{"id":24311,"date":"2024-11-08T12:22:57","date_gmt":"2024-11-08T15:22:57","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24311"},"modified":"2024-11-09T13:51:24","modified_gmt":"2024-11-09T16:51:24","slug":"o-brasil-e-um-pais-inacabado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/11\/08\/o-brasil-e-um-pais-inacabado\/","title":{"rendered":"O Brasil \u00e9 um pa\u00eds inacabado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Instituto Humanitas Unisinos &#8211; <\/strong>Um depoimento autobiogr\u00e1fico de Eduardo Hoornaert \u2013 Parte I.<\/p>\n<p>Testemunha viva dos eventos mais marcantes do s\u00e9culo XX, o te\u00f3logo e professor nascido na B\u00e9lgica viveu momentos marcantes no Brasil, sendo um dos maiores nomes da teologia brasileira<\/p>\n<p>Diferentemente do que voc\u00ea est\u00e1 acostumado a ler nesta se\u00e7\u00e3o do site do\u00a0Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU, esta n\u00e3o \u00e9 uma entrevista nem uma reportagem. O dever \u00e9tico de um jornalista diante de um texto desta magnitude \u00e9 abrir m\u00e3o da assinatura e entregar ao autor dos par\u00e1grafos que se seguem os m\u00e9ritos de uma vida inspiradora e uma escrita elegante. O que ora foram perguntas agora se converte em um texto fluido e fascinante.<\/p>\n<p>Eduardo Hoornaert\u00a0nasceu em Bugres, na\u00a0B\u00e9lgica, em 1930, tendo completado 94 anos no \u00faltimo 7 de outubro. Quando crian\u00e7a, testemunhou pela fresta de uma cortina, durante dois dias e duas noites, as tropas nazistas passaram em frente \u00e0 sua casa. A imagem da frase\u00a0Gott mit uns\u00a0(Deus conosco) o marcou para sempre. Mais tarde no semin\u00e1rio se dedicaria a temas hist\u00f3ricos, mas tamb\u00e9m \u00e0 obra do fil\u00f3sofo austr\u00edaco\u00a0Ludwig Wittgenstein.<\/p>\n<p>No fim da d\u00e9cada de 1950,\u00a0Hoornaert\u00a0veio para o\u00a0Nordeste brasileiro, onde daria aulas nos semin\u00e1rios de\u00a0Jo\u00e3o Pessoa\u00a0e\u00a0Recife\u00a0\u2013 este \u00faltimo a partir de 1963, onde conheceu e se tornou amigo de\u00a0Dom H\u00e9lder C\u00e2mara. Em 1969 e 1970, ele lecionou no\u00a0Semin\u00e1rio do Cristo Rei\u00a0em\u00a0S\u00e3o Leopoldo\/RS. Conheceu\u00a0Frei Betto, ent\u00e3o perseguido pela ditadura militar e que estava, como ele conta, escondido no Sul do Brasil.<\/p>\n<p>Morando em\u00a0Recife, uma de suas experi\u00eancias mais marcantes nesse per\u00edodo foi como p\u00e1roco da comunidade de\u00a0Alto do Pascoal, onde viveu por nove anos. Compreendeu ali que \u201co\u00a0Brasil\u00a0\u00e9 um pa\u00eds \u2018inacabado\u2019. (\u2026) Eis a mem\u00f3ria que eu guardo dos nove anos vividos no Alto do Pascoal. A fragilidade da vida, a luta nunca acabada, o apelo para um futuro melhor. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds em constru\u00e7\u00e3o permanente, um pa\u00eds de tenacidade e paci\u00eancia\u201d, classifica.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a primeira parte do depoimento de\u00a0Eduardo Hoornaert\u00a0concedido por e-mail ao\u00a0Instituto Humanitas Unisinos \u2013 IHU. Em breve ser\u00e1 publicada a segunda parte desta autobiografia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2022\/04\/30-04_eduardo_foto_lagarto_noticias.jpg?resize=290%2C280&#038;ssl=1\" width=\"290\" height=\"280\" \/><\/p>\n<p><em>Eduardo Hoornaert\u00a0(Foto: Lagarto Not\u00edcias)\u00a0<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/612144\" rel=\"noopener noreferrer\">Eduardo Hoornaert<\/a>\u00a0cursou dois anos de L\u00ednguas Cl\u00e1ssicas e Hist\u00f3ria Antiga e, posteriormente, Teologia, na Universidade de Lovaina. Chegou a Jo\u00e3o Pessoa, no Brasil, em 1958. Foi professor catedr\u00e1tico em Hist\u00f3ria da Igreja, sucessivamente nos Institutos de Teologia de Jo\u00e3o Pessoa, Recife e Fortaleza. \u00c9 membro fundador da Comiss\u00e3o de Estudos da Hist\u00f3ria da Igreja na Am\u00e9rica Latina (CEHILA), entidade aut\u00f4noma fundada em 1973, em Quito, Equador. Desde 1962 escreve artigos de cunho hist\u00f3rico para a Revista Eclesi\u00e1stica Brasileira (REB), da Editora Vozes, na \u00e1rea do catolicismo no Brasil e do cristianismo em geral.<\/p>\n<p><strong>Confira o depoimento:<\/strong><\/p>\n<p>Em 07-10-1930 nasci em\u00a0Bruges, cidade no norte da\u00a0B\u00e9lgica. Um pa\u00eds do tamanho de\u00a0Alagoas. A maior dist\u00e2ncia, do norte ao sul, \u00e9 de uns 250 quil\u00f4metros. Um pa\u00eds pequeno, rodeado de vizinhos grandes (e poderosos). A cidade em que nasci, de fala flamenga, fica a 35 quil\u00f4metros da\u00a0Fran\u00e7a, 19 quil\u00f4metros da\u00a0Holanda, 50 quil\u00f4metros da\u00a0Inglaterra\u00a0e 120 quil\u00f4metros da\u00a0Alemanha. A capital da B\u00e9lgica,\u00a0Bruxelas, fica a pouco mais de 100 quil\u00f4metros. Acontece que nenhum desses vizinhos era do agrado das pessoas no meio das quais me criei: a Fran\u00e7a era \u201cateia\u201d; a Holanda, \u201cprotestante\u201d; a Inglaterra, \u201cfria\u201d; a Alemanha, \u201cperigosa\u201d. Mesmo Bruxelas nos era estranha, pois a\u00ed se fala franc\u00eas e h\u00e1 clubes noturnos com\u00a0striptease.<\/p>\n<p>\u00c9ramos \u201cflamengos\u201d. A regi\u00e3o guardava ra\u00edzes culturais anteriores \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos atuais estados europeus, as chamadas \u201cna\u00e7\u00f5es europeias\u201d, que \u00e9 um processo dos tempos modernos. Ser flamengo, viver na\u00a0Flandres, remetia aos tempos medievais, quando a Flandres tinha conquistado uma not\u00e1vel capacidade de resist\u00eancia diante da Fran\u00e7a, que secularmente amea\u00e7ava dominar a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os estados europeus de hoje resultam de processos pol\u00edticos frequentemente artificiais, com resultados nem sempre satisfat\u00f3rios. Dizem que a \u00fanica na\u00e7\u00e3o europeia sem problemas de conviv\u00eancia interna \u00e9 a\u00a0Isl\u00e2ndia. At\u00e9 hoje, o estado espanhol tem dificuldades com bascos e catal\u00e3es, a Inglaterra lida com dissidentes na\u00a0Esc\u00f3cia\u00a0e na\u00a0Irlanda, enquanto a It\u00e1lia dificilmente consegue uma real integra\u00e7\u00e3o nacional entre, digamos, Mil\u00e3o e N\u00e1poles. Mesmo os pa\u00edses aparentemente bem integrados, como a Fran\u00e7a e a Alemanha, contam com culturas bastante diferentes dentro de suas fronteiras.<br \/>\n<img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2024\/10\/22_10_provincias_belgica_fonte_hit-geo_com.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><em>\u00a0(Fonte: portal Nina Santos)<\/em><\/p>\n<p><strong>O nacionalismo<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0B\u00e9lgica\u00a0\u00e9 um exemplo paradigm\u00e1tico de artificialidade pol\u00edtica. A fronteira lingu\u00edstica entre culturas tradicionalmente latinas e culturas de raiz germ\u00e2nica (como a flamenga) corre exatamente pela B\u00e9lgica, cuja formata\u00e7\u00e3o bil\u00edngue \u00e9 o resultado de arranjos feitos pelo chanceler prussiano\u00a0Otto von Bismarck\u00a0no decorrer do s\u00e9culo XIX. Para formar um cord\u00e3o \u201camortecedor\u201d de pequenas na\u00e7\u00f5es (a\u00a0Holanda, a\u00a0B\u00e9lgica,\u00a0Luxemburgo\u00a0e a\u00a0Su\u00ed\u00e7a) entre duas na\u00e7\u00f5es que, naquele tempo, demonstravam tend\u00eancias imperialistas (a Fran\u00e7a e a Alemanha),\u00a0Bismarck\u00a0n\u00e3o enxergou outra solu\u00e7\u00e3o sen\u00e3o juntar popula\u00e7\u00f5es de l\u00edngua francesa a popula\u00e7\u00f5es que falavam a l\u00edngua flamenga.<\/p>\n<p>Viver na\u00a0B\u00e9lgica bil\u00edngue\u00a0constitui, pois, um desafio. Ambas as culturas, a latina do sul, a germ\u00e2nica do norte, s\u00e3o de dif\u00edcil coexist\u00eancia. Mas penso que nenhum belga, hoje, perde o sono por causa dessa dificuldade. Aprende-se a conviver, de qualquer jeito, e mesmo de aprender com o diferente.<\/p>\n<p>Aprendi, desde meus 8 anos, a falar franc\u00eas. Quando meu av\u00f4 nos visitava, eu me lembro, a primeira coisa que ele olhava no meu boletim de escola era meu desempenho no estudo do franc\u00eas. N\u00e3o queria saber se eu era bom em Religi\u00e3o ou em Matem\u00e1tica. S\u00f3 olhou para os resultados da disciplina de Franc\u00eas. E ficou satisfeito: \u201cVai bem em Franc\u00eas, vai ser gente!\u201d No seu entendimento, falar franc\u00eas era absolutamente fundamental para \u201cser gente\u201d.<\/p>\n<p>Mas existia, de outro lado, um forte sentimento regionalista. No fundo, n\u00e3o quer\u00edamos ser um \u201cbom belga\u201d, mas um \u201cbom flamengo\u201d. Essa raiz era muito profunda. A\u00a0cultura flamenga\u00a0era de teor bastante conservador, de certo modo at\u00e9 xen\u00f3fobo. A ideia era que n\u00f3s t\u00ednhamos de reagir contra o chamado \u201cmundo\u201d. O s\u00edmbolo mais pr\u00f3ximo desse \u201cmundo perverso\u201d era Bruxelas, porque l\u00e1 tinha cinema com\u00a0Brigitte Bardot, tinha boates, tinha\u00a0striptease, coisa absolutamente inimagin\u00e1vel em\u00a0Flandres. Al\u00e9m disso, ali se falava franc\u00eas. Pior era Paris, que fica a 500 quil\u00f4metros, a terra para onde os flamengos viajavam para cometer o grande pecado de sua vida: ver mulheres dan\u00e7ando e levantando a saia no\u00a0Moulin Rouge.<\/p>\n<p><strong>A Grande Guerra 1940-1945<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0Grande Guerra, de certo modo, interrompeu minha inf\u00e2ncia. Ela irrompeu em 1940, quando eu tinha 10 anos. O ex\u00e9rcito de\u00a0Hitler\u00a0passou por cima da B\u00e9lgica em oito dias e, dez dias depois, j\u00e1 estava em Paris. O ex\u00e9rcito alem\u00e3o era uma m\u00e1quina preparada para um \u201cblitzkrieg\u201d (guerra rel\u00e2mpago). Nunca mais, em minha vida, vi algo parecido com a\u00a0disciplina militar alem\u00e3\u00a0em 1940.<\/p>\n<p>Deixe-me contar um epis\u00f3dio que ilustra isso. N\u00f3s mor\u00e1vamos numa avenida com acesso \u00e0 cidade de\u00a0Bruges, para quem vem do Leste. Minha m\u00e3e abriu um pouco a persiana que cobria a janela que dava \u00e0 rua e pelas brechas espi\u00e1vamos a tropa alem\u00e3 passar. Durante dois dias e duas noites, tropas alem\u00e3s marchavam na frente da nossa casa a p\u00e9. Um, dois, um, dois! Na frente de cada pelot\u00e3o, um homem sentado num cavalo, o resto a p\u00e9. De tempos em tempos, o comandante gritava uma palavra de ordem e a tropa parava como se fosse uma m\u00e1quina. Ele descia do cavalo e dava uma barra de chocolate a cada soldado, que comia em perfeito sil\u00eancio, depois tomava um gole de \u00e1gua do cantil e relaxava por uns minutos. Em seguida, ouvia-se de novo\u00a0marschieren! (em marcha). Isso por dois dias e duas noites. Eu me recordo que naquele momento disse \u00e0 minha m\u00e3e: \u201cN\u00e3o tem jeito, eles vieram para ficar\u201d.\u00a0Hitler\u00a0herdou um ex\u00e9rcito extremamente disciplinado e conseguiu que os soldados, gente humilde em sua grande maioria, acreditassem que estavam realizando uma obra grandiosa, que contava com a ajuda de Deus.<\/p>\n<p>No capacete, o soldado alem\u00e3o carregava as palavras:\u00a0Gott mit uns\u00a0(Deus conosco). Uma frase carregada de hist\u00f3ria, que abre uma perspectiva de dez s\u00e9culos de hist\u00f3ria do Ocidente. Em 1095, o\u00a0Papa Urbano II, ao declarar guerra contra os sarracenos, disse que o motivo era recuperar a Terra Santa das m\u00e3os dos infi\u00e9is. No calor da hora, ele gritou, no franc\u00eas da \u00e9poca:\u00a0Dieu veult! (Deus quer). Deus conosco. O\u00a0Dieu veult\u00a0funcionou por s\u00e9culos. Quando\u00a0Constantinopla, capital multissecular da cristandade grega, caiu nas m\u00e3os dos turcos em 1453, o Papa\u00a0Alexandre VI, na bula\u00a0Inter Caetera, de 1493, decretou que as na\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras (na realidade as latino-americanas) fossem derrubadas e trazidas \u00e0 f\u00e9 (leia-se, a f\u00e9 cat\u00f3lica). \u201cDeus quer!\u201d O papa, que n\u00e3o entendia muito de geografia, pensou que um dom\u00ednio sobre os chamados \u201c\u00edndios\u201d (confus\u00e3o entre a\u00a0\u00cdndia\u00a0no\u00a0Oriente\u00a0e a\u00a0Am\u00e9rica\u00a0no\u00a0Ocidente) poderia encurralar o poder mu\u00e7ulmano e facilitar a reconquista do mundo crist\u00e3o. Na\u00a0Am\u00e9rica Latina\u00a0se usa at\u00e9 hoje o termo \u201c\u00edndio\u201d para designar um representante de povos origin\u00e1rios do continente.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/03y7bHYqhls?si=ZO9yE9J_l_MYOnLF\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Paix\u00e3o por livros<\/strong><\/p>\n<p>Nossa casa tinha muitos livros. Havia no s\u00f3t\u00e3o uma esp\u00e9cie de biblioteca secreta, com livros que \u201cn\u00e3o eram para crian\u00e7as\u201d. N\u00e3o era fechada \u00e0 chave e eu ia fuxicar em livros que n\u00e3o eram para minha idade. Meu pai, por vezes, me surpreendeu naquela \u201cbiblioteca\u201d. Desde cedo, me apaixonei por livros. Eles instigaram em mim a vontade de entender melhor o mundo, instigaram a ideia de hist\u00f3ria, pois entendia cedo que ela podia me dar uma maior compreens\u00e3o do mundo em que vivia. Encontrei, naquela biblioteca, livros em holand\u00eas, franc\u00eas e alem\u00e3o. Raramente em ingl\u00eas. Eles agu\u00e7aram em mim a vontade de conhecer mais esses mundos \u201cgrandes\u201d, poderosos e atraentes: o mundo franc\u00eas, o mundo ingl\u00eas, o mundo alem\u00e3o. Enfim, me apaixonei por livros e guardo essa paix\u00e3o at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>J\u00e1 na idade adulta, visitar uma grande cidade como\u00a0Paris\u00a0ou\u00a0Londres\u00a0significava passar horas a fio numa dessas maravilhosas livrarias de diversos andares, onde mundos desconhecidos se abriram para mim. O professor da escola prim\u00e1ria j\u00e1 descobriu minha paix\u00e3o por livros e me fez \u201cbibliotec\u00e1rio\u201d da escola, encargo de que me orgulhava muito. No\u00a0semin\u00e1rio de Bruges, fui igualmente bibliotec\u00e1rio. Gostei tanto do of\u00edcio que, durante as f\u00e9rias, fiz um curso em biblioteconomia e consegui um diploma, que guardo at\u00e9 hoje. Nos dois anos em que estudei em\u00a0Lovaina, a cidade universit\u00e1ria, entre 1950 e 1952, ir \u00e0 livraria era um prazer, mesmo sem comprar nada, pois meu dinheiro era parco. Quando viajei a\u00a0Jo\u00e3o Pessoa\u00a0em 1958, de avi\u00e3o, nada menos de 18 malas de ferro, repletas de livros, me seguiram de navio e chegaram quinze dias depois no\u00a0porto de Recife. Foi vendo meus livros, j\u00e1 arrumados em estantes, que o bispo auxiliar de Jo\u00e3o Pessoa,\u00a0Dom Manuel Pereira, pensou em me convidar a dar aulas no semin\u00e1rio. Meus livros me acompanharam de\u00a0Jo\u00e3o Pessoa\u00a0a\u00a0Recife, depois a\u00a0Fortaleza\u00a0e, finalmente, a\u00a0Salvador, na\u00a0Bahia. Novos livros chegavam continuamente. Por volta de 2016, doei 82 caixas de livros \u00e0 Biblioteca Central da Universidade Cat\u00f3lica de Recife (UNICAP), um pr\u00e9dio de cinco andares, a mais organizada biblioteca universit\u00e1ria que encontrei no\u00a0Nordeste. Quase todos eles s\u00e3o de teor historiogr\u00e1fico. Ainda com a idade de 70 anos, comprei todos os livros que consegui encontrar a respeito de\u00a0Wittgenstein, como conto adiante. Esse fil\u00f3sofo deixou marcas em meu entendimento da vida e do mundo.<\/p>\n<p><strong>O Col\u00e9gio<\/strong><\/p>\n<p>Entre 1942 e 1948, cursei o chamado curso \u201cHumaniora\u201d no\u00a0Col\u00e9gio S\u00e3o Lu\u00eds\u00a0em\u00a0Bruges. Era um curso exclusivo para rapazes com seis anos de dura\u00e7\u00e3o. Meu pai fez quest\u00e3o de matricular na \u201cHumaniora\u201d seus cinco filhos do sexo masculino, sucessivamente.<\/p>\n<p>Considerado o programa mais qualificado para o ensino m\u00e9dio da \u00e9poca, a \u201cHumaniora\u201d (studia humaniora: estudos human\u00edsticos) \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o de jesu\u00edtas do s\u00e9culo XVII, heran\u00e7a da \u00e9poca do\u00a0humanismo renascentista, com a finalidade n\u00e3o confessa de reagir contra uma\u00a0modernidade racionalista\u00a0que estava estourando na\u00a0Europa. Tratava-se de resgatar tradi\u00e7\u00f5es human\u00edsticas vinculadas ao cristianismo por meio da valoriza\u00e7\u00e3o de \u201cl\u00ednguas mortas\u201d e da cultura greco-romana, da qual a Europa renascentista se julgava herdeira. Eram tradi\u00e7\u00f5es que carregavam preciosos tesouros de sabedoria humana.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o se possa dizer que a \u201cHumaniora\u201d tenha prenunciado o \u201cm\u00e9todo\u00a0Paulo Freire\u201d, alguns par\u00e2metros que se encontram no pedagogo pernambucano, hoje considerado um dos pensadores mais not\u00e1veis na hist\u00f3ria da pedagogia mundial, estavam presentes em nossa forma\u00e7\u00e3o human\u00edstica. Em\u00a0Pedagogia do oprimido\u00a0(1970),\u00a0Paulo Freire\u00a0(1921-1997) distingue entre opressores e oprimidos e nisso remonta a\u00a0Hegel, como expresso em\u00a0Fenomenologia do Esp\u00edrito. Ele \u00e9, como Hegel escreve, um \u201ctecel\u00e3o paciente\u201d, que separa os fios de um \u201cesp\u00edrito alienado\u201d dos fios de um \u201cesp\u00edrito verdadeiro\u201d.<\/p>\n<p>A \u201cHumaniora\u201d de meu tempo cultivava alguns pontos parecidos com o m\u00e9todo freireano. N\u00e3o era alheia \u00e0s inspira\u00e7\u00f5es de\u00a0Plat\u00e3o\u00a0ou\u00a0Hegel, cultivava o\u00a0esp\u00edrito\u00a0cr\u00edtico\u00a0e mantinha uma atitude aberta diante da sociedade. Em geral, os estudos no col\u00e9gio secund\u00e1rio me foram ben\u00e9ficos. Eles n\u00e3o eram de car\u00e1ter t\u00e9cnico, mas human\u00edstico. At\u00e9 hoje, defendo essa orienta\u00e7\u00e3o para estudos secund\u00e1rios. Adorei o estudo de latim e de grego, e nunca questionei o que esse estudo, aparentemente sem preparar uma eventual futura profiss\u00e3o, podia significar para mim. N\u00e3o pensava nisso, n\u00e3o me imaginava um futuro engenheiro, arquiteto, m\u00e9dico ou advogado. Nunca, nesses anos todos, fiz esse tipo de considera\u00e7\u00e3o. Eu gostava de estudar, tinha prazer em adquirir diariamente conhecimentos novos sobre os mais diversos temas da vida.<\/p>\n<p>Eu me apliquei principalmente no estudo das l\u00ednguas cl\u00e1ssicas. N\u00e3o era bom em matem\u00e1tica, por desencanto de meu pai, que dizia: \u201cMatem\u00e1tica \u00e9 o futuro, abre para as ci\u00eancias modernas\u201d. Mas eu persistia em meu grego. No col\u00e9gio onde estudei, n\u00e3o bastava ser bom nos estudos. Para ser valorizado pelos formadores, era preciso ser \u201cidealista\u201d. O bom estudante tinha de se mostrar \u201cidealista\u201d, dar sinais de idealismo. Um sinal de idealismo consistia em participar do movimento de juventude cat\u00f3lica, que sempre contava com a presen\u00e7a de um assistente religioso, um sacerdote. A\u00ed pairava no ar, sem ser explicitada, a seguinte ideia: o ato supremo de idealismo consiste em optar pelo\u00a0sacerd\u00f3cio. Candidatar-se ao sacerd\u00f3cio \u00e9 o caminho para uma vida perfeita.<\/p>\n<blockquote><p>Olhando hoje, percebo como era fr\u00e1gil a motiva\u00e7\u00e3o que me levou a entrar no semin\u00e1rio, e como minha forma\u00e7\u00e3o sacerdotal estava baseada numa teologia ultrapassada. Afinal, faltou a clareza que o evangelho traz \u2013 Eduardo Hoornaert<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O semin\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Impulsionado por esse \u201cidealismo\u201d, entrei no semin\u00e1rio diocesano aos 19 anos. S\u00f3 fiquei um ano ali, pois fui selecionado para estudar na\u00a0Universidade de Lovaina\u00a0por dois anos. Depois, voltei ao semin\u00e1rio diocesano por quatro anos, entre 1951 e 1955, quando me ordenei sacerdote.<\/p>\n<p>Como acabei de escrever, minha\u00a0voca\u00e7\u00e3o sacerdotal\u00a0tinha aquele gosto do \u201cidealismo\u201d acalentado nos anos de col\u00e9gio. Havia a ideia vaga de doa\u00e7\u00e3o da vida inteira, mas, pelo que me lembro, sem refer\u00eancia expl\u00edcita a\u00a0Jesus de Nazar\u00e9\u00a0e ao seu evangelho. O Jesus que nos foi apresentado n\u00e3o era o Jesus de Nazar\u00e9, mas o Jesus do altar, da eucaristia, da missa, da liturgia. Simplifico um pouco quando digo que a\u00a0forma\u00e7\u00e3o no semin\u00e1rio, em grande parte, consistia em preparar os jovens para celebrar a missa. Pelo que me recordo hoje, a grande perspectiva dos seminaristas era mesmo poder celebrar, um dia, a Santa Missa. A missa envolvia o sacerdote numa aur\u00e9ola de santidade. Olhando hoje, percebo como era fr\u00e1gil a motiva\u00e7\u00e3o que me levou a entrar no semin\u00e1rio, e como minha forma\u00e7\u00e3o sacerdotal estava baseada numa teologia ultrapassada. Afinal, faltou a clareza que o evangelho traz.<\/p>\n<p>A igreja em que me engajei se baseava numa tradi\u00e7\u00e3o de s\u00e9culos de hegemonia sobre a cultura ocidental. O sistema do semin\u00e1rio prov\u00e9m das\u00a0escolas beneditinas\u00a0dos s\u00e9culos IV e V, marcado por regras mon\u00e1sticas: o culto ao sil\u00eancio e a observ\u00e2ncia estrita de um hor\u00e1rio fixo. Acordar muito cedo, meia hora de medita\u00e7\u00e3o, ajoelhado na capela, depois a missa, o caf\u00e9 da manh\u00e3 em sil\u00eancio. Ao longo do dia, um sil\u00eancio s\u00f3 interrompido em casos de necessidade. A partir das 21 horas, o\u00a0silentium magnum\u00a0(sil\u00eancio grande).<\/p>\n<p>Um paradigma mon\u00e1stico inconteste e indiscut\u00edvel era o\u00a0celibato. N\u00e3o se discutia esse tema, pois o celibato era considerado parte normal da vida clerical. Todo o mundo sabia que estava se formando num internato onde voc\u00ea n\u00e3o era mais\u00a0Jo\u00e3o\u00a0ou\u00a0Pedro, mas seminarista, candidato ao sacerd\u00f3cio. Ent\u00e3o, voc\u00ea era da Igreja, n\u00e3o era mais da fam\u00edlia, n\u00e3o era mais da cidade, n\u00e3o era mais da comunidade social e cultural em que se criou. Voc\u00ea era seminarista, aprendiz de uma nova cultura, a cultura clerical. N\u00e3o se enxergava mais nada por tr\u00e1s da grande cortina que foi baixada sobre a hist\u00f3ria da Igreja, no s\u00e9culo IV, pelo\u00a0Imperador Constantino. N\u00e3o se percebia mais a Igreja primitiva, as primeiras comunidades. A Igreja que se enxergava era uma igreja de dioceses e par\u00f3quias, bispos e sacerdotes. A cortina descia sobre a hist\u00f3ria anterior. A Igreja, tal qual estava organizada, nos parecia corresponder \u00e0 vontade de Deus. Desafiada pela cultura moderna, ela reagiu, criando no clero uma mentalidade apolog\u00e9tica. A teologia que cursei em\u00a0Bruges\u00a0estava toda permeada de esp\u00edrito apolog\u00e9tico, como se fosse necess\u00e1rio esgrimir, sem parar, contra um inimigo invis\u00edvel e onipresente: o\u00a0esp\u00edrito da modernidade. \u201cN\u00f3s temos raz\u00e3o, nossa tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 aut\u00eantica, testada por s\u00e9culos. O pensamento moderno \u00e9 um desvio, uma aberra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>A teologia que cursei em Bruges estava toda permeada de esp\u00edrito apolog\u00e9tico, como se fosse necess\u00e1rio esgrimir, sem parar, contra um inimigo invis\u00edvel e onipresente: o esp\u00edrito da modernidade \u2013 Eduardo Hoornaert<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O Col\u00e9gio para a Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n<p>Em 05-03-1955, fui ordenado\u00a0sacerdote diocesano em Bruges, num tempo em que se articulou, dentro da Igreja europeia, um forte movimento em prol da colabora\u00e7\u00e3o com a\u00a0Igreja latino-americana. Surgiram, em setores do clero diocesano na\u00a0Fran\u00e7a, na\u00a0Alemanha, na\u00a0It\u00e1lia, na\u00a0B\u00e9lgica, na\u00a0Holanda, nos\u00a0Estados Unidos, no\u00a0Canad\u00e1\u00a0etc., movimentos em prol da ida de sacerdotes diocesanos \u00e0 Am\u00e9rica Latina. Formaram-se diversas institui\u00e7\u00f5es de prepara\u00e7\u00e3o a essas idas, como o\u00a0Col\u00e9gio para a Am\u00e9rica Latina, em\u00a0Lovaina, e seu hom\u00f4nimo em\u00a0Verona, na\u00a0It\u00e1lia. A maioria dos sacerdotes, que responderam ao apelo da Am\u00e9rica Latina, provinha de regi\u00f5es onde se vivia um catolicismo de grande ades\u00e3o popular, como\u00a0Flandres\u00a0na B\u00e9lgica,\u00a0Limburg\u00a0no sul da Holanda,\u00a0Baviera\u00a0no sul da Alemanha e a regi\u00e3o de\u00a0Verona-Bolonha\u00a0no norte da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Com a anu\u00eancia do\u00a0bispo de Bruges, me matriculei, em 1957, no\u00a0Col\u00e9gio para a Am\u00e9rica Latina\u00a0(COPAL), criado em 1953 pelos bispos belgas e ligado \u00e0\u00a0Universidade de Lovaina. Esse col\u00e9gio teve uma vida breve (fechou suas portas em 2000), mas fecunda: entre 1953 e 1967, registrou 133 partidas de sacerdotes belgas \u00e0 Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia nada acerca da\u00a0Am\u00e9rica Latina. Vi fotos de cidades como\u00a0S\u00e3o Paulo,\u00a0Rio de Janeiro\u00a0ou\u00a0M\u00e9xico, ouvi falar do\u00a0Rio Amazonas, do carnaval e do futebol. Pelo resto, ignor\u00e2ncia completa. Olhei demoradamente para o globo terrestre em cima de minha mesa de trabalho. Avaliei a enorme dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica e as diferen\u00e7as em termos de cultura. Meditei, ponderei, rezei e me decidi: \u201cvou para a Am\u00e9rica Latina\u201d.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s motiva\u00e7\u00f5es que nos levaram a nos candidatar no\u00a0COPAL, s\u00f3 uma minoria se sentia motivada a viajar \u00e0\u00a0Am\u00e9rica Latina\u00a0por causa da \u201cfalta de sacerdotes\u201d ou da \u201cnecessidade\u201d de lutar contra o comunismo, o protestantismo e o espiritismo. A maioria percebeu que o \u201cinimigo\u201d era outro: a fome, a pobreza, a marginaliza\u00e7\u00e3o social, o abandono. O que nos impressionava era a dist\u00e2ncia enorme, em termos de recursos financeiros, entre 20% de privilegiados e 80% de marginalizados vigente na\u00a0Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<blockquote><p>No COPAL, s\u00f3 uma minoria se sentia motivada a viajar \u00e0 Am\u00e9rica Latina por causa da \u201cfalta de sacerdotes\u201d ou da \u201cnecessidade\u201d de lutar contra o comunismo, o protestantismo e o espiritismo. A maioria percebeu que o \u201cinimigo\u201d era outro: a fome, a pobreza, a marginaliza\u00e7\u00e3o social, o abandono\u00a0 \u2013 Eduardo Hoornaert<\/p><\/blockquote>\n<p>Passei pouco mais de um ano no\u00a0COPAL, numa \u00e9poca em que tudo ainda estava para fazer: o curso de l\u00ednguas, a biblioteca, o centro de documenta\u00e7\u00e3o sobre o continente latino-americano. Tudo novidade num ambiente costumeiramente centrado em culturas europeias.<\/p>\n<p>Um dos problemas a ser enfrentado pelo COPAL era o esp\u00edrito de superioridade cultural, cultivado pelos europeus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0Am\u00e9rica Latina, o que tornava dif\u00edcil um contato em maior profundidade. O portugu\u00eas do Brasil, por exemplo, era uma l\u00edngua fora dos radares belgas. Eu me recordo que, quando alguns de n\u00f3s, dentro do\u00a0COPAL, j\u00e1 t\u00ednhamos decidido viajar ao Brasil e est\u00e1vamos interessados em aprender a l\u00edngua portuguesa, n\u00e3o encontramos ningu\u00e9m na universidade que estivesse em condi\u00e7\u00f5es de nos ensinar. Tivemos de recorrer ao\u00a0Assimil, m\u00e9todo de ensino por leituras daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>O col\u00e9gio funcionava como trampolim entre a\u00a0Igreja Cat\u00f3lica belga\u00a0e aqueles\u00a0bispos latino-americanos\u00a0que eventualmente pediam sacerdotes. Nesse sentido, o homem-chave daquele col\u00e9gio era um padre belga que j\u00e1 estivera na\u00a0Am\u00e9rica Latina, mantinha contatos com bispos latino-americanos e eventualmente recebia pedidos de envio de sacerdotes por parte daqueles bispos. Um belo dia (deve ter sido o in\u00edcio de 1958), esse padre me chamou e disse que o bispo auxiliar da diocese de Jo\u00e3o Pessoa,\u00a0Dom Manuel Pereira, solicitava um sacerdote que pudesse ensinar hist\u00f3ria no semin\u00e1rio daquela cidade, que carecia de professores. Como eu tinha estudado hist\u00f3ria antiga (latim e grego) na universidade entre 1950 e 1952, pensei: talvez eu possa ajudar no ensino da hist\u00f3ria. E assim finalmente viajamos, um colega e eu, em 03-09-1958. Embarcamos num avi\u00e3o da\u00a0KLM\u00a0(Companhia A\u00e9rea Holandesa), que fazia o trajeto\u00a0Amsterd\u00e3-Santiago de Chile, com escalas em\u00a0Bruxelas,\u00a0Lisboa\u00a0e\u00a0Recife.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o sabendo onde \u00edamos \u201ccair\u201d, n\u00e3o posso dizer que essa viagem foi, para n\u00f3s, um \u201cpulo no escuro\u201d. Pois, em pa\u00edses do Ocidente, um sacerdote, ao viajar, nunca d\u00e1 um pulo no escuro, j\u00e1 que participa de uma das corpora\u00e7\u00f5es internacionais mais coesas do mundo, que \u00e9 o clero cat\u00f3lico. Ele pode contar com acolhimento para onde for. Escrevo isso para explicar que nossa sa\u00edda da terra natal n\u00e3o constitu\u00eda uma aventura t\u00e3o grande. N\u00f3s pod\u00edamos contar com uma corpora\u00e7\u00e3o que se estende pelo mundo ocidental inteiro e que cultiva \u201cad intra\u201d as virtudes pr\u00e9-capitalistas de fidelidade e confian\u00e7a. Para conseguir me hospedar em conventos ou casas religiosas, por exemplo, eu nunca tive de apresentar documentos de identidade. Bastava a batina. Uma segunda observa\u00e7\u00e3o. Entre 1958 e 1960, o mundo estava \u00e0s v\u00e9speras de importantes reviravoltas. Estava se gestando um clima de grandes mudan\u00e7as, que, em 1962, ia desembocar no\u00a0Conc\u00edlio Vaticano II\u00a0e, em\u00a01968, na revolta dos estudantes em Paris. Mas, ao viajar ao\u00a0Brasil\u00a0em 1958, eu n\u00e3o tinha consci\u00eancia de nada disso.<\/p>\n<p><strong>Professor no Semin\u00e1rio de Jo\u00e3o Pessoa<\/strong><\/p>\n<p>No\u00a0Aeroporto dos Guararapes, em\u00a0Recife, na manh\u00e3 de 04-09-1958, um padre da\u00a0Arquidiocese da Para\u00edba\u00a0nos aguardava. Com gentileza e trato fino, ele foi a primeira pessoa a nos revelar a capacidade que o brasileiro tem em receber bem quem vem de fora. Ent\u00e3o, um carro nos levou direto de\u00a0Recife\u00a0ao\u00a0Semin\u00e1rio Diocesano de Jo\u00e3o Pessoa. Uma viagem longa, pois diversos trechos da estrada ainda n\u00e3o estavam asfaltados. J\u00e1 era tarde quando chegamos.<\/p>\n<p>Com apenas um m\u00eas e quinze dias no Brasil, eu me tornei professor de Hist\u00f3ria da Igreja no\u00a0Semin\u00e1rio Maior de Jo\u00e3o Pessoa, que, naquele tempo, reunia estudantes da\u00a0Para\u00edba, do\u00a0Rio Grande do Norte\u00a0e de\u00a0Pernambuco, num n\u00famero de quase cem. Dei a primeira aula em franc\u00eas e recordo at\u00e9 o tema: \u201cSaint Fran\u00e7ois d\u2019Assise\u201d (S\u00e3o Francisco de Assis). Os estudantes fingiam entender o que o estrangeiro estava dizendo e at\u00e9 hoje guardo a mem\u00f3ria da gentileza extraordin\u00e1ria desses seminaristas diante do professor \u201cimprovisado\u201d que vinha de fora. Gentileza misturada com curiosidade. Naquele tempo, pouca gente de fora visitava a Para\u00edba. De todo modo, esse acolhimento espont\u00e2neo me deixou muito \u00e0 vontade e me ajudou nas primeiras semanas. At\u00e9 hoje guardo uma mem\u00f3ria grata desses estudantes, cujos nomes j\u00e1 se apagaram, desde muito, de minha lembran\u00e7a.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/E1_r0ekZ7t4?si=GzAxdU-PUrlfPnSE\"><\/iframe><\/p>\n<p>Aos poucos, arrisquei um portugu\u00eas capenga nas aulas e, mais uma vez, pude contar com a compreens\u00e3o da turma. O bispo veio at\u00e9 me oferecer um volumoso dicion\u00e1rio franc\u00eas-portugu\u00eas, que uso at\u00e9 hoje e que guardo como preciosa mem\u00f3ria desses primeiros tempos de gentileza e aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Optei por morar no velho pr\u00e9dio do\u00a0Convento S\u00e3o Francisco, habitado por frades franciscanos entre o s\u00e9culo XVI e o s\u00e9culo XIX, quando passou \u00e0s m\u00e3os do clero secular e passou a servir de semin\u00e1rio. Como os quartos estavam ocupados, me indicaram o \u201cpoleiro\u201d, l\u00e1 no andar superior do velho edif\u00edcio, embaixo das telhas. N\u00e3o foi um alojamento ideal, mas ganhei uma sala ampla e uma vista linda sobre o bairro. A\u00ed, tive de me acostumar a uma \u201cconviv\u00eancia pac\u00edfica\u201d com morcegos. Eu me protegia por meio de uma ampla tela em cima de minha mesa de trabalho e de um mosquiteiro em cima da cama, enquanto os bichinhos passavam os dias dormindo tranquilos, pendurados no alto telhado, e, ao cair da noite, voavam para fora e depois se acomodavam de novo, sem me incomodar.<\/p>\n<p>A morada no pr\u00f3prio pr\u00e9dio do semin\u00e1rio facilitou a conviv\u00eancia com professores e estudantes. Recordo com saudade os bons papos embaixo das mangueiras, depois do almo\u00e7o, assim como os passeios e longas conversas na praia.<\/p>\n<p><strong>Para Recife<\/strong><\/p>\n<p>Em 1963, tomei uma decis\u00e3o que mudou o rumo de minha vida de professor. Na qualidade de \u201cnovato\u201d, nas reuni\u00f5es anuais de planejamento e distribui\u00e7\u00e3o de cursos a serem administrados no semin\u00e1rio da\u00a0Para\u00edba, eu j\u00e1 estava acostumado a ter de enfrentar um organograma que, al\u00e9m de\u00a0Hist\u00f3ria da Igreja, comportava as mais variadas mat\u00e9rias, em sua maioria sobre sacramentos. Pois a hist\u00f3ria, al\u00e9m de n\u00e3o ser considerada uma mat\u00e9ria importante, n\u00e3o preenchia uma agenda completa. Assim, ao longo de meus anos na Para\u00edba, precisei preparar as mais variadas mat\u00e9rias. Isso foi me cansando e, principalmente, dificultando uma dedica\u00e7\u00e3o mais profunda em temas hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>A\u00ed tomei uma decis\u00e3o. Numa reuni\u00e3o de planejamento de mat\u00e9rias, penso que foi no fim de 1963, eu disse mais ou menos o seguinte: \u201cFui contratado como professor de Hist\u00f3ria. Portanto, doravante s\u00f3 aceito ensinar Hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Peguei o \u00f4nibus e fui para\u00a0Recife, falar com o arcebispo D.\u00a0Carlos Coelho. A viagem \u00e9 relativamente curta, pois\u00a0Jo\u00e3o Pessoa\u00a0fica a uns 120 quil\u00f4metros de Recife. O pr\u00f3prio arcebispo me atendeu. Identifiquei-me e disse: \u201cEu estou disposto, se o senhor aprovar, a ensinar Hist\u00f3ria da Igreja no semin\u00e1rio de Recife\u201d. A resposta imediata de Dom Carlos me surpreendeu: \u201cEfetivamente, precisamos de um professor de Hist\u00f3ria. Seja bem-vindo\u201d.<\/p>\n<p>Assim, por algum tempo, dividi meu tempo entre\u00a0Recife\u00a0e\u00a0Jo\u00e3o Pessoa: tr\u00eas dias de aulas em Recife e dois em Jo\u00e3o Pessoa. Eu passava o fim de semana em Jo\u00e3o Pessoa e, nas segundas-feiras, \u00e0s cinco horas da manh\u00e3, tomava o primeiro \u00f4nibus para Recife, voltando na tarde de quarta-feira.<\/p>\n<p>Em 1964,\u00a0Dom Carlos\u00a0faleceu e foi substitu\u00eddo por\u00a0Dom H\u00e9lder C\u00e2mara. Isso fez com que eu me transferisse definitivamente para Recife. Entre 1968 e 1981, lecionei no\u00a0Instituto de Teologia de Recife\u00a0(ITER). Os estudantes vinham pela manh\u00e3 e sa\u00edam ao meio-dia. De tarde n\u00e3o havia aula. N\u00f3s professores fomos morar no Pal\u00e1cio do Bispo dos tempos coloniais, na colina de\u00a0Olinda.<\/p>\n<p>O que era novo no\u00a0ITER\u00a0era a reformula\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias: no curr\u00edculo entraram a Sociologia, a Hist\u00f3ria e a Psicologia. O prefeito de estudos entre 1965 e 1970, o padre\u00a0Jos\u00e9 Comblin, fez a proposta de tal reprograma\u00e7\u00e3o, que foi recebida com entusiasmo. A presen\u00e7a de duas mulheres no professorado era um s\u00edmbolo da reorienta\u00e7\u00e3o: a Irm\u00e3\u00a0Ivone Gebara, doutora em Teologia, e a Irm\u00e3\u00a0Maria Em\u00edlia Ferreira, formada em Psicologia. O padre\u00a0Humberto Plummen, formado em Sociologia, deu o toque sociol\u00f3gico e eu fiquei com a Hist\u00f3ria. Finalmente, em 1989, o ITER sucumbiu sob os golpes de\u00a0Dom Cardoso, sucessor de\u00a0H\u00e9lder C\u00e2mara. Criou-se o mito de que o ITER teria sido uma sementeira de revolucion\u00e1rios \u201ctipo\u00a0Cuba\u201d. Essa foi uma ideia constru\u00edda, uma ideologia.<\/p>\n<p><iframe src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pgxv-YSVBKg?si=VvdW2F3mKJT1tljx\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Como eu ensinava Hist\u00f3ria da Igreja<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse, ensinei, durante aproximadamente trinta anos, a disciplina eclesi\u00e1stica chamada \u201cHist\u00f3ria da Igreja\u201d em diversos semin\u00e1rios e institutos de teologia. Com o correr dos anos, essa disciplina mudou de nome e conte\u00fado. Passou a se chamar \u201chist\u00f3ria das igrejas\u201d, \u201chist\u00f3ria do cristianismo\u201d e, ultimamente, \u201chist\u00f3ria dos cristianismos\u201d, \u201chist\u00f3ria das religi\u00f5es\u201d. O importante, contudo, me parece estar no modo como se abordam essas disciplinas. Pois a hist\u00f3ria dos diversos cristianismos est\u00e1 inserida na hist\u00f3ria pol\u00edtica, social, econ\u00f4mica e cultural dos movimentos mutantes da humanidade e n\u00e3o pode ser considerada fora dessas rela\u00e7\u00f5es vinculantes.<\/p>\n<p>Meu modo de ensinar hist\u00f3ria evoluiu com o tempo. Te\u00e7o aqui umas considera\u00e7\u00f5es acerca de meu modo de ensinar\u00a0Hist\u00f3ria da Igreja\u00a0em Recife entre 1964 e 1980.<\/p>\n<p>Os representantes do movimento de\u00a0Jesus, num determinado momento de seu percurso hist\u00f3rico, cederam diante do apelo do poder e deixaram-se manipular por ele. Esta virada tem lugar e data:\u00a0Niceia, 325 d.C. A\u00ed se \u201cinventou\u201d a Igreja Cat\u00f3lica e se quebrou uma linha de fiel continuidade com o movimento de Jesus. Mais de trezentos bispos crist\u00e3os, que representam um movimento ainda muito recentemente perseguido pelo governo romano, s\u00e3o acolhidos, com todas as honrarias, na pr\u00f3pria resid\u00eancia de ver\u00e3o do imperador\u00a0Constantino\u00a0em\u00a0Niceia, na\u00a0\u00c1sia Menor, a uns 200 quil\u00f4metros da nova metr\u00f3pole\u00a0Constantinopla, que est\u00e1 em plena constru\u00e7\u00e3o e que desfruta de um clima mais ameno. Constantino sabe o que faz quando recebe esses bispos, pessoas do interior, com tantas honrarias.<\/p>\n<p>O que ele tem na cabe\u00e7a? Ao que tudo indica,\u00a0Constantino\u00a0percebe que a pol\u00edtica de seu predecessor\u00a0Diocleciano, que perseguia implacavelmente os crist\u00e3os, fracassou. Ele observa com apreens\u00e3o o surgimento, em muitos setores do governo, um retrocesso a formas ditatoriais e totalit\u00e1rias, al\u00e9m de muita corrup\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, procura for\u00e7as vivas, de alto padr\u00e3o \u00e9tico, capazes de reanimar a sociedade e corrigir um sistema corro\u00eddo por falta de \u00e9tica. \u00c9 nesse sentido que ele resolve mudar radicalmente a pol\u00edtica diante do cristianismo. Em vez de persegui\u00e7\u00e3o, opta pelo acolhimento. Constantino recebe os bispos com honrarias protocolares reservadas a senadores. Um dos bispos presentes relata suas impress\u00f5es com as seguintes palavras: \u201cAlguns (bispos) se sentavam \u00e0 mesa junto com o Imperador e outros se reclinavam em div\u00e3s espalhados dos dois lados. Quem olhava, tinha a impress\u00e3o de que se tratava de uma imagem do Reino de Cristo, de um sonho, em vez da realidade\u201d (Eus\u00e9bio de Cesareia,\u00a0Vita Constantini, 3, 15).<\/p>\n<p>Eis um texto precioso, pois flagra o momento exato em que a\u00a0Igreja Cat\u00f3lica\u00a0nasce. A coisa mais importante de\u00a0Niceia\u00a0e 325 n\u00e3o \u00e9 o\u00a0Credo, mas o impacto psicol\u00f3gico causado nos bispos por aquela recep\u00e7\u00e3o na resid\u00eancia imperial. Os bispos mudam e se tornam suaves, polidos, civilizados, educados e finos. Capricham na maneira de falar e se comportar, aprendem a arte ret\u00f3rica, controlam a fala e os gestos. Com\u00a0Constantino, os bispos passam a desfrutar de resid\u00eancias melhores (pal\u00e1cios), meios de transporte e correio r\u00e1pidos e gratuitos atrav\u00e9s das \u201cvias romanas\u201d, doa\u00e7\u00f5es para constru\u00e7\u00e3o de suas bas\u00edlicas e igrejas. Mas a principal novidade consiste na aprendizagem das \u201cregras da corte\u201d. Podemos dizer que em Niceia a\u00a0c\u00fapula da Igreja\u00a0vira uma \u201csociedade de corte\u201d (Elias, N., A sociedade de corte, Rio de Janeiro, Zahar, 2001).<\/p>\n<blockquote><p>A coisa mais importante de Niceia em 325 n\u00e3o \u00e9 o Credo, mas o impacto psicol\u00f3gico causado nos bispos por aquela recep\u00e7\u00e3o na resid\u00eancia imperial. Os bispos mudam e se tornam suaves, polidos, civilizados, educados e finos. Capricham na maneira de falar e se comportar, aprendem a arte ret\u00f3rica, controlam a fala e os gestos \u2013 Eduardo Hoornaert<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Para o Rio Grande do Sul<\/strong><\/p>\n<p>Em 1969, estando em\u00a0Recife, recebi um convite para ensinar por um semestre a disciplina de\u00a0Hist\u00f3ria da Igreja\u00a0no\u00a0Semin\u00e1rio Cristo Rei, mantido pelos padres jesu\u00edtas em\u00a0S\u00e3o Leopoldo, no\u00a0Rio Grande do Sul. Foi uma experi\u00eancia que me fez conhecer um Brasil bem diferente do nordestino, um Brasil marcado por imigra\u00e7\u00f5es alem\u00e3s e italianas no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Sa\u00ed de \u00f4nibus comum e a viagem durou cinco dias. Pernoitamos em hospedarias ao longo das estradas e tive uma experi\u00eancia inesquec\u00edvel do modo como o povo viajava naqueles tempos, com precariedades, priva\u00e7\u00f5es e imprevis\u00f5es.<\/p>\n<p>Chego exausto quando a comunidade dos professores do\u00a0Semin\u00e1rio Cristo Rei, todos padres jesu\u00edtas, se prepara para almo\u00e7ar. O chimarr\u00e3o quase me queima a boca, mas a acolhida \u00e9 t\u00e3o calorosa que logo esque\u00e7o as agruras da longa viagem.<\/p>\n<p>Entre meus alunos encontro, com surpresa, o frei dominicano\u00a0Carlos Alberto Lib\u00e2nio Cristho, o Frei Betto, que est\u00e1 a\u00ed \u201cescondido\u201d, aguardando poder viajar para a\u00a0Fran\u00e7a, pois em\u00a0S\u00e3o Paulo\u00a0\u00e9 procurado pelos militares por causa de suas pretensas liga\u00e7\u00f5es com movimentos \u201csubversivos\u201d. \u00c9 por causa da presen\u00e7a de Betto, entre meus alunos, que apresento em sala de aula o tema \u201cAs persegui\u00e7\u00f5es contra os crist\u00e3os nos tempos do Imp\u00e9rio Romano\u201d. E pe\u00e7o que eles procurem na biblioteca informa\u00e7\u00f5es sobre o assunto.<\/p>\n<p>Que biblioteca! Dif\u00edcil encontrar no\u00a0Nordeste\u00a0coisa parecida. Passei longas horas nela, conferindo dados hist\u00f3ricos e anotando tudo em grandes fichas, uma pr\u00e1tica que me acompanha desde meus tempos de col\u00e9gio. Guardo comigo, at\u00e9 hoje, esse material, que n\u00e3o consulto mais, pois o mundo digital passou que nem uma avalanche em cima dele.<\/p>\n<p>Existia um di\u00e1logo fecundo entre o\u00a0Cristo Rei cat\u00f3lico\u00a0e a\u00a0Casa de Forma\u00e7\u00e3o da igreja luterana, a pouca dist\u00e2ncia. S\u00e3o Leopoldo \u00e9 o ber\u00e7o da\u00a0coloniza\u00e7\u00e3o luterana no Brasil. Convido um estudante daquela Casa,\u00a0Martin Dreher, para nos falar sobre vida e doutrina de Martinho Lutero.<\/p>\n<p>Estive no\u00a0Cristo Rei\u00a0no tempo da formata\u00e7\u00e3o da\u00a0Universidade do Vale do Rio dos Sinos \u2013 Unisinos. A mem\u00f3ria \u00e9 vaga, mas me lembro de ter sido convidado a me encontrar com a diretoria dessa nascente institui\u00e7\u00e3o. No ano seguinte, 1970, passei de novo um semestre no Cristo Rei e assim essa experi\u00eancia, que me enriqueceu muito, terminou.<\/p>\n<blockquote><p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds \u201cinacabado\u201d, um pa\u00eds em constru\u00e7\u00e3o: eis a mem\u00f3ria que eu guardo dos nove anos vividos no Alto do Pascoal. A fragilidade da vida, a luta nunca acabada, o apelo para um futuro melhor. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds em constru\u00e7\u00e3o permanente, um pa\u00eds de tenacidade e paci\u00eancia \u2013 Eduardo Hoornaert<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>No turbilh\u00e3o do mundo<\/strong><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que lecionava\u00a0Hist\u00f3ria da Igreja\u00a0no\u00a0ITER, assumi o pastoreio numa periferia de\u00a0Recife\u00a0chamada\u00a0Alto do Pascoal. A\u00ed morei nove anos. A lembran\u00e7a que tenho do Alto do Pascoal \u00e9 que a vida do pobre \u00e9 uma vida de projetos inacabados e esperan\u00e7as de vida melhor no turbilh\u00e3o do mundo. Minha amiga artista, a Irm\u00e3\u00a0Ad\u00e9lia de Carvalho\u00a0(1937-2022), pintou um painel, por ocasi\u00e3o do\u00a0Congresso da Amer\u00edndia, celebrado em Belo Horizonte no ano 2015, que mostra a emerg\u00eancia dos pobres no turbilh\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/ESCOLHER_A_FOTO.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2024\/10\/22_10_eduardo_foto_1.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><em>Da esquerda para a direita: pessoa n\u00e3o identificada, Jos\u00e9 Aparecido Moreira, Ad\u00e9lia Carvalho e eu.\u00a0(Foto: acervo pessoal Eduardo Hoornaert\u00a0)<\/em><\/p>\n<p>Ainda guardo na mem\u00f3ria a imensa ondula\u00e7\u00e3o de casas inacabadas, com telhados de\u00a0Eternit. Algumas casas ainda de palha de coqueiro, paredes sem reboco, lajes em constru\u00e7\u00e3o. Ao lado da casa, um monte de tijolos encostados, peda\u00e7os de madeira, por vezes algumas barras de ferro, telhas amontoadas. Essa imagem evoca em mim o imenso apelo a uma vida melhor, uma vida de maior prosperidade por parte daquela popula\u00e7\u00e3o. Ainda vejo \u201cPedro pedreiro\u201d, no fim da tarde, descer do \u00f4nibus, sempre segurando algo nas m\u00e3os ou embaixo do bra\u00e7o: uma prancha de madeira, uma barrinha de ferro, algum embrulho, algo na mochila. Encostado no muro da casinha de \u201cPedro pedreiro\u201d, um monte de tijolos, h\u00e1 algumas telhas, madeira, ferro. Parece que estou ouvindo \u201cPedro pedreiro\u201d murmurar: \u201cvou sentar uma janela, tirar o tabique que fecha a cozinha e sentar uma porta. Vou rebocar as paredes do quarto dos meninos. Talvez venha a bater uma laje, pois a fam\u00edlia \u00e9 grande. J\u00e1 tenho as barras, falta comprar uns sacos de cimento\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPedro pedreiro\u201d tem f\u00e9 em Deus. Ao pensar nas crian\u00e7as, na mulher, na fam\u00edlia, ele pensa em Deus. Est\u00e1 convencido que Deus compartilha sua luta: \u201cDeus vai me dar sucesso na vida, Deus vai me ajudar\u201d. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds \u201cinacabado\u201d, um pa\u00eds em constru\u00e7\u00e3o: eis a mem\u00f3ria que eu guardo dos nove anos vividos no\u00a0Alto do Pascoal. A fragilidade da vida, a luta nunca acabada, o apelo para um futuro melhor. O\u00a0Brasil \u00e9 um pa\u00eds em constru\u00e7\u00e3o permanente, um pa\u00eds de tenacidade e paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O Brasil \u00e9 um pa\u00eds inacabado. Um depoimento autobiogr\u00e1fico de Eduardo Hoornaert \u2013 Parte I &#8211; Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU &#8211; https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/159-entrevistas\/645057-o-brasil-e-um-pais-inacabado-um-depoimento-autobiografico-da-vida-do-teologo-eduardo-hoornaert-parte-i<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Instituto Humanitas Unisinos &#8211; Um depoimento autobiogr\u00e1fico de Eduardo Hoornaert \u2013 Parte I. 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