{"id":2447,"date":"2016-12-08T09:04:47","date_gmt":"2016-12-08T11:04:47","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2447"},"modified":"2016-12-05T18:10:53","modified_gmt":"2016-12-05T20:10:53","slug":"a-religiosidade-dos-pobres-e-a-esquerda-os-preconceitos-intelectuais-e-a-indisposicao-para-aprender-com-o-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/12\/08\/a-religiosidade-dos-pobres-e-a-esquerda-os-preconceitos-intelectuais-e-a-indisposicao-para-aprender-com-o-outro\/","title":{"rendered":"A religiosidade dos pobres e a esquerda. Os preconceitos intelectuais e a indisposi\u00e7\u00e3o para aprender com o outro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Patricia Fachin &#8211;\u00a0<\/strong>Entrevista especial com Roberto Dutra Torres Junior<\/p>\n<p>A recente elei\u00e7\u00e3o de Crivella no Rio de Janeiro, especialmente sua popularidade nos bairros pobres da cidade, tem trazido \u00e0 tona um debate sobre o modo como a esquerda, em geral, enxerga os evang\u00e9licos. Quase todos na esquerda, diz Roberto\u00a0Dutra \u00e0 IHU On-Line, \u201crejeitam a ades\u00e3o dos evang\u00e9licos \u00e0 \u2018teologia da prosperidade\u2019 e aos ideais de autonomia e valoriza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo como se isso fosse uma distor\u00e7\u00e3o da aut\u00eantica forma de ser e agir das classes populares\u201d. Mas o que a esquerda n\u00e3o \u201centende\u201d, pontua, \u00e9 que \u201ch\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o espec\u00edfica entre individualismo moral e solidariedade, caudat\u00e1ria da tradi\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa que \u00e9 a principal fonte de expectativas de vida das classes mais baixas\u201d. Ao n\u00e3o perceber essa rela\u00e7\u00e3o entre individualismo e solidariedade, e \u201coperar com a dicotomia r\u00edgida individualismo versus solidariedade, a esquerda n\u00e3o observa o fen\u00f4meno popular-religioso que combina as duas coisas\u201d, afirma.<\/p>\n<div>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line, Dutra explica que esses equ\u00edvocos s\u00e3o cometidos pela esquerda\u00a0porque ela parte de \u201cconcep\u00e7\u00f5es insustent\u00e1veis\u201d sobre o que \u00e9 a sociedade. \u201cA esquerda concebe a sociedade como um sistema indiviso que precisa ser transformado em sua totalidade\u201d, quando a \u201csociedade \u00e9 um sistema diferenciado, quebradi\u00e7o\u201d. E critica: \u201cO sistema econ\u00f4mico de mercado, por exemplo, pode ser institucionalizado e concretizado de formas muito distintas: o acesso ao capital, ao cr\u00e9dito, \u00e0 tecnologia, as rela\u00e7\u00f5es entre trabalho e capital variam muito no espa\u00e7o e no tempo, havendo uma margem de transforma\u00e7\u00e3o que a esquerda sequer consegue enxergar quando se restringe a usar conceitos totalizadores como capitalismo\u201d.<\/p>\n<p>Roberto Dutra diz ainda que a participa\u00e7\u00e3o em comunidades religiosas \u00e9 \u201ca maior experi\u00eancia de empoderamento individual e coletivo que as classes populares das periferias de m\u00e9dias e grandes cidades tiveram nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas no Brasil\u201d. Entretanto, comenta, o \u201cpressuposto\u201d dos socialistas \u00e9 de que os eleitores evang\u00e9licos\u00a0\u201cdeveriam ser redimidos da manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica a que seriam submetidos nas igrejas, para assim se tornarem receptivos \u00e0 mensagem moralmente superior da esquerda\u201d. E alfineta: \u201cA esquerda julga, por exemplo, possuir uma proposta coletiva de reden\u00e7\u00e3o para os pobres; s\u00f3 que ela est\u00e1 sustentada em vis\u00e3o equivocada, empiricamente infundada, sobre as classes populares. (&#8230;) O principal erro \u00e9 achar que o sonho \u2018pequeno-burgu\u00eas\u2019 de possuir um neg\u00f3cio pr\u00f3prio, de alcan\u00e7ar prosperidade material e de proteger sua fam\u00edlia devem ser substitu\u00eddos pelos sonhos coletivistas da esquerda\u201d.<\/p>\n<div>\n<div><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/11\/23_11_roberto_dutra_foto_fiocruz.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Roberto Dutra<\/em><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior \u00e9 doutor em Sociologia pela Humboldt Universit\u00e4t zu Berlin e mestre em Pol\u00edticas Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro &#8211; UENF. Atualmente leciona no Laborat\u00f3rio de Gest\u00e3o e Pol\u00edticas P\u00fablicas &#8211; LGPP da UENF.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Considerando o resultado das elei\u00e7\u00f5es municipais na cidade do Rio de Janeiro, foi uma surpresa a classe mais pobre destinar seu voto para um candidato como Crivella e n\u00e3o para um candidato da esquerda, j\u00e1 que a esquerda sempre diz falar em nome dos pobres?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; N\u00e3o, para mim n\u00e3o foi uma surpresa. Devemos compreender a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u00a0como uma constru\u00e7\u00e3o em disputa definida no pr\u00f3prio sistema pol\u00edtico. N\u00e3o h\u00e1 nenhum v\u00ednculo necess\u00e1rio de representa\u00e7\u00e3o que torne a esquerda a representante aut\u00eantica dos pobres. Na verdade, os diferentes grupos e partidos organizados disputam a prerrogativa de representar uma maioria de cidad\u00e3os que se expressa em maioria eleitoral, mas o que ocorre, nesta disputa, tamb\u00e9m \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o desta maioria, em um processo complexo que envolve a aproxima\u00e7\u00e3o de diferentes grupos, classes ou segmentos sociais em torno de algo comum. Maiorias e no\u00e7\u00f5es de bem-comum s\u00e3o constru\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica. Para uma elei\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria, esta aproxima\u00e7\u00e3o de diferentes segmentos precisa levar obviamente \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de uma maioria nas urnas.<\/p>\n<p>Crivella n\u00e3o tinha esta maioria em elei\u00e7\u00f5es passadas, mas conseguiu constru\u00ed-la nas elei\u00e7\u00f5es deste ano, atraindo n\u00e3o s\u00f3 quase a totalidade dos eleitores evang\u00e9licos, mas tamb\u00e9m a grande maioria dos cat\u00f3licos. Do ponto de vista das classes sociais, este pano de fundo religioso foi muito importante para conseguir a maioria do voto popular, mas o decisivo mesmo \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o do eleitor de que Crivella fala a linguagem dos pobres e compartilha seu universo de preocupa\u00e7\u00f5es, sonhos, esperan\u00e7as e projetos de vida. Ele \u00e9 percebido como algu\u00e9m do povo, enquanto Freixo\u00a0e o PSOL foram assumindo cada vez mais um perfil de classe m\u00e9dia universit\u00e1ria com pautas que passam ao largo das preocupa\u00e7\u00f5es e do imagin\u00e1rio popular. Quando o eleitor das classes populares \u00e9 obrigado a escolher entre um candidato que fala sua l\u00edngua e vivencia seu universo e outro que se fecha no ambiente universit\u00e1rio de classe m\u00e9dia, n\u00e3o surpreende que se sinta representado e vote em massa no primeiro.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; \u00c9 poss\u00edvel identificar quais s\u00e3o os fatores que fizeram com que a popula\u00e7\u00e3o votasse em Crivella? Ainda sobre essa quest\u00e3o, o que diferenciou o discurso de Crivella do de Freixo, de modo que o primeiro fosse mais atraente entre a popula\u00e7\u00e3o da periferia?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; Explicar as raz\u00f5es do voto \u00e9 sempre algo dif\u00edcil. S\u00e3o diferentes fatores com peso vari\u00e1vel a depender do perfil do eleitor, da elei\u00e7\u00e3o e do candidato. Mas no caso desta elei\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o da clivagem de classe social se traduzir com bastante clareza na distribui\u00e7\u00e3o dos votos entre Crivella e Freixo, \u00e9 poss\u00edvel elaborar uma explica\u00e7\u00e3o mais abrangente. O principal fator respons\u00e1vel pela vit\u00f3ria de Crivellafoi sua identifica\u00e7\u00e3o, por parte do eleitor, como algu\u00e9m que entende e vivencia de perto os problemas dos mais pobres. Isto se tornou mais f\u00e1cil \u00e0 medida que Freixo assumiu um perfil muito distante do pov\u00e3o, reduzindo a complexidade da escolha para o eleitor. Veja, por exemplo, na quest\u00e3o do cuidado. Freixo polarizou sua concep\u00e7\u00e3o de um Estado impessoal que, ao inv\u00e9s de ofertar cuidado, reconhece direitos, contra o que chama de \u201cvis\u00e3o paternalista\u201d, representada pela pretens\u00e3o de Crivella de \u201ccuidar das pessoas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Falta de cuidados X Garantia de direitos<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisas sobre implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais realizadas nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil mostram que as popula\u00e7\u00f5es demandantes destas pol\u00edticas possuem uma viv\u00eancia concreta do Estado, corporificada no tratamento (bom ou ruim) e nas intera\u00e7\u00f5es com os \u201cburocratas da ponta\u201d (policiais, assistentes sociais etc.). Para eles, um Estado que n\u00e3o se prop\u00f5e a cuidar dos pobres n\u00e3o ser\u00e1 um Estado impessoal que ir\u00e1 garantir seus direitos, mas sim um Estado marcado pelo desrespeito cotidiano e pela falta de cuidado com as pessoas. A no\u00e7\u00e3o abstrata de \u201cter direitos\u201d \u00e9 interpretada pelos pobres a partir da viv\u00eancia cotidiana do Estado, como \u201cbom tratamento\u201d e \u201ccuidado\u201d.<\/p>\n<p>Quem vive experi\u00eancias cotidianas de humilha\u00e7\u00e3o moral espera um Estado \u201cacolhedor\u201d por meio de seus agentes e isto n\u00e3o \u00e9 nenhuma peculiaridade cultural brasileira, muito menos evang\u00e9lica. Quando a esquerda desqualifica a ideia de um Estado que cuida como clientelismo ou caridade, ela se esquece, por exemplo, que, entre os pentecostaise neopentecostais, as pr\u00e1ticas assistenciais s\u00e3o realizadas sistematicamente at\u00e9 pelos mais pobres que delas se beneficiam. N\u00e3o se trata de uma rela\u00e7\u00e3o clientelista assim\u00e9trica, mas de algo que inclui a reciprocidade sim\u00e9trica: quem recebe o cuidado tamb\u00e9m cuida. Ao desqualificar esta perspectiva, Freixo se distanciou enormemente do imagin\u00e1rio popular, contribuindo para que o fator da identifica\u00e7\u00e3o de classe jogasse em favor de Crivella. \u00c9 preciso, no entanto, ter em mente o seguinte: a identifica\u00e7\u00e3o de classe nem sempre \u00e9 t\u00e3o importante para o voto; seu peso e, sobretudo, o sentido de sua influ\u00eancia variam muito de um caso para outro.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Mas \u00e9 poss\u00edvel dizer que os evang\u00e9licos tiveram um grupo decisivo nas elei\u00e7\u00f5es? \u00c9 poss\u00edvel caracterizar quem \u00e9 esse eleitor evang\u00e9lico, no sentido de identificar como ele pensa, quais s\u00e3o seus valores, quais s\u00e3o suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; Certamente os evang\u00e9licos\u00a0s\u00e3o um grupo decisivo, principalmente em elei\u00e7\u00f5es para o Legislativo. Em elei\u00e7\u00f5es para o Executivo a vit\u00f3ria de Crivella representa um marco. N\u00e3o s\u00f3 por ter conseguido angariar quase a totalidade dos votos evang\u00e9licos em uma metr\u00f3pole complexa como o Rio de Janeiro, mas tamb\u00e9m por quebrar o isolamento, obtendo votos de segmentos n\u00e3o evang\u00e9licos. O eleitor evang\u00e9lico n\u00e3o existe no singular e seu comportamento pol\u00edtico n\u00e3o pode ser deduzido, de forma aprior\u00edstica, de sua perten\u00e7a religiosa. O significado de ser evang\u00e9lico para a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de um indiv\u00edduo \u00e9 constru\u00eddo dentro do jogo pol\u00edtico, no horizonte das alternativas pol\u00edticas reais que se apresentam.<\/p>\n<p><strong>Religi\u00e3o X Pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<div>Engana-se quem pensa que eleitores evang\u00e9licos n\u00e3o separam religi\u00e3o de pol\u00edtica<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>Engana-se quem pensa que eleitores evang\u00e9licos n\u00e3o separam religi\u00e3o de pol\u00edtica; como todo eleitor, eles constroem suas decis\u00f5es a partir do leque de experi\u00eancias e fontes de avalia\u00e7\u00e3o que carregam, e mobilizam as refer\u00eancias religiosas para isso, variando bastante o peso da religi\u00e3o de um caso para o outro. N\u00e3o h\u00e1 uma sobreposi\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica entre v\u00ednculo religioso e decis\u00e3o do voto. Isto \u00e9 muito claro quando observamos a varia\u00e7\u00e3o, ao longo do tempo, no voto majorit\u00e1rio para presidente: os pobres evang\u00e9licos, como o conjunto das classes populares, votaram em massa no PTnas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2006 e 2010, relegando ao fator religi\u00e3o um lugar secund\u00e1rio neste comportamento. Agora isto mudou, e os pobres se distanciaram do PT.<\/p>\n<p>No entanto, apesar desta varia\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel identificar alguns elementos relativamente generalizados: a maioria dos evang\u00e9licos assume posi\u00e7\u00f5es conservadoras com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 libera\u00e7\u00e3o das drogas, legaliza\u00e7\u00e3o do aborto e igualdade civil entre pessoas do mesmo sexo biol\u00f3gico. Mas a maioria \u00e9 contra a pena de morte. Por\u00e9m, do ponto de vista da vis\u00e3o do Estado, a maioria apoia pol\u00edticas sociais e a ideia de que cabe ao Estado cuidar da educa\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade. Ao contr\u00e1rio de lideran\u00e7as como o Pastor Everaldo\u00a0(PSC), os evang\u00e9licos, em sua maioria, n\u00e3o s\u00e3o neoliberais, se identificando com uma vis\u00e3o mais progressista das fun\u00e7\u00f5es do Estado.<\/p>\n<p><strong>Perfil pol\u00edtico dos evang\u00e9licos<\/strong><\/p>\n<p>O mais importante, por\u00e9m, \u00e9 o fato de que este perfil de cultura pol\u00edtica, assim como qualquer outro, n\u00e3o determina o comportamento eleitoral e nem pol\u00edtico no sentido mais amplo. Entre cultura e comportamento existem muitas vari\u00e1veis constru\u00eddas e definidas no pr\u00f3prio sistema pol\u00edtico, sobretudo as alternativas pol\u00edticas reais e as pautas tem\u00e1ticas que os candidatos priorizam. Quando um candidato progressista prioriza pautas de minorias que passam ao largo das preocupa\u00e7\u00f5es reais das classes populares, evang\u00e9licas ou n\u00e3o, \u00e9 grande a chance de que este eleitor popular assuma um perfil mais conservador do que assumiria se o assunto fosse o Estado de bem-estar social ou a economia.<\/p>\n<p>O perfil pol\u00edtico do eleitor evang\u00e9lico, assim como de todo eleitor, \u00e9 coproduzido pelo jogo pol\u00edtico. Nos Estados Unidos, a maioria da classe trabalhadora pauperizada que se sentiu atra\u00edda e acabou votando em Donald Trump, o fez tamb\u00e9m porque a alternativa era uma oligarca que, ao contr\u00e1rio do buf\u00e3o bilion\u00e1rio, ainda xingava este eleitor de \u201clixo branco deplor\u00e1vel\u201d. Acredito que o eleitor carioca teve alternativas muito melhores com Freixo e Crivella, mas o perfil elitista da pauta progressista de Freixoteve efeito semelhante em ajudar na constru\u00e7\u00e3o no perfil de comportamento do eleitor popular e evang\u00e9lico. A identifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 constru\u00edda tamb\u00e9m pela diferen\u00e7a, pela oposi\u00e7\u00e3o a uma alternativa colocada.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 Em artigo recente, o senhor disse que \u201cem nenhuma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, incluindo os coletivos de esquerda, a mulher e o homem comum t\u00eam tanto e t\u00e3o r\u00e1pido protagonismo quanto em uma igreja evang\u00e9lica pentecostal\u201d. Essa participa\u00e7\u00e3o social na vida da igreja faz diferen\u00e7a na decis\u00e3o eleitoral dos evang\u00e9licos? O que essa participa\u00e7\u00e3o na comunidade significa para esses homens e mulheres comuns?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; Esta participa\u00e7\u00e3o em organiza\u00e7\u00f5es e comunidades religiosas \u00e9 a maior experi\u00eancia de empoderamento individual e coletivo que as classes populares das periferias de m\u00e9dias e grandes cidades tiveram nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas no Brasil. \u00c9 muito importante perceber a combina\u00e7\u00e3o singular entre o individual e o coletivo que esta experi\u00eancia de inclus\u00e3o religiosa (e social) permite construir. As organiza\u00e7\u00f5es religiosas pentecostais, cuja capilaridade e poder de penetra\u00e7\u00e3o na vida material e simb\u00f3lica das classes populares coloca os partidos e coletivos de esquerda em condi\u00e7\u00e3o de quase amadorismo, s\u00e3o ambientes de promo\u00e7\u00e3o coletiva do ideal de autonomia e valoriza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. Veja a mensagem \u201cDeus tem um projeto para a sua vida\u201d. Este ideal est\u00e1 na base da cultura moderna: a concep\u00e7\u00e3o de \u201cvida plena\u201d, para todas as classes sociais, passa pela realiza\u00e7\u00e3o de projetos de vida percebidos como individuais, como decorrentes e favorecedores das capacidades que permitem agir e ser valorizado no mundo social como indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que a autonomia individual tamb\u00e9m \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social, mas ela tamb\u00e9m \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o que conta com o entusiasmo e ades\u00e3o do pr\u00f3prio indiv\u00edduo, do desempenho de sua psique, que n\u00e3o pode ser reduzida ao social, embora seja influenciada por ele. Eu diria que a participa\u00e7\u00e3o nas igrejas pentecostais significa, para o homem e a mulher comum, uma possibilidade quase \u00fanica de receber reconhecimento e apoio coletivo para o desenvolvimento deste ideal de autonomia individual, combinando ajuda m\u00fatua com individualidade. Evidentemente, existem problemas nesta participa\u00e7\u00e3o, mas mesmo a mulher pobre, negra e perif\u00e9rica \u2014 que o discurso da esquerda pretende alcan\u00e7ar \u2014 consegue muito mais reconhecimento social e empoderamento individual dentro de uma igreja pentecostal, mesmo que esta vocalize uma vis\u00e3o de mundo machista, do que fora dela. A igreja \u00e9 o espa\u00e7o no qual ela encontra autoridade para pactuar regras na vida familiar, lutar contra a viol\u00eancia dom\u00e9stica, obter um lugar para deixar o filho quando vai trabalhar etc.<\/p>\n<p><strong>Forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as evang\u00e9licas<\/strong><\/p>\n<p>Esta participa\u00e7\u00e3o pode fazer muita diferen\u00e7a na decis\u00e3o eleitoral e na pr\u00f3pria vida pol\u00edtica em sentido mais amplo. As igrejas podem e s\u00e3o frequentemente transformadas em organiza\u00e7\u00f5es com objetivos pol\u00edtico-eleitorais. Isto costuma ser visto apenas de forma negativa, como se fossem mera reprodu\u00e7\u00e3o urbana do coronelismo. N\u00e3o concordo com esta cr\u00edtica, porque ela sup\u00f5e um tipo de controle do outro que a vida urbana n\u00e3o permite mais. O eleitor evang\u00e9lico, mesmo quando vota como deseja o pastor, n\u00e3o o faz pelos mesmos motivos que o colono submisso \u00e0 vontade do fazendeiro e coronel. Os maiores problemas t\u00eam a ver, do meu ponto de vista, com a falta de transpar\u00eancia na apropria\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de recursos financeiros, j\u00e1 que as possibilidades de financiamento eleitoral n\u00e3o contabilizado s\u00e3o muito maiores em organiza\u00e7\u00f5es sem nenhum ou pouco controle financeiro por parte do Estado. Mas esta participa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m promove transforma\u00e7\u00f5es muito importantes e positivas para a democracia. Al\u00e9m de serem um ambiente de comunica\u00e7\u00e3o densa e constru\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o pol\u00edtica, as organiza\u00e7\u00f5es religiosas pentecostais t\u00eam cumprido a fun\u00e7\u00e3o de produzir lideran\u00e7as e quadros pol\u00edticos. Poucos partidos pol\u00edticos no Brasil conseguiram romper com a l\u00f3gica de transmiss\u00e3o do poder pelo v\u00ednculo familiar como mecanismo de forma\u00e7\u00e3o de novos quadros. Apenas alguns partidos de esquerda, com destaque para o PT, conseguiram isso.<\/p>\n<p>Hoje, as igrejas pentecostais formam quadros e lideran\u00e7as com enraizamento social em um ritmo e capilaridade que n\u00e3o se v\u00ea em nenhum partido, sindicato ou movimento social. A organiza\u00e7\u00e3o como recurso pol\u00edtico capaz de competir com outras fontes de poder como dinheiro, origem familiar e reputa\u00e7\u00e3o ampla na m\u00eddia \u00e9 hoje um recurso controlado, sobretudo pelas igrejas pentecostais. E isto tamb\u00e9m contribui para que elas sejam um ambiente de protagonismo, neste caso de protagonismo pol\u00edtico, para as classes populares.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; O senhor diz que o PSOL assumiu uma postura de superioridade moral em sua campanha eleitoral no Rio de Janeiro. Em que propriamente consiste essa superioridade moral? Como ela foi expressa no discurso da esquerda nessa elei\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; Esta postura de superioridade moral est\u00e1 baseada na cren\u00e7a, quase sempre n\u00e3o tematizada, de se possuir uma vis\u00e3o mais ampla e mais universalista do que o outro, o advers\u00e1rio. Esta vis\u00e3o pode tomar diferentes fontes de refer\u00eancia. Podemos nos sentir superiores pela cren\u00e7a de que somos os aut\u00eanticos cruzados contra corrup\u00e7\u00e3o \u2014 a vis\u00e3o udenista cl\u00e1ssica, adotada pelo PT e hoje transformada no sentimento dominante de setores do judici\u00e1rio (como o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal) que almejam se tornarem uma esp\u00e9cie de poder moderador acima de tudo e de todos \u2014, mas tamb\u00e9m pela cren\u00e7a de que somos os guardi\u00f5es e int\u00e9rpretes de uma moral superior por darmos prioridade ao tema do reconhecimento da diferen\u00e7a de orienta\u00e7\u00e3o sexual, por exemplo.<\/p>\n<blockquote>\n<div>Este sentimento de superioridade moral n\u00e3o representa nenhum problema para a democracia, desde que n\u00e3o se questione o direito do outro de participar do jogo pol\u00edtico<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>Na verdade, este sentimento desuperioridade moral n\u00e3o representa nenhum problema para a democracia desde que n\u00e3o se questione o direito do outro de participar do jogo pol\u00edtico. A campanha deFreixo enveredou um pouco por este caminho ao questionar a legitimidade da candidatura de Crivella em fun\u00e7\u00e3o de um suposto \u201cprojeto obscurantista\u201d da Igreja Universal, ignorando que qualquer projeto de poder \u00e9 leg\u00edtimo em uma democracia no momento em que se organiza em partido e passa pelas urnas, como \u00e9 o caso dos candidatos do PRB. Mas \u00e9 \u00f3bvio que isto faz parte do jogo.<\/p>\n<p><strong>Superioridade moral da esquerda X Manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica das igrejas<\/strong><\/p>\n<p>O PSOL do Rio e Freixo t\u00eam demonstrado grande disposi\u00e7\u00e3o para reconhecer estes problemas, investindo em autocr\u00edtica de um modo que o PT infelizmente n\u00e3o tem feito. O problema maior, para a esquerda, \u00e9 quando este sentimento de superioridade moral se volta contra a maioria do eleitorado, como foi o caso da candidatura deHillary Clinton contra os eleitores brancos de Trump que ela chamava de \u201clixo branco\u201d. No caso do PSOL e da campanha de Freixo, isto aconteceu de forma menos expl\u00edcita, quase inconsciente, eu diria, com rela\u00e7\u00e3o aos eleitores evang\u00e9licosidentificados com o Crivella.<\/p>\n<p>O pressuposto, para os socialistas, era que estes eleitores deveriam ser redimidos da manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica a que seriam submetidos nas igrejas, para assim se tornarem receptivos \u00e0 mensagem moralmente superior da esquerda. Ou seja, eles n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos como atores leg\u00edtimos em sua vis\u00e3o de mundo e inser\u00e7\u00e3o social espec\u00edficas. O problema \u00e9 que se tratou da maioria dos votantes, que ignorou soberanamente a prega\u00e7\u00e3o de superioridade moral da esquerda e elegeu Crivella. Contra esse sentimento de superioridade moral certamente ajuda a constata\u00e7\u00e3o de que toda moralidade concreta \u00e9 sempre mais ou menos particularista. Veja a prega\u00e7\u00e3o feminista da campanha de Freixo: por mais que se pense representante de todas as mulheres, ela \u00e9 particular, articulando os problemas de g\u00eanero do p\u00fablico universit\u00e1rio, e isto fica claro quando despreza o valor da religi\u00e3o para o empoderamento da mulher pobre da favela. Na verdade, a \u00fanica forma de superar os limites particularistas da vis\u00e3o de mundo que professa, \u00e9 reconhecer a exist\u00eancia destes limites.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 O senhor tamb\u00e9m tem dito que \u201ca derrota parece ter alimentado o fechamento da esquerda pol\u00edtica em torno de seus pr\u00f3prios preconceitos intelectuais\u201d. Quais diria que s\u00e3o hoje os principais preconceitos intelectuais da esquerda?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; S\u00e3o muitos. Alguns militantes e intelectuais dizem que h\u00e1 exagero nesta onda recente de criticar a esquerda. Mas eu penso que o estreitamento intelectual \u00e9 uma arma da direita que n\u00e3o deveria ser adotada nem cultivada pelos progressistas. A esquerda se tornou muito dogm\u00e1tica, e trata as ideias muito mais como objetos de culto do que como ferramentas para entender e transformar a realidade. Existem concep\u00e7\u00f5es insustent\u00e1veis, por exemplo, no campo da vis\u00e3o sobre a sociedade. A esquerda concebe a sociedade como um sistema indiviso que precisa ser transformado em sua totalidade, caso o ideal de transforma\u00e7\u00e3o fa\u00e7a um sentido forte. Mas pesquisas emp\u00edricas e te\u00f3ricas mostram que a sociedade \u00e9 um sistema diferenciado, quebradi\u00e7o. Pesquisas historiogr\u00e1ficas e comparativas, no campo da hist\u00f3ria social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica, mostram que os sistemas sociais permitem muita varia\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a na constru\u00e7\u00e3o de suas estruturas. O sistema econ\u00f4mico de mercado, por exemplo, pode ser institucionalizado e concretizado de formas muito distintas: o acesso ao capital, ao cr\u00e9dito, \u00e0 tecnologia, as rela\u00e7\u00f5es entre trabalho e capital variam muito no espa\u00e7o e no tempo, havendo uma margem de transforma\u00e7\u00e3o que a esquerda sequer consegue enxergar quando se restringe a usar conceitos totalizadores como capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Preconceitos pol\u00edticos<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista pol\u00edtico, o principal preconceito intelectual da esquerda se resume na cren\u00e7a partilhada pela grande maioria de dirigentes, militantes e intelectuais \u2014 seja no PSOL, no PT ou alhures \u2014 de que possuem boas defini\u00e7\u00f5es sobre seu p\u00fablico, suas caracter\u00edsticas, seus problemas e anseios. A esquerda julga, por exemplo, possuir uma\u00a0proposta coletiva de reden\u00e7\u00e3o para os pobres; s\u00f3 que ela est\u00e1 sustentada em vis\u00e3o equivocada, empiricamente infundada, sobre as classes populares, n\u00e3o percebendo as formas reais de vida coletiva e individual que caracterizam a grande maioria do p\u00fablico que ela deseja atingir e representar. Quase todos na esquerda rejeitam, por exemplo, a ades\u00e3o dos evang\u00e9licos \u00e0 \u201cteologia da prosperidade\u201d e aos ideais de autonomia e valoriza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo como se isso fosse uma distor\u00e7\u00e3o da aut\u00eantica forma de ser e agir das classes populares. N\u00e3o entendem que h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o espec\u00edfica entre individualismo moral e solidariedade, caudat\u00e1ria da tradi\u00e7\u00e3o pequeno-burguesa que \u00e9 a principal fonte de expectativas de vida das classes mais baixas. Ao operar com a dicotomia r\u00edgida individualismo versus solidariedade, a esquerda n\u00e3o observa o fen\u00f4meno popular-religioso que combina as duas coisas.<\/p>\n<div>Os preconceitos intelectuais da esquerda t\u00eam a ver com a indisposi\u00e7\u00e3o para aprender com o outro<\/div>\n<p>No limite, os preconceitos intelectuais da esquerda t\u00eam a ver com a indisposi\u00e7\u00e3o para aprender com o outro. Em uma situa\u00e7\u00e3o de crise do campo progressista como esta, ou\u00e7o muita gente dizer que \u00e9 hora da esquerda resistir e afirmar sua identidade, se apegando aos seus valores e n\u00e3o se deixando confundir com o outro. Acho que deveria ocorrer o contr\u00e1rio. A esquerda deve se abrir para o outro, se reinventar. Disso depende n\u00e3o menos que sua exist\u00eancia enquanto ator pol\u00edtico relevante.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as dificuldades do progressismo em se comunicar com os eleitores evang\u00e9licos e de entender o pr\u00f3prio universo religioso em geral?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; A principal dificuldade \u00e9 o desconhecimento intelectual e pr\u00e1tico contra a religiosidade dos pobres. A esquerda n\u00e3o concebe a possibilidade de que as igrejas pentecostais sejam espa\u00e7os leg\u00edtimos para articular os problemas, sonhos e projetos de vida das pessoas que ele deseja representar. A esquerda precisa de uma \u201cvirada etnogr\u00e1fica\u201d: estranhar a si mesma para tentar se familiarizar com o outro \u2014 o evang\u00e9lico pentecostal \u2014 e assim construir uma linguagem e um programa que sejam capazes de conect\u00e1-la ao homem e \u00e0 mulher comum que percebem na religi\u00e3o um sistema social indispens\u00e1vel para suas vidas.<\/p>\n<p>Precisa romper com sua antipatia contra os evang\u00e9licos, buscando mais pastores e menos universit\u00e1rios para seus quadros partid\u00e1rios e abrindo m\u00e3o de impor crit\u00e9rios sect\u00e1rios de corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e moral. Um pastor evang\u00e9lico filiado ao PSOL \u00e9 ainda obrigado a adotar a linguagem universit\u00e1ria sobre minorias que o partido lhe imp\u00f5e, sendo visto como um ponto para levar \u00e0s igrejas os ideais do partido, e n\u00e3o como um ator que vai trazer ao partido o que ele ainda n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>IHU On-Line \u2013 A esquerda ainda tem um discurso muito baseado em estere\u00f3tipos, como no do \u201cpequeno-burgu\u00eas\u201d, que o senhor menciona em seu artigo? Acerca de quais aspectos a esquerda erra em seu discurso e em sua an\u00e1lise da realidade?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; Neste caso, o principal erro \u00e9 achar que o sonho \u201cpequeno-burgu\u00eas\u201d de possuir um neg\u00f3cio pr\u00f3prio, de alcan\u00e7ar prosperidade material e de proteger sua fam\u00edlia, devem ser substitu\u00eddos pelos sonhos coletivistas da esquerda. A esquerda ignora a possibilidade de construir um sentido transformador para este sonho, que combine projeto coletivo com o valor da autonomia individual. Historicamente, os que se identificam com o \u201csonho pequeno-burgu\u00eas\u201d foram declarados inimigos da esquerda, como se tivessem um DNA conservador. O principal erro \u00e9 n\u00e3o ver que a identifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica destes setores \u00e9 constru\u00edda no pr\u00f3prio jogo pol\u00edtico, n\u00e3o havendo um perfil reacion\u00e1rio como destino pol\u00edtico inexor\u00e1vel para os projetos de vida \u201cpequeno-burgueses\u201d.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia social-democrata da Su\u00e9cia, utilizada quase que como \u201crefer\u00eancia transcendental\u201d pela esquerda identificada com o que Roberto Mangabeira Unger\u00a0chama de \u201cprojeto da Su\u00e9cia tropical\u201d, foi criada e sustentada por d\u00e9cadas tendo por base uma coaliz\u00e3o de interesses entre operariado industrial e pequena-burguesia rural. \u00c9 exce\u00e7\u00e3o? Sim, mas em um pa\u00eds como o nosso, em que a grande maioria se identifica com o \u201csonho pequeno-burgu\u00eas\u201d, esta coaliz\u00e3o excepcional deveria ser o grande objetivo pol\u00edtico, pelo menos se a constru\u00e7\u00e3o de uma maioria popular ainda for o objetivo dos progressistas.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; O senhor defende que &#8220;para se distanciar dos estere\u00f3tipos que naturalizou para interpretar a forma de ser e agir dos pobres evang\u00e9licos, a esquerda precisa se &#8216;perder e se achar&#8217; no universo pentecostal&#8221;. O que isso significa? Como os progressistas deveriam compreender os evang\u00e9licos pentecostais e neopentecostais?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; Deveriam compreender os evang\u00e9licos como um p\u00fablico popular, plural, cuja religiosidade n\u00e3o predetermina uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica conservadora, ou seja, como um grupo com uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em disputa, em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; O senhor defende que a esquerda &#8220;deveria disputar o sentido pol\u00edtico de valores como a autonomia individual, como o liberalismo popular&#8221;, porque valores como esse, segundo sua avalia\u00e7\u00e3o, &#8220;possuem muito mais apelo transformador entre os pobres do que ideias abstratas do s\u00e9culo XIX como socialismo e comunismo&#8221;. Pode nos explicar essa ideia? Essa aposta n\u00e3o mudaria radicalmente a proposta te\u00f3rica da esquerda?<\/p>\n<blockquote>\n<div>A tradi\u00e7\u00e3o marxista deve ser confrontada com outras vertentes, como o liberalismo progressista de um Stuart Mill, por exemplo<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; O ide\u00e1rio da esquerda\u00a0deveria ser aberto a transforma\u00e7\u00f5es e ela deveria beber de m\u00faltiplas fontes te\u00f3ricas. Isto n\u00e3o significa capitular ao esp\u00edrito do tempo, mas sim manter-se \u00e0 altura da complexidade social que caracteriza a vida moderna, com suas conting\u00eancias e mudan\u00e7as que exigem atualiza\u00e7\u00e3o de muitos de nossos conceitos e abordagens. A tradi\u00e7\u00e3o marxista deve ser confrontada com outras vertentes, como oliberalismo progressista de um Stuart Mill, por exemplo, ou com a proposta te\u00f3rica e pol\u00edtica de Mangabeira Unger, para mencionar outro pensador que aposta na atualiza\u00e7\u00e3o do potencial transformador do liberalismo pol\u00edtico. Marx, que sempre esteve identificado com os ideais liberais de autonomia individual, promoveu uma cr\u00edtica da vis\u00e3o de sociedade do liberalismo conversador de sua \u00e9poca, mas sabia que os ideais de emancipa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo de todo tipo de jugo era o que movia n\u00e3o s\u00f3 a luta dos trabalhadores, mas tamb\u00e9m a pr\u00f3pria cr\u00edtica social da esquerda. Marx n\u00e3o era um coletivista. O comunismo previa a libera\u00e7\u00e3o do potencial de cada ser humano em ser um \u201cprodutor aut\u00f4nomo\u201d. A inser\u00e7\u00e3o fabril do fordismo deu tonalidade coletivista a este projeto, mas a grande maioria dos pobres que sonha com emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social, inclusive no Brasil, nunca esteve sequer inclu\u00edda no fordismo. Para estes trabalhadores, faz muito mais sentido pensar a justi\u00e7a social como sendo a possibilidade de inser\u00e7\u00e3o produtiva em sentido mais amplo, como empreendedor por exemplo, do que como uma rela\u00e7\u00e3o justa no \u00e2mbito mais estrito do mercado de trabalho.<\/p>\n<p><strong>A esquerda e o imagin\u00e1rio liberal<\/strong><\/p>\n<p>Uma alternativa de esquerda disposta a incluir o imagin\u00e1rio liberal das classes populares precisaria articular n\u00e3o apenas o problema da igualdade de oportunidades, j\u00e1 que nem todo pobre tem chance efetiva de ser um \u201cempreendedor\u201d, mas tamb\u00e9m a quest\u00e3o estrutural e program\u00e1tica de reorganizar a economia e as oportunidades de se tornar um produtor. O apelo transformador desta vis\u00e3o liberal que vem de baixo, disto que chamo de \u201cliberalismo popular\u201d, reside no fato de a expectativa de se tornar agente econ\u00f4mico aut\u00f4nomo (ter o pr\u00f3prio neg\u00f3cio) \u2014 ao contr\u00e1rio de apenas assalariado com direitos \u2014 tocar no cerne da rela\u00e7\u00e3o de poder mais importante do capitalismo: o controle do capital. Quem deseja ser assalariado com direitos (o programa difuso da esquerda para a inclus\u00e3o na economia) almeja uma condi\u00e7\u00e3o de vida melhor e est\u00e1vel, mas j\u00e1 se desfez do sonho mais exigente de autonomia econ\u00f4mica, que reside em transcender a situa\u00e7\u00e3o de assalariado para a de propriet\u00e1rio e controlador de capital. N\u00e3o era a democratiza\u00e7\u00e3o radical do acesso e do controle do capital que queria Marxcom o fim da propriedade privada, projetando o fim da forma privada do capital, mas n\u00e3o a extin\u00e7\u00e3o de sua forma em riqueza socialmente acumulada e desfrutada?<\/p>\n<p>Como lembra Mangabeira Unger, socialistas e liberais do s\u00e9culo XIX pregavam, cada um a seu modo, que a autonomia econ\u00f4mica (expressa na ideia-for\u00e7a de trabalho livre) dependia da supera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de assalariamento, visto que esta rela\u00e7\u00e3o seria apenas parcialmente livre. Os progressistas do s\u00e9culo XX, na medida em que foram abandonando a expectativa de transforma\u00e7\u00e3o radical das estruturas do sistema econ\u00f4mico, foram aceitando a inclus\u00e3o assalariada como \u00fanico horizonte poss\u00edvel de autonomia econ\u00f4mica, mesmo que isto seja uma realidade cada vez menos acess\u00edvel \u00e0 grande maioria das pessoas. O potencial transformador que vejo no \u201cliberalismo popular\u201d, a elabora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do ideal mais amplo de autonomia individual, \u00e9 a possibilidade de ele servir de base para uma cr\u00edtica radical das estruturas vigentes do sistema econ\u00f4mico moderno no Brasil. Revigorado como cr\u00edtica ao privil\u00e9gio e \u00e0 monopoliza\u00e7\u00e3o do poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico em uma linguagem pol\u00edtica que priorize o sonho de autonomia individual, coletivamente constru\u00eddo e sustentado nas fam\u00edlias e nas igrejas populares, o programa da esquerda encontraria na mentalidade e no sentimento popular terreno mais f\u00e9rtil do que encontra quando se orienta por ideias coletivistas como as que ainda vagamente professa.<\/p>\n<p>Somente um discurso pol\u00edtico que busque enraizamento cultural no culto popular \u00e0 autonomia do indiv\u00edduo, percebida como algo inserido em contextos mais fechados ou mais amplos de interdepend\u00eancia, ajuda e solidariedade, pode mobilizar os sentidos de transforma\u00e7\u00e3o dispon\u00edveis no imagin\u00e1rio popular. A democratiza\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito produtivo, a reorienta\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro, por exemplo, s\u00e3o temas nos quais a cr\u00edtica \u00e0 desigualdade econ\u00f4mica poderia se encontrar com o imagin\u00e1rio \u201cliberal popular\u201d, na medida em que o acesso a diferentes formas de capital fosse politizado da perspectiva de que homem comum e seu \u201csonho empreendedor\u201d tamb\u00e9m contam como atores capazes de gerar riqueza individual e social. Afinal, se o liberalismo diz que pobre pode ser empreendedor, ent\u00e3o algu\u00e9m pode completar: ent\u00e3o d\u00ea a ele parte do que \u00e9 destinado aos banqueiros e \u00e0 grande burguesia como um todo. Isto certamente exige reorienta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da esquerda. Mas, para ser fiel ao compromisso de transformar o mundo em prol da eleva\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o e do sentido de vida da maioria de homens e mulheres comuns, a esquerda deve estar aberta \u00e0s ferramentas conceituais de que precisa para esta tarefa. Defender identidade e tradi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e9 suic\u00eddio em momento de t\u00e3o grave calamidade.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Como devemos entender a teologia da prosperidade? Que efeito e significado ela tem entre os evang\u00e9licos pentecostais e neopentecostais?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; A teologia da prosperidade\u00a0est\u00e1 baseada na ideia de que Deus, ao enviar seu filho para livrar o mundo e os homens do mal, haveria criado as condi\u00e7\u00f5es para que seus filhos tenham direito e acesso a tudo que h\u00e1 de bom sobre a terra. \u00c9 uma teologia que n\u00e3o nega o valor da vida no al\u00e9m, mas enfatiza e de certo modo sacraliza a vida neste mundo. \u00c9 verdade que ela funciona com uma vis\u00e3o afirmadora e legitimadora do capitalismo, ao atribuir valor aos bens e projetos de vida ligados ao consumo e \u00e0 prosperidade econ\u00f4mica. Quando ela funciona exclusivamente como uma \u201cteodiceia da felicidade\u201d, negando valor sagrado ao sofrimento e pregando que a presen\u00e7a de Deus se mostra no sucesso, ela contribui inclusive para naturalizar a exclus\u00e3o social: aquele exclu\u00eddo pode ser visto como algu\u00e9m distante de Deus e sua trag\u00e9dia como resultado de sua pr\u00f3pria incompet\u00eancia religiosa em buscar a prosperidade. Mas a teologia da prosperidade n\u00e3o se reduz a isto.<\/p>\n<p>Primeiro, porque, na pr\u00e1tica, o conceito de prosperidade n\u00e3o \u00e9 percebido como ligado unicamente \u00e0 dimens\u00e3o econ\u00f4mica, sendo associado tamb\u00e9m ao conv\u00edvio familiar, \u00e0 plenitude espiritual, com o efeito de elevar as pretens\u00f5es e expectativas das pessoas \u2014 sobretudo dos mais pobres e j\u00e1 destitu\u00eddos de grandes pretens\u00f5es e expectativas na vida \u2014 a n\u00edvel que n\u00e3o seria atingido sem a for\u00e7a social da religi\u00e3o que diz: \u201cDeus tem um projeto para sua vida\u201d.<\/p>\n<p>Segundo, porque o sentido real da busca pela prosperidade envolve, muitas vezes, rela\u00e7\u00f5es de solidariedade mediadas pela pr\u00f3pria igreja, promovendo, portanto, a transcend\u00eancia dos v\u00ednculos de empatia prim\u00e1ria da esfera familiar. N\u00e3o se pode tomar um sentido un\u00edvoco, atribu\u00eddo a esta concep\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica pelos estudiosos de teologia com base em seu conte\u00fado sistematizado em livros e documentos, como sendo sempre o sentido real que vai orientar as pr\u00e1ticas dos evang\u00e9licos cujas igrejas aderem ao ideal de prosperidade neste mundo como algo pertencente ao dom\u00ednio do sagrado. Como ensinava Weber, o sentido social real das ideias religiosas n\u00e3o \u00e9 o sentido livresco que recebem por sistematizadores e int\u00e9rpretes, mas sim o sentido pr\u00e1tico que recebe dos agentes religiosos. E este varia muito mais do que podemos encontrar nas sistematiza\u00e7\u00f5es unificadoras.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Com a elei\u00e7\u00e3o de Crivella, que rearticula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pode-se esperar no Rio de Janeiro, seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos evang\u00e9licos na pol\u00edtica, seja em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 articula\u00e7\u00e3o da esquerda?<\/p>\n<blockquote>\n<div>A chance de surgir um projeto pol\u00edtico propriamente evang\u00e9lico unificado para o pa\u00eds aumenta<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; No mundo social, n\u00e3o se pode prever, mas se pode identificar possibilidades que se tornam mais prov\u00e1veis com o desenrolar dos eventos. Com a elei\u00e7\u00e3o de Crivella, me parece que a chance de surgir um projeto pol\u00edtico propriamente evang\u00e9lico unificado para o pa\u00eds aumenta. Mas \u00e9 s\u00f3 uma possibilidade, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 unidade nacional deste segmento. Houve unidade local na elei\u00e7\u00e3o carioca, mas nada garante que v\u00e1 se ampliar para o n\u00edvel federal. Me parece que a derrota de Freixo aumenta tamb\u00e9m o sentimento de que a esquerda precisa de unidade. Mas pode ficar apenas no sentimento.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Algum candidato que tem apoio dos evang\u00e9licos poderia se destacar nas elei\u00e7\u00f5es de 2018?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; Pode, mas se depender s\u00f3 do fator religi\u00e3o n\u00e3o ter\u00e1 chances. N\u00e3o consigo imaginar, diante do quadro sociol\u00f3gico existente, como o tema exclusivo da religi\u00e3o poderia alavancar e eleger um presidente da Rep\u00fablica no Brasil. Crivella s\u00f3 foi eleito porque conseguiu extrapolar os limites do que o voto evang\u00e9licopode ofertar em termos eleitorais, conquistando o apoio de cat\u00f3licos, por exemplo. Para ser realmente competitiva em n\u00edvel nacional, a abertura tem\u00e1tica de um candidato evang\u00e9lico teria que ser t\u00e3o ampla que ele n\u00e3o poderia mais ser chamado de candidato evang\u00e9lico.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Como as suas cr\u00edticas \u00e0 esquerda e ao modo como ela se relaciona com os evang\u00e9licos est\u00e3o repercutindo na pr\u00f3pria esquerda? Como foi seu encontro com grupos do PSOL na semana passada, quando trataram dessas quest\u00f5es?<\/p>\n<p>Roberto Dutra Torres Junior &#8211; Nas oportunidades que tive de conversar, constatei boa disposi\u00e7\u00e3o em levar a cr\u00edtica a s\u00e9rio. Existe disposi\u00e7\u00e3o para o di\u00e1logo e para a cr\u00edtica em muitos setores do PSOL, como h\u00e1 em muitos do PT. Mas h\u00e1 ainda muito sectarismo, alimentado pelo sentimento de superioridade moral de que falo.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562634-a-esquerda-esta-sustentada-numa-visao-equivocada-sobre-as-classes-populares-entrevista-especial-com-roberto-dutra-torres-junior<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patricia Fachin &#8211;\u00a0Entrevista especial com Roberto Dutra Torres Junior A recente elei\u00e7\u00e3o de Crivella no Rio de Janeiro, especialmente sua popularidade nos bairros pobres da cidade, tem trazido \u00e0 tona um debate sobre o modo como a esquerda, em geral, enxerga os evang\u00e9licos. 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