{"id":2152,"date":"2016-11-13T12:50:23","date_gmt":"2016-11-13T14:50:23","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2152"},"modified":"2017-01-12T08:33:37","modified_gmt":"2017-01-12T10:33:37","slug":"50-anos-dos-panteras-negras-a-luta-contra-o-racismo-no-coracao-do-imperio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/11\/13\/50-anos-dos-panteras-negras-a-luta-contra-o-racismo-no-coracao-do-imperio\/","title":{"rendered":"50 anos dos Panteras Negras: a luta contra o racismo no cora\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p><strong>AUGUSTO C. BUONICORE<\/strong> &#8211;\u00a0No dia 15 de outubro comemoramos os 50 anos de cria\u00e7\u00e3o do Partido dos Panteras Negras. Esta foi um dos principais movimentos de resist\u00eancia negra dos Estados Unidos na d\u00e9cada de 1960 e influenciaria a luta antirracista e anticapitalista em v\u00e1rias partes do mundo. Desde o in\u00edcio, adotou o marxismo como refer\u00eancia te\u00f3rica da sua a\u00e7\u00e3o e logo se transformou no inimigo p\u00fablico n\u00famero um do FBI. Atrav\u00e9s do uso sistem\u00e1tico da infiltra\u00e7\u00e3o policial, espionagem e repress\u00e3o, o Estado imperialista conseguiu destru\u00ed-lo. Dezenas de militantes foram mortos e centenas presos. Contudo, o seu exemplo ficou para as gera\u00e7\u00f5es que os sucederam. E, hoje, os \u201cPanteras Negras\u201d s\u00e3o um s\u00edmbolo da luta antirracista e anticapitalista na Am\u00e9rica do Norte e no mundo.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grabois.org.br\/uploads\/cache\/737_0\/67bfee46ef5dea74cf796d007d14d3b3.jpeg?resize=640%2C457\" width=\"640\" height=\"457\" \/><\/p>\n<p><em>Panteras Negras em protesto na Assembl\u00e9ia Legislativa da Calif\u00f3rnia contra o desarmamento dos negros.<\/em><\/p>\n<p>Na metade da d\u00e9cada de 1950 conseguiu-se derrubar na Suprema Corte dos Estados Unidos as leis segregacionistas (\u201ciguais mais separados\u201d) que impediam o acesso da popula\u00e7\u00e3o negra \u00e0s melhores escolas, universidades e reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Alguns anos depois \u2013 entre 1964 e 1965 \u2013, foi aprovada uma s\u00e9rie de leis garantindo os direitos civis e o voto a todos os negros. Aquelas haviam sido importantes conquistas democr\u00e1ticas \u2013 fruto de uma luta centen\u00e1ria que custou milhares e milhares de vidas \u2013, mas a condi\u00e7\u00e3o social dos negros, especialmente a dos mais pobres, n\u00e3o melhorou e, em muitos casos, piorou. A igualdade formal (apenas perante a lei) n\u00e3o tinha o cond\u00e3o m\u00e1gico de eliminar por si s\u00f3 as profundas desigualdades sociais criadas pelo capitalismo. A situa\u00e7\u00e3o nos guetos estadunidenses continuou explosiva.<\/p>\n<p>Em agosto de 1965 eclodiu uma sangrenta revolta em Los Angeles, no estado da Calif\u00f3rnia. O conflito teve in\u00edcio quando policiais brancos abordaram de forma violenta um jovem negro acusado de \u201cdire\u00e7\u00e3o perigosa\u201d. Aquela foi a gota d\u2019\u00e1gua para uma comunidade que vivia sendo humilhada e agredida cotidianamente. Ap\u00f3s duros confrontos entre a popula\u00e7\u00e3o e as for\u00e7as de repress\u00e3o, seguiram-se saques, inc\u00eandios de carros e de estabelecimentos comerciais. Aterrorizadas, as autoridades estaduais solicitaram a interven\u00e7\u00e3o da Guarda Nacional. Como resultado desses conflitos, houve: 34 mortos, 1.032 feridos e 3.952 presos. E os preju\u00edzos ultrapassaram a cifra dos 40 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Este era o clima reinante na ensolarada e liberal Calif\u00f3rnia quando alguns jovens negros come\u00e7aram a se auto-organizar para defenderem sua comunidade da a\u00e7\u00e3o truculenta da pol\u00edcia.<\/p>\n<p><strong>Nasce o Partido Panteras Negras para Autodefesa<\/strong><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grabois.org.br\/uploads\/fotos\/1476134113.jpg?resize=400%2C380\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"380\" \/><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria dos Panteras Negras come\u00e7a em 15 de outubro de 1966 na cidade de Oakland, pr\u00f3ximo a S\u00e3o Francisco no mesmo estado da Calif\u00f3rnia, quando Huey P. Newton e Bobby Seale (<em>ambos na foto ao lado<\/em>) criam o \u201cPartido dos Panteras Negras para Autodefesa\u201d. Os dois se conheceram no Merrit College e ali ingressaram numa das muitas associa\u00e7\u00f5es afro-americanas. Depois disso Newton, cursou Direito e Seale entrou para o ex\u00e9rcito, onde ficou por quatro anos, passando os \u00faltimos seis meses detido por se confrontar com um oficial racista. Newton tamb\u00e9m conheceria a pris\u00e3o por oito meses por ter se envolvido numa briga. Ao se reencontrarem, chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que era preciso organizar um partido que defendesse a comunidade negra da cidade.<\/p>\n<p>Em pouco tempo a nova organiza\u00e7\u00e3o mudaria a face do movimento negro dos Estados Unidos e influenciaria a luta antirracista e anticapitalista em v\u00e1rias partes do mundo. O objetivo inicial, aparentemente, n\u00e3o tinha nada de revolucion\u00e1rio. Um dia, Huey e Bobby descobriram que podiam usar a pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o existente para defenderem-se das sucessivas investidas policiais. Uma dessas leis autorizava qualquer cidad\u00e3o a ostentar arma de fogo com a finalidade de proteger-se. Outra dava-lhes o direito de acompanhar de perto a atividade policial. Os jovens viram nisso uma brecha que lhes permitiria montar um grupo negro de autodefesa.<\/p>\n<p>Nas suas rondas noturnas, quando presenciavam cenas de abusos do poder, sa\u00edam armados dos seus carros e com sua presen\u00e7a inibiam as a\u00e7\u00f5es mais truculentas da pol\u00edcia. Ao serem questionados pelas autoridades, recitavam bem alto os seus direitos. Aqueles que assistiam \u00e0 cena ins\u00f3lita passavam a espalhar a not\u00edcia sobre a exist\u00eancia de um bando de jovens negros corajosos que n\u00e3o temiam enfrentar os policiais racistas.<\/p>\n<p><strong>O programa dos Panteras Negras<\/strong><\/p>\n<p>O grupo, al\u00e9m de um nome, precisaria de um uniforme que impusesse respeito. Ent\u00e3o,os \u201cPanteras Negras\u201d passaram a se vestir com camisas azuis, cal\u00e7as e boinas pretas e casacos de couro.\u00a0 Eles desde o in\u00edcio tiveram consci\u00eancia do papel estrat\u00e9gico da agita\u00e7\u00e3o e da propaganda na luta pela liberta\u00e7\u00e3o da comunidade negra. O primeiro e principal documento produzido foi o Programa de 10 pontos (O que queremos), do qual fizeram uma primeira edi\u00e7\u00e3o de mil exemplares. Nele, se afirmava:<\/p>\n<p>1\u00ba N\u00f3s queremos liberdade. Queremos poder para determinar o destino de nossas comunidades negras.<\/p>\n<p>2\u00ba Queremos pleno emprego para nosso povo.<\/p>\n<p>3\u00ba Queremos o fim da ladroagem dos capitalistas brancos contra nossas comunidades negras.<\/p>\n<p>4\u00ba Queremos casas decentes para abrigar seres humanos.<\/p>\n<p>5\u00ba Queremos educa\u00e7\u00e3o para nosso povo! Uma educa\u00e7\u00e3o que exponha a verdadeira natureza da decad\u00eancia da sociedade americana. Queremos que seja ensinada a nossa verdadeira hist\u00f3ria e nosso papel na sociedade atual.<\/p>\n<p>6\u00ba Queremos que todos os homens negros sejam isentos do servi\u00e7o militar.<\/p>\n<p>7\u00ba Queremos um fim imediato da brutalidade policial e dos assassinatos de pessoas negras.<\/p>\n<p>8\u00ba Queremos liberdade para todos os negros que estejam em pris\u00f5es e cadeias federais, estaduais, distritais ou municipais.<\/p>\n<p>9\u00ba Queremos que todas as pessoas negras levadas a julgamento sejam julgadas por seus pares ou por pessoas das suas comunidades negras.<\/p>\n<p>10\u00ba Queremos terra, p\u00e3o, moradia, educa\u00e7\u00e3o, roupas, justi\u00e7a e paz.<\/p>\n<p>Este programa sofreria modifica\u00e7\u00f5es importantes conforme refor\u00e7ava a ades\u00e3o do grupo ao marxismo e ao anti-imperialismo. Entre essas mudan\u00e7as est\u00e1 a inclus\u00e3o das \u201ccomunidades oprimidas\u201d ao lado da \u201ccomunidade negra\u201d, sinalizando que os \u201cPanteras\u201d lutavam pela emancipa\u00e7\u00e3o de todos os oprimidos e n\u00e3o apenas dos negros. Tamb\u00e9m ocorreria a fus\u00e3o de alguns itens e a inclus\u00e3o de outro: \u201cQueremos o fim imediato de todas as guerras de agress\u00e3o\u201d, numa clara refer\u00eancia cr\u00edtica \u00e0s interven\u00e7\u00f5es do imperialismo estadunidense no terceiro mundo, especialmente no Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>Estabeleceram uma s\u00e9rie de regras que deveriam ser seguidas \u00e0 risca pelos militantes da organiza\u00e7\u00e3o, como a proibi\u00e7\u00e3o do uso de drogas. Tamb\u00e9m era vetado o uso de bebida alco\u00f3lica durante o trabalho partid\u00e1rio. Outro item dizia: \u201cnenhum membro do partido cometer\u00e1 qualquer crime contra outros membros ou a popula\u00e7\u00e3o negra em geral; n\u00e3o poder\u00e1 furtar ou tomar do povo, nem mesmo uma agulha ou peda\u00e7o de linha\u201d. E: \u201ctodos os membros em posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a devem ler no m\u00ednimo duas horas por dia\u201d. O trabalho de forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pol\u00edtica era uma das marcas dos \u201cPanteras Negras\u201d.<\/p>\n<p>Uma das primeiras atividades foi fazer uma coleta entre os poucos militantes e alugar uma sede, que foi inaugurada em 1\u00ba de janeiro de 1967. Poucos meses depois, criaram o seman\u00e1rio The Black Panther, que teve 537 edi\u00e7\u00f5es (1967 e 1971), chegando a 150 mil exemplares. Ainda em 1967 esta frente partid\u00e1ria ganhou um importante refor\u00e7o com o ingresso do escritor e jornalista Eldridge Cleaver.<\/p>\n<p>Os \u201cPanteras\u201d n\u00e3o passavam de um grupo de autodefesa negra local com algumas dezenas de membros. Contudo, um fato os projetaria nacionalmente. No come\u00e7o de 1967, temendo pela exist\u00eancia de mil\u00edcias negras, os deputados estaduais da Calif\u00f3rnia passaram a discutir um projeto de lei proibindo a exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de armas por civis, o \u201cMulford Act\u201d. Ironicamente, at\u00e9 ent\u00e3o o direito de andar armado era uma das bandeiras dos conservadores e o governador era justamente o direitista Ronald Reagan.<\/p>\n<p>No dia 2 de maio, dezenas de Panteras Negras, liderados por Seale, realizaram uma demonstra\u00e7\u00e3o armada no recinto da Assembleia Legislativa, mas por engano entraram no plen\u00e1rio causando p\u00e2nico entre os parlamentares. Assim, o pequeno grupo de Oakland ganhou as primeiras p\u00e1ginas dos principais jornais do pa\u00eds. De um lado, isso atraiu a simpatia de milhares de jovens negros e, de outro,chamou a aten\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de investiga\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o do Estado, especialmente do FBI.<\/p>\n<p>Logo a m\u00eddia conservadora procurou difundir a falsa ideia de que os \u201cPanteras Negras\u201d eram racistas \u2013 um racismo \u00e0s avessas \u2013 e que odiavam todos os brancos. Seale, numa entrevista, respondeu a essas acusa\u00e7\u00f5es infundadas:<\/p>\n<p>\u201c- Quando algu\u00e9m me diz que sou antibranco, co\u00e7o a cabe\u00e7a e penso: antibranco, o que quer dizer com isso?<\/p>\n<p>&#8211; \u2018Quero dizer que odeia os brancos\u2019, retruca o jornalista.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, odiar os brancos? Mas o \u00f3dio \u00e9 contra n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a KKK que me odeia e quer matar-me devido \u00e0 cor da minha pele. Eu n\u00e3o quero matar nem maltratar ningu\u00e9m pela cor da sua pele. Sim, h\u00e1 alguma coisa que odiamos. Odiamos a opress\u00e3o de que somos v\u00edtimas. Odiamos os policiais que agridem e matam os negros. A nossa energia queremos consagr\u00e1-la n\u00e3o a odiar quem quer que seja em virtude da cor da pele, mas \u00e0 luta para acabar com a opress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os \u201cPanteras Negras\u201d n\u00e3o realizaram apenas demonstra\u00e7\u00f5es armadas, eles tamb\u00e9m montaram um eficiente sistema de assist\u00eancia social, com refeit\u00f3rios que serviam caf\u00e9 da manh\u00e3 para crian\u00e7as e adolescentes, cl\u00ednicas m\u00e9dicas, escolas prim\u00e1rias e cursos de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Fizeram campanhas contra o alcoolismo e as demais drogas, pois acreditavam que contribu\u00edam para a desagrega\u00e7\u00e3o das comunidades negras. Possivelmente, o exemplo do movimento de liberta\u00e7\u00e3o da Arg\u00e9lia, vitorioso em 1962, os tenha inspirado. De um grupo exclusivamente masculino, ele logo passou a aceitar o ingresso de mulheres, que chegaram a representar mais da metade da milit\u00e2ncia. A ativa participa\u00e7\u00e3o delas \u2013 como Kathleen Cleaver, Elaine Brown e Assata Shakur\u2013 mereceria uma p\u00e1gina especial na hist\u00f3ria dessa organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Panteras Negras tinham uma forma de organiza\u00e7\u00e3o original. Seu \u00f3rg\u00e3o dirigente denominava-se Comit\u00ea Central, seguindo a antiga tradi\u00e7\u00e3o comunista. Mas este n\u00e3o se organizavaatrav\u00e9s de um secretariado, comandado pelo secret\u00e1rio-geral ou primeirosecret\u00e1rio. Uma concep\u00e7\u00e3o militarista (com influ\u00eancia de R\u00e9gis Debray) e nacionalista-negra (que entende a popula\u00e7\u00e3o negra como uma na\u00e7\u00e3o dentro da na\u00e7\u00e3o) leva que o cargo principal seja o de ministro da Defesa, assumido por Newton. Seguido pelo presidente (Seale). Depois vinha o ministro da Informa\u00e7\u00e3o (Eldridge Cleaver), o chefe do Estado-Maior (David Hilliard), o marechal de campo (Don Cox), o ministro da Educa\u00e7\u00e3o (Ray Massai Hewitt), o ministro da Cultura (Emory Douglas), a secret\u00e1ria de comunica\u00e7\u00f5es (Kathleen Cleaver, primeira mulher a assumir um cargo na dire\u00e7\u00e3o nacional).Em fevereiro de 1968,foi anunciada a integra\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea de Coordena\u00e7\u00e3o Estudantil da N\u00e3o Viol\u00eancia (SNCC, na sigla em ingl\u00eas)aos \u201cPanteras Negras\u201d. Tr\u00eas dirigentes daquela organiza\u00e7\u00e3o passaram a compor o Comit\u00ea Central: Stokely Carmichel (primeiro-ministro), H. Rap Brown (ministro da Justi\u00e7a) e James Forman (ministro de Assuntos Exteriores).<\/p>\n<p><strong>Marxismo e terceiro-mundismo<\/strong><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.grabois.org.br\/uploads\/fotos\/1476134162.jpg?resize=502%2C333\" alt=\"\" width=\"502\" height=\"333\" \/><\/p>\n<p>Inicialmente, o partido era influenciado pelo exemplo de Malcolm X, morto em fevereiro de 1965, mas ao contr\u00e1rio deste n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o como islamismo negro. Sua perspectiva era laica, marxista e terceiro-mundista. O assassinato de Luther King em 4 de abril de 1968 representou um duro golpe nas correntes que advogavam a resist\u00eancia pac\u00edfica contra a opress\u00e3o \u00e0 comunidade negra e levou a uma radicaliza\u00e7\u00e3o maior de setores do movimento, inclusive os \u201cPanteras Negras\u201d. Estes passaram por um momento de r\u00e1pida ascens\u00e3o, com um aumento significativo da abrang\u00eancia da sua organiza\u00e7\u00e3o e no n\u00famero de militantes.<\/p>\n<p>Os \u201cPanteras Negras\u201d foram muito influenciados pelo mao\u00edsmo e faziam proselitismo do Livro vermelho do camarada MaoTse-tung, mas tamb\u00e9m mostravam simpatias por outros revolucion\u00e1rios. Como disse Ray (Massai) Hewitt: \u201cAprendemos com o presidente Mao, com Ho Chi Minh e temos um profundo carinho por Fidel Castro\u201d. Outro de seus l\u00edderes, George Murray, j\u00e1 havia dito: \u201cnosso pensamento se inspira em Che Guevara, Malcolm X, Lumumba, Ho Chi Minh e Mao Tse-tung\u201d. Don Cox, por sua vez, afirmou: \u201caprenderemos com todos aqueles que anteriormente mantiveram bem alto a chama (revolucion\u00e1ria): Marx, L\u00eanin, Stalin, Mao, Fidel, Che, Lumumba e Malcolm X. E continuaremos aprendendo com todos que continuam mantendo essa chama bem no alto: Ho Chi Minh, esses irm\u00e3os e irm\u00e3s do Al Fatah, essas guerrilhas palestinas, e todos os camaradas em armas, da \u00c1sia e da Am\u00e9rica Latina\u201d.<\/p>\n<p>Theodore Drapper, no seu livro Nacionalismo Negro nos Estados Unidos, constata que \u201cat\u00e9 o final de 1969, para os \u2018Panteras Negras\u2019, o comunista estrangeiro favorito parecia ser Kim Il Sung, presidente da Coreia do Norte, a julgar pelo espa\u00e7o (no jornal) dedicado \u00e0s suas declara\u00e7\u00f5es e a seus discursos\u201d. Como podemos notar, a ideologia dos \u201cPanteras Negras\u201d era marcada por certo ecletismo \u2013 uma mistura nem sempre bem articulada de diversas correntes marxistas.<\/p>\n<p>A aceita\u00e7\u00e3o do marxismo os levou, corretamente, a que fossem contr\u00e1rios \u00e0s teses de retorno \u00e0 \u00c1frica, defendidas por grupos minorit\u00e1rios, herdeiros de Marcus Garvey. Para os \u201cPanteras\u201d, o pa\u00eds materno dos atuais negros era os Estados Unidos e n\u00e3o a \u00c1frica. Discordavam de certo nacionalismo pan-africano, que pretendia estabelecer a cultura africana como a verdadeira cultura do negro estadunidense. Newton e Seale achavam que era preciso realizar uma incorpora\u00e7\u00e3o seletiva do que tinha de revolucion\u00e1rio e progressista na cultura africana (e de outros povos do mundo) e n\u00e3o os seus aspectos atrasados. Newton diria: \u201cO que a n\u00f3s concerne cremos que \u00e9 importante reconhecer nossas origens e nos identificarmos com os povos negros revolucion\u00e1rios da \u00c1frica e os povos de cor de todo o mundo. Por\u00e9m, quanto a retornar aos antigos costumes, n\u00e3o vemos necessidade de faz\u00ea-lo\u201d. George Murray, ministro da Educa\u00e7\u00e3o, seria mais contundente ao considerar o nacionalismo pan-africano \u201creacion\u00e1rio, insensato e contrarrevolucion\u00e1rio\u201d. Outro artigo do jornal dos \u201cPanteras Negras\u201d ridicularizaria \u201cos tontos que andam por a\u00ed declarando que est\u00e3o \u2018simplesmente tratando de ser negros\u2019 por usar turbantes e t\u00fanicas e dizem aos negros que eles devem se vincular aos costumes africanos e \u00e0 heran\u00e7a africana, que deixamos faz trezentos anos, que isto os vai fazer livres\u201d.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o acreditavam que o combate principal era entre a totalidade da comunidade negra e a totalidade da comunidade branca. Eles acreditavam que o motor das transforma\u00e7\u00f5es sociais era a luta de classes, a luta contra o imperialismo e o capitalismo, que tinham \u00e0 sua cabe\u00e7a o governo e as classes dominantes dos Estados Unidos. A derrota do racismo e da opress\u00e3o estava vinculada diretamente a uma vit\u00f3ria nesse campo.<\/p>\n<p>O presidente dos \u201cPanteras\u201d, Bobby Seale, afirmaria: \u201cOs nacionalistas culturais e os Panteras est\u00e3o em conflito em muitas \u00e1reas. Basicamente, o nacionalismo cultural v\u00ea o homem branco como opressor e n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o entre brancos racistas e brancos n\u00e3oracistas, como os Panteras fazem. Os nacionalistas culturais dizem que o negro n\u00e3o pode ser inimigo do povo negro, enquanto os Panteras acreditam que os capitalistas negros s\u00e3o exploradores e opressores. Embora os Panteras Negras acreditem no nacionalismo negro e na cultura negra, eles n\u00e3o acreditam que levar\u00e3o \u00e0 liberdade negra ou \u00e0 derrubada do sistema capitalista, e s\u00e3o, portanto, ineficientes\u201d.<\/p>\n<p>Seale reafirmaria essas ideias em outras oportunidades: \u201cn\u00e3o combatemos o racismo com racismo. Combatemos o racismo com solidariedade. N\u00e3o combatemos o capitalismo explorador com o capitalismo negro. Combatemos o capitalismo com o socialismo de base. N\u00e3o combatemos o imperialismo com mais imperialismo. Combatemos o imperialismo com o internacionalismo prolet\u00e1rio\u201d. Referindo-se \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre racismo e domina\u00e7\u00e3o capitalista, insistiria: \u201co racismo e as diferen\u00e7as \u00e9tnicas permitem que as estruturas de poder explorem as massas trabalhadoras, porque \u00e9 a chave atrav\u00e9s da qual mant\u00e9m o controle. Dividir o povo e submet\u00ea-lo \u00e9 o objetivo da estrutura de poder (&#8230;). \u00c9 realmente a classe dominante, pequena e minorit\u00e1ria, que domina, explora e oprime os trabalhadores e o povo laborioso (&#8230;). Ent\u00e3o, esta n\u00e3o \u00e9 de todo uma luta racial (&#8230;). Na nossa vis\u00e3o \u00e9 uma luta de classes entre a massiva classe trabalhadora e a pequena minoria da classe dominante, exploradora e opressora. Deixe-me enfatizar novamente: acreditamos que a nossa luta \u00e9 uma luta de classes e n\u00e3o uma luta racial\u201d.<\/p>\n<p>Era essa concep\u00e7\u00e3o que permitiria aos \u201cPanteras Negras\u201d fazerem alian\u00e7as com outros grupos radicais e socialistas, compostos predominantemente por brancos, como o Partido Comunista dos Estados Unidos, sem se subordinarem a eles. Muitas vezes se dirigem ao conjunto do povo e n\u00e3o apenas aos negros. \u201cO Partido dos \u2018Panteras Negras\u2019 \u00e9 um partido do povo. Estamos fundamentalmente interessados em uma coisa: libertar todo o povo de todas as formas de escravid\u00e3o, com o objetivo de que cada homem seja seu pr\u00f3prio dono\u201d.<\/p>\n<p>Como vemos, os \u201cPanteras Negras\u201d \u2013 como partido revolucion\u00e1rio e socialista \u2013 n\u00e3o se restringia \u00e0 defesa dos negros estadunidenses, pois sabiam que \u2013 apesar de mais oprimido \u2013 representavam apenas 12% da popula\u00e7\u00e3o. Por isso, incorporaram bandeiras mais amplas. Estiveram na linha de frente da campanha contra a guerra do Vietn\u00e3, conscientizando os jovens de que aquela era uma guerra imperialista e n\u00e3o devia ser apoiada. Fizeram frentes de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com v\u00e1rias entidades, como a dos \u201cEstudantes por uma sociedade democr\u00e1tica\u201d. Contribu\u00edram para a forma\u00e7\u00e3o do \u201cPartido da Paz e da Liberdade\u201d \u2013 uma organiza\u00e7\u00e3o multiracial\u2013, que lan\u00e7aria Eldridge Cleaver como candidato \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica nas elei\u00e7\u00f5es de 1968, obtendo 50 mil votos.<\/p>\n<p>Em julho de 1969, os \u201cPanteras\u201d patrocinaram a Confer\u00eancia nacional pr\u00f3-frente \u00fanica contra o fascismo. Dela, participaram representantes do Partido Comunista dos EUA, e entre eles o doutor Herbert Aptheker, especialista na hist\u00f3ria dos negros americanos, que fez um longo discurso. Diante das cr\u00edticas feitas por alguns grupos negros, Seale afirmou que os comunistas haviam trabalhado mais pelo sucesso da confer\u00eancia contra o fascismo que qualquer outra organiza\u00e7\u00e3o e, por isso, garantiram o direito de estarem ali e utilizarem a palavra. Isso, \u00e9 claro, n\u00e3o eliminava as diferen\u00e7as te\u00f3ricas e pol\u00edticas entre as duas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, que mantinham entre si rela\u00e7\u00f5es respeitosas. Sabiam que o inimigo era outro.<\/p>\n<p>Por isso, chegaram mesmo a propor a constitui\u00e7\u00e3o de \u201cum partido novo, um novo partido dos trabalhadores, ou como o queiram chamar-lhe (&#8230;) uma frente de liberta\u00e7\u00e3o norte-americana, composta por todos os povos dessa na\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Seale.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o de Newton e Seale em fazer alian\u00e7as com organiza\u00e7\u00f5es radicais e socialistas brancas \u2013 inclusive em constituir um partido de frente\u00fanica \u2013 fez com que surgisse uma diverg\u00eancia no interior da organiza\u00e7\u00e3o. Estas, por exemplo, foram as causas da demiss\u00e3o de Carmichael e de outros militantes da dire\u00e7\u00e3o dos \u201cPanteras Negras\u201d em julho de 1969. \u201cN\u00e3o posso aprovar politicamente as alian\u00e7as realizadas pelo partido, porque a hist\u00f3ria dos africanos que vivem nos Estados Unidos tem demonstrado que qualquer alian\u00e7a prematura com radicais brancos tem levado \u00e0 completa submiss\u00e3o dos negros aos brancos, mediante o controle direto e indireto da organiza\u00e7\u00e3o negra\u201d, declarou Carmichael. Em 1966, quando ainda era presidente do SNCC, ele havia afastado todos os estudantes radicais brancos e agora via o seu novo partido se aproximar desses mesmos estudantes e propor-lhes a constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de frente\u00fanica. Seale rebateu afirmando que Carmichael tinha um temor paranoico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 milit\u00e2ncia radical branca, fruto das dificuldades encontradas no passado no interior da SNCC. Os \u201cPanteras\u201d, que tinham outra hist\u00f3ria, n\u00e3o carregavam tais preconceitos.<\/p>\n<p>Num discurso, Newton chegou a afirmar: \u201cHouve um tempo em que acredit\u00e1vamos que s\u00f3 os negros eram colonizados. Por\u00e9m agora creio que devemos mudar o nosso discurso em certa medida, porque todo povo norte-americano tem sido colonizado, se consideramos a explora\u00e7\u00e3o como um efeito do colonialismo, j\u00e1 que esse povo \u00e9 explorado\u201d. O l\u00edder dos \u201cPanteras\u201d amalgamava os conceitos de explora\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o. Assim, todos os trabalhadores brancos e negros eram explorados e, portanto, colonizados pelo capitalismo na sua fase imperialista. Uma argumenta\u00e7\u00e3o original, embora bastante imprecisa.<\/p>\n<p>Novamente, contra aqueles que acreditavam ser poss\u00edvel constituir um cintur\u00e3o de Estados negros e socialistas na Am\u00e9rica do Norte, Newton argumentava que essa experi\u00eancia n\u00e3o poderia sobreviver se o restante dos Estados Unidos continuasse capitalista.\u00a0 \u201cAtualmente, o Partido dos Panteras Negras opina que n\u00e3o queremos estar numa situa\u00e7\u00e3o t\u00edpica de enclave, pois ficar\u00edamos mais isolados que estamos agora\u201d. Ou, como afirmaria Newton: \u201cN\u00e3o poder\u00edamos (vencer) somente na col\u00f4nia (referindo-se \u00e0 comunidade negra americana), porque seria como cortar um dedo de uma das m\u00e3os, pois elas continuariam funcionando (&#8230;). Para vencer o monstro \u00e9 preciso venc\u00ea-lo em sua totalidade\u201d.\u00a0 Para isso, era preciso unificar a luta dos \u201cradicais brancos e brancos pobres\u201d dos Estados Unidos para realizar uma revolu\u00e7\u00e3o socialista em escala nacional e internacional.<\/p>\n<p>Em um dos discursos feitos na Confer\u00eancia antifascista de Oakland, Seale afirmaria: \u201cN\u00e3o dizemos que a autodetermina\u00e7\u00e3o do povo negro nas comunidades negras seja incorreta. \u00c9 necess\u00e1ria. Por\u00e9m, n\u00e3o estamos dizendo que o povo negro \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o s\u00f3 por ser negro. Dizemos que \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o porque sofre essa mesma opress\u00e3o econ\u00f4mica; porque, em segundo lugar, tem uma caracter\u00edstica psicol\u00f3gica b\u00e1sica em sua forma de reagir ante o meio que vive; terceiro porque eles se explicam pelo que est\u00e1 ocorrendo; pois o povo negro na comunidade negra compreende o genoc\u00eddio; porque a linguagem, as caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas, as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e (4) a localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica em que o povo negro vive se definem geralmente como guetos. Esta localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, juntamente com outros pontos, define o povo negro como na\u00e7\u00e3o (&#8230;). Se estamos divididos e cindidos \u00e9 porque estamos colonizados, porque os povos do terceiro mundo est\u00e3o colonizados. Isto \u00e9 o que define uma na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos baseamos no racismo. Entendemos o nacionalismo nos termos do que \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o e compreendemos o internacionalismo\u201d. Neste ponto a ideologia dos \u201cPanteras\u201d demonstra suas contradi\u00e7\u00f5es, pois algumas vezes nega o nacionalismo negro e em outras assume alguns dos seus pontos centrais: como a ideia de que os negros estadunidenses formam uma na\u00e7\u00e3o \u00e0 parte no interior da Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<p><strong>O Imp\u00e9rio contra os Panteras Negras<\/strong><\/p>\n<p>Em 1968 os \u201cPanteras\u201d possu\u00edam filiais em 20 cidades e dois anos depois esse n\u00famero subiria para 45 \u2013 e calcula-se que no seu auge tenha chegado a5 mil membros \u2013, tornando-se um dos movimentos da esquerda revolucion\u00e1ria mais importantes dos Estados Unidos. \u00c9 justamente desse per\u00edodo a afirma\u00e7\u00e3o de Edgard Hoover, diretor do FBI, segundo a qual eles representavam a maior amea\u00e7a interna ao pa\u00eds. Desde ent\u00e3o os aparelhos de controle e repress\u00e3o dos Estados Unidos colocaram como uma de suas tarefas principais a erradica\u00e7\u00e3o dessa organiza\u00e7\u00e3o, com processos fraudulentos, pris\u00f5es e mesmo execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais. Contra ela foi utilizado o CounterIntelligence Program (COINTELPRO) \u2013 um programa de contraintelig\u00eancia que tinha o objetivo de coordenar o trabalho de infiltra\u00e7\u00e3o de espi\u00f5es e provocadores nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda e a cria\u00e7\u00e3o de um esquema de contrainforma\u00e7\u00e3o visando a isolar e desmoralizar as organiza\u00e7\u00f5es-alvo de sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na metade da d\u00e9cada de 1970 \u2013 quando o grupo praticamente n\u00e3o mais existia \u2013, o pr\u00f3prio Congresso estadunidense formou uma comiss\u00e3o de inqu\u00e9rito que constatou os abusos cometidos pelo FBI e outros \u00f3rg\u00e3os governamentais contra os \u201cPanteras Negras\u201d. Recentemente, por exemplo, se descobriu que um dos ativistas que fornecia as armas ao grupo, o nipo-americano Richard Masato Aoki, era na verdade um agente infiltrado.<\/p>\n<p>Apenas nos primeiros quatro anos de exist\u00eancia 34 de seus militantes foram assassinados \u2013 a maioria em supostos confrontos com a pol\u00edcia. Em 28 de outubro de 1967, Newton se envolveu num conflito com alguns policiais que levou \u00e0 morte de um deles. Julgado por um tribunal composto exclusivamente por brancos,ele foi condenado em setembro de 1968 a 15 anos de pris\u00e3o. Houve a partir de ent\u00e3o uma grande campanha para que fosse libertado e, em agosto de 1970, ele acabou sendo solto ap\u00f3s novo julgamento.<\/p>\n<p>No dia 6 de abril de 1968, contra a vontade da dire\u00e7\u00e3o nacional, uma ala dos \u201cPanteras Negras\u201d, comandada por Cleaver, resolveu realizar uma a\u00e7\u00e3o armada contra policiais num protesto contra o ent\u00e3o recente assassinato de Luther King. Ap\u00f3s o confronto, que resultou em v\u00e1rios feridos, Cleaver e Bobby Hutton \u2013 de apenas 17 anos \u2013 se refugiaram no por\u00e3o de uma casa e rapidamente foram cercados. Cleaver, temendo por uma execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria, recomendou que tirassem as roupas e sa\u00edssem nus, demonstrando que estavam desarmados. Contudo, Bobby tirou apenas a camisa e ao sair do esconderijo foi morto com v\u00e1rios tiros, inclusive pelas costas. Ele foi o primeiro membro do partido a ser assassinado pela pol\u00edcia. Cleaver foi preso e no transcorrer do processo fugiu para Cuba, depois seguiu para Arg\u00e9lia, onde montou um escrit\u00f3rio de rela\u00e7\u00f5es internacionais do grupo.<\/p>\n<p>Um ano depois do assassinato de Hutton, 21 dos principais l\u00edderes dos \u201cPanteras Negras\u201d em Nova Iorque foram presos e falsamente acusados de terrorismo. A fian\u00e7a estabelecida pelo juiz foi astron\u00f4mica. Esta foi outra estrat\u00e9gia para enfraquecer financeiramente a organiza\u00e7\u00e3o, que era obrigada a fazer grandes esfor\u00e7os para conseguir recursos visando a pagar as despesas das dezenas de processos que eram abertos. O processo contra os 21 durou mais de um ano e foi conclu\u00eddo pela absolvi\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us.<\/p>\n<p>No m\u00eas de setembro de 1969, em meio \u00e0 campanha para libertar Newton, Bobby Seale foi preso em Chicago sob a acusa\u00e7\u00e3o de conspirar para um motim e de ter assassinato um suposto informante do FBI dentro de sua organiza\u00e7\u00e3o. Diante de sua postura inconformista no tribunal, o juiz determinou que fosse amorda\u00e7ado e amarrado na cadeira. Uma atitude desp\u00f3tica que ocasionou protestos em todo o pa\u00eds. Nesse \u00ednterim \u2013 estando Newton e Seale presos e Cleaver exilado\u2013, David Hillard tornou-se presidente interino, mas mesmo ele n\u00e3o escapou das persegui\u00e7\u00f5es da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Outros casos escandalosos foram os assassinatos de Fred Hampton e Mark Clark, dois l\u00edderes da atuante se\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria no estado de Illinois, ocorridos em 5 de dezembro de 1969. Foram executados dentro do apartamento de Hampton, possivelmente enquanto dormiam. Poucos meses antes de ser assassinado \u2013 num com\u00edcio em defesa da libera\u00e7\u00e3o de Newton \u2013, Hampton havia dito:\u201cvoc\u00eas podem prender um revolucion\u00e1rio, mas n\u00e3o podem prender a revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Agora eles n\u00e3o apenas prendiam, mas matavam.<\/p>\n<p>Quatro dias depois do duplo homic\u00eddio, 300 membros da SWAT iniciaram um feroz ataque contra o escrit\u00f3rio dos \u201cPanteras Negras\u201d. O confronto durou mais de cinco horas e tr\u00eas pessoas ficaram feridas. Nesse mesmo per\u00edodo, v\u00e1rias outras sedes foram atacadas com igual furor. Ningu\u00e9m tinha mais d\u00favidas de que ali se travava uma guerra.<\/p>\n<p>Toda essa monstruosa opera\u00e7\u00e3o de cerco e aniquilamento levada a cabo pelo Estado surtiu efeito. Ocorreram v\u00e1rios rachas internos \u2013 uma parte deles incentivada por infiltrados e pelo pessoal da contrainforma\u00e7\u00e3o \u2013 e muitos militantes, impactados pelas sucessivas derrotas, abandonaram o grupo. No ano de 1971, Cleaver e v\u00e1rios ativistas, especialmente de Nova Iorque, romperam com a dire\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m um grupo de tend\u00eancia militarista funda o Ex\u00e9rcito Negro de Liberta\u00e7\u00e3o, que organizou v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es armadas.<\/p>\n<p>A \u00faltima grande campanha dos \u201cPanteras Negras\u201d ocorreu em 1972, quando o que restava da organiza\u00e7\u00e3o em todo o pa\u00eds foi mobilizado para eleger Seale \u00e0 prefeitura de Oakland. Para isso, fecharam as sedes em v\u00e1rias cidades importantes e transferiram os seus militantes para aquela batalha eleitoral local. Algo que lhes trouxe grande preju\u00edzo organizativo, do qual o grupo jamais se recuperou. Visando a alcan\u00e7ar o seu objetivo eleitoral, adotaram um discurso menos radical e at\u00e9 se ligaram ao Partido Democr\u00e1tico. Apesar das concess\u00f5es e dos enormes esfor\u00e7os empreendidos, os \u201cPanteras\u201d n\u00e3o elegeram nem o prefeito nem a sua candidata \u00e0 vereadora, Elaine Brown.<\/p>\n<p>A grave derrota levou ao aprofundamento da crise interna. Seale e Newton se desentenderam sobre o rumo do movimento, e o primeiro renunciou \u00e0 presid\u00eancia. Nesse momento, o Partido dos Panteras Negras estava reduzido a algumas dezenas de militantes. Para complicar a situa\u00e7\u00e3o, Newton \u2013 acusado de assassinar uma prostituta \u2013 foi obrigado a fugir do pa\u00eds e se abrigar em Cuba em agosto de 1974, deixando Elaine Brown no seu lugar. Newton voltou em 1977 durante a administra\u00e7\u00e3o do presidente Carter, quando o clima pol\u00edtico havia desanuviado \u2013 sendo julgado e absolvido. Contudo, acabou sendo assassinado por um pequeno traficante em 22 de agosto de 1989. Com esse epis\u00f3dio \u2013 simbolicamente \u2013 fechava-se tragicamente mais uma p\u00e1gina heroica da hist\u00f3ria de luta dos negros estadunidenses.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>FRANKLIN, John Hope; MOSS JR., Alfred A. Da escravid\u00e3o \u00e0 liberdade: a hist\u00f3ria do negro americano. Rio de Janeiro: N\u00f3rdica, 1989.<\/p>\n<p>DRAPER, Theodore. Nacionalismo negro em Estados Unidos. Madri: Alianza Editorial, 1972.<\/p>\n<p>JOHNSON, Ollie A. Explicando a extin\u00e7\u00e3o do Partido dos Panteras Negras. In:Cadernos CRH, n. 35, jan.-jun. 2002, Salvador.<\/p>\n<p>PETERSON, John.Que caminho seguir para os trabalhadores e jovens negros? In:Esquerda Marxista, 2014.<\/p>\n<p>ROCQUES, Marcel. H\u00e1 uma esquerda nos EUA? Lisboa: Estampa, 1971.<\/p>\n<p><strong>Filmografia<\/strong><\/p>\n<p>Panteras Negras; dire\u00e7\u00e3o de Mario Van Peebles (1995)<\/p>\n<p>Os Panteras Negras: vanguarda da revolu\u00e7\u00e3o;dire\u00e7\u00e3o de Stanley Nelson (2014)<\/p>\n<p>Panteras Negras: todo poder ao povo; dire\u00e7\u00e3o de Lee Lew-Lee (1997)<\/p>\n<p>http:\/\/www.grabois.org.br\/portal\/artigos\/153094\/2016-10-10\/50-anos-dos-panteras-negras-a-luta-contra-o-racismo-no-coracao-do-imperio<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AUGUSTO C. 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