{"id":24164,"date":"2024-08-17T12:35:28","date_gmt":"2024-08-17T15:35:28","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24164"},"modified":"2024-08-16T11:47:33","modified_gmt":"2024-08-16T14:47:33","slug":"como-matar-uma-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/08\/17\/como-matar-uma-cidade\/","title":{"rendered":"Como matar uma cidade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Olivier Cyran<\/strong> &#8211; Em 29 de agosto de 2005, um furac\u00e3o atingia New Orleans, matando 2 mil pessoas e destruindo dezenas de milhares de casas. A cat\u00e1strofe permitiu que pol\u00edticos e empres\u00e1rios experimentassem um urbanismo de t\u00e1bula rasa, objetivando substituir pobres por turistas \u2013 um m\u00e9todo que inspira outros dirigentes ansiosos em lucrar com desastres clim\u00e1ticos\u2026<\/p>\n<p>Em um bairro tomado pela gentrifica\u00e7\u00e3o, o lugar mais an\u00f3dino pode de repente surgir como uma curiosidade, at\u00e9 como um foco de resist\u00eancia. Na Freret Street, em New Orleans, esse papel \u00e9 de uma barbearia. Inaugurada em 1974, \u00e9poca em que um visitante branco que se visse perdido nessa rua trataria de dar no p\u00e9 rapidinho, a Dennis Barber Shop \u00e9 agora o \u201c\u00faltimo vest\u00edgio de uma comunidade desaparecida\u201d, como diz seu dono, Dennis Sigur, que, apesar da idade respeit\u00e1vel, mant\u00e9m sua jornada de quinze horas. Do lado esquerdo, um pet shop pode, por US$ 50, dar um banho em seu c\u00e3ozinho. Em frente, a poucos metros de um bar de vinhos franc\u00eas e de um sal\u00e3o de beleza, uma escola de ioga oferece \u201credu\u00e7\u00e3o do estresse\u201d e \u201cpaz de esp\u00edrito\u201d por US$ 150 ao m\u00eas. Um pouco mais acima, na esquina da Jefferson Avenue, foi inaugurada uma Starbucks no fim de 2017. \u201cEu j\u00e1 n\u00e3o me vejo aqui\u201d, lamenta Sigur. \u201cQuase todos os meus antigos clientes sa\u00edram do bairro. Felizmente, muitos ainda v\u00eam \u00e0 barbearia, \u00e0s vezes de longe. Aqui \u00e9 um ponto de encontro para os mais antigos, meio como um bar de amigos, s\u00f3 que sem o \u00e1lcool.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 uns quinze anos, a Freret Street e seus arredores eram um bairro quase exclusivamente negro, como grande parte da cidade. A propor\u00e7\u00e3o de afro-americanos em New Orleans caiu de 67% em 2005 para 59% em 2013 \u2013 uma tend\u00eancia que est\u00e1 se acelerando. Muito majoritariamente pobres, os \u201cnativos\u201d, como \u00e0s vezes eles pr\u00f3prios se qualificam, com uma ponta de ironia \u2013 uma maneira tamb\u00e9m de reivindicar a impressionante marca cultural deixada por eles na alma da cidade \u2013, t\u00eam se mudado para as periferias ou para ainda mais longe, expulsos pelo afluxo de uma popula\u00e7\u00e3o branca, jovem e endinheirada que levou os pre\u00e7os \u00e0s alturas. Em poucos anos, bairros historicamente negros e populares, como Bywater, Marigny, 7\u00aa Ward e Freret, tornaram-se tendencialmente brancos e opulentos.<\/p>\n<p>Em que momento percebemos que o mundo onde vivemos n\u00e3o existe mais? Para Bernard Larose, de 52 anos, que acaba de ter o cabelo tratado pela talentosa tesoura de Sigur, foi em 2013, quando o dono do im\u00f3vel de tr\u00eas c\u00f4modos onde ele morava aumentou mais uma vez o aluguel, que em quatro anos passou de US$ 600 para US$ 1.100. \u201cNo mesmo per\u00edodo, meu sal\u00e1rio n\u00e3o aumentou um centavo. Foi ent\u00e3o que percebi que este bairro n\u00e3o era mais para mim e que tinha chegado a hora de ir embora.\u201d No mesmo ano, durante uma reuni\u00e3o p\u00fablica, um grupo de uns cem novos moradores pediu que se aumentassem os impostos locais a fim de custear o recrutamento de agentes de seguran\u00e7a para realizar patrulhas noturnas. A proposta foi rejeitada,<sup>1<\/sup>\u00a0mas \u201cnaquele momento vimos a que ponto a gentrifica\u00e7\u00e3o tinha remodelado o bairro\u201d, diz Larose. O caloroso boteco na esquina da Bolivar com a Washington, que servia caf\u00e9 da manh\u00e3 a US$ 0,99 aos trabalhadores da vizinhan\u00e7a, sumiu, dando lugar a caf\u00e9s de com\u00e9rcio justo vendidos a US$ 4 e hamb\u00fargueres gourmet que saem por US$ 12.<\/p>\n<p>Se aqui ele coincide com um sistema de domina\u00e7\u00e3o racial profundamente enraizado na hist\u00f3ria do \u201cBig South\u201d, o fen\u00f4meno de recaptura dos centros das cidades pelas classes m\u00e9dias altas afeta a maioria das grandes cidades ocidentais, de Nova York a Berlim, passando por Detroit, Paris, Lisboa e Barcelona. Mas New Orleans \u00e9 um caso-limite. Enquanto em outros lugares o processo se desenrola de maneira progressiva, por avan\u00e7os intermitentes ou a longo prazo, aqui ele atingiu a velocidade da luz, em uma escala e com uma brutalidade sem precedentes. Um desastre clim\u00e1tico serviu como catalisador: o furac\u00e3o Katrina, que devastou a cidade h\u00e1 treze anos, matando quase 2 mil pessoas.<\/p>\n<p><strong>Tempestade do s\u00e9culo, oferta do s\u00e9culo<\/strong><\/p>\n<p>Para os moradores, as inunda\u00e7\u00f5es que se seguiram \u00e0 tempestade de 29 de agosto de 2005 continuam sendo um trauma para toda a vida, como mostram as taxas de suic\u00eddio registradas desde ent\u00e3o (de nove a cada 100 mil habitantes, antes do Katrina, para 26 a cada 100 mil depois).<sup>2<\/sup>\u00a0Para os formuladores de pol\u00edticas e as elites econ\u00f4micas, elas foram providenciais. Ficando tr\u00eas quartos debaixo da \u00e1gua por causa da ruptura dos diques \u2013 que, ali\u00e1s, foi resultado da falta de manuten\u00e7\u00e3o produzida pelas economias or\u00e7ament\u00e1rias \u2013, a joia urbana da Louisiana viu-se esvaziada de sua popula\u00e7\u00e3o durante v\u00e1rios meses: a oportunidade perfeita para seus dirigentes terminarem o trabalho de destrui\u00e7\u00e3o iniciado pelo furac\u00e3o. Os mortos mal foram tirados da \u00e1gua e j\u00e1 se instaurou o reinado do \u201cliberalismo bombado por esteroides\u201d \u2013 para usar a express\u00e3o do advogado William B. Quigley \u2013, com todas as caracter\u00edsticas de uma guerra total contra os pobres. Professores foram demitidos, escolas foram privatizadas, o hospital p\u00fablico foi condenado, o aparelho de seguran\u00e7a foi refor\u00e7ado, o mercado imobili\u00e1rio foi desregulamentado, os conjuntos habitacionais com alugu\u00e9is populares foram demolidos e substitu\u00eddos por resid\u00eancias de incorporadoras. Ao mesmo tempo que se mimava o setor do turismo com os planos para a constru\u00e7\u00e3o de um novo aeroporto e de uma mir\u00edade de hot\u00e9is de luxo, estendeu-se o tapete vermelho para os empres\u00e1rios, cobrindo-os de benef\u00edcios fiscais. \u201cFoi necess\u00e1ria a tempestade do s\u00e9culo para criar a oportunidade do s\u00e9culo. N\u00e3o a deixemos passar\u201d, exortava a governadora democrata da Louisiana, Kathleen Blanco, menos de duas semanas ap\u00f3s o Katrina. Dizer que ela foi ouvida \u00e9 pouco. A tal ponto que o \u201crenascimento\u201d de New Orleans, muitas vezes elogiado na m\u00eddia como um \u201cmodelo de sucesso\u201d,<sup>3<\/sup>\u00a0poderia servir como um manual para todos os l\u00edderes mundiais preocupados em fazer o melhor uso poss\u00edvel das trag\u00e9dias clim\u00e1ticas que teremos pela frente.<\/p>\n<p>A primeira li\u00e7\u00e3o que devemos reter a respeito do Katrina \u00e9 que um cataclismo recai preferencialmente sobre aqueles que n\u00e3o t\u00eam nada, ou quase nada. Prova disso s\u00e3o as imagens, exibidas \u00e0 exaust\u00e3o na \u00e9poca, dos milhares de sobreviventes que, por n\u00e3o terem carro \u2013 portanto, n\u00e3o poderem sair da cidade por conta pr\u00f3pria \u2013, amontoaram-se no est\u00e1dio Superdome e no Centro de Conven\u00e7\u00f5es em condi\u00e7\u00f5es inacredit\u00e1veis. \u201cFoi proclamada lei marcial, em todas as esquinas havia policiais e militares apontando armas para n\u00f3s, mas ningu\u00e9m para nos ajudar. \u00c9 algo que nunca vou esquecer\u201d, conta Alfred Marshall, de 60 anos, sindicalista negro que \u00e9 membro do Stand with Dignity, um coletivo de defesa dos trabalhadores prec\u00e1rios. \u201cUm rapaz vizinho meu entrou em uma loja abandonada para conseguir roupas secas e foi baleado, como um cachorro. Nunca conseguimos saber quantas v\u00edtimas foram feitas pelas for\u00e7as da ordem. Sua preocupa\u00e7\u00e3o n\u00famero um era proteger a propriedade contra aquilo que chamavam de pilhagem, e n\u00e3o salvar as pessoas que estavam se afogando ou socorrer os sobreviventes.\u201d<\/p>\n<p>Uma vez evacuados e espalhados pelo pa\u00eds, muitos sobreviventes foram confrontados com escolhas dilacerantes. No\u00a0<em>New York Times<\/em>, o colunista David Brooks alertou: \u201cSe permitirmos que os pobres voltem a suas antigas casas, New Orleans voltar\u00e1 a ser acabada e disfuncional como antes\u201d.<sup>4<\/sup>\u00a0Uma montanha de obst\u00e1culos foi colocada diante deles. Um dos mais tortuosos foi o Road Home [\u201cCaminho de casa\u201d], programa federal destinado a ajudar os exilados a reconstruir a pr\u00f3pria casa. A administra\u00e7\u00e3o do presidente George W. Bush calculou o montante alocado para os benefici\u00e1rios com base no valor avaliado de suas propriedades no mercado imobili\u00e1rio. Isso significa que os donos das opulentas mans\u00f5es do Garden District foram generosamente indenizados, enquanto as pessoas que viviam em bairros pobres ficaram com as migalhas. Treze anos depois, estima-se que cerca de 100 mil moradores de New Orleans entre os mais pobres (de um total de cerca de 450 mil habitantes antes do furac\u00e3o) nunca voltaram para casa. \u201cDeixaram claro que eles n\u00e3o eram bem-vindos em sua pr\u00f3pria cidade\u201d, lan\u00e7a Marshall, com a c\u00f3lera que o acompanha h\u00e1 treze anos. \u201cNossas autoridades usaram o Katrina como um superxerife para expulsar os indesejados \u2013 uma maneira de se vingar desta cidade que eles sempre consideraram muito negra e indisciplinada. Quando se fala de gentrifica\u00e7\u00e3o, o que eu ou\u00e7o \u00e9 a palavra \u2018elimina\u00e7\u00e3o\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Nas semanas de caos que se seguiram ao Katrina, o prefeito democrata de New Orleans, Ray Nagin \u2013 hoje preso por corrup\u00e7\u00e3o \u2013, e a governadora Blanco se uniram em torno de uma causa comum: liquidar a escola p\u00fablica e os professores. No fim de setembro de 2005, a comiss\u00e3o escolar nomeou, para chefi\u00e1-la, um\u00a0<em>cost-killer<\/em>\u00a0[\u201cmatador de custos\u201d] de Nova York, o ex-coronel William Roberti, da empresa de consultoria corporativa Alvarez-Marsal. Esta imediatamente descolou um contrato de US$ 16,8 milh\u00f5es para ajudar a comiss\u00e3o a reorganizar o sistema escolar. Um esquadr\u00e3o de consultores com suas pastas grafite aterrissou no Vieux Carr\u00e9, o epicentro tur\u00edstico da cidade, milagrosamente poupado pelas \u00e1guas. Gra\u00e7as a seus geradores, os bares do distrito do \u00e1lcool eram os \u00fanicos estabelecimentos comerciais da cidade abertos, enquanto tudo desabava ao seu redor, \u201ccom seus clientes completamente amodorrados e marinando sob a pr\u00f3pria imund\u00edcie, a ponto de parecerem figuras de cera abandonadas sob um poste de luz\u201d, como conta o escritor James Lee Burke.<sup>5<\/sup><\/p>\n<p>Foi, portanto, nas m\u00e3os desses especialistas em \u201cgerenciamento de crise\u201d que foi colocado o destino das crian\u00e7as de New Orleans. Sob suas orienta\u00e7\u00f5es, a comiss\u00e3o escolar aproveitou o fato de n\u00e3o haver alma viva na cidade para anunciar a demiss\u00e3o a seco de todos os seus 7.500 professores. \u201cQuando a not\u00edcia foi dada pela m\u00eddia local, a maioria dos professores ainda estava muito longe dali. Muitos tomaram conhecimento do fato repentinamente, no pior momento, quando ainda lutavam com o trauma do Katrina e com dificuldades materiais insuper\u00e1veis\u201d, destaca o advogado Willie Zanders, que defendeu os \u201c7.500\u201d em uma longa maratona judicial, que come\u00e7ou vencendo, mas acabou com a derrota, em 2013, perante a Suprema Corte da Louisiana.<\/p>\n<p><strong>Livrar-se dos professores<\/strong><\/p>\n<p>Por que os professores? Zanders encolhe os ombros. \u201cEles usaram como pretexto o estado de desastre natural e o fato de que n\u00e3o havia mais dinheiro nos cofres. No entanto, dez dias ap\u00f3s o an\u00fancio da demiss\u00e3o em massa, a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do estado da Louisiana recebeu US$ 100 milh\u00f5es do governo federal para ajudar o retorno dos professores. A ironia \u00e9 que esse dinheiro acabou recompensando quem os expulsou.\u201d Para o advogado, tratava-se tamb\u00e9m de neutralizar uma for\u00e7a social potencialmente inc\u00f4moda: \u201cExonerando os professores, majoritariamente negros e muitas vezes envolvidos nas lutas de bairro, a cidade e o estado tamb\u00e9m destru\u00edram seu sindicato, o United Teachers of New Orleans, um dos raros que conseguiram se instalar no deserto sindical que \u00e9 a Louisiana\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, o prop\u00f3sito da opera\u00e7\u00e3o \u2013 a qual Zanders suspeita que j\u00e1 estava na gaveta antes do Katrina, esperando uma oportunidade favor\u00e1vel para vir a p\u00fablico \u2013 era trazer ao mundo esta experi\u00eancia \u00fanica: a transforma\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de quase todas as escolas de uma cidade grande em\u00a0<em>charter schools<\/em>. \u201cEscolas fretadas\u201d, ou \u201ccontratadas\u201d: esse termo designa um regime recentemente inventado que une o privado (cada escola \u00e9 dirigida por um operador que se comporta como um l\u00edder empresarial) e o p\u00fablico (o acesso \u00e0s escolas continua gratuito, e o operador privado n\u00e3o pode obter lucro). Inicialmente testado em Nova York, com apoio da Funda\u00e7\u00e3o Bill e Melinda Gates, o sistema\u00a0<em>charter<\/em>\u00a0difundiu-se num piscar de olhos para a maioria das grandes cidades dos Estados Unidos, precedido por sua reputa\u00e7\u00e3o de cura milagrosa para os problemas do fracasso escolar em bairros dif\u00edceis.<sup>6<\/sup>\u00a0Nunca antes ele havia sido aplicado na escala de toda uma metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Para conhecer melhor esse sistema, batemos \u00e0 porta da Paul Habans Charter School, uma escola prim\u00e1ria em Algiers, na periferia. Na parede da recep\u00e7\u00e3o exibe-se em grandes letras vermelhas o lema do estabelecimento: \u201cPerseveran\u00e7a, excel\u00eancia, coragem, comunidade\u201d. No corredor, uma placa proclama: \u201cSempre fazemos o melhor para sermos melhores\u201d. Mais adiante: \u201cSomos parte de algo maior que n\u00f3s mesmos\u201d. Nossos passos ecoam em um sil\u00eancio de catedral.<\/p>\n<p>A respons\u00e1vel pelo local nos d\u00e1 a honra de uma audi\u00eancia. Branca, jovem, sorridente, Kate Mehok \u00e9 a diretora-geral do grupo Crescent City Schools, que gere tr\u00eas escolas, incluindo esta. Ela tamb\u00e9m \u00e9 de Nova York. \u201cCada escola recebe US$ 8.500 por crian\u00e7a por ano, pagos pelo estado e pela cidade\u201d, explica a diretora. \u201cAcolhemos todas as crian\u00e7as sem discrimina\u00e7\u00e3o e fazemos relat\u00f3rios sobre nossos resultados. Mas ningu\u00e9m vem nos dizer que programa devemos seguir e como fazer isso. Desde que os objetivos sejam cumpridos, podemos fazer o que quisermos.\u201d<\/p>\n<p>Para substituir os professores demitidos, os contratantes primeiro se voltaram para a Teach for America, uma organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria que envia novatos rec\u00e9m-formados para territ\u00f3rios em crise, normalmente no exterior: \u00e9 uma oportunidade de ter uma primeira experi\u00eancia e depois obter o certificado de professor. Em New Orleans, eles raramente ficam muito tempo. Mehok admite que h\u00e1 \u201cuma rotatividade, como em qualquer empresa\u201d, mas destaca que \u201c\u00e9 tamb\u00e9m uma chance de ter professores jovens, que ainda n\u00e3o est\u00e3o formatados\u201d. E uma oportunidade para seus empregadores, que pagam pessimamente, enquanto recebem eles pr\u00f3prios polpudos sal\u00e1rios \u2013 US$ 120 mil por ano (no caso de Mehok) at\u00e9 mais de US$ 200 mil no caso de alguns de seus colegas. Como ela organiza o recrutamento? \u201cDa maneira tradicional: publicamos um an\u00fancio na internet, os candidatos se inscrevem, estudamos seu curr\u00edculo e, se necess\u00e1rio, chamamos para uma entrevista. \u00c9 claro que estamos livres para demiti-los se eles n\u00e3o tiverem bons resultados, assim como eles est\u00e3o livres para ir embora se n\u00e3o estiverem satisfeitos.\u201d<\/p>\n<p>Para os estudantes, a \u201coportunidade\u201d da qual fala a diretora n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente assim. Ashana Bigard, uma assistente social que d\u00e1 apoio legal aos pais de alunos em conflito com a escola, acredita que o sucesso pol\u00edtico do modelo\u00a0<em>charter\u00a0<\/em>reside precisamente em seu car\u00e1ter disciplinar. \u201cEles chamam isso de regra\u00a0<em>no excuse<\/em>\u201d, explica. \u201cAs crian\u00e7as t\u00eam de andar em fila, como galinhas; algumas escolas onde os estudantes negros s\u00e3o ultramajorit\u00e1rios simplesmente suprimiram a recrea\u00e7\u00e3o. Crian\u00e7as em idade escolar s\u00e3o punidas quando se encostam a uma parede, colocam a cabe\u00e7a na mesa ou usam uma blusa cuja cor n\u00e3o \u00e9 permitida.\u201d Mas o pior, segundo ela, \u00e9 a regra que imp\u00f5e o sil\u00eancio no refeit\u00f3rio e durante a sesta: \u201cPara crian\u00e7as de 4 a 8 anos, uma proibi\u00e7\u00e3o como essa pode prejudicar o desenvolvimento das emo\u00e7\u00f5es sociais\u201d.<\/p>\n<p>As\u00a0<em>charter schools<\/em>\u00a0s\u00e3o uma ferida t\u00e3o dolorosa para Bigard que ela est\u00e1 pensando em ir embora da cidade onde nasceu. \u201cQuero que meu filho aprenda m\u00fasica na escola, mas aqui isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Era, antes do Katrina: havia aulas de m\u00fasica em todas as escolas; foi nelas que muitos m\u00fasicos aprenderam a tocar. Hoje isso acabou. Meu tio-av\u00f4, Barney Bigard, era um grande clarinetista de jazz, tocou com Duke Ellington e Louis Armstrong, e meu filho n\u00e3o tem nem acesso a um instrumento.\u201d<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-69850\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/nova-orleans-katrina.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/nova-orleans-katrina.jpg 1080w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/nova-orleans-katrina-600x432.jpg 600w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/nova-orleans-katrina-300x216.jpg 300w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/nova-orleans-katrina-768x553.jpg 768w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/nova-orleans-katrina-1024x738.jpg 1024w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/nova-orleans-katrina-160x115.jpg 160w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/nova-orleans-katrina-360x259.jpg 360w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>De m\u00fasicos a motoristas de Uber<\/strong><\/p>\n<p>Na cidade-m\u00e3e dos m\u00fasicos negros norte-americanos, onde a embriaguez do som toma conta de voc\u00ea a cada passo, a considera\u00e7\u00e3o dada aos m\u00fasicos tamb\u00e9m diz muito sobre as mudan\u00e7as em curso. \u201cSempre foi dif\u00edcil, mas est\u00e1 cada vez pior\u201d, suspira Bennie Pete, fundador do Hot 8 Brass Band, ap\u00f3s um show de levantar defunto. Sua banda \u00e9 uma das mais famosas da cidade e viaja o mundo inteiro \u2013 mas seus membros mal t\u00eam onde cair mortos. \u201cMuita gente est\u00e1 vindo para c\u00e1 com muito dinheiro, eles compram casas e bairros inteiros, for\u00e7ando os antigos moradores a sair, ent\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m ficam mais dif\u00edceis para os m\u00fasicos\u201d, confidencia. \u201cAntigamente, toc\u00e1vamos muito nos bares tur\u00edsticos da Frenchmen Street; agora eles s\u00f3 pagam em gorjeta, o que recusamos. Nunca foi t\u00e3o dif\u00edcil viver da nossa m\u00fasica. Para complementar, todos n\u00f3s temos outros trabalhos \u2013 vendedor de loja, motorista de Uber etc.\u201d Outra proeza local: enquanto o n\u00famero de turistas cresce ano a ano (quase 18 milh\u00f5es em 2017, um novo recorde), os artistas que eles v\u00eam prestigiar empobrecem a ponto de ter de lev\u00e1-los de Uber at\u00e9 seu Airbnb.<\/p>\n<p>Em New Orleans, como em muitos outros lugares, a falta de moradia popular \u00e9 a principal alavanca da gentrifica\u00e7\u00e3o. Mas aqui ela n\u00e3o resulta apenas dos caprichos de um mercado deixado livre: \u00e9 fruto de um implac\u00e1vel trabalho de demoli\u00e7\u00e3o. Entre 2006 e 2014, os quatro principais conjuntos habitacionais que compunham o universo da moradia popular da cidade, totalizando 4.500 unidades habitacionais, foram todos destru\u00eddos. Essa ideia tamb\u00e9m j\u00e1 estava no arm\u00e1rio antes do Katrina. Desde a d\u00e9cada de 1990, um programa federal aprovado durante a presid\u00eancia de Bill Clinton subsidia a destrui\u00e7\u00e3o de moradias sociais e sua substitui\u00e7\u00e3o por resid\u00eancias para \u201crendas intermedi\u00e1rias\u201d. Com esse presente para as incorporadoras, a prefeitura de New Orleans j\u00e1 havia come\u00e7ado, desde a virada para o ano 2000, a planejar o desmantelamento dos conjuntos. Mas as tentativas chocavam-se com uma forte resist\u00eancia. O estado de perplexidade provocado pelo Katrina e o clima de corrida do ouro que tomou conta da elite facilitaram a transforma\u00e7\u00e3o do plano em ato.<\/p>\n<p>Morador hist\u00f3rico de Calliope, antigo conjunto habitacional de tijolos vermelhos do distrito de Uptown, Marshall nos leva para ver o que resta dele: pequenas casas pr\u00e9-fabricadas, montadas \u00e0s pressas e gerenciadas por uma incorporadora do Missouri ligada ao banco Goldman Sachs. A que ele ocupa faz parte da cota de unidades reservadas aos locat\u00e1rios sociais, o que pode ser identificado pela porta da frente pintada de roxo. \u201cA da minha vizinha \u00e9 amarela, porque ela paga um aluguel mais caro. Somos proibidos de pint\u00e1-las. Ali\u00e1s, tudo \u00e9 proibido aqui: fazer churrasco, comer do lado de fora com os amigos, tocar m\u00fasica. O regulamento n\u00e3o deixa nem sentar no alpendre, coisa que fazemos nesta cidade h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es. O objetivo \u00e9 que cada um fique sozinho dentro de casa. Quanto \u00e0s plantas\u2026\u201d Ele nos faz tocar com os dedos a coisa esverdeada e raqu\u00edtica plantada em frente \u00e0 sua casa. Pl\u00e1stico. \u201cEst\u00e1 vendo isso? N\u00e3o temos nem o direito de arrancar essa coisa horrenda para cultivar uma planta, uma de verdade.\u201d Regras semelhantes existem nas resid\u00eancias para as pessoas ricas, mas sem produzir o mesmo efeito punitivo.<\/p>\n<p>Marshall sente raiva do que fizeram com seu bairro. Das cerca de 1.500 fam\u00edlias que viviam em Calliope, devem restar umas sessenta. \u201cNa \u00e9poca, todo mundo se conhecia, t\u00ednhamos pomares coletivos onde as pessoas cultivavam frutas. Foi aqui que eu aprendi que, quando alguma coisa n\u00e3o funciona, ela pode ser melhorada coletivamente. Hoje nem conhe\u00e7o meus vizinhos. Ali na frente era um jardim p\u00fablico aonde as pessoas iam tocar juntas; agora \u00e9 um terreno privado e fechado com cerca. Para chegar ali, \u00e9 preciso ser s\u00f3cio de um clube esportivo. Naquele outro lado havia um bar, uma lavanderia e lojas, todos tocados por irm\u00e3os negros; agora, s\u00f3 tem essas casinhas de papel\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Como organizador de lutas sociais, Marshall enfrenta outra realidade da gentrifica\u00e7\u00e3o: enquanto, em dez anos, os alugu\u00e9is aumentaram entre 50% e 100%, dependendo do bairro, sobretudo por causa da desregulamenta\u00e7\u00e3o do mercado especulativo das casas de veraneio e da prolifera\u00e7\u00e3o do Airbnb, o sal\u00e1rio m\u00ednimo, do qual vive grande parte dos negros na cidade, n\u00e3o aumentou. Ainda est\u00e1 em US$ 7,25 a hora, o n\u00edvel mais baixo permitido nos Estados Unidos. Dezenas de milhares de trabalhadores t\u00eam de se virar com essa mis\u00e9ria, especialmente nos setores da constru\u00e7\u00e3o e do turismo. Muitos se levantam \u00e0s 4 ou 5 horas da manh\u00e3 para chegar ao trabalho e voltam \u00e0 noite com US$ 60 no bolso, menos o pre\u00e7o do \u00f4nibus. \u201cQue vida \u00e9 essa? Como voc\u00ea acha que a pessoa est\u00e1 quando chega o fim da semana? Fomos afogados pelo Katrina e, no fim das contas, continuamos nos afogando.\u201d<\/p>\n<p>Marshall e seus camaradas da Stand with Dignity est\u00e3o mobilizados em torno da reivindica\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo de US$ 15, mas na Louisiana essa \u00e9 uma luta dura. Em mar\u00e7o de 2018, o Senado local rejeitou uma en\u00e9sima proposta para elevar o piso legal de US$ 7,25 para US$ 8. Eles preferem se desdobrar para agradar os patr\u00f5es. Foram muitos os incentivos fiscais criados para estes ao longo dos anos, chegando agora a 80% do valor inicial das taxas e impostos. Em 2016, no momento de deixar o cargo, o governador republicano Bobby Jindal fez a seguinte confiss\u00e3o p\u00fablica: \u201cA verdade \u00e9 que criamos um Estado de bem-estar para as empresas\u201d.<\/p>\n<p>Os interessados podem, portanto, relaxar. Jon Atkinson \u00e9 o cofundador de um fundo de investimento especializado em \u201cempresas inovadoras\u201d. Desde o meio deste ano, ele preside o Idea Village, um grupo de empreendedores\u00a0<em>tech<\/em>sediado no \u00faltimo andar do Museu de Arte Contempor\u00e2nea, como que para celebrar a alian\u00e7a entre dinheiro e bom gosto. Ele nos recebe em um ambiente furiosamente\u00a0<em>start-up<\/em>, no meio de um\u00a0<em>open-space<\/em>\u00a0cheio de jovens barbudinhos que saboreiam seu caf\u00e9 em copinhos recicl\u00e1veis. Quando veio da Calif\u00f3rnia para estudar, em 2007, Atkinson, que ganha US$ 300 mil por ano, diz ter encontrado a cidade em pleno \u201cper\u00edodo de caos criador de oportunidades\u201d. Quando perguntamos o que ele quer dizer com isso, ele dispara esta preciosidade conceitual: \u201cO Katrina fez de cada habitante um empreendedor. A necessidade de sobreviver obrigou todo mundo a ser criativo. Isso gravou o esp\u00edrito empreendedor em nosso DNA\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSe voc\u00ea consegue matar esta cidade, voc\u00ea consegue matar qualquer cidade\u201d, dizia um morador de New Orleans em 2006.<sup>7<\/sup>\u00a0Doze anos depois, no final da Canal Street, uma incorporadora de Massachusetts est\u00e1 transformando o World Trade Center em um gigantesco hotel cinco estrelas. A prefeitura contribuiu copiosamente para o financiamento dessa obra de US$ 465 milh\u00f5es, onde labutam os invis\u00edveis da gentrifica\u00e7\u00e3o. Em seu site, a incorporadora explica que o restaurante panor\u00e2mico que ocupar\u00e1 os dois \u00faltimos andares do pr\u00e9dio oferecer\u00e1 uma \u201ccelebra\u00e7\u00e3o da cultura afro-americana na Louisiana: a m\u00fasica, a comida e as tradi\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>*<strong>Olivier Cyran<\/strong>\u00a0\u00e9 jornalista e autor, com Julien Brygo, de\u00a0<em>Boulots de merde!\u00a0<\/em><em>Du cireur au trader. Enqu\u00eate sur l\u2019utilit\u00e9 et la nuisance sociales des m\u00e9tiers<\/em>[Empregos de merda! Do sapateiro ao corretor financeiro. Pesquisa sobre a utilidade e o preju\u00edzo social das profiss\u00f5es], La D\u00e9couverte Poche, Paris, 2018.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/como-matar-uma-cidade-2\/\">Como matar uma cidade &#8211; Le Monde Diplomatique<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olivier Cyran &#8211; Em 29 de agosto de 2005, um furac\u00e3o atingia New Orleans, matando 2 mil pessoas e destruindo dezenas de milhares de casas. 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