{"id":2312,"date":"2016-11-28T15:23:09","date_gmt":"2016-11-28T17:23:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2312"},"modified":"2016-11-20T21:26:51","modified_gmt":"2016-11-20T23:26:51","slug":"capital-simbolico-e-classes-sociais-artigo-de-pierre-bourdieu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/11\/28\/capital-simbolico-e-classes-sociais-artigo-de-pierre-bourdieu\/","title":{"rendered":"Capital simb\u00f3lico e classes sociais, artigo de Pierre Bourdieu"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>Pierre Bourdieu<\/strong> <\/span>&#8211;\u00a0Todo empreendimento cient\u00edfico de classifica\u00e7\u00e3o deve considerar que os agentes sociais aparecem como objetivamente caracterizados por duas esp\u00e9cies diferentes de propriedades: de um lado, propriedades materiais que, come\u00e7ando pelo corpo, se deixam denominar e medir como qualquer outro objeto do mundo f\u00edsico; de outro, propriedades simb\u00f3licas adquiridas na rela\u00e7\u00e3o com sujeitos que os percebem e apreciam, propriedades essas que precisam ser interpretadas segundo sua l\u00f3gica espec\u00edfica. Isso significa que a realidade social admite duas leituras diferentes: de um lado, aquela armada de um uso objetivista da estat\u00edstica para estabelecerdistribui\u00e7\u00f5es (no sentido estat\u00edstico e tamb\u00e9m econ\u00f4mico), express\u00f5es quantificadas da reparti\u00e7\u00e3o de uma quantidade finita de energia social entre um grande n\u00famero de indiv\u00edduos em concorr\u00eancia, apreendidas por meio de \u201cindicadores objetivos\u201d (ou seja, de propriedades materiais); de outro, a leitura voltada a decifrar significa\u00e7\u00f5es e a lan\u00e7ar luz sobre as opera\u00e7\u00f5es cognitivas pelas quais os agentes as produzem e decifram.<\/p>\n<blockquote><p>Ser nobre \u00e9 esbanjar; \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o de parecer; \u00e9 estar condenado, sob pena de aviltamento, ao luxo e \u00e0 dissipa\u00e7\u00e3o. Eu diria mesmo que essa tend\u00eancia \u00e0 prodigalidade afirmou-se no in\u00edcio do s\u00e9culo xiii como rea\u00e7\u00e3o diante da ascens\u00e3o social dos novos ricos. Para se distinguir dos vulgos, \u00e9 preciso super\u00e1-los, mostrando-se mais generoso do que eles. O testemunho da literatura aqui \u00e9 seguro. O que op\u00f5e o cavaleiro ao arrivista? O segundo \u00e9 avaro, o primeiro \u00e9 nobre porque gasta alegremente tudo que tem, e porque est\u00e1 coberto de d\u00edvidas.<\/p>\n<p>Georges Duby, Homens e estruturas da Idade M\u00e9dia<\/p><\/blockquote>\n<p>A primeira orienta\u00e7\u00e3o visa apreender uma \u201crealidade\u201d objetiva inacess\u00edvel \u00e0 experi\u00eancia comum e revelar \u201cleis\u201d, isto \u00e9, rela\u00e7\u00f5es significativas, no sentido de n\u00e3o aleat\u00f3rias, entre as distribui\u00e7\u00f5es; a segunda toma como objeto n\u00e3o a \u201crealidade\u201d, mas as representa\u00e7\u00f5es que os agentes dela formam e que fazem toda a \u201crealidade\u201d de um mundo social concebido, \u00e0 maneira dos fil\u00f3sofos idealistas, como \u201cvontade e representa\u00e7\u00e3o\u201d. Os objetivistas, que admitem a exist\u00eancia de uma \u201crealidade\u201d social \u201cindependente das consci\u00eancias e das vontades individuais\u201d, fundam as constru\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia, de maneira bastante l\u00f3gica, sobre uma ruptura com as representa\u00e7\u00f5es comuns do mundo social (as \u201cpreno\u00e7\u00f5es\u201d durkheimianas); os subjetivistas, que reduzem a realidade social \u00e0 representa\u00e7\u00e3o que dela fazem os agentes, tomam por objeto, de maneira bastante l\u00f3gica, o conhecimento primeiro do mundo social2: simples \u201crelat\u00f3rio de relat\u00f3rios\u201d, como diz Garfinkel, essa \u201cci\u00eancia\u201d que tem como objeto outra \u201cci\u00eancia\u201d, aquela que os agentes mobilizam em sua pr\u00e1tica, limitam-se a registrar os registros de um mundo social que seria apenas, no limite, o produto de estruturas mentais, ou seja, lingu\u00edsticas.<\/p>\n<p>Diferentemente de uma f\u00edsica social, a ci\u00eancia social n\u00e3o pode reduzir-se a um registro das distribui\u00e7\u00f5es (em geral cont\u00ednuas) de indicadores materiais das diferentes esp\u00e9cies de capital. Sem identificar-se jamais com um \u201crelat\u00f3rio de relat\u00f3rios\u201d, ela deve integrar no conhecimento (especializado) do objeto o conhecimento (pr\u00e1tico) que os agentes (os objetos) t\u00eam do objeto. Em outros termos, ela deve incorporar ao conhecimento (especializado) da raridade e da concorr\u00eancia pelos bens raros o conhecimento pr\u00e1tico que os agentes adquirem dessa competi\u00e7\u00e3o ao produzir divis\u00f5es individuais ou coletivas que s\u00e3o t\u00e3o objetivas quanto as distribui\u00e7\u00f5es estabelecidas pelos balan\u00e7os cont\u00e1beis da f\u00edsica social.<\/p>\n<p>O problema das classes sociais oferece uma oportunidade particularmente favor\u00e1vel para captar a oposi\u00e7\u00e3o entre as duas perspectivas: o antagonismo aparente entre os que querem provar e os que querem negar a exist\u00eancia de classes, que revela concretamente que as classifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o objeto de luta, esconde uma oposi\u00e7\u00e3o mais importante, concernente \u00e0 teoria mesma do conhecimento do mundo social. Os que negam a exist\u00eancia de classes adotam, em fun\u00e7\u00e3o de seus prop\u00f3sitos, o ponto de vista da f\u00edsica social, e s\u00f3 querem ver nas classes sociais conceitos heur\u00edsticos ou categorias estat\u00edsticas arbitrariamente impostas pelo pesquisador, que introduz assim a descontinuidade numa realidade cont\u00ednua. Os que querem provar a exist\u00eancia de classes sociais procuram fundar sua exist\u00eancia na experi\u00eancia dos agentes \u2014 esfor\u00e7ando-se para estabelecer que os agentes reconhecem a exist\u00eancia de classes diferenciadas segundo seu prest\u00edgio, que podem atribuir indiv\u00edduos a essas classes em fun\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios mais ou menos expl\u00edcitos e que pensam a si mesmos como membros de classes.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o entre a teoria marxista, na forma estritamente objetivista que assume o mais das vezes, e a teoria weberiana que distingue entre a classe social e o grupo de status (Stand), definido por propriedades simb\u00f3licas como aquelas que formam o estilo de vida, constitui outra forma, tamb\u00e9m fict\u00edcia, da alternativa entre o objetivismo e o subjetivismo: por defini\u00e7\u00e3o, o estilo de vida s\u00f3 cumpre sua fun\u00e7\u00e3o de distin\u00e7\u00e3o para aqueles sujeitos tendentes a reconhec\u00ea-lo e a teoria weberiana do grupo de status est\u00e1 muito pr\u00f3xima de todas as teorias subjetivistas das classes que, como a de Warner, introduzem o estilo de vida e as representa\u00e7\u00f5es subjetivas na constitui\u00e7\u00e3o das divis\u00f5es sociais3. Mas o m\u00e9rito de Max Weber reside no fato de que, longe de apresent\u00e1-las como mutuamente excludentes , como a maior parte de seus comentadores e de seus ep\u00edgonos norte-americanos, ele re\u00fane as duas concep\u00e7\u00f5es opostas, colocando assim o problema do duplo enraizamento das divis\u00f5es sociais na objetividade das diferen\u00e7as materiais e na subjetividade das representa\u00e7\u00f5es. No entanto ele d\u00e1 a essa quest\u00e3o, obscurecendo-a ao mesmo tempo, uma solu\u00e7\u00e3o ingenuamente realista ao distinguir dois \u201ctipos\u201d de grupo onde h\u00e1 apenas dois modos de exist\u00eancia de todo grupo.<\/p>\n<p>A teoria das classes sociais deve, portanto, superar a oposi\u00e7\u00e3o entre as teorias objetivistas que assimilam as classes (nem que seja para demonstrar por absurdo sua inexist\u00eancia) a grupos discretos, simples popula\u00e7\u00f5es enumer\u00e1veis e separadas por fronteiras objetivamente inscritas na realidade, e as teorias subjetivistas (ou, se quisermos, marginalistas ) que reduzem a \u201cordem social\u201d a uma esp\u00e9cie de classifica\u00e7\u00e3o coletiva obtida pela agrega\u00e7\u00e3o das classifica\u00e7\u00f5es individuais, ou, mais precisamente, das estrat\u00e9gias individuais, classificadas e classificantes, pelas quais os agentes classificam a si e aos outros.<\/p>\n<p>O desafio colocado pelos que se baseiam na continuidade das distribui\u00e7\u00f5es para negar a exist\u00eancia de classes sociais dirige-se aos que o tratam como uma m\u00e1 aposta ou um conto do vig\u00e1rio: com efeito, ele n\u00e3o deixa outra escolha sen\u00e3o confrontar, indefinidamente, as enumera\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias das classes sociais encontr\u00e1veis na obra de Marx ou pedir \u00e0 estat\u00edstica que resolva essas novas formas do paradoxo do monte de trigo que ela engendra4 , na mesma opera\u00e7\u00e3o pela qual revela as diferen\u00e7as e permite medir com rigor sua amplitude, apagando as fronteiras entre ricos e pobres, burgueses e pequeno-burgueses, habitantes da cidade e do campo, jovens e velhos, moradores da periferia e do centro, e assim por diante. A armadilha se fecha, impiedosamente, sobre aqueles que, em nome do marxismo, nos anunciam hoje, sem rir, \u00e0 maneira do contador positivista, que os pequeno-burgueses \u201cs\u00e3o, no m\u00e1ximo, 4.311.000\u201d5.<\/p>\n<p>Os soci\u00f3logos da continuidade, a maioria \u201cte\u00f3ricos\u201d puros \u2014 no sentido muito ordin\u00e1rio de que suas afirma\u00e7\u00f5es n\u00e3o se apoiam em qualquer valida\u00e7\u00e3o emp\u00edrica \u2014, ganham sempre ao deixar a seus advers\u00e1rios o \u00f4nus da prova experimental. Mas basta invocar Pareto, em quem ordinariamente se apoiam, para responder a eles: \u201cN\u00e3o podemos tra\u00e7ar uma linha para separar de maneira absoluta ricos e pobres, propriet\u00e1rios de capital fundi\u00e1rio ou industrial e trabalhadores. Muitos autores pretendem deduzir desse fato a consequ\u00eancia de que em nossa sociedade n\u00e3o poder\u00edamos falar de uma classe capitalista, nem opor os burgueses aos trabalhadores\u201d. O que equivale a dizer, continua Pareto, que n\u00e3o existem velhos porque n\u00e3o sabemos em que idade, em que momento da vida come\u00e7a a velhice.<\/p>\n<p>Quanto a reduzir o mundo social \u00e0 representa\u00e7\u00e3o que uns fazem da representa\u00e7\u00e3o feita por outros, ou, mais precisamente, \u00e0 agrega\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es (mentais) que cada agente forma a partir das representa\u00e7\u00f5es (teatrais) que os outros lhe oferecem, isso implica ignorar que as classifica\u00e7\u00f5es subjetivas est\u00e3o fundadas na objetividade de uma categoriza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se reduz \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o coletiva obtida a partir do somat\u00f3rio das classifica\u00e7\u00f5es individuais: a \u201cordem social\u201d n\u00e3o se forma a partir das ordens individuais, como se fora resultado de vota\u00e7\u00e3o ou do pre\u00e7o de mercado6.<\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o de classe que a estat\u00edstica social apreende por meio de diferentes indicadores materiais da posi\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, ou, mais precisamente, das capacidades de apropria\u00e7\u00e3o material dos instrumentos de produ\u00e7\u00e3o material ou cultural (capital econ\u00f4mico) e das capacidades de apropria\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica desses instrumentos (capital cultural), determina direta e indiretamente, conforme a posi\u00e7\u00e3o a ela conferida pela classifica\u00e7\u00e3o coletiva, as representa\u00e7\u00f5es de cada agente de sua posi\u00e7\u00e3o e as estrat\u00e9gias de \u201capresenta\u00e7\u00e3o de si\u201d de que fala Goff\u00adman, ou seja, sua encena\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o. Isso poderia ser mostrado mesmo nos casos mais desfavor\u00e1veis, seja no universo das classes m\u00e9dias americanas e suas hierarquias m\u00faltiplas e complexas descritas pelo interacionismo simb\u00f3lico, seja no caso limite representado pelo mundo do esnobismo e dos sal\u00f5es tal como evocado por Marcel Proust7. Esses universos sociais devotados \u00e0s estrat\u00e9gias de pretens\u00e3o e de distin\u00e7\u00e3o fornecem uma imagem aproximada de um universo em que a \u201cordem social\u201d, produto de uma esp\u00e9cie de cria\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, seria a cada instante o resultado provis\u00f3rio e continuamente revog\u00e1vel de uma luta de classes reduzida a uma luta de classifica\u00e7\u00f5es, a um confronto de estrat\u00e9gias simb\u00f3licas visando mudar a posi\u00e7\u00e3o pela manipula\u00e7\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es da posi\u00e7\u00e3o, como as que consistem, por exemplo, em negar as dist\u00e2ncias (mostrando-se \u201csimples\u201d, fazendo-se \u201cacess\u00edvel\u201d) para melhor suscitar seu reconhecimento, ou, do contr\u00e1rio, em reconhec\u00ea-las ostensivamente para melhor neg\u00e1-las (numa variante do jogo de Schlemiel descrito por Eric Berne)8.<\/p>\n<p>Esse espa\u00e7o berkeleyano, em que todas as diferen\u00e7as estariam reduzidas ao pensamento da diferen\u00e7a, em que as \u00fanicas dist\u00e2ncias seriam as que \u201ctomamos\u201d ou as que \u201cmantemos\u201d, \u00e9 o lugar de estrat\u00e9gias que t\u00eam sempre por princ\u00edpio a busca da assimila\u00e7\u00e3o ou da dissimila\u00e7\u00e3o: blefar , tentando identificar-se com os grupos marcados como superiores porque assim reputados, ou esnobar , esfor\u00e7ando-se para se distinguir dos grupos identificados como inferiores (segundo a defini\u00e7\u00e3o c\u00e9lebre, \u201cum esnobe \u00e9 algu\u00e9m que despreza a todos que n\u00e3o o desprezam\u201d). For\u00e7ar a porta de grupos posicionados acima, mais \u201cfechados\u201d, mais \u201cseletos\u201d; e fechar suas pr\u00f3prias portas a mais e mais pessoas: eis a lei da acumula\u00e7\u00e3o do \u201ccr\u00e9dito\u201d mundano. O prest\u00edgio de um sal\u00e3o depende do rigor de suas exig\u00eancias (n\u00e3o se pode receber uma pessoa de pouca reputa\u00e7\u00e3o sem perder reputa\u00e7\u00e3o) e da \u201cqualidade\u201d das pessoas recebidas, medida ela mesma pela \u201cqualidade\u201d dos sal\u00f5es que as recebem: as altas e as baixas da bolsa de valores mundanos, registradas pelas publica\u00e7\u00f5es mundanas, s\u00e3o medidas por esses dois crit\u00e9rios, num universo de nuances \u00ednfimas que requerem um olho treinado. Num universo em que tudo \u00e9 classificado, portanto classificante \u2014 por exemplo, os lugares em que \u00e9 preciso ser visto, restaurantes chiques, competi\u00e7\u00f5es h\u00edpicas, confer\u00eancias, exposi\u00e7\u00f5es; os espet\u00e1culos que \u00e9 preciso ter visto, Veneza, Floren\u00e7a, Bayreuth, o bal\u00e9 russo; os lugares reservados, sal\u00f5es e clubes privados \u2014, um dom\u00ednio perfeito das classifica\u00e7\u00f5es (que os \u00e1rbitros da eleg\u00e2ncia se apressam em considerar demod\u00e9 assim que se tornam muito comuns) \u00e9 indispens\u00e1vel para obter o melhor rendimento dos investimentos sociais e para evitar ao menos ser identificado com grupos menos cotados. Somos classificados por nossos princ\u00edpios de classifica\u00e7\u00e3o: n\u00e3o apenas Odette e Swann, que sabem reconhecer pela simples leitura de uma lista de convidados o n\u00edvel de sofistica\u00e7\u00e3o de um jantar, mas Charlus, Madame Verdurin e o Primeiro Presidente de f\u00e9rias em Balbec disp\u00f5em de princ\u00edpios classificat\u00f3rios diversos, que os classificam no momento mesmo em que pensam classificar; e isso infalivelmente, porque nada varia t\u00e3o claramente segundo a posi\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m na classifica\u00e7\u00e3o do que sua vis\u00e3o da classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seria perigoso, no entanto, aceitar sem mais a vis\u00e3o do \u201cmundo\u201d que oferece Proust, aquela do \u201cpretendente\u201d que v\u00ea o \u201cmundo\u201d como um espa\u00e7o a conquistar, ao modo de Madame Swann, cujas sa\u00eddas tomam sempre a forma de expedi\u00e7\u00f5es arriscadas, comparadas em algum lugar \u00e0 guerra colonial. O valor dos indiv\u00edduos e dos grupos n\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o direta do trabalho mundano do esnobe como sugere Proust ao escrever que \u201cnossa personalidade social \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o do pensamento dos outros\u201d9. O capital simb\u00f3lico dos que dominam a \u201calta sociedade\u201d, Charlus, Bergotte ou a duquesa de Guermantes, n\u00e3o depende apenas dos desprezos ou das recusas, das indiferen\u00e7as ou dos ardores, dos signos de reconhecimento e dos testemunhos de descr\u00e9dito, das marcas de respeito ou de desprezo, de todo o jogo, enfim, dos julgamentos rec\u00edprocos. Ele \u00e9 a forma sublimada de que se revestem realidades t\u00e3o claramente objetivas como aquelas registradas pela f\u00edsica social, castelos ou terras, t\u00edtulos de propriedade, de nobreza ou de ensino superior, assim que s\u00e3o transfigurados pela percep\u00e7\u00e3o encantada, mistificada e c\u00famplice, que define em particular o esnobismo (ou, em outro n\u00edvel, a pretens\u00e3o pequeno-burguesa). As opera\u00e7\u00f5es de classifica\u00e7\u00e3o referem-se n\u00e3o apenas aos \u00edndices do julgamento coletivo, mas \u00e0s posi\u00e7\u00f5es nas distribui\u00e7\u00f5es que esse ju\u00edzo coletivo j\u00e1 leva em conta. As classifica\u00e7\u00f5es tendem a esposar as distribui\u00e7\u00f5es, contribuindo assim para reproduzi-las. O valor social, cr\u00e9dito ou descr\u00e9dito, reputa\u00e7\u00e3o ou prest\u00edgio, respeitabilidade ou honorabilidade, n\u00e3o \u00e9 o produto das representa\u00e7\u00f5es que os agentes realizam ou fazem de si, e o ser social n\u00e3o \u00e9 meramente um ser percebido.<\/p>\n<p>Os grupos sociais, e notadamente as classes sociais, existem de algum modo duas vezes, e isso antes mesmo de qualquer interven\u00e7\u00e3o do olhar cient\u00edfico: na objetividade de primeira ordem, aquela registrada pela distribui\u00e7\u00e3o das propriedades materiais; e na objetividade de segunda ordem, aquela das classifica\u00e7\u00f5es e das representa\u00e7\u00f5es contrastantes que s\u00e3o produzidas pelos agentes na base de um conhecimento pr\u00e1tico das distribui\u00e7\u00f5es tal como se manifestam nos estilos de vida. Esses dois modos de exist\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o independentes, ainda que as representa\u00e7\u00f5es tenham certa autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s distribui\u00e7\u00f5es: a representa\u00e7\u00e3o que os agentes se fazem de sua posi\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o social (assim como a representa\u00e7\u00e3o \u2014 no sentido teatral, como em Goffman \u2014 que realizam) \u00e9 o produto de um sistema de esquemas de percep\u00e7\u00e3o e de aprecia\u00e7\u00e3o (habitus) que \u00e9 ele mesmo o produto incorporado de uma condi\u00e7\u00e3o definida por uma posi\u00e7\u00e3o determinada quanto \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de propriedades materiais (objetividade 1) e do capital simb\u00f3lico (objetividade 2) e que leva em conta n\u00e3o somente as representa\u00e7\u00f5es (que obedecem \u00e0s mesmas leis) que os outros t\u00eam dessa mesma posi\u00e7\u00e3o e cuja agrega\u00e7\u00e3o define o capital simb\u00f3lico (comumente designado como prest\u00edgio, autoridade, etc.), mas tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o nas distribui\u00e7\u00f5es retraduzidas simbolicamente no estilo de vida.<\/p>\n<p>Mesmo recusando admitir que as diferen\u00e7as existam apenas porque os agentes creem ou fazem crer que elas existem, devemos admitir que as diferen\u00e7as objetivas, inscritas nas propriedades materiais e nos lucros diferenciais que elas trazem, se convertem em distin\u00e7\u00f5es reconhecidas nas e por meio das representa\u00e7\u00f5es que fazem e que formam delas os agentes. Toda diferen\u00e7a reconhecida, aceita como leg\u00edtima, funciona por isso mesmo como um capital simb\u00f3lico que obt\u00e9m um lucro de distin\u00e7\u00e3o. O capital simb\u00f3lico, com as formas de lucro e de poder que assegura, s\u00f3 existe na rela\u00e7\u00e3o entre as propriedades distintas e distintivas como corpo correto, l\u00edngua, roupa, mob\u00edlia (cada uma delas obtendo seu valor a partir de sua posi\u00e7\u00e3o no sistema das propriedades correspondentes, ele mesmo objetivamente referido ao sistema das posi\u00e7\u00f5es nas distribui\u00e7\u00f5es) e indiv\u00edduos ou grupos dotados de esquemas de percep\u00e7\u00e3o e de aprecia\u00e7\u00e3o que os predisp\u00f5em a reconhecer (no duplo sentido do termo) essas propriedades, ou seja, a institu\u00ed-los como estilos expressivos, formas transformadas e irreconhec\u00edveis das posi\u00e7\u00f5es nas rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a. N\u00e3o existe pr\u00e1tica ou propriedade (no sentido de objeto apropriado) caracter\u00edsticas de uma maneira particular de viver que n\u00e3o possa ser revestida de um valor distintivo em fun\u00e7\u00e3o de um princ\u00edpio socialmente determinado de pertin\u00eancia e expressar assim uma posi\u00e7\u00e3o social: por exemplo, o mesmo tra\u00e7o \u201cf\u00edsico\u201d ou \u201cmoral\u201d, como um corpo gordo ou magro, uma pele clara ou escura, o consumo ou a abstin\u00eancia de \u00e1lcool, podem receber valores (de posi\u00e7\u00e3o) opostos na mesma sociedade em \u00e9pocas diferentes ou em diferentes sociedades10. Para uma pr\u00e1tica ou uma propriedade funcionar como s\u00edmbolo de distin\u00e7\u00e3o basta que seja posta em rela\u00e7\u00e3o a qualquer uma das pr\u00e1ticas ou das propriedades que lhe s\u00e3o praticamente substitu\u00edveis num certo universo social; portanto, que seja recolocada no universo simb\u00f3lico das pr\u00e1ticas e das propriedades que, funcionando na l\u00f3gica espec\u00edfica dos sistemas simb\u00f3licos, a das separa\u00e7\u00f5es diferenciais, retraduza as diferen\u00e7as econ\u00f4micas em marcas distintivas, signos de distin\u00e7\u00e3o ou em estigmas sociais. O s\u00edmbolo de distin\u00e7\u00e3o, arbitr\u00e1rio como o s\u00edmbolo lingu\u00edstico, recebe as determina\u00e7\u00f5es que o fazem parecer como necess\u00e1rio \u00e0 consci\u00eancia dos agentes apenas de seu pertencimento \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de oposi\u00e7\u00e3o constitutivas do sistema de marcas distintivas que \u00e9 caracter\u00edstico de uma forma\u00e7\u00e3o social. Isso explica por que, sendo essencialmente relacionais (a palavra distin\u00e7\u00e3o j\u00e1 o mostra), os s\u00edmbolos de distin\u00e7\u00e3o, que podem variar completamente conforme o contraponto social a que se op\u00f5em, s\u00e3o ainda assim percebidos como atributos inatos de uma \u201cdistin\u00e7\u00e3o natural\u201d. O que caracteriza os s\u00edmbolos de distin\u00e7\u00e3o, quer se trate do estilo das casas e sua decora\u00e7\u00e3o, da ret\u00f3rica do discurso, dos sotaques, ou do corte e cor das roupas, modos \u00e0 mesa ou disposi\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, \u00e9 o fato de que, dada sua fun\u00e7\u00e3o expressiva, eles s\u00e3o de certo modo determinados duas vezes, por sua posi\u00e7\u00e3o no sistema de signos distintivos e pela rela\u00e7\u00e3o de correspond\u00eancia biun\u00edvoca que se estabelece entre esse sistema e o sistema das posi\u00e7\u00f5es nas distribui\u00e7\u00f5es de bens. \u00c9 assim que, sempre que s\u00e3o apreendidas como socialmente pertinentes e leg\u00edtimas em fun\u00e7\u00e3o de um sistema de classifica\u00e7\u00e3o, as propriedades deixam de ser apenas bens materiais pass\u00edveis de troca e obten\u00e7\u00e3o de lucros materiais para tornar-se express\u00f5es, signos de reconhecimento que significam e valem por todo o conjunto de lacunas e dist\u00e2ncias [\u00e9carts] em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras propriedades \u2014 ou n\u00e3o propriedades. As propriedades incorporadas ou objetivadas funcionam assim como uma esp\u00e9cie de linguagem primordial, pela qual somos falados mais do que falamos, a despeito de todas as estrat\u00e9gias de apresenta\u00e7\u00e3o de si11. Toda distribui\u00e7\u00e3o desigual de bens ou de servi\u00e7os tende assim a ser percebida como sistema simb\u00f3lico, ou seja, como sistema de marcas distintivas: distribui\u00e7\u00f5es como a dos autom\u00f3veis, os lugares de resid\u00eancia, os esportes, os jogos de sal\u00e3o s\u00e3o, para a percep\u00e7\u00e3o comum, sistemas simb\u00f3licos em cujo interior cada pr\u00e1tica (ou n\u00e3o pr\u00e1tica) recebe um valor, e a soma dessas distribui\u00e7\u00f5es socialmente pertinentes desenha o sistema dos estilos de vida, sistema de separa\u00e7\u00f5es diferenciais engendradas pelo gosto e por ele apreendidas como signos de bom ou mau gosto e ao mesmo tempo como t\u00edtulos de nobreza capazes de gerar um lucro de distin\u00e7\u00e3o t\u00e3o maior quanto maior for sua raridade distintiva, ou ainda como marca de inf\u00e2mia.<\/p>\n<p>A teoria objetivista das classes sociais reduz a verdade da classifica\u00e7\u00e3o social \u00e0 verdade objetiva dessa classifica\u00e7\u00e3o, esquecendo-se de inscrever na defini\u00e7\u00e3o completa do mundo social a verdade primeira contra a qual ela se construiu (e que retorna para assombrar a pr\u00e1tica pol\u00edtica orientada por essa verdade objetiva sob a forma dos obst\u00e1culos que \u00e9 necess\u00e1rio enfrentar continuamente para impor uma vis\u00e3o do mundo social conforme \u00e0 teoria). A objetiva\u00e7\u00e3o cient\u00edfica s\u00f3 est\u00e1 completa quando aplicada tamb\u00e9m \u00e0 experi\u00eancia subjetiva que a obstrui. E a teoria adequada \u00e9 aquela que integra a verdade parcial captada pelo conhecimento objetivo e a verdade pr\u00f3pria da experi\u00eancia primeira como desconhecimento (mais ou menos permanente e total) dessa verdade; ou seja, o conhecimento desencantado do mundo social e o conhecimento do reconhecimento como conhecimento encantado ou mistificado de que o mundo social \u00e9 objeto na experi\u00eancia prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>O desconhecimento dos fundamentos reais das diferen\u00e7as e dos princ\u00edpios de sua perpetua\u00e7\u00e3o \u00e9 o que faz com que o mundo social seja percebido n\u00e3o como o espa\u00e7o do conflito ou da concorr\u00eancia entre grupos de interesses antag\u00f4nicos, mas como \u201cordem social\u201d. Todo reconhecimento \u00e9 desconhecimento: toda esp\u00e9cie de autoridade, e n\u00e3o apenas aquela que se imp\u00f5e por meio de ordens, mas aquela exercida sem nos darmos conta, aquela que dizemos natural e que est\u00e1 sedimentada numa linguagem, numa atitude, nas maneiras, num estilo de vida, ou mesmo nas coisas (cetros e coroas, arminho e toga noutro tempo, quadros e m\u00f3veis antigos, carros ou escrit\u00f3rios de luxo hoje), repousa sobre uma forma de cren\u00e7a origin\u00e1ria, mais profunda e mais desenraiz\u00e1vel do que o nome sugere. Um mundo social \u00e9 um universo de pressuposi\u00e7\u00f5es : os jogos e os objetivos que ele prop\u00f5e, as hierarquias e as prefer\u00eancias que imp\u00f5e, o conjunto das condi\u00e7\u00f5es t\u00e1citas de pertencimento, isso que parece \u00f3bvio para quem est\u00e1 dentro e que \u00e9 investido de valor aos olhos dos que querem entrar, tudo isso est\u00e1 definitivamente assentado sobre o acordo imediato entre as estruturas do mundo social e as categorias de percep\u00e7\u00e3o que constituem a doxa , ou, como dizia Husserl, a protodoxa , percep\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica do mundo social como mundo natural12. O objetivismo, que reduz as rela\u00e7\u00f5es sociais \u00e0 sua verdade objetiva de rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a, esquece que essa verdade pode ser recalcada por um efeito da m\u00e1-f\u00e9 coletiva e da percep\u00e7\u00e3o encantada que as transfigura em rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o leg\u00edtima, autoridade ou prest\u00edgio.<\/p>\n<p>Todo capital, sob qualquer forma que se apresente, exerce uma viol\u00eancia simb\u00f3lica assim que \u00e9 reconhecido, ou seja, desconhecido em sua verdade de capital, e imp\u00f5e-se como autoridade exigindo reconhecimento. O capital simb\u00f3lico seria outro modo de designar o que Max Weber chama de carisma se, prisioneiro da l\u00f3gica das tipologias realistas, aquele que sem d\u00favida melhor compreendeu que a sociologia da religi\u00e3o era um cap\u00edtulo, e n\u00e3o o menor, da sociologia do poder, n\u00e3o tivesse feito do carisma uma forma particular do poder em vez de ver nele uma dimens\u00e3o de todo poder, ou seja, outro nome da legitimidade, produto do reconhecimento ou do desconhecimento, ou da cren\u00e7a (esses quase sin\u00f4nimos) \u201cem virtude da qual as pessoas que exercem autoridade s\u00e3o dotadas de prest\u00edgio\u201d. A cren\u00e7a define-se pelo desconhecimento do cr\u00e9dito que ela confere a seu objeto e que contribui para os poderes que esse objeto tem sobre ela, nobreza, notoriedade, prest\u00edgio, reputa\u00e7\u00e3o, honra, renome, ou ainda dom, talento, intelig\u00eancia, cultura, distin\u00e7\u00e3o, gosto \u2014 proje\u00e7\u00f5es da cren\u00e7a coletiva que a cren\u00e7a cr\u00ea descobrir na natureza de seus objetos. Esnobismo ou pretens\u00e3o s\u00e3o disposi\u00e7\u00f5es de crentes, incessantemente assombrados pelo medo do erro, da falha no tom ou do pecado contra o gosto e inevitavelmente dominados pelos poderes transcendentes a que se entregam pelo simples fato de reconhec\u00ea-los, arte, cultura, literatura, alta costura ou outros fetiches da alta sociedade13 e pelos deposit\u00e1rios desses poderes, \u00e1rbitros arbitr\u00e1rios da eleg\u00e2ncia, costureiros, pintores, escritores ou cr\u00edticos, simples cria\u00e7\u00f5es da cren\u00e7a social que exercem um poder real sobre os crentes, quer se trate do poder de consagrar os objetos materiais transferindo para eles o sagrado coletivo ou do poder de transformar as representa\u00e7\u00f5es daqueles que delegam a elas seu poder. A cren\u00e7a, ades\u00e3o que ignora o fato de que faz existir aquilo a que adere, n\u00e3o sabe ou n\u00e3o quer saber que tudo o que faz o encanto intr\u00ednseco de seu objeto, seu carisma, \u00e9 apenas o produto de inumer\u00e1veis opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito ou descr\u00e9dito, todas igualmente inconscientes de sua verdade, que se realizam no mercado de bens simb\u00f3licos e que se materializam em s\u00edmbolos oficialmente reconhecidos e garantidos, signos de distin\u00e7\u00e3o, \u00edndices de consagra\u00e7\u00e3o e diplomas de carisma como os t\u00edtulos de nobreza ou os t\u00edtulos escolares, marcas de respeito objetivadas exigindo as marcas de respeito, pompa e aparato que t\u00eam por efeito n\u00e3o somente manifestar a posi\u00e7\u00e3o social como tamb\u00e9m o reconhecimento coletivo que lhe conferimos pelo simples fato de autoriz\u00e1-lo a fazer semelhante demonstra\u00e7\u00e3o de sua import\u00e2ncia. Por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pretens\u00e3o, lapso entre a import\u00e2ncia que o sujeito se reconhece e aquela que o grupo lhe reconhece, entre aquilo que ele \u201cse permite\u201d e o que lhe \u00e9 permitido, entre as pretens\u00f5es e as ambi\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas, a autoridade leg\u00edtima se afirma e se imp\u00f5e como tal no fato de n\u00e3o ter nada a fazer al\u00e9m de existir para que se imponha14. Opera\u00e7\u00e3o fundamental da alquimia social, a transforma\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie qualquer de capital em capital simb\u00f3lico, possess\u00e3o leg\u00edtima fundada na natureza de seu possuidor, sup\u00f5e sempre uma forma de trabalho, um gasto vis\u00edvel (sem ser necessariamente ostentat\u00f3rio) de tempo, de dinheiro e de energia, uma redistribui\u00e7\u00e3oque \u00e9 necess\u00e1ria para assegurar o reconhecimento da distribui\u00e7\u00e3o, sob a forma do reconhecimento prestado pelo que recebe \u00e0quele que, mais bem colocado na escala, tem a possibilidade de dar, reconhecimento de d\u00edvida que \u00e9 tamb\u00e9m reconhecimento de valor15. O estilo de vida \u00e9 a primeira e talvez hoje a mais fundamental dessas manifesta\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, vestimenta, mobili\u00e1rio ou qualquer outra propriedade que, funcionando segundo a l\u00f3gica do pertencimento e da exclus\u00e3o, exibem as diferen\u00e7as de capital (entendido como capacidade de apropria\u00e7\u00e3o de bens raros e dos lucros correlatos) sob uma forma tal que escapem \u00e0 brutalidade injustific\u00e1vel do fato, do dado bruto, simples insignific\u00e2ncia ou pura viol\u00eancia, para aceder a essa forma de viol\u00eancia desconhecida e denegada, e portanto afirmada e reconhecida como leg\u00edtima, que \u00e9 a viol\u00eancia simb\u00f3lica16. \u00c9 assim que o \u201cestilo de vida\u201d e a \u201cestiliza\u00e7\u00e3o da vida\u201d transfiguram as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em rela\u00e7\u00f5es de sentido, em sistema de signos que, sendo \u201cdefinidos\u201d, como diz Hjelmslev, \u201cn\u00e3o positivamente por seu conte\u00fado, mas negativamente por sua rela\u00e7\u00e3o com os outros termos do sistema\u201d17, est\u00e3o predispostos em uma esp\u00e9cie de harmonia preestabelecida a exprimir o lugar na escala: ainda que derivem seu valor de sua posi\u00e7\u00e3o num sistema de oposi\u00e7\u00f5es e que sejam apenas aquilo que os outros n\u00e3o s\u00e3o, os estilos de vida \u2014 e os grupos que eles distinguem \u2014 parecem n\u00e3o ter outro fundamento sen\u00e3o as disposi\u00e7\u00f5es naturais de seu portador, tal qual essa distin\u00e7\u00e3o que dizemos \u201cnatural\u201d ainda que, o termo o diz, exista apenas na e pela rela\u00e7\u00e3o contrastante com as disposi\u00e7\u00f5es mais comuns , isto \u00e9, estatisticamente mais frequentes. Com a distin\u00e7\u00e3o natural o privil\u00e9gio encerra sua pr\u00f3pria justifica\u00e7\u00e3o. A teatraliza\u00e7\u00e3o legitimadora de que se acompanha sempre o exerc\u00edcio do poder estende-se a todas as pr\u00e1ticas e em particular ao consumo que n\u00e3o tem necessidade de ser inspirado pela busca de distin\u00e7\u00e3o para ser distintivo, como a apropria\u00e7\u00e3o material e simb\u00f3lica de obras de arte, que parece ter por \u00fanico princ\u00edpio as disposi\u00e7\u00f5es da pessoa em sua singularidade insubstitu&amp;iacut e;vel. Como os s\u00edmbolos religiosos em outros modos de domina\u00e7\u00e3o, os s\u00edmbolos do capital cultural, incorporado ou objetivado, contribuem para a legitima\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o; e a arte de viver dos detentores do poder contribui para o poder que a torna poss\u00edvel porque suas verdadeiras condi\u00e7\u00f5es de possibilidade permanecem ignoradas, e ele pode ser percebido n\u00e3o apenas como a manifesta\u00e7\u00e3o leg\u00edtima do poder, mas como o fundamento da legitimidade18. Os \u201cgrupos de status\u201d fundados num \u201cestilo de vida\u201d e numa \u201cestiliza\u00e7\u00e3o da vida\u201d n\u00e3o s\u00e3o, como acreditava Weber, uma esp\u00e9cie de grupo diferente das classes, mas classes denegadas ou, se quisermos, sublimadas, e, assim, legitimadas.<\/p>\n<p>PIERRE BOURDIEU foi titular da cadeira de sociologia do Coll\u00e9ge de France, onde dirigiu o Centre de sociologie europ\u00e9ene (Paris), a revista Actes de La recherche em sciences sociales e a editora Raisons de Agir at\u00e9 seu falecimento em 2002. \u00c9 autor de diversos cl\u00e1ssicos das ci\u00eancias sociais. Entre eles est\u00e3o A reprodu\u00e7\u00e3o (1970),Esbo\u00e7o de uma teoria da pr\u00e1tica (1972), A distin\u00e7\u00e3o (1979), Homo Academicus (1984), As regras da arte (1992) e Medita\u00e7\u00f5es pascalianas (1997).<\/p>\n<p>[*] Publicado originalmente em L\u2019Arc, n\u00ba 72, 1978. A presente vers\u00e3o ampliada foi publicada em Journal of Classical Sociology, vol. 13, n\u00ba 2, maio de 2013.<\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>[1] Duby, Georges. Les trois ordres ou l\u2019imaginaire du f\u00e9odalisme. Paris: Gallimard, [ Links ] 1978. [Ed. port. As tr\u00eas ordens ou o imagin\u00e1rio do feudalismo. Lisboa: Estampa, 1994.]<\/p>\n<p>[2] Considerando aqui apenas essa forma da f\u00edsica social (representada, por exemplo, por Durkheim) que concorda com a cibern\u00e9tica social ao admitir que s\u00f3 podemos conhecer a \u201crealidade\u201d usando instrumentos l\u00f3gicos de classifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pretendemos negar a afinidade particular entre a energ\u00e9tica social e a inclina\u00e7\u00e3o positivista a ver as classifica\u00e7\u00f5es seja como recortes arbitr\u00e1rios e \u201coperacionais\u201d (como as classes de idade ou faixas de renda), seja como cis\u00f5es \u201cobjetivas\u201d (descontinuidades das distribui\u00e7\u00f5es ou inflex\u00f5es das curvas) que bastaria registrar. Quero apenas sublinhar que a alternativa fundamental n\u00e3o se estabelece entre a \u201cperspectiva cognitiva\u201d e o behaviorismo (ou outra forma qualquer de mecanismo), mas entre uma hermen\u00eautica das rela\u00e7\u00f5es de sentido e uma mec\u00e2nica das rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a.<\/p>\n<p>[3] Warner, Lloyd W. Social class in America: the evaluation of status. Nova York: Harper&amp;Row, [ Links ]1960. [LW]<\/p>\n<p>[4] O paradoxo do monte de trigo \u00e9 um dos diversos sorites formulados por Eubulides de Mileto (350 a.C.), pupilo de S\u00f3crates e fundador da escola de l\u00f3gica de M\u00e9gara. \u00c9 tamb\u00e9m conhecido como o argumento do \u201cpouco a pouco\u201d: se um gr\u00e3o de trigo n\u00e3o faz um monte, ent\u00e3o dois tampouco fazem; mil tampouco. A premissa \u00e9 verdadeira, mas a conclus\u00e3o falsa devido \u00e0 indetermina\u00e7\u00e3o dos predicados. [LW]<\/p>\n<p>[5] Bourdieu se refere aqui ao livro de Christian Baudelot, Roger Establet e Jacques Malemort, La petite bourgeoisie en France (Paris: Masp\u00e9ro, 1974), no qual os autores, usando uma defini\u00e7\u00e3o estritamente objetivista de classe baseada na fonte de renda, desenvolvem um esquema bizantino de contabilidade que os permite enumerar a pequena burguesia. [LW]<\/p>\n<p>[6] Eis um exemplo particularmente caracter\u00edstico desse marginalismo social: \u201cCada indiv\u00edduo \u00e9 respons\u00e1vel pela imagem de sua conduta e a imagem de defer\u00eancia de outros, de maneira que para expressar um homem completo, os indiv\u00edduos devem dar-se as m\u00e3os em uma cadeia de cerim\u00f4nia, cada um dando \u00e0 pessoa \u00e0 sua direita, com conduta adequada, o que recebe com defer\u00eancia da pessoa \u00e0 sua esquerda\u201d (Goffman, E. \u201cThe nature of deference and demeanour\u201d. American Anthropologist, 58, jun. 1956, pp. 473- [ Links ]502).<\/p>\n<p>[7] Goffman, E. The presentation of self in everyday life. Nova York: Penguin, 1990 [ [ Links ]1958]. [Ed. bras.: A representa\u00e7\u00e3o do eu na vida cotidiana. Trad. Maria C\u00e9lia Santos. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996]. [LW]<\/p>\n<p>[8] Games people play, de Eric Berne (Nova York: Ballantine Books, 1964), \u00e9 uma an\u00e1lise transacional da estrutura das intera\u00e7\u00f5es sociais e das motiva\u00e7\u00f5es por tr\u00e1s delas. [LW]<\/p>\n<p>[9] Proust,M. A la recherche du temps perdu. Paris: Gallimard (La Pl\u00e9iade), 1913, vol. 1, [ Links ] p. 19 [Ed. bras.: No caminho de Swann. Em busca do tempo perdido, vol. 1. Trad. Mario Quintana. S\u00e3o Paulo: Globo, 2006.]; e Goffman: \u201co indiv\u00edduo deve se valer dos outros para completar a imagem que tem de si\u201d (Goffman, \u201cThe nature of deference and demeanour\u201d, op. cit.).<\/p>\n<p>[10] Joseph Gusfield mostra, num belo livro, como a abstin\u00eancia, que era no s\u00e9culo xix nos Estados Unidos o s\u00edmbolo por excel\u00eancia de pertencimento \u00e0 burguesia, foi pouco a pouco sendo repudiada nos mesmos meios em prol do consumo moderado de \u00e1lcool, que se tornou elemento de um novo estilo de vida, mais \u201cdescontra\u00eddo\u201d. (Gusfield, J. R. Symbolic Crusade: status politics and the American temperance movement. Urbane\/Londres: University of Illinois Press, 1966). [ Links ]<\/p>\n<p>[11] A pr\u00f3pria linguagem revela sempre, al\u00e9m do que ela diz, a posi\u00e7\u00e3o social daquele que fala (por vezes diz apenas isso), devido \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que ocupa \u2013 o que Troubetzkoy chama seu \u201cestilo expressivo\u201d \u2013 no sistema desses estilos. [Ver Troubetzkoy, N. Principles of phonology, livro que Bourdieu traduziu para o franc\u00eas para a s\u00e9rie \u201cLe sens commun\u201d, que dirigia nas \u00c9ditions de Minuit. (LW)]<\/p>\n<p>[12] Ver Husserl, Edmund. Ideas pertaining to a pure phenomenology and to a phenomenological philosophy.First book: General introduction to a pure phenomenology. Hague: Martinus Nijhoff, [ Links ]1983 [1913]. [Ed. bras. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenol\u00f3gica. Trad. Marcio Suzuki. S\u00e3o Paulo: Ideias e Letras, 2006]. [LW]<\/p>\n<p>[13] Bourdieu, P. e Deslaut, Y. \u201cLe couturier et sa griffe: contribuition \u00e0 une theorie de la magie\u201d. Actes de la recherch\u00e9 en sciences socials, 1(1), 1975, pp. 7- [ Links ]36. [Ed. bras.: \u201cO costureiro e sua grife: contribui\u00e7\u00e3o a uma teoria da magia\u201d. In: A produ\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a: contribui\u00e7\u00e3o para uma economia dos bens simb\u00f3licos. Trad. Guilherme Jo\u00e3o de Freitas Teixeira e Maria da Gra\u00e7a Jacintho Setton.Porto Alegre: Zouk, [ Links ] 2008]. [LW]<\/p>\n<p>[14] Todo agente deve, a cada momento, levar em conta o pre\u00e7o que lhe \u00e9 dado no mercado de bens simb\u00f3licos e que define o que ele pode se permitir (entre outras coisas, aquilo que ele pode pretender e aquilo de que pode legitimamente apropriar-se num universo em que todos os bens est\u00e3o hierarquizados). O senso do valor fiduci\u00e1rio (que, em certos universos, como o campo intelectual e art\u00edstico, pode ser todo o valor) orienta as estrat\u00e9gias que, para serem reconhecidas, devem situar-se na justa altura, nem t\u00e3o alto (pretens\u00e3o) nem t\u00e3o baixo (vulgaridade, falta de ambi\u00e7\u00e3o) e em particular as estrat\u00e9gias de dissimila\u00e7\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o a outros grupos que podem desafiar, em certos limites, as dist\u00e2ncias reconhecidas (mostramos noutra parte como o \u201cenvelhecimento\u201d do artista \u00e9, em parte, um efeito do crescimento do capital simb\u00f3lico e da evolu\u00e7\u00e3o correlata das ambi\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas).<\/p>\n<p>[15] Nas sociedades pr\u00e9-capitalistas esse trabalho de transmuta\u00e7\u00e3o imp\u00f5e-se com um rigor particular porque a acumula\u00e7\u00e3o de capital simb\u00f3lico \u00e9, o mais das vezes, a \u00fanica forma de acumula\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, de fato e de direito. De modo geral, quanto maior for a censura \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es diretas do poder do capital (econ\u00f4mico ou mesmo cultural), mais o capital deve ser acumulado sob a forma de capital simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>[16] Quanto menor o grau de familiaridade, mais as opera\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias de classifica\u00e7\u00e3o precisam apoiar-se no simbolismo para inferir a posi\u00e7\u00e3o social: nas vilas ou pequenas cidades o julgamento social pode apoiar-se sobre um conhecimento quase exaustivo das caracter\u00edsticas econ\u00f4micas e sociais mais determinantes; nos encontros ocasionais e an\u00f4nimos da vida urbana, ao contr\u00e1rio, o estilo e o gosto contribuem sem d\u00favida de modo bem mais determinante para orientar o julgamento social e as estrat\u00e9gias postas em a\u00e7\u00e3o nas intera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>[17] A cita\u00e7\u00e3o correta \u00e9 na verdade de Fernand de Saussure, Cours de linguistique g\u00e9n\u00e9rale (Paris: Paillot, 1968). Essa proposi\u00e7\u00e3o foi desenvolvida por Hjelmslev e o C\u00edrculo Lingu\u00edstico de Copenhague. Ver Louis Hjelmslev. Prolegomena to a theory of language. Madison: University of Winsconsin Press, 1961 [ [ Links ]1943]. [LW]<\/p>\n<p>[18] Isso significa que a an\u00e1lise do campo do poder como sistema de posi\u00e7\u00f5es de poder \u00e9 insepar\u00e1vel da an\u00e1lise das propriedades (no duplo sentido) dos agentes que ocupam essas posi\u00e7\u00f5es e da contribui\u00e7\u00e3o que elas trazem para a perpetua\u00e7\u00e3o do poder pelos efeitos simb\u00f3licos que exercem.<\/p>\n<p>http:\/\/www.geledes.org.br\/capital-simbolico-e-classes-sociais-artigo-de-pierre-bourdieu-trad-em-portugues\/#gs.null<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pierre Bourdieu &#8211;\u00a0Todo empreendimento cient\u00edfico de classifica\u00e7\u00e3o deve considerar que os agentes sociais aparecem como objetivamente caracterizados por duas esp\u00e9cies diferentes de propriedades: de um lado, propriedades materiais que, come\u00e7ando pelo corpo, se deixam denominar e medir como qualquer outro objeto do mundo f\u00edsico; de outro, propriedades simb\u00f3licas adquiridas na rela\u00e7\u00e3o com sujeitos que os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2313,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2312","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-teoria"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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