{"id":20403,"date":"2024-03-03T12:24:33","date_gmt":"2024-03-03T15:24:33","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20403"},"modified":"2024-03-01T11:27:08","modified_gmt":"2024-03-01T14:27:08","slug":"a-critica-de-marx-ao-colonialismo-e-mais-relevante-do-que-nunca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/03\/03\/a-critica-de-marx-ao-colonialismo-e-mais-relevante-do-que-nunca\/","title":{"rendered":"A cr\u00edtica de Marx ao colonialismo \u00e9 mais relevante do que nunca"},"content":{"rendered":"<p><strong>C.J. Polychroniou &#8211; <\/strong>Marcello Musto defende que, ao contr\u00e1rio do que afirmam equivocadas interpreta\u00e7\u00f5es liberais, Marx foi um cr\u00edtico ferrenho do colonialismo.<\/p>\n<p>Durante as \u00faltimas duas d\u00e9cadas, temos assistido a um ressurgimento do interesse pelo pensamento e pela obra de Karl Marx, autor de importantes obras filos\u00f3ficas, hist\u00f3ricas, pol\u00edticas e econ\u00f4micas\u00a0<em>\u2013<\/em>\u2014 e, claro, do\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/manifesto-comunista-teses-de-abril-692\">Manifesto comunista<\/a><\/em>, que \u00e9 talvez o manifesto pol\u00edtico mais popular do mundo. Este ressurgimento \u00e9 resultado, em grande parte, das consequ\u00eancias devastadoras do neoliberalismo em todo o mundo. Isto \u00e9, n\u00edveis sem precedentes de desigualdade econ\u00f4mica, decad\u00eancia social e descontentamento popular, bem como uma intensifica\u00e7\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o ambiental que aproxima o planeta cada vez mais de um precip\u00edcio clim\u00e1tico. Junta-se a isso a incapacidade das institui\u00e7\u00f5es formais da democracia liberal de resolver esta lista crescente de problemas sociais. Mas ser\u00e1 que Marx ainda \u00e9 relevante para o panorama socioecon\u00f4mico e pol\u00edtico que caracteriza o mundo capitalista de hoje? E o que dizer do argumento de que Marx era euroc\u00eantrico e tinha pouco ou nada a contribuir sobre o colonialismo?<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Marcello Musto, importante estudioso marxista e professor de sociologia na Universidade de York em Toronto, Canad\u00e1, tem participado desse ressurgimento do interesse por Marx. Musto afirma, numa entrevista exclusiva para a\u00a0<em>Truthout,<\/em><strong>\u00a0<\/strong>que o autor do\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/manifesto-comunista-teses-de-abril-692\">Manifesto<\/a><\/em>\u00a0ainda \u00e9 muito relevante hoje, al\u00e9m de contestar a alega\u00e7\u00e3o de que ele era euroc\u00eantrico. O professor argumenta que Marx foi, de fato, intensamente cr\u00edtico do impacto do colonialismo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>C.J. Polychroniou<\/strong>\u00a0<em>\u2013<\/em>\u00a0<em>Na \u00faltima d\u00e9cada, houve um interesse renovado na cr\u00edtica de Karl Marx ao capitalismo entre os intelectuais p\u00fablicos de esquerda. No entanto, o capitalismo mudou drasticamente desde a \u00e9poca de Marx, e a ideia de que ele est\u00e1 fadado \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o devido \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es que surgem do funcionamento de sua pr\u00f3pria l\u00f3gica j\u00e1 n\u00e3o merece credibilidade intelectual. A classe trabalhadora de hoje \u00e9 muito mais complexa e diversificada do que a da \u00e9poca da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Al\u00e9m disso, a miss\u00e3o hist\u00f3rica mundial imaginada por Marx n\u00e3o foi cumprida pela classe trabalhadora. Na verdade, foram estas considera\u00e7\u00f5es que deram origem ao p\u00f3s-marxismo, uma postura intelectual em voga entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1990, que ataca a no\u00e7\u00e3o marxista de an\u00e1lise de classe e subestima as causas materiais da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica radical. Mas agora, ao que parece, h\u00e1 um regresso mais uma vez \u00e0s ideias fundamentais de Marx. Como dever\u00edamos explicar o renovado interesse por Marx? Na verdade, Marx ainda \u00e9 relevante hoje?<\/em><br \/>\n<strong>Marcello Musto<\/strong><em>\u00a0\u2013<\/em>\u00a0A queda do Muro de Berlim foi seguida por duas d\u00e9cadas de conspira\u00e7\u00e3o de sil\u00eancio sobre a obra de Marx. Nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000, a aten\u00e7\u00e3o dada a Marx era extremamente escassa e o mesmo pode ser dito sobre a publica\u00e7\u00e3o, e a discuss\u00e3o, dos seus escritos. O trabalho de Marx \u2014 j\u00e1 n\u00e3o identificado com a detest\u00e1vel fun\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>instrumentum regni<\/em>\u00a0da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2014 tornou-se o foco de um renovado interesse global em 2008, ap\u00f3s uma das maiores crises econ\u00f4micas da hist\u00f3ria do capitalismo. Jornais de prest\u00edgio, bem como peri\u00f3dicos de amplo p\u00fablico, descreveram o autor de\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-capital-livro-1-nova-edicao-1337\">O capital<\/a>\u00a0<\/em>como um te\u00f3rico clarividente, cuja atualidade recebeu mais uma vez confirma\u00e7\u00e3o. Marx tornou-se, em quase toda parte, tema de cursos universit\u00e1rios e confer\u00eancias internacionais. Os seus escritos reapareceram nas prateleiras das livrarias e a sua interpreta\u00e7\u00e3o do capitalismo ganhou impulso renovado.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nos \u00faltimos anos, assistiu-se tamb\u00e9m a uma reconsidera\u00e7\u00e3o de Marx enquanto te\u00f3rico pol\u00edtico, fazendo com que muitos autores de vis\u00e3o progressista sustentassem que as suas ideias continuam a ser indispens\u00e1veis para quem acredita ser necess\u00e1rio construir uma alternativa \u00e0 sociedade em que vivemos. O recente \u201crenascimento de Marx\u201d n\u00e3o se limita apenas \u00e0 sua cr\u00edtica \u00e0 economia pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m \u00e0 redescoberta da ideologia e das interpreta\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas do autor de\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-capital-livro-1-nova-edicao-1337\">O capital<\/a><\/em>. Ao mesmo tempo, muitas teorias p\u00f3s-marxistas demonstraram suas fal\u00e1cias e acabaram por aceitar os fundamentos concretos da sociedade \u2014 embora as desigualdades que a destroem e minam completamente a sua coexist\u00eancia democr\u00e1tica estejam a crescer de formas cada vez mais dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Certamente, a an\u00e1lise de Marx sobre a classe trabalhadora precisa de ser reformulada, uma vez que foi desenvolvida na observa\u00e7\u00e3o de uma forma diferente de capitalismo. Se as respostas para muitos dos nossos problemas contempor\u00e2neos n\u00e3o podem ser encontradas em Marx, ele centra, no entanto, as quest\u00f5es essenciais. Penso que esta \u00e9 a sua maior contribui\u00e7\u00e3o hoje: ele nos ajuda a fazer as perguntas certas, a identificar as principais contradi\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o me parece pouca coisa. Marx ainda tem muito a nos ensinar. A sua elabora\u00e7\u00e3o contribui para compreendermos melhor o qu\u00e3o indispens\u00e1vel ele \u00e9 para tra\u00e7ar uma alternativa ao capitalismo \u2014 hoje, ainda mais urgentemente do que no seu tempo.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>CJP<\/strong>\u00a0<em>\u2013<\/em>\u00a0<em>Os escritos de Marx incluem discuss\u00f5es sobre quest\u00f5es como natureza, migra\u00e7\u00e3o e fronteiras, que recentemente receberam aten\u00e7\u00e3o renovada. Voc\u00ea pode discutir brevemente a abordagem de Marx \u00e0 natureza e sua opini\u00e3o sobre migra\u00e7\u00e3o e fronteiras?<\/em><br \/>\n<strong>MM\u00a0<\/strong><em>\u2013<\/em><strong>\u00a0<\/strong>Marx estudou muitos assuntos \u2014 no passado muitas vezes subestimados, ou mesmo ignorados, pelos seus estudiosos\u00a0<em>\u2014<\/em>\u00a0que s\u00e3o de import\u00e2ncia crucial para a agenda pol\u00edtica dos nossos tempos. A relev\u00e2ncia que Marx atribuiu \u00e0 quest\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9 o foco de alguns dos principais estudos dedicados \u00e0 sua obra nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. Em contraste com interpreta\u00e7\u00f5es que reduziam a concep\u00e7\u00e3o de socialismo de Marx ao mero desenvolvimento das for\u00e7as produtivas (trabalho, instrumentos e mat\u00e9ria-prima), ele demonstrou grande interesse pelo que hoje chamamos de quest\u00e3o ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em repetidas ocasi\u00f5es, Marx argumentou que a expans\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista aumenta n\u00e3o s\u00f3 a explora\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, mas tamb\u00e9m contribui para o esgotamento<strong>\u00a0<\/strong>dos recursos naturais. Ele denunciou que \u201ctodo progresso na agricultura capitalista \u00e9 um progresso na arte, n\u00e3o apenas de roubar o trabalhador, mas tamb\u00e9m de roubar o solo\u201d. Em\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-capital-livro-1-nova-edicao-1337\">O capital<\/a>.<\/em>, Marx observou que a propriedade privada da terra por indiv\u00edduos \u00e9 t\u00e3o absurda quanto a propriedade privada de um ser humano por outro ser humano.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Marx tamb\u00e9m se interessou muito pela migra\u00e7\u00e3o e entre os seus \u00faltimos estudos est\u00e3o notas sobre o massacre ocorrido em S\u00e3o Francisco, em 1877, contra os migrantes chineses. Marx criticou os demagogos anti-chineses quando estes afirmavam que os migrantes fariam os prolet\u00e1rios brancos morrer de fome. Sua cr\u00edtica tamb\u00e9m foi contra aqueles que tentaram persuadir a classe trabalhadora a apoiar posi\u00e7\u00f5es xen\u00f3fobas. Assim, Marx mostrou que o movimento for\u00e7ado de trabalho gerado pelo capitalismo era um componente muito importante da explora\u00e7\u00e3o burguesa e que a chave para combat\u00ea-lo era a solidariedade de classe entre os trabalhadores, independentemente das suas origens ou de qualquer distin\u00e7\u00e3o entre trabalho local e importado.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>CJP<\/strong>\u00a0<em>\u2013<\/em>\u00a0<em>Uma das obje\u00e7\u00f5es mais ouvidas sobre Marx \u00e9 que ele era euroc\u00eantrico e que at\u00e9 justificou o colonialismo como necess\u00e1rio para a modernidade. No entanto, embora Marx nunca tenha desenvolvido a sua teoria do colonialismo t\u00e3o extensivamente como a sua cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, ele condenou o dom\u00ednio brit\u00e2nico na \u00cdndia nos termos mais inequ\u00edvocos, por exemplo, e criticou aqueles que n\u00e3o conseguiram ver as consequ\u00eancias destrutivas do colonialismo. Como voc\u00ea avalia Marx nessas quest\u00f5es?<\/em><br \/>\n<strong>MM\u00a0<\/strong><em>\u2013<\/em><strong>\u00a0<\/strong>O h\u00e1bito de usar cita\u00e7\u00f5es descontextualizadas da obra de Marx data de muito antes do\u00a0<em>Orientalismo\u00a0<\/em>de Edward Said, um livro influente que contribuiu para o mito do alegado eurocentrismo de Marx. Hoje, leio frequentemente reconstru\u00e7\u00f5es das an\u00e1lises de Marx sobre processos hist\u00f3ricos muito complexos que s\u00e3o puras inven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">J\u00e1 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1850, nos seus artigos (contestados por Said) para o\u00a0<em>New-York Tribune<\/em>\u00a0\u2014 um jornal com o qual colaborou durante mais de uma d\u00e9cada \u2014 Marx n\u00e3o tinha ilus\u00f5es sobre as caracter\u00edsticas b\u00e1sicas do capitalismo. Ele sabia muito bem que a burguesia nunca tinha \u201crealizado um progresso sem arrastar indiv\u00edduos e pessoas em sangue e sujeira, atrav\u00e9s da mis\u00e9ria e da degrada\u00e7\u00e3o\u201d. Mas ele tamb\u00e9m estava convencido de que, atrav\u00e9s do com\u00e9rcio mundial, do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e da transforma\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o em algo cientificamente capaz de dominar as for\u00e7as da natureza, \u201ca ind\u00fastria e o com\u00e9rcio burgueses [criariam] estas condi\u00e7\u00f5es materiais de um novo mundo.\u201d Estas considera\u00e7\u00f5es refletiam apenas uma vis\u00e3o parcial e ing\u00eanua do colonialismo sustentada por um homem que escrevia um artigo jornal\u00edstico com apenas 35 anos de idade.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Mais tarde, Marx empreendeu extensas investiga\u00e7\u00f5es sobre sociedades n\u00e3o europeias e o seu anticolonialismo ferrenho tornou-se ainda mais evidente. Estas considera\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u00f3bvias para qualquer pessoa que tenha lido Marx, apesar do ceticismo em alguns c\u00edrculos acad\u00eamicos que representam uma forma bizarra de decolonialidade e assimilam Marx a pensadores liberais. Quando Marx escreveu sobre o dom\u00ednio da Inglaterra na \u00cdndia, afirmou que os brit\u00e2nicos s\u00f3 conseguiram \u201cdestruir a agricultura nativa e duplicar o n\u00famero e a intensidade da fome\u201d. Para Marx, a supress\u00e3o da propriedade coletiva da terra na \u00cdndia nada mais foi do que um ato de vandalismo ingl\u00eas, empurrando o povo nativo para tr\u00e1s, e certamente n\u00e3o para a frente.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Em nenhum lugar das obras de Marx h\u00e1 a sugest\u00e3o de uma distin\u00e7\u00e3o essencialista entre as sociedades do Oriente e do Ocidente. E, de fato, o anticolonialismo de Marx \u2014 particularmente a sua capacidade de compreender as verdadeiras ra\u00edzes deste fen\u00f4meno \u2014 contribui para a nova onda contempor\u00e2nea de interesse pelas suas teorias, do Brasil \u00e0 \u00c1sia.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>CJP<\/strong>\u00a0<em>\u2013 A \u00faltima viagem que Karl Marx empreendeu antes de morrer foi em Argel. Voc\u00ea pode destacar suas reflex\u00f5es sobre o mundo \u00e1rabe e o que ele achou da ocupa\u00e7\u00e3o francesa na Arg\u00e9lia?<\/em><br \/>\n<strong>MM<\/strong>\u00a0<em>\u2013<\/em>\u00a0Contei esta hist\u00f3ria \u2014 t\u00e3o pouco conhecida \u2014 no meu livro,\u00a0<em><a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/o-velho-marx-802\"><strong>O velho Marx<\/strong>:\u00a0<strong>uma biografia de seus \u00faltimos anos (1881-1883)<\/strong><\/a><\/em>. No inverno de 1882, \u00faltimo ano de sua vida, Marx teve uma grave bronquite e seu m\u00e9dico recomendou-lhe um per\u00edodo de descanso em um lugar quente como Argel, para escapar dos rigores do inverno. Foi a \u00fanica vez em sua vida que passou fora da Europa.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Devido \u00e0 sua sa\u00fade debilitada, Marx n\u00e3o conseguiu estudar a sociedade argelina como gostaria. Em 1879, j\u00e1 tinha examinado a ocupa\u00e7\u00e3o francesa na Arg\u00e9lia e argumentado que a transfer\u00eancia da propriedade fundi\u00e1ria das m\u00e3os dos nativos<strong>\u00a0<\/strong>para as dos colonos tinha um objetivo central: \u201ca destrui\u00e7\u00e3o da propriedade coletiva e sua transforma\u00e7\u00e3o em objetos de compra e venda\u201d. Marx notou que esta expropria\u00e7\u00e3o tinha dois prop\u00f3sitos: fornecer aos franceses o m\u00e1ximo de terras poss\u00edvel e arrancar os \u00e1rabes dos seus la\u00e7os naturais com o solo, o que significava mitigar qualquer perigo de rebeli\u00e3o. Marx comentou que esse tipo de individualiza\u00e7\u00e3o da propriedade da terra n\u00e3o s\u00f3 garantiu enormes benef\u00edcios econ\u00f4micos para os invasores, mas tamb\u00e9m alcan\u00e7ou um objetivo pol\u00edtico: \u201cdestruir os alicerces da sociedade\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Embora Marx n\u00e3o pudesse prosseguir essa investiga\u00e7\u00e3o, ele fez uma s\u00e9rie de observa\u00e7\u00f5es interessantes sobre o mundo \u00e1rabe quando esteve em Argel. Ele atacou, com indigna\u00e7\u00e3o, os abusos violentos dos franceses, os seus constantes atos provocativos, a sua arrog\u00e2ncia descarada, a presun\u00e7\u00e3o e a obsess\u00e3o em vingan\u00e7a \u2014 como\u00a0<em>Moloch\u00a0<\/em>face a cada ato de rebeli\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe local.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\">Nas suas cartas de Argel, Marx relatou que, quando um assassinato \u00e9 cometido por um bando \u00e1rabe, geralmente com a inten\u00e7\u00e3o de roubar, e os criminosos s\u00e3o devidamente detidos, julgados e executados, isso n\u00e3o \u00e9 considerado castigo suficiente para a fam\u00edlia do colono roubada. Exigem ainda a pris\u00e3o de pelo menos meia d\u00fazia de \u00e1rabes inocentes: \u201cUma esp\u00e9cie de tortura \u00e9 aplicada pela pol\u00edcia, para for\u00e7ar os \u00e1rabes a \u2018confessar\u2019, tal como os brit\u00e2nicos fazem na \u00cdndia.\u201d Marx escreveu que quando um colono europeu vive entre aqueles que s\u00e3o considerados \u201cra\u00e7as inferiores\u201d, seja como colono ou simplesmente a neg\u00f3cios, geralmente considera-se mais inviol\u00e1vel do que o rei. E Marx tamb\u00e9m enfatizou que, na hist\u00f3ria comparada da ocupa\u00e7\u00e3o colonial, \u201cos brit\u00e2nicos e os holandeses superam os franceses\u201d.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-justify\"><strong>CJP<\/strong><em>\u00a0\u2013<\/em>\u00a0<em>Estas reflex\u00f5es lan\u00e7am alguma luz sobre a perspectiva geral de Marx sobre o colonialismo?<\/em><br \/>\n<strong>MM<\/strong>\u00a0<em>\u2013<\/em>\u00a0Marx sempre se expressou de forma inequ\u00edvoca contra a devasta\u00e7\u00e3o do colonialismo. \u00c9 um erro sugerir o contr\u00e1rio, apesar do ceticismo instrumental t\u00e3o em voga hoje em dia em certos meios acad\u00eamicos liberais. Durante a sua vida, Marx observou de perto os principais acontecimentos na pol\u00edtica internacional e, como podemos ver pelos seus escritos e cartas, expressou firme oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 opress\u00e3o colonial brit\u00e2nica na \u00cdndia, ao colonialismo franc\u00eas na Arg\u00e9lia, e a todas as outras formas de domina\u00e7\u00e3o colonial. Ele era tudo menos euroc\u00eantrico e fixado apenas no conflito de classes. Marx considerou fundamental o estudo de novos conflitos pol\u00edticos e \u00e1reas geogr\u00e1ficas perif\u00e9ricas para a sua cr\u00edtica ao sistema capitalista. Mais importante ainda, ele sempre ficou do lado dos oprimidos contra os opressores.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-right\">Publicado no site\u00a0<em><a href=\"https:\/\/truthout.org\/articles\/dont-dismiss-marx-his-critique-of-colonialism-is-more-relevant-than-ever\/\">Truthout<\/a><\/em> em 14 de dezembro de 2023. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Cantalice para o Blog da Boitempo.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Musto: A cr\u00edtica de Marx ao colonialismo \u00e9 mais relevante do que nunca \u2013 Blog da Boitempo &#8211; https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2024\/01\/16\/musto-a-critica-de-marx-ao-colonialismo-e-mais-relevante-do-que-nunca\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C.J. Polychroniou &#8211; Marcello Musto defende que, ao contr\u00e1rio do que afirmam equivocadas interpreta\u00e7\u00f5es liberais, Marx foi um cr\u00edtico ferrenho do colonialismo. 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