{"id":24146,"date":"2024-08-05T12:17:40","date_gmt":"2024-08-05T15:17:40","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24146"},"modified":"2024-08-02T09:20:41","modified_gmt":"2024-08-02T12:20:41","slug":"o-golpe-de-1964-os-golpes-de-2016-18-e-os-de-2022-23-sao-a-mesma-coisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/08\/05\/o-golpe-de-1964-os-golpes-de-2016-18-e-os-de-2022-23-sao-a-mesma-coisa\/","title":{"rendered":"O golpe de 1964, os golpes de 2016\/18 e os de 2022\/23 s\u00e3o a mesma coisa"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mauro Lopes<\/strong> &#8211; H\u00e1 70 anos, desde 1954, os militares empreendem tentativas sucessivas de golpes de Estado. Os movimentos golpistas de 1954, 55, 56, 59, 61, 64, 2016, 2018, 2022 e 2023 s\u00e3o contas de um \u00fanico colar, cujo fio \u00e9 a hist\u00f3ria do pa\u00eds. As For\u00e7as Armadas brasileiras s\u00e3o estruturalmente golpistas.<\/p>\n<p>Os golpes militares, vitoriosos ou derrotados, n\u00e3o s\u00e3o irrup\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, eventos epis\u00f3dicos no pa\u00eds. Eles s\u00e3o uma linha cont\u00ednua, ininterrupta, da a\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas no cen\u00e1rio nacional. Mais que isso, todas essas tentativas, exitosas ou n\u00e3o, guardam rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre si. Um golpe \u00e9 sempre a continuidade do anterior ou dos anteriores, mesmo que os personagens individualmente sejam outros.<\/p>\n<p>Uma compara\u00e7\u00e3o que talvez ajude a entender como os golpes militares se inserem no pa\u00eds: pense numa corrida ol\u00edmpica de revezamento, na qual um corredor passa o bast\u00e3o para o seguinte. S\u00e3o duas modalidades nas Olimp\u00edadas: revezamento 4 x 100 e revezamento 4 x 400. S\u00e3o provas r\u00e1pidas.<\/p>\n<p>No caso dos golpes militares, eles s\u00e3o como uma prova de revezamento longa, longu\u00edssima.<\/p>\n<p><strong>Dez anos de tentativas at\u00e9 a vit\u00f3ria em 1964<\/strong><\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria contempor\u00e2nea brasileira, o \u201ctiro de largada\u201d para essa prova cujo fim n\u00e3o se vislumbra no horizonte \u00e9 1954. O bast\u00e3o dos militares de 1954 foi passado em 1955, em 1956, em 1959, em 1961 e novamente em 1964. Com a vit\u00f3ria do golpe em 1964, o \u201catleta\u201d passou o bast\u00e3o apenas em 2016\/2018, que o entregou em 2022 e mais uma vez em 8 de janeiro de 2023.<\/p>\n<p>Ilude-se quem imagina que o golpe de 1964 foi uma a\u00e7\u00e3o fulminante de sucesso incontrast\u00e1vel organizada durante poucos meses. N\u00e3o. 1964 foi\u00a0a sexta tentativa militar de golpear a democracia brasileira.<\/p>\n<p>A primeira delas, em 1954, quando os militares lan\u00e7aram um manifesto no qual exigiam a ren\u00fancia imediata de Get\u00falio Vargas como \u00fanica alternativa ao golpe em articula\u00e7\u00e3o. A tentativa foi contida pelo suic\u00eddio de Get\u00falio, que mobilizou o pa\u00eds contra os golpistas.<\/p>\n<p>A segunda tentativa fracassada ocorreu em novembro de 1955, com o objetivo de impedir a posse de Juscelino Kubitschek, que havia vencido a elei\u00e7\u00e3o no m\u00eas anterior. O golpe foi derrotado em 11 de novembro pela a\u00e7\u00e3o fulminante do general Henrique Teixeira Lott, num tempo em que ainda havia militares democratas e legalistas.<\/p>\n<p>Militares da Aeron\u00e1utica receberam o bast\u00e3o dos derrotados de novembro e em fevereiro de 1956 encetaram a terceira tentativa, a Revolta de Jacareacanga. O movimento era aparentemente sem express\u00e3o, mas prolongou-se por 19 dias. Um major e um capit\u00e3o tomaram um avi\u00e3o na Base A\u00e9rea do Rio de Janeiro e voaram at\u00e9 Santar\u00e9m, onde tomaram a Base Militar de Jacareacanga e mais alguns pequenos povoados nas cercanias de Santar\u00e9m. A revolta prolongou-se pela recusa das For\u00e7as Armadas de sufocar os rebelados, como aconteceu novamente na tentativa de golpe de 2022\/23, quando os militares recusaram-se a desmontar os acampamentos em frente aos quarteis.<\/p>\n<p>A quarta tentativa foi a Revolta de Aragar\u00e7as, entre 2 e 4 de dezembro de 1959. Os golpistas atuaram sob comando do major aviador Haroldo Coimbra Veloso, aquele mesmo de Jacareacanga, e do tenente-coronel Jo\u00e3o Paulo Moreira Burnier. Sequestraram cinco avi\u00f5es e os desviaram para a base militar de Aragar\u00e7as, em Goi\u00e1s, esperando que o levante militar se espalhasse, o que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>Em 1961, depois da ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, a quinta\u00a0tentativa:\u00a0as For\u00e7as Armadas levantaram-se contra a posse de Jo\u00e3o Goulart. Jango, como ficou conhecido, estava liderando uma miss\u00e3o comercial brasileira na China no momento da ren\u00fancia. No lugar de J\u00e2nio, assumiu interinamente o presidente da C\u00e2mara dos Deputados, Ranieri Mazzilli, mas o poder real ficou nas m\u00e3os dos ministros militares, o marechal Od\u00edlio Denys, da Guerra, vice-almirante S\u00edlvio Heck, da Marinha, e o brigadeiro do ar Gabriel Gr\u00fcn Moss, da Aeron\u00e1utica. Constituindo na pr\u00e1tica uma junta militar, os tr\u00eas romperam a ordem jur\u00eddica e vetaram a posse do vice-presidente Mazzilli operou como um testa de ferro ou laranja do golpe em curso a partir de 25 de agosto de 1961. Houve manifesta\u00e7\u00f5es, greves e firme oposi\u00e7\u00e3o de l\u00edderes pol\u00edticos progressistas. Naquele momento, avultou-se a figura de Leonel Brizola, ent\u00e3o governador do Rio Grande do Sul. Brizola mobilizou a popula\u00e7\u00e3o, a Brigada Militar do Rio Grande do Sul e as emissoras de r\u00e1dio, constituindo a &#8220;Cadeia da Legalidade&#8221; que teve ades\u00e3o de emissoras de todo o pa\u00eds e decisiva para derrotar os golpistas -al\u00e9m da divis\u00e3o nas pr\u00f3prias For\u00e7as Armadas<\/p>\n<p>Os militares derrotados pela Campanha da Legalidade, que haviam pego o bast\u00e3o dos derrotados das quatro tentativas de golpe anteriores, entregaram-no aos golpistas de 1964. Ent\u00e3o, finalmente, o golpe venceu, depois de cinco tentativas em 10 anos, e a junta militar derrotada pela mobiliza\u00e7\u00e3o em 1961 assumiu o poder.<\/p>\n<p>Da mesma maneira que Lula agora, JK quis \u201cvirar a p\u00e1gina\u201d e nenhum militar envolvido nas articula\u00e7\u00f5es golpistas de 1954, 55, 56 e 59 foram punidos, nem as datas das tentativas de golpe anteriores tornaram-se refer\u00eancias para seu governo. Um exemplo dos resultados deste \u201cvirar a p\u00e1gina\u201d: assim como o major aviador Haroldo Coimbra Veloso foi a alma do golpe em Jacareacanga e depois em Aragar\u00e7as, seu principal parceiro, o tenente-coronel Jo\u00e3o Paulo Moreira Burnier teria um papel de destaque em outro golpe, o vitorioso em 1964. Burnier, que chegou a brigadeiro, entre outras atividades sanguin\u00e1rias, foi comandante da 3\u00aa Zona A\u00e9rea, sediada no Rio de Janeiro. Ele foi o respons\u00e1vel pela pris\u00e3o, tortura e morte de dezenas de pessoas, entre elas Rubens Paiva, Stuart Angel Jones e An\u00edsio Teixeira. Um militar de alta patente descreveu Burnier &#8220;um insano mental inspirado por instintos perversos e sanguin\u00e1rios, sob o pretexto de proteger o Brasil do perigo comunista&#8221;. Considerado um l\u00edder pela c\u00fapula militar, acabou sendo reformado e transferido para a reserva por press\u00e3o do governo dos EUA, pois Stuart Angel Jones era cidad\u00e3o daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>A express\u00e3o corrente \u00e9 \u201cgolpe de 1964\u201d, mas talvez o mais adequado fosse identificar o que aconteceu como o movimento golpista 1954\/1964 quando, afinal, sagrou-se vitorioso. Nesse caso, em vez de falar em 60 anos do golpe, dever\u00edamos falar de 70 anos de movimento golpista e 60 anos de sua vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>H\u00e1 outra quest\u00e3o a ser considerada nesta maneira de encarar a linha ininterrupta da a\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas estruturalmente golpistas. 1964 \u00e9 a data da vit\u00f3ria do movimento que se arrastou por 10 anos. Quando se fala de \u201cgolpe de 1964\u201d devemos considerar que, uma vez vitorioso, ele tornou-se no golpe de 1964, 65, 66\u2026 at\u00e9 1985, quando ele foi finalmente derrotado e se restaurou a democracia.<\/p>\n<p><strong>Os golpes de 2016-2018<\/strong><\/p>\n<p>Durou 31 anos a experi\u00eancia democr\u00e1tica, marcada por epis\u00f3dios de grande tens\u00e3o. At\u00e9 que o bast\u00e3o de 1964 foi passado aos golpistas de 2015\/2016. A aprova\u00e7\u00e3o no Senado do impeachment de Dilma Rousseff foi apenas a faceta parlamentar de um movimento urdido e levado a cabo pelos militares -sem eles, n\u00e3o haveria impeachment. Da mesma maneira que em 1964, coube aos militares e ao Congresso papeis espec\u00edficos no golpe, com m\u00e9ritos distintos em cada caso. Foi 2016 um golpe militar? Quem o reconhece \u00e9 ningu\u00e9m menos que o coroado pelo golpe, Michel Temer. Em seu livro \u201cA Escolha\u201d, de 2020, ele relatou os encontros de car\u00e1ter conspirat\u00f3rio que manteve com a c\u00fapula do Ex\u00e9rcito quando ainda era vice-presidente. Dos encontros participaram pelo menos o ent\u00e3o comandante do Ex\u00e9rcito, general Eduardo Villas B\u00f4as, e o chefe do Estado-Maior, general S\u00e9rgio Etchegoyen. Vitorioso o golpe, Temer manteve Villas B\u00f4as no cargo e nomeou Etchegoyen ministro do recriado Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional (GSI). Tais encontros, ecoados por Villas B\u00f4as e Etchegoyen no Alto Comando do Ex\u00e9rcito e de l\u00e1 para os pol\u00edticos em Bras\u00edlia e para a lideran\u00e7a empresarial,\u00a0 foram combust\u00edvel para a articula\u00e7\u00e3o parlamentar que sacramentou a derrubada de Dilma.<\/p>\n<p>Da mesma maneira que houve um \u201cgolpe dentro do golpe\u201d depois de 1964, com a edi\u00e7\u00e3o do AI-5 em dezembro de 1968, houve igualmente um \u201cgolpe dentro do golpe\u201d em 2018.\u00a0 Em dois posts amea\u00e7adores no Twitter, Villas B\u00f4as informou ao STF e, consequentemente, ao universo pol\u00edtico-institucional brasileiro, que um habeas corpus a Lula, que viabilizaria sua candidatura presidencial nas elei\u00e7\u00f5es de outubro, era inaceit\u00e1vel para os militares. Por 6 a 5 o habeas corpus n\u00e3o foi concedido. N\u00e3o foi um ato isolado do ent\u00e3o comandante do Ex\u00e9rcito: o texto dos dois tu\u00edtes foram submetidos e aprovados pelo Alto Comando do Ex\u00e9rcito, que re\u00fane o pr\u00f3prio comandante da For\u00e7a e os generais de quatro estrelas na ativa. Quatro meses depois, em agosto, o \u201cgolpe dentro do golpe\u201d teve continuidade na AMAN, a Academia Militar das Agulhas Negras. Bolsonaro foi recebido como virtual presidente da Rep\u00fablica na cerim\u00f4nia de entrega de espadins aos cadetes que se formavam. V\u00e1rios militares de alta patente estavam l\u00e1. Entre eles, ningu\u00e9m menos que o general S\u00e9rgio Etchegoyen, col\u00edder do golpe de 2016.<\/p>\n<p><strong>As tentativas de 2022-23 e as que vir\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Os golpistas do ciclo 2016\/2018 finalmente passaram o bast\u00e3o para as duas tentativas de golpe mais recentes, as de 2022\/2023. As duas fracassaram, mas a hist\u00f3ria contempor\u00e2nea das For\u00e7as Armadas indica que elas foram apenas duas tentativas iniciais de novas que vir\u00e3o \u00e0 frente.<\/p>\n<p>O bast\u00e3o de 1954 foi passado de m\u00e3o em m\u00e3o, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o de militares, ininterruptamente. Quem imagina que o bast\u00e3o de 2022\/2023 n\u00e3o ser\u00e1 passado adiante n\u00e3o entendeu nada da hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 grave, muito grave a decis\u00e3o do presidente Lula de proibir manifesta\u00e7\u00f5es de integrantes de seu governo sobre os 60 anos do golpe de 1964. Lula disse em v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es que quer \u201cvirar a p\u00e1gina\u201d, que n\u00e3o quer \u201cficar remoendo sempre\u201d, que est\u00e1 \u201cmais preocupado com o golpe de 8 de janeiro de 2023 do que com 64\u201d.<\/p>\n<p>O presidente presta um desservi\u00e7o \u00e0 democracia, se ilude e tenta iludir o pa\u00eds. Pois os militares n\u00e3o viraram p\u00e1gina alguma e ficam remoendo sempre, como ficaram remoendo por 31 anos entre 1985 e 2016. Pior ainda, quando o presidente afirma que 1964 \u201cj\u00e1 faz parte da hist\u00f3ria\u201d e que\u00a0 est\u00e1 \u201cmais preocupado com o golpe de 8 de janeiro de 2023 do que com 64\u201d, desconsidera que janeiro de 2023 \u00e9 a continuidade hist\u00f3rica de 1 de abril de 1964 que por sua vez \u00e9 a continuidade das cinco tentativas fracassadas desde 1954.<\/p>\n<p>Quem de fato preocupa-se com o que ocorreu em 2022 e janeiro de 2023 mant\u00e9m muito viva a mem\u00f3ria de 1964. Na verdade, mant\u00e9m muito viva a mem\u00f3ria de 1954, 55, 56, 59, 61, 64, 2016, 2018, colada com a mem\u00f3ria de 2022\/8 de janeiro de 2023. Todas estas datas s\u00e3o contas de um \u00fanico colar, cujo fio \u00e9 a hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Uma lista impressionante: de nove presidentes eleitos desde 1945, cinco foram derrubados pelos militares ou sofreram tentativas de golpe. N\u00e3o foram golpeados apenas Dutra, Collor, FHC e Bolsonaro -este \u00faltimo um dos l\u00edderes dos golpes 2022\/23. Foram 10 golpes ou tentativas desde 1954. Obs: Jo\u00e3o Goulart foi eleito vice-presidente em 1960, quando havia voto separado para presidente e vice &#8211; assumiu com a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p><strong>Os casos Etchegoyen e Villas B\u00f4as: uma nota final<\/strong><\/p>\n<p>Uma nota final sobre o general S\u00e9rgio Etchegoyen e o general Villas B\u00f4as, que ilustram o car\u00e1ter estrutural do golpismo das For\u00e7as Armadas ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Como o tenente-coronel e depois brigadeiro Jo\u00e3o Paulo Moreira Burnier, n\u00e3o foram poucos os militares que participaram de mais de um golpe ou tentativa de golpe ao longo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O general Villas B\u00f4as \u00e9 o grande l\u00edder militar do s\u00e9culo 21. Ele \u00e9 como um Pinochet brasileiro, que traiu a presidente que o nomeou. Seu colega chileno foi nomeado comandante do Ex\u00e9rcito por Salvador Allende em 1973 e poucos meses depois iria tra\u00ed-lo e \u00e0 democracia liderando o sangrento golpe de Estado no Chile. Villas B\u00f4as foi nomeado por Dilma Rousseff comandante do Ex\u00e9rcito em 2015 e a apunhalou tamb\u00e9m poucos meses depois, liderando o ciclo golpista de 2016-2018. Ele acabou desempenhando um papel chave novamente em 2022-23. Embora atado a uma cadeira de rodas por conta da esclerose lateral amiotr\u00f3fica, ele foi um l\u00edder inspirador para os golpistas. Sua esposa, Maria Aparecida, esteve por diversas vezes no acampamento golpista diante do QG do Ex\u00e9rcito, em Bras\u00edlia. Importante sublinhar que os militares s\u00e3o eles mesmos e suas fam\u00edlias. O conceito de \u201cfam\u00edlia militar\u201d prev\u00ea que quando um militar, especialmente da ativa, n\u00e3o pode se manifestar, sua esposa ou marido, pais, tios, sobrinhos ou filhos fazem-no por ele e o corpo fardado entende o recado. Em uma dessas vezes, Maria Aparecida desfilou na avenida entre o acampamento e o QG numa van adaptada para transporte de pessoas com defici\u00eancia. Ao passar \u00e0 frente do acampamento, apontou para o fundo do carro, indicando que l\u00e1 estava o general Villas B\u00f4as em pessoa.<\/p>\n<p>Quanto ao general S\u00e9rgio Etchegoyen, que liderou ao lado de Villas B\u00f4as o ciclo de 2016-18, o caso de sua fam\u00edlia \u00e9 exemplar do car\u00e1ter estrutural do golpismo que constitui as For\u00e7as Armadas brasileiras. A fam\u00edlia Etchegoyen liderou golpes de Estado fracassados ou bem sucedidos desde os anos 1950 e pelo menos dois de seus integrantes participaram dos por\u00f5es da ditadura de 1964, a exemplo do brigadeiro Jo\u00e3o Paulo Moreira Burnier.<\/p>\n<p>O av\u00f4 de S\u00e9rgio, o general Alcides Gon\u00e7alves Etchegoyen participou do golpe contra Get\u00falio em 1954 e, no ano seguinte, foi um dos l\u00edderes da tentativa de barrar a posse de JK. S\u00f3 a morte, em 1956, interrompeu sua carreira golpista. Os tr\u00eas filhos do general Alcides foram militares: Leo, Cyro e Alcides Carlos. Os dois primeiros, pai e tio de S\u00e9rgio Etchegoyen, assumiram o posto e foram protagonistas do golpe de 1964, sendo ambos denunciados no relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade.<\/p>\n<p>Leo, o pai, foi secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio Grande do Sul, de novembro de 1964 a fevereiro de 1965, assessor do general-presidente Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici e chefe do Estado-Maior do II Ex\u00e9rcito, de agosto de 1979 a julho de 1981 e, a seguir, chefe do Estado-Maior do III Ex\u00e9rcito, em agosto de 1982. Como secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a do Rio Grande do Sul, seus feitos mais not\u00e1veis foram 1) instalar no Pal\u00e1cio da Pol\u00edcia em Porto Alegre a sede do\u00a0 Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops) no estado. L\u00e1 foram presos e torturados mais de mil pessoas, dez delas assassinadas. Entre os torturados estava o deputado federal Rui Falc\u00e3o (PT-SP), ex-presidente do partido e um de seus principais l\u00edderes. 2) recepcionar o agente da CIA Dan Mitrione, que ensinou t\u00e9cnicas de tortura aos militares e policiais brasileiros e das demais ditaduras latino-americanas nos anos 1960.<\/p>\n<p>Cyro, o tio de S\u00e9rgio, foi assessor do general Milton Tavares de Souza, o Miltinho, temido chefe do poderoso Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE) da fase mais sanguin\u00e1ria do Governo M\u00e9dici. Ele foi tamb\u00e9m o respons\u00e1vel \u201cCasa da Morte\u201d, centro clandestino de tortura e morte montado pelo DOI-CODI do I Ex\u00e9rcito em Petr\u00f3polis (RJ).<\/p>\n<p>S\u00e9rgio seguiu os passos do av\u00f4, do pai e do tio. A f\u00faria contra a revela\u00e7\u00e3o do papel nefasto de sua fam\u00edlia pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade foi um dos combust\u00edveis de seu papel no ciclo golpista 2016-2018.<\/p>\n<p><strong>Atualiza\u00e7\u00e3o:<\/strong> na vers\u00e3o original do artigo, escapou-me a tentativa de golpe de 1961 para impedir a posse de Jo\u00e3o Goulart. \u00c9 not\u00e1vel que dos dez golpes perpetrados ou tentados desde 1954, tr\u00eas deles tenham sido para impedir a posse de presidentes eleitos (JK em 1955, Jo\u00e3o Goulart em 1961 e Lula em 2022). Quem me advertiu sobre a omiss\u00e3o da tentativa de 1961 foi o amigo e historiador brilhante Jones Manoel, pelo que agrade\u00e7o.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/opiniao\/2024\/3\/27\/golpe-de-1964-os-golpes-de-201618-os-de-202223-so-mesma-coisa-por-mauro-lopes-156379.html\">O golpe de 1964, os golpes de 2016\/18 e os de 2022\/23 s\u00e3o a mesma coisa &#8211; Por Mauro Lopes | Revista F\u00f3rum (revistaforum.com.br)<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mauro Lopes &#8211; H\u00e1 70 anos, desde 1954, os militares empreendem tentativas sucessivas de golpes de Estado. Os movimentos golpistas de 1954, 55, 56, 59, 61, 64, 2016, 2018, 2022 e 2023 s\u00e3o contas de um \u00fanico colar, cujo fio \u00e9 a hist\u00f3ria do pa\u00eds. As For\u00e7as Armadas brasileiras s\u00e3o estruturalmente golpistas. 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