego\u00edstas e corr\u00f3i a empatia. Porque as pessoas preocupadas apenas consigo mesmas n\u00e3o est\u00e3o mais interessadas no sofrimento dos outros. O culto \u00e0 positividade \u00e9 consubstancial ao regime iliberal, pois prejudica a solidariedade social.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a, ao contr\u00e1rio do pensamento positivo, n\u00e3o evita a negatividade da vida. Tampouco isola, mas une e reconcilia. O sujeito da esperan\u00e7a n\u00e3o sou eu. O sujeito da esperan\u00e7a somos n\u00f3s. Mas hoje somos todos ego. N\u00f3s nos entrincheiramos exclusivamente em n\u00f3s mesmos. \u00c9 por isso que Han conecta a esperan\u00e7a com o amor, a f\u00e9 e a transcend\u00eancia. Aquele que n\u00e3o tem a capacidade de ter f\u00e9 e amor, que n\u00e3o consegue transcender a si mesmo, tamb\u00e9m n\u00e3o pode ter esperan\u00e7a. Aquele que espera sai de si mesmo. A esperan\u00e7a nos permite transcender o eu para chegar at\u00e9 n\u00f3s. A esperan\u00e7a nos permite nos aproximar da comunidade. Biondjul Ham contrasta a esperan\u00e7a com o medo e os coloca como opostos.<\/p>\n<p>Atualmente, o medo assombra nosso tempo como um fantasma. Somos constantemente confrontados com cen\u00e1rios apocal\u00edpticos, que est\u00e3o na ordem do dia. Eles s\u00e3o at\u00e9 mesmo oferecidos como mercadoria. O apocalipse vende.<\/p>\n<p>Essa atmosfera de fim dos tempos n\u00e3o est\u00e1 presente apenas na vida real. Ela tamb\u00e9m \u00e9 expressa na literatura, no cinema e na arte em geral. Hoje olhamos com medo para um futuro sombrio. Em toda parte h\u00e1 uma falta de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A vida se reduz a uma corrida para resolver problemas e administrar a crise, em suma, para sobreviver. A vida \u00e9 sacrificada no altar do medo. Somente por meio da esperan\u00e7a podemos recuperar uma vida que seja mais do que mera sobreviv\u00eancia. Porque somente a esperan\u00e7a amplia o horizonte do futuro, do que tem significado. \u00c9 por isso que a depress\u00e3o, nascida da falta de significado, \u00e9 a express\u00e3o patol\u00f3gica da desesperan\u00e7a total. Porque o tempo depressivo carece de um futuro. Falta-lhe o avenir, a chegada do inesperado. O medo amplifica essa atmosfera depressiva e, junto com o ressentimento, leva as pessoas ao populismo de direita, promovendo o ego\u00edsmo e o \u00f3dio, corroendo a solidariedade e a empatia.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o de medo e ressentimento contribui para a brutaliza\u00e7\u00e3o da sociedade e os discursos de \u00f3dio resultantes do medo s\u00e3o prova disso. A democracia s\u00f3 pode prosperar em uma atmosfera de di\u00e1logo e reconcilia\u00e7\u00e3o. O medo e a democracia s\u00e3o incompat\u00edveis.<\/p>\n<p>O medo \u00e9 um instrumento popular de domina\u00e7\u00e3o. Ele transforma as pessoas em s\u00faditos obedientes, como acontece nesta sociedade do espet\u00e1culo, onde todos temos medo de n\u00e3o atuar. E tamb\u00e9m temos medo de pensar, de ter uma opini\u00e3o pr\u00f3pria, medo de sermos livres. O conformismo est\u00e1 se espalhando, tamb\u00e9m um produto do medo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Ainda n\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O regime neoliberal \u00e9 um regime de medo. Ele isola os seres humanos, transformando-os em empres\u00e1rios de si mesmos. A competi\u00e7\u00e3o total e a press\u00e3o por desempenho corroem a comunidade. O isolamento gera medo. Medo do fracasso. Medo de n\u00e3o estar \u00e0 altura. Medo de n\u00e3o ser capaz. E \u00e9 justamente esse medo promovido que acaba aumentando a produtividade.<\/p>\n<p>Byung-Chul Han diz que o significado de liberdade \u00e9 estar livre de press\u00f5es. Mas o problema \u00e9 que, no neoliberalismo, a liberdade gera suas pr\u00f3prias press\u00f5es, que v\u00eam de dentro do ser humano, submetendo-nos voluntariamente \u00e0 press\u00e3o para sermos criativos, eficientes e aut\u00eanticos. Essas press\u00f5es n\u00e3o apenas alimentam o medo, mas tamb\u00e9m nos deprimem. O medo, assim como o pensamento positivo, isola.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s sabemos que \u00e9 imposs\u00edvel ter medo quando estamos juntos. O medo precisa de n\u00f3s isolados e fragmentados, ele n\u00e3o gera comunidade, n\u00e3o gera um n\u00f3s. Somente a esperan\u00e7a implica uma dimens\u00e3o n\u00f3s. A esperan\u00e7a, diz Han, tem algo de contemplativo. Ela exige prostra\u00e7\u00e3o e escuta. \u00c9 uma receptividade delicada que lhe confere beleza e gra\u00e7a. Se, como se diz, a esperan\u00e7a \u00e9 cega, n\u00e3o \u00e9 porque ela vive de ilus\u00f5es, mas porque ela se move em dire\u00e7\u00e3o ao desconhecido.<\/p>\n<p>O \u201cainda n\u00e3o\u201d \u00e9 o modo temporal da esperan\u00e7a. Portanto, a esperan\u00e7a \u00e9 o fermento da revolu\u00e7\u00e3o, do novo, do \u201cainda n\u00e3o\u201d. Nenhuma revolu\u00e7\u00e3o surge do medo. O medo nos torna obedientes, submissos e dominados. Somente da esperan\u00e7a em outro mundo, em um mundo melhor, surge um potencial revolucion\u00e1rio. Se nenhuma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel hoje, \u00e9 porque n\u00e3o podemos ter esperan\u00e7a. Porque vivemos com medo, sobrevivendo.<\/p>\n<p>A poeta austr\u00edaca Ingeborg Bachmann eleva a esperan\u00e7a a uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que a vida seja poss\u00edvel. Porque a esperan\u00e7a representa a condi\u00e7\u00e3o humana por excel\u00eancia. \u00c9 o que guia nossas a\u00e7\u00f5es, nos sustenta e nos d\u00e1 sentido. Os seres humanos vivem enquanto t\u00eam esperan\u00e7a. A esperan\u00e7a \u00e9 despertada em face da perda total, \u00e9 invocada em face da perda total.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 o mesmo que otimismo. A esperan\u00e7a s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando \u00e9 quebrada, como a felicidade. O \u201capesar de\u201d \u00e9 inerente \u00e0 esperan\u00e7a, que resiste mesmo diante do desastre absoluto. Se removermos a negatividade do \u201capesar de\u201d e do desastre, ficamos com a banalidade simples e passiva do otimismo. \u00c9 a tens\u00e3o entre o imposs\u00edvel e o \u201capesar de\u201d que abre o futuro e torna a vida poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Byung-Chul Han: Sobre a esperan\u00e7a radical &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/byung-chulhan-sobre-a-esperanca-radical\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Claudio Alvarez Teran &#8211; Por n\u00e3o esgotar-se no consumo, ela \u00e9 ant\u00edtese da l\u00f3gica capitalista, sugere fil\u00f3sofo. \u00c9 a portadora do futuro, mas s\u00f3 surge da negatividade da cr\u00edtica. Est\u00e1 em rupturas. Exige cr\u00edtica, desespero e escuta. E sempre \u00e9 cega, pois move-se ao desconhecido. 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