{"id":23139,"date":"2024-05-12T12:33:55","date_gmt":"2024-05-12T15:33:55","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=23139"},"modified":"2024-05-12T12:49:08","modified_gmt":"2024-05-12T15:49:08","slug":"precisamos-buscar-os-remedios-para-os-males-que-produzimos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/05\/12\/precisamos-buscar-os-remedios-para-os-males-que-produzimos\/","title":{"rendered":"Precisamos buscar os rem\u00e9dios para os males que produzimos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alves<\/strong> &#8211; A\u00e7\u00f5es para enfrentar a crise clim\u00e1tica e ambiental est\u00e3o dispon\u00edveis, conhe\u00e7a dez exemplos do que fazer sem precisar esperar as decis\u00f5es das COPs.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/projetocolabora.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/desastre-5-scaled-e1702740483952.jpg?w=640&#038;ssl=1\" \/><em>Refugiados Rohingya rec\u00e9m-chegados recebem alimentos doados por pessoas em uma praia em Laweueng, distrito de Pidie, na prov\u00edncia indon\u00e9sia de Aceh: humanidade precisa buscar rem\u00e9dios para a crise clim\u00e1tica e social Foto Chaideer Mahyussin\/AFP<\/em><\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 triste pensar que a natureza fala e que a humanidade n\u00e3o a ouve\u201d<br \/>\nVictor Hugo (1802-1885)<\/p><\/blockquote>\n<p>O fil\u00f3sofo su\u00ed\u00e7o-franc\u00eas Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) acreditava que o ser humano, em seu estado primitivo, vivia em harmonia com a natureza, sem as complexidades, as desigualdades e os v\u00edcios da sociedade civilizada. Como cr\u00edtico da ideia de progresso, ele costumava dizer: \u201cA civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma corrida desesperada para descobrir rem\u00e9dios para os males que ela mesma produziu\u201d. Vivendo em uma \u00e9poca desafiadora, Rousseau intuiu que uma sociedade estruturada na separa\u00e7\u00e3o entre cultura e natureza traria problemas futuros, por\u00e9m, n\u00e3o viveu para ver e avaliar os frutos bons e maus da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e Energ\u00e9tica.<br \/>\nSe voltasse \u00e0 Terra, Rousseau ficaria espantado com as conquistas do progresso civilizat\u00f3rio. Considerando os \u00faltimos 250 anos, a popula\u00e7\u00e3o mundial cresceu 9,1 vezes, a economia global cresceu 156 vezes e a renda per capita cresceu 17 vezes. Em 1772, a popula\u00e7\u00e3o mundial era de pouco menos de 900 milh\u00f5es de pessoas e passou para 8 bilh\u00f5es de habitantes em 2022. A renda per capita global, em pre\u00e7os constantes em poder de paridade de compra, estava abaixo de US$ 900 e passou para cerca de US$ 15 mil, no mesmo per\u00edodo. O padr\u00e3o de consumo cresceu e se diversificou de forma substantiva. Este crescimento da popula\u00e7\u00e3o e do poder de compra ocorrido em dois s\u00e9culos e meio foi muito maior do que o de todo o per\u00edodo dos 200 mil anos anteriores, desde o surgimento do Homo sapiens.<\/p>\n<p>As conquistas do progresso, ocorridas entre o final do s\u00e9culo XVIII e o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, foram monumentais. Globalmente, a mortalidade na inf\u00e2ncia estava em torno de 40% e caiu para 4%. A expectativa de vida ao nascer era de aproximadamente 25 anos e est\u00e1 chegando perto de 75 anos (multiplicou por 3 vezes). Mais de 90% da popula\u00e7\u00e3o mundial vivia na extrema pobreza e a taxa caiu para menos de 10% atualmente. O analfabetismo predominava em 88% da popula\u00e7\u00e3o global e caiu para 13%. Pouqu\u00edssimas pessoas viviam em regimes democr\u00e1ticos no s\u00e9culo XVIII e, atualmente, cerca da metade da popula\u00e7\u00e3o mundial vive em regimes com predomin\u00e2ncia das liberdades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Todavia, Rousseau n\u00e3o estranharia o fato de que todo o impressionante progresso humano ocorreu de forma socialmente desigual e \u00e0s custas do retrocesso ambiental. A civiliza\u00e7\u00e3o capturou todos os ganhos e o meio ambiente sofreu todos os danos. A humanidade ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a pegada ecol\u00f3gica j\u00e1 supera em 70% a biocapacidade do planeta (<a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods12\/oito-paises-consomem-toda-a-biocapacidade-do-planeta\/\" rel=\"noopener\">Alves, 18\/06\/2023<\/a>). Seis das nove fronteiras planet\u00e1rias formam ultrapassadas, sendo que o agravamento de duas delas representa uma amea\u00e7a existencial \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods6\/risco-de-colapso-ambiental-cresce-com-o-rompimento-de-seis-fronteiras-planetarias\/\">Alves, 25\/09\/2023<\/a>). Estes s\u00e3o os maiores males que a civiliza\u00e7\u00e3o criou.<\/p>\n<p>A \u201cIntegridade da biosfera\u201d \u00e9 uma das fronteiras planet\u00e1rias mais amea\u00e7adas. Enquanto a popula\u00e7\u00e3o humana crescia e aumentava 9 vezes nos \u00faltimos 250 anos, as demais esp\u00e9cies vivas da Terra diminu\u00edram e muitas foram extintas e outras est\u00e3o amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca de Rousseau havia 6 trilh\u00f5es de \u00e1rvores no mundo, sendo que toda essa riqueza biol\u00f3gica foi reduzida para 3 trilh\u00f5es e continua diminuindo. As \u00e1rvores produzem fotoss\u00edntese capturando di\u00f3xido de carbono e liberando oxig\u00eanio, refrescam o clima, reciclam a \u00e1gua, fazem sombra para o descanso humano e animal, al\u00e9m de alimentar as esp\u00e9cies terrestres. Desta forma, a perda da cobertura vegetal ocorreu\u00a0<em>pari passu<\/em>\u00a0\u00e0 queda da biodiversidade e ao processo da 6\u00aa extin\u00e7\u00e3o em massa das esp\u00e9cies.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-87005 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/projetocolabora.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/desastre-3-scaled-e1702739581977.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"O barco \u00e0 vela 'Kamak' da expedi\u00e7\u00e3o da Groenl\u00e2ndia navega entre icebergs liberados por geleiras ao redor de Milne Land no fiorde Scoresby Sound, leste da Groenl\u00e2ndia. Foto Olivier Morin\/AFP. Agosto\/2023\" \/><br \/>\n<em>O barco \u00e0 vela \u2018Kamak\u2019 da expedi\u00e7\u00e3o da Groenl\u00e2ndia navega entre icebergs liberados por geleiras ao redor de Milne Land no fiorde Scoresby Sound, leste da Groenl\u00e2ndia. Foto Olivier Morin\/AFP. Agosto\/2023<\/em><\/p>\n<p>O \u00cdndice Planeta Vivo (IPV), apresentado no\u00a0<a href=\"https:\/\/wwflpr.awsassets.panda.org\/downloads\/relatorio_planeta_vivo_2022_1_1.pdf\" rel=\"noopener\">Relat\u00f3rio Planeta Vivo 2022<\/a>, do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), indica um decl\u00ednio m\u00e9dio de 69% nas popula\u00e7\u00f5es monitoradas de diferentes esp\u00e9cies entre 1970 e 2018. O relat\u00f3rio \u201cAvalia\u00e7\u00e3o Global sobre Biodiversidade e Ecossistemas\u201d (2018), elaborado durante tr\u00eas anos por 145 especialistas de 50 pa\u00edses, com a colabora\u00e7\u00e3o de outros 310 cientistas e divulgado pela Plataforma Intergovernamental de Pol\u00edtica de Ci\u00eancia sobre Biodiversidade e Servi\u00e7os do Ecossistema (IPBES, na sigla em ingl\u00eas), mostrou que um milh\u00e3o das oito milh\u00f5es de esp\u00e9cies animais e vegetais existentes na Terra est\u00e3o amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o e podem desaparecer em quest\u00e3o de d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Um novo\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0293083\" rel=\"noopener\">artigo publicado na revista cient\u00edfica Plos One<\/a>, em 8 de novembro de 2023, revela que dois milh\u00f5es de esp\u00e9cies em todo o mundo est\u00e3o enfrentando risco iminente de extin\u00e7\u00e3o, duplicando as estimativas anteriores da ONU. Indo al\u00e9m da an\u00e1lise das esp\u00e9cies de plantas e vertebrados, os novos dados coletados revelam que a propor\u00e7\u00e3o de insetos em perigo \u00e9 muito maior do que se acreditava, resultando em uma duplica\u00e7\u00e3o do n\u00famero global de esp\u00e9cies amea\u00e7adas. Al\u00e9m de polinizadores, os insetos fazem parte da cadeia alimentar de predadores e aves. O chamado \u201capocalipse dos insetos\u201d pode reduzir dramaticamente a produ\u00e7\u00e3o global de alimentos. A perda de biodiversidade \u00e9 uma amea\u00e7a existencial \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a crise clim\u00e1tica representa uma outra amea\u00e7a existencial aos seres humanos e \u00e0s demais esp\u00e9cies vivas da nossa casa comum. O aquecimento global \u00e9 um dos males mais evidentes do crescimento demoecon\u00f4mico, pois a popula\u00e7\u00e3o e a economia s\u00f3 se expandiram de forma exponencial nos \u00faltimos 250 anos devido ao uso da energia extrassom\u00e1tica advinda do uso dos combust\u00edveis f\u00f3sseis (carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s). Todavia, a queima dos hidrocarbonetos e o desmatamento gerado pelo uso expansivo do solos liberam CO2 na atmosfera e aumentam o efeito estufa que provoca temperaturas cada vez mais elevadas.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos 10 anos (2014-2023) formam o dec\u00eanio mais quente do Holoceno (\u00faltimos 12 mil anos) e 2023 j\u00e1 pode ser considerado o ano mais quente desde o per\u00edodo Eemiano, que ocorreu entre 130.000 e 115.000 anos atr\u00e1s. O limite m\u00ednimo da anomalia de 1,5\u00ba Celsius em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial, estabelecido no Acordo de Paris, deve ser superado nos 12 meses entre mar\u00e7o de 2023 e fevereiro de 2024. Nos dias 17 e 18 de novembro de 2023 a anomalia di\u00e1ria da temperatura, pela primeira vez, ultrapassou 2\u00ba C em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-industrial (1850-1900).<\/p>\n<p>A acelera\u00e7\u00e3o do aquecimento global tem como consequ\u00eancias: eventos clim\u00e1ticos extremos, ondas letais de calor, tempestades e furac\u00f5es mais intensos, inunda\u00e7\u00f5es, secas prolongadas, perdas na produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, maior inseguran\u00e7a alimentar, aumento da desertifica\u00e7\u00e3o e do estresse h\u00eddrico, acelera\u00e7\u00e3o do degelo dos polos e glaciares, acidifica\u00e7\u00e3o dos oceanos, perda de vida marinha, eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e deslocamento de popula\u00e7\u00f5es e de refugiados do clima.<\/p>\n<p>Portanto, a lista de problemas \u00e9 enorme e o tempo para solucionar \u00e9 curto. Estamos em um dec\u00eanio decisivo. A humanidade precisa achar os rem\u00e9dios para os problemas criados pelo desenvolvimento econ\u00f4mico dos \u00faltimos 250 anos, que teve como base o uso exponencial das energias f\u00f3sseis, respons\u00e1veis pela maior parte das emiss\u00f5es de CO2 que podem gerar um colapso clim\u00e1tico, tornando a Terra inabit\u00e1vel.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-87006 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/projetocolabora.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/desastre-4-scaled-e1702739599557.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"Imagem a\u00e9rea mostra uma pessoa caminhando pela Front Street, passando por edif\u00edcios destru\u00eddos e totalmente queimados em Lahaina, no Hava\u00ed, ap\u00f3s inc\u00eandios florestais deixarem, pelo menos, 36 mortos. Foto Patrick T. Fallon\/AFP. Agosto\/2023\" \/><br \/>\n<em>Imagem a\u00e9rea mostra uma pessoa caminhando pela Front Street, passando por edif\u00edcios destru\u00eddos e totalmente queimados em Lahaina, no Hava\u00ed, ap\u00f3s inc\u00eandios florestais deixarem, pelo menos, 36 mortos. Foto Patrick T. Fallon\/AFP. Agosto\/2023<\/em><\/p>\n<p>Assim como a idade da pedra n\u00e3o acabou por falta de pedras, o progresso turbinado pelos combust\u00edveis f\u00f3sseis requer uma mudan\u00e7a radical da sua matriz energ\u00e9tica antes mesmo do fim das reservas f\u00f3sseis, trocando a energia n\u00e3o renov\u00e1vel e suja pela energia renov\u00e1vel limpa (e\u00f3lica, solar, geot\u00e9rmica, etc.). Ou seja, a emerg\u00eancia clim\u00e1tica exige que se abandone os hidrocarbonetos antes do fim dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, pois explorar todo o potencial f\u00f3ssil seria \u201cabrir a porta do inferno\u201d, como disse o Secret\u00e1rio-geral da ONU, Ant\u00f3nio Guterres.<\/p>\n<p>Os indicadores da crise clim\u00e1tica e ambiental s\u00e3o do conhecimento dos l\u00edderes mundiais que se reuniram na 28\u00aa Confer\u00eancia das Partes da Conven\u00e7\u00e3o do Clima das Na\u00e7\u00f5es Unidas (COP28), em Dubai. Mas embora o documento final da COP28 tenha reconhecido, de forma pioneira para este tipo de evento oficial, que a era do carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s possa estar caminhando para o fim, faltou clareza e decis\u00e3o pol\u00edtica para estabelecer prazos, metas e recursos para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica global, como mostrou\u00a0<a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods13\/cop28-avanca-contra-combustiveis-fosseis-mas-ambientalistas-cobram-mais-acoes-urgentes\/\" rel=\"noopener\">Oscar Valporto, aqui no # Colabora<\/a>\u00a0(13\/12\/2023).<\/p>\n<p>Felizmente, nem tudo est\u00e1 perdido. As vacila\u00e7\u00f5es e os males da COP28 poder\u00e3o ser remediados na COP30, que vai ocorrer na cidade de Bel\u00e9m, no cora\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica, em 2025. No d\u00e9cimo anivers\u00e1rio do Acordo de Paris, os pa\u00edses dever\u00e3o apresentar suas novas Contribui\u00e7\u00f5es Nacionalmente Determinadas at\u00e9 2025, ampliando a ambi\u00e7\u00e3o de cada compromisso sobre finan\u00e7as, adapta\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o de modo a alinhar-se \u00e0 meta de 1,5\u00baC.<\/p>\n<p>O governo brasileiro enfrentar\u00e1 o dilema crucial de alinhar-se com a preserva\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e a restaura\u00e7\u00e3o da biodiversidade ou optar pelo fortalecimento da OPEP+ e da explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera na margem equatorial norte do pa\u00eds, entre os estados do Amap\u00e1 e Rio Grande do Norte. A ordem dos fatores altera o produto, pois n\u00e3o se trata de aumentar a produ\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos para fazer a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, mas sim acelerar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica para diminuir a produ\u00e7\u00e3o e o uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis. O governo brasileiro est\u00e1 \u201cEntre a cruz e a caldeirinha\u201d e, para dizer o m\u00ednimo, seria contradit\u00f3rio \u201cacender uma vela a Deus e outra ao diabo\u201d.<\/p>\n<p>Mas, para al\u00e9m das COPs, h\u00e1 in\u00fameras oportunidades e uma s\u00e9rie de atividades que podem contribuir para amenizar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica e ambiental e o descompasso entre a economia e a natureza. Enquanto a COP30 n\u00e3o chega, vejamos duas \u201creceitas\u201d que buscam minimizar os males da evolu\u00e7\u00e3o civilizacional.<\/p>\n<p><strong>Environmental, Social and Governance (ESG)<\/strong><\/p>\n<p>A terminologia ESG foi apresentada com a publica\u00e7\u00e3o, em 2004, do relat\u00f3rio Who Cares Wins (\u201cQuem se importa ganha\u201d), do Banco Mundial em parceria com o Pacto Global da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) e institui\u00e7\u00f5es financeiras de nove pa\u00edses, incluindo o Brasil. Esse conceito surgiu a partir de um desafio feito pelo ent\u00e3o secret\u00e1rio-geral da ONU, Kofi Annan, para 50 CEOs das maiores institui\u00e7\u00f5es financeiras, sobre a integralidade dos fatores ambientais, sociais e de governan\u00e7a no mercado de capitais<\/p>\n<p>De fato, o setor empresarial passou a se preocupar com as quest\u00f5es ambientais, especialmente, a partir da dissemina\u00e7\u00e3o do conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel, formalizado pela primeira vez em 1987 no Relat\u00f3rio Nosso Futuro Comum (tamb\u00e9m conhecido como Relat\u00f3rio Brundtland), da Comiss\u00e3o Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento das Na\u00e7\u00f5es Unidas. A utiliza\u00e7\u00e3o do conceito de desenvolvimento sustent\u00e1vel assim como o comprometimento do setor privado foi ampliada ap\u00f3s a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como C\u00fapula da Terra, ou Confer\u00eancia do Rio 1992.<\/p>\n<p>Em 1994, o consultor empresarial John Elkington introduziu o conceito de Triple Bottom Line (tamb\u00e9m conhecido como o Trip\u00e9 da Sustentabilidade), que foi a origem da ideia de avaliar a empresa sob o ponto de vista social, ambiental e econ\u00f4mico. O trip\u00e9 da sustentabilidade trata da necessidade de integra\u00e7\u00e3o das \u00e1reas ambiental, social e econ\u00f4mica para que o desenvolvimento sustent\u00e1vel possa, na pr\u00e1tica, ser atingido. O conceito est\u00e1 estruturado em tr\u00eas aspectos:<\/p>\n<p>Social: envolve o capital humano alocado na sociedade, nas empresas e nas comunidades. Isto implica educa\u00e7\u00e3o de qualidade, emprego decente, sal\u00e1rios adequados, prote\u00e7\u00e3o social e bem-estar da popula\u00e7\u00e3o. Isto implica investimentos privados e p\u00fablicos na educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia, previd\u00eancia e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Econ\u00f4mico: s\u00e3o avaliadas quest\u00f5es como a produ\u00e7\u00e3o, consumo e distribui\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, de maneira a permitir a gera\u00e7\u00e3o de lucro sem impactar o meio ambiente de maneira agressiva e irrevers\u00edvel;<\/p>\n<p>Ambiental: trata de garantir o fortalecimento do capital natural, n\u00e3o apenas fazendo o desacoplamento entre o crescimento econ\u00f4mico e a extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais, mas tamb\u00e9m manejando de maneira adequada os res\u00edduos decorrentes dos processos das atividades econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Assim, de certa forma, o conceito do Trip\u00e9 da Sustentabilidade (social, ambiental e econ\u00f4mico) se fundiu com a terminologia ESG (ambiental, social e governan\u00e7a). De maneira simples, a explica\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas componentes pode ser assim resumida:<\/p>\n<ul>\n<li>Ambiental (E \u2013 Environmental): Refere-se a pr\u00e1ticas relacionadas ao meio ambiente. Isso pode incluir iniciativas para reduzir a pegada de carbono, conserva\u00e7\u00e3o de recursos naturais, gest\u00e3o de res\u00edduos e outros esfor\u00e7os para minimizar o impacto ambiental.<\/li>\n<li>Social (S \u2013 Social): Diz respeito \u00e0s pr\u00e1ticas sociais e impactos da empresa. Isso pode abranger \u00e1reas como direitos humanos, rela\u00e7\u00f5es de trabalho, diversidade e inclus\u00e3o, sa\u00fade e seguran\u00e7a dos funcion\u00e1rios, entre outros.<\/li>\n<li>Governan\u00e7a (G \u2013 Governance): Refere-se \u00e0s estruturas e processos de governan\u00e7a dentro de uma empresa. Inclui aspectos como transpar\u00eancia, \u00e9tica nos neg\u00f3cios, responsabilidade corporativa, conformidade com regulamenta\u00e7\u00f5es e a qualidade da lideran\u00e7a corporativa.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A express\u00e3o ESG ganhou destaque no setor financeiro e empresarial como uma forma de avaliar o desempenho das empresas, al\u00e9m dos tradicionais indicadores econ\u00f4micos. Os investidores que adotam uma abordagem ESG buscam pr\u00e1ticas empresariais que demonstrem um compromisso com a sustentabilidade, responsabilidade social e boas normas de governan\u00e7a.<br \/>\n<img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-87003 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/projetocolabora.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/desastre-1-scaled-e1702739528142.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"O presidente da COP28, o Sult\u00e3o Ahmed Al Jaber (C), aplaude os t\u00edmidos avan\u00e7os do documento final da COP28. Foto Giuseppe Cacace\/AFP. Dezembro\/2023\" \/><em>O presidente da COP28, o Sult\u00e3o Ahmed Al Jaber (C), aplaude os t\u00edmidos avan\u00e7os do documento final da COP28: h\u00e1 a\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis para enfrentar a crise clim\u00e1tica e ambiental sem aguardar os desdobramentos da confer\u00eancia da ONU. Foto Giuseppe Cacace\/AFP. Dezembro\/2023<\/em><\/p>\n<p><strong>Nature-based Solutions (NBS)<\/strong><\/p>\n<p>A abordagem centrada em solu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza (Nature-based Solutions, no termo em ingl\u00eas) teve sua origem em 2016, a partir da perspectiva proposta pela Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (UICN). Por defini\u00e7\u00e3o, as NBS referem-se a a\u00e7\u00f5es destinadas a proteger, gerir de maneira sustent\u00e1vel e restaurar ecossistemas naturais ou modificados, abordando de forma eficaz e adaptativa os desafios sociais. O objetivo \u00e9 proporcionar simultaneamente benef\u00edcios para o bem-estar de toda a comunidade bi\u00f3tica.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, consiste em interven\u00e7\u00f5es humanas positivas, inspiradas em ecossistemas saud\u00e1veis da natureza a fim de se resolver desafios urgentes, como aumento do n\u00edvel do mar, escassez h\u00eddrica, enchentes, desaparecimento da biodiversidade, entre outras. Vale ressaltar ainda que, na pr\u00e1tica, as solu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza buscam fortalecer a economia local e preservar a vida. Os benef\u00edcios s\u00e3o sociais, ambientais e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Em geral, os seres humanos dominaram e exploraram a natureza gerando enorme degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Mas, ao inv\u00e9s de tratar o meio ambiente como inimigo, seria poss\u00edvel estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o mais amistosa buscando mitigar a crise ambiental e clim\u00e1tica com solu\u00e7\u00f5es que respeitem a natureza. Essas solu\u00e7\u00f5es aproveitam os ecossistemas e os processos naturais para restaurar, conservar e proteger o meio ambiente. A seguir est\u00e3o algumas estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o baseadas na natureza:<\/p>\n<ul>\n<li>Reflorestamento e restaura\u00e7\u00e3o de ecossistemas: O reflorestamento envolve o plantio de \u00e1rvores em \u00e1reas degradadas ou desmatadas, enquanto a restaura\u00e7\u00e3o de ecossistemas procura trazer de volta a biodiversidade original e os servi\u00e7os ecossist\u00eamicos em \u00e1reas degradadas, como p\u00e2ntanos, manguezais e recifes de corais.<\/li>\n<li>Conserva\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de \u00e1reas protegidas: A cria\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas, como parques nacionais, reservas naturais e \u00e1reas marinhas protegidas, ajudam a preservar habitats cr\u00edticos e esp\u00e9cies amea\u00e7adas.<\/li>\n<li>Agricultura sustent\u00e1vel: A ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas agr\u00edcolas sustent\u00e1veis, como a agrofloresta, a agricultura de conserva\u00e7\u00e3o e o plantio direto, ajuda a melhorar a sa\u00fade do solo, reduzir a eros\u00e3o e diminuir o uso de pesticidas e fertilizantes qu\u00edmicos.<\/li>\n<li>Restaura\u00e7\u00e3o de \u00e1reas \u00famidas e zonas costeiras: As zonas \u00famidas e \u00e1reas costeiras, como manguezais e p\u00e2ntanos, desempenham um papel fundamental na absor\u00e7\u00e3o de carbono, na prote\u00e7\u00e3o contra inunda\u00e7\u00f5es e na promo\u00e7\u00e3o da biodiversidade. Restaurar esses ecossistemas \u00e9 vital para mitigar a crise ambiental.<\/li>\n<li>Solu\u00e7\u00f5es baseadas em oceanos (economia azul): Proteger e restaurar ecossistemas marinhos, como recifes de corais e pradarias de ervas marinhas, \u00e9 essencial para a sa\u00fade dos oceanos e para enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/li>\n<li>Constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas verdes: A ado\u00e7\u00e3o de infraestruturas verdes, como telhados verdes, parques urbanos, sistemas de drenagem natural e corredores verdes, pode ajudar a reduzir os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nas \u00e1reas urbanas e aumentar a resili\u00eancia das cidades.<\/li>\n<li>Conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade: A prote\u00e7\u00e3o e o fortalecimento da biodiversidade s\u00e3o fundamentais para garantir a resili\u00eancia dos ecossistemas e a sustentabilidade do planeta.<\/li>\n<li>Pr\u00e1ticas agr\u00edcolas ecol\u00f3gicas: A agroecologia e a agricultura regenerativa focam na promo\u00e7\u00e3o de sistemas agr\u00edcolas mais sustent\u00e1veis, que conservam a biodiversidade e melhoram a sa\u00fade do solo.<\/li>\n<li>Energias renov\u00e1veis e tecnologias verdes: Investir em energias renov\u00e1veis, como solar e e\u00f3lica, e incentivar o desenvolvimento de tecnologias verdes pode reduzir a depend\u00eancia de combust\u00edveis f\u00f3sseis e diminuir a pegada de carbono.<\/li>\n<li>Educa\u00e7\u00e3o e sensibiliza\u00e7\u00e3o: A conscientiza\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o ambiental s\u00e3o fundamentais para que as pessoas compreendam a import\u00e2ncia de solu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza e se engajem em pr\u00e1ticas mais sustent\u00e1veis.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Essas s\u00e3o apenas algumas das muitas estrat\u00e9gias que podem ser adotadas para combater a crise ambiental com solu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza. \u00c9 importante que governos, empresas e a sociedade em geral trabalhem em conjunto para implementar essas a\u00e7\u00f5es e preservar o meio ambiente para as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos perder de vista que as solu\u00e7\u00f5es mais verdadeiras e definitivas para a crise ambiental e clim\u00e1tica passam pela redu\u00e7\u00e3o das atividades antr\u00f3picas e requerem o planejamento do decrescimento demoecon\u00f4mico ao longo do s\u00e9culo XXI. A civiliza\u00e7\u00e3o humana e suas atividades sociais s\u00e3o um subsistema do meio ambiente e, portanto, a ECOnomia n\u00e3o pode ser maior do que a ECOlogia. A sobrecarga ambiental \u00e9 insustent\u00e1vel. A redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais e a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de consumidores e poluidores s\u00e3o pr\u00e9-requisitos para que a civiliza\u00e7\u00e3o, ouvindo a natureza, encontre os \u201crem\u00e9dios para os males que ela mesma produziu\u201d.<\/p>\n<h4>Refer\u00eancias:<\/h4>\n<p>ALVES, JED. Oito pa\u00edses consomem toda a biocapacidade do Planeta, # Colabora, 18\/06\/2023<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods12\/oito-paises-consomem-toda-a-biocapacidade-do-planeta\/\" rel=\"noopener\">https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods12\/oito-paises-consomem-toda-a-biocapacidade-do-planeta\/<\/a><\/p>\n<p>ALVES, JED. Seis fronteiras planet\u00e1rias foram rompidas aumentando o risco de um colapso ambiental global, # Colabora, 25\/09\/2023<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods6\/risco-de-colapso-ambiental-cresce-com-o-rompimento-de-seis-fronteiras-planetarias\/\" rel=\"noopener\">https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods6\/risco-de-colapso-ambiental-cresce-com-o-rompimento-de-seis-fronteiras-planetarias\/<\/a><\/p>\n<p>WWF. (2022). Relat\u00f3rio Planeta Vivo 2022 \u2013 Construindo uma sociedade positiva para a natureza. Almond, R.E.A., Grooten, M., Juffe Bignoli, D. &amp; Petersen, T. (Eds). WWF, Gland, Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/wwflpr.awsassets.panda.org\/downloads\/relatorio_planeta_vivo_2022_1_1.pdf\" rel=\"noopener\">https:\/\/wwflpr.awsassets.panda.org\/downloads\/relatorio_planeta_vivo_2022_1_1.pdf<\/a><\/p>\n<p>HOCHKIRCH A, Bilz M, Ferreira CC, Danielczak A, Allen D, Nieto A, et al. (2023) A multi-taxon analysis of European Red Lists reveals major threats to biodiversity. PLoS ONE 18(11): e0293083.\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0293083\">https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0293083<\/a><\/p>\n<p>VALPORTO, Oscar. COP28 avan\u00e7a contra combust\u00edveis f\u00f3sseis mas ambientalistas cobram mais a\u00e7\u00f5es urgentes, # Colabora, 13\/12\/2023\u00a0<a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods13\/cop28-avanca-contra-combustiveis-fosseis-mas-ambientalistas-cobram-mais-acoes-urgentes\/\" rel=\"noopener\">https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods13\/cop28-avanca-contra-combustiveis-fosseis-mas-ambientalistas-cobram-mais-acoes-urgentes\/<\/a><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/projetocolabora.com.br\/ods13\/crise-climatica-precisamos-buscar-os-remedios-para-os-males-que-produzimos\/\">Crise climatica: Precisamos buscar rem\u00e9dios para males que produzimos (projetocolabora.com.br)<\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eust\u00e1quio Diniz Alves &#8211; A\u00e7\u00f5es para enfrentar a crise clim\u00e1tica e ambiental est\u00e3o dispon\u00edveis, conhe\u00e7a dez exemplos do que fazer sem precisar esperar as decis\u00f5es das COPs. 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