{"id":24392,"date":"2024-12-08T12:50:09","date_gmt":"2024-12-08T15:50:09","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24392"},"modified":"2024-12-02T14:53:14","modified_gmt":"2024-12-02T17:53:14","slug":"peter-thiel-o-sombrio-capitalista-militante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/12\/08\/peter-thiel-o-sombrio-capitalista-militante\/","title":{"rendered":"Peter Thiel, o sombrio capitalista militante"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marco D\u2019Eramo &#8211;\u00a0<\/strong>Fundador do PayPal declara-se fil\u00f3sofo da Nova Direita. Deturpa Nietzsche e Maquiavel \u2013 e prega que o progresso s\u00f3 vir\u00e1 sob uma monarquia absolutista de monop\u00f3lios. Seu desejo: emancipar os capitalistas da explora\u00e7\u00e3o pelos trabalhadores.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o \u00e9 rico como Jeff Bezos, nem uma estrela ou um \u00eddolo midi\u00e1tico como Elon Musk, tampouco \u00e9 um \u00edcone como Bill Gates. No entanto, ele \u00e9 o mais interessante dos magnatas do Vale do Sil\u00edcio porque, mais do que qualquer outro, personifica o novo capitalista: o capitalista ideol\u00f3gico. Um megabilion\u00e1rio que n\u00e3o usa a pol\u00edtica para ganhar dinheiro, mas sim que emprega bilh\u00f5es de d\u00f3lares para fazer pol\u00edtica. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar que ele seja o homem que quer \u201cemancipar os ricos \u2018da explora\u00e7\u00e3o dos capitalistas pelos trabalhadores\u2019\u201d. Ele \u00e9 Peter Thiel (1967), alem\u00e3o de nascimento, criado na \u00c1frica do Sul e americano por ado\u00e7\u00e3o. De acordo com a\u00a0<em>Forbes<\/em>, sua fortuna chega a 4,2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (20,7 bilh\u00f5es de reais).<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de outros megabilion\u00e1rios, ele \u00e9 bacharel em Filosofia e tem doutorado em Direito (Juris Doctor), e gosta de se apresentar como um Rei Fil\u00f3sofo. Em seu texto mais elaborado, \u201cThe Straussian Moment\u201d (\u201cO Momento Straussiano\u201d em tradu\u00e7\u00e3o livre, 2004), em apenas 30 p\u00e1ginas e com muita ousadia \u2013 a ousadia intelectual \u00e9 um h\u00e1bito que ele cultiva com cuidado \u2013 Thiel esbo\u00e7a uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>Geistes Weltgeschichte<\/em>, uma breve \u201chist\u00f3ria mundial do esp\u00edrito\u201d, \u00e0 luz dos ataques de 11 de setembro de 2001, na qual se baseia em autores como Oswald Spengler, Carl Schmitt, Leo Strauss, Pierre Manent e Roberto Calasso, sem deixar de mencionar Maquiavel, Montaigne, Hobbes, Locke, Hegel, Marx, Nietzsche e Koj\u00e8ve.<\/p>\n<p>Desde seus dias de faculdade na Universidade de Stanford, Thiel nunca se deixou envergonhar por suas posi\u00e7\u00f5es, abra\u00e7ando muito cedo as mais conservadoras (ele admirava Ronald Reagan ainda no ensino m\u00e9dio): de acordo com seu bi\u00f3grafo, Max Chafkin, j\u00e1 naquela \u00e9poca ele achava que \u201cos progressistas decentes haviam aceitado os comunistas, mas os conservadores eram incapazes de se associar aos membros da extrema-direita\u201d. Nesse sentido, \u201cesperava realmente que a direita fosse mais parecida com a esquerda\u201d (The Contrarian. Peter Thiel and Silicon Valley\u2019s Pursuit of Power, 2021, p. 38).<\/p>\n<p>Matriculado na mais reacion\u00e1ria das universidades de primeira linha, ele imediatamente desancou o que considerava ser o esquerdismo dominante em Stanford e, com o apoio do guru conservador de direita Irving Kristol e o suporte financeiro de uma associa\u00e7\u00e3o financiada pela Olin Foundation, cofundou uma revista abertamente facciosa, a\u00a0<em>Stanford Review<\/em>, que imediatamente come\u00e7ou a fazer campanha contra o multiculturalismo, o politicamente correto e a homossexualidade, apesar de seu conselho editorial ter sido, por muito tempo, composto exclusivamente por homens (e at\u00e9 hoje s\u00f3 se conhece uma editora, que mais tarde trabalharia com a bilion\u00e1ria ultraconservadora Betty DeVos, quando ela foi Secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o no governo Trump).<\/p>\n<p>A hostilidade anti-LGBT levou a revista a afirmar que \u201ca verdadeira calamidade tem sido a homofobia-fobia, ou seja, o medo de ser rotulado de homof\u00f3bico [\u2026], enquanto a op\u00e7\u00e3o anti-gay deveria ter sido reconsiderada como \u2018misosodomia\u2019 (\u00f3dio ao sexo anal), o que nos permitiria focar nas \u2018pr\u00e1ticas sexuais desviantes\u2019\u201d. A revista \u201cat\u00e9 mesmo defendeu um colega estudante de Direito, Keith Rabois, que decidiu testar os limites da liberdade de express\u00e3o no campus ficando em frente ao dormit\u00f3rio de um professor e gritando \u201cBicha, bicha! Espero que voc\u00ea morra de AIDS!\u201d (<em>The Economist<\/em>, 4 de junho de 2016). Este estudante, Keith Rabois, se tornaria um dos parceiros de neg\u00f3cios mais frequentes de Thiel.<\/p>\n<p>Sempre contra o politicamente correto, Thiel coassinou em 1995 o livro \u201c<em>The Diversity Myth: Multiculturalism and the Politics of Intolerance at Stanford<\/em>\u201d (O mito da diversidade: multiculturalismo e a pol\u00edtica da intoler\u00e2ncia em Stanford), que foi publicado por um think tank de direita, o Independent Institute, gra\u00e7as a uma doa\u00e7\u00e3o de 40 mil d\u00f3lares da Olin Foundation (um dos atores mais importantes no financiamento e na organiza\u00e7\u00e3o da contraofensiva neoliberal, como narro em \u201c<em>Dominion. A guerra invis\u00edvel dos poderosos contra os s\u00faditos<\/em>\u201d (2022).<\/p>\n<p>Mas, j\u00e1 naquela \u00e9poca, como o formid\u00e1vel jogador de xadrez que \u00e9 (ele tem o t\u00edtulo de Mestre Vital\u00edcio), Thiel entendia que, se a luta de ideias \u00e9 decisiva, \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio garantir os fundos para trav\u00e1-la adequadamente. Tanto que, como prova da total futilidade, em sua opini\u00e3o, do curr\u00edculo acad\u00eamico tradicional, \u201cele reclamava que apenas um em cada quatro ex-alunos de Stanford era milion\u00e1rio\u201d (Chafkin, p. 35). Assim, ap\u00f3s um breve e banal exerc\u00edcio da advocacia em Nova York e uma passagem pelo mercado de derivativos do banco Credit Suisse, ele retornou \u00e0 Calif\u00f3rnia e, em 1998, abriu seu pr\u00f3prio fundo de investimentos, o Thiel Capital Management, inicialmente dotado de um milh\u00e3o de d\u00f3lares levantados com o apoio de \u201cfamiliares e amigos\u201d (em todas as biografias, esse ponto \u00e9 sempre cercado de obscuridade e, como sabemos, o primeiro milh\u00e3o \u00e9 sempre o mais dif\u00edcil de conseguir).<\/p>\n<p>O ponto de virada em sua vida ocorreu em 1999, quando ele fundou o PayPal com um grupo de amigos (especialmente o cript\u00f3grafo de origem ucraniana Max Levchin, que desenvolveu o algoritmo subjacente ao sistema de pagamento on-line). Mas at\u00e9 mesmo essa iniciativa econ\u00f4mica estava envolta em uma motiva\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica: \u201cA ideia motriz do PayPal\u201d, escreveu ele, \u201cera criar \u2018uma nova moeda mundial, livre de qualquer controle governamental\u2019 \u2013 o fim da soberania monet\u00e1ria, por assim dizer\u201d. Foi a\u00ed que se formou a chamada m\u00e1fia do Paypal: uma foto famosa mostra esses jovens bonitos (todos homens) vestidos como mafiosos \u00edtalo-americanos da \u00e9poca da proibi\u00e7\u00e3o: seis deles se tornariam multimilion\u00e1rios. Surpreendentemente, tr\u00eas dos treze tinham um hist\u00f3rico na \u00c1frica do Sul do apartheid (Thiel, Elon Musk e Roelof Botha, que se tornaria CFO do PayPal e, mais tarde, s\u00f3cio do fundo de investimentos Sequoia).<\/p>\n<p>Foi no PayPal que o caminho de Thiel se cruzou com o de Elon Musk. Uma intera\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Entre outras coisas, Thiel demitiu Musk como CEO do PayPal enquanto Musk estava em sua lua de mel. E foi com a venda do PayPal em 2002 que Thiel levantou os 55 milh\u00f5es de d\u00f3lares que o lan\u00e7aram no mundo do capital de risco. A lista de empresas em que Thiel investiu \u00e9 longa (Airbnb, Asana, Linkedin, Lyft, Spotify, Twilio, Yelp, Zynga, etc.). Mas sua reputa\u00e7\u00e3o como um capitalista perspicaz foi consolidada em 2004, quando, como o primeiro investidor externo, ele deu (apenas) 500 mil d\u00f3lares a Mark Zuckerberg para desenvolver o Facebook em troca de 10,2% das a\u00e7\u00f5es, dinheiro que, ao longo dos anos, lhe rendeu mais de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares e formou a base definitiva de sua fortuna. No entanto, se em vez de liquidar sua participa\u00e7\u00e3o de 10% no Facebook, ele tivesse participado de sua recapitaliza\u00e7\u00e3o, ele teria agora 60 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Esse n\u00e3o foi o \u00fanico erro de Thiel. Em 2004, ele se recusou a investir na Tesla e no YouTube (ambos fundados por ex-funcion\u00e1rios do PayPal). E em 2006, quando Musk precisou de fundos para desenvolver os carros el\u00e9tricos da Tesla, Thiel recusou a oferta, perdendo uma oportunidade incr\u00edvel, pois a capitaliza\u00e7\u00e3o da Tesla aumentaria de 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2010 para um pico de 1,061 trilh\u00e3o de d\u00f3lares em 2021, indicando um crescimento de 50.000%, embora tenha ca\u00eddo para 584 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 12 de abril de 2023 \u2013 ainda assim um crescimento estupendo de quase 30.000%.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o de Musk, essa rejei\u00e7\u00e3o se deveu a outro motivo ideol\u00f3gico: \u201cEle n\u00e3o est\u00e1 totalmente convencido da quest\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d (Chafkin, p. 98). Mas qual \u00e9 a verdadeira vis\u00e3o de mundo do Sr. Thiel? Entre 2004 e 2014, ele se esfor\u00e7ou para exp\u00f4-la em confer\u00eancias, em artigos de opini\u00e3o publicados no\u00a0<em>The Wall Street Journal<\/em>\u00a0e, acima de tudo, no j\u00e1 mencionado\u00a0<em>The Straussian Moment<\/em>, seguido de um pequeno ensaio,\u00a0<em>The Education of a Libertarian\u00a0<\/em>(A Educa\u00e7\u00e3o de um libert\u00e1rio, em tradu\u00e7\u00e3o livre \u2013 2009), escrito para o Cato Institute (o think tank criado e financiado pelos irm\u00e3os Koch). Tamb\u00e9m exp\u00f5e seus pensamentos em outro texto (\u201c<em>The End of the Future<\/em>\u201c, 2011) publicado na revista\u00a0<em>National Review<\/em>\u00a0e depois em um livro intitulado\u00a0<em>Zero to One: Notes on Startups, or How to Build the Future\u00a0<\/em>(Do zero ao um: notas sobre startups, ou como construir o futuro, em tradu\u00e7\u00e3o livre) (2014), baseado em anota\u00e7\u00f5es feitas por Blake Masters em um de seus cursos ministrados na Universidade de Stanford. Masters viria a se tornar CEO da empresa de investimentos de Thiel, a Thiel Capital, e tamb\u00e9m presidente da Thiel Foundation: em 2022, Thiel apoiou generosamente sua candidatura ao Senado dos EUA, na qual ele n\u00e3o conseguiu vencer.<\/p>\n<p>Em um movimento t\u00edpico de todos os dissimuladores, Thiel come\u00e7a retratando a si mesmo e ao seu lado como v\u00edtimas (como os franceses que se retratam como v\u00edtimas dos magrebinos, ou os israelenses como v\u00edtimas dos palestinos, ou os ricos perseguidos pelos pobres). O apelo a Oswald Spengler pode parecer obsoleto, mas \u00e9 sempre eficaz: Spengler proclamou O Decl\u00ednio do Ocidente em 1918, exatamente quando o Ocidente estava reafirmando seu dom\u00ednio sobre o resto do mundo. Como com qualquer reacion\u00e1rio, o conto de Thiel \u00e9 um conto de decad\u00eancia. Para ele, estamos em um decl\u00ednio cultural completo, \u201cdo colapso da arte e da literatura depois de 1945, ao totalitarismo brando do politicamente correto na m\u00eddia e na academia, aos mundos s\u00f3rdidos da reality TV e do entretenimento popular\u201d. Esse decl\u00ednio se deve ao fracasso da democracia. Fracasso que se deve, por sua vez, \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e dos pobres (observe a associa\u00e7\u00e3o dos dois): \u201cA d\u00e9cada de 1920 foi a \u00faltima d\u00e9cada da hist\u00f3ria americana em que se podia ser verdadeiramente otimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica. Desde 1920, o aumento maci\u00e7o do n\u00famero de benefici\u00e1rios da previd\u00eancia social e a extens\u00e3o dos direitos pol\u00edticos \u00e0s mulheres \u2013 dois setores da sociedade notoriamente hostis aos libert\u00e1rios \u2013 transformaram a no\u00e7\u00e3o de \u2018democracia capitalista\u2019 em um oximoro.\u201d (N\u00e3o se deve esquecer, \u00e9 claro, que na linguagem pol\u00edtica americana, assim como liberal n\u00e3o significa \u201cliberal\u201d, mas \u201cprogressista\u201d, libert\u00e1rio n\u00e3o significa \u201clibert\u00e1rio\u201d, mas \u201cferozmente estadof\u00f3bico\u201d).<\/p>\n<p>A extens\u00e3o dos direitos pol\u00edticos tornou a democracia incapaz de buscar o progresso tecnol\u00f3gico e cient\u00edfico que havia possibilitado a extens\u00e3o do bem-estar \u00e0queles que n\u00e3o o mereciam (ou seja, a todos n\u00f3s). Desde a d\u00e9cada de 1970, com exce\u00e7\u00e3o do setor de inform\u00e1tica, o progresso tecnol\u00f3gico estagnou e n\u00e3o houve nenhuma grande inova\u00e7\u00e3o em \u00e1reas como transporte, energia ou mesmo medicina. Thiel observa, com raz\u00e3o, que \u201co progresso n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tico\u201d (\u201c<em>The End of Future<\/em>\u201c), que na hist\u00f3ria \u201co progresso \u00e9 raro\u201d (embora n\u00e3o t\u00e3o raro quanto ele afirma: para dar um pequeno exemplo, a inven\u00e7\u00e3o da quilha de navio na Idade M\u00e9dia parecia insignificante na \u00e9poca, mas permitiu a navega\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica). Mas a conclus\u00e3o que Thiel tira disso \u00e9 que, se a democracia \u00e9 ineficaz, para relan\u00e7ar o progresso \u00e9 necess\u00e1rio restabelecer um tipo de regime mon\u00e1rquico, ou melhor, uma monarquia absoluta, porque, diz Thiel, as grandes inova\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria foram produzidas por empresas (ou startups), que funcionam como monarquias absolutas, como monop\u00f3lios.<\/p>\n<p>Grande parte dos textos p\u00fablicos de Thiel \u00e9 destinada a elogiar os monop\u00f3lios e a jun\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lio e monarquia: \u201cOs monopolistas podem se dar ao luxo de n\u00e3o pensar apenas em ganhar dinheiro; os n\u00e3o monopolistas n\u00e3o podem. Em situa\u00e7\u00f5es de concorr\u00eancia perfeita, a empresa est\u00e1 t\u00e3o concentrada em suas margens de lucro atuais que n\u00e3o consegue planejar o futuro a longo prazo. Somente uma coisa pode permitir que uma empresa transcenda a brutal luta di\u00e1ria pela sobreviv\u00eancia: lucros monopolistas\u201d (<em>Zero to One<\/em>, pp. 31-32). \u201cA concorr\u00eancia \u00e9 para perdedores\u201d foi o t\u00edtulo de um de seus artigos de opini\u00e3o publicados no\u00a0<em>The Wall Street Journal<\/em>. Na faculdade, os alunos competem ferozmente \u201cpelo privil\u00e9gio de serem transformados em conformistas\u201d. Em suma, a concorr\u00eancia produz c\u00f3pias ou aprimoramentos do existente, mas nunca o verdadeiramente novo, a ponto de Thiel afirmar: \u201cNa realidade, capitalismo e concorr\u00eancia s\u00e3o opostos\u201d (p. 25).<\/p>\n<p>\u00c9 quase desnecess\u00e1rio apontar a total incoer\u00eancia l\u00f3gica desses argumentos. Em primeiro lugar, embora seja verdade que o progresso \u00e9 raro na hist\u00f3ria da humanidade, as monarquias absolutistas foram a regra durante essa hist\u00f3ria, de onde se conclui que as monarquias absolutistas nunca produziram progresso. Em segundo lugar, os monop\u00f3lios n\u00e3o nascem do nada, mas surgem precisamente da necessidade de vencer, e se transformam em monop\u00f3lios precisamente porque \u201csacodem\u201d, por assim dizer, o jogo competitivo, porque introduzem um novo fato em um determinado ambiente competitivo que coloca todos os outros concorrentes fora do mercado. Na verdade, pode-se dizer que, em um mercado n\u00e3o regulamentado, o monop\u00f3lio \u00e9 o resultado inevit\u00e1vel da concorr\u00eancia: competir \u00e9 designar um perdedor e um vencedor e, \u00e0 medida que o vencedor vence, fica cada vez mais f\u00e1cil tirar seus concorrentes do mercado, raz\u00e3o pela qual, na proto-hist\u00f3ria do capitalismo, em todos os pa\u00edses, s\u00f3 aparecem monop\u00f3lios: a Companhia Inglesa das \u00cdndias Orientais, a Companhia Holandesa das \u00cdndias Orientais e assim por diante. Tanto \u00e9 assim que sempre foi necess\u00e1rio introduzir legisla\u00e7\u00f5es antitruste (Sherman Act, etc.) para evitar monop\u00f3lios. Al\u00e9m disso, assim que foram estabelecidos, os monop\u00f3lios deixam de ser inovadores, e tendem a viver de rendimentos.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o, t\u00e3o grande quanto uma casa, ainda mais fundamental: em que sentido uma pessoa pode se declarar \u201clibert\u00e1ria\u201d e, ao mesmo tempo, patrocinar a monarquia absolutista? De que liberdade ele est\u00e1 falando? Para n\u00e3o mencionar o fato de que, quando Thiel incentiva seus ouvintes a criar monop\u00f3lios, a pergunta que deveria ser feita \u00e9: para quantos monop\u00f3lios h\u00e1 espa\u00e7o na Terra? Liberdade para poucos, escravid\u00e3o para a grande maioria. Muitos falaram da influ\u00eancia de Nietzsche sobre o empres\u00e1rio germano-americano, mas talvez a associa\u00e7\u00e3o mais adequada seja com o niilismo de Max Stirner (1806-1856): n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que seu \u00danico \u00e9 definido por \u201csua propriedade\u201d (\u201c<em>Der Einzige und sein Eigentum<\/em>\u201d O \u00danico e a Sua Propriedade, livro de 1844 de Max Stirner). Esse \u00danico pode usar qualquer meio, fraude, engana\u00e7\u00e3o, para buscar sua pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o (seu pr\u00f3prio poder): tamb\u00e9m para Stirner, a \u201clivre concorr\u00eancia\u201d \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o da liberdade, uma vez que ela s\u00f3 pode ser garantida pela presen\u00e7a de um Estado, que nos transforma em servos. \u00c9 claro que se pode perguntar: como algu\u00e9m pode ser contra a tirania do Estado e a favor da monarquia absolutista, que de todos os Estados \u00e9 o mais desp\u00f3tico, intrusivo e arbitr\u00e1rio? A resposta \u00e9: recorrendo a Stirner, ou seja, \u00e0 instrumentalidade absoluta de toda posi\u00e7\u00e3o. O \u00danico pode dizer o que quiser, se lhe convier, se servir a seus prop\u00f3sitos.<\/p>\n<p>Thiel foi erroneamente acusado de incoer\u00eancia e autocontradi\u00e7\u00e3o: na realidade, ele est\u00e1 apenas colocando em pr\u00e1tica sua \u201cestrat\u00e9gia stirneriana\u201d. Por exemplo, Thiel tem se dedicado a denegrir a Universidade de Stanford e a educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria em geral (a ponto de ter financiado em alto e bom som uma funda\u00e7\u00e3o para estudantes que concordam em \u201cabandonar\u201d a universidade para fundar suas pr\u00f3prias start-ups, embora com resultados realmente ruins), mas depois subornou e desembolsou dinheiro para ministrar um curso na mesma universidade, o que, no entanto, permitiu que ele publicasse um livro legitimado pela marca Stanford e o tornasse um best-seller (embora o n\u00famero de c\u00f3pias realmente vendidas permane\u00e7a incerto e, em diferentes relatos, varie entre um milh\u00e3o, um milh\u00e3o e meio e at\u00e9 tr\u00eas milh\u00f5es, podendo tamb\u00e9m ser muito menor).<\/p>\n<p>Ou ainda: todo o universo social de Thiel sempre foi monossexual, no sentido de que sua carreira nunca se cruzou com uma mulher: o \u00danico \u00e9 masculino em alem\u00e3o (<em>der Einzige<\/em>, mas, de qualquer forma, ele tamb\u00e9m nunca encontrou muitos afro-americanos em sua carreira, talvez em mem\u00f3ria do apartheid sul-africano). Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o termina a\u00ed: Thiel passou sua juventude denegrindo homossexuais, defendendo aqueles que gritavam \u201cbicha\u201d, e isso apenas para sair do arm\u00e1rio em 2016, casar-se com um cavalheiro e admitir (simultaneamente) um relacionamento intenso com uma modelo, que mais tarde acabou cometendo suic\u00eddio. Se a ostensiva \u201cmisoan\u00e1lise\u201d de seus dias de universidade pode ser atribu\u00edda em parte a uma batalha contra o politicamente correto e a diversidade, \u00e9 menos claro por que Thiel quis se vingar t\u00e3o desenfreadamente do site que revelou sua homossexualidade em 2011, que ele destruiu mediante um processo judicial. A explica\u00e7\u00e3o oferecida por seu bi\u00f3grafo \u00e9 que alguns dos principais investidores do fundo de Thiel eram \u201cfundos soberanos \u00e1rabes controlados por governos que consideravam a homossexualidade um crime\u201d.<\/p>\n<p>Mas, acima de tudo, se um libert\u00e1rio pode defender a monarquia absolutista, ele tamb\u00e9m pode ganhar dinheiro com uma empresa de vigil\u00e2ncia, com um Big Brother: em 2003, Thiel fundou a Palantir, uma empresa \u201cespecializada em an\u00e1lise de big data\u201d, ou seja, uma empresa de vigil\u00e2ncia, que foi imediatamente financiada pelo fundo de investimento da CIA, o In-Q-Tel. Uma contradi\u00e7\u00e3o? Contudo, em\u00a0<em>The Straussian Moment<\/em>, escrito exatamente quando ele estava fundando a Palantir, o libert\u00e1rio Thiel escreveu: \u201cEm vez das Na\u00e7\u00f5es Unidas, repleta de debates parlamentares intermin\u00e1veis e inconclusivos, que se assemelham a contos shakespearianos contados por idiotas, dever\u00edamos considerar o sistema Echelon, uma coordena\u00e7\u00e3o secreta da espionagem mundial, como o caminho decisivo para uma Pax Americana verdadeiramente global\u201d: o Echelon \u00e9 o mecanismo de vigil\u00e2ncia planet\u00e1ria mais invasivo j\u00e1 concebido na hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p>A Palantir progrediu aos trancos e barrancos at\u00e9 que, em 2011, circulou um boato de que a empresa havia \u201cajudado a matar Osama\u201d (Chafkin). Desde ent\u00e3o, os contratos se multiplicaram e at\u00e9 mesmo a pol\u00edcia alem\u00e3 solicitou os servi\u00e7os da empresa, que fornece n\u00e3o apenas o software, mas tamb\u00e9m os t\u00e9cnicos para us\u00e1-lo ( hoje, por\u00e9m, a pol\u00edcia alem\u00e3 quer cancelar o contrato). Assim, num paradoxo da lucratividade capitalista, a Palantir est\u00e1 avaliada em 17,6 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, sem nunca ter tido lucro, e \u00e9 agora o maior elemento da fortuna de Thiel. Por um lado, o libert\u00e1rio faz fortuna espionando a vida das pessoas; por outro, ele promove bitcoins e criptomoedas como ferramentas de liberta\u00e7\u00e3o da tirania dos Estados: Thiel h\u00e1 muito tempo argumenta que a tecnologia blockchain e os criptoativos, incluindo as criptomoedas e o Bitcoin, \u201ct\u00eam o potencial de libertar os cidad\u00e3os do Estado, tornando imposs\u00edvel para os governos expropriar a riqueza por meio da infla\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 inconsist\u00eancia ou contradi\u00e7\u00e3o, mas cinismo puro e simples. At\u00e9 mesmo sua autoproclama\u00e7\u00e3o como um \u201coponente ferrenho\u201d faz parte do jogo de se apresentar como uma minoria oprimida, um forasteiro, um azar\u00e3o, um dissidente completo. Mas que tipo de inconformismo \u00e9 esse de querer se tornar rico e poderoso? A defesa dos monop\u00f3lios tamb\u00e9m est\u00e1 perfeitamente de acordo com o esp\u00edrito da \u00e9poca, uma vez que, na d\u00e9cada de 1970, Henry Manne liderou uma verdadeira \u201crevolu\u00e7\u00e3o no direito das empresas\u201d e a escola neoliberal j\u00e1 havia rebatizado as pr\u00e1ticas monopolistas como competitivas.<\/p>\n<p>Certamente, essa total falta de escr\u00fapulos lembra a moralidade do\u00a0<em>\u00dcbermensch<\/em>\u00a0nietzschiano, a quem tudo \u00e9 permitido \u2013 ser libert\u00e1rio e flertar com a Opus Dei, juntar-se ao Grupo Bilderberg e financiar Steve Bannon, tornar-se por um tempo o padrinho de Donald Trump no Vale do Sil\u00edcio e depois o porta-estandarte do trumpismo sem Trump e, finalmente, tornar-se um promotor da Nova Direita. (A cr\u00edtica contra o politicamente correto lembra o lamento de Nietzsche em\u00a0<em>Genealogia da Moral<\/em>\u00a0pela revolta da moralidade dos escravos: \u201cOs senhores est\u00e3o liquidados, a moral do homem comum venceu\u201d). E tudo isso \u00e9 atravessado pela tenta\u00e7\u00e3o de realizar uma secess\u00e3o permanente, mas n\u00e3o uma secess\u00e3o dos plebeus em rela\u00e7\u00e3o ao patriciado, como era o caso na Roma antiga (como na f\u00e1bula de Menenius Agrippa), mas sim do patriciado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 plebe. Da\u00ed a compra de uma propriedade na Nova Zel\u00e2ndia ou o financiamento (substancialmente malsucedido) do Seasteading, um projeto concebido para fundar uma comunidade autossuficiente no meio do oceano, localizada em \u00e1guas internacionais; um empreendimento que mais tarde foi redimensionado para um projeto mais modesto, localizado a 15 milhas da costa, para ser finalmente abandonado. H\u00e1 tamb\u00e9m um anseio de separatismo no envolvimento de Thiel com a empresa aeroespacial SpaceX, de Elon Musk: em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de isolamento no espa\u00e7o, Thiel \u00e9 muito menos morno do que em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00c9 de se perguntar: com que finalidade? O pre\u00e7o do niilismo \u00e9 a falta de sentido da pr\u00f3pria vida, do pr\u00f3prio trabalho, de querer ir para o t\u00famulo carregado de ouro. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o medo de morrer parece ser o sentimento dominante deste enxadrista da vida. O filme O S\u00e9timo Selo, de Ingmar Bergman, vem \u00e0 mente quando o cavaleiro joga sua (\u00faltima) partida de xadrez com a morte. Thiel quer \u201clutar contra a morte\u201d, \u201cele acredita que a morte nada mais \u00e9 do que um bug (um erro de programa\u00e7\u00e3o) no conjunto de caracter\u00edsticas do homem, um bug para o qual ele pode comprar uma sa\u00edda\u201d. Portanto, faz sentido financiar startups que prometem estender a vida para pelo menos 120 anos ou outras maravilhas, como a cura definitiva para o Alzheimer, e assim por diante.<\/p>\n<p>Assim, Thiel investe muito dinheiro em entidades como Halcyon Molecular, Emerald Therapeutics, Unity Biotechnology e Methuselah Foundation. Se tudo isso falhar, Thiel est\u00e1 disposto a ter seu c\u00e9rebro congelado na expectativa de reencarnar, quando a tecnologia assim permitir. Ele n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico bilion\u00e1rio que espera enganar a morte. Jeff Bezos e Larry Page tamb\u00e9m compartilham essa expectativa razo\u00e1vel e, consequentemente, financiam a Alcor Life Extension Foundation, \u201cque congela os corpos e c\u00e9rebros dos mortos desde 1970\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o desprezo de Thiel pelo resto da humanidade deve ser, no m\u00ednimo, t\u00e3o grande quanto seu desprezo aberto pelo g\u00eanero feminino, se \u00e9 que acredita que n\u00f3s, escravos, somos masoquistas o suficiente para nos convencer a sermos servos e aceitarmos sua moral. Ele seria o primeiro \u201cativista pol\u00edtico\u201d (como ele se autodenomina em seu verbete na Wikip\u00e9dia) que espera convencer seu p\u00fablico n\u00e3o prometendo algo, mas garantindo-nos o inferno como o \u00fanico futuro que n\u00f3s, o rebanho, merecemos. O nome cunhado a esse novo manifesto do capitalismo mundial \u00e9 de fato apropriado: Iluminismo sombrio. Ao fim e a cabo, apagar a luz \u00e9 realmente inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Peter Thiel, o sombrio capitalista militante &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/peter-thiel-o-sombrio-capitalista-militante\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marco D\u2019Eramo &#8211;\u00a0Fundador do PayPal declara-se fil\u00f3sofo da Nova Direita. Deturpa Nietzsche e Maquiavel \u2013 e prega que o progresso s\u00f3 vir\u00e1 sob uma monarquia absolutista de monop\u00f3lios. Seu desejo: emancipar os capitalistas da explora\u00e7\u00e3o pelos trabalhadores. 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