{"id":20452,"date":"2024-04-04T12:41:51","date_gmt":"2024-04-04T15:41:51","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20452"},"modified":"2024-03-31T20:50:17","modified_gmt":"2024-03-31T23:50:17","slug":"ditadura-agravou-segregacao-ao-tratar-indigenas-como-inimigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/04\/04\/ditadura-agravou-segregacao-ao-tratar-indigenas-como-inimigos\/","title":{"rendered":"Ditadura agravou segrega\u00e7\u00e3o ao tratar ind\u00edgenas como inimigos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Liana Coll<\/strong>\u00a0 &#8211; Antrop\u00f3loga analisa concep\u00e7\u00e3o dos militares acerca dos povos origin\u00e1rios \u00e0 luz de atrocidades e de epis\u00f3dios de exterm\u00ednio<img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-8358 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1500833290_860968_1500834571_album_normal.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1500833290_860968_1500834571_album_normal.jpg 980w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1500833290_860968_1500834571_album_normal-300x210.jpg 300w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1500833290_860968_1500834571_album_normal-768x538.jpg 768w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1500833290_860968_1500834571_album_normal-500x351.jpg 500w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1500833290_860968_1500834571_album_normal-250x175.jpg 250w, \" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Marcha de integrantes da Guarda Rural Ind\u00edgena (Grin), criada por Jos\u00e9 de Queir\u00f3s Campos, presidente da Funai entre 1967 e 1970 (Foto: Arquivo Sedoc-Funai\/A imagem integra o livro \u201cOs fuzis e as flechas\u201d, de Rubens Valente)<\/em><\/p>\n<p><em>Daqui eles nos levaram em gaiola, gaiola mesmo, vieram tr\u00eas gaiolas [\u2026] Pelo caminho, dormimos, nos alimentaram, nos davam p\u00e3ozinho para n\u00e3o morrermos de fome, tampavam da gente a gaiola para n\u00e3o vermos nosso rastro.\u00a0<\/em>(Meire da Silva, ind\u00edgena Kaiow\u00e1, em testemunho sobre deslocamento for\u00e7ado realizado em 1978)<\/p>\n<p><em>Estou cansado de ser um coveiro de \u00edndios.<\/em>\u00a0(Sertanista Cotrim, ao se demitir, em 1972)<\/p>\n<p><em>Em uma das vezes em que eu insistia com o \u00edndio Tariri para irmos mais para frente, ele olhou para mim, sentou-se, p\u00f4s as duas m\u00e3os na cabe\u00e7a, depois bateu com a m\u00e3o direita em cima do cora\u00e7\u00e3o. Nesta altura j\u00e1 estava chorando, olhando para os ossos todos fu\u00e7ados pelos porcos da mata, lembrando que no meio daqueles ossos estavam os ossos da mo\u00e7a que ia ser sua esposa. E falou as seguintes palavras: \u201cKara\u00ed-t\u00e1n-aitinnvaine Kre, K\u00eatt Kue n\u201d, que significa: voc\u00eas civilizados mataram todos, tudo acabado. Essas palavras ele falou quando estava em choro.\u00a0<\/em>(Sertanista Antonio Campinas, 1971)<\/p>\n<p><em>Depois da estrada, a doen\u00e7a n\u00e3o saiu. A doen\u00e7a ficou no lugar da Camargo Corr\u00eaa. At\u00e9 hoje o governo federal n\u00e3o assumiu a responsabilidade de cuidar da sa\u00fade que ele estragou [\u2026] As doen\u00e7as mais frequentes s\u00e3o pneumonia, mal\u00e1ria, tuberculose. N\u00e3o tinha nada disso aqui antes da estrada.\u00a0<\/em>(Depoimento de Santar\u00e9m, ind\u00edgena Yanomami, \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade)<\/p>\n<p>Os relatos acima referem-se a atos de viol\u00eancia cometidos por membros das For\u00e7as Armadas durante a ditadura militar (1964-1985). O primeiro, colhido por Meire da Silva, \u00e9 da ind\u00edgena Kaiow\u00e1 Livrada Rodrigues e cita um dos muitos casos de expuls\u00e3o e viol\u00eancia envolvendo o regime. Por diversas vezes, os Kaiow\u00e1 do Rancho Jacar\u00e9 e de Guaimb\u00e9, no Mato Grosso do Sul, viram-se retirados \u00e0 for\u00e7a de suas terras e levados para o Pantanal, para locais distantes at\u00e9 800 km de onde moravam. A p\u00e9, muitos retornavam para sua terra ancestral, cobi\u00e7ada por fazendeiros e pelo regime militar para a expans\u00e3o agr\u00edcola. Os abusos, parte de um dos per\u00edodos mais sangrentos da vida dos ind\u00edgenas \u2013 a ditadura militar \u2013, ainda se repetem, conforme documentou a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) gra\u00e7as ao trabalho de Marcelo Zelic. O pesquisador e aliado da causa ind\u00edgena foi respons\u00e1vel pela descoberta do Relat\u00f3rio Figueiredo, um documento de mais de 7 mil p\u00e1ginas redigido pelo procurador Jader de Figueiredo Correia entre 1967 e 1968 com den\u00fancias sobre a pr\u00e1tica de atos de viol\u00eancia contra os povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"427\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8364 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/20230531_2_ANALISA-TV_Profa.Artionka-Manuela-Goes-Capiberibe_IFCH_perri_AMP_6043-1024x683.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/20230531_2_ANALISA-TV_Profa.Artionka-Manuela-Goes-Capiberibe_IFCH_perri_AMP_6043-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/20230531_2_ANALISA-TV_Profa.Artionka-Manuela-Goes-Capiberibe_IFCH_perri_AMP_6043-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/20230531_2_ANALISA-TV_Profa.Artionka-Manuela-Goes-Capiberibe_IFCH_perri_AMP_6043-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/20230531_2_ANALISA-TV_Profa.Artionka-Manuela-Goes-Capiberibe_IFCH_perri_AMP_6043-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/20230531_2_ANALISA-TV_Profa.Artionka-Manuela-Goes-Capiberibe_IFCH_perri_AMP_6043-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/20230531_2_ANALISA-TV_Profa.Artionka-Manuela-Goes-Capiberibe_IFCH_perri_AMP_6043-500x333.jpg 500w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/20230531_2_ANALISA-TV_Profa.Artionka-Manuela-Goes-Capiberibe_IFCH_perri_AMP_6043-250x167.jpg 250w, \" alt=\"\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption c007\"><em>A professora e antrop\u00f3loga Artionka Capiberibe: militares t\u00eam uma no\u00e7\u00e3o de progresso \u00e0s custas de vidas humanas (Foto: Antonio Scarpinetti)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A CNV estima que pelo menos 8 mil ind\u00edgenas morreram em raz\u00e3o de a\u00e7\u00f5es do regime militar, seja em epis\u00f3dios de exterm\u00ednio direto, em casos de tortura, encarceramento arbitr\u00e1rio e maus-tratos ou por meio de epidemias provocadas por uma pol\u00edtica desastrosa de contato. A viol\u00eancia a que foram submetidos os ind\u00edgenas poderia fazer parte do passado se tivesse havido responsabiliza\u00e7\u00e3o pelos crimes e medidas de repara\u00e7\u00e3o, mas continua a ser sistematicamente praticada. Em 2020, o governo Jair Bolsonaro, com uma Instru\u00e7\u00e3o Normativa editada pelo \u00f3rg\u00e3o supostamente respons\u00e1vel por proteger os direitos dos ind\u00edgenas, a Funda\u00e7\u00e3o Nacional dos Povos Ind\u00edgenas (Funai, antiga Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio), liberou \u00e1reas dos Guarani-Kaiow\u00e1 para fazendeiros, e esses territ\u00f3rios transformaram-se em palco de assassinatos de ind\u00edgenas e amea\u00e7as contra ind\u00edgenas, tudo ocorrendo no contexto de uma disputa agr\u00e1ria acirrada pela n\u00e3o homologa\u00e7\u00e3o das terras origin\u00e1rias.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2023, o governo rec\u00e9m-empossado de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva iniciou uma opera\u00e7\u00e3o na Terra Ind\u00edgena Yanomami, expondo a grave situa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria e de conflitos enfrentada pelos ind\u00edgenas no Estado de Roraima. Assim como na ditadura, quando a constru\u00e7\u00e3o de uma estrada causou a morte de pelo menos 354 Yanomami devido a epidemias provocadas pela presen\u00e7a na regi\u00e3o de brancos, o per\u00edodo mais recente viu-se marcado pela morte. Estima-se que, entre 2019 e 2022, 692 crian\u00e7as de at\u00e9 9 anos morreram em consequ\u00eancia de doen\u00e7as evit\u00e1veis. O n\u00famero de mortes aumentou com a tomada do territ\u00f3rio pelo garimpo ilegal, um movimento amplamente incentivado sob o governo Bolsonaro, e pela desassist\u00eancia na \u00e1rea da sa\u00fade, um problema em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Um ano ap\u00f3s o in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o, o jornalista Rubens Valente, respons\u00e1vel por uma extensa apura\u00e7\u00e3o sobre os crimes cometidos pelos militares durante a ditadura, denunciou o fato de as For\u00e7as Armadas terem cobrado, ainda em 2023, um adicional de R$ 1,6 bilh\u00e3o por bimestre do governo federal para promover a retirada de garimpeiros das terras Yanomami e a entrega de cestas b\u00e1sicas para os ind\u00edgenas que viviam na regi\u00e3o, a despeito do or\u00e7amento de R$ 124,4 bilh\u00f5es do Minist\u00e9rio da Defesa. Tamb\u00e9m em 2023, as For\u00e7as Armadas n\u00e3o reagiram quando ind\u00edgenas e funcion\u00e1rios do Instituo Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama) foram alvejados por invasores que fecharam um posto de suprimento de combust\u00edvel em uma das regi\u00f5es mais cobi\u00e7adas pelo garimpo.<\/p>\n<div class=\"wp-block-cover is-light\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-8417 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/mg_9069-agencia_brasil-scaled.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/mg_9069-agencia_brasil-scaled.jpg 2560w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/mg_9069-agencia_brasil-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/mg_9069-agencia_brasil-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/mg_9069-agencia_brasil-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/mg_9069-agencia_brasil-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/mg_9069-agencia_brasil-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/mg_9069-agencia_brasil-500x333.jpg 500w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/mg_9069-agencia_brasil-250x167.jpg 250w, \" alt=\"Crian\u00e7a Yanomami brinca ao lado de sucata de avi\u00e3o da FAB no aeroporto de Surucucu, em Roraima: militares pediram verba para atuar na regi\u00e3o apesar de or\u00e7amento bilion\u00e1rio (Foto: Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil) \" \/><\/p>\n<div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-constrained wp-block-cover-is-layout-constrained\">\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\"><em>Crian\u00e7a Yanomami brinca ao lado de sucata de avi\u00e3o da FAB no aeroporto de Surucucu, em Roraima: militares pediram verba para atuar na regi\u00e3o apesar de or\u00e7amento bilion\u00e1rio (Foto: Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O comportamento dos militares levou servidores p\u00fablicos que atuam no meio ambiente e na pol\u00edtica indigenista a publicarem uma nota em que repudiavam a forma como as For\u00e7as Armadas vinham atuando na opera\u00e7\u00e3o. Dentre as den\u00fancias, h\u00e1 uma indicando que os militares recusaram-se a sobrevoar o territ\u00f3rio atingido, outra sobre omiss\u00e3o e\/ou quando se tratou de destruir os equipamentos apreendidos, outra sobre a desmobiliza\u00e7\u00e3o de pontos de apoio e uma outra sobre dificuldades para obter informa\u00e7\u00f5es. \u201cQue outra miss\u00e3o as For\u00e7as Armadas est\u00e3o cumprindo que n\u00e3o poderiam dispor de contingente e equipamento para atender essa opera\u00e7\u00e3o?\u201d, questionam os funcion\u00e1rios do Ibama.<\/p>\n<p>Para Artionka Capiberibe, professora do Departamento de Antropologia da Unicamp e membro do Centro de Pesquisa em Etnologia Ind\u00edgena, o que ocorre hoje caracteriza o processo de forma\u00e7\u00e3o dos militares brasileiros. Segundo Capiberibe, h\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o de progresso \u00e0s custas de vidas humanas e de recursos naturais, amplamente difundida na ditadura, que permanece. \u201cExiste uma ideia ultrapassada de riqueza, de explora\u00e7\u00e3o excessiva dos recursos naturais sem prever que eles se esgotar\u00e3o. Isso faz com que, na cabe\u00e7a deles, esses ind\u00edgenas logo n\u00e3o v\u00e3o ser mais ind\u00edgenas. Na mentalidade deles, essas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o simplesmente um estorvo. \u00c9 uma ideia de pa\u00eds na qual os ind\u00edgenas n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7o. Essa atitude em rela\u00e7\u00e3o aos Yanomami na verdade \u00e9 uma velha atitude. \u00c9 um pensamento que n\u00e3o mudou e que teve em Bolsonaro uma express\u00e3o exagerada e expl\u00edcita\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Massacre contra os Waimiri-Atroari<\/strong><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 bom lembrar que os militares da ditadura resolveram que iam furar a Amaz\u00f4nia por todos os lados, abrindo estradas para o \u2018progresso\u2019 chegar l\u00e1. Eles queriam ocupar o espa\u00e7o porque esse espa\u00e7o \u2018vazio\u2019 corria perigo. Existia uma quest\u00e3o de soberania sobre o espa\u00e7o. Ent\u00e3o n\u00e3o poderia ter territ\u00f3rio n\u00e3o ocupado porque ele poderia vir a ser ocupado por outras nacionalidades. E a\u00ed eles resolvem abrir uma BR, a BR-174, cortando a terra ind\u00edgena Waimiri.\u201d<\/p>\n<p>\u201cOs dados da CNV sobre a redu\u00e7\u00e3o populacional s\u00e3o absurdos. De uma popula\u00e7\u00e3o de 3 mil em 1972, os Waimiri chegaram em 1983 com 350 pessoas. As den\u00fancias s\u00e3o grav\u00edssimas, porque o Ex\u00e9rcito entrou para desocupar. \u00c9 o pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito que vai desocupar e a\u00ed ele entra em uma opera\u00e7\u00e3o de guerra. Os ind\u00edgenas eram tratados como inimigos da p\u00e1tria. As den\u00fancias falam at\u00e9 em bombardeios\u201d, diz Capiberibe.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um depoimento de um mission\u00e1rio cat\u00f3lico do Cimi [Conselho Indigenista Mission\u00e1rio] segundo o qual, enquanto ocorria uma festa em uma aldeia do povo Kinja [autodenomina\u00e7\u00e3o dos Waimiri-Atroari], surgiu um helic\u00f3ptero de repente, se aproximou e jogou um p\u00f3 branco. Todas as pessoas atingidas pelo p\u00f3 morreram. O n\u00famero que ele d\u00e1 \u00e9 de 33 pessoas mortas nessa festa que estava acontecendo em uma aldeia em torno de uma maloca. A jornalista Mem\u00e9lia Moreira prestou um depoimento, tamb\u00e9m na Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, sobre os Waimiri-Atroari falando que eles [os militares] jogaram napalm em cima das aldeias.\u201d<\/p>\n<p><strong>Selvageria no Araguaia<\/strong><\/p>\n<p>Capiberibe prossegue: \u201cEssa vis\u00e3o militarizada de tratar os ind\u00edgenas como inimigos a serem exterminados fez presente tamb\u00e9m na regi\u00e3o do Araguaia. No come\u00e7o dos anos 1970, quando o Ex\u00e9rcito come\u00e7ou a fazer as opera\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o do Araguaia para exterminar os guerrilheiros, eles usaram os ind\u00edgenas Suru\u00ed do Par\u00e1, os Aikewara, como mateiros. Mas n\u00e3o \u00e9 que eles pagam os ind\u00edgenas pelo servi\u00e7o prestado. Isso por si s\u00f3 seria grave, mas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave. Eles primeiro prenderam as mulheres e as crian\u00e7as nas casas e depois pegaram os homens da aldeia como mateiros, obrigando-os a andarem na mata para localizar os guerrilheiros\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNos depoimentos que est\u00e3o l\u00e1, os ind\u00edgenas falam: \u2018A gente n\u00e3o sabia o que era terrorista e eles perguntavam: Onde est\u00e3o os terroristas,?\u2019. Imagina a brutalidade. Perguntavam: \u2018Onde eles se esconderam? Voc\u00eas est\u00e3o escondendo os terroristas!\u2019. Isso aconteceu com os ind\u00edgenas e tamb\u00e9m com os camponeses da regi\u00e3o. No entanto, no caso dos ind\u00edgenas, houve esse agravante. A antrop\u00f3loga Iara Ferraz fez um estudo muito detalhado sobre o caso Aikewara e, segundo ela, eles ficaram para a hist\u00f3ria como aqueles que entregaram e levaram \u00e0 morte os guerrilheiros, porque eles que levavam [os militares] at\u00e9 os locais [onde estavam os guerrilheiros]. Mas os ind\u00edgenas foram obrigados a fazer isso\u201d, relata Capiberibe.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"276\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8433 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/12_03_2018_guerrilhaaraguaia_reproduo-1024x441.jpg?resize=640%2C276&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/12_03_2018_guerrilhaaraguaia_reproduo-1024x441.jpg 1024w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/12_03_2018_guerrilhaaraguaia_reproduo-300x129.jpg 300w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/12_03_2018_guerrilhaaraguaia_reproduo-768x331.jpg 768w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/12_03_2018_guerrilhaaraguaia_reproduo-500x215.jpg 500w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/12_03_2018_guerrilhaaraguaia_reproduo-250x108.jpg 250w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/12_03_2018_guerrilhaaraguaia_reproduo.jpg 1200w, \" alt=\"Militares que participaram da repress\u00e3o aos guerrilheiros posam para foto na regi\u00e3o do Araguaia: ind\u00edgenas foram usados como mateiros (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption c007\"><em>Militares que participaram da repress\u00e3o aos guerrilheiros posam para foto na regi\u00e3o do Araguaia: ind\u00edgenas foram usados como mateiros (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Segundo a professora, \u201cTratava-se de um estado de guerra. Os militares decapitaram v\u00e1rios guerrilheiros e botaram os ind\u00edgenas segurando a cabe\u00e7a insinuando uma no\u00e7\u00e3o de selvageria, sendo que selvagens foram os militares, o Ex\u00e9rcito. A Iara diz: \u2018Olha, os Aikewara sofriam muito porque para eles um morto n\u00e3o pode ser tocado\u2019. Ent\u00e3o aquilo era uma tortura, uma forma de tortura. Eles ainda fizeram os ind\u00edgenas carregarem os corpos dos defuntos para os helic\u00f3pteros, para jogar nas valas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cExistiam tamb\u00e9m os castigos, que j\u00e1 aconteciam antes do regime ditatorial. Criaram-se pris\u00f5es espec\u00edficas \u2013 a mais famosa \u00e9 o reformat\u00f3rio Krenak, uma mistura de pris\u00e3o com hosp\u00edcio, na terra ind\u00edgena dos Krenak, em Minas Gerais \u2013 nas quais ficaram encarceradas v\u00e1rias pessoas, tudo \u00e0 revelia da lei. Em um dos relat\u00f3rios a que eu tive acesso, fala-se de um ind\u00edgena Krenak preso por vadiagem, por vagabundagem, porque bebia e era, segundo eles, um vagabundo. E a\u00ed colocaram ele l\u00e1 dentro [do reformat\u00f3rio] sem nenhum direito a defesa e sem nenhum processo, nada\u201d, diz a antrop\u00f3loga.<\/p>\n<p>\u201cUma vez dentro, esquece-se da pessoa\u2026 Nesses regimes, quem gere os sistemas prisionais se torna um uma esp\u00e9cie de rei, de d\u00e9spota. As leis internas desse sistema s\u00e3o feitas pelo pequeno burocrata, pelo funcion\u00e1rio que est\u00e1 ali. Ent\u00e3o h\u00e1 castigos como priva\u00e7\u00e3o de comida, priva\u00e7\u00e3o de sono, toda sorte de viol\u00eancias.\u201d<\/p>\n<p><strong>Deslocamentos for\u00e7ados\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Capiberibe, \u201chouve a\u00e7\u00f5es de deslocamento for\u00e7ado de popula\u00e7\u00f5es inteiras, por mais de uma vez. Elas v\u00e3o sendo tiradas das suas terras em fun\u00e7\u00e3o de algum empreendimento. Tem o caso do Xet\u00e1, povo do Paran\u00e1 expulso por causa de uma frente cafeeira. Esse povo acabou por dispersar-se, seus integrantes acabaram por se perder uns dos outros. O povo foi declarado como extinto pela Funai nos anos 1970. Nos anos 1990, eles reaparecem porque n\u00e3o haviam sido exterminados, mas dispersados. Eles reaparecem, demandaram a retomada de suas terras e contaram como sofreram um processo de inviabiliza\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m \u00e9 um processo de viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"903\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8440 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/Remocao-de-indigenas-no-Parana-726x1024.jpg?resize=640%2C903&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/Remocao-de-indigenas-no-Parana-726x1024.jpg 726w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/Remocao-de-indigenas-no-Parana-213x300.jpg 213w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/Remocao-de-indigenas-no-Parana-768x1084.jpg 768w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/Remocao-de-indigenas-no-Parana-500x706.jpg 500w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/Remocao-de-indigenas-no-Parana-250x353.jpg 250w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/Remocao-de-indigenas-no-Parana.jpg 980w, \" alt=\"\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption c007\"><em>Remo\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas no Paran\u00e1: deslocamento for\u00e7ado de popula\u00e7\u00f5es inteiras (Foto: Arquivo Sedoc-Funai\/A imagem est\u00e1 no livro \u201cOs fuzis e as flechas\u201d, de Rubens Valente)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>\u201cEles estavam em uma regi\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 Hidrel\u00e9trica de Itaipu. Ent\u00e3o o governo pensou: \u2018Vou tirar esses ind\u00edgenas daqui, vou criar o parque Sete Quedas e colocar eles l\u00e1\u2019. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 que n\u00e3o tinham direitos. \u00c9 algo mais profundo: tratar seres humanos como se n\u00e3o fossem humanos, como se n\u00e3o tivessem vontade, como se n\u00e3o tivessem rela\u00e7\u00f5es com os lugares onde eles estavam\u201d, diz a professora.<\/p>\n<p>\u201cIsso aconteceu tamb\u00e9m com os Xavante e com diversas outras etnias. Bom, vamos lembrar do nome do \u00f3rg\u00e3o, n\u00e9, Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio [\u00f3rg\u00e3o que antecedeu a Funai]. \u2018\u00cdndio\u2019 \u00e9 tudo ali. N\u00e3o h\u00e1 diversidade lingu\u00edstica, n\u00e3o h\u00e1 diversidade sociocultural, de h\u00e1bitos, de l\u00ednguas\u2026 N\u00e3o h\u00e1 nada. Ent\u00e3o eles for\u00e7am o deslocamento dessas popula\u00e7\u00f5es e pensam: \u2018Ah, vamos botar esse povo Xet\u00e1 aqui junto com os Kaingang\u2019. Mas n\u00e3o se trata de um mesmo povo. Ent\u00e3o \u00e9 isto: v\u00e3o jogando os povos de um lado para o outro, expulsando-os, e ocupando os territ\u00f3rios ind\u00edgenas em fun\u00e7\u00e3o de diferentes interesses. H\u00e1 os interesses econ\u00f4micos, h\u00e1 interesses que s\u00e3o empreendimentos do Estado, p\u00fablicos, como a Itaipu, respons\u00e1vel pelo deslocamento dos povos Guarani que viviam na regi\u00e3o. Esses povos viram-se, de repente, enredados em um processo no qual n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para eles. Diz-se simplesmente: \u2018Olha, essa terra aqui de voc\u00eas vai ser inundada\u2019. \u00c9 uma l\u00f3gica que pensa: \u2018Ah, vamos mud\u00e1-los do apartamento 102 para o 110\u2019. Isso \u00e9 de uma viol\u00eancia incalcul\u00e1vel\u201d, afirma Capiberibe.<\/p>\n<p><strong>Repara\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhos da CNV, para Capiberibe, trouxeram \u00e0 tona os diversos tipos de viol\u00eancia a que os ind\u00edgenas foram submetidos durante a ditadura. Apesar da tentativa dos militares de apagar os registros hist\u00f3ricos, os testemunhos indicam um padr\u00e3o de viola\u00e7\u00f5es. A antrop\u00f3loga lembra que, ainda antes da ditadura, os militares praticavam abusos em nome de um controle de fronteiras.<\/p>\n<p>Do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o aos \u00cdndios e Localiza\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores Nacionais, de 1910, ao Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio (SPI), de 1927, e posteriormente \u00e0 Funai, criada em 1967 como resposta \u00e0s den\u00fancias sobre atos de viol\u00eancia praticados pelo SPI, manteve-se uma vis\u00e3o de \u201ccivilizar\u201d os ind\u00edgenas, inclusive utilizando-se de escalas de civilidade na tentativa de retirar daqueles vistos como \u201cintegrados \u00e0 sociedade\u201d a necessidade de vincula\u00e7\u00e3o com a terra.<\/p>\n<p>\u201cO SPI, servi\u00e7o que antecedeu a Funai, nasce como um \u00f3rg\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o aos \u00edndios, como diz a sigla, mas com o ide\u00e1rio de progresso e civiliza\u00e7\u00e3o, como expresso em nossa bandeira. O progresso \u00e9 visto por esses funcion\u00e1rios, em boa parte militares, como um processo gradativo por meio do qual os ind\u00edgenas deixariam de ser ind\u00edgenas. Na ditadura, esse processo acelerou\u201d, explica a professora.<\/p>\n<p>O trabalho da CNV, iniciado em 2011, deveria se aprofundar, defende a antrop\u00f3loga. \u201cO caminho seria o da compensa\u00e7\u00e3o, mapeando as terras subtra\u00eddas de povos ind\u00edgenas. H\u00e1 muita coisa para ser discutida, detalhamentos relacionados \u00e0s especificidades dos povos ind\u00edgenas. Esse trabalho poderia ter continuado se n\u00e3o tivesse ocorrido o golpe em 2016, que interrompeu o processo\u201d, analisa.<\/p>\n<p>Retrocessos que desconsideram toda essa hist\u00f3ria de subtra\u00e7\u00e3o violenta de terras e de vidas ind\u00edgenas, argumenta a professora, deveriam dar lugar a um processo de repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Resist\u00eancia secular<\/strong><\/p>\n<p>Em meio \u00e0s sistem\u00e1ticas viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos cometidas durante a ditadura, o movimento ind\u00edgena foi se fortalecendo e se organizando. Em 1980 nasceu a Uni\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas, primeira organiza\u00e7\u00e3o totalmente gerida por ind\u00edgenas. Esse esfor\u00e7o organizado deixou marcas, por exemplo, na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, um marco na conquista por direitos.<\/p>\n<div class=\"wp-block-cover is-light\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-8450 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1977-x-ass-chefes-ind-tapirape-mt-antonio-carlos-moura-cimi-scaled-1.jpeg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1977-x-ass-chefes-ind-tapirape-mt-antonio-carlos-moura-cimi-scaled-1.jpeg 1050w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1977-x-ass-chefes-ind-tapirape-mt-antonio-carlos-moura-cimi-scaled-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1977-x-ass-chefes-ind-tapirape-mt-antonio-carlos-moura-cimi-scaled-1-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1977-x-ass-chefes-ind-tapirape-mt-antonio-carlos-moura-cimi-scaled-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1977-x-ass-chefes-ind-tapirape-mt-antonio-carlos-moura-cimi-scaled-1-500x333.jpeg 500w, https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/wp-content\/uploads\/sites\/32\/2024\/03\/1977-x-ass-chefes-ind-tapirape-mt-antonio-carlos-moura-cimi-scaled-1-250x167.jpeg 250w, \" alt=\"\" \/><\/p>\n<div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-constrained wp-block-cover-is-layout-constrained\">\n<p class=\"has-text-align-center has-large-font-size\"><em>O bispo dom Pedro Casald\u00e1liga (de \u00f3culos) e lideran\u00e7as Xerente participaram da X Assembleia de Chefes Ind\u00edgenas, que ocorreu em 1977, em Tapirap\u00e9, em Mato Grosso: mobiliza\u00e7\u00e3o contra a repress\u00e3o (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cEles come\u00e7am um movimento nacional, cujas lideran\u00e7as s\u00e3o hoje muito conhecidas, como Ailton Krenak e Davi Kopenawa. Come\u00e7am a se reunir um pouco em torno do movimento dos seringueiros no Acre, sob a lideran\u00e7a do Chico Mendes, e nesse di\u00e1logo v\u00e3o se fortalecendo. E l\u00e1 no final dos anos 70 e come\u00e7o dos anos 80, os ind\u00edgenas come\u00e7am a fazer uma mobiliza\u00e7\u00e3o que se expande para fora do pa\u00eds, onde v\u00e3o fazer den\u00fancias sobre v\u00e1rios casos de viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos\u201d, conta Capiberibe.<\/p>\n<p>A Constituinte dos anos 80, segundo a professora, \u00e9 o \u00e1pice de um movimento que aos poucos angariou o apoio de diversos outros setores da sociedade. Hoje, reflete, h\u00e1 diversos movimentos dentro do grande movimento ind\u00edgena: representantes de LGBTs, mulheres e estudantes, dentre outros. \u201cIsso mostra que os povos ind\u00edgenas s\u00e3o contempor\u00e2neos e n\u00e3o nosso passado.\u201d<\/p>\n<p>Para a antrop\u00f3loga, \u00e9 preciso agora, em um governo que se mostra favor\u00e1vel \u00e0s pautas ind\u00edgenas e ambientais (a atual administra\u00e7\u00e3o federal criou, por exemplo, o primeiro Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas), que se reverta uma mentalidade atrasada de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica predat\u00f3ria respons\u00e1vel por colocar em risco os povos origin\u00e1rios. \u201cOs modos de vida ind\u00edgena s\u00e3o bons para os povos ind\u00edgenas e tamb\u00e9m\u00a0 para o planeta, mas n\u00e3o deve pesar s\u00f3 nas costas dos povos ind\u00edgenas a seguran\u00e7a do planeta\u201d, diz Capiberibe.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Ditadura agravou segrega\u00e7\u00e3o ao tratar ind\u00edgenas como inimigos\u00a0 &#8211; Jornal da Unicamp &#8211; https:\/\/www.jornal.unicamp.br\/edicao\/702\/ditadura-agravou-segregacao-ao-tratar-indigenas-como-inimigos\/#gsc.tab=0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Liana Coll\u00a0 &#8211; Antrop\u00f3loga analisa concep\u00e7\u00e3o dos militares acerca dos povos origin\u00e1rios \u00e0 luz de atrocidades e de epis\u00f3dios de exterm\u00ednio Marcha de integrantes da Guarda Rural Ind\u00edgena (Grin), criada por Jos\u00e9 de Queir\u00f3s Campos, presidente da Funai entre 1967 e 1970 (Foto: Arquivo Sedoc-Funai\/A imagem integra o livro \u201cOs fuzis e as flechas\u201d, de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20453,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[22],"class_list":["post-20452","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica","tag-violencia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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