{"id":2279,"date":"2016-11-24T12:03:57","date_gmt":"2016-11-24T14:03:57","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2279"},"modified":"2016-11-17T13:07:52","modified_gmt":"2016-11-17T15:07:52","slug":"a-esquerda-e-os-evangelicos-o-que-aprender-com-a-vitoria-de-crivella","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/11\/24\/a-esquerda-e-os-evangelicos-o-que-aprender-com-a-vitoria-de-crivella\/","title":{"rendered":"A esquerda e os evang\u00e9licos: o que aprender com a vit\u00f3ria de Crivella"},"content":{"rendered":"<p><strong>ROBERTO DUTRA<\/strong> &#8211; A classe m\u00e9dia projetou em Freixo a representa\u00e7\u00e3o de seu sentimento de superioridade moral em rela\u00e7\u00e3o aos pobres<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria de Marcelo Crivella (PRB) sobre Marcelo Freixo (PSOL) representa muito mais do que a derrota da esquerda para um candidato da direita religiosa na segunda maior capital do pa\u00eds. Representa um realinhamento pol\u00edtico e eleitoral com potencial de se nacionalizar.<\/p>\n<p>Mesmo que seja imposs\u00edvel identificar exatamente quando come\u00e7ou o enfraquecimento da ades\u00e3o das classes populares ao \u201clulismo\u201d, 2016 \u2013 ano em que o PT foi apeado do poder por meio de um golpe parlamentar \u2013 marca inequ\u00edvoco desalinhamento entre as propostas da esquerda e os caminhos que a grande maioria dos pobres votantes decidiu seguir. Entender como o realinhamento do voto popular em torno de Crivella se desenhou no Rio de Janeiro \u00e9 essencial para avaliar seu potencial de expans\u00e3o ou replica\u00e7\u00e3o pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A expectativa em torno do PSOL<\/strong><\/p>\n<p>Quem esperava que o PSOL e Freixo fossem capazes de superar a dificuldade do PT em se reconectar com as classes populares se decepcionou bastante. Ao inv\u00e9s de se projetar para o futuro e buscar o alinhamento com o povo \u2013 inclusive com as classes populares evang\u00e9licas \u2013, iniciando o trabalho de base que o PT n\u00e3o fez depois que assumiu a Presid\u00eancia, o PSOL se projetou para o passado, reassumindo a agenda e a postura \u201cudenistas\u201d de superioridade moral que o PT representava antes de governar o pa\u00eds (vide o discurso de criminaliza\u00e7\u00e3o da indica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para secretarias e demais cargos de confian\u00e7a que Freixo vocalizou contra Crivella). Se Brizola tinha raz\u00e3o em dizer que o PT de outrora se parecia com uma \u201cUDN de macac\u00e3o\u201d, o PSOL se apresentou nestas elei\u00e7\u00f5es cariocas como uma \u201cUDN p\u00f3s-materialista\u201d: al\u00e9m de vocalizar o sentimento de superioridade moral no enfrentamento da corrup\u00e7\u00e3o, os socialistas reivindicaram serem moralmente superiores por representarem \u00e0s minorias, \u00e0 diversidade e \u00e0 diferen\u00e7a. Evid\u00eancia clara deste sentimento foi a naturalidade com que Freixo exigiu, no \u00faltimo debate, que Crivella explicasse e justificasse sua candidatura, como se as pretens\u00f5es eleitorais e pol\u00edticas de um pol\u00edtico religioso n\u00e3o fossem leg\u00edtimas pelo simples fato de serem elaboradas em procedimentos democr\u00e1ticos (debate p\u00fablico e elei\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>De um Freixo supostamente empenhado em superar um advers\u00e1rio com s\u00f3lida base eleitoral religiosa (n\u00e3o apenas evang\u00e9lica) n\u00e3o se viu, do in\u00edcio ao fim da campanha, um \u00fanico movimento de, por exemplo, focar sua cr\u00edtica no suposto fundamentalismo de Crivella e reconhecer a legitimidade da massa de lideran\u00e7as pol\u00edticas que se formam em organiza\u00e7\u00f5es religiosas evang\u00e9licas, sobretudo as pentecostais. O \u00fanico movimento de Freixo foi em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 classe m\u00e9dia que n\u00e3o vota no PSOL, mas \u00e9 simp\u00e1tica a qualquer tipo de \u201cudenismo\u201d e que projetou nele a representa\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio sentimento de superioridade moral em rela\u00e7\u00e3o aos pobres, agora rebaixados com os estigmas de \u201cfundamentalistas evang\u00e9licos\u201d, \u201cmassa de manobra\u201d, \u201calienados\u201d e todos os r\u00f3tulos que possam aludir menos racionalidade e virtude moral para participar da pol\u00edtica e assumir o poder.<\/p>\n<p><strong>Pregando para convertidos da classe m\u00e9dia<\/strong><\/p>\n<p>A esquerda \u2013 representa pelo PSOL e por Freixo \u2013 simplesmente se fechou para as classes populares. O que vimos foi prega\u00e7\u00e3o para os convertidos da Zona Sul e arredores e nenhuma disposi\u00e7\u00e3o para adotar um elemento sequer da linguagem, do imagin\u00e1rio e das preocupa\u00e7\u00f5es concretas das classes populares. Poucos momentos ap\u00f3s as urnas consagrarem o realinhamento das classes populares com Crivella e da classe m\u00e9dia com Freixo, o candidato do PSOL deu prova cabal desta falta de disposi\u00e7\u00e3o em se conectar com os pobres: fez discurso de \u201cvencedor moral\u201d, afirmando que o \u201cRio da diferen\u00e7a, o Rio da diversidade, o Rio da luta contra a homofobia\u201d n\u00e3o vai aceitar o \u201cprojeto fundamentalista e obscurantista\u201d. Ao inv\u00e9s de estimular o aprendizado, a revis\u00e3o de discursos, pr\u00e1ticas, abordagens e prioridades, a derrota parece ter alimentando o fechamento da esquerda pol\u00edtica em torno de seus pr\u00f3prios preconceitos intelectuais, que reproduzem, a contragosto de pretens\u00e3o do PSOL em representar as classes populares, os pr\u00f3prios preconceitos que a classe m\u00e9dia cultiva em rela\u00e7\u00e3o aos pobres.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, alguns esfor\u00e7os de abrir o debate e enfrentar os limites conceituais do campo progressista em entender a atuar junto \u00e0s classes populares evang\u00e9licas. No entanto, at\u00e9 agora estes esfor\u00e7os t\u00eam se concentrado em identificar e cultivar divis\u00f5es no segmento evang\u00e9lico com o intuito de alavancar correntes progressistas (oriundas de denomina\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas como os batistas, metodistas e presbiterianos), excluindo os pol\u00edticos pentecostais e neopentecostais como Crivella, que, goste-se disto ou n\u00e3o, representam a grande maioria dos pobres evang\u00e9licos, que n\u00e3o s\u00e3o protestantes hist\u00f3ricos, mas sim pentecostais e neopentecostais. O m\u00e1ximo que este esfor\u00e7o elitista de separar o \u201cjoio do trigo\u201d pode render \u00e0 esquerda \u00e9 ampliar um pouco sua base de classe m\u00e9dia, agregando evang\u00e9licos de igrejas hist\u00f3ricas, mas sem nenhuma representatividade na onda pentecostal e neopentecostal que n\u00e3o s\u00f3 conquistou, mas que tamb\u00e9m foi protagonizada pelas classes populares das periferias urbanas de todo o pa\u00eds nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. Ou seja, buscar os protestantes hist\u00f3ricos e isolar os pentecostais e neopentecostais \u00e9 mais do mesmo e s\u00f3 serve para reproduzir o fechamento intelectual, pol\u00edtico e eleitoral da esquerda no universo da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>Disposi\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica com pobres evang\u00e9licos<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que fazer? Para se distanciar dos estere\u00f3tipos que naturalizou para interpretar a forma de ser e agir dos pobres evang\u00e9licos, a esquerda precisa se \u201cperder e se achar\u201d no universo pentecostal. Precisa da disposi\u00e7\u00e3o afetiva e cognitiva de um bom etn\u00f3grafo: estranhar o que lhe \u00e9 familiar e se familiarizar com o que lhe parece estranho. Estranhar, por exemplo, suas pr\u00f3prias prega\u00e7\u00f5es sobre igualdade de g\u00eanero e se perguntar o que significa \u201cempoderamento feminino\u201d para mulheres pobres, evang\u00e9licas ou n\u00e3o. No \u00faltimo debate entre Freixo e Crivella, o candidato do PSOL atribuiu ao bispo licenciado a vis\u00e3o machista contida na b\u00edblia de que a \u201cmulher deve ser submissa ao homem\u201d. O objetivo pol\u00edtico-eleitoral s\u00f3 poderia ser o de ganhar o voto das mulheres em geral, incluindo as mulheres pobres (22,11% das mulheres s\u00e3o evang\u00e9licas, contra 18,25% dos homens, segundo o Censo de 2010 do IBGE). Sem negar em nenhum momento que esta seja a vis\u00e3o predominante na B\u00edblia, Crivella respondeu fazendo refer\u00eancia a seu pr\u00f3prio relacionamento, um casamento de trinta e cinco anos, dizendo que se \u201csua mulher n\u00e3o fosse muito bem tratada, o casamento j\u00e1 teria terminado\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo sabendo que bons tratos n\u00e3o s\u00e3o o \u00fanico fator a manter casamentos, esta refer\u00eancia a um exemplo concreto tem muito mais validade e ades\u00e3o entre as mulheres evang\u00e9licas \u2013 que representam o universo evang\u00e9lico como um todo muito melhor do que os homens \u2013 do que doutrinas ou \u201can\u00e1lises de discurso\u201d sobre a opress\u00e3o feminina no texto b\u00edblico. Vistas pela esquerda como instrumentos de domina\u00e7\u00e3o masculina, as Igrejas pentecostais \u2013 apesar da B\u00edblia! \u2013 muito provavelmente s\u00e3o percebidas pela grande maioria das evang\u00e9licas pobres como um espa\u00e7o de empoderamento e liberdade de a\u00e7\u00e3o. Tendo como refer\u00eancia concreta de compara\u00e7\u00e3o suas pr\u00f3prias trajet\u00f3rias de exclus\u00e3o social, humilha\u00e7\u00e3o moral, viol\u00eancia na rua e dom\u00e9stica, entre outras mazelas, estas evang\u00e9licas vivenciam as igrejas como organiza\u00e7\u00f5es que promovem seu protagonismo individual na vida social: mesmo quando os cargos de comando mais elevados n\u00e3o lhes s\u00e3o acess\u00edveis, a possibilidade de ter um espa\u00e7o para observar, tematizar, vigiar e disciplinar a vida familiar (incluindo a viol\u00eancia dom\u00e9stica!), ao lado do protagonismo em outros papeis de lideran\u00e7a religiosa, representam formas de reconhecimento social, autonomia e empoderamento individual que as classes populares (incluindo as mulheres) n\u00e3o experimentam em nenhuma outra organiza\u00e7\u00e3o ou esfera da sociedade. Em nenhuma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, incluindo os coletivos de esquerda, a mulher e o homem comum t\u00eam tanto e t\u00e3o r\u00e1pido protagonismo quanto em uma igreja evang\u00e9lica pentecostal. Quando a esquerda n\u00e3o se d\u00e1 conta que estas trajet\u00f3rias reais de protagonismo s\u00e3o mais importantes do que o discurso b\u00edblico \u2013 cujo peso e relev\u00e2ncia variam bastante \u2013, ela simplesmente perde a conex\u00e3o com o p\u00fablico que gostaria de alcan\u00e7ar. Que outra organiza\u00e7\u00e3o social brasileira tem a capacidade e a flexibilidade de aceita\u00e7\u00e3o, inclus\u00e3o e empoderamento do outro como vemos nas pequenas e m\u00e9dias igrejas pentecostais das periferias das cidades brasileiras?<\/p>\n<p>Poder\u00edamos elencar e tratar outros temas nos quais o fechamento intelectual da esquerda a impede de se conectar com as classes populares, evang\u00e9licas ou n\u00e3o. No tema do cuidado, por exemplo, Freixo polarizou, do in\u00edcio ao fim da campanha, sua concep\u00e7\u00e3o de um Estado impessoal que, ao inv\u00e9s de ofertar cuidado, reconhece direitos, contra o que chama de \u201cvis\u00e3o paternalista\u201d, representada pela pretens\u00e3o de Crivella de \u201ccuidar das pessoas\u201d. Pesquisas sobre implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais realizadas nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil, mostram que as popula\u00e7\u00f5es demandantes destas pol\u00edticas possuem uma viv\u00eancia concreta do Estado, corporificada no tratamento (bom ou ruim) e nas intera\u00e7\u00f5es com os \u201cburocratas da ponta\u201d (policiais, assistentes sociais etc.). Para eles, um Estado que n\u00e3o se prop\u00f5e a cuidar dos pobres n\u00e3o ser\u00e1 um Estado impessoal que ir\u00e1 garantir seus direitos, mas sim um Estado marcado pelo desrespeito cotidiano e pela falta de cuidado com as pessoas. A no\u00e7\u00e3o abstrata de \u201cter direitos\u201d \u00e9 interpretada pelos pobres a partir da viv\u00eancia cotidiana do Estado, como \u201cbom tratamento\u201d e \u201ccuidado\u201d. Quem vive experi\u00eancias cotidianas de humilha\u00e7\u00e3o moral espera um Estado \u201cacolhedor\u201d por meio de seus agentes e isto n\u00e3o \u00e9 nenhuma peculiaridade cultural brasileira, muito menos evang\u00e9lica. No entanto, tamb\u00e9m aqui, a esquerda ignora o imagin\u00e1rio popular, preferindo impor \u2013 sem nenhum \u00eaxito \u2013 sua concep\u00e7\u00e3o particular sobre o Estado.<\/p>\n<p>Com o tema do empreendedorismo \u00e9 a mesma coisa. O valor do individualismo moral entre os pobres evang\u00e9licos, que fundamenta a expectativa de autonomia produtiva e financeira na esfera econ\u00f4mica, mas que se deixa combinar com formas muito intensas de solidariedade, n\u00e3o \u00e9 mera ideologia neoliberal. \u00c9 for\u00e7a moral pr\u00f3pria, que pode assumir contornos transformadores ou reacion\u00e1rios, a depender da interpreta\u00e7\u00e3o e da dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que recebem. A esquerda deveria disputar o sentido pol\u00edtico destes valores de autonomia individual \u2013 que podemos chamar de \u201cliberalismo popular\u201d \u2013, pois eles possuem muito mais apelo transformador entre os pobres do que ideias abstratas do s\u00e9culo XIX como socialismo e comunismo. Mas isto exige reconhecer o universo de valores, estilos e projetos de vida dos pobres, rompendo com estere\u00f3tipos sobre os ideais \u201cpequeno-burgueses\u201d (o \u201cliberalismo popular\u201d) de mudan\u00e7a de vida e \u201cprosperidade\u201d. Ali\u00e1s, deveria causar espanto o fato de a esquerda recha\u00e7ar por completo a \u201cteologia da prosperidade\u201d, ignorando o modo como ela transforma as expectativas sociais e individuais e abrindo m\u00e3o de politizar ou reinterpretar seu sentido na pol\u00edtica. A esquerda entende esta \u201cteologia\u201d como mera express\u00e3o \u201creligiosa\u201d da ideologia neoliberal, fechando os olhos para as incont\u00e1veis varia\u00e7\u00f5es e combina\u00e7\u00f5es que sofre na pr\u00e1tica das igrejas, sendo, em muitos casos, acoplada a vis\u00f5es e pr\u00e1ticas de solidariedade e ajuda m\u00fatua na busca de emprego e bem-estar, assumindo assim um sentido coletivo.<\/p>\n<p>Evidente que os preconceitos intelectuais da esquerda, alimentados por preconceitos de classe que ela explicitamente recrimina e imputa exclusivamente \u00e0 direita, n\u00e3o bastam para explicar sua desconex\u00e3o com as classes populares. V\u00e1rios outros fatores fora da al\u00e7ada das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas progressistas s\u00e3o respons\u00e1veis por este fen\u00f4meno. Mas al\u00e9m de ter papel importante na co-produ\u00e7\u00e3o de sua desgra\u00e7a, os preconceitos intelectuais da esquerda em rela\u00e7\u00e3o aos pobres \u2013 sobretudo quando s\u00e3o evang\u00e9licos \u2013 ser\u00e3o grave empecilho \u00e0 retomada do terreno perdido. Para se opor com efic\u00e1cia ao avan\u00e7o das lideran\u00e7as pentecostais a n\u00edvel nacional \u2013 que seria um avan\u00e7o com a sustenta\u00e7\u00e3o da base social \u201cex-lulista\u201d \u2013 a esquerda (PT, PSOL, PDT, PCdoB) deveria estar mais preocupada com seu pr\u00f3prio fundamentalismo conceitual do que com o fundamentalismo evang\u00e9lico.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/11\/07\/opinion\/1478529639_292165.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ROBERTO DUTRA &#8211; A classe m\u00e9dia projetou em Freixo a representa\u00e7\u00e3o de seu sentimento de superioridade moral em rela\u00e7\u00e3o aos pobres A vit\u00f3ria de Marcelo Crivella (PRB) sobre Marcelo Freixo (PSOL) representa muito mais do que a derrota da esquerda para um candidato da direita religiosa na segunda maior capital do pa\u00eds. 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