{"id":24093,"date":"2024-06-27T12:52:00","date_gmt":"2024-06-27T15:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=24093"},"modified":"2024-07-08T20:05:13","modified_gmt":"2024-07-08T23:05:13","slug":"avanco-da-extrema-direita-em-busca-de-um-culpado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/06\/27\/avanco-da-extrema-direita-em-busca-de-um-culpado\/","title":{"rendered":"Avan\u00e7o da extrema-direita: em busca de um culpado"},"content":{"rendered":"<p><strong>Juliano Medeiros<\/strong> &#8211;\u00a0<span style=\"font-size: 16px;\">Uma reflex\u00e3o sobre as lutas sociais no s\u00e9culo XXI.<\/span><\/p>\n<p>Participo de um grupo de\u00a0whatsapp\u00a0com amigas e amigos de esquerda que n\u00e3o t\u00eam na pol\u00edtica sua atividade principal. Confrontado com os resultados das elei\u00e7\u00f5es europeias na semana passada, quando a extrema direita conquistou vit\u00f3rias importantes em pa\u00edses como It\u00e1lia, Pol\u00f4nia, \u00c1ustria, Alemanha e Fran\u00e7a, um deles cravou: \u201cIsso \u00e9 resultado das pol\u00edticas identit\u00e1rias\u201d. A partir de ent\u00e3o, iniciou-se uma interessante discuss\u00e3o sobre como cada um via\u00a0as lutas sociais no s\u00e9culo XXI. Alguns reivindicavam um \u201cretorno \u00e0 luta de classes\u201d enquanto outros defendiam \u201co direito de lutar pelo que cada um considera justo\u201d. Sem saber, o grupo discutia\u00a0qual a t\u00e1tica\u00a0mais adequada para as esquerdas num momento de mudan\u00e7as t\u00e3o\u00a0aceleradas e\u00a0profundas quanto\u00a0as\u00a0que estamos vivendo.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do apelo do \u201cretorno \u00e0 luta de classes\u201d est\u00e1\u00a0a enorme impot\u00eancia\u00a0de\u00a0ver\u00a0parcela\u00a0cada vez\u00a0mais expressiva das trabalhadoras e trabalhadores\u00a0depositando sua confian\u00e7a nos populistas de extrema direita. \u201cComo assim os partidos socialistas n\u00e3o\u00a0lideram mais a classe\u00a0oper\u00e1ria?\u201d grita uma voz interior. Diante disso, \u00e9 preciso encontrar um culpado. E, claro, os respons\u00e1veis pela derrocada dos\u00a0socialistas\u00a0n\u00e3o poderiam ser outros,\u00a0sen\u00e3o as mulheres, negros e negras, pessoas LGBTs, imigrantes\u2026 Essa gente que coloca seus interesses particularistas acima da miss\u00e3o redentora da classe trabalhadora de derrubar o capitalismo. Atrav\u00e9s desse racioc\u00ednio se absolve a velha esquerda que abra\u00e7ou o\u00a0neoliberalismo\u00a0enquanto os trabalhadores deixavam de se reconhecer como classe. E pior: assume-se o mesmo racioc\u00ednio da extrema direita, que promete a volta a um passado de ordem e autoridade,\u00a0enquanto o paquid\u00e9rmico militante\u00a0que culpa as lutas por reconhecimento pelo ascenso da extrema direita\u00a0clama por uma volta \u00e0\u00a0era dourada da\u00a0Guerra Fria\u00a0quando o socialismo era uma amea\u00e7a real\u00a0\u00e0 ordem do capital.<\/p>\n<p>Defendo a posi\u00e7\u00e3o de que as lutas por reconhecimento \u2013 as mal chamadas\u00a0\u201cpautas identit\u00e1rias\u201d\u00a0\u2013\u00a0n\u00e3o tem responsabilidade\u00a0direta\u00a0pelo avan\u00e7o da extrema direita.\u00a0Uma an\u00e1lise verdadeiramente marxista reconheceria que o fortalecimento de uma corrente\u00a0reacion\u00e1ria com\u00a0influ\u00eancia\u00a0de massas\u00a0tem a ver\u00a0mais\u00a0com\u00a0fatores pol\u00edticos\u00a0e\u00a0econ\u00f4micos\u00a0que\u00a0culturais.<\/p>\n<p>Vamos lembrar: foram as for\u00e7as de\u00a0centro\u00a0\u2013 \u00e0 esquerda e \u00e0 direita \u2013 que\u00a0depois da crise\u00a0econ\u00f4mica\u00a0de 2008\u00a0lideraram\u00a0as pol\u00edticas de ajuste\u00a0contra\u00a0os mais pobres\u00a0para salvar os bancos. Os\u00a0partidos\u00a0socialistas (convertidos desde os anos 1990 ao social-liberalismo) s\u00e3o hegem\u00f4nicos\u00a0entre os trabalhadores e trabalhadoras pelo menos desde o p\u00f3s-guerra \u2013 com exce\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia, onde os comunistas conquistaram uma\u00a0enorme\u00a0influ\u00eancia em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses da Europa Ocidental \u2013 e jamais colaram no centro de suas agendas as lutas por reconhecimento.\u00a0Governaram muitas vezes nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Por que\u00a0ent\u00e3o culpar a luta ambiental, feminista ou\u00a0antirracista\u00a0pelo avan\u00e7o do populismo de direita?<\/p>\n<p>O racioc\u00ednio \u00e9 similar\u00a0ao de uma parte da esquerda que culpa o movimento feminista pela vit\u00f3ria de Bolsonaro em 2018.\u00a0As\u00a0manifesta\u00e7\u00f5es\u00a0que\u00a0tomaram o Brasil com bandeira do \u201cEle n\u00e3o\u201d foram organizadas basicamente pelas feministas dos partidos de esquerda\u00a0que\u00a0colocavam no centro do debate quest\u00f5es estruturais e n\u00e3o \u201cidentit\u00e1rias\u201d. Mesmo assim, n\u00e3o foram poucos os que atribu\u00edram a\u00a0vit\u00f3ria de Bolsonaro\u00e0quelas manifesta\u00e7\u00f5es, ignorando um contexto muito mais complexo. \u00c9 como se uma elei\u00e7\u00e3o que ocorreu num ambiente de absoluta criminaliza\u00e7\u00e3o da esquerda, com o l\u00edder nas pesquisas preso e impedido de concorrer, diante de uma onda de extrema direita mundial (Trump havia vencido pouco antes nos Estados Unidos) e\u00a0com um candidato v\u00edtima de um atentado poucos dias antes da elei\u00e7\u00e3o\u00a0pudesse ser vencida caso n\u00e3o ocorressem\u00a0manifesta\u00e7\u00f5es\u00a0lideradas\u00a0por mulheres de esquerda pela democracia.<\/p>\n<p>Essa narrativa, no entanto, \u00e9 funcional. Atrav\u00e9s dela \u00e9 poss\u00edvel absolver os partidos de centro-esquerda diante do fracasso de sua t\u00e1tica de adapta\u00e7\u00e3o ao sistema, abandono\u00a0dos instrumentos de organiza\u00e7\u00e3o popular e territorial, ades\u00e3o\u00a0ao discurso da estabilidade fiscal\u00a0e submiss\u00e3o ao conservadorismo moral.\u00a0Ora, se a culpa pelo avan\u00e7o da extrema direita \u00e9 das \u201clutas identit\u00e1rias\u201d n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para promover qualquer autocr\u00edtica.<\/p>\n<p>Numa cl\u00e1ssica passagem em que aborda a perda de capacidade dirigente das classes dominantes, Gramsci observa que a crise se consolida justamente quando \u201co velho morre e o novo n\u00e3o pode nascer: neste interregno, verificam-se os fen\u00f4menos patol\u00f3gicos mais variados\u201d.\u00a0O que vemos na etapa hist\u00f3rica aberta com a fal\u00eancia da\u00a0globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal representa exatamente esse momento de crise de hegemonia das classes dirigentes e suas formas de domina\u00e7\u00e3o. Diante da incapacidade de manter sua legitimidade frente \u00e0s maiorias sociais, a ditadura da economia de mercado se imp\u00f5e\u00a0pela for\u00e7a\u00a0e o consenso em torno da democracia liberal deixa de fazer sentido. Nesse claro-escuro surgem as \u201cformas m\u00f3rbidas\u201d \u2013 de Trump a Bolsonaro \u2013 e novos\u00a0atores ganham a cena, colocando em xeque a hegemonia do cons\u00f3rcio que geria o sistema. A ades\u00e3o das for\u00e7as do centro\u00a0pol\u00edtico \u00e0 agenda da austeridade deixou o v\u00e1cuo que ora \u00e9 ocupado por novas for\u00e7as\u00a0de extrema direita que bradam contra o \u201csistema\u201d ou a \u201ccasta pol\u00edtica\u201d\u00a0como a esquerda radical fazia alguns anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>A rebeldia se tornou de direita?<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta acima d\u00e1 t\u00edtulo ao livro do historiador argentino Pablo Stefanoni que pesquisa as novas for\u00e7as da\u00a0\u201cdireita\u00a0alternativa\u201d que prop\u00f5em uma cr\u00edtica ao sistema, ao progressismo e ao politicamente correto.\u00a0Como\u00a0j\u00e1 mencionado, essas novas direitas prop\u00f5em o que Marina Garc\u00e9s chama de \u201cretroutopia\u201d,\u00a0onde o futuro \u00e9 imaginado apenas como volta a um passado de ordem e prosperidade, diferente do caos multicultural que a esquerda oferece no reino da liberdade representado pelo socialismo. Nesse contexto,\u00a0o sentimento que mobiliza os afetos \u00e9 o\u00a0<em>medo<\/em>\u00a0e n\u00e3o a\u00a0<em>esperan\u00e7a<\/em>. Um instinto primitivo\u00a0que\u00a0est\u00e1\u00a0entranhado em cada pessoa.<\/p>\n<p>Mas nem sempre esse medo \u00e9 reacion\u00e1rio. Muitas vezes ele expressa t\u00e3o somente as incertezas de um presente de mudan\u00e7as cada vez mais aceleradas e de um futuro cada vez mais incerto. Vejamos um caso largamente analisado como arqu\u00e9tipo de vit\u00f3ria da direita alternativa no Reino Unido.\u00a0Em junho de 2016, 51% dos brit\u00e2nicos decidiram, atrav\u00e9s de um plebiscito, que o pa\u00eds deveria deixar a Uni\u00e3o Europeia. Esse resultado pode ser explicado pela insatisfa\u00e7\u00e3o popular com as pol\u00edticas tecnocr\u00e1ticas dos governos e sua associa\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de \u201csubordina\u00e7\u00e3o\u201d da Inglaterra \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e seus efeitos sobre os processos de globaliza\u00e7\u00e3o financeira, deslocaliza\u00e7\u00e3o industrial e aumento da imigra\u00e7\u00e3o e do desemprego.<\/p>\n<p>Segundo\u00a0o soci\u00f3logo espanhol Manuel\u00a0Castells,\u00a0\u201cos partid\u00e1rios do Brexit centraram sua mobiliza\u00e7\u00e3o num objetivo fundamental, que dominou toda a campanha do referendo: retomar o controle do destino do pa\u00eds pelos pr\u00f3prios brit\u00e2nicos. Ou seja, uma reafirma\u00e7\u00e3o da soberania nacional. N\u00e3o foi um nacionalismo de cunho imperial, ancorado na nostalgia de um passado glorioso, mas um reflexo defensivo buscando proteger o direito de estar em casa sem interfer\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>Um certo pragmatismo alimentou a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a do Reino Unido na UE. A integra\u00e7\u00e3o regional passou a ser associada \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o desenfreada e, consequentemente, \u00e0 concorr\u00eancia entre os trabalhadores ingleses e estrangeiros. \u00c9 uma perspectiva\u00a0conservadora, na medida em que se insurge contra a integra\u00e7\u00e3o de povos e culturas, mas tamb\u00e9m expressa\u00a0as incertezas\u00a0com os efeitos da globaliza\u00e7\u00e3o, o dom\u00ednio do mercado sobre os fluxos migrat\u00f3rios e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, sobre a vida dos cidad\u00e3os\u00a0no neoliberalismo.\u00a0O elemento cultural representado pelo preconceito contra \u00e1rabes e africanos, tamb\u00e9m \u00e9 mobilizado, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, mas\u00a0de forma\u00a0interdependente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0inseguran\u00e7a\u00a0em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais de vida.\u00a0A incapacidade dos partidos do\u00a0<em>establishment\u00a0<\/em>em responder a esse mal-estar provocou uma rejei\u00e7\u00e3o maci\u00e7a \u00e0 posi\u00e7\u00e3o defendida pelos tr\u00eas maiores partidos do Reino Unido, todos europe\u00edstas.<\/p>\n<p>O voto em favor do Brexit expressou\u00a0o sentimento\u00a0dos que\u00a0se sentiam abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte e marginalizados pela acelera\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, econ\u00f4micas e institucionais. Ao notarem que as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o acompanhavam adequadamente essas transforma\u00e7\u00f5es, os indiv\u00edduos aderiram \u00e0 nega\u00e7\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o, identificada com a perda de soberania em favor das institui\u00e7\u00f5es supranacionais.\u00a0Por isso, \u00e9 incorreto associar automaticamente o massivo apoio ao Brexit a posi\u00e7\u00f5es de extrema\u00a0direita, como insistiram certas an\u00e1lises\u00a0\u00e0 \u00e9poca. Basta notar que o Partido da Independ\u00eancia do Reino Unido (Ukip, na sigla em ingl\u00eas), que liderou a campanha pelo Brexit, teve um desempenho eleitoral p\u00edfio nas elei\u00e7\u00f5es legislativas\u00a0que\u00a0se\u00a0seguiram, perdendo o \u00fanico assento que possu\u00eda no parlamento.<\/p>\n<p>Nas\u00a0mesmas elei\u00e7\u00f5es ap\u00f3s o plebiscito, os trabalhistas,\u00a0ent\u00e3o\u00a0sob a lideran\u00e7a do veterano Jeremy Corbyn, conhecido por rejeitar abertamente as posi\u00e7\u00f5es\u00a0de Blair, tiveram um desempenho extraordin\u00e1rio, conquistando mais de 40% dos votos (2%\u00a0menos que o partido de Theresa May). A plataforma de Corbyn apontava em sentido oposto \u00e0quele defendido pelos partidos da ordem, incluindo o New Labour de at\u00e9 pouco tempo antes. Ele propunha nacionaliza\u00e7\u00e3o de setores estrat\u00e9gicos da economia, como energia e transporte, aumento dos gastos p\u00fablicos em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas urbanas, gratuidade das matr\u00edculas nas universidades, tudo financiado com o aumento de impostos para bilion\u00e1rios e grandes empresas. A campanha de Corbyn tornou-se uma febre entre os jovens, cansados das velhas promessas de sempre, e\u00a0angariou apoio massivo tamb\u00e9m entre os oper\u00e1rios abandonados pelo novo trabalhismo de\u00a0Tony\u00a0Blair.<\/p>\n<p>O resultado das elei\u00e7\u00f5es europeias\u00a0pode\u00a0ser lido no mesmo diapas\u00e3o.\u00a0O \u201cconsenso\u201d em torno dos mecanismos de gest\u00e3o macroecon\u00f4mica e das institui\u00e7\u00f5es supranacionais de uma Uni\u00e3o Europeia pouco democr\u00e1tica d\u00e1 evidentes sinais de fadiga. A crise do projeto europeu refor\u00e7a tend\u00eancias de afirma\u00e7\u00e3o da identidade nacional, que derivam em toda sorte de\u00a0posi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias. Esse, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno puramente europeu, ainda que l\u00e1 o contexto de crise migrat\u00f3ria o agrave sobremaneira.\u00a0Como lembra Nancy Fraser,\u00a0essa situa\u00e7\u00e3o\u00a0n\u00e3o se manifesta apenas\u00a0pelo fortalecimento de movimentos de extrema-direita, naturalmente mais pr\u00f3ximos do senso comum, mas tamb\u00e9m no surgimento de novas for\u00e7as de\u00a0esquerda.\u00a0Ela lembra que\u00a0\u201ca hegemonia tem a ver com a autoridade pol\u00edtica, moral, cultural e intelectual de uma determinada vis\u00e3o de mundo \u2013 e com a capacidade dessa vis\u00e3o de mundo de se incorporar em uma alian\u00e7a dur\u00e1vel e poderosa de for\u00e7as sociais e classes sociais\u201d. O neoliberalismo e seu sistema pol\u00edtico desfrutaram dessa hegemonia por v\u00e1rias d\u00e9cadas. Agora, no entanto, sua autoridade est\u00e1 severamente enfraquecida, sem que haja uma alternativa madura o suficiente para tomar seu lugar. O velho come\u00e7a a morrer sem que o novo tenha ainda surgido.\u00a0E isso n\u00e3o pode ser atribu\u00eddo \u00e0s lutas emancipat\u00f3rias que ganharam f\u00f4lego nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>\u200bO ano de 2011 registrou\u00a0um pico de protestos que t\u00eam como caracter\u00edstica comum um claro enfrentamento ao neoliberalismo. O principal foco desses protestos foi o norte da \u00c1frica\u00a0com a chamada\u00a0\u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d. Na Europa, essa onda teve mais peso na Espanha, com o movimento dos \u201cindignados\u201d e o grande protesto convocado\u00a0para o dia 15 de maio de 2011. Motivados pelo lema \u201cdemocracia real j\u00e1!\u201d os indignados constru\u00edram um acampamento no centro de Madri e estimularam manifesta\u00e7\u00f5es semelhantes na Gr\u00e9cia, Fran\u00e7a, Portugal, It\u00e1lia e fora do continente europeu, como Jap\u00e3o e Estados Unidos. No cora\u00e7\u00e3o do sistema financeiro, em Nova York, um movimento intitulado\u00a0<em>Occupy Wall Street<\/em>\u00a0tomou dimens\u00f5es multitudin\u00e1rias meses depois do surgimento dos indignados espanh\u00f3is.\u00a0Esses movimentos representaram uma resposta ao esgotamento da democracia representativa e do modelo neoliberal. Resumir essas explos\u00f5es sociais\u00a0\u00e0\u00a0simples\u00a0\u201cmanipula\u00e7\u00e3o\u00a0imperialista\u201dsignifica renunciar \u00e0 oportunidade de reconhecer nelas os sintomas de desgaste do neoliberalismo que anunciam.\u00a0Em outras palavras, significa ser mais pr\u00f3-sistema que antissistema.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Crise e Hegemonia<\/strong><\/p>\n<p>A crise de legitimidade dos sistemas pol\u00edticos se aprofundou nos \u00faltimos anos\u00a0na medida em que os atores que davam\u00a0estabilidade\u00a0\u00e0s institui\u00e7\u00f5es representativas, particularmente os partidos de centro-esquerda e centro-direita, se comprometeram de tal forma com a gest\u00e3o dos interesses do mercado que passaram a ignorar as demandas da maioria dos cidad\u00e3os. Esse vazio de representatividade\u00a0foi\u00a0o que permitiu\u00a0o surgimento de novos atores pol\u00edticos \u00e0 direita e \u00e0 esquerda.\u00a0A pergunta que dever\u00edamos estar fazendo \u00e9 \u201conde as novas for\u00e7as de esquerda falharam diante da oportunidade que se abriu?\u201d\u00a0e a partir da\u00ed\u00a0evitar os mesmos erros e tomar um caminho\u00a0diferente.<\/p>\n<p>Alguns dir\u00e3o, \u00e9 claro, que faltou \u201cclassismo\u201d \u00e0 essa nova esquerda, distante dos instrumentos tradicionais de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como os sindicatos. Mas o fracasso do Syriza na Gr\u00e9cia pode ser atribu\u00eddo \u00e0s lutas por reconhecimento? E o que dizer da derrota de Corbyn no interior do New Larbour ou das divis\u00f5es do Podemos na Espanha? Foram culpa do fortalecimento das lutas de setores sociais historicamente subalternizados?<\/p>\n<p>Quando\u00a0escreveram\u00a0<em>Hegemonia e Estrat\u00e9gia Socialista<\/em>, Chantal Mouffe e Ernesto Laclau\u00a0tinham como principal\u00a0esfor\u00e7o o\u00a0combate \u00e0\u00a0perspectiva de que as pr\u00e1ticas contra-hegem\u00f4nicas dependiam da posi\u00e7\u00e3o ocupada pelos sujeitos na estrutura econ\u00f4mica. Para eles, ao inv\u00e9s de pensar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a partir de uma classe que existiria\u00a0<em>a priori<\/em>,<em>\u00a0<\/em>tratava-se de criar uma vontade coletiva para a constitui\u00e7\u00e3o de um\u00a0\u201cpovo\u201d\u00a0que tomaria forma atrav\u00e9s de uma constru\u00e7\u00e3o discursiva, opondo um \u201cn\u00f3s\u201d\u00a0eum\u00a0\u201celes\u201d atrav\u00e9s de\u00a0uma fronteira pol\u00edtica, dividindo a sociedade em dois campos e apelando \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o dos exclu\u00eddos contra aqueles que est\u00e3o no poder.\u00a0Essa \u00e9 a base do chamado \u201cpopulismo de esquerda\u201d.<\/p>\n<p>Essa f\u00f3rmula compreende que para\u00a0apreender o papel do discurso democr\u00e1tico na constitui\u00e7\u00e3o das subjetividades pol\u00edticas \u00e9 necess\u00e1rio \u201centender que as identidades pol\u00edticas n\u00e3o s\u00e3o a express\u00e3o direta de posi\u00e7\u00f5es objetivas na ordem social\u201d.\u00a0Portanto o simples apelo ao \u201cretorno \u00e0 luta de classes\u201d ignora que a classe se faz compartilhando outras identidades. Decidir que agora o centro da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da esquerda s\u00e3o as f\u00e1bricas ou o trabalho junto aos motoristas de aplicativos\u00a0n\u00e3o far\u00e1 brotar uma consci\u00eancia de classe instant\u00e2nea entre esses trabalhadores. \u00c9 uma no\u00e7\u00e3o vazia \u2013 e um pouco\u00a0tola \u2013 do que \u00e9 a classe\u00a0e como ela\u00a0<em>se faz<\/em>\u00a0enquanto tal.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer, no entanto, que a proposta do populismo de esquerda tamb\u00e9m tem limites. Embora mostre-se v\u00e1lida para rejeitar uma perspectiva\u00a0messi\u00e2nica em rela\u00e7\u00e3o ao destino de uma classe trabalhadora profundamente\u00a0fragmentada\u00a0e impactada pela restrutura\u00e7\u00e3o neoliberal das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, ela\u00a0pode\u00a0acabar secundarizando\u00a0os conflitos econ\u00f4micos. A pr\u00f3pria Chantal Mouffe reconhece isso ao afirmar que \u201co\u00a0processo de radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia inclui necessariamente uma dimens\u00e3o anticapitalista, pois muitas formas de subordina\u00e7\u00e3o, que precisam ser desafiadas, s\u00e3o consequ\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0\u00c9 fato que os movimentos sociais analisados por Mouffe e Laclau nos anos 1980 clamavam pelo reconhecimento de suas reivindica\u00e7\u00f5es diante de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que\u00a0secundarizam\u00a0lutas como o feminismo\u00a0como forma de manter privil\u00e9gios dentro dos pr\u00f3prios partidos. Mas ela mesma admite que \u201ca situa\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 oposta \u00e0quela que criticamos h\u00e1 trinta anos e agora s\u00e3o as demandas da classe trabalhadora que s\u00e3o negligenciadas\u201d.<\/p>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o por parte do sistema do capital \u00e0s demandas por reconhecimento de muitos movimentos sociais deu origem \u00e0quilo que Nancy Fraser chamou de \u201cneoliberalismo progressista\u201d. Com isso, os defensores da terceira via, notadamente Bill\u00a0Clinton e Tony Blair, criaram uma \u201cforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica hegem\u00f4nica\u201d que se tornou o projeto sucessor da social-democracia ao estilo New Deal.\u00a0Mouffe compartilha dessa an\u00e1lise. Para ela \u201cao aceitar o dogma de que n\u00e3o haveria alternativa \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal, os governos e partidos de centro-esquerda acabaram implementando\u00a0uma\u201cvers\u00e3o social-democrata do neoliberalismo\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, a aposta de que as lutas por reconhecimento estavam destinadas a se tornar a forma paradigm\u00e1tica de articular as demandas por justi\u00e7a e identidade, suplantando\u00a0a identidade\u00a0de classe como motor crucial da mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o gerou a articula\u00e7\u00e3o de uma forma hegem\u00f4nica alternativa\u00a0como previa Mouffe, uma vez que o reconhecimento n\u00e3o substituiu, em particular nos pa\u00edses da periferia e semiperiferia do capitalismo, o lugar da redistribui\u00e7\u00e3o como objetivo central da transforma\u00e7\u00e3o social.\u00a0\u00c9 Nancy Fraser quem prop\u00f5e uma estrat\u00e9gia para enfrentar os limites do populismo de esquerda, numa perspectiva interseccional. Ela defende que \u201cse a esquerda espera reviver a ideia da classe trabalhadora como for\u00e7a dirigente dentro de um novo bloco contra-hegem\u00f4nico, teremos de imaginar essa classe de uma nova maneira \u2013\u00a0<em>interseccionalmente<\/em>, se preferir \u2013 e n\u00e3o restrita a uma maioria \u00e9tnica branca de homens heterossexuais, trabalhadores de manufatura e da minera\u00e7\u00e3o, mas englobando todas essas outras ocupa\u00e7\u00f5es \u2013 remuneradas e n\u00e3o remuneradas \u2013 e englobando massivamente imigrantes, mulheres e negros\u201d.<\/p>\n<p>Por isso a cr\u00edtica fundamental\u00a0deve ser endere\u00e7ada\u00a0n\u00e3o\u00a0\u00e0s estrat\u00e9gias que\u00a0buscam\u00a0incorporar as pol\u00edticas de reconhecimento, mas \u00e0quelas que fazem isso ignorando que\u00a0direitos\u00a0s\u00f3 podem\u00a0ser plenamente assegurados\u00a0pela supera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo.\u00a0Afinal, nenhum aspecto ou dimens\u00e3o da realidade social pode teorizar-se \u00e0 margem \u2013 ou com independ\u00eancia \u2013 da totalidade na qual\u00a0est\u00e1\u00a0inserida. \u00c9 imposs\u00edvel teorizar sobre \u201ca pol\u00edtica\u201d assumindo que ela existe numa esp\u00e9cie de limbo \u00e0 margem das realidades da vida econ\u00f4mica, como sugerem os ide\u00f3logos do liberalismo.\u00a0Outra, no entanto,\u00a0coisa \u00e9 reconhecer que a classe trabalhadora hoje \u00e9 muito mais diversa e complexa do que era cinquenta anos atr\u00e1s e que, como aponta corretamente os\u00a0defensores do populismo de esquerda, a identidade dos sujeitos\u00a0se faz em m\u00faltiplas camadas.\u00a0Como afirma Poulantzas,\u00a0a ideologia n\u00e3o consiste somente ou simplesmente num sistema de ideias ou de representa\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m numa s\u00e9rie de pr\u00e1ticas materiais extensivas aos h\u00e1bitos, aos costumes, ao modo de vida dos agentes, e assim se molda como cimento no conjunto das pr\u00e1ticas sociais.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer, portanto, que os novos partidos e movimentos que ocuparam espa\u00e7o pol\u00edtico na Europa nos \u00faltimos anos n\u00e3o surgem apenas pela presen\u00e7a das desigualdades nem por c\u00e1lculos racionais de interesses. As mobiliza\u00e7\u00f5es envolvem tanto a a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica \u2013 oriunda de condi\u00e7\u00f5es materiais determinadas \u2013 quanto a forma\u00e7\u00e3o de identidades coletivas e solidariedades que se identificam com a rejei\u00e7\u00e3o\u00a0ao modelo pol\u00edtico e econ\u00f4mico, pela promessa de restabelecimento da ordem perdida, pela aus\u00eancia de identidade com os sistemas\u00a0pol\u00edticos etc.\u00a0Portanto, \u00e9 natural que a crise da velha ordem adote m\u00faltiplas formas, que v\u00e3o desde a subvers\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es da democracia liberal at\u00e9 a renova\u00e7\u00e3o aparente e transit\u00f3ria da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica atrav\u00e9s da coopta\u00e7\u00e3o de projetos de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>No entanto, para que a proposta populista mantenha uma l\u00f3gica explicativa, sua \u201cconstru\u00e7\u00e3o discursiva\u201d deve pressupor um contexto pol\u00edtico decorrente de rela\u00e7\u00f5es sociais antag\u00f4nicas reais, de oposi\u00e7\u00f5es de interesses articulados para nomear determinadas experi\u00eancias da vida concreta: por exemplo, o \u201cpovo\u201d em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201celite\u201d, os ricos contra os pobres, \u201cn\u00f3s\u201d em oposi\u00e7\u00e3o a \u201celes\u201d.<\/p>\n<p>Em outras palavras,\u00a0para garantir a forma\u00e7\u00e3o de articula\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas, \u00e9 necess\u00e1rio conectar-se com as viv\u00eancias antissist\u00eamicas que explorados, oprimidos, exclu\u00eddos e violentados vivem todos os dias. Compreender a opress\u00e3o de um Estado que tudo exige e nada garante; a a\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edcia que trata pobres como criminosos; as rela\u00e7\u00f5es injustas e opressivas de trabalho; as humilha\u00e7\u00f5es que o machismo imp\u00f5e \u00e0s mulheres todos os dias; \u00e0s amea\u00e7as ao ideal de felicidade representado pela fam\u00edlia. Uma vis\u00e3o que articule economia e cultura, pol\u00edtica e\u00a0vida cotidiana. Sem isso s\u00f3 nos restar\u00e1 encontrar culpados na pr\u00f3xima derrota.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/midianinja.org\/opiniao\/avanco-da-extrema-direita-em-busca-de-um-culpado\/\">Avan\u00e7o da extrema-direita: em busca de um culpado &#8211; M\u00eddia NINJA (midianinja.org)<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juliano Medeiros &#8211;\u00a0Uma reflex\u00e3o sobre as lutas sociais no s\u00e9culo XXI. 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