{"id":20447,"date":"2024-03-31T12:35:07","date_gmt":"2024-03-31T15:35:07","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20447"},"modified":"2024-03-30T18:45:10","modified_gmt":"2024-03-30T21:45:10","slug":"colecao-explora-diversidade-musical-das-regioes-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/03\/31\/colecao-explora-diversidade-musical-das-regioes-do-pais\/","title":{"rendered":"Cole\u00e7\u00e3o explora diversidade musical das regi\u00f5es do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><strong>Diego Viana<\/strong> &#8211; Livros conjugam o estudo da sonoridade com a hist\u00f3ria social das festas, concertos e bandas.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-506385 size-full c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-800.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-800.jpg 800w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-800-250x334.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-800-700x936.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-800-120x161.jpg 120w, \" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Jo\u00e3o da Baiana (1940-1950)\u2009\/\u2009Fot\u00f3grafo n\u00e3o identificado\u2009\/\u2009Cole\u00e7\u00e3o Almirante\u2009\/\u2009Acervo do FMIS-RJO sambista Jo\u00e3o da Baiana no Rio de Janeiro, entre as d\u00e9cadas de 1940 e 1950, com seu pandeiro: instrumento foi alvo de persegui\u00e7\u00e3o policial no in\u00edcio do s\u00e9culo XX<span class=\"media-credits\">Jo\u00e3o da Baiana (1940-1950)\u2009\/\u2009Fot\u00f3grafo n\u00e3o identificado\u2009\/\u2009Cole\u00e7\u00e3o Almirante\u2009\/\u2009Acervo do FMIS-RJ<\/span><\/em><\/p>\n<p><span class=\"media-credits\">Quando um grupo se re\u00fane em torno da mestra gri\u00f4 Ana do Coco, na roda de coco Novo Quilombo, no munic\u00edpio paraibano de Conde, a m\u00fasica que se toca ali \u00e9 resultado de influ\u00eancias m\u00faltiplas. A sonoridade, a dan\u00e7a e o canto evocam fontes africanas, ind\u00edgenas, \u00e1rabes e europeias. Essa diversidade de refer\u00eancias tamb\u00e9m ocorre no extremo norte do Brasil: em Roraima, estado com 640 mil habitantes, festas c\u00edvicas e festivais de jazz apresentam sons nascidos do encontro de ritmos caribenhos, cantos amer\u00edndios e at\u00e9 mesmo tradi\u00e7\u00f5es ga\u00fachas. J\u00e1 no samba, o pandeiro, instrumento considerado como um dos s\u00edmbolos nacionais, reflete uma hist\u00f3ria tortuosa de conflito racial e nacionalismo populista juntamente com o ritmo que produz.<\/span><\/p>\n<p>Esses s\u00e3o alguns dos relatos presentes na cole\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Hist\u00f3rias das m\u00fasicas no Brasil<\/em>, composta de cinco livros, cada um dedicado a uma das regi\u00f5es do pa\u00eds. Editada pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em M\u00fasica (Anppom), a s\u00e9rie est\u00e1 dispon\u00edvel para\u00a0<a href=\"http:\/\/www.anppom.com.br\/ebooks\/\" rel=\"noopener\">download gratuito no site da institui\u00e7\u00e3o<\/a>. Ao colocar no plural tanto \u201chist\u00f3ria\u201d quanto \u201cm\u00fasica\u201d, a colet\u00e2nea ressalta a enorme variedade de influ\u00eancias que determinam como a m\u00fasica se faz em um pa\u00eds continental e multirracial como o nosso.<\/p>\n<p>Organizado pelos music\u00f3logos Marcos Holler, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), e M\u00f3nica Vermes, da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (Ufes), o projeto busca dar visibilidade \u00e0 produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica atual. \u201cUm dos nossos objetivos foi mostrar como a hist\u00f3ria da m\u00fasica tem se enriquecido ao interagir mais de perto n\u00e3o s\u00f3 com a etnomusicologia, mas tamb\u00e9m com a sociologia e a antropologia\u201d, afirma Vermes, diretora de publica\u00e7\u00f5es da Anppom.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muita pesquisa em m\u00fasica sendo feita no Brasil, mas percebemos que a divulga\u00e7\u00e3o muitas vezes fica restrita \u00e0 regi\u00e3o onde ela \u00e9 produzida\u201d, acrescenta Holler. \u201cFoi por isso que escolhemos dividir a publica\u00e7\u00e3o em cinco volumes, com recorte regional bem definido.\u201d<\/p>\n<p>Esse campo de estudos vem crescendo no Brasil desde a d\u00e9cada de 1980 \u2013 a pr\u00f3pria Anppom foi fundada em 1988. Neste s\u00e9culo, a tend\u00eancia se acelerou, acompanhando a expans\u00e3o das universidades no pa\u00eds, de acordo com o m\u00fasico e historiador Andr\u00e9 Acastro Egg, da Universidade Estadual do Paran\u00e1 (Unespar) e da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), que editou, com a historiadora M\u00e1rcia Ramos de Oliveira, da Udesc, o volume dedicado \u00e0 regi\u00e3o Sul. O crescimento trouxe consigo a diversifica\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica que, al\u00e9m da an\u00e1lise da pr\u00e1tica musical e das sonoridades, incorporou o estudo dos aspectos sociais, pol\u00edticos, \u00e9tnicos, econ\u00f4micos e de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Ao longo do s\u00e9culo XX, o estudo da m\u00fasica feita no Brasil se concentrou excessivamente no desenvolvimento da vertente erudita, segundo Egg. \u201cNo singular, a express\u00e3o \u2018hist\u00f3ria da m\u00fasica\u2019 remete a um jeito de pensar herdeiro do positivismo do s\u00e9culo XIX, que produz, sobretudo, estudos focados em compositores e obras, principalmente cl\u00e1ssicos\u201d, diz o pesquisador. \u201cA partir do final do s\u00e9culo XX, come\u00e7ou uma renova\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica, que consiste em pensar a m\u00fasica no pa\u00eds em rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas mais amplas.\u201d<\/p>\n<p>De acordo com a music\u00f3loga e historiadora Ana Guiomar R\u00eago Souza, da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG), apenas nos \u00faltimos 20 anos a pesquisa em hist\u00f3ria da m\u00fasica se abriu de fato para a pluralidade das manifesta\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da matriz europeia. \u201c\u00c9 claro que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel excluir as fontes europeias, portuguesas em particular, at\u00e9 prim\u00f3rdios do s\u00e9culo XIX, da m\u00fasica brasileira. Mas nosso objetivo \u00e9 mostrar como ela sempre esteve em contato com outras manifesta\u00e7\u00f5es\u201d, explica Souza, que organizou com a educadora Flavia Maria Cruvinel, tamb\u00e9m da UFG, o volume sobre o Centro-Oeste.<\/p>\n<p>Segundo Holler, a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em hist\u00f3ria da m\u00fasica foi muito impulsionada pela tecnologia digital. A fonte mais evocada nesse campo \u00e9 a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, que desde 2012 disponibiliza on-line os peri\u00f3dicos brasileiros publicados a partir de 1808, exceto os que ainda est\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse amplo acervo que se encontram not\u00edcias de apresenta\u00e7\u00f5es, grava\u00e7\u00f5es e turn\u00eas, cr\u00edticas e cr\u00f4nicas musicais, al\u00e9m de an\u00fancios de instrumentos, discos e salas de concerto.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-506377 size-full c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-01-800.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-01-800.jpg 800w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-01-800-250x293.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-01-800-700x822.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-01-800-120x141.jpg 120w, \" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Integrantes do grupo de coco de roda Novo Quilombo, da Para\u00edba &#8211; Milena Medeiros<\/em><\/p>\n<p>Na introdu\u00e7\u00e3o do volume dedicado ao Sudeste, as historiadoras Virgi\u0301nia de Almeida Bessa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Juliana Pe\u0301rez Gonza\u0301lez, pesquisadora independente, afirmam que o s\u00e9culo XX tamb\u00e9m testemunhou a tend\u00eancia de procurar uma m\u00fasica nacional, ou seja, a \u201cbrasilidade\u201d nessa manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Mas, em se tratando de um pa\u00eds continental, como falar em uma m\u00fasica nacional \u00fanica?<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o \u00e9 abordada pelo percussionista e music\u00f3logo Eduardo Vidili, da Udesc, em seu artigo no mesmo volume. O pesquisador observa que diversas can\u00e7\u00f5es consideradas a quintess\u00eancia da brasilidade tratam o pandeiro como s\u00edmbolo nacional: \u00e9 o caso de\u00a0<em>Aquarela do Brasil<\/em>, de Ary Barroso (1903-1964), com o verso \u201cterra de samba e pandeiro\u201d, e\u00a0<em>Brasil pandeiro<\/em>, de Assis Valente (1911-1958), que coloca a associa\u00e7\u00e3o diretamente no t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Contudo, esse pequeno instrumento de percuss\u00e3o chegou a ser perseguido pela pol\u00edcia nos primeiros anos do s\u00e9culo XX: associado \u00e0 vadiagem, podia levar sambistas \u00e0 cadeia. M\u00fasicos hoje admirados, como Jo\u00e3o da Baiana (1887-1974), relataram em entrevistas anos mais tarde a repress\u00e3o que sofreram. Na d\u00e9cada de 1930, entretanto, o pandeiro j\u00e1 \u201cera reverenciado, investido de uma chave de orgulho, como algo que nos representava como na\u00e7\u00e3o\u201d, diz Vidili. Explicar essa transi\u00e7\u00e3o r\u00e1pida passa por circunst\u00e2ncias como a intera\u00e7\u00e3o entre ranchos carnavalescos e jornalistas, a portabilidade do instrumento e o esfor\u00e7o do governo de Get\u00falio Vargas (1882-1954), que transcorreu entre 1930 e 1945, para desenvolver um nacionalismo cultural no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cFoi a ascens\u00e3o do r\u00e1dio o fator decisivo para consolidar a posi\u00e7\u00e3o do pandeiro no imagin\u00e1rio nacional\u201d, constata Vidili. Em 1932, Vargas regulamentou a explora\u00e7\u00e3o de publicidade no r\u00e1dio, o que permitiu a estrutura\u00e7\u00e3o de emissoras comerciais, com destaque para a Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. \u201cVers\u00e1til, o pandeiro se encaixou muito bem no esquema de produ\u00e7\u00e3o das r\u00e1dios, em que conjuntos musicais contratados tocavam ao vivo. Ocorreu ali uma esp\u00e9cie de domestica\u00e7\u00e3o da batucada. Ao mesmo tempo, os pandeiristas do r\u00e1dio passaram a ter destaque na imprensa\u201d, prossegue o music\u00f3logo.<\/p>\n<p>De acordo com Vidili, nessa \u00e9poca, ganha for\u00e7a uma forma\u00e7\u00e3o musical comum at\u00e9 hoje no contexto do choro: o chamado regional. Nele, o \u00fanico instrumento de percuss\u00e3o \u00e9 o pandeiro. \u201cIsso acontece pela mesma raz\u00e3o que o leva a estar nas ruas, onde ocorre a persegui\u00e7\u00e3o policial: \u00e9 port\u00e1til, produz sons variados e tem um alcance sonoro pequeno em termos de volume, que se adapta ao trio de viol\u00e3o, cavaquinho e flauta.\u201d<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cA \u2018o\u0301pera\u2019 em Pireno\u0301polis desde os oitocentos\u201d, escrito em parceria com o fil\u00f3sofo Geraldo M\u00e1rcio da Silva, da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de Goi\u00e1s, Souza, da UFG, mostra a rela\u00e7\u00e3o do teatro musical da cidade de Piren\u00f3polis (GO) com as formas de sociabilidade e as estruturas de poder local, sobretudo no s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX. A palavra \u201c\u00f3pera\u201d \u00e9 grafada entre aspas porque esse termo designava qualquer apresenta\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p>O eixo da sociabilidade musical na regi\u00e3o eram as Festas do Divino Esp\u00edrito Santo, que reuniam a popula\u00e7\u00e3o em torno de bandas que tocavam a c\u00e9u aberto, principalmente com metais. Essas mesmas bandas se apresentavam em teatros, com o acr\u00e9scimo de instrumentos de cordas, o que as tornava um pouco semelhantes \u00e0s orquestras sinf\u00f4nicas. \u201cAs festas eram institui\u00e7\u00f5es muito importantes em cada localidade, praticamente uma matriz identit\u00e1ria\u201d, diz Souza.<\/p>\n<p>Nesse contexto, as bandas desempenhavam um papel fundamental, segundo a historiadora e music\u00f3loga. Os conjuntos tinham diferentes origens: formavam-se nas igrejas, nas institui\u00e7\u00f5es militares e policiais, mas tamb\u00e9m por iniciativa de particulares. \u00c9 o caso da banda Phoenix, fundada no s\u00e9culo XIX, em Piren\u00f3polis, pelo m\u00fasico Joaquim Prop\u00edcio de Pina (1867-1943), que at\u00e9 hoje permanece na ativa. \u201cAs bandas dominaram a cena musical da segunda metade do s\u00e9culo XIX no Brasil, em um tempo sem televis\u00e3o ou r\u00e1dio. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel imaginar uma festividade sem banda nessa \u00e9poca, porque s\u00f3 havia orquestras nas cidades maiores e, assim mesmo, eram poucas.\u201d O tema das bandas e das festas figura em v\u00e1rios artigos do volume dedicado ao Centro-Oeste.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-506381 size-full\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-02-800.jpg?w=640&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-02-800.jpg 800w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-02-800-250x291.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-02-800-700x815.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/RPF-musica-brasil-2024-03-02-800-120x140.jpg 120w, \" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Arquivo da Banda Phoenix | Reprodu\u00e7\u00e3o\u2009\/\u2009Facebook\u2009\/\u2009Trio RoraimeiraNo alto, a banda Phoenix, de Piren\u00f3polis (GO), nos anos 1940, e, abaixo, o Trio Roraimeira, em 2017, expoente de movimento musical do Norte do Brasil<span class=\"media-credits\">Arquivo da Banda Phoenix | Reprodu\u00e7\u00e3o\u2009\/\u2009Facebook\u2009\/\u2009Trio Roraimeira<\/span><\/em><\/p>\n<p>Souza acrescenta que uma descoberta importante de estudos recentes foi o papel das mulheres na sociabilidade musical da regi\u00e3o. \u201cA alta sociedade se reunia em saraus, que eram organizados fundamentalmente pelas mulheres. Elas tocavam e cantavam at\u00e9 com mais frequ\u00eancia do que os homens\u201d, informa. As mulheres tinham papel de organiza\u00e7\u00e3o e comando, inclusive na m\u00fasica executada em catedrais. \u201cPor\u00e9m, quando vinham padres visitadores do Vaticano, elas recuavam e se afastavam discretamente dessa fun\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>No volume dedicado ao Nordeste, os etnomusic\u00f3logos Eurides Santos, da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB), e Erivan Silva, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), abrem seu artigo afirmando que, a exemplo de outras manifesta\u00e7\u00f5es, \u201cos cocos s\u00e3o, ao mesmo tempo, g\u00eanero musical e evento popular envolvendo m\u00fasica, dan\u00e7a e poesia\u201d. Com base na conjun\u00e7\u00e3o de sons, sociabilidade e rela\u00e7\u00f5es raciais, os autores analisam a presen\u00e7a e o significado dessa pr\u00e1tica, caracterizada por um canto na forma de pergunta e resposta, acompanhada por palmas e dan\u00e7a em roda.<\/p>\n<p>De origem afro-brasileira, o coco se espalhou por \u00e1reas rurais e urbanas de estados como Alagoas, Pernambuco e Para\u00edba, acompanhando a di\u00e1spora da popula\u00e7\u00e3o negra. \u00c9 praticado em muitos quilombos at\u00e9 hoje. Adotado por comunidades ind\u00edgenas em cerim\u00f4nias como o Tor\u00e9 e o culto da Jurema, tornou-se \u201cum s\u00edmbolo de resist\u00eancia e um capital simb\u00f3lico afro-ind\u00edgena em boa parte do Nordeste\u201d, observa Santos, da UFPB. Laudos antropol\u00f3gicos usados em processos de demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas ou quilombolas chegam a apontar a manifesta\u00e7\u00e3o do coco de roda como sinal de ocupa\u00e7\u00e3o antiga da terra.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Norte do pa\u00eds, a conjun\u00e7\u00e3o entre o processo hist\u00f3rico e a diversidade de sons se revela de maneira condensada em Roraima, segundo o music\u00f3logo Gustavo Frosi Benetti e o educador musical Jefferson Tiago de Souza Mendes da Silva, ambos da Universidade Federal do Maranh\u00e3o (UFMA). Como escrevem em um dos cap\u00edtulos do volume dedicado a essa regi\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o de Roraima tem um perfil diverso, que reflete as sucessivas ondas de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia promovidas pelo governo brasileiro: das fazendas do fim do s\u00e9culo XIX \u00e0 migra\u00e7\u00e3o incentivada pelo regime militar (1964-1985). Mais recentemente, o avan\u00e7o da fronteira agropecu\u00e1ria, o garimpo e a chegada de imigrantes venezuelanos tamb\u00e9m ampliaram o leque demogr\u00e1fico de Roraima.<\/p>\n<p>Como resultado, uma grande variedade sonora se encontra hoje no estado. Os pesquisadores fizeram um levantamento dos estilos praticados na capital Boa Vista e em 14 munic\u00edpios do interior. Encontraram desde m\u00fasicas de origem ind\u00edgena, cujo primeiro registro foi feito pelo antrop\u00f3logo alem\u00e3o Theodor Koch-Gr\u00fcnberg (1872-1924) entre 1911 e 1913, at\u00e9 o reggae caribenho que vem da Guiana. Em cidades como S\u00e3o Jo\u00e3o da Baliza e Amajari, a forte presen\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o oriunda do Nordeste faz com que festas juninas sejam muito populares. J\u00e1 em S\u00e3o Luiz, desde a d\u00e9cada de 1990 migrantes ga\u00fachos realizam festas tipicamente sulinas, como a Semana Farroupilha e a Vaquejada.<\/p>\n<p>\u201cNo caso do reggae, o que chegou a Boa Vista atrav\u00e9s do munic\u00edpio de Bonfim, que faz fronteira com a cidade guianense de Lethem, foi uma sonoridade particular, diferente daquela que associamos a Bob Marley [1945-1981] e outros nomes famosos do reggae original, que surgiu na Jamaica\u201d, acrescenta Silva. \u201cAssim, formou-se na regi\u00e3o um caldeir\u00e3o musical que mistura tamb\u00e9m o carimb\u00f3 paraense, os elementos caribenhos vindos da Venezuela e outras refer\u00eancias. Esse cruzamento de sons \u00e9 muito ouvido em ocasi\u00f5es como o festival de jazz de Tepequ\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Um momento decisivo para a forma\u00e7\u00e3o da sonoridade da regi\u00e3o foi a d\u00e9cada de 1980. Na \u00e9poca, por meio de festivais de m\u00fasica e encontros de compositores, surgiu o Movimento Roraimeira. \u201cEsse \u00e9 um fen\u00f4meno bastante estudado no estado. Era fortemente calcado na produ\u00e7\u00e3o autoral e tinha a perspectiva de criar uma identidade regional por meio das artes de forma geral, n\u00e3o s\u00f3 a m\u00fasica. Nomes como Eliakin Rufino, Neuber Uch\u00f4a e Zeca Preto se destacaram no per\u00edodo e em suas composi\u00e7\u00f5es \u00e9 poss\u00edvel perceber a variedade de matrizes, sejam europeias, dos povos origin\u00e1rios ou de culturas afro-latinas\u201d, finaliza Benetti.<\/p>\n<p class=\"bibliografia separador-bibliografia\"><strong>Livro<\/strong><br \/>\nHOLLER, M. e VERMES, M. (Orgs.).\u00a0<strong>Hist\u00f3rias das m\u00fasicas no Brasil (5 volumes)<\/strong>. Vit\u00f3ria-ES: Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pesquisa e P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em M\u00fasica (Anppom), 2023.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Cole\u00e7\u00e3o explora diversidade musical das regi\u00f5es do pa\u00eds : Revista Pesquisa Fapesp &#8211; https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/colecao-explora-diversidade-musical-das-regioes-do-pais\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Viana &#8211; Livros conjugam o estudo da sonoridade com a hist\u00f3ria social das festas, concertos e bandas. 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