{"id":2099,"date":"2016-11-06T17:54:25","date_gmt":"2016-11-06T19:54:25","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=2099"},"modified":"2016-11-05T10:55:55","modified_gmt":"2016-11-05T12:55:55","slug":"desafios-da-reorganizacao-da-esquerda-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/11\/06\/desafios-da-reorganizacao-da-esquerda-brasileira\/","title":{"rendered":"Desafios da reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira"},"content":{"rendered":"<p><strong>Juliano Medeiros<\/strong> &#8211; Com um resultado eleitoral perto do catastr\u00f3fico, esquerda brasileira precisa se reinventar a partir de tr\u00eas tarefas: balan\u00e7o cr\u00edtico, renova\u00e7\u00e3o program\u00e1tica e promessa para o futuro<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/diplomatique.org.br\/interf\/spacer.gif?resize=1%2C12\" width=\"1\" height=\"12\" \/><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/diplomatique.org.br\/upload\/editor\/images\/pagina%204%281%29.jpg?w=640\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>O resultado das elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano ensejou, nos \u00faltimos dias, diversas an\u00e1lises sobre os rumos da esquerda. De todos os lados, analistas buscam compreender as raz\u00f5es que levaram \u00e0 acachapante vit\u00f3ria eleitoral dos partidos associados ao golpe que conduziu Michel Temer \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. A ideia de que o terreno perdido nos \u00faltimos meses exigir\u00e1 uma necess\u00e1ria reconfigura\u00e7\u00e3o das for\u00e7as progressistas parece encontrar eco em muitas vozes. No entanto, a \u201creorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda\u201d pode ter distintos significados a depender de como se interpreta a derrota que o impeachment e as elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano representaram.<\/p>\n<p>Parece consenso que \u00e9 chegada a hora de um profundo ajuste de contas na esquerda brasileira. O fim do ciclo do PT \u2013 que se anunciava desde junho de 2013 e se concretizou tragicamente com o impeachment de Dilma Rousseff \u2013 abriu um per\u00edodo de defini\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas para as for\u00e7as populares. Um claro processo de reconfigura\u00e7\u00e3o da esquerda est\u00e1 em curso, dentro e fora das organiza\u00e7\u00f5es tradicionais como partidos, sindicatos e entidades estudantis. No \u00e2mbito das organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias esse movimento \u00e9 mais n\u00edtido. No PT, o movimento \u201cMuda PT\u201d representa para seus integrantes a derradeira batalha para salvar o simbolismo e a representatividade que o partido ainda det\u00e9m entre parcela cada vez menor dos trabalhadores. Na Rede Sustentabilidade, as divis\u00f5es internas chegaram a um limite insuport\u00e1vel, opondo lideran\u00e7as de esquerda ao indecifr\u00e1vel projeto de Marina Silva. No PSOL, o crescimento do partido, que ocupou parte do espa\u00e7o deixado pelo PT nas elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano, exige defini\u00e7\u00f5es sobre seu papel no novo ciclo que se abre para a esquerda brasileira. E at\u00e9 o pequeno e monol\u00edtico PSTU sofreu os efeitos da press\u00e3o em favor da reorganiza\u00e7\u00e3o: uma dissid\u00eancia de centenas militantes deixou a legenda, rejeitando a t\u00e1tica do \u201cfora todos\u201d levada a cabo pelo partido durante o impeachment.<\/p>\n<p>Mas esse processo de reconfigura\u00e7\u00e3o da esquerda n\u00e3o se resume aos partidos. Ali\u00e1s, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que \u00e9 precisamente fora da vida partid\u00e1ria que essa reconfigura\u00e7\u00e3o se processa de forma mais din\u00e2mica. O esgotamento do ciclo do PT \u2013 que nada mais \u00e9 que o esgotamento de uma t\u00e1tica que envolveu centenas de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais em favor do chamado \u201cpacto de classes\u201d \u2013 j\u00e1 se nota no \u00e2mbito dos movimentos sociais h\u00e1 algum tempo. O surgimento de novas lutas, sobretudo nas grandes cidades, novos ativismos e formas de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, expressam tamb\u00e9m um novo momento para a esquerda social. Movimentos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Movimento Passe Livre (MPL), as ocupa\u00e7\u00f5es de escolas em todo o pa\u00eds, o fortalecimento do movimento de mulheres contra o machismo e a viol\u00eancia, os novos movimentos de contracultura e o ativismo digital de coletivos como o M\u00eddia Ninja, marcam o in\u00edcio de um novo ciclo na pol\u00edtica brasileira. Isso n\u00e3o significa, \u00e9 claro, que as formas \u201ctradicionais\u201d de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como sindicatos, organiza\u00e7\u00f5es de bairro ou entidades estudantis est\u00e3o superadas. Significa apenas que esses instrumentos ter\u00e3o de ceder espa\u00e7o a novas formas de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica surgidas das transforma\u00e7\u00f5es que o Brasil e o mundo vivenciaram nos \u00faltimos vinte anos, reinventando suas pr\u00e1ticas e formas de organiza\u00e7\u00e3o para recuperar a legitimidade perdida.<\/p>\n<p><strong>O impeachment como fim de um ciclo<\/strong><\/p>\n<p>Afirmamos que o impeachment de Dilma marca o fim de um ciclo. Mas poder\u00edamos ir al\u00e9m. Na verdade, o golpe que levou Michel Temer \u00e0 presid\u00eancia representa ao mesmo tempo o fim de dois ciclos. O primeiro \u00e9 um ciclo mais geral da pol\u00edtica brasileira, que come\u00e7a com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. O golpe representa a ruptura do pacto que permitiu, ao longo de quase trinta anos, algum n\u00edvel de estabilidade pol\u00edtica e a garantia m\u00ednima da progressiva amplia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais. Mesmo no auge do neoliberalismo dos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) direitos foram ampliados, apesar do retrocesso representado pela reforma do Estado promovida naquele per\u00edodo. Apesar de favor\u00e1vel \u00e0s for\u00e7as do conservadorismo, esse pacto permitiu o fortalecimento pol\u00edtico e social do campo democr\u00e1tico-popular durante os anos 1990, a livre organiza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e a vit\u00f3ria eleitoral da esquerda em 2002, mesmo que sob circunst\u00e2ncias que se mostrariam fatais anos depois. Ao congelar os investimentos p\u00fablicos por 20 anos, destruir o j\u00e1 insuficiente sistema que regulava a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e retomar um agressivo ajuste no sistema de previd\u00eancia, Temer implode o pacto que garantiu a estabilidade ao regime pol\u00edtico brasileiro nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas e encerra o clico institu\u00eddo pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, abrindo um per\u00edodo de luta aberta pelos rumos do Estado.<\/p>\n<p>Por outro lado, na esquerda tamb\u00e9m se encerra um ciclo. A hegemonia do PT e do bloco hist\u00f3rico que o sustentou desde os anos 1980 chegou definitivamente ao fim. O historiador Lincoln Secco, em livro sobre a hist\u00f3ria do PT,<sup>1<\/sup> afirma que o partido viveu tr\u00eas momentos em sua hist\u00f3ria. O primeiro foi marcado por um partido radical que liderava a oposi\u00e7\u00e3o social \u00e0 ditadura militar. O segundo momento \u00e9 aquele em que o PT se consolida como oposi\u00e7\u00e3o parlamentar ao neoliberalismo, quando o partido se institucionaliza e passa a viver a experi\u00eancia de governar importantes munic\u00edpios. O terceiro momento, que se inicia com a vit\u00f3ria de Lula em 2002, \u00e9 aquele caracterizado pela ascens\u00e3o do PT \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cpartido de governo\u201d. Nessa terceira e \u00faltima etapa do processo de aggiornamento<sup>2<\/sup> do partido \u00e0 din\u00e2mica do sistema pol\u00edtico brasileiro, o PT incorpora plenamente a estrat\u00e9gia do pacto de classes, isto \u00e9, de uma alian\u00e7a reformista assentada no crescimento econ\u00f4mico com distribui\u00e7\u00e3o de \u201cdividendos\u201d para todas as classes. Com o processo de impeachment e a implos\u00e3o do pacto que o PT mantinha com diferentes fra\u00e7\u00f5es da burguesia brasileira, o partido e seu campo de aliados tende a perder definitivamente a hegemonia sobre a esquerda brasileira. \u00c9 o fim desse outro ciclo que exige defini\u00e7\u00f5es urgentes sobre os rumos da reorganiza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as populares.<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas tarefas urgentes para a reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Nossa situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 in\u00e9dita. Diferente de outros momentos da hist\u00f3ria, quando a esquerda foi coagida fisicamente pelas for\u00e7as do conservadorismo e da rea\u00e7\u00e3o, o que vemos hoje \u00e9 um processo de \u201cdemoniza\u00e7\u00e3o\u201d das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda que alcan\u00e7ou n\u00edveis in\u00e9ditos desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Combinando o desgaste promovido pela crise econ\u00f4mica e seus efeitos sobre os mais pobres com as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o envolvendo altos dirigentes do governo e do PT, a m\u00eddia monopolista construiu com relativo sucesso uma associa\u00e7\u00e3o quase autom\u00e1tica entre \u201cesquerda\u201d e \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\/inefici\u00eancia\u201d. Os partidos que compuseram o governo, como PT e PCdoB, sentiram mais fortemente os efeitos dessa narrativa no recente processo eleitoral. Mas ela n\u00e3o poupou nem aqueles partidos que jamais mantiveram qualquer envolvimento com atos de corrup\u00e7\u00e3o e nunca compuseram o governo Dilma, como o PSOL. A luta que se trava em torno das responsabilidades sobre a recess\u00e3o econ\u00f4mica e a corrup\u00e7\u00e3o atingiu em cheio a esquerda.<\/p>\n<p>Quais seriam, ent\u00e3o, as tarefas para contornar essa situa\u00e7\u00e3o? Evidentemente, n\u00e3o h\u00e1 um \u201cmanual de reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira\u201d. Mas h\u00e1 alguns elementos indispens\u00e1veis para enfrentar esse gigantesco desafio, que podemos sintetizar no trip\u00e9 balan\u00e7o \/ renova\u00e7\u00e3o program\u00e1tica \/ promessa. Vejamos como se apresentam cada uma dessas tarefas:<\/p>\n<p><em>a) Balan\u00e7o<\/em>:A mais urgente das tarefas para a reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira refere-se ao balan\u00e7o da experi\u00eancia dos governos petistas. Por mais de uma d\u00e9cada, a esquerda brasileira se dividiu entre aqueles que apoiavam ou n\u00e3o o projeto liderado por Lula e Dilma. Por vezes, essa divis\u00e3o tomava formas absurdas, onde uns se tornavam incapazes de ver os flagrantes limites dos governos de concilia\u00e7\u00e3o, enquanto outros fechavam os olhos para os ineg\u00e1veis avan\u00e7os que foram promovidos na expans\u00e3o de alguns direitos sociais. Com o fim do ciclo do PT \u00e0 frente do governo federal, torna-se poss\u00edvel desenvolver um balan\u00e7o cr\u00edtico e honesto dos avan\u00e7os e limites que os governos petistas produziram. Exemplos n\u00e3o faltar\u00e3o. Se por um lado \u00e9 evidente que o crescimento econ\u00f4mico de quase uma d\u00e9cada proporcionou uma melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de vida de parte expressiva da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, com acesso a cr\u00e9dito, aumento real do sal\u00e1rio m\u00ednimo e mais pol\u00edticas sociais, por outro, n\u00e3o se pode esconder que a natureza do projeto de concilia\u00e7\u00e3o de classes n\u00e3o permitiu avan\u00e7os mais profundos, manteve o pa\u00eds vulner\u00e1vel \u00e0 din\u00e2mica do capital financeiro, fortaleceu o agroneg\u00f3cio predat\u00f3rio e deixou intocado o controle da informa\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os da m\u00eddia monopolista. Al\u00e9m disso, o mito conservador da \u201cgovernabilidade\u201d se imp\u00f4s de tal forma sobre as iniciativas de participa\u00e7\u00e3o direta da popula\u00e7\u00e3o sobre a pol\u00edtica, favorecendo o fisiologismo e as alian\u00e7as pragm\u00e1ticas, que muitos ter\u00e3o dificuldades em admitir que o governo foi enredado em acordos que jamais deveria ter firmado. Por isso um balan\u00e7o cr\u00edtico e desapaixonado \u00e9 indispens\u00e1vel para extrair as li\u00e7\u00f5es dos limites da concilia\u00e7\u00e3o de classes. Sem isso ser\u00e1 imposs\u00edvel pensar um novo projeto pol\u00edtico independente e comprometido com os interesses populares.<\/p>\n<p><em>b) Renova\u00e7\u00e3o program\u00e1tica<\/em>:O bloco hist\u00f3rico surgido com o PT na luta contra a ditadura militar representou uma grande novidade na cena pol\u00edtica brasileira. Aquela esquerda, renovada pelos novos atores pol\u00edticos que entraram em cena no final dos anos 1970, construiu um programa ao mesmo tempo radical e inovador para enfrentar os s\u00e9culos de atraso e explora\u00e7\u00e3o que marcavam nossa forma\u00e7\u00e3o social. Ele estava muito \u00e0 frente do reformismo que caracterizava, j\u00e1 naquela \u00e9poca, os partidos comunistas no Brasil. O chamado \u201cPrograma Democr\u00e1tico-Popular\u201d, aprovado no 5\u00ba Encontro Nacional do PT, em 1987, reunia um conjunto de tarefas anti-monopolistas, anti-imperialistas e anti-latifundi\u00e1rias que conferiam \u00e0 estrat\u00e9gia do partido um car\u00e1ter profundamente anti-capitalista e radicalmente democr\u00e1tico. Esse programa, rompendo com a tradi\u00e7\u00e3o que fora hegem\u00f4nica na esquerda at\u00e9 ent\u00e3o, apresentava uma nova interpreta\u00e7\u00e3o do est\u00e1gio de desenvolvimento do capitalismo no Brasil e preconizava uma t\u00e1tica de fortalecimento das organiza\u00e7\u00f5es de base do campo popular, recha\u00e7ando a concilia\u00e7\u00e3o de classes em favor da independ\u00eancia pol\u00edtica dos trabalhadores e trabalhadoras. O abandono desse programa por parte do PT e sua relativa desatualiza\u00e7\u00e3o deixaram a esquerda brasileira, no s\u00e9culo XXI, com um enorme \u201cd\u00e9ficit program\u00e1tico\u201d. Ao mesmo tempo em que foram incorporadas novas demandas \u00e0 agenda pol\u00edtica da esquerda nos \u00faltimos anos, especialmente no campo dos direitos civis, pouco se avan\u00e7ou na correta interpreta\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as que o Brasil viveu durante as \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. A consolida\u00e7\u00e3o do processo de urbaniza\u00e7\u00e3o do capital e suas contradi\u00e7\u00f5es trouxeram novas formas de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica que ainda precisam ser incorporadas \u00e0 an\u00e1lise da esquerda. Essa renova\u00e7\u00e3o program\u00e1tica \u2013 econ\u00f4mica, pol\u00edtica, social, cultural, ideol\u00f3gica \u2013 \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para \u201creconectar\u201d a esquerda ao Brasil real.<\/p>\n<p><em>c) Promessa<\/em>: Os efeitos da derrocada do PT ter\u00e3o efeitos de longo prazo. Uma gera\u00e7\u00e3o inteira de militantes, desiludida com as inaceit\u00e1veis concess\u00f5es feitas pelo partido ao longo de quase catorze anos, j\u00e1 n\u00e3o acredita que outro instrumento partid\u00e1rio possa responder \u00e0 tarefa hist\u00f3rica de liderar a reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira. Isso \u00e9 natural. A decep\u00e7\u00e3o \u00e9 profunda, tanto quanto a indigna\u00e7\u00e3o pelos erros cometidos \u2013 em especial em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 retirada de direitos dos mais pobres, marca do \u00faltimo ano de governo Dilma. Por isso, al\u00e9m de realizar um balan\u00e7o cr\u00edtico da experi\u00eancia petista no governo federal e promover uma profunda atualiza\u00e7\u00e3o program\u00e1tica, a esquerda dever\u00e1 lan\u00e7ar m\u00e3o de uma promessa: a de que \u00e9 poss\u00edvel construir um caminho diferente no futuro. Numa de suas principais obras,<sup>3<\/sup> Hannah Arendt afirma que \u00e9 a promessa que valida o perd\u00e3o; isto \u00e9, apenas o compromisso de que algo novo est\u00e1 sendo constru\u00eddo no lugar do velho \u00e9 que permite expiar os pecados do passado. Mesmo aqueles que nada tiveram a ver com os erros cometidos ter\u00e3o de consignar seu compromisso com a promessa de que nada ser\u00e1 como antes. O perd\u00e3o, que exime a esquerda das consequ\u00eancias dos erros cometidos, s\u00f3 pode ser validado pela promessa do novo. E esse novo que \u00e9 reclamado pela nova gera\u00e7\u00e3o de lutadores e lutadoras que est\u00e1 nas ruas n\u00e3o pode ser nada menos que uma esquerda horizontal, pluralista, radicalmente democr\u00e1tica e profundamente comprometida com os interesses dos explorados e oprimidos. Uma esquerda anticapitalista, socialista e classista, mas tamb\u00e9m feminista, negra, jovem, disposta a combater qualquer tipo de opress\u00e3o. Perd\u00e3o e promessa: eis o bin\u00f4mio do qual a reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda n\u00e3o pode fugir.<\/p>\n<p><strong>Os atores da reorganiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Consideramos que as tarefas que mencionamos \u2013 balan\u00e7o \/ renova\u00e7\u00e3o program\u00e1tica \/ afirma\u00e7\u00e3o do novo \u2013 n\u00e3o poder\u00e3o ser bem-sucedidas sem atores dispostos a encar\u00e1-las como indispens\u00e1veis \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira. Para isso ser\u00e1 necess\u00e1rio um amplo processo de di\u00e1logo entre aqueles dispostos a enfrentar o momento de defensiva estrat\u00e9gica que os setores populares vivem e dar um novo sentido \u00e0 luta em favor de um amplo instrumento pol\u00edtico que unifique os que lutam contra a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo que os efeitos da ofensiva conservadora tenham sido devastadores, h\u00e1 diversos atores discutindo os rumos da reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira. No PT e na Rede Sustentabilidade h\u00e1 setores dispostos a debater a constru\u00e7\u00e3o de uma nova s\u00edntese pol\u00edtica \u201cp\u00f3s-PT\u201d. Outras organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o partid\u00e1rias tamb\u00e9m iniciam essa discuss\u00e3o. No \u00e2mbito dos movimentos sociais, novos atores j\u00e1 se apresentam como express\u00e3o concreta de um novo ciclo pol\u00edtico que recha\u00e7a como limitadas as promessas do lulismo.<sup>4<\/sup> H\u00e1 ainda uma grande quantidade de intelectuais cr\u00edticos que reivindicam uma profunda reflex\u00e3o sobre os rumos do campo popular e democr\u00e1tico no Brasil, em favor de uma \u201cnova esquerda\u201d que se apresente como tal j\u00e1 a partir das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018. No meio desse turbilh\u00e3o est\u00e1 o PSOL.<\/p>\n<p>O PSOL \u00e9 hoje o polo mais din\u00e2mico da reorganiza\u00e7\u00e3o da esquerda brasileira e o partido mais bem localizado politicamente para enfrentar esse desafio. Isso se deve a algumas raz\u00f5es espec\u00edficas que garantem a ele uma posi\u00e7\u00e3o privilegiada nesse processo. O primeiro e mais evidente \u00e9 o fato do partido ter mantido, ao longo de seus onze anos de vida institucional, uma profunda cr\u00edtica \u00e0 estrat\u00e9gia de concilia\u00e7\u00e3o de classes levada a cabo pelo PT. Por essa raz\u00e3o o PSOL \u00e9 visto como um partido coerente, capaz de arcar com as pesadas consequ\u00eancias de ser oposi\u00e7\u00e3o de esquerda aos governos petistas para conservar suas posi\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, a t\u00e1tica que o partido assumiu durante o impeachment, quando sua milit\u00e2ncia e suas figuras p\u00fablicas se engajaram plenamente na luta contra o golpe, permitiu ao PSOL conectar-se com o mais importante movimento de massas ocorrido no pa\u00eds desde junho de 2013. Para os milhares de lutadores e lutadoras que tomaram as ruas contra o golpe, o PSOL foi visto como um partido capaz de deixar as diferen\u00e7as de lado para unir for\u00e7as em favor de um objetivo maior: a defesa da democracia. Por fim, vivendo toda a sua exist\u00eancia fora da din\u00e2mica do Estado, o partido compreende melhor os novos atores sociais que emergiram na \u00faltima d\u00e9cada. Esses lutadores e lutadoras t\u00eam uma forte empatia com o partido e muitos concorreram pelo PSOL nas elei\u00e7\u00f5es deste ano. Portanto, se o partido tiver a sabedoria pol\u00edtica necess\u00e1ria para se colocar \u00e0 altura do momento hist\u00f3rico, ele pode se tornar a express\u00e3o \u201cnatural\u201d de uma nova s\u00edntese pol\u00edtica para essa nova esquerda que est\u00e1 se formando no Brasil. Mas para isso, ser\u00e1 necess\u00e1rio responder \u00e0s inadi\u00e1veis tarefas que mencionamos neste ensaio.<\/p>\n<p>1 Lincoln Secco. <em>Hist\u00f3ria do PT \u2013 1978-2010<\/em>. Cotia: Ateli\u00ea Editorial, 2011.<\/p>\n<p>2 Termo em italiano que signfica <em>atualiza\u00e7\u00e3o<\/em> ou <em>adapta\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>3 Hannah Arendt. <em>A condi\u00e7\u00e3o humana<\/em>. Rio de Janeiro: Editora Forense Universit\u00e1ria, 2000.<\/p>\n<p>4 Para saber mais sobre o lulismo como express\u00e3o da pol\u00edtica de pacto de classes nos governos petistas ver Andr\u00e9 Singer. <em>Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador<\/em>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2012.<\/p>\n<p>http:\/\/diplomatique.org.br\/acervo.php?id=3269<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juliano Medeiros &#8211; Com um resultado eleitoral perto do catastr\u00f3fico, esquerda brasileira precisa se reinventar a partir de tr\u00eas tarefas: balan\u00e7o cr\u00edtico, renova\u00e7\u00e3o program\u00e1tica e promessa para o futuro O resultado das elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano ensejou, nos \u00faltimos dias, diversas an\u00e1lises sobre os rumos da esquerda. 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