{"id":20439,"date":"2024-03-25T12:40:21","date_gmt":"2024-03-25T15:40:21","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20439"},"modified":"2024-03-24T10:43:19","modified_gmt":"2024-03-24T13:43:19","slug":"por-que-as-ondas-de-calor-estao-mais-intensas-e-mais-frequentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/03\/25\/por-que-as-ondas-de-calor-estao-mais-intensas-e-mais-frequentes\/","title":{"rendered":"Por que as ondas de calor est\u00e3o mais intensas e mais frequentes?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Marques<\/strong> &#8211; Trecho de\u00a0<a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/o-decenio-decisivo\/\">O dec\u00eanio decisivo.<\/a><\/p>\n<p>Boa parte do Brasil est\u00e1 vivendo nos \u00faltimos dias uma nova onda de calor sufocante, com recordes de temperaturas em v\u00e1rias regi\u00f5es, sobretudo na periferia. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica bateu recordes seguidos no \u00faltimo final de semana: em um dia (16 de mar\u00e7o) 60,1\u00b0C , no outro (17 de mar\u00e7o) 62,3\u00b0C. A acelera\u00e7\u00e3o do aquecimento \u00e9 ineg\u00e1vel e atinge \u2014 como a maioria das trag\u00e9dias ambientais \u2014 as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis. E s\u00e3o justamente esses extremos meteorol\u00f3gicos os mais perigosos para os organismos vivos, n\u00e3o s\u00f3 para os humanos, como aponta o pesquisador Luiz Marques no livro\u00a0<a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/o-decenio-decisivo\/\"><strong>O dec\u00eanio decisivo: propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia<\/strong><\/a>. Ondas de calor e de frio s\u00e3o as consequ\u00eancias primeiras e mais concretas do aquecimento global, e elas est\u00e3o ficando mais frequentes e intensas.\u00a0Leia abaixo um trecho de\u00a0<a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/o-decenio-decisivo\/\"><strong>O dec\u00eanio decisivo<\/strong><\/a>\u00a0em que Luiz Marques aborda os recordes frequentes de temperatura e os riscos para a vida humana. A obra re\u00fane um volume robusto de dados e informa\u00e7\u00f5es, com grande rigor cient\u00edfico, acerca do colapso socioambiental em curso, que demonstram como \u00e9 urgente colocar em pr\u00e1tica pol\u00edticas de sobreviv\u00eancia \u2014 tamb\u00e9m apontadas no livro.<\/p>\n<p><strong>Ondas de calor mais frequentes e mais intensas na atmosfera<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><em>De 1900 a 1980, um novo recorde de temperatura foi batido em m\u00e9dia a cada 13,5 anos. Mas, de 1981 a 2018, ele foi batido a cada tr\u00eas anos.<\/em><br \/>\n\u2014 Rebecca Lindsey &amp; LuAnn Dahlman<\/p>\n<p><em>No que se refere a ondas de calor, nossas op\u00e7\u00f5es est\u00e3o entre o ruim e o terr\u00edvel. Muitos no mundo j\u00e1 est\u00e3o pagando o pre\u00e7o \u00faltimo das ondas de calor.<\/em><br \/>\n\u2014 Camilo Mora<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora o desequil\u00edbrio energ\u00e9tico da Terra e o consequente aquecimento m\u00e9dio global do planeta sejam as m\u00e9tricas fundamentais para avaliar o n\u00edvel de desregula\u00e7\u00e3o do sistema clim\u00e1tico, esses par\u00e2metros funcionam apenas como refer\u00eancia abstrata e de m\u00e9dio prazo, pois s\u00e3o quantificados como tend\u00eancias na escala de anos ou de d\u00e9cadas. O que fustiga os organismos e os mata \u00e9 a consequ\u00eancia primeira e mais concreta dessas m\u00e9tricas: os extremos meteorol\u00f3gicos, entre os quais as ondas de frio e de calor, definidas, tal como visto para as ondas de calor marinho, como temperaturas que excedem o 90\u00ba percentil das observa\u00e7\u00f5es climatol\u00f3gicas durante um per\u00edodo de trinta anos.<\/p>\n<p>Ondas de frio extremo no hemisf\u00e9rio norte decorrem de v\u00e1rios fatores, como mudan\u00e7as nos regimes de ventos e de correntes marinhas. Destacam-se, entre eles, fases fracas mais persistentes e, consequentemente, maior sinuosidade dos jatos polares estratosf\u00e9ricos, que deixam o frio polar invadir temporariamente latitudes temperadas e permitem, inversamente, que temperaturas mais amenas\u00a0nas predominem acima do paralelo 66\u00b0N. Esse fen\u00f4meno \u00e9 causado pela diminui\u00e7\u00e3o do contraste entre temperaturas de baixas e altas latitudes, devido ao aquecimento do \u00c1rtico a uma taxa quatro vezes mais r\u00e1pida que o aquecimento m\u00e9dio global. Isso posto, a despropor\u00e7\u00e3o entre recordes de calor e de frio \u00e9 gritante. Em 2018, ano sem\u00a0<i>El Ni\u00f1o<\/i>, para quarenta recordes de frio, as esta\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas registraram 430 recordes absolutos de calor. Essas ondas e picos de calor se mostram sempre mais intensas, duradouras e frequentes, e se estendem sobre regi\u00f5es maiores. Elas exacerbam inc\u00eandios florestais e secas, alternadas com inunda\u00e7\u00f5es por trombas-d\u2019\u00e1gua e furac\u00f5es mais devastadores. Registram-se, em suma, varia\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas que se distanciam dos valores t\u00edpicos do sistema clim\u00e1tico do s\u00e9culo XX, com maior probabilidade doravante de anomalias jamais registradas no estado anterior desse sistema.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI, as probabilidades de que essas ondas e picos de calor sejam causados pela variabilidade natural do sistema clim\u00e1tico tendem rapidamente a zero. Em 2013, um trabalho de autoria de Dim Coumou, Alexander Robinson e Stefan Rahmstorf indicava que, globalmente, o n\u00famero de recordes locais de temperaturas extremas nas m\u00e9dias mensais era ent\u00e3o \u201cem m\u00e9dia cinco vezes maior do que seria de esperar num clima sem uma tend\u00eancia de aquecimento de longo prazo\u201d. Como afirma um trabalho publicado na Nature Climate Change em 2014, \u201cver\u00f5es extremamente quentes, que ocorreriam duas vezes no s\u00e9culo no in\u00edcio dos anos 2000, s\u00e3o agora esperados duas vezes por d\u00e9cada\u201d. Passaram a ser, portanto, dez vezes mais prov\u00e1veis. Referindo-se \u00e0 onda de calor europeia no ver\u00e3o de 2018, Peter Stott, do\u00a0<i>Met Office<\/i>, declarou, na 24\u00aa Confer\u00eancia das Partes (COP24), em dezembro de 2018:<\/p>\n<blockquote><p><i>Nosso estudo provis\u00f3rio comparou modelos baseados no clima de hoje com os do clima natural que ter\u00edamos sem emiss\u00f5es antropog\u00eanicas [de GEE]. Descobrimos que a intensidade da onda de calor deste ver\u00e3o \u00e9 cerca de trinta vezes mais prov\u00e1vel do que teria sido sem mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Nas palavras de Nikolaos Christidis, coautor desse estudo, h\u00e1 agora 12% de chances de as pr\u00f3ximas temperaturas m\u00e9dias estivais no Reino Unido repetirem as do ver\u00e3o de 2018 (m\u00e1xima de 35,6\u00b0C) contra menos de 0,5% numa situa\u00e7\u00e3o em que n\u00e3o houvesse mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. No que se refere a novos recordes de temperatura no Reino Unido, em 2019, o term\u00f4metro marcou 38,7\u00b0C e, em 2022, 40,8\u00b0C. Mais de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos (124,6 milh\u00f5es de pessoas) sofre agora taxas de aquecimento superiores \u00e0 m\u00e9dia global, com 499 dos 3.006 condados mostrando aquecimentos m\u00e9dios superiores a 1,5\u00b0C. Na Calif\u00f3rnia, 83% da popula\u00e7\u00e3o sofre esse n\u00edvel de aquecimento, e o condado de Ventura, a noroeste de Los Angeles, j\u00e1 sofreu um aquecimento de 2,62\u00b0C em rela\u00e7\u00e3o a 1895, data do in\u00edcio dos registros instrumentais naquele estado. No ver\u00e3o de 2021, quase um a cada tr\u00eas habitantes dos Estados Unidos (32%) vive em um condado que sofreu eventos meteorol\u00f3gicos extremos. Al\u00e9m disso, quase duas de tr\u00eas pessoas (64%) nesse pa\u00eds sofreram uma onda de calor de v\u00e1rios dias, fen\u00f4meno que tem se tornado a mais perigosa forma de evento meteorol\u00f3gico extremo, com forte aumento de mortes por excesso de calor em escala global entre 2000 e 2019. Nos Estados Unidos, \u201cmais pessoas morrem a cada ano por excesso de calor do que pela soma de tempestades, inunda\u00e7\u00f5es e inc\u00eandios florestais\u201d. Em 2019, em Phoenix, capital do estado do Arizona, e em seu condado de Maricopa, houve 103 dias com temperaturas acima de 37,7\u00b0C (100\u00b0F), o que ocasionou a morte de 197 pessoas por causas relacionadas a excesso de calor. Trata-se do quarto ano seguido de recordes de mortes por calor nessa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 pouco, esses picos e ondas de calor extremo eram chamados\u00a0<i>silent killers<\/i>, matadores silenciosos, pois, como afirmam Camilo Mora e colegas, \u201ca doen\u00e7a por calor (ou seja, a ultrapassagem grave da \u00f3tima temperatura interna do corpo) \u00e9 frequentemente mal diagnosticada, porque a exposi\u00e7\u00e3o ao calor extremo tende a resultar em disfun\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os, o que pode levar a erro de diagn\u00f3stico\u201d. Mas isso est\u00e1 mudando. No trabalho citado, Camilo Mora e dezessete coautores procuram mostrar justamente o impacto populacional direto do calor quando este ultrapassa o limiar de mortalidade dos humanos:<\/p>\n<blockquote><p><i>Atualmente, cerca de 30% da popula\u00e7\u00e3o mundial est\u00e1 exposta a condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que excedem o limiar de mortalidade por ao menos vinte dias por ano [\u2026] Uma amea\u00e7a crescente \u00e0 vida humana por excesso de calor parece agora inevit\u00e1vel, mas ser\u00e1 muito agravada se os gases de efeito estufa n\u00e3o forem consideravelmente reduzidos.<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Repercutindo esse trabalho, um editorial da revista\u00a0<i>Nature<\/i>\u00a0relembra esse fato, a que se come\u00e7a a dar mais e mais aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p><i>De chuvas extremas \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, o aquecimento global deve causar caos na vida humana. Por vezes, o impacto mais direto \u2014 o pr\u00f3prio aquecimento \u2014 \u00e9 esquecido. E, no entanto, o calor mata. Afinal, o corpo evoluiu para funcionar numa faixa muito estreita de temperaturas. Nosso mecanismo de resfriamento baseado em transpira\u00e7\u00e3o \u00e9 rudimentar; ultrapassada certa combina\u00e7\u00e3o de alta temperatura e umidade, ele falha. Estar ao sol e exposto a tal ambiente por qualquer per\u00edodo de tempo se torna rapidamente uma senten\u00e7a de morte. E esse ambiente est\u00e1 se expandindo. Uma zona de morte est\u00e1 se alastrando sobre a superf\u00edcie da Terra, ganhando um pouco mais de terreno a cada ano.<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>A transpira\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo de evapora\u00e7\u00e3o que causa resfriamento do corpo, pois as mol\u00e9culas de \u00e1gua com maior energia cin\u00e9tica (calor sens\u00edvel) evaporam, deixando no corpo as de menor energia (calor latente). A capacidade dos humanos de transpirar \u2014 e, portanto, dissipar calor \u2014 em ambientes de alta umidade \u00e9 muito menor do que em ambientes de baixa umidade. Quanto maior a umidade relativa do ar, maior \u00e9 a dificuldade de as gl\u00e2ndulas transpirat\u00f3rias acionarem esse mecanismo de resfriamento evaporativo do corpo. Em situa\u00e7\u00e3o de extrema umidade do ar, a fisiologia humana atinge seu limite de efici\u00eancia evaporativa em n\u00edveis muito baixos de calor. Esse limite, expresso pelo termo \u201ctemperatura de bulbo \u00famido\u201d (<i>wet bulb temperature<\/i> ou TW), \u00e9 ultrapassado em temperaturas maiores que 35\u00b0C (TW&gt; 35\u00b0C). Em tais temperaturas, combinadas \u00e0 alta umidade, o sistema de resfriamento natural, inclusive de organismos jovens e saud\u00e1veis, entra em alto risco de fal\u00eancia, mesmo \u00e0 sombra e com quantidades ilimitadas de hidrata\u00e7\u00e3o. A consequ\u00eancia mais prov\u00e1vel \u00e9 ent\u00e3o a morte por hipertermia ou por complica\u00e7\u00f5es a ela associadas. \u201cAlgumas localidades costeiras subtropicais\u201d, afirmam Colin Raymond e colegas, \u201cj\u00e1 reportaram uma temperatura de bulbo \u00famido de 35\u00b0C, e a frequ\u00eancia em geral desse calor extremamente \u00famido mais que dobrou desde 1979.\u201d Al\u00e9m disso, o calor pode levar \u00e0 morte por outros muitos fatores, entre os quais a desidrata\u00e7\u00e3o e a insola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Por que as ondas de calor est\u00e3o mais intensas e mais frequentes? &#8211; Editora Elefante &#8211; https:\/\/editoraelefante.com.br\/ondas-de-calor-mais-frequentes-e-mais-intensas-na-atmosfera\/?utm_source=Not%C3%ADcias+da+Editora+Elefante&amp;utm_campaign=da1b954401-EMAIL_CAMPAIGN_2024_03_19_06_30&amp;utm_medium=email&amp;utm_term=0_-da1b954401-%5BLIST_EMAIL_ID%5D&amp;goal=0_3b69653244-da1b954401-151449053&amp;mc_cid=da1b954401&amp;mc_eid=0ac7cd7efd<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Marques &#8211; Trecho de\u00a0O dec\u00eanio decisivo. 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