{"id":2294,"date":"2016-11-27T12:54:09","date_gmt":"2016-11-27T14:54:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2294"},"modified":"2016-11-17T15:03:32","modified_gmt":"2016-11-17T17:03:32","slug":"o-pendulo-esquerda-direita-e-suas-correntes-subterraneas-determinantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/11\/27\/o-pendulo-esquerda-direita-e-suas-correntes-subterraneas-determinantes\/","title":{"rendered":"O p\u00eandulo esquerda-direita e suas correntes subterr\u00e2neas determinantes"},"content":{"rendered":"<p><strong>R\u00e9gis Moraes<\/strong> &#8211; Dois vetores me parecem importantes para explicar essa evolu\u00e7\u00e3o: a vida material e a forma\u00e7\u00e3o de comportamentos e h\u00e1bitos mentais e o fator subjetivo.<\/p>\n<p>Sabemos bem que os anos 1970, no Brasil, foram anos de chumbo. Ditadura policial, baixo astral, combate nas trevas, sobram imagens para assombrar as lembran\u00e7as. As organiza\u00e7\u00f5es de esquerda tinham sido praticamente dizimadas nos primeiros anos da d\u00e9cada. Muito pouco ficara de p\u00e9. Meu grupo pol\u00edtico, ambiciosamente chamado de partido, tinha sido desmantelado em 1971. Muita gente na cadeia, muita gente no ex\u00edlio, muita gente desaparecida e muita gente numa semi-clandestinidade braba, engatinhando no escuro para tentar a \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d. Os sindicatos estavam silenciados por dentro e por fora. Outros movimentos sociais tamb\u00e9m. Mas ao longo da d\u00e9cada assistimos a uma recomposi\u00e7\u00e3o de todos esses movimentos e a uma redefini\u00e7\u00e3o daquilo que cham\u00e1vamos de esquerda. Uma outra esquerda ia nascendo. Aos trancos e barrancos. E aos solu\u00e7os.<\/p>\n<p>A superf\u00edcie da pol\u00edtica \u2013confrontos parlamentares, disputas eleitorais \u2013 mostrava inconsist\u00eancias e instabilidades. Algumas gangorras. Em 1972 houve uma elei\u00e7\u00e3o municipal que foi exibida pela ditadura como uma esp\u00e9cie de plebiscito que a legitimava. Afinal, a Arena, partido do governo, tinha conseguido cerca de 80% dos votos! Contudo, apenas dois anos depois, a gangorra mudava: o MDB, partido da oposi\u00e7\u00e3o consentida, venceu \u201cde lavada\u201d, conseguindo 16 das 22 vagas de senadores em disputa.<\/p>\n<p>Mas, fora dessa superf\u00edcie, ou debaixo dela, aquela lenta recomposi\u00e7\u00e3o ocorria. \u00c1s vezes ela se refletia timidamente na superf\u00edcie, em apoios a candidatos \u201cpopulares\u201d, por exemplo. Mas, em geral, seguia uma linha de desenvolvimento pr\u00f3pria, cinzenta, teimosa, a passos de formiga.<\/p>\n<p>Dois vetores me parecem importantes para explicar essa evolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma simplifica\u00e7\u00e3o, baseada em pura mem\u00f3ria de ativista, mas acho que ajuda a explicar as chamadas conjunturas dif\u00edceis e a encar\u00e1-las com menos ansiedade, coisa de que estamos precisados.<\/p>\n<p><strong>Vetor 1: A vida material e a forma\u00e7\u00e3o de comportamentos e h\u00e1bitos mentais<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro vetor talvez se possa chamar de linha mestra da vida material. Tamb\u00e9m uma simplifica\u00e7\u00e3o. E uma descri\u00e7\u00e3o limitada a grandes cidades, metr\u00f3poles, e a um segmento da vida material, o segmento do trabalho industrial, da classe oper\u00e1ria em sentido muito estrito. Pura mem\u00f3ria, como disse, muito marcada pela minha pr\u00f3pria experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A est\u00f3ria \u00e9 a seguinte. Tomo como exemplo a ind\u00fastria automobilista e a rede metal\u00fargica a ela vinculada. Pelo tamanho e pelo poder simb\u00f3lico desse segmento, na \u00e9poca. E, mais ainda, seleciono o exemplo da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo. Esse recorte, por\u00e9m, me parece inspirador (com altera\u00e7\u00f5es, claro) para outros cen\u00e1rios do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nos anos 1970, esse setor produtivo era enorme, influente e diversificado, estratificado. Havia um punhado de montadoras, cinco ou seis. Empregavam uns 100 mil trabalhadores. Mas em torno delas orbitavam milhares de empresas e oficinas, englobando outras centenas de milhares de empregados. No meio da d\u00e9cada, na grande S\u00e3o Paulo (Capital, Guarulhos, Osasco, ABC) devia haver uns 500 mil metal\u00fargicos, talvez mais. E isso criava um interessante calend\u00e1rio, quase um ritual de comportamentos e aten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os trabalhadores do ABC tinham contratos de trabalho (acordos coletivos) que venciam em maio. Isto \u00e9, deviam ser negociados com a patronal (o famoso Grupo 14 da Fiesp) em maio. Assim, depois do carnaval come\u00e7ava uma esp\u00e9cie de rotina de pedagogia pol\u00edtica. O sindicato formava uma \u201ccomiss\u00e3o salarial\u201d eleita em assembleia. Ela era incumbida de pesquisar, entre trabalhadores, as expectativas \u2013 quais os reajustes, quais as demandas relativas a condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Era tamb\u00e9m uma ferramenta de agita\u00e7\u00e3o \u2013 chamar aten\u00e7\u00e3o para esses temas, dentro das f\u00e1bricas \u2013 e de sondagem de disposi\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, da disposi\u00e7\u00e3o dos trabalhadores para um eventual confronto. Nos meses seguintes ocorreriam as assembleias para decis\u00e3o sobre a pauta reivindicat\u00f3ria e sobre as contrapropostas patronais. Isso mobilizava, em diferentes n\u00edveis, mais de cem mil trabalhadores \u2013 e, claro, tamb\u00e9m atraia a aten\u00e7\u00e3o de suas fam\u00edlias, vizinhos, etc. H\u00e1bitos, formas de pensar, escalas de valores, tudo isso girava em torno desse calend\u00e1rio. O que n\u00e3o era pouco.<\/p>\n<p>Quando terminava o ciclo do ABC come\u00e7ava o movimento dos metal\u00fargicos da capital, com data limite em novembro. Com os mesmos rituais e efeitos, embora mais fragmentado, com muito mais empresas e um numero maior de oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>O segmento metal\u00fargico era uma refer\u00eancia para outras categorias \u2013 trabalhadores da ind\u00fastria qu\u00edmica, pl\u00e1stica, farmac\u00eautica, marcenaria, t\u00eaxtil, aliment\u00edcia, etc. A aprendizagem pol\u00edtica dos metal\u00fargicos transbordava para outras categorias, Al\u00e9m disso, os movimentos dos metal\u00fargicos catalisavam apoios e estimulavam participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em diferentes movimentos de bairros oper\u00e1rios. Em torno de uma greve surgiam numerosos grupos de apoio. No primeiro de maio de 1980, p. ex,, se organizou uma marcha de 130 mil pessoas em S\u00e3o Bernardo, no meio de uma greve em que a diretoria do sindicato e os dois n\u00edveis do comando de greve tinham sido detidos. A concentra\u00e7\u00e3o desafiou a proibi\u00e7\u00e3o da PM e marchou em dire\u00e7\u00e3o ao est\u00e1dio das assembleias, que estava ocupado pela pol\u00edcia, e ali fez um ato pol\u00edtico. Mais da metade daquelas 130 mil eram pessoas que vinham de diferentes cantos, de diferentes categorias e diferentes movimentos sociais. E esse \u00e9 apenas um exemplo da \u201cimanta\u00e7\u00e3o\u201d irradiada pelos movimentos desse segmento sindical, pela sua aprendizagem pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Estou descrevendo, de modo r\u00e1pido e impressionista, um cen\u00e1rio dos anos 1970. Antes da avalanche de \u201creengenharias\u201d das empresas \u2013 com terceiriza\u00e7\u00f5es, outsourcing e offshore. Antes, portanto, da fragmenta\u00e7\u00e3o dessas macro-categorias em empresas e segmentos bem menores, muitas vezes inclusive rebatizados como \u201ctrabalhadores de servi\u00e7os auxiliares\u201d e n\u00e3o mais como trabalhadores industriais. E essa transforma\u00e7\u00e3o foi decisiva \u2013 sobretudo porque n\u00e3o devidamente percebida e enquadrada, organicamente, pelas dire\u00e7\u00f5es sindicais, que viam escorrer suas bases. A mudan\u00e7a dessa \u201cbase material\u201d \u2013 mesmo que fosse (n\u00e3o era) puramente organizacional, cont\u00e1bil \u2013 j\u00e1 era suficiente para desmanchar todo aquele ritual formador de comportamentos, id\u00e9ias e identidades que descrevi mais acima. Nos anos 1980 isso ainda era pouco vis\u00edvel. Nos anos 1990 foi brutal. Uma escola de pol\u00edtica tinha sido bem debilitada.<\/p>\n<p><strong>Vetor 2: o fator subjetivo<\/strong><\/p>\n<p>Para um observador estrangeiro, maio de 1978 talvez mostrasse algo surpreendente. Para muitos de n\u00f3s, nativos, tamb\u00e9m. Quase como um raio no c\u00e9u azul, algumas emissoras de TV mostram cenas de um personagem quase maldito: a classe oper\u00e1ria, ou, mais precisamente, o movimento oper\u00e1rio. Lembro-me de ver, surpreso, as cenas de greves em ind\u00fastrias da grande S\u00e3o Paulo. Ou de um conflito em elei\u00e7\u00f5es para o sindicato metal\u00fargico da cidade de Osasco (mais tarde, a cena se repetia no sindicato da categoria na capital). N\u00e3o me surpreendi com os fatos \u2013 eu os conhecia bem de perto. A surpresa era chegar na telinha. Aparentemente, o movimento oper\u00e1rio saia das catacumbas. Quase literalmente, porque viv\u00edamos mesmo em catacumbas. Explico \u2013 ou tento explicar.<\/p>\n<p>Simplificando muito a est\u00f3ria, a esquerda armada foi dizimada em 1971, com alguns focos restantes. A partir da\u00ed, um longo caminho de reconstru\u00e7\u00e3o foi iniciado. N\u00e3o apenas de reconstru\u00e7\u00e3o, mas de redefini\u00e7\u00e3o. Na maior parte dos grupos, os militantes que ficaram no pa\u00eds e n\u00e3o tinham sido destru\u00eddos pela pris\u00e3o, come\u00e7ou um giro para o \u201ctrabalho de massa\u201d, em f\u00e1bricas e bairros oper\u00e1rios, sobretudo. Lentamente, tamb\u00e9m nos sindicatos, em que a vigil\u00e2ncia policial era muito forte, marca\u00e7\u00e3o homem a homem. Essa reorienta\u00e7\u00e3o, paciente, trabalhosa, teve um associado valioso, determinante. Desde o come\u00e7o dos anos 1960 a igreja cat\u00f3lica passava por uma transforma\u00e7\u00e3o, um giro para os segmentos populares, para os pobres. Na Am\u00e9rica Latina isso ganhou impulso simb\u00f3lico com o encontro episcopal de Medelin (1968), que certo modo consagra a chamada igreja popular e a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres. Na cidade de S\u00e3o Paulo e nas cidades oper\u00e1rias perif\u00e9ricas, dezenas de padres progressistas come\u00e7avam a fomentar a organiza\u00e7\u00e3o popular. N\u00e3o apenas os padres oper\u00e1rios, aqueles que se integravam nas f\u00e1bricas, mas aqueles que dirigiam par\u00f3quias e capelas nos bairros perif\u00e9ricos. Era algo essencial, n\u00e3o apenas pela log\u00edstica \u2013 locais, aparelhos de impress\u00e3o (mime\u00f3grafos) \u2013 mas pelo envolvimento da comunidade com valores e id\u00e9ias baseadas em um sentimento gen\u00e9rico de solidariedade dos de baixo, de valores coletivistas. Essa rede dos nossos \u201cpadrecos\u201d foi decisiva para a forma\u00e7\u00e3o de ativistas e militantes, para a dissemina\u00e7\u00e3o desses movimentos como algo legitimo, \u201cnatural\u201d e n\u00e3o como atividade criminosa, carimbo que a ditadura tentou fixar na gente. V\u00e1rias vezes, n\u00f3s dirig\u00edamos a palavra \u00e0 comunidade para falar de uma campanha salarial, uma greve, uma elei\u00e7\u00e3o sindical. Inclusive em missas, naquele momento em que se lia e explicava uma passagem do Evangelho. A reflex\u00e3o sobre a vida de Jesus era substitu\u00edda pela reflex\u00e3o sobre os outros \u201cfilhos de Deus\u201d, os perseguidos e explorados do dia. Nunca ser\u00e1 poss\u00edvel exagerar a import\u00e2ncia desse componente \u2013 em que se soldou a coopera\u00e7\u00e3o entre crist\u00e3os e comunistas \u2013 na reconstru\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e popular. E na modelagem da nova esquerda.<\/p>\n<p>\u00c9 relevante indicar esse vetor at\u00e9 para destacar o que aconteceu quando ele deixou de existir ou perdeu for\u00e7a, no final da d\u00e9cada. Em 1979, um papa militantemente reacion\u00e1rio come\u00e7ou a obra de desconstru\u00e7\u00e3o dessa igreja progressista. A ferro e a fogo. A sementeira de ideias, sentimentos e valores (e de militantes) era atacada em sua raiz. Como a natureza detesta o v\u00e1cuo, o espa\u00e7o foi ocupado por outros atores, agora n\u00e3o mais movidos pela teologia da liberta\u00e7\u00e3o, mas pela chamada teologia da prosperidade, a vers\u00e3o supostamente religiosa de uma ideologia capitalista extremada, ultra-individualista e ultra conservadora.<\/p>\n<p>Se n\u00f3s caminh\u00e1ssemos pelos bairros populares, durante os anos 1970, encontrar\u00edamos em todos eles uma par\u00f3quia ou uma capela \u2013 o que para n\u00f3s, militantes, era um ponto de refer\u00eancia. Quase nenhuma igreja protestante, porque as igrejas protestantes eram, naquele momento, as tradicionais igrejas reformadas \u2013 metodistas, presbiterianos, anglicanos, etc. \u2013 e estavam sediadas, em geral, em bairros centrais ou de classe m\u00e9dia. Hoje, nesses mesmos bairros, para uma igreja ou paroquia cat\u00f3lica encontramos uma dezena de locais de culto neopentecostais, pregando a teoria de \u201cDeus \u00e9 seu s\u00f3cio\u201d. Para piorar o quadro, as igrejas do lucro foram \u00e0 TV. Uma outra escola de pol\u00edtica tinha sido debilitada. Uma outra, bem diferente, fora erguida.<\/p>\n<p>A classe trabalhadora estava mudando rapidamente, o ambiente em que se encontrava e formava seus sentimentos e ju\u00edzos tamb\u00e9m. Estas reflex\u00f5es n\u00e3o devem estimular a id\u00e9ia v\u00e3 de reconstruir os mesmos castelos e trilhar os mesmos caminhos. Devem ser est\u00edmulo para pensar os equivalentes funcionais dessas trincheiras que perdemos. Ferramentas novas, em situa\u00e7\u00f5es novas, para enfrentar problemas quem sabe semelhantes. Aquelas formas de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o respondiam a necessidades prementes. Eram um pouco de modo espont\u00e2neo e um pouco refletidas, planejadas. Revisit\u00e1-las ajuda a apreender com esse passado e pensar o futuro aumentando a dose de constru\u00e7\u00e3o deliberada, de constru\u00e7\u00e3o consciente. Apostar na pura espontaneidade n\u00e3o \u00e9 apenas arriscado, \u00e9 irrespons\u00e1vel. Essa mem\u00f3ria deve servir para gerar algo mais do que nostalgia, que \u00e9, afinal, inevit\u00e1vel para aqueles que passaram 20 anos esperando o alvorecer e agora enfrentam uma outra noite de ignorada dura\u00e7\u00e3o. Para aqueles que vir\u00e3o, como dizia o poeta, pensem em n\u00f3s e em nossos erros com alguma compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/O-pendulo-esquerda-direita-e-suas-correntes-subterraneas-determinantes\/4\/37238<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>R\u00e9gis Moraes &#8211; Dois vetores me parecem importantes para explicar essa evolu\u00e7\u00e3o: a vida material e a forma\u00e7\u00e3o de comportamentos e h\u00e1bitos mentais e o fator subjetivo. Sabemos bem que os anos 1970, no Brasil, foram anos de chumbo. Ditadura policial, baixo astral, combate nas trevas, sobram imagens para assombrar as lembran\u00e7as. 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