{"id":24123,"date":"2024-07-17T12:52:40","date_gmt":"2024-07-17T15:52:40","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24123"},"modified":"2024-07-12T11:00:11","modified_gmt":"2024-07-12T14:00:11","slug":"a-crueldade-como-politica-de-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/07\/17\/a-crueldade-como-politica-de-estado\/","title":{"rendered":"A crueldade como pol\u00edtica de Estado"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\" class=\"header_container\">\n<div id=\"header_content_id\" class=\"header_content\">\n<p id=\"mainContentTitle\" class=\"__reading__mode__extracted__title c0011\"><span style=\"font-size: 16px;\"><strong>Ver\u00f3nica Gago<\/strong> &#8211; <\/span>A crueldade tornou-se um termo cr\u00edtico, sinalizando que a viol\u00eancia governamental ultrapassou um limite e atingiu um novo patamar. Mas qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre viol\u00eancia e crueldade? O que a no\u00e7\u00e3o de crueldade adiciona a uma an\u00e1lise da viol\u00eancia?<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<article id=\"post-81851\" class=\"blog-single-post theme-post-entry post-81851 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-america-latina category-blog category-guerra category-historia category-neoliberalismo category-veronica-gago category-violencia-do-estado tag-argentina tag-crueldade tag-estado tag-milei tag-politica-de-estado tag-veronica-gago\">\n<div class=\"post-content\">\n<div class=\"post-content-content\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Inicialmente, a crueldade implica um prazer associado \u00e0 execu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. Este prazer, ou \u201cgozo\u201d, como a psican\u00e1lise se refere, est\u00e1 no cerne do enigma da crueldade. O que significa, ent\u00e3o, seu desenvolvimento como pol\u00edtica de Estado? Existe algo na soberania do Estado que n\u00e3o esteja relacionado ao exerc\u00edcio da crueldade? \u00c9 poss\u00edvel um Estado sem crueldade? E o que h\u00e1 de novo na utiliza\u00e7\u00e3o da crueldade pelo governo de Javier Milei?<\/p>\n<p><b>Origens<\/b><\/p>\n<p>No livro\u00a0<i>Historia de la crueldad argentina. Julio A. Roca y el genocidio de los Pueblos Originarios (Hist\u00f3ria da crueldade argentina: Julio A. Roca e o genoc\u00eddio dos Povos Origin\u00e1rios,\u00a0<\/i>em tradu\u00e7\u00e3o livre), compilado por Osvaldo Bayer e editado por Diana Lenton, Bayer usa o termo \u201ccrueldade\u201d para descrever as torturas sofridas pela popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no s\u00e9culo XIX. Ele tamb\u00e9m o associa a uma l\u00f3gica social: \u201cA crueldade emergia em uma sociedade criolla europeizada, profundamente racista.\u201d Juan Bautista Alberdi, um dos autores da Constitui\u00e7\u00e3o Nacional e refer\u00eancia de Milei, escreveu: \u201cN\u00e3o conhe\u00e7o pessoas distintas de nossas sociedades que levem sobrenome pehuenche ou araucano. Algu\u00e9m conhece algum cavalheiro que se orgulhe de ser \u00edndio? Quem de n\u00f3s casaria sua irm\u00e3 ou filha com um \u00edndio da Arauc\u00e2nia? Preferiria mil vezes um sapateiro ingl\u00eas.\u201d<\/p>\n<p>Esta \u201cgenealogia\u201d da crueldade \u00e9 fundamental, ligando-se diretamente ao racismo fundacional do Estado-na\u00e7\u00e3o e \u00e0s descri\u00e7\u00f5es do exterm\u00ednio que Bayer historiza. Al\u00e9m disso, como Alberdi indica, est\u00e1 relacionada a linhagens de sangue: o exterm\u00ednio favorece certos sobrenomes e fam\u00edlias que concentram terra e orgulho racista.<\/p>\n<p>O governo atual ao reivindicar a Campanha do Deserto, n\u00e3o est\u00e1 apenas sendo anacr\u00f4nico. Est\u00e1 recuperando a l\u00f3gica do saque como pol\u00edtica, refletida em projetos como o Regime de Incentivo para Grandes Investimentos que concede enormes benef\u00edcios fiscais a empresas estrangeiras, eliminando a regula\u00e7\u00e3o ambiental. A reivindica\u00e7\u00e3o da Campanha do Deserto cria uma continuidade entre os s\u00e9culos XIX e XXI. A hist\u00f3ria da crueldade descrita por Bayer busca entender as ra\u00edzes do desaparecimento sistem\u00e1tico de pessoas durante a \u00faltima ditadura, indicando que esses m\u00e9todos n\u00e3o surgiram recentemente.<\/p>\n<p>Essa associa\u00e7\u00e3o entre o Estado-na\u00e7\u00e3o e a crueldade levou o fil\u00f3sofo franc\u00eas Jacques Derrida a dedicar um de seus discursos sobre os \u201cEstados Gerais da Psican\u00e1lise\u201d ao v\u00ednculo entre crueldade e soberania: \u201cSe a puls\u00e3o de poder ou a puls\u00e3o de crueldade \u00e9 irreduz\u00edvel, mais antiga que os princ\u00edpios de prazer ou de realidade, nenhuma pol\u00edtica poder\u00e1 erradic\u00e1-la. Apenas poder\u00e1 domestic\u00e1-la, adi\u00e1-la, aprender a negociar com ela.\u201d<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de Derrida sublinha que a crueldade \u00e9 perene e n\u00e3o pode ser eliminada, mas pode ser negociada ou adiada. Todo Estado tem suas \u201czonas\u201d de crueldade, mesmo em tempos que n\u00e3o s\u00e3o considerados cru\u00e9is. A crueldade de Estado n\u00e3o come\u00e7ou com Milei, mas agora est\u00e1 adquirindo novas formas e intensidade.<\/p>\n<p><b>A Crueldade Segundo Milei<\/b><\/p>\n<p>Quando falamos de uma pol\u00edtica de crueldade no governo de Milei, referimo-nos \u00e0 maneira como a pol\u00edtica institucional abandona deliberadamente, com prazer, todo mecanismo de negocia\u00e7\u00e3o e adiamento da viol\u00eancia. Assim, a crueldade reaparece.<\/p>\n<p>Aqui surge uma paradoxal: a pol\u00edtica da crueldade marca o fim das media\u00e7\u00f5es pol\u00edticas destinadas a manter a viol\u00eancia \u00e0 dist\u00e2ncia, resultando, ainda assim, em uma pol\u00edtica. A pol\u00edtica da crueldade aposta na governan\u00e7a sem media\u00e7\u00f5es, usando a viol\u00eancia direta e espetacularizada como mecanismo de insensibiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 novo, mas ocorre em certos momentos: a quest\u00e3o \u00e9 entender a l\u00f3gica dessa repeti\u00e7\u00e3o. A crueldade nua emerge quando a pol\u00edtica \u00e9 pura conquista, conectando a Campanha do Deserto, os massacres na Patag\u00f4nia e a ditadura militar.<\/p>\n<p>Essa sequ\u00eancia reflete o car\u00e1ter colonial da pol\u00edtica de Milei, que busca transformar o pa\u00eds em uma \u201czona de sacrif\u00edcio\u201d para a extra\u00e7\u00e3o de lucros, ignorando limites ambientais ou sociais. Enquanto o mercado oferece produtos \u201ccruelty-free\u201d, a crueldade se torna regime pol\u00edtico. O governo cita Alberdi, reivindica a Campanha do Deserto e figuras como Roca, ensaiando uma revis\u00e3o da hist\u00f3ria democr\u00e1tica recente ao defender respons\u00e1veis pela \u00faltima ditadura.<\/p>\n<p><b>A Crueldade Social<\/b><\/p>\n<p>A crueldade pol\u00edtica exibe um prazer na viol\u00eancia direta, insensibiliza e perpetua uma filia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Esses elementos \u2013 prazer, insensibiliza\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria \u2013 devem ser analisados tanto no n\u00edvel governamental quanto em suas ativa\u00e7\u00f5es e implica\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Derrida fala de uma \u201cirredut\u00edvel puls\u00e3o de morte\u201d para explicar a crueldade. Ele prop\u00f5e seguir a palavra \u201ccrueldade\u201d nos textos de Freud para entender um \u201cal\u00e9m\u201d dessa puls\u00e3o. Derrida aponta uma puls\u00e3o de dom\u00ednio, um exerc\u00edcio de poder e posse, articulando uma ordem ps\u00edquica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 essencial para entender o \u201cpoder de fazer\u201d exibido por Milei. Contra os que duvidavam de sua capacidade de cumprir promessas, Milei demonstra um poder e velocidade que mant\u00e9m a duplicidade de ser ao mesmo tempo um fantoche das corpora\u00e7\u00f5es e um outsider, governando sem partido, sem maioria parlamentar, e criticando constantemente a pol\u00edtica tradicional. \u00c9 esse \u201ceu posso\u201d que molda her\u00f3is nos quais Milei se v\u00ea refletido: Elon Musk, Marcos Galperin, Benjamin Netanyahu.<\/p>\n<p>No comunicado de imprensa da oitava revis\u00e3o do acordo com a Argentina, o FMI destacou que o governo \u201csuperou\u201d as metas. Este supercumprimento representa um ataque \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o. A viol\u00eancia se manifesta nas finan\u00e7as, e Milei afirma que \u201cse as pessoas n\u00e3o chegassem ao fim do m\u00eas, estariam mortas\u201d. Pessoas est\u00e3o morrendo por falta de medicamentos e pela crueldade lesbof\u00f3bica promovida pelo governo. A d\u00edvida \u00e9 outra dimens\u00e3o da crueldade, onde o prazer do credor em rela\u00e7\u00e3o ao devedor difunde uma l\u00f3gica de maltrato.<\/p>\n<p><b>Sacrif\u00edcio<\/b><\/p>\n<p>Derrida, na linha de Nietzsche e Freud, sustenta que a crueldade n\u00e3o tem oposi\u00e7\u00e3o e que uma pol\u00edtica que a desviasse ou contivesse \u00e9 um desafio cl\u00e1ssico: a pol\u00edtica como o \u201coutro\u201d da guerra. Mas, considerando o cen\u00e1rio global atual de guerra, haveria espa\u00e7o para uma pol\u00edtica que redirecionasse a agressividade do \u00f3dio para outras express\u00f5es (como o \u00f3dio das classes despossu\u00eddas contra os apropriadores)?<\/p>\n<p>A ultradireita capitaliza e fomenta a introje\u00e7\u00e3o da crueldade; um afeto de autossalva\u00e7\u00e3o frente \u00e0 precariedade. A temporalidade de espera combina austeridade e endividamento pessoal, criando uma bolha especulativa subjetiva: continuar ajustando e endividando-se at\u00e9 que as coisas melhorem.<\/p>\n<p>Essa cren\u00e7a no sacrificial \u00e9 um est\u00e1gio superior\u00a0da meritocracia, s\u00f3 poss\u00edvel porque se instalou a ideia de que direitos s\u00e3o \u201cprivil\u00e9gios\u201d de certos setores, considerados obst\u00e1culos ao \u201cigualitarismo\u201d da competi\u00e7\u00e3o. A recess\u00e3o e a infla\u00e7\u00e3o aceleram a crise, sob um darwinismo econ\u00f4mico que pode at\u00e9 mesmo corroer as esperan\u00e7as dos apoiadores de Milei. A pol\u00edtica da crueldade, ent\u00e3o, incita a viol\u00eancia horizontal entre os afetados, como a criminaliza\u00e7\u00e3o de mulheres que administram centros de cuidados comunit\u00e1rios, promovendo o antifeminismo como vetor de uma pol\u00edtica reacion\u00e1ria. O ataque \u00e0 economia popular busca moralizar a popula\u00e7\u00e3o contra aqueles que \u201cvivem do Estado\u201d.<\/p>\n<p>A movimenta\u00e7\u00e3o come\u00e7a pela economia cotidiana, e a batalha ideol\u00f3gico-cultural se estabelece depois para canalizar o \u00f3dio gerado pela crescente precariedade. Silvia Federici aponta que a fascistiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia que empodera o capital, reduz o investimento na reprodu\u00e7\u00e3o social, e cria divis\u00f5es mais profundas entre as pessoas, baseadas em classe e ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Estas quest\u00f5es s\u00e3o concretas. Elas se manifestam, por exemplo, na negocia\u00e7\u00e3o da reforma trabalhista no Congresso. O governo coloca como moeda de troca temas-chave: as aposentadorias para donas de casa, canceladas com a elimina\u00e7\u00e3o da morat\u00f3ria, transformando-se em uma presta\u00e7\u00e3o \u00fanica mais baixa, e a desregulamenta\u00e7\u00e3o das poucas garantias das economias informalizadas, como o MEI social, que tamb\u00e9m \u00e9 eliminado, limitando formas de demonstrar rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia e anulando multas por trabalho mal registrado. Dessa forma, direitos relacionados \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o social de setores feminilizados e informalizados s\u00e3o sacrificados em troca da manuten\u00e7\u00e3o de fronteiras do \u201ctrabalho assalariado\u201d.<\/p>\n<p>Em suma, a pol\u00edtica da crueldade fomenta a hierarquia entre assalariados e trabalhadores n\u00e3o assalariados, promovendo tens\u00f5es e conflitos dentro das classes populares. A l\u00f3gica da crueldade precisa ser replicada tanto de cima para baixo quanto de baixo para cima. Para combat\u00ea-la, \u00e9 necess\u00e1rio confiar em mecanismos que possam impor limites e redirecion\u00e1-la de forma eficaz e decidida.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/a-crueldade-como-politica-de-estado\/?utm_source=Not%C3%ADcias+da+Editora+Elefante&amp;utm_campaign=c5dfc34aa9-EMAIL_CAMPAIGN_2024_06_11_06_49&amp;utm_medium=email&amp;utm_term=0_-c5dfc34aa9-%5BLIST_EMAIL_ID%5D&amp;goal=0_3b69653244-c5dfc34aa9-151449053&amp;mc_cid=c5dfc34aa9&amp;mc_eid=0ac7cd7efd\">A crueldade como pol\u00edtica de Estado &#8211; Editora Elefante<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ver\u00f3nica Gago &#8211; A crueldade tornou-se um termo cr\u00edtico, sinalizando que a viol\u00eancia governamental ultrapassou um limite e atingiu um novo patamar. Mas qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre viol\u00eancia e crueldade? 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