{"id":2390,"date":"2016-12-03T09:41:59","date_gmt":"2016-12-03T11:41:59","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2390"},"modified":"2016-11-28T14:44:05","modified_gmt":"2016-11-28T16:44:05","slug":"por-que-o-brasil-e-o-que-e-a-necessidade-de-se-reconhecer-diante-do-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/12\/03\/por-que-o-brasil-e-o-que-e-a-necessidade-de-se-reconhecer-diante-do-espelho\/","title":{"rendered":"Por que o Brasil \u00e9 o que \u00e9? A necessidade de se reconhecer diante do espelho"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Vitor Santos &#8211;\u00a0<\/strong>\u201cSe voc\u00ea vai para o espelho e n\u00e3o se v\u00ea no espelho, seu projeto de \u2018eu\u2019 n\u00e3o existe. Voc\u00ea come\u00e7a esse processo se vendo no espelho\u201d. \u00c9 com essa analogia que o economista Carlos Lessa sintetiza a metodologia de S\u00e9rgio Buarque de Holanda em Ra\u00edzes do Brasil. Para o professor, o grande destaque da obra \u00e9 gestar o pensamento nacionalista. Isso porque pensa a na\u00e7\u00e3o desde dentro da pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o. \u201cO livro de S\u00e9rgio \u00e9 absolutamente atual porque resgata a ideia da na\u00e7\u00e3o. \u00c9 um motivo pelo qual ele ser\u00e1 valorizado pela nov\u00edssima gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 chegando e que sabe que a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o leva o mundo ao para\u00edso\u201d, diz Lessa, ao destacar porque \u00e9 importante retomar o texto hoje.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone \u00e0 IHU On-Line, Lessa analisa que \u201cnos \u00faltimos 20 ou 25 anos, houve uma esp\u00e9cie de \u2018esquecer o Brasil\u2019 em nome de um processo de globaliza\u00e7\u00e3o\u201d. Por\u00e9m, pelos movimentos que percebe no mundo hoje, acredita que esse processo de globaliza\u00e7\u00e3o tem chegado a seu limite. A consequ\u00eancia \u00e9 que, no caso do Brasil, houve esse apagamento \u201csem que antes tivesse constru\u00eddo com clareza a ideia do seu projeto nacional\u201d. Entretanto, reconhece: \u201cqualquer jovem de 20 anos, hoje, olha o espa\u00e7o do mundo como um espa\u00e7o que est\u00e1 encolhendo\u201d. Assim, comemora o que considera a retomada de um movimento que quer recompor a sua pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00e3o. \u201cA garotada que hoje tem menos de 20 anos vai pensar no Brasil como espa\u00e7o de realiza\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o. Mas o simples fato de pensar vai colocar o Brasil de novo em pauta. Vamos assistir a uma reapresenta\u00e7\u00e3o da ideia democr\u00e1tica em condi\u00e7\u00f5es novas no Brasil. Sou otimista com rela\u00e7\u00e3o ao futuro\u201d, destaca.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2016\/11\/22_11_carlos_lessa_foto_aepet.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Carlos Lessa<\/em><\/p>\n<p>Carlos Lessa \u00e9 formado em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela antiga Universidade do Brasil e doutor em Ci\u00eancias Humanas pelo Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de Campinas &#8211; Unicamp. Foi reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro \u2013 UFRJ e presidente do BNDES. Ele n\u00e3o esconde seu apre\u00e7o pessoal pela obra Ra\u00edzes do Brasil. Endossa a import\u00e2ncia dessa gera\u00e7\u00e3o de int\u00e9rpretes do Brasil na qual est\u00e1 S\u00e9rgio Buarque de Holanda, mas tamb\u00e9m revela sua rela\u00e7\u00e3o pessoal com o autor. \u201cO S\u00e9rgio, por acaso, \u00e9 at\u00e9 irm\u00e3o de um tio meu, casado com uma irm\u00e3 de minha m\u00e3e. Tamb\u00e9m foi muito amigo de meu pai e, inclusive, o exemplar que tenho de Ra\u00edzes do Brasil tem uma dedicat\u00f3ria para meu pai\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Que leitura o senhor faz de Ra\u00edzes do Brasil? O que representou para aquele momento em que a obra foi publicada pela primeira vez?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; Essa gera\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Buarque de Holanda, de Gilberto Freyre\u00a0, entre outros, foi fortemente nacionalista. Foi uma gera\u00e7\u00e3o para a qual convergiram duas grandes fontes de informa\u00e7\u00e3o. Uma foi o positivismo ib\u00e9rico, que, na vers\u00e3o brasileira, vem do Rio Grande do Sul, do partido dos republicanos do Rio Grande do Sul. E antes da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica j\u00e1 haviam levantado uma variedade de teses relevantes do ponto de vista da afirma\u00e7\u00e3o nacional. Por exemplo, a import\u00e2ncia central do processo de industrializa\u00e7\u00e3o, evitando a exporta\u00e7\u00e3o do que chamamos hoje de produtos sem valor agregado. \u00c9 o discurso de um cavalheiro que depois se tornou muito importante, chamado Get\u00falio Vargas, que, em 1906, saudou Afonso Pena, ent\u00e3o eleito presidente da Rep\u00fablica, dizendo que o Brasil n\u00e3o deveria exportar min\u00e9rio de ferro e que tamb\u00e9m deveria deixar de importar ferramentas agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, a vis\u00e3o que se tinha do a\u00e7o era para utiliza\u00e7\u00e3o na fabrica\u00e7\u00e3o de trilhos para estradas de ferro e ferramentas agr\u00edcolas. Ent\u00e3o, o Brasil importava ferramentas agr\u00edcolas e trilhos. \u00c9 muito interessante porque j\u00e1 continha a ideia de integra\u00e7\u00e3o industrial muito amadurecida. Esse primeiro vetor \u00e9 muito, mas muito importante mesmo.<\/p>\n<p>A segunda fonte foi uma revaloriza\u00e7\u00e3o da nossa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, porque havia uma esp\u00e9cie de tristeza pelo fato de o Brasil ser de forma\u00e7\u00e3o portuguesa. Isso porque Portugal, no s\u00e9culo XIX, esteve estagnado e entrou no s\u00e9culo XX muito acabrunhado, era uma zona de decad\u00eancia, e o Brasil n\u00e3o queria de maneira nenhuma estar associado a essa trajet\u00f3ria. Do ponto de vista intelectual, o Brasil valorizava enormemente sua latinidade pela Fran\u00e7a. Era uma verdadeira obsess\u00e3o com a Fran\u00e7a e um tal de esconder Portugal. A\u00ed uma gera\u00e7\u00e3o inteira de intelectuais \u2014 S\u00e9rgio Buarque de Holanda,Gilberto Freyre e uma variedade grande de jovens daquela \u00e9poca \u2014 se p\u00f5e a repensar o Brasil. Era muito essa ideia de buscar as ra\u00edzes do Brasil. Havia, por parte de todos, a ideia de que as ra\u00edzes brasileiras estariam na Am\u00e9rica pr\u00e9-colombiana, na \u00c1frica e em Portugal. \u00c9 assim que come\u00e7a um processo de resgate do, digamos, lado positivo da presen\u00e7a portuguesa na forma\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p><strong>Movimento antropof\u00e1gico<\/strong><\/p>\n<p>Ra\u00edzes do Brasil \u00e9 um esfor\u00e7o sist\u00eamico nessa dire\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito parecido com o esfor\u00e7o de Gilberto Freyre e de uma quantidade grande de brasileiros daquela \u00e9poca que v\u00e3o introduzir algo que hoje \u00e9 conhecido pelo nome de antropofagia , por causa de Oswald de Andrade. \u00c9 uma linha que se associa muito \u00e0 ideia de aprofundar a leitura da presen\u00e7a portuguesa no Brasil, como \u00e9 que os portugueses de adaptaram ao tr\u00f3pico, como conseguiram criar uma civiliza\u00e7\u00e3o no tr\u00f3pico. Nesse sentido, Ra\u00edzes do Brasil est\u00e1 dentro desse grande movimento.<\/p>\n<p>Esse movimento tem uma subquest\u00e3o que \u00e9 muito curiosa: \u00e9 pensar sempre onde est\u00e1 a ocupa\u00e7\u00e3o do Brasil. Por que o Brasil \u00e9 o que \u00e9? Por que o Brasil \u00e9 t\u00e3o grande e continental? H\u00e1, de um lado, quem defenda a ideia de que a ocupa\u00e7\u00e3o foi feita pelo Nordeste, pelas entradas, da qual Capistrano de Abreu \u00e9 o grande historiador. \u00c9 um historiador sem evid\u00eancias, afinal as evid\u00eancias s\u00e3o muito pequenas, os registros s\u00e3o muito insuficientes, mas h\u00e1 toda uma enorme reflex\u00e3o dele de que as entradas abriram caminho para as ocupa\u00e7\u00f5es do que hoje n\u00f3s chamamos de Brasil Central. J\u00e1 S\u00e9rgio Buarque v\u00ea um movimento de ocupa\u00e7\u00e3o do Brasil Central muito a partir das col\u00f4nias portuguesas em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Assim, h\u00e1 no S\u00e9rgio Buarque duas dimens\u00f5es muito interessantes: a primeira \u00e9 o fato de ele ser membro de um rigoroso movimento de repensar o Brasil ou de pensar o Brasil como Brasil. E a outra \u00e9 um forte e inequ\u00edvoco sentimento de que S\u00e3o Paulo \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do processo de ocupa\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Como S\u00e9rgio de Holanda pensa esse positivismo que o senhor coloca? Pode-se falar em contraposi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; N\u00e3o. Ele n\u00e3o contrap\u00f5e, e sim desdobra a ideia. A ideia \u00e9 sempre um sonho de fazer um Brasil. Ent\u00e3o, voc\u00ea faz o Brasil com dois movimentos: um de resgate, tipifica\u00e7\u00e3o, defini\u00e7\u00e3o e conceitua\u00e7\u00e3o de sua identidade, que \u00e9 onde est\u00e1 o papel do Ra\u00edzes do Brasil, e o outro \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de um sonho de futuro. O sonho de futuro atravessa poderosamente a gera\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Buarque, de meu pai, de Gilberto Freyre. E \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o que repensa o Brasil. S\u00e9rgio Buarque \u00e9 o que podemos denominar como cria desse sonho positivista. Nunca examinei o S\u00e9rgio pelas suas ra\u00edzes filos\u00f3ficas e ontol\u00f3gicas, mas penso que \u00e9 bastante prov\u00e1vel que ele conhecesse muito as ideias positivistas, que a gera\u00e7\u00e3o dele toda conhecia.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Em que medida o texto Ra\u00edzes do Brasil se mant\u00e9m atual, capaz de iluminar as quest\u00f5es de fundo presentes no Brasil de hoje?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; Sobre as quest\u00f5es de fundo, tem uma que \u00e9 o resgate da identidade nacional brasileira. Na verdade, o resgate intelectual j\u00e1 foi feito, mas foi deixado de lado. Se prestarmos aten\u00e7\u00e3o, veremos que o Brasil dos \u00faltimos 20 anos mergulhou no sonho da globaliza\u00e7\u00e3o sem que antes tivesse constru\u00eddo com clareza a ideia do seu projeto nacional. \u00c9 como se a ideia de projeto nacional tivesse sido deixada de lado.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o livro de S\u00e9rgio \u00e9 absolutamente atual, porque resgata a ideia da na\u00e7\u00e3o. \u00c9 um motivo pelo qual ele ser\u00e1 valorizado pela nov\u00edssima gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 chegando e que sabe que a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o leva o mundo ao para\u00edso, e que, por conseguinte, n\u00e3o existe um espa\u00e7o no mundo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dela. S\u00f3 que o Brasil, para essa gera\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito pouco conhecido. Penso que cl\u00e1ssicos do debate e da reflex\u00e3o sobre o Brasil ainda v\u00e3o ser muito lidos, e, entre eles, est\u00e1 Ra\u00edzes do Brasil.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 o projeto de na\u00e7\u00e3o que Ra\u00edzes do Brasil inspira?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; Em Ra\u00edzes do Brasil n\u00e3o existe um projeto de na\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma explicita\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 dizendo que h\u00e1 uma na\u00e7\u00e3o em forma\u00e7\u00e3o nos tr\u00f3picos e que a presen\u00e7a portuguesa foi decisiva para isso. \u00c9 isso que faz o livro, como todos que mergulham na forma\u00e7\u00e3o brasileira. Mas, \u00e9 importante destacar, ele \u00e9 um dos pioneiros nesse mergulho.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; E a partir dessa ideia de na\u00e7\u00e3o que explicita, que projeto somos inspirados a pensar?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; Se voc\u00ea vai para o espelho e n\u00e3o se v\u00ea no espelho, seu projeto de \u201ceu\u201d n\u00e3o existe. Voc\u00ea come\u00e7a esse processo se vendo no espelho, e os brasileiros da nova gera\u00e7\u00e3o v\u00e3o querer ver o Brasil no espelho. Ent\u00e3o, v\u00e3o refazer o que a gera\u00e7\u00e3o do S\u00e9rgiofez. N\u00e3o \u00e9 repetir a hist\u00f3ria, pois a hist\u00f3ria s\u00f3 se repete como farsa ou trag\u00e9dia, e n\u00e3o \u00e9 nem uma coisa, nem outra. V\u00e3o em busca das fontes de hist\u00f3ria brasileira, da reflex\u00e3o sobre o Brasil.<\/p>\n<p>Observemos como esse fen\u00f4meno aconteceu na Argentina, que havia deixado de lado todos os seus cl\u00e1ssicos. Nos \u00faltimos anos, houve uma reedi\u00e7\u00e3o e rediscuss\u00e3o de novo de todos os cl\u00e1ssicos da Argentina. Acho que \u00e9 isso que vai acontecer no Brasil. Por isso considero muito oportuna a disponibilidade do livro Ra\u00edzes do Brasil.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Se o senhor estivesse orientando a leitura de Ra\u00edzes do Brasil para algu\u00e9m dessa nov\u00edssima gera\u00e7\u00e3o, o que destacaria e pediria ao leitor que desse mais aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; Eu diria para ficar atento \u00e0 import\u00e2ncia de Portugal na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade tropical. N\u00f3s somos um imenso Portugal, quem j\u00e1 disse isso foi o poeta . \u00c9 uma constata\u00e7\u00e3o extremamente importante, e S\u00e9rgio Buarque \u00e9 fundamental para compreendermos isso.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Ao longo de sua fala, tem destacado a gera\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre, e tamb\u00e9m o que chama de nov\u00edssima gera\u00e7\u00e3o. Mas o que houve com a gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 nesse entremeio?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; Nos \u00faltimos 20 ou 25 anos, houve uma esp\u00e9cie de \u201cesquecer o Brasil\u201d em nome de um processo de globaliza\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, no mundo est\u00e3o acontecendo muitas coisas que v\u00e3o refazer ou retomar a ideia do que \u00e9 o Brasil. Uma delas \u00e9 a vit\u00f3ria do Trump, que vai for\u00e7ar isso. Vai haver um resgate da ideia nacional, e os que pensaram essa ideia nacional v\u00e3o ser de novo valorizados.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Holanda, em seu livro, chega a elaborar que \u201ca democracia no Brasil foi sempre um lament\u00e1vel mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomod\u00e1-la, onde fosse poss\u00edvel, aos seus direitos e privil\u00e9gios, os mesmos privil\u00e9gios que tinham sido, no Velho Mundo, alvo de luta da burguesia contra os aristocratas\u201d. Nesse sentido, em que medida continuamos a insistir nos erros que constituem esse mal-entendido? E como pensar \u2013 e construir &#8211; outra democracia no Brasil?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; Tenho a impress\u00e3o de que a Lava Jato\u00a0vai ajudar muito a nova gera\u00e7\u00e3o a repensar tudo isso. N\u00e3o h\u00e1 novidade no que a Lava Jato est\u00e1 fazendo; por\u00e9m, a imensa novidade \u00e9 o peso que ela vai ter na forma\u00e7\u00e3o da nova gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho muito como desdobrar o futuro porque n\u00e3o tenho dom premonit\u00f3rio, mas uma coisa que posso afirmar \u00e9 que qualquer jovem de 20 anos, hoje, olha o espa\u00e7o do mundo como um espa\u00e7o que est\u00e1 encolhendo. Est\u00e3o at\u00e9 falando em construir muros. Diante disso, penso que qualquer jovem brasileiro diz: moro em um pa\u00eds continental e devo rigorosamente repensar o meu pa\u00eds no mundo, o espa\u00e7o que meu pa\u00eds pode disputar no mundo. \u00c9 o in\u00edcio do processo de reafirma\u00e7\u00e3o da ideia sobre o que \u00e9 o Brasil.<\/p>\n<p>E por qu\u00ea? Porque esse jovem n\u00e3o tem mais o espa\u00e7o do mundo \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, como teoricamente havia para a gera\u00e7\u00e3o anterior. A gera\u00e7\u00e3o de quem tem cerca de 35 anos \u00e9 a \u00faltima que vai pensar no espa\u00e7o do mundo como espa\u00e7o de realiza\u00e7\u00e3o pessoal. A garotada que hoje tem menos de 20 anos vai pensar no Brasil como espa\u00e7o de realiza\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o. Mas o simples fato de pensar vai colocar o Brasil de novo em pauta. Vamos assistir a uma reapresenta\u00e7\u00e3o da ideia democr\u00e1tica em condi\u00e7\u00f5es novas no Brasil. Sou otimista com rela\u00e7\u00e3o ao futuro.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 falava isso antes, da necessidade de se pensar um projeto nacionalista. Parecia um discurso de velho antiquado. Mas, agora, com Trump e Brexit, n\u00e3o \u00e9 mais antiquado. \u00c9 extremamente atual.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; E por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; Das duas uma: ou eu repenso o Brasil, ou n\u00e3o tem lugar para mim. Eu preciso repensar o Brasil e como situo o pa\u00eds nesse processo. Por exemplo: fazendo protecionismo, o Brasil vai fazer o qu\u00ea? Tem que fazer protecionismo, n\u00e3o tem outra coisa. Mas protecionismo n\u00e3o se faz gratuitamente, se faz para algum objetivo. Como vamos ligar o desenvolvimento econ\u00f4mico ao desenvolvimento pol\u00edtico? Isso que, de certa maneira, a Lava Jato vai for\u00e7ar \u00e0 reflex\u00e3o. N\u00f3s vamos ter um imenso per\u00edodo de redescoberta do Brasil, mais uma vez.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Um dos c\u00e9lebres conceitos de Holanda em Ra\u00edzes do Brasil \u00e9 o homem cordial. O conceito faz pensar na forma de fazer pol\u00edtica no pa\u00eds, que pessoaliza muito mais do que institucionaliza, enfraquece o Estado e estabelece rela\u00e7\u00f5es que visam a interesses pessoais ou de determinados grupos. Como esse homem cordial vive hoje e como enfraquece as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; N\u00e3o sei se o homem cordial enfraquece as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Penso que coloca, na futura democracia brasileira, uma vis\u00e3o inovadora. N\u00f3s n\u00e3o somos arrogantes, prepotentes, pr\u00f3-imperialistas, n\u00e3o amea\u00e7amos nossos vizinhos, somos muito grandes, imensos em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses vizinhos, por\u00e9m os vemos como pa\u00edses irm\u00e3os. A cordialidade brasileira atravessa toda a pol\u00edtica externa brasileira.<\/p>\n<p>Creio que nossa popula\u00e7\u00e3o, ao resgatar a ideia dessa coisa singela da cordialidade, vai jogar na lata do lixo certas teses que prosperaram no Brasil, como a de que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds de preconceito. N\u00e3o \u00e9. Tem preconceito no Brasil, mas \u00e9 o pa\u00eds menos preconceituoso do planeta. Tem arrog\u00e2ncia? Tem, mas \u00e9 o menos arrogante dos pa\u00edses do mundo. O homem cordial era a maneira pela qual v\u00edamos o mundo e temos uma dimens\u00e3o que \u00e9 nossa, a cordialidade.<\/p>\n<p>E continua tendo essa percep\u00e7\u00e3o. Eu leio muito o que os turistas escrevem sobre o Brasil, principalmente sobre o Rio de Janeiro. \u00c9 um denominador comum a cordialidade sempre sublinhada por eles. Eu viajei pelo mundo e sei que a cordialidade brasileira \u00e9 real.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; \u00c9 poss\u00edvel converter essa cordialidade numa forma de enfrentar esse estado de crises?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; A crise\u00a0n\u00e3o depende da cordialidade ou da n\u00e3o cordialidade. A cordialidade \u00e9 um ingrediente que vai tornar a nossa crise mais suport\u00e1vel. A crise est\u00e1 a\u00ed e vai prosperar, \u00e9 produto de um cen\u00e1rio mundial, de erros de gest\u00e3o estrat\u00e9gica que o Brasil teve. Mas quero crer que teremos menos viol\u00eancia do que outras sociedades tiveram no enfrentamento dessa crise.<\/p>\n<p>Estive na Gr\u00e9cia recentemente e vi como estava o pa\u00eds. Eram grupos fardados, armados, agindo como se s\u00f3 com viol\u00eancia se resolvesse a quest\u00e3o. No Brasil, n\u00e3o vi ningu\u00e9m dizer isso. Nem \u00e9 nosso jeito de ser e dizer isso. Agora, o que precisa pensar \u00e9 como, a partir dessa matriz hist\u00f3rica cordial, podemos construir o Brasil de amanh\u00e3. \u00c9 isso que a nova gera\u00e7\u00e3o vai pensar.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Em tempos de opera\u00e7\u00f5es Lava Jato e Zelotes, a ideia de homem cordial pode explicar um pouco a rela\u00e7\u00e3o entre o poder pol\u00edtico, dos pol\u00edticos, e o poder econ\u00f4mico, do empresariado, no Brasil?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; N\u00e3o acho que a cordialidade tenha uma perspectiva personalista. Vejo muito mais na perspectiva de encontro de esquina. \u00c9 o papo que a gente trava debaixo da banca de jornais, na presteza que se d\u00e1 informa\u00e7\u00f5es quando uma pessoa solicita. A cordialidade diz respeito a uma disponibilidade de estar com o outro, que \u00e9 uma coisa muito boa e positiva.<\/p>\n<p>A cordialidade n\u00e3o tem nada que ver com os h\u00e1bitos pol\u00edticos brasileiros, s\u00e3o h\u00e1bitos que se desenvolvem no ambiente onde a cordialidade existe, mas n\u00e3o s\u00e3o resultado da cordialidade. S\u00e3o resultado de uma cultura de expropria\u00e7\u00e3o da terra, resultado de um processo de concentra\u00e7\u00e3o de renda, resultado de processo pol\u00edtico que at\u00e9 hoje n\u00e3o enfrentou as quest\u00f5es fundamentais.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; A an\u00e1lise da forma\u00e7\u00e3o cultural do Brasil \u00e9 um dos alicerces de Ra\u00edzes do Brasil. Como o campo da cultura pode contribuir enquanto linha de fuga para constituir uma ideia de Brasil?<\/p>\n<p>Carlos Lessa &#8211; N\u00e3o \u00e9 linha de fuga, n\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um dos espa\u00e7os extremamente importantes. Por exemplo: ser\u00e1 que S\u00e9rgio Buarque ainda \u00e9 ensinado nas universidades? Acho que n\u00e3o. O simples fato de a obra dele estar dispon\u00edvel e ser relida e rediscutida j\u00e1 \u00e9 uma enorme contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E acho que a Lava Jato vai pilhar a nova gera\u00e7\u00e3o a se perguntar que pa\u00eds \u00e9 esse. Surgir\u00e3o algumas interpreta\u00e7\u00f5es de que o Brasil \u00e9 muito ruim, mas a\u00ed, rapidamente, quem viaja para o exterior ver\u00e1 que o Brasil n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim assim. \u00c9 diferente. Descobre que o Brasil \u00e9 cordial, sim, o povo mais cordial do planeta.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562584-a-necessidade-de-se-reconhecer-diante-do-espelho-entrevista-especial-com-carlos-lessa<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Vitor Santos &#8211;\u00a0\u201cSe voc\u00ea vai para o espelho e n\u00e3o se v\u00ea no espelho, seu projeto de \u2018eu\u2019 n\u00e3o existe. 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