{"id":20476,"date":"2024-04-16T12:02:10","date_gmt":"2024-04-16T15:02:10","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20476"},"modified":"2024-04-14T19:09:36","modified_gmt":"2024-04-14T22:09:36","slug":"marx-e-o-capital-como-uma-divindade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/04\/16\/marx-e-o-capital-como-uma-divindade\/","title":{"rendered":"Marx e o capital como uma divindade"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\" class=\"header_container\">\n<div id=\"header_content_id\" class=\"header_content\">\n<p id=\"mainContentTitle\" class=\"__reading__mode__extracted__title c0011\"><span style=\"font-size: 16px;\"><strong>IAN WRIGHT<\/strong> &#8211; Marx descreve o capital como uma entidade &#8211; um ser com uma mente pr\u00f3pria, operando independente de nossa vontade, uma cogni\u00e7\u00e3o alien\u00edgena que nos controla -, chegando a cham\u00e1-lo de \u201cdeus real\u201d. E se essa proposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o for t\u00e3o absurda quanto pode parecer de imediato?<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<article class=\"normal\">\n<div class=\"post-content\">\n<p class=\"prefixo\">Transcri\u00e7\u00e3o de palestra publicada originalmente no blog <a href=\"https:\/\/ianwrightsite.wordpress.com\/2020\/09\/03\/marx-on-capital-as-a-real-god-2\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Dark Marxism<\/a>. O texto abaixo \u00e9 uma vers\u00e3o revisada da tradu\u00e7\u00e3o publicada originalmente no blog\u00a0<a href=\"https:\/\/realismomarxista.wordpress.com\/2021\/01\/25\/marx-a-respeito-do-capital-como-um-deus-real-de-ian-wright\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Realismo Marxista<\/a>.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p class=\"has-drop-cap\">H\u00e1 um aspecto espec\u00edfico da teoria de Marx sobre o capitalismo que creio n\u00e3o ser suficientemente enfatizada. \u00c9 a vis\u00e3o de Marx de que o capital \u00e9 de fato uma entidade \u2013 um ser, com uma mente pr\u00f3pria, que opera independente de n\u00f3s.<\/p>\n<p>E, \u00e9 claro, quando afirmada de forma t\u00e3o direta, essa proposi\u00e7\u00e3o soa absurda. Como uma grande soma de dinheiro usado para gerar lucros poderia ter uma mente pr\u00f3pria? Isso n\u00e3o faz nenhum sentido.<\/p>\n<p>Meu objetivo aqui \u00e9 explicar precisamente porque essa proposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 absurda, que ela de fato articula a natureza essencial do capital, e que ver o capital como uma entidade \u00e9 necess\u00e1rio para compreender plenamente a realidade social em que nos encontramos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>A entidade alien\u00edgena de Marx<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Marx via o capitalismo como uma forma\u00e7\u00e3o social semiconsciente submissa a leis econ\u00f4micas objetivas que ningu\u00e9m controla de fato. Al\u00e9m disso, Marx repetidamente afirma que o capitalismo reproduz a mistifica\u00e7\u00e3o religiosa que encontramos em est\u00e1gios hist\u00f3ricos anteriores, mas de novas formas \u2013 como no fetiche da mercadoria. Ent\u00e3o, \u00e9 bastante t\u00edpico de Marx empregar met\u00e1foras religiosas ao discutir o capitalismo.<\/p>\n<p>Mas o que escreveu Marx em 1844, ao comentar James Mill, nos diz algo mais. Depois de sua t\u00edpica pontua\u00e7\u00e3o de que a ess\u00eancia do dinheiro \u00e9 uma forma espec\u00edfica de pr\u00e1tica social \u2013 ao inv\u00e9s de uma propriedade de uma coisa material, como o ouro \u2013 ele ent\u00e3o diz que nossa pr\u00e1tica social se tornou uma coisa material, independente \u2013 na pr\u00e1tica uma entidade, um \u201cDeus real\u201d \u2013 que tem poderes causais reais. Al\u00e9m disso, afirma que n\u00f3s somos escravos desse deus, e que seu culto se tornou um fim em si mesmo.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>A ess\u00eancia do dinheiro [\u2026] que \u00e9 a atividade mediadora ou movimento, o ato humano, social pelo qual os produtos do homem se complementam mutuamente, \u00e9\u00a0<\/em><em>estranhada<\/em><em>\u00a0do homem e se torna atributo do dinheiro, uma\u00a0<\/em><em>coisa material<\/em><em>\u00a0externa ao homem. Uma vez que o homem aliena essa atividade mediadora em si, ele \u00e9 ativo aqui apenas como homem que se perdeu e que est\u00e1 desumanizado; a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o entre as coisas, a opera\u00e7\u00e3o do homem sobre elas,\u00a0<\/em><em>se torna a opera\u00e7\u00e3o de uma entidade externa e acima do homem<\/em><em>. Submetido a esse\u00a0<\/em><em>mediador alien\u00edgena<\/em><em>\u00a0\u2013 inv\u00e9s do pr\u00f3prio homem ser mediador para o homem \u2013 ele considera sua vontade, sua atividade e sua rela\u00e7\u00e3o com outros homens como sendo uma for\u00e7a independente dele e dos outros.\u00a0<\/em><em>Sua escravid\u00e3o, portanto, atinge um pico<\/em><em>. Claramente esse mediador agora\u00a0<\/em><em>torna-se um Deus real<\/em><em>, pois o mediador \u00e9 o\u00a0<\/em><em>poder real<\/em><em>\u00a0sobre aquilo que ele media para mim.\u00a0<\/em><em>Seu culto se torna um fim em si mesmo<\/em><em>. (Manuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos de 1844)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>E n\u00f3s devemos enfatizar que Marx fala de um deus \u201creal\u201d, e n\u00e3o de um deus imagin\u00e1rio. Portanto, Marx n\u00e3o est\u00e1 falando de uma mera adora\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e id\u00f3latra do livre empreendimento ou do mercado, mas de uma verdadeira subordina\u00e7\u00e3o material a uma entidade realmente existente.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Ci\u00eancia ou met\u00e1fora?<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">N\u00e3o se trata apenas do fetiche da mercadoria, mas de um verdadeiro pesadelo, digno de\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2020\/09\/levando-o-terror-de-lovecraft-ao-segregacionismo-racial\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Lovecraft<\/a>.<\/p>\n<p>Mas certamente isso n\u00e3o passa de uma hip\u00e9rbole, n\u00e9? Ser\u00e1 que as palavras de Marx sobre a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias manifestando (ou invocando) uma \u201centidade\u201d que \u00e9 um \u201cdeus real\u201d com \u201cpoderes reais\u201d, devem ser uma met\u00e1fora po\u00e9tica, buscando dar impacto dram\u00e1tico ao inv\u00e9s de representar precis\u00e3o cient\u00edfica?<\/p>\n<p>Estamos bem inclinados a interpretar Marx metaforicamente, ao inv\u00e9s de literalmente, pois nossa cultura comercial moderna \u00e9 bastante secular, e n\u00f3s a vivemos no dia-a-dia. A Economia, na maneira como nela acreditamos, \u00e9 um empreendimento fundamentalmente profano, n\u00e3o sagrado. A atividade comercial busca o sucesso mundial, e n\u00e3o a ilumina\u00e7\u00e3o espiritual; e o sucesso depende, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de um dom\u00ednio do mundo social e material, que requer ind\u00fastria, experimenta\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o \u2013 e n\u00e3o a adora\u00e7\u00e3o, subordina\u00e7\u00e3o e f\u00e9 em seres superiores. O capitalismo abra\u00e7a a racionalidade cient\u00edfica e o progresso tecnol\u00f3gico, e com alegria se desvinculou das antigas cren\u00e7as sobre deuses onipotentes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, muitos de n\u00f3s, espero, temos um olhar obstinadamente cient\u00edfico. E, portanto, devemos ser imediatamente c\u00e9ticos a respeito de afirma\u00e7\u00f5es sobre entidades misteriosas que existem \u201cexternamente e acima dos homens\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, essa \u00e9 a quest\u00e3o que quero levantar: o \u201cDeus real\u201d de Marx \u00e9 \u201crealmente real\u201d? Trata-se de uma entidade que realmente existe? Ou \u00e9 uma mera met\u00e1fora, que serve pra ilustrar, ou dramatizar, algumas propriedades da realidade social? Em que medida devemos levar Marx a s\u00e9rio?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que estamos realmente adorando cegamente um deus alien\u00edgena que nos controla?<\/p>\n<p>Para responder essa quest\u00e3o, preciso revisitar alguns aspectos centrais do pensamento de Marx, especificamente sua\u00a0<em>teoria do valor econ\u00f4mico<\/em>, mas a partir de uma nova perspectiva, a da\u00a0<em>teoria do controle\u00a0<\/em>\u2013 e por \u201ccontrole\u201d, me refiro \u00e0 teoria cient\u00edfica e matem\u00e1tica dos\u00a0<em>sistemas de controle<\/em>. Essa nova perspectiva nos ajudar\u00e1 a interpretar o que Marx quer dizer com \u201cDeus real\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>A afinidade de todas as coisas<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Todos n\u00f3s sabemos que partes da realidade podem representar ou medir outras partes da realidade. Uma r\u00e9gua mede o comprimento, um term\u00f4metro mede temperaturas e por a\u00ed vai. Criamos essas ferramentas de medida com um prop\u00f3sito definido.<\/p>\n<p>No entanto, o significado do dinheiro, o que ele pode significar ou representar, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o n\u00edtido. Embora o dinheiro tenha aparecido h\u00e1 mais de dois mil anos, aquilo que ele pode representar como um s\u00edmbolo permanece objeto de profunda controv\u00e9rsia.<\/p>\n<p>Pra ser mais claro, por \u201cdinheiro\u201d, n\u00e3o me refiro \u00e0s moedas e notas f\u00edsicas, mas ao inv\u00e9s disso, \u00e0s quantidades num\u00e9ricas que vemos estampadas em moedas ou impressas nas notas, ou armazenadas em bits nos computadores, e assim por diante. Pra ser mais preciso, deveria dizer \u201cunidades de contagem\u201d ou \u201cunidade cont\u00e1bil\u201d, mas dizer \u201cdinheiro\u201d \u00e9 mais simples, desde de que deixemos claro a que nos referimos.<\/p>\n<p>Marx aborda o significado do dinheiro em seus (reconhecidamente dif\u00edceis) cap\u00edtulos de abertura do primeiro volume d\u2019<em>O Capital<\/em>. Ele aponta que a troca de mercadorias no mercado implica na exist\u00eancia de algo que confere igualdade ou equival\u00eancia entre elas. Por exemplo, se eu vendo 20 metros de linho por 10 libras, e depois gasto minhas 10 libras num casaco novo, ent\u00e3o, indiretamente, 20 metros de linho se tornaram iguais a um casaco, pelo ato da troca.<\/p>\n<p>Se os pre\u00e7os do mercado fossem inteiramente aleat\u00f3rios, n\u00e3o haveria nada mais a dizer pois essa equival\u00eancia seria acidental. Contudo, embora os pre\u00e7os flutuem, eles n\u00e3o s\u00e3o aleat\u00f3rios. H\u00e1 um forte sinal por entre os ru\u00eddos. Tipicamente, voc\u00ea n\u00e3o consegue vender uma caneta e comprar um avi\u00e3o; e n\u00e3o pode trabalhar por um dia e depois usar sua di\u00e1ria para comprar uma mans\u00e3o. H\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, mas as exce\u00e7\u00f5es provam a regra.<\/p>\n<p>Portanto, durante qualquer per\u00edodo de tempo, h\u00e1 pre\u00e7os de mercado bem estabelecidos e definidos que determinam as propor\u00e7\u00f5es nas quais as mercadorias podem ser trocadas, isto \u00e9, igualadas entre si. E todas essas trocas s\u00e3o facilitadas, parafraseando Marx, por um \u201cmediador alien\u00edgena\u201d, que chamamos de dinheiro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>\u201cA magia e a necromancia\u201d das mercadorias<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Um r\u00e1pido mergulho em qualquer manual antropol\u00f3gico logo revela que os seres humanos acolhem as mais diversas e extraordin\u00e1rias cren\u00e7as sobre como o mundo funciona e sobre como dever\u00edamos conduzir nossas vidas di\u00e1rias. O que algumas culturas consideram normal, outras poderiam considerar estranho ou bizarro.<\/p>\n<p>Raramente contemplamos nossa pr\u00f3pria cultura com um olhar antropol\u00f3gico. \u00c9 dif\u00edcil fazer isso. Exige que nos retiremos de nossa estrutura conceitual, e que passemos a olhar para o ordin\u00e1rio e para o j\u00e1 aceito como sendo incomum e question\u00e1vel.<\/p>\n<p>Portanto, tomemos um momento para ver o qu\u00e3o fant\u00e1stica \u00e9 a troca de mercadorias.<\/p>\n<p>Apenas ocultistas dedicados se atreveriam a afirmar que tudo que vemos ao nosso redor, todas as coisas e atividades no mundo, s\u00e3o \u2013 apesar das apar\u00eancias \u2013 todas uma mesma coisa. Que 1kg de caviar \u00e9 \u201co mesmo\u201d que mil pessoas diferentes clicando no mesmo an\u00fancio da internet; que ser palha\u00e7o numa festa infantil \u00e9 \u201co mesmo\u201d que 200 balas de muni\u00e7\u00e3o de espingarda; ou que um m\u00eas de tempo de processamento numa m\u00e1quina de alta pot\u00eancia na nuvem \u00e9 \u201co mesmo\u201d que uma tonelada de batatas. Apenas adeptos altamente treinados poderiam come\u00e7ar a ver a verdade de afinidades m\u00e1gicas t\u00e3o contraintuitivas.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, n\u00f3s mais do que enxergamos a verdade dessas afirma\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00f3s, aberta e regularmente, a alcan\u00e7amos. N\u00f3s manifestamos essas afinidades m\u00e1gicas diariamente. Tratamos quantidades de peixes e ovos, de aten\u00e7\u00e3o humana, performances de palha\u00e7os, balas, tempo de processamento, batatas, e um desconcertante n\u00famero de outras coisas como sendo \u201co mesmo\u201d \u2013 pois, no mercado, elas podem muito bem ser trocadas umas pelas outras, atrav\u00e9s do \u201cmediador alien\u00edgena\u201d que chamamos de dinheiro.<\/p>\n<p>Tradi\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas, de forma bastante tranquila, prop\u00f5em a exist\u00eancia de correspond\u00eancias entre planetas, minerais e o destino humano. No entanto, as opera\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas do nosso mundo comercial moderno \u2013 onde cada coisa, cada atividade, e at\u00e9 mesmo cada evento futuro \u00e9 reduzido, de forma bem sucedida, a quantidades compar\u00e1veis dessa subst\u00e2ncia que chamamos de \u201cdinheiro\u201d \u2013 ultrapassam irresistivelmente, tanto em escala, quanto em ambi\u00e7\u00e3o, as mais delirantes fantasias dos grim\u00f3rios medievais. As trocas no mercado alcan\u00e7am uma afinidade ou semelhan\u00e7a universal entre todas as coisas sob o sol.<\/p>\n<p>\u00c9 por essas raz\u00f5es que Marx escreve a respeito do \u201cmist\u00e9rio das mercadorias\u201d com sua \u201cmagia e necromancia\u201d.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Os mist\u00e9rios econ\u00f4micos<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Sociedades de mercado alcan\u00e7am uma abstra\u00e7\u00e3o conceitual tit\u00e2nica: cada coisa que trocamos entre n\u00f3s \u00e9 estampada com uma \u00fanica propriedade quantitativa que n\u00f3s chamamos de\u00a0<em>valor de troca<\/em>. Mas, de forma misteriosa, ningu\u00e9m, nenhuma consci\u00eancia, \u00e9 respons\u00e1vel por manter tal abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx escreveu: \u201cuma mercadoria aparece \u00e0 primeira vista como algo extremamente \u00f3bvio, uma coisa trivial. Mas sua an\u00e1lise revela que ela \u00e9 uma coisa muito estranha, abundante de sutilezas metaf\u00edsicas e teol\u00f3gicas\u201d. (Marx, O Capital, livro 1).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o temos dois mist\u00e9rios econ\u00f4micos: uma abstra\u00e7\u00e3o social onipresente sem qualquer conte\u00fado \u00f3bvio, e uma abstra\u00e7\u00e3o sem um \u201cabstrator\u201d, algu\u00e9m que realize a abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para decidir se o \u201cDeus real\u201d de Marx \u00e9 verdadeiro ou uma met\u00e1fora, precisamos nos aprofundar sobre o \u201cmediador alien\u00edgena\u201d que \u00e9 o dinheiro, sobre aquilo que o valor de troca representa e sobre o que mant\u00e9m a abstra\u00e7\u00e3o, se \u00e9 que alguma coisa o faz.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O conte\u00fado do valor ou trabalho abstrato<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Comecemos pelo primeiro mist\u00e9rio: o que \u00e9 a abstra\u00e7\u00e3o do valor de troca? O que essas quantidades de dinheiro realmente denotam?<\/p>\n<p>Marx sustenta que o valor de troca se refere uma propriedade comum, especial, compartilhada por todas as mercadorias \u2013 o fato de que s\u00e3o produtos do trabalho. Portanto, caviar e cliques s\u00e3o o mesmo porque, para que possam ser manifestadas como mercadorias no mercado, \u00e9 necess\u00e1rio o sacrif\u00edcio do trabalho de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Penso que o argumento de Marx \u2013 para a proposi\u00e7\u00e3o de que a propriedade especial em comum compartilhada por todas as mercadorias \u00e9 o trabalho \u2013 \u00e9 insatisfat\u00f3rio. Penso que a conclus\u00e3o de Marx est\u00e1 correta, mas que sua argumenta\u00e7\u00e3o para chegar a ela, n\u00e3o. Por\u00e9m, como n\u00e3o quero pegar uma tangente nesse debate, vamos simplesmente aceitar esse argumento como dado, por enquanto.<\/p>\n<p>Marx, portanto, diz que a propriedade comum n\u00e3o pode ser tipos espec\u00edficos de trabalho \u2013 pois pescar caviar, ou escrever programas de an\u00fancios digitais, ou fazer performances de palha\u00e7o, ou fabricar muni\u00e7\u00e3o \u2013 s\u00e3o atividades muito diferentes.<\/p>\n<p>O ato da troca abstrai as peculiaridades individuais de diferentes atividades de trabalho, deixando somente aquilo que \u00e9 comum a todas elas, aquilo que Marx chama de \u201ctrabalho humano em abstrato\u201d, ou\u00a0<em>trabalho abstrato<\/em>. As mercadorias, de acordo com Marx, tem valor econ\u00f4mico \u201capenas porque o trabalho humano em abstrato se encontra incorporado ou materializado nelas\u201d.<\/p>\n<p>Temos de ser cuidadosos com o termo \u201cincorporado\u201d. Marx n\u00e3o quer dizer literalmente que o trabalho abstrato se torna algo inerente ao corpo material da mercadoria. O trabalho abstrato\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2024\/02\/marx-faraday-e-a-objetividade-espectral-do-valor\/\" rel=\"noreferrer noopener\">n\u00e3o \u00e9 uma propriedade f\u00edsica de uma coisa<\/a>. O que ele quer dizer \u00e9 que uma fra\u00e7\u00e3o definida do total de tempo de trabalho da sociedade deve ser usado, ou despendido, para se produzir a mercadoria e traz\u00ea-la ao mercado.<\/p>\n<p>Assim, o trabalho abstrato n\u00e3o \u00e9 trabalho concreto, n\u00e3o \u00e9 um tipo espec\u00edfico de atividade laboral, mas outra coisa, algo mais profundo e mais geral. Como Marx afirma, o trabalho abstrato tem \u201co car\u00e1ter de for\u00e7a de trabalho m\u00e9dia da sociedade\u201d. Portanto, uma boa primeira aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 pensar que o trabalho abstrato denota as for\u00e7as causais do trabalhador t\u00edpico ou m\u00e9dio. N\u00e3o \u00e9 exatamente o correto, mas por enquanto, basta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, de acordo com Marx, a abstra\u00e7\u00e3o tit\u00e2nica alcan\u00e7ada pela troca de mercadorias se refere ao conte\u00fado espec\u00edfico, que \u00e9 uma propriedade do mundo material, que ele chama de trabalho abstrato.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Como medimos o trabalho abstrato?<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Marx, ent\u00e3o, imediatamente faz a pergunta \u00f3bvia: \u201ccomo, ent\u00e3o, a magnitude desse valor \u00e9 medida?\u201d, a qual ele responde, de uma forma aparentemente direta, que ela \u00e9 medida \u201cpela sua dura\u00e7\u00e3o, e o tempo de trabalho, por sua vez, encontra seu padr\u00e3o em semanas, dias e horas\u201d. Ent\u00e3o estamos falando de unidades de tempo.<\/p>\n<p>Podemos supor, portanto, que podemos imediatamente pegar nossos rel\u00f3gios e come\u00e7ar a medir a quantidade de tempo que as pessoas gastam no trabalho e depois correlacionar nossas medidas com os pre\u00e7os que observamos no mercado. Pois se os pre\u00e7os realmente representarem o tempo de trabalho, ent\u00e3o dever\u00edamos, em princ\u00edpio, ser capazes de verificar essa afirma\u00e7\u00e3o cientificamente.<\/p>\n<p>Mas isso seria muito precipitado. Antes que possamos sequer considerar verificar empiricamente a teoria do valor de Marx, precisamos de mais nitidez a respeito do que ela de fato representa.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho certeza do qu\u00e3o deliberado \u00e9 isso, especialmente lendo Marx traduzido, mas vale notar que Marx n\u00e3o pergunta \u201ccomo devemos medir as quantidades de trabalho abstrato?\u201d, e nem a responde dizendo que \u201cpodemos medi-lo pela sua dura\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>E isso por que n\u00e3o somos n\u00f3s que medimos o trabalho abstrato \u2013 \u00e9 outra coisa que o mede.<\/p>\n<p>Essa propriedade da teoria de Marx \u2013 de que o dinheiro se refere ao tempo de trabalho em virtude de nossa atividade coletiva, social e independente do que pensamos dela \u2013 \u00e9 radicalmente diferente da economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica de sua \u00e9poca e tamb\u00e9m da teoria econ\u00f4mica moderna.<\/p>\n<p>A abstra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nossa, pois n\u00e3o \u00e9 a nossa cogni\u00e7\u00e3o quem opera essa abstra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somos n\u00f3s os abstratores. O misterioso abstrator, pelo contr\u00e1rio, toma as medidas de tempo de trabalho e conecta a forma do valor, que \u00e9 o dinheiro, ao seu conte\u00fado, que \u00e9 o trabalho abstrato.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como cientistas, nossa primeira tarefa n\u00e3o \u00e9 come\u00e7ar a medir o tempo de trabalho. \u00c9 compreender o que \u00e9 o abstrator e como ele conecta sua abstra\u00e7\u00e3o ao seu mundo. Precisamos de uma teoria sobre essa entidade abstratora e seus poderes, antes de embarcarmos na verifica\u00e7\u00e3o emp\u00edrica.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Quem ou o que \u00e9 o abstrator?<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Ent\u00e3o temos uma resposta parcial ao primeiro mist\u00e9rio econ\u00f4mico. A abstra\u00e7\u00e3o do valor de troca \u2013 ou de maneira mais simples, o dinheiro \u2013 representa o \u201ctrabalho abstrato\u201d. Ent\u00e3o, nos voltemos ao segundo mist\u00e9rio: quem opera a abstra\u00e7\u00e3o? Quem ou o que \u00e9 o abstrator misterioso?<\/p>\n<p>De fato, Marx j\u00e1 nos disse quem ele \u00e9. \u00c0s vezes, os mist\u00e9rios se escondem \u00e0 plena vista. A grande pista \u00e9 a escolha de Marx para o t\u00edtulo da sua obra magna: o abstrator \u00e9 aquilo que Marx chama de \u201ccapital\u201d.<\/p>\n<p>Mas o termo \u201ccapital\u201d pode enganar. Em primeiro lugar, nos faz pensar sobre largas somas de dinheiro \u2013 uma soma de capital. Mas o capital \u00e9 muito mais que isso. E, em segundo lugar, a teoria econ\u00f4mica moderna reduziu o termo \u201ccapital\u201d a uma descri\u00e7\u00e3o vaga de contagem, um termo que mistura, de forma confusa, equipamentos de capital com grandes somas de dinheiro.<\/p>\n<p>Mas \u201ccapital\u201d, para Marx, \u00e9, em primeiro lugar e acima de tudo, uma pr\u00e1tica social. \u201cCapital\u201d denota uma cole\u00e7\u00e3o de atividades que certas pessoas praticam regularmente, embutidas no interior de um sistema de direitos de propriedade, contratos e poder coercitivo. O capital \u00e9 um circuito, onde uma soma inicial de capital \u00e9 \u201cinvestida\u201d na produ\u00e7\u00e3o e, ent\u00e3o, tipicamente retorna com um incremento de lucro. O capital expande a si mesmo, sempre que pode. Esse circuito \u00e9 mediado n\u00e3o apenas pelo dinheiro, mas tamb\u00e9m pela produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em si, inclusive pela disciplina e explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A linguagem padr\u00e3o de Marx \u2013 de capital, rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, circuitos de acumula\u00e7\u00e3o, etc. \u2013 n\u00e3o evoca totalmente o que de fato acontece, e penso que \u00e9 por isso que ele se vale tantas vezes da linguagem religiosa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao inv\u00e9s de dizer \u201ccapital\u201d, eu tamb\u00e9m direi \u201co controlador\u201d. Pois o capital \u00e9 um sistema de controle, n\u00e3o meramente no sentido pol\u00edtico, mas no sentido mais profundo e cientificamente importante de ser um sistema de controle de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Retroalimenta%C3%A7%C3%A3o\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>retroalimenta\u00e7\u00e3o<\/em><\/a><em>\u00a0negativa<\/em>. O capital \u00e9 literalmente um controlador. Ent\u00e3o, se o capital \u00e9 um controlador, como ele funciona, e o que ele controla?<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Sistemas de controle<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">O progresso cient\u00edfico \u00e0s vezes consiste em organizar um conjunto amplo de fen\u00f4menos diversos sob um \u00fanico princ\u00edpio. A emerg\u00eancia da cibern\u00e9tica, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, foi um evento desse tipo.<\/p>\n<p>A principal ideia da cibern\u00e9tica e a de que muitos tipos diferentes de sistemas \u2013 sejam eles mec\u00e2nicos, f\u00edsicos, biol\u00f3gicos, cognitivos ou sociais \u2013 s\u00e3o tipos de sistemas de controles que demonstram um tipo particular de estrutura causal, o circuito de controle de \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Retroalimenta%C3%A7%C3%A3o\" rel=\"noreferrer noopener\">retroalimenta\u00e7\u00e3o negativa<\/a>\u201d. [1]<\/p>\n<p>E acontece que o controle de retroalimenta\u00e7\u00e3o negativa explica como partes da realidade podem controlar e, portanto, referenciar outras partes da realidade.<\/p>\n<p>Pegue o exemplo mundano de um termostato. Voc\u00ea configura o objetivo do sistema ao ajustar sua configura\u00e7\u00e3o de temperatura. O componente term\u00f4metro do sistema mede a temperatura do ambiente; o termostato compara mecanicamente sua configura\u00e7\u00e3o com a temperatura medida: se a temperatura estiver baixa demais, ent\u00e3o, o termostato emite um sinal para ligar o aquecimento; caso contr\u00e1rio, ele desligaria o aquecimento. Dessa forma, o sistema de aquecimento controla a temperatura do ambiente \u2013 e o faz de forma aut\u00f4noma, sem que voc\u00ea precise toc\u00e1-lo outra vez.<\/p>\n<p>Todos os circuitos de controle de retroalimenta\u00e7\u00e3o negativa t\u00eam quatro componentes principais: 1) um estado-objetivo interno; 2) um sensor que mede alguma propriedade do mundo externo; 3) um comparador que compara a leitura do sensor com o estado-objetivo e 4) um efetuador ou sistema de a\u00e7\u00e3o, que muda o mundo para aproxim\u00e1-lo do estado-objetivo.<\/p>\n<p>A temperatura de nossos corpos \u00e9 controlada por um tipo similar de ciclo biol\u00f3gico de retroalimenta\u00e7\u00e3o, exceto que esse circuito de controle n\u00e3o \u00e9 implementado com base em metal, fios e pl\u00e1stico, mas utilizando nervos, enzimas e gl\u00e2ndulas sudor\u00edparas.<\/p>\n<p>Na verdade, todos os sistemas homeost\u00e1ticos e dirigidos por um objetivo da natureza conformam-se a esse padr\u00e3o causal. Diversos exemplos apenas implementam os componentes desse la\u00e7o de controle de formas diferentes.<\/p>\n<p>E, talvez para a surpresa de alguns, h\u00e1 um circuito de controle muito significativo, se escondendo \u00e0 plena vista, que afeta cada aspecto da vida moderna da forma mais profunda e \u00edntima.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O capital como um sistema de controle de retroalimenta\u00e7\u00e3o negativa<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">A unidade b\u00e1sica de produ\u00e7\u00e3o, onde o capital se encontra com o trabalho para produzir bens e servi\u00e7os, \u00e9 a empresa capitalista. E toda empresa voltada \u00e0 maximiza\u00e7\u00e3o dos lucros \u00e9 propriedade de um capital privado.<\/p>\n<p>Os capitalistas extraem lucros das empresas. Eles s\u00f3 podem gastar uma fra\u00e7\u00e3o dos seus lucros em consumo de objetos de luxo. Isso porque, se os ricos gastassem tudo o que ganham em objetos de luxo, seu capital rapidamente diminuiria e acabaria, em compara\u00e7\u00e3o com os capitais concorrentes que reinvestem seus lucros em mais atividades lucrativas. A renda do lucro precisa ser reinvestida para produzir mais lucro. Essa \u00e9 a diretiva primordial de qualquer um que possua uma soma de dinheiro como capital.<\/p>\n<p>Os donos do capital \u2013 isto \u00e9, os capitalistas \u2013 n\u00e3o podem \u201ccolocar todos os seus ovos num \u00fanico cesto\u201d. Isso seria arriscado demais, pois as empresas podem afundar, ou ativos que armazenam valor podem se depreciar. Ent\u00e3o os capitalistas espalham e minimizam seus riscos ao manter um portf\u00f3lio de investimentos com diferentes perfis de risco.<\/p>\n<p>Um portf\u00f3lio t\u00edpico consiste em dinheiro depositado em diferentes moedas estrangeiras, t\u00edtulos de d\u00edvida governamentais, municipais e corporativos, a\u00e7\u00f5es em diferentes companhias, desde \u201c<em>startups<\/em>\u201d arriscadas at\u00e9 a\u00e7\u00f5es de valoriza\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvia e segura, e os mais diversos tipos de ativos produtores de rendas, como terrenos e casas. Basicamente, qualquer coisa que possa render um retorno maior do que a m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Cada capital individual deve buscar maximizar o retorno sobre o seu portf\u00f3lio. Se ele falha nisso, vai diminuir seu tamanho relativo aos outros capitais e eventualmente deixar\u00e1 de ser capital.<\/p>\n<p>E \u00e9 bem aqui que encontramos novamente a estrutura causal do sistema de controle de retroalimenta\u00e7\u00e3o. Um capital individual \u2013 quando o consideramos como sendo uma pr\u00e1tica social mediada por uma grande soma de dinheiro privada \u2013 tamb\u00e9m tem o seu estado-objetivo, entradas sensoriais, tomada de decis\u00e3o e capacidade de agir sobre o mundo em que est\u00e1 embutido.<\/p>\n<p>Tomemos cada um desses elementos por vez. 1) O objetivo de um capital individual \u00e9 maximizar o retorno m\u00e9dio de cada d\u00f3lar (ou real) investido. 2) As \u201centradas sensoriais\u201d s\u00e3o as diferentes taxas de lucro ganhas atrav\u00e9s do portf\u00f3lio. 3) O capitalista, ou os experts financeiros por ele empregados, comparam as diferentes taxas de lucro e 4) o ciclo de retroalimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 fechado por a\u00e7\u00f5es que retiram o capital de investimentos malsucedidos e injetam capital em investimentos de alta performance.<\/p>\n<p>Esse circuito de controle se manifesta numa busca insaci\u00e1vel e infinita por altos retornos.<\/p>\n<p>O capital n\u00e3o se importa com como seu dinheiro \u00e9 realmente utilizado na produ\u00e7\u00e3o. Ele abstrai inteiramente de todas as atividades concretas. A \u00fanica coisa que ele pode sentir, comparar e usar \u00e9 o valor abstrato.<\/p>\n<p>Portanto, os altos escal\u00f5es de comando da economia global consistem de um conjunto enorme de capitais individuais, cada um deles numa busca feroz e desesperada por lucros, reagindo a sinais de retornos diferenciais recebidos por\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gavinha\" rel=\"noreferrer noopener\">suas gavinhas<\/a>\u00a0que se estendem at\u00e9 alcan\u00e7ar cada atividade produtiva sob seu comando, injetando e retirando capital continuamente por entre diferentes setores industriais e regi\u00f5es geogr\u00e1ficas. A totalidade dos recursos materiais mundiais, incluindo o tempo de trabalho de bilh\u00f5es de pessoas, \u00e9 repetidamente arranjada e rearranjada de atividades de baixo retorno para as de alto retorno. Num espa\u00e7o de meses, setores industriais inteiros podem ser erguidos, realocados ou derrubados.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Capitalistas s\u00e3o indiv\u00edduos possu\u00eddos, meros componentes da m\u00e1quina do capital<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">E quanto \u00e0s pessoas individuais que participam dessa pr\u00e1tica social? Certamente suas consci\u00eancias individuais, suas ideias e seu comportamento importam e fazem a diferen\u00e7a, certo?<\/p>\n<p>Em certa medida, \u00e9 claro que sim. S\u00f3 que indiv\u00edduos v\u00eam e v\u00e3o, enquanto os capitais \u201cvivem\u201d por muito mais tempo que qualquer indiv\u00edduo humano. As pessoas controladas pelo capital \u2013 isto \u00e9, os trabalhadores que fornecem trabalho \u00e0s empresas, e\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2022\/03\/01\/comunismo-e-computadores-uma-alternativa-democratica-para-o-seculo-xxi\/\" rel=\"noreferrer noopener\">os capitalistas que os exploram e extraem lucros<\/a>\u00a0\u2013 s\u00e3o meros componentes substitu\u00edveis no la\u00e7o de controle, mecanicamente operando pap\u00e9is funcionais j\u00e1 prescritos.<\/p>\n<p>Por exemplo, n\u2019<em>O Capital<\/em>, Marx escreve que:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>[\u2026] para a economia cl\u00e1ssica, o proletariado \u00e9 apenas uma m\u00e1quina para a produ\u00e7\u00e3o de mais-valor; por outro lado, o capitalista \u00e9, aos seus olhos, apenas uma m\u00e1quina de convers\u00e3o desse mais-valor em capital adicional.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Comumente dizemos que os capitalistas possuem capital, mas \u00e9 mais preciso dizer que \u00e9 o capital que os possui. Os capitalistas s\u00e3o a face humana de uma intelig\u00eancia inumana com uma l\u00f3gica e objetivos pr\u00f3prios.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Na sociedade burguesa, o capital \u00e9 independente e tem individualidade, enquanto a pessoa vivente \u00e9 dependente e n\u00e3o tem individualidade. (Manifesto Comunista)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O poder demon\u00edaco do capital<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Capitais maiores t\u00eam a vantagem de portf\u00f3lios maiores, que espalham e minimizam os riscos. Como consequ\u00eancia, o capital\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2021\/07\/13\/mercado-abordagem-probabilistica-e-equilibrio-estatistico\/\" rel=\"noreferrer noopener\">tende a se concentrar em poucas m\u00e3os<\/a>. Ent\u00e3o, encontramos um grande n\u00famero de pequenos capitais e um pequenino n\u00famero de capitais de propor\u00e7\u00f5es astron\u00f4micas, que obt\u00eam lucros gigantes, maiores que o PIB de v\u00e1rios Estados-na\u00e7\u00e3o. A escala e poder de alguns capitais s\u00e3o verdadeiramente tit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>E esses tit\u00e3s est\u00e3o t\u00e3o no controle que\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2018\/05\/30\/defeitos-estruturais-de-controle-no-sistema-do-capital\/\" rel=\"noreferrer noopener\">est\u00e3o fora de controle<\/a>. Novamente, outra cita\u00e7\u00e3o do Manifesto Comunista:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>A sociedade burguesa moderna, com suas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, de troca e de propriedade, uma sociedade que conjurou meios de produ\u00e7\u00e3o e troca t\u00e3o gigantescos, \u00e9 como um feiticeiro que n\u00e3o \u00e9 mais capaz de controlar as for\u00e7as do mundo inferior a quem ele invocou com seus feiti\u00e7os.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Na mitologia, dem\u00f4nios s\u00e3o entidades an\u00e1rquicas e fora de controle que nos causam danos, nos atormentando ou possuindo. N\u00e3o apenas o poder do capital \u00e9 tit\u00e2nico, ele \u00e9 demon\u00edaco. Vamos considerar brevemente alguns exemplos.<\/p>\n<p>Todo dia, milh\u00f5es de trabalhadores ao redor do mundo n\u00e3o t\u00eam escolha a n\u00e3o ser sacrificar seu tempo e vitalidade, para produzir novos lucros para os controladores aut\u00f4nomos. N\u00e3o importa qu\u00e3o duramente trabalhemos, por quanto tempo ou com quanta efici\u00eancia, o imperativo do trabalho permanece.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Porque cada inova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que economize tempo de trabalho assume a forma de lucro, que \u00e9 ent\u00e3o capturado pelos capitais individuais, e imediatamente reinjetados no mundo material para animar novas atividades para o lucro futuro. Essa \u00e9 a raz\u00e3o para que, apesar do enorme avan\u00e7o na automa\u00e7\u00e3o, a jornada de trabalho permane\u00e7a com a mesma dura\u00e7\u00e3o h\u00e1 d\u00e9cadas e d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Vejamos outro exemplo: a l\u00f3gica do capital demanda extra\u00e7\u00e3o m\u00e1xima dos lucros das empresas, e isso significa minimizar os sal\u00e1rios. Aqueles que s\u00e3o possu\u00eddos pelo capital vivem uma exist\u00eancia exaltada; mas os despossu\u00eddos do mundo devem alimentar, vestir e manter um lar com um sal\u00e1rio m\u00e9dio de cerca de 7 libras por dia (R$44,57 em 13\/03\/2024).<\/p>\n<p>Mais um exemplo: \u00e9 melhor ser explorado do que n\u00e3o ser. Estamos sujeitos aos caprichos do ciclo de neg\u00f3cios e das crises peri\u00f3dicas de acumula\u00e7\u00e3o. As recess\u00f5es regularmente jogam grandes n\u00fameros de pessoas no desemprego, sem nenhuma justa causa. De repente, as contas n\u00e3o podem ser pagas. Fam\u00edlias s\u00e3o despejadas, como aconteceu nos EUA durante a crise imobili\u00e1ria de 2008, e novamente durante a crise do covid.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Porque os capitais individuais s\u00e3o quase cegos. Eles s\u00f3 enxergam retornos diferenciais nos seus portf\u00f3lios \u2013 e os retornos podem ser bons ainda que o desemprego esteja alto, ou que a mis\u00e9ria humana se fa\u00e7a ver pelas ruas. O capital n\u00e3o se importa.<\/p>\n<p>Outro exemplo: o capital lida com valor abstrato, e as coisas que n\u00e3o s\u00e3o propriedade, que n\u00e3o s\u00e3o compradas e vendidas, portanto, n\u00e3o tem para eles qualquer valor. Assim, a riqueza material da natureza \u2013 as terras, os oceanos, a atmosfera \u2013 \u00e9 implacavelmente pilhada sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com as consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>O capital destr\u00f3i a n\u00f3s e \u00e0 natureza. A produ\u00e7\u00e3o e o lucro infinitos n\u00e3o podem parar, pois cada capital individual deve competir para sobreviver. Marx resumiu a diretiva primordial do capital como sendo:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Acumulai, acumulai! [\u2026] reconvertei em capital a maior parte poss\u00edvel do mais-valor! A acumula\u00e7\u00e3o pela acumula\u00e7\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o pela produ\u00e7\u00e3o: nessa f\u00f3rmula, a economia cl\u00e1ssica expressou a voca\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do per\u00edodo burgu\u00eas. (O Capital, cap\u00edtulo 22, se\u00e7\u00e3o 3)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Ent\u00e3o, todos os circuitos de controle aut\u00f4nomos t\u00eam o objetivo \u00fanico de extrair lucro das atividades do mundo. Se uma atividade falha em satisfazer esse objetivo, o controlador retira seu capital e a atividade cessa.<\/p>\n<p>Portanto, no \u00e1pice da economia, temos uma cole\u00e7\u00e3o competitiva de controladores id\u00eanticos \u2013 portadores de uma intelig\u00eancia at\u00e1vica, de baixo n\u00edvel, demon\u00edaca \u2013 que injeta e remove uma subst\u00e2ncia social que parece possuir o poder m\u00e1gico da anima\u00e7\u00e3o, de trazer coisas \u00e0 vida, da cria\u00e7\u00e3o; mas que, tamb\u00e9m, parece possuir o poder da aniquila\u00e7\u00e3o, da asfixia, de dar cabo \u00e0s coisas, de destru\u00ed-las.<\/p>\n<p>N\u00f3s, definitivamente, n\u00e3o estamos no controle; mas outra coisa, definitivamente, est\u00e1.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Animismo<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Ent\u00e3o, do que estamos falando, agora?<\/p>\n<p>Estamos falando de um novo tipo de sistema de controle supraindividual que emergiu, de forma espont\u00e2nea, a partir do nosso pr\u00f3prio interc\u00e2mbio social e que, ent\u00e3o \u2013 de uma forma bastante real \u2013 assumiu uma vida pr\u00f3pria, deu meia volta e passou a nos controlar.<\/p>\n<p>O capital, num sentido cient\u00edfico, e n\u00e3o metaf\u00f3rico, \u00e9 um sistema de controle; e em \u00faltima inst\u00e2ncia \u00e9 o capital, enquanto sistema de controle, quem cria e mant\u00e9m a abstra\u00e7\u00e3o que chamamos de valor de troca. O capital \u00e9 o abstrator.<\/p>\n<p>Entretanto, antes de explicar como isso acontece, precisamos de um momento para explorar a rela\u00e7\u00e3o entre sistemas de controle e formas primitivas de cogni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os seres humanos primitivos estavam \u00e0 merc\u00ea da natureza. A qualquer momento, a colheita poderia ser arruinada, ou doen\u00e7as e acidentes podiam acontecer. As primeiras formas de estruturas te\u00f3ricas para explicar os caprichos das for\u00e7as da natureza parecem ser os animismos.<\/p>\n<p>O animismo \u00e9 a cren\u00e7a de que todos os fen\u00f4menos naturais \u2013 tais como o clima, a geografia, as plantas, \u00e1rvores, animais, etc., \u2013 ao fim e ao cabo s\u00e3o controlados por uma entidade viva aut\u00f4noma, com ag\u00eancia antropom\u00f3rfica. Os primeiros seres humanos acreditavam que diferentes conjuntos de fen\u00f4menos emp\u00edricos eram controlados por esp\u00edritos conscientes, que possu\u00edam uma mente pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Engels nos d\u00e1 um breve rascunho da hist\u00f3ria da religi\u00e3o na terceira parte do\u00a0<em>Anti-D\u00fchring<\/em>, que come\u00e7a com uma discuss\u00e3o sobre o animismo. Os deuses do clima, do mar, do sol, da lua, deuses das doen\u00e7as e da cura, etc., s\u00e3o atores ocultos, ou a causa final, de eventos incontrol\u00e1veis.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea acredita que deuses s\u00e3o m\u00e3os invis\u00edveis que afetam sua vida, ent\u00e3o, faz total sentido apelar a eles \u2013 rezar, fazer oferendas, construir templos de adora\u00e7\u00e3o. O poder e a majestade dos deuses antigos era a express\u00e3o perversa da impot\u00eancia e da mis\u00e9ria dos humanos antigos.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O \u201cDeus Real\u201d: para al\u00e9m do fetiche da mercadoria<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Hoje, podemos contar com um n\u00edvel muito maior de controle sobre nossas vidas em compara\u00e7\u00e3o com os nossos ancestrais. Esse progresso material, por si s\u00f3, tem removido gradualmente a base material de nossos sistemas de cren\u00e7as animistas.<\/p>\n<p>Muitos dos poderes causais dos deuses e dem\u00f4nios antigos t\u00eam sido, um a um, explicados pela ci\u00eancia. Portanto, eles perderam seus poderes. Ao inv\u00e9s de um balaio de gato de deuses pag\u00e3os, com poderes e dom\u00ednios especiais, temos campos cient\u00edficos com suas pr\u00f3prias teorias e terminologias t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>\u00c9 claro, a religi\u00e3o animista persiste na sociedade capitalista, mas \u00e9 algo tipicamente bem distante do convencional. Como Engels explica, no seu r\u00e1pido esquema:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Num est\u00e1gio ainda posterior do desenvolvimento, todos os atributos naturais e sociais dos muitos deuses s\u00e3o transferidos para um s\u00f3 Deus onipotente, que, por sua vez, \u00e9 apenas o reflexo do ser humano abstrato. (Anti-D\u00fchring, Se\u00e7\u00e3o 3, Parte V).<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Portanto, as principais religi\u00f5es modernas, tais com o Isl\u00e3 e o Cristianismo, falam de um deus que a tudo rege, que \u00e9 distante e abstrato, e diferente das divindades animistas da antiguidade, tipicamente n\u00e3o interfere nos fen\u00f4menos do dia-a-dia.<\/p>\n<p>Engels, ent\u00e3o, se volta \u00e0 sociedade moderna, e faz a importante afirma\u00e7\u00e3o de que o capitalismo n\u00e3o abole as condi\u00e7\u00f5es materiais que d\u00e3o origem \u00e0s cren\u00e7as religiosas:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>[\u2026] na sociedade burguesa atual, as pessoas s\u00e3o dominadas pelas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas criadas por elas mesmas, [\u2026] como se fossem uma for\u00e7a alien\u00edgena. Portanto, o fundamento factual da atividade de reflex\u00e3o religiosa perdura e, junto com ele, o pr\u00f3prio reflexo religioso. [\u2026] Ainda vale o ad\u00e1gio: o homem prop\u00f5e, Deus (isto \u00e9, a domina\u00e7\u00e3o alien\u00edgena exercida pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista) disp\u00f5e. (Ibid.)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Precisamente porque o capital est\u00e1 no controle, e n\u00e3o as pessoas, o \u201cfundamento factual\u201d da \u201creflex\u00e3o religiosa\u201d continua a existir.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que, no primeiro cap\u00edtulo d\u2019<em>O Capital<\/em>, Marx explica como a troca mercantil necessariamente gera o fetichismo da mercadoria \u2013 que \u00e9 a ilus\u00e3o de que o valor econ\u00f4mico \u00e9 uma propriedade natural ou material das mercadorias. Ent\u00e3o, objetos inanimados \u2013 especialmente formas do dinheiro, como o ouro \u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2024\/02\/marx-faraday-e-a-objetividade-espectral-do-valor\/\" rel=\"noreferrer noopener\">aparentam, de forma fetichizada, ter poderes especiais em si mesmos<\/a>.<\/p>\n<p>Mas o que Marx diz sobre um \u201cDeus\u201d a quem nos \u201cpropomos\u201d e que \u201cdisp\u00f5e\u201d de n\u00f3s, nos leva al\u00e9m do fetiche da mercadoria. Marx aponta para o fato das leis econ\u00f4micas terem poderes aparentemente divinos que operam independentemente de n\u00f3s, que nos controlam e nos dominam, como for\u00e7as da natureza.<\/p>\n<p>Estaria Marx, portanto, cometendo uma fal\u00e1cia animista ao sugerir que o capital, como entidade independente, \u00e9 um \u201cDeus real\u201d com \u201cpoderes reais\u201d, que tem uma mente pr\u00f3pria?<\/p>\n<p>Uma vez que entendemos que o capital \u00e9 um sistema de controle aut\u00f4nomo, ent\u00e3o, a resposta \u00e9, simplesmente, \u201cn\u00e3o\u201d. Um circuito de controle de retroalimenta\u00e7\u00e3o negativa tem todos os elementos b\u00e1sicos da cogni\u00e7\u00e3o: ele, na pr\u00e1tica, sente, decide e age. Nesse ponto um tipo qualificado de animismo seria inteiramente apropriado.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o ciclo do sentir, pensar e agir de um capital individual \u00e9 bem diferente daquele de um ser humano. N\u00e3o obstante, ambos buscam objetivos distintos e definidos, e ambos t\u00eam o poder de fazer as coisas acontecerem. Um sistema de controle consiste de neur\u00f4nios, m\u00fasculos e \u00f3rg\u00e3os; outro consiste de pr\u00e1ticas sociais, sistemas de cren\u00e7as e a troca de uma subst\u00e2ncia de valor.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, falando de forma animista, um esp\u00edrito, ou divindade, de fato, controla o capitalismo. Esse deus \u00e9 capaz de se dividir em peda\u00e7os, e aparecer em m\u00faltiplos tempos, em m\u00faltiplos lugares. Ele pode se combinar com outras vers\u00f5es de si mesmo, para agregar-se em encarna\u00e7\u00f5es maiores e mais poderosas. Ele consegue possuir os seres humanos e control\u00e1-los, os for\u00e7ando a trabalhar ou a acumular. Essa entidade dirige a atividade social ao dar ou tomar sua subst\u00e2ncia m\u00e1gica, que n\u00f3s chamamos de valor. N\u00f3s nos sacrificamos diante dela, tentamos agrad\u00e1-la e esperamos pela sua b\u00ean\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas essas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o cientificamente precisas. N\u00e3o se tratam de met\u00e1foras. De fato, adotar uma teoria mais animista do capitalismo moderno, contraintuitivamente, constituiria num progresso cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Vamos agora adotar esse ponto de vista animista e investigar sobre o qu\u00ea o capital, como uma entidade divina, tende a pensar. Quais os conte\u00fados da cogni\u00e7\u00e3o do capital?<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O que o Deus real controla?<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">\u00c0s vezes, \u00e9 \u00f3bvio o que um sistema de controle espec\u00edfico controla, pois n\u00f3s o projetamos. Por exemplo, sabemos que um termostato controla a temperatura de uma sala. Consequentemente, os sinais el\u00e9tricos de controle que fluem dentro do termostato se referem \u00e0 temperatura.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a vasta maioria dos sistemas de controle n\u00e3o foram desenhados pelas pessoas. A natureza \u00e9 cheia deles, desde simples mecanismos homeost\u00e1ticos at\u00e9 c\u00e9rebros animais incrivelmente complexos. Esses sistemas evolu\u00edram sem um projetista e, portanto, temos de nos esfor\u00e7ar mais para determinar o que eles controlam e o que suas representa\u00e7\u00f5es internas podem, ou n\u00e3o, representar do seu ambiente.<\/p>\n<p>Pularei os detalhes da teoria cient\u00edfica que determina o que os controladores controlam de fato. N\u00e3o \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o simples (ver mais detalhes no artigo\u00a0<em>Loop-Closing Semantics<\/em>, dispon\u00edvel em SSRN:\u00a0<a href=\"https:\/\/ssrn.com\/abstract=2262133\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/ssrn.com\/abstract=2262133<\/a>). Penso que essa complexidade explica parcialmente por que a argumenta\u00e7\u00e3o de Marx de como o trabalho abstrato \u00e9 a subst\u00e2ncia do valor, nos primeiros cap\u00edtulos d\u2019<em>O Capital<\/em>\u00a0\u2013 cap\u00edtulos que, sabemos, Marx escreveu e reescreveu diversas vezes e que, brincava Engels, carregavam as marcas dos dolorosos fur\u00fanculos de Marx \u2013 n\u00e3o \u00e9 inteiramente satisfat\u00f3ria. Marx trope\u00e7ou num grande problema que n\u00e3o podia ser totalmente solucionado com as ferramentas conceituais do seu tempo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao inv\u00e9s de descer por esse buraco do coelho, vou, pelo contr\u00e1rio, pular direto \u00e0 conclus\u00e3o e simplesmente dizer o que o capital, como sistema de controle, de fato controla.<\/p>\n<p>J\u00e1 sabemos que os capitais, grandes ou pequenos, est\u00e3o intimamente conectados ao processo de produ\u00e7\u00e3o. A empresa capitalista empresta capital para comprar insumos e meios de produ\u00e7\u00e3o e contratar trabalhadores; os trabalhadores fornecem trabalho concreto que produz valores de uso para venda no mercado.<\/p>\n<p>O controlador julga todas as atividades concretas diversas ocorrendo em seu portf\u00f3lio da mesma maneira: quais atividades rendem lucros acima da m\u00e9dia e quais n\u00e3o? O controlador recompensa empresas que obt\u00eam lucros comparativamente altos com novas inje\u00e7\u00f5es de investimentos; mas pune as empresas que obt\u00eam lucros comparativamente baixos, ou perdas, ao retirar seu capital. Essas recompensas e puni\u00e7\u00f5es monet\u00e1rias fluem para baixo, atrav\u00e9s das empresas, at\u00e9 o mercado de trabalho, e recompensam o trabalho concreto com o pagamento de sal\u00e1rios ou o punem com a sua retirada e com o desemprego.<\/p>\n<p>Num sentido bem real, o capital quer tipos espec\u00edficos de atividades concretas e n\u00e3o quer outras. Esses tipos de atividades que ele quer s\u00e3o aquelas que geram lucros acima da m\u00e9dia. O capital est\u00e1, portanto, nos controlando, e ele controla como gastamos o nosso tempo.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Trabalho abstrato: o tipo de trabalho que o capital deseja<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Portanto, o capital quer atividades laborais que gerem lucros. Simplificando, podemos identificar duas propriedades essenciais que o trabalho concreto deve possuir para gerar lucro.<\/p>\n<p>Primeiro, deve ser \u00fatil para outros, isto \u00e9, deve produzir mercadorias que possam ser vendidas no mercado. Ningu\u00e9m compraria um casaco de tr\u00eas mangas.<\/p>\n<p>Segundo, deve ter efici\u00eancia acima da m\u00e9dia; em outras palavras, uma empresa lucra mais se usa menos tempo de trabalho que seus competidores que produzem a mesma mercadoria.<\/p>\n<p>Eis porque, logo ap\u00f3s Marx introduzir o conceito de trabalho abstrato, ele imediatamente aponta que apenas o trabalho socialmente necess\u00e1rio e \u00fatil conta como trabalho abstrato.<\/p>\n<p>O capital n\u00e3o quer trabalhadores\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/12\/trabalhar-menos-e-viver-melhor\/\" rel=\"noreferrer noopener\">perdendo tempo<\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/03\/viver-nao-apenas-sobreviver\/\" rel=\"noreferrer noopener\">cheirando flores<\/a>\u00a0com sua fam\u00edlia e amigos: essa atividade n\u00e3o gera valores de uso vend\u00e1veis. O capital tamb\u00e9m n\u00e3o quer trabalhadores trabalhando levemente, folgando, ou doentes. Folgar ou adoecer n\u00e3o s\u00e3o eficientes para a produ\u00e7a\u00f5. O capital, se tivesse tudo o que quer de n\u00f3s, nos faria passar todo o tempo trabalhando na empresa na intensidade mais alta poss\u00edvel, continuamente batalhando para superar outros trabalhadores no mercado de trabalho. \u00c9 esse o tipo de comportamento que o capital deseja.<\/p>\n<p>Assim, o capital controla o trabalho concreto, as atividades laborais reais da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora, em todas as suas manifesta\u00e7\u00f5es diversas. E o capital controla o tempo de trabalho real, o tempo real no rel\u00f3gio, das pessoas reais que est\u00e3o fazendo coisas reais. \u00c9 o pr\u00f3prio capital quem segura um cron\u00f4metro metaf\u00f3rico em sua m\u00e3o, medindo, registrando, julgando e condenando; sempre de olho no menor sinal de moleza ou insubordina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o objetivo do capital \u00e9 converter o trabalho concreto em trabalho abstrato, no tipo de trabalho que tanto se encaixe na divis\u00e3o do trabalho, a fim de ser trocado por outros trabalhos, quanto se encaixe no tipo de trabalho que se sacrifique por completo para o capital, se entregue em oferenda, a fim de render lucros \u00e0 empresa capitalista e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, aos capitais dominantes que est\u00e3o no controle, por tr\u00e1s dela.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o \u201ctrabalho abstrato\u201d \u00e9 manifestado, \u00e9 trazido \u00e0 realidade, pelo pr\u00f3prio capital.\u00a0<em>\u201cMaximizar os lucros\u201d \u00e9 o mesmo que o processo de maximizar a manifesta\u00e7\u00e3o do trabalho abstrato a partir do trabalho concreto<\/em>.<\/p>\n<p>Por isso Marx afirma que s\u00f3 o trabalho abstrato \u201ccria valor\u201d.\u00a0 O trabalho concreto pode ou n\u00e3o criar valor. Se n\u00e3o criar, ele n\u00e3o \u00e9 trabalho abstrato e o capital como controlador rapidamente age para erradicar sua exist\u00eancia, ao arrancar capital das empresas que o empregam.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O capital como uma egr\u00e9gora<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">O capital \u00e9 um controlar que emprega uma forma de valor \u2013 o dinheiro \u2013 para controlar o conte\u00fado do valor \u2013 que \u00e9 o nosso tempo de trabalho. A forma e o conte\u00fado s\u00e3o unidos, se vinculam semanticamente, numa rela\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o ao referente, pelas regularidades constantes, dignas de uma lei, que s\u00e3o instanciadas pela produ\u00e7\u00e3o generalizada de mercadorias.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 vimos, sistemas de controle instanciam os elementos b\u00e1sicos da cogni\u00e7\u00e3o. De fato, eles t\u00eam representa\u00e7\u00f5es internas que se referem ao mundo em que agem. Consequentemente,\u00a0<em>a teoria do valor de Marx \u00e9, fundamentalmente, uma teoria sobre uma cogni\u00e7\u00e3o alien\u00edgena que nos controla<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se admirar que ele fale da necromancia da produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, pois apenas as tradi\u00e7\u00f5es religiosas, m\u00e1gicas e ocultistas em nossa hist\u00f3ria t\u00eam conceitos adequados para expressar nossa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O conceito ocultista de uma egr\u00e9gora \u00e9 \u00fatil aqui. Uma egr\u00e9gora \u00e9 uma entidade n\u00e3o-f\u00edsica que existe em virtude das atividades rituais coletivas de um grupo, mas que ainda assim opera de maneira aut\u00f4noma, de acordo com sua pr\u00f3pria l\u00f3gica interna, para influenciar materialmente e controlar as atividades do grupo. O grupo cria a egr\u00e9gora e a egr\u00e9gora cria o grupo, num ciclo de retroalimenta\u00e7\u00e3o que se autorrefor\u00e7a.<\/p>\n<p>Marx, nos seus\u00a0<em>Manuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos de 1844<\/em>, se refere explicitamente a essa rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre um deus e seu povo, entre um culto e sua egr\u00e9gora.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Herdamos certamente o conceito de trabalho alienado [\u2026] como resultado do movimento da propriedade privada. Mas evidencia-se na an\u00e1lise desse conceito que,\u00a0<\/em><em>se a propriedade privada aparece como fundamento<\/em><em>, como raz\u00e3o do trabalho alienado,\u00a0<\/em><em>ela \u00e9 antes uma consequ\u00eancia do mesmo<\/em><em>, assim como tamb\u00e9m os deuses s\u00e3o, originariamente, n\u00e3o a causa, mas o efeito do erro do entendimento humano.\u00a0<\/em><em>Mais tarde esta rela\u00e7\u00e3o se transforma em a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>As atividades rituais dos primeiros cultos capitalistas foram t\u00e3o bem-sucedidas materialmente que rapidamente\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2018\/05\/30\/defeitos-estruturais-de-controle-no-sistema-do-capital\/\" rel=\"noreferrer noopener\">entraram em met\u00e1stase<\/a>\u00a0e, em poucos s\u00e9culos, engoliram o mundo. O que \u00e9 universal se torna um plano de fundo despercebido. Ent\u00e3o, a egr\u00e9gora, na nossa sociedade, \u00e9 dif\u00edcil de ser enxergada, ela se esconde \u00e0 plena vista. Nos referimos a ela, \u00e9 claro, mas de forma obl\u00edqua, usando nomes enfadonhos e sopor\u00edferos como \u201ca economia\u201d, \u201cos mercados\u201d, ou \u201ccapital\u201d. Mas Marx apontou para um nome melhor, feito para nos acordar de nosso sono: um Deus real, com poderes reais.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma cogni\u00e7\u00e3o alien\u00edgena que vincula a forma do valor ao conte\u00fado do trabalho<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Ent\u00e3o, o capital \u00e9 uma egr\u00e9gora. N\u00e3o metaf\u00f3rica ou ironicamente, mas de verdade. O capital \u00e9 um ser, uma entidade aut\u00f4noma, com pensamentos primitivos sobre n\u00f3s. O dinheiro \u00e9 como ele nos mede, e com o dinheiro ele nos controla. O capital \u00e9 uma cogni\u00e7\u00e3o alien\u00edgena que age no mundo para amarrar a forma do valor ao seu conte\u00fado.<\/p>\n<p>Agora, sabemos o que \u00e9 o abstrator. E, agora que temos uma compreens\u00e3o mais n\u00edtida do n\u00facleo estrutural da teoria do valor de Marx, fica f\u00e1cil identificar m\u00e1s interpreta\u00e7\u00f5es dela.<\/p>\n<p>H\u00e1 m\u00e1s interpreta\u00e7\u00f5es que enfatizam o conte\u00fado em detrimento da forma. A teoria de Marx n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, um materialismo ing\u00eanuo como o da economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica, ou das interpreta\u00e7\u00f5es sraffianas modernas de Marx, que postulam uma causalidade unilateral do tempo de trabalho concreto sobre os pre\u00e7os monet\u00e1rios. Ao inv\u00e9s disso, devemos pensar sobre circuitos de retroalimenta\u00e7\u00e3o, sobre causalidades bilaterais, partindo do conte\u00fado \u00e0 forma e vice-versa.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outras m\u00e1s interpreta\u00e7\u00f5es que enfatizam a forma em detrimento do conte\u00fado.<\/p>\n<p>Claramente, a teoria de Marx \u00e9 uma teoria objetiva do valor. Apesar das pretens\u00f5es das teorias da utilidade subjetiva do valor, n\u00e3o podemos coletivamente fazer com que avi\u00f5es sejam mais baratos que canetas atrav\u00e9s do desejo. N\u00e3o somos o controlador dominante, somos os controlados. O consumidor individual n\u00e3o \u00e9 um rei.<\/p>\n<p>Contudo, variantes mais sofisticadas do idealismo tamb\u00e9m interpretam mal a teoria de Marx. Alguns marxistas pensam que o capital sonha com o trabalho abstrato, que o trabalho abstrato \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do sistema capitalista, que n\u00e3o se refere de verdade a algo que existe independente na realidade objetiva. Isso reduz a teoria de Marx a uma par\u00f3dia p\u00f3s-moderna de formas fantasmag\u00f3ricas e ideais.<\/p>\n<p>Nessas m\u00e1s-interpreta\u00e7\u00f5es, a forma n\u00e3o tem conte\u00fado. Ent\u00e3o, o dinheiro n\u00e3o se refere a nenhuma propriedade existente independente dele. A forma cria um conte\u00fado ilus\u00f3rio. Nessa vis\u00e3o, o trabalho abstrato pode muito bem ter efeitos reais, da mesma maneira que acreditar no Papai Noel faz as pessoas lhe oferecerem leite com biscoitos, mas ele n\u00e3o existe de verdade.<\/p>\n<p>Pode parecer sofisticado, mas em \u00faltima inst\u00e2ncia, redunda em niilismo do valor, onde s\u00f3 existem pre\u00e7os, sem que haja nada oculto por tr\u00e1s deles.<\/p>\n<p>Mas a teoria de Marx \u00e9 essencialmente sobre o controle do tempo de trabalho concreto, as condi\u00e7\u00f5es de trabalho reais e objetivas de milh\u00f5es de pessoas. Qualquer interpreta\u00e7\u00e3o de Marx que afirme que o trabalho abstrato n\u00e3o pode ser medido independentemente dos mercados e pre\u00e7os, ou n\u00e3o possa fornecer uma defini\u00e7\u00e3o do conte\u00fado do valor sem se valer de coeficientes m\u00e1gicos que dependem dos pre\u00e7os \u2013 deu errado.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, como qualquer entidade, os pensamentos do capital podem n\u00e3o refletir, ou representar, perfeitamente a realidade em que ele est\u00e1 embutido. Entretanto, se um sistema de controle \u00e9 bem-sucedido em seu controle, ent\u00e3o, suas representa\u00e7\u00f5es internas ter\u00e3o uma correspond\u00eancia verdadeira com a realidade. E o capital \u00e9 um controlador supremamente bem-sucedido.<\/p>\n<p>E, em \u00faltima inst\u00e2ncia, essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual as afirma\u00e7\u00f5es de Marx sobre o valor podem ser verificadas empiricamente: o trabalho j\u00e1 \u00e9 disciplinado para ser eficiente e \u00fatil. Assim, a maioria do trabalho concreto j\u00e1 \u00e9 trabalho abstrato. Consequentemente, se pegarmos aleatoriamente um grupo de 50 trabalhadores, eles ter\u00e3o o poder de produ\u00e7\u00e3o de valor aproximado de 50 unidades de trabalho abstrato. Quanto maior o grupo, melhor a aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sacar nosso cron\u00f4metro n\u00e3o funcionaria a n\u00edvel individual pois n\u00e3o h\u00e1 garantia de que, ao fim e ao cabo, seu trabalho concreto vai contar como trabalho abstrato. N\u00e3o obstante, nosso cron\u00f4metro medir\u00e1 o trabalho abstrato se coletarmos amostras o suficiente. Como afirmou Marx, o trabalho abstrato tem o car\u00e1ter da for\u00e7a de trabalho m\u00e9dia da sociedade. Ent\u00e3o, o sucesso de controle do capitalismo significa que podemos medir quantidades de trabalho abstrato antes do trabalho ser igualado e homogeneizado no mercado.<\/p>\n<p>Uma analogia pode ajudar, neste ponto, pois essa \u00e9 uma quest\u00e3o sutil, mas importante.<\/p>\n<p>Um etologista, estudando o comportamento de um animal selvagem, n\u00e3o pode entrar na cabe\u00e7a do animal e ver o mundo pelos seus olhos. O etologista nunca poder\u00e1 saber totalmente o que \u00e9 ser um morcego. Todavia, os etologistas desenvolveram teorias detalhadas sobre a ecolocaliza\u00e7\u00e3o, e sobre como a cogni\u00e7\u00e3o de um morcego representa seu ambiente. De maneira semelhante, estamos estudando o comportamento de uma entidade aut\u00f4noma, chamada capital, com uma cogni\u00e7\u00e3o alien\u00edgena. O trabalho abstrato \u00e9 um conceito dela, n\u00e3o nosso. Mas podemos formar um conceito de trabalho abstrato que corresponda ao conceito dela \u2013 afinal, n\u00f3s, os controlados, e ela, o controlador, vivemos no mesmo mundo. E podemos todos falar sobre e representar uma propriedade objetiva desse mundo compartilhado.<\/p>\n<p>E o que \u00e9 essa propriedade objetiva? Podemos agora refinar nossa defini\u00e7\u00e3o inicial e aproximada de trabalho abstrato. N\u00e3o se trata apenas do trabalho m\u00e9dio, ou das pot\u00eancias causais comuns do trabalho humano. \u00c9 algo mais espec\u00edfico, algo mais historicamente determinado e, portanto, mais contingente.<\/p>\n<p>O trabalho abstrato \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de pot\u00eancias causais possu\u00eddas pelo trabalho humano que podem se manifestar como uma habilidade de produzir um sem-n\u00famero de coisas \u00fateis aos outros, de lucrar ao trabalhar mais e por mais tempo, de melhorar t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o a fim de produzir mais com menos, e de superar outros numa contenda eterna por lucros. Se n\u00f3s, trabalhadores, n\u00e3o tiv\u00e9ssemos tais pot\u00eancias causais, ent\u00e3o, o capital falharia em nos moldar como as unidades homog\u00eaneas, criadoras de valor, que ele deseja.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O capitalismo enquanto modo de produ\u00e7\u00e3o ocultista<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">O capital n\u00e3o \u00e9 uma grande soma de dinheiro, mas um conjunto definido de pr\u00e1ticas sociais que instanciam um sistema de controle. Cada capital \u00e9 um controlador que age independentemente de qualquer consci\u00eancia humana individual. Nesse sentido bastante real, cada capital \u00e9 uma entidade, um ser-para-si; e cada capital tem formas primitivas de cogni\u00e7\u00e3o: capitais continuamente sentem, decidem e agem a fim de alcan\u00e7ar o objetivo primordial de maximizar os retornos. Isso n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora, \u00e9 ci\u00eancia. O \u201cDeus real\u201d de Marx \u00e9 verdadeiramente real.<\/p>\n<p>Marx nos lembra que o capitalismo n\u00e3o abole as condi\u00e7\u00f5es materiais que d\u00e3o origem ao pensamento m\u00e1gico e religioso. O fetiche da mercadoria est\u00e1 repleto disso e as confus\u00f5es s\u00e3o abundantes. Por exemplo, a ci\u00eancia econ\u00f4mica moderna tem sucessivamente reprimido a teoria do valor de Marx e a natureza das rela\u00e7\u00f5es de propriedade capitalista, baseadas no roubo \u2013 e ainda ela se prova incapaz de formular uma teoria alternativa do valor econ\u00f4mico. Os mist\u00e9rios econ\u00f4micos permanecem.<\/p>\n<p>Para contribuir com a confus\u00e3o e mistifica\u00e7\u00e3o, a ideologia capitalista promove a ideia de que nossa cultura comercial seria fundamentalmente um empreendimento racional e secular. Mas \u00e9 bem o contr\u00e1rio. A racionalidade do capitalismo n\u00e3o \u00e9 humana, mas alien\u00edgena, e n\u00f3s n\u00e3o a controlamos, \u00e9 ela que nos controla. A ideologia capitalista se recusa a enxergar o \u201cDeus real\u201d que \u00e9 o capital, e nossa subordina\u00e7\u00e3o a ele. O deus \u00e9 real, mas est\u00e1 oculto, escondendo-se \u00e0 plena vista. Nesse sentido,\u00a0<em>o capitalismo \u00e9 um modo de produ\u00e7\u00e3o ocultista, e n\u00e3o secular<\/em>.<\/p>\n<p>A forma-valor, a abstra\u00e7\u00e3o tit\u00e2nica que permeia cada aspecto de nossas vidas \u00e9, num certo sentido, a linguagem primitiva do controlador. Ele v\u00ea e julga nossas atividades, em termos de valores abstratos, comparando taxas de lucro diferenciais em seu portf\u00f3lio. Mas ele tamb\u00e9m comanda nossas atividades usando o valor abstrato, injetando e retirando seu ser substancial, o dinheiro. O capital opera para moldar, formatar e disciplinar a totalidade da for\u00e7a de trabalho da sociedade na forma espec\u00edfica do trabalho abstrato, que \u00e9 o trabalho que se entrega total e completamente em oferenda ao capital.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a forma-valor participa, tanto na a\u00e7\u00e3o de medida do tempo de trabalho, quanto no comando do tempo de trabalho. N\u00e3o deveria surpreender o fato de que a<em>\u00a0forma-valor tamb\u00e9m tenha imperativos sem\u00e2nticos<\/em>. O dinheiro n\u00e3o participa apenas no ato de medida, ele tamb\u00e9m comanda. A troca generalizada de mercadorias n\u00e3o tem planejador ou plano consciente e, portanto, a capacidade de comando e o controle necess\u00e1rios \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o do trabalho \u00e9 alcan\u00e7ada por meio da aloca\u00e7\u00e3o de capital, da transmiss\u00e3o do dinheiro e da estrutura dos pre\u00e7os.<\/p>\n<p>O capital d\u00e1 ordens ao tempo de trabalho concreto para que este se manifeste como tempo de trabalho abstrato e, portanto, traz \u00e0 exist\u00eancia aquilo que j\u00e1 est\u00e1 latente dentro de n\u00f3s. Mas o capital intensifica e aperfei\u00e7oa apenas uma parte de n\u00f3s. Somos mais do que apenas criaturas capazes de manifestar o trabalho abstrato. Temos o poder de fazer muito mais do que simplesmente produzir coisas \u00fateis por meio do trabalho intenso por longas horas. Assim, apesar do dom\u00ednio do capital, n\u00f3s resistimos, e encontramos lugares e momentos em que conseguimos ser mais n\u00f3s mesmos. Mas o capital n\u00e3o quer que brinquemos, aprendamos, exploremos, nos importemos, cuidemos uns dos outros ou que entreguemos coisas de gra\u00e7a. O capital quer que produzamos \u2013 infinitamente. E, portanto, n\u00f3s, sob o dom\u00ednio do capital, somos\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2023\/10\/trabalhar-sob-o-capitalismo-esta-nos-enlouquecendo\/\" rel=\"noreferrer noopener\">reduzidos a sombras<\/a>, meras abstra\u00e7\u00f5es estreitas\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/06\/o-socialismo-e-pelo-humanismo-real\/\" rel=\"noreferrer noopener\">daquilo que poder\u00edamos ser<\/a>.<\/p>\n<p><em>N\u00f3s somos os abstra\u00eddos e ele \u00e9 o abstrator.<\/em><\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Escravos do Deus capital<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Permitam-me encerrar com uma analogia bastante direta e crua. Vacas podem fazer muitas coisas, mas tudo que nos interessa \u00e9 que elas produzam tanto leite e carne quanto poss\u00edvel. Ent\u00e3o as criamos, alimentamos, pastoreamos e as controlamos, para que fa\u00e7am apenas isso. \u00c0s vezes suas tetas est\u00e3o t\u00e3o distendidas pela produ\u00e7\u00e3o excessiva que elas rasgam, se partem e vazam.<\/p>\n<p>N\u00f3s somos gado para o capital. N\u00f3s tamb\u00e9m nos tornamos distorcidos e desfigurados pelo seu comando universal. Ele nos marca como trabalho abstrato. Mas n\u00f3s tamb\u00e9m somos indiv\u00edduos concretos. A forma n\u00e3o exaure o conte\u00fado. E essa n\u00e3o-identidade entre a forma e o conte\u00fado, aparentemente in\u00f3cua, \u00e9 uma raz\u00e3o fundamental de por que, um dia,\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2023\/10\/a-ideia-do-comunismo-para-marx\/\" rel=\"noreferrer noopener\">escaparemos do dom\u00ednio do capital<\/a>.<\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] No original, \u201c<em>negative feedback control loop<\/em>\u201d. Optamos por \u201ccircuito de controle de\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Retroalimenta%C3%A7%C3%A3o\" rel=\"noreferrer noopener\">retroalimenta\u00e7\u00e3o negativa<\/a>\u201d, mas esses termos aparecem traduzidos de diversas maneiras diferentes, dependendo da \u00e1rea pela qual se aborda a teoria cibern\u00e9tica. Na tradu\u00e7\u00e3o original, o termo aparecia como \u201cloop de controle de retorno negativo\u201d. O conceito de processo em repeti\u00e7\u00e3o, dependendo do contexto, pode ser aparecer como \u201ccircuito\u201d, \u201cciclo\u201d, \u201cloop\u201d, \u201cla\u00e7o\u201d, \u201cal\u00e7a\u201d, \u201citera\u00e7\u00e3o\u201d; j\u00e1 a ideia do processo continuamente recebendo novas entradas com base nos seus pr\u00f3prios ciclos anteriores aparece como \u201cretroalimenta\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cretorno\u201d, ou na vers\u00e3o n\u00e3o traduzida, mantendo o termo \u201c<em>feedback<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Marx e o capital como uma divindade &#8211; https:\/\/jacobin.com.br\/2024\/03\/marx-e-o-capital-como-uma-divindade\/<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IAN WRIGHT &#8211; Marx descreve o capital como uma entidade &#8211; um ser com uma mente pr\u00f3pria, operando independente de nossa vontade, uma cogni\u00e7\u00e3o alien\u00edgena que nos controla -, chegando a cham\u00e1-lo de \u201cdeus real\u201d. 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