{"id":24268,"date":"2024-10-14T12:15:02","date_gmt":"2024-10-14T15:15:02","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24268"},"modified":"2024-10-10T20:18:43","modified_gmt":"2024-10-10T23:18:43","slug":"luto-ecologico-e-protagonismo-climatico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/10\/14\/luto-ecologico-e-protagonismo-climatico\/","title":{"rendered":"Luto ecol\u00f3gico e protagonismo clim\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p><strong>Carlos Bocuhy<\/strong> &#8211;\u00a0Para aqueles que sofrem de ansiedade clim\u00e1tica, tornar a dor em a\u00e7\u00e3o regenerativa \u00e9 altamente profil\u00e1tico e recomend\u00e1vel. \u00c9 preciso sair do imobilismo paralisante.<\/p>\n<p>O mundo, como o conhecemos, est\u00e1 se transformando. A percep\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas faz com que comunidades em todo o mundo enfrentem a constata\u00e7\u00e3o de perdas de elementos naturais ou altera\u00e7\u00f5es substanciais em nossos ambientes constru\u00eddos.<\/p>\n<p>\u00c9 natural que haja um sentimento de perda, da regularidade do clima e de tempos mais amenos e equilibrados; da seguran\u00e7a clim\u00e1tica, para a qual havia maior previsibilidade, quando eventos extremos eram raros e muitas pessoas passavam toda a sua exist\u00eancia sem ter que vivenci\u00e1-los.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma perda de qualidade de vida decorrente do estado de intranquilidade gerado pela informa\u00e7\u00e3o: sequenciais eventos registrados e socializados pela m\u00eddia demonstram os novos fen\u00f4menos globais.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a do clima acaba por atingir o bem-estar das pessoas, de forma sens\u00edvel, em todo o planeta. Especialistas est\u00e3o denominando esse novo<em>\u00a0feeling<\/em>\u00a0global de luto ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Tr\u00eas tipos de perda t\u00eam sido citados: a perda ecol\u00f3gica f\u00edsica diante do desaparecimento, degrada\u00e7\u00e3o ou extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, paisagens e ecossistemas. Por exemplo, como resposta a eventos clim\u00e1ticos extremos agudos, como\u00a0um furac\u00e3o; e mudan\u00e7as ambientais graduais, como, por exemplo, mudan\u00e7as nos padr\u00f5es clim\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a perda do conhecimento ambiental anterior, no que se refere \u00e0 ruptura de identidades pessoais e culturais que s\u00e3o constru\u00eddas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s caracter\u00edsticas e ao conhecimento do ambiente f\u00edsico. Em terceiro lugar, a perda futura antecipada relacionada a esp\u00e9cies, paisagens, ecossistemas, modos de vida ou meios de subsist\u00eancia.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>H\u00e1 mais um elemento a considerar: a capacidade, ou sensibilidade, de percep\u00e7\u00e3o sobre essas perdas. \u00c9 not\u00f3rio o fato de que a urbaniza\u00e7\u00e3o nos isolou, mental e emocionalmente, de grande parte dos danos que os humanos infligiram \u00e0 Terra. Esse isolamento \u00e9 considerado pela psic\u00f3loga clim\u00e1tica Steffi Bednarek como resposta emocional amplamente atrofiada ao desastre ecol\u00f3gico em massa, \u00e0 sociedade que constru\u00edmos.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A ideia \u00e9 que muitos de n\u00f3s nos divorciamos da natureza pelas for\u00e7as do modelo econ\u00f4mico, do capitalismo, da industrializa\u00e7\u00e3o e da urbaniza\u00e7\u00e3o. E, como resultado, Bednarek argumenta que estamos muito distantes para sentir afinidade com a grande diversidade de vida na Terra, grande parte da qual tem sofrido silenciosamente os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas h\u00e1 d\u00e9cadas. Essa lacuna tamb\u00e9m pode ser considerada n\u00e3o como falta de conhecimentos dos fatos, mas como incapacidade de empatia, ou incapacidade de compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa parece ser uma cr\u00edtica acertada e justa da condi\u00e7\u00e3o moderna. Deve-se considerar que nosso\u00a0<em>habitat<\/em>\u00a0artificial, nossas cidades, s\u00e3o ecossistemas constru\u00eddos que abrigam seres vivos e tamb\u00e9m est\u00e3o se fragmentando devido \u00e0 instabilidade de um clima alterado, com inunda\u00e7\u00f5es, deslizamentos de terra e picos de calor extremo, por exemplo.<\/p>\n<p>Para a maioria dos moradores da cidade, a maneira como experimentamos as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o vem do colapso das forma\u00e7\u00f5es naturais, mas dos danos \u00e0 infraestrutura feita pelo homem que comp\u00f5e nossos espa\u00e7os urbanos e nossas vidas di\u00e1rias. Quando essa infraestrutura \u00e9 prejudicada ou destru\u00edda, seja pelo vento, pelo fogo ou pela inunda\u00e7\u00e3o, ela altera nossos\u00a0<em>habitats<\/em>\u00a0\u2013 e isso tamb\u00e9m provoca uma intensa sensa\u00e7\u00e3o de perda emocional e instabilidade.<\/p>\n<p>\u201cAs cidades s\u00e3o ambientes mais extremos do que as \u00e1reas rurais no contexto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d, diz Brian Stone Jr., professor de planejamento e design ambiental urbano no Instituto de Tecnologia da Ge\u00f3rgia.<\/p>\n<p>De acordo com sua pesquisa, os moradores da cidade tendem a ficar cara a cara com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas por meio de epis\u00f3dios cada vez mais comuns: chuvas fortes trazem inunda\u00e7\u00f5es regulares para uma determinada esquina; o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.oregonlive.com\/commuting\/2021\/06\/trimet-suspends-max-wes-lines-until-tuesday-citing-heat-related-mechanical-issues.html\" rel=\"noreferrer noopener\">metr\u00f4 leve sai de servi\u00e7o<\/a>\u00a0porque as altas temperaturas sobrecarregam as linhas de energia; uma seca de ver\u00e3o que\u00a0<a href=\"https:\/\/grist.org\/drought\/cities-want-more-trees-drought-is-complicating-their-efforts\/\" rel=\"noreferrer noopener\">mata as \u00e1rvores<\/a>\u00a0que sombreiam um playground local. Para aqueles que dependem de todos esses componentes cotidianos da vida na cidade, cada um desses epis\u00f3dios \u201c\u00e9 muito mais ativador da consci\u00eancia clim\u00e1tica e potencialmente do luto do que uma grande plataforma de gelo se desprendendo da Groenl\u00e2ndia\u201d.<\/p>\n<p>Embora tenhamos constru\u00eddo nossas cidades como fortalezas contra as for\u00e7as da natureza que as cercam, estamos aprendendo da maneira mais dif\u00edcil que o concreto \u00e9 vulner\u00e1vel \u00e0 ira provocada por uma atmosfera em aquecimento, aumento do calor, luta para absorver o excesso de \u00e1gua, rachaduras e desmoronamentos.<\/p>\n<p>\u201cNa verdade, n\u00e3o entendemos fundamentalmente que as cidades que constru\u00edmos tamb\u00e9m fazem parte da natureza\u201d, afirma o arquiteto australiano Adrian McGregor: \u201cN\u00f3s as operamos, n\u00f3s as gerenciamos e elas dependem de n\u00f3s para mant\u00ea-las vivas. Mas, tamb\u00e9m, elas s\u00e3o o nosso maior<em>\u00a0habitat<\/em>\u00a0em que existimos. Atualmente, cerca de 80% da popula\u00e7\u00e3o do mundo vive em \u00e1reas urbanas\u201d.<\/p>\n<p>McGregor promove a teoria do \u201c<a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Biourbanism-Cities-nature-Resilience-Anthromes-ebook\/dp\/B0D7LSFDZ8\/ref=sr_1_2?crid=287UQXE7BALSU&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.d8YkzHKfM1DQADXxGmAX2L-Qv9h6-uxZhrisTpP-fA1gUJtDA7UGL5TrawtsJpaUAvsopGoz-kDWUcYVEB-pl63Pew1T4laTHxuvQskEqvk.cmOFrdQ3S-NeJUptF3jdpqAsLXY88vN2Yq8QGzPznWs&amp;dib_tag=se&amp;keywords=Biourbanism&amp;qid=1726600864&amp;sprefix=biourbanism%2Caps%2C53&amp;sr=8-2\" rel=\"noreferrer noopener\">biourbanismo<\/a>\u201c, que v\u00ea as cidades como uma forma de natureza por si s\u00f3. Essa estrutura \u00e9 influenciada pelos ge\u00f3grafos Erle Ellis e Navin Ramankutty, que desenvolveram o conceito de \u201cantromes\u201d, ou\u00a0<a href=\"https:\/\/esajournals.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1890\/070062\" rel=\"noreferrer noopener\">biomas antropog\u00eanicos<\/a>, que s\u00e3o ecossistemas moldados pelo homem. Mas \u00e9 menos prov\u00e1vel que voc\u00ea veja o termo\u00a0<em>luto ecol\u00f3gico<\/em>\u00a0aplicado a uma esta\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=48yMjp-1NlM\" rel=\"noreferrer noopener\">de metr\u00f4 inundada da cidade de Nova York<\/a>\u00a0.<\/p>\n<p>Os cientistas relataram\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/d41586-019-02656-8#ref-CR1\" rel=\"noreferrer noopener\">sentir choque e perda<\/a>\u00a0a cada retorno consecutivo \u00e0 Grande Barreira de Corais, \u00e0 medida que novas extens\u00f5es de corais branqueiam e secam. Em todo o pa\u00eds mineiro dos Apalaches Centrais dos Estados Unidos, onde as montanhas foram reduzidas pela metade e as florestas s\u00e3o derrubadas para extrair carv\u00e3o, a dor aparece na forma de\u00a0<a href=\"https:\/\/grist.org\/climate-energy\/mountaintop-removal-countrys-mental-health-crisis\/\" rel=\"noreferrer noopener\">condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade mental diagnostic\u00e1veis<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 importante registrarmos como as comunidades est\u00e3o lidando com a dor da perda. Exemplos nos remetem simbologia relacionada com perdas humanas, por exemplo, com a realiza\u00e7\u00e3o de ritos de funerais, como o funeral da geleira Ok de 2019 na Isl\u00e2ndia, realizado por uma centena de pessoas que caminhou at\u00e9 a geleira e conduziu uma cerim\u00f4nia que incluiu leituras de poesia e discursos.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea pode lamentar a perda de uma geleira \u2013 um recurso inacess\u00edvel para a maioria da humanidade? A perda da beleza das geleiras \u00e9 poderoso motivador para as pessoas perceberem a perigosa perda de identidade de estruturas que servem como marcos culturais importantes, como a geleira Ok para o povo da Isl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Embora os olhos de outras pessoas registrem impress\u00f5es, filmem e fotografem, fornecendo uma riqueza de fontes para ver e perceber as geleiras, essas imensas massas muitas vezes permanecem intang\u00edveis e est\u00e3o geograficamente distantes. E, no entanto, \u00e9 por causa de sua beleza e magnitude que seus desaparecimentos s\u00e3o sentidos por muitos. O mesmo sentimento pode se aplicar \u00e0 cont\u00ednua perda da Floresta Amaz\u00f4nica, ou de extensas \u00e1reas\u00a0do Pantanal, no Brasil.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-172596 shadow\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=640%2C427&amp;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=1536%2C1024&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=500%2C333&amp;ssl=1 500w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=800%2C533&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=1280%2C853&amp;ssl=1 1280w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=600%2C400&amp;ssl=1 600w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=1200%2C800&amp;ssl=1 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=640%2C427&amp;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/53984748317_5b749f405c_k.jpg?resize=150%2C100&amp;ssl=1 150w, \" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Imagem a\u00e9rea do rio indo para Manaquiri, setembro de 2024. Foto: Ricardo Stuckert \/ PR<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um elemento necess\u00e1rio para reflex\u00e3o, na busca de equil\u00edbrio emocional para os atingidos pela percep\u00e7\u00e3o mais aguda dos impactos clim\u00e1ticos. Freud\u00a0<a href=\"https:\/\/edisciplinas.usp.br\/pluginfile.php\/6781064\/mod_resource\/content\/1\/Freud%20Luto%20e%20Melancolia.pdf\" rel=\"noreferrer noopener\">escreveu em 1917<\/a>\u00a0um pequeno estudo sobre luto e melancolia, considerando o luto a perda de objeto que pode ser superada com o tempo, por\u00e9m destaca que a melancolia traz em si a perda do pr\u00f3prio eu, comprometimento do ego que nos leva a refletir sobre como lidar com este impacto clim\u00e1tico, principalmente sobre os mais vulner\u00e1veis e suscept\u00edveis.<\/p>\n<p>Em 2017, a\u00a0<em>American Psychological Association<\/em>\u00a0publicou um relat\u00f3rio de setenta p\u00e1ginas sobre sa\u00fade mental e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que delineou \u201cimpactos, implica\u00e7\u00f5es e orienta\u00e7\u00f5es\u201d para o sofrimento ecol\u00f3gico. Um ano depois, uma\u00a0<a href=\"https:\/\/climatecommunication.yale.edu\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/Climate-Change-American-Mind-December-2018.pdf\" rel=\"noreferrer noopener\">pesquisa nacional<\/a>\u00a0descobriu que quase 51% dos americanos se sentem \u201cenojados\u201d ou \u201cdesamparados\u201d com o aquecimento global.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Glenn Albrecht desenvolveu um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/science\/archive\/2022\/07\/climate-change-damage-displacement-solastalgia\/670614\/\" rel=\"noreferrer noopener\">vocabul\u00e1rio<\/a>\u00a0para descrever a experi\u00eancia emocional de viver durante as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas:\u00a0<em>Solastalgia<\/em>, que descreve como uma saudade nascida da observa\u00e7\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o ambiental cr\u00f4nica do seu ambiente;\u00a0<em>Tierratrauma<\/em>\u00a0refere-se \u00e0 dor aguda de testemunhar ambientes em ru\u00ednas, como uma floresta desmatada ou um riacho cheio de lixo. A base do trabalho de Albrecht \u00e9 que os humanos est\u00e3o fundamentalmente conectados aos nossos ambientes naturais e sentimos dor quando eles s\u00e3o danificados.<\/p>\n<p>Dessa forma, n\u00e3o \u00e9 nenhum exagero dizer que viver nos dias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas significa viver na era do luto ecol\u00f3gico e que este pode se transformar, ou potencializar aspectos patol\u00f3gicos e existenciais.<\/p>\n<p>A perda ambiental extrema, por sua vez, leva a um aumento do custo emocional que inclui tristeza, ansiedade e novos fen\u00f4menos psicol\u00f3gicos, reconhecidos como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/us-news\/2020\/oct\/15\/arctic-solastalgia-climate-crisis-inuit-indigenous\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201csolastalgia\u201d,<\/a>\u00a0o sentimento de saudade de um lugar que ainda habita e que agora se encontra, por\u00e9m, drasticamente alterado. Uma saudade da condi\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Solastalgia tornou-se um dos termos-chave usados para descrever o esmagador custo emocional da perda ambiental, que pode perfeitamente ser aplicada ao contexto do Fura\u00e7\u00e3o Katrina em New Orleans ou ao desastre avassalador das chuvas que ocorreram no Rio Grande do Sul, em 2023 e 2024.<\/p>\n<p>Em 2020, a BBC\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/future\/article\/20200402-climate-grief-mourning-loss-due-to-climate-change?utm_campaign=Hot+News\" rel=\"noreferrer noopener\">publicou<\/a>\u00a0um artigo sobre luto clim\u00e1tico, destacando a necessidade de desenvolver um novo vocabul\u00e1rio para ecoansiedade, como \u201cansiedade da neve\u201d ou \u201cluto do inverno\u201d em refer\u00eancia a emo\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do lugar. Uma r\u00e1pida pesquisa no Google produzir\u00e1 centenas de artigos sobre ecoluto de fontes de not\u00edcias em todo o mundo, incluindo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.denverpost.com\/2021\/08\/22\/climate-change-grief-anxiety-mental-health\/\">jornais locais<\/a><a href=\"https:\/\/www.thearcticinstitute.org\/holding-hope-grieving-loss-new-normal-arctic-climate-change\/\" rel=\"noreferrer noopener\">, institutos de pesquisa<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2021\/08\/09\/opinion\/nashville-summer.html\" rel=\"noreferrer noopener\">plataformas de m\u00eddia nacionais<\/a>.<\/p>\n<p>O luto psicol\u00f3gico clim\u00e1tico pode tamb\u00e9m ser considerado como aguda percep\u00e7\u00e3o do problema a ser enfrentado, portanto com potencial de elemento propulsor das pessoas para a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cobertura extensiva da m\u00eddia, juntamente com fotos de cat\u00e1strofes \u2013 os tipos de fotos e manchetes que atraem cliques \u2013, podem facilmente fazer as pessoas se sentirem paralisadas por uma sensa\u00e7\u00e3o avassaladora de pavor. De outro lado potencializam a\u00e7\u00f5es propositivas que auxiliam na supera\u00e7\u00e3o da dor do luto, como afirma Catherine Bruns, pesquisadora em Estudos de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade de Minnesota-Twin Cities, enfatizando a oportunidade valiosa para divulgar os elementos naturais que ainda sobrevivem, concretizar o que est\u00e1 em jogo e definir formas de proteger remanescentes, por meio de a\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas de exig\u00eancia social transformadora.<\/p>\n<p>\u201cSe a cobertura da m\u00eddia sobre as v\u00edtimas clim\u00e1ticas direcionasse consistentemente os leitores a doar para organiza\u00e7\u00f5es sem fins lucrativos de justi\u00e7a clim\u00e1tica, assinar peti\u00e7\u00f5es para fortalecer a legisla\u00e7\u00e3o ambiental ou participar de protestos pol\u00edticos, n\u00e3o apenas far\u00edamos progressos mais r\u00e1pidos no combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m reduzir\u00edamos nossa pr\u00f3pria ansiedade clim\u00e1tica ao longo do caminho\u201d, explica Bruns.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-158162 shadow\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/063_1571111863.jpg?resize=640%2C427&amp;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/063_1571111863.jpg?w=1920&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/063_1571111863.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/063_1571111863.jpg?resize=1536%2C1024&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/063_1571111863.jpg?resize=600%2C400&amp;ssl=1 600w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/063_1571111863.jpg?resize=1200%2C800&amp;ssl=1 1200w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/063_1571111863.jpg?resize=640%2C427&amp;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/063_1571111863.jpg?resize=150%2C100&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/063_1571111863.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w, \" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Pessoas buscam abrigo contra o calor no centro de resfriamento da First Church UCC em meio \u00e0 pior onda de calor j\u00e1 registrada em Phoenix, Arizona (EUA), em 25 de julho de 2023. Embora Phoenix enfrente per\u00edodos de calor extremo todos os anos, em julho foram 26 dias consecutivos de temperaturas atingindo 43\u00b0C graus ou mais, um novo recorde em meio a uma onda de calor de longa dura\u00e7\u00e3o no sudoeste do pa\u00eds. O calor extremo mata mais pessoas do que furac\u00f5es, inunda\u00e7\u00f5es e tornados combinados em um ano m\u00e9dio nos EUA. Foto: Mario Tama \/ GETTY IMAGES NORTH AMERICA \/ Getty Images via AFP.<\/em><\/p>\n<p>Janet Lewis, psiquiatra e membro fundador da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.climatepsychiatry.org\/\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Climate Psychiatry Alliance<\/em><\/a>, comentou em entrevista ao GlacierHub que para que as pessoas lidem com informa\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, \u00e9 importante entender que est\u00e3o inseridas em contexto maior. O que nos ajuda a suportar os sentimentos dif\u00edceis para pensar com clareza e agir. \u201c\u00c9 importante ser capaz de afirmar as maneiras pelas quais continuamos a fazer parte de algo maior, mesmo quando estamos perdendo muitas coisas e as rela\u00e7\u00f5es com essas coisas\u201d, afirma.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o mundo continua a sofrer perdas ambientais inevit\u00e1veis, os rituais de luto ecol\u00f3gico podem se tornar uma rotina comum, proporcionando espa\u00e7o para as pessoas lidarem com o novo fardo emocional de um mundo em r\u00e1pida mudan\u00e7a. Torn\u00e1-los p\u00fablicos por meio da cobertura da m\u00eddia pode multiplicar ainda mais seu impacto, conscientizando popula\u00e7\u00f5es em risco, que est\u00e3o passando por perdas extremas no presente, promovendo uma resposta que une empatia e a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es como a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.solutionsjournalism.org\/\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Solutions Journalism Network<\/em><\/a>\u00a0est\u00e3o lidando com quest\u00f5es urgentes sobre como os jornalistas podem adotar uma abordagem baseada em solu\u00e7\u00f5es para a cobertura da imprensa. Uma placa erguida no funeral da geleira OK alerta os presentes sobre as consequ\u00eancias da ina\u00e7\u00e3o: \u201cEste monumento \u00e9 para reconhecer que sabemos o que est\u00e1 acontecendo e o que precisa ser feito.\u201d Os meios de comunica\u00e7\u00e3o foram r\u00e1pidos em captar a mensagem da placa e as fotos logo se tornaram virais, garantindo que o p\u00fablico global entendesse o funeral n\u00e3o apenas como um ritual de luto, mas um terr\u00edvel e contempor\u00e2neo apelo \u00e0 a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora tais funerais representem realidade tr\u00e1gica, eles tamb\u00e9m t\u00eam um imenso potencial \u2013 uma oportunidade para as pessoas se unirem em um momento de luto antes de retornar \u00e0 tarefa urgente: superar pela a\u00e7\u00e3o o sofrimento visando garantir que nosso relacionamento com o meio ambiente seja mais proativo e n\u00e3o se torne uma s\u00e9rie de funerais que se repetem.<\/p>\n<p>Para aqueles que sofrem de ansiedade clim\u00e1tica, tornar a dor em a\u00e7\u00e3o regenerativa \u00e9 altamente profil\u00e1tico e recomend\u00e1vel. Para tanto ser\u00e1 preciso transmutar o sentimento de desamparo diante da f\u00faria do clima em protagonismo regenerativo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso sair do imobilismo paralisante e quebrar as resist\u00eancias econ\u00f4micas nocivas. \u00c9 preciso promover educa\u00e7\u00e3o sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas visando capacita\u00e7\u00e3o e ado\u00e7\u00e3o de novas estrat\u00e9gias de enfrentamento, a utiliza\u00e7\u00e3o de meios de interven\u00e7\u00e3o na realidade para supera\u00e7\u00e3o do desgaste psicol\u00f3gico, seja por meio de terapias convencionais, espec\u00edficas, de amplia\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia sobre a problem\u00e1tica real em busca das melhores solu\u00e7\u00f5es para o problema.<\/p>\n<p>Alimentar essa transi\u00e7\u00e3o deve obrigatoriamente fazer parte das a\u00e7\u00f5es governamentais para capacitar a sociedade e aumentar sua resili\u00eancia e a capacidade de exig\u00eancia social transformadora, o que poder\u00e1 resultar em um salto civilizat\u00f3rio para um mundo com empatia ecol\u00f3gica, com perspectivas de prioridades mitigadoras e adaptativas voltadas \u00e0 sustentabilidade em seu sentido mais profundo: a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Luto ecol\u00f3gico e protagonismo clim\u00e1tico &#8211; ((o))eco &#8211; https:\/\/oeco.org.br\/colunas\/luto-ecologico-e-protagonismo-climatico\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Bocuhy &#8211;\u00a0Para aqueles que sofrem de ansiedade clim\u00e1tica, tornar a dor em a\u00e7\u00e3o regenerativa \u00e9 altamente profil\u00e1tico e recomend\u00e1vel. \u00c9 preciso sair do imobilismo paralisante. 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