{"id":20259,"date":"2024-01-10T12:28:16","date_gmt":"2024-01-10T15:28:16","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20259"},"modified":"2024-01-03T15:30:33","modified_gmt":"2024-01-03T18:30:33","slug":"o-culto-do-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2024\/01\/10\/o-culto-do-trabalho\/","title":{"rendered":"O culto do trabalho"},"content":{"rendered":"<p><strong>Anselm Jappe<\/strong> &#8211; <strong style=\"font-size: 16px;\">A pregui\u00e7a \u00e9 uma forma de resist\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Num dos contos dos irm\u00e3os Grimm, um grupo de lavradores rivaliza at\u00e9 o grotesco ao descrever sua pregui\u00e7a: n\u00e3o dobrar as pernas quando uma carro\u00e7a passa por cima delas, n\u00e3o estender a m\u00e3o para pegar o p\u00e3o apesar da fome\u2026 E, sobretudo, n\u00e3o cumprir as ordens. De uma forma exagerada, este conto testemunha a resist\u00eancia popular ao trabalho imposto pelos patr\u00f5es.<\/p>\n<p>De fato, os conceitos de pregui\u00e7a e de trabalho s\u00f3 fazem sentido se os relacionarmos entre si. Nas condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9-modernas, encontramos ritmos de vida em que momentos de intensa atividade, por vezes experimentados como um desafio ou uma excita\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel, se alternam com longos intervalos em que os indiv\u00edduos consomem pouca energia, at\u00e9 o imobilismo. Este modo de vida \u00e9 facilmente reconstitu\u00eddo quando as condi\u00e7\u00f5es lhe s\u00e3o favor\u00e1veis, como se correspondesse a uma natureza humana. Mas foi rotulado de modo infame como \u201cpregui\u00e7a\u201d pelos detentores de um modo de produ\u00e7\u00e3o baseado no trabalho constante \u2013 que durante muito tempo foi a sina dos escravos.<\/p>\n<p><strong>Como chegamos at\u00e9 aqui?<\/strong><\/p>\n<p>A partir do final da Idade M\u00e9dia, o trabalho aumentou muito \u00e0 escala social: em quantidade, com picos no s\u00e9culo XIX, mas tamb\u00e9m em densidade, ao mesmo tempo em que seu sentido diminu\u00eda como resultado da crescente divis\u00e3o do trabalho industrial \u2013 a linha de montagem foi a forma mais extrema disso. Os indiv\u00edduos, os grupos sociais e as culturas que n\u00e3o se submetiam por toda vida ao trabalho eram estigmatizados como \u201cpregui\u00e7osos\u201d, \u201cparasitas\u201d, \u201cin\u00fateis\u201d, sujeitos a v\u00edcios e crimes. Tudo era permitido em rela\u00e7\u00e3o a eles: \u201creeduca\u00e7\u00e3o\u201d, trabalhos for\u00e7ados, at\u00e9 mesmo o exterm\u00ednio \u2013 os ciganos, por exemplo.<\/p>\n<p>Exaltado na ci\u00eancia, nas artes, na ideologia e na mentalidade dos s\u00e9culos XIX e XX, o culto do trabalho era quase un\u00e2nime, mesmo entre os trabalhadores \u2013 o \u201cmovimento oper\u00e1rio\u201d \u2013, que reprovavam os \u201cburgueses\u201d por serem ociosos. A imposi\u00e7\u00e3o universal do trabalho produziu, por sua vez, em c\u00edrculos mais restritos, um \u201celogio da pregui\u00e7a\u201d, do qual o panfleto de Paul Lafargue \u00e9 a express\u00e3o mais conhecida \u2013 trata-se at\u00e9 hoje de uma leitura agrad\u00e1vel e constitui uma provoca\u00e7\u00e3o \u00fatil, sobretudo no seio do marxismo, mesmo que seu alcance te\u00f3rico seja um pouco sobrestimado. Mas seus limites n\u00e3o residem no suposto fato de que se deveria \u201ctrabalhar mesmo assim\u201d\u2026<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o problema ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 que esta abordagem s\u00f3 conhece a n\u00e3o atividade e o repouso absoluto como alternativas ao trabalho capitalista. Se vivermos como Di\u00f3genes em seu barril, seremos levados \u00e0 ideia de que as m\u00e1quinas trabalhar\u00e3o em nosso lugar. Esta esperan\u00e7a de automatiza\u00e7\u00e3o nasceu durante os \u201ctrinta anos gloriosos\u201d sob o nome de \u201csociedade do lazer\u201d, que consistia em reduzir o tempo nominal de trabalho com a utopia de poder prescindir quase completamente dele um dia. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os avan\u00e7os da inform\u00e1tica e da rob\u00f3tica renovaram a ideia de que as tecnologias reduziriam o tempo de trabalho a um m\u00ednimo\u2026 mas o fato \u00e9 que o dom\u00ednio do trabalho sobre a vida \u00e9 mais forte do que nunca!<\/p>\n<p>Num mundo de precariedade permanente e de flexibilidade obrigat\u00f3ria, todas as vidas carregam a marca do trabalho: quer o tenhamos, quer estejamos \u00e0 procura dele ou em forma\u00e7\u00e3o para ele. Num passado recente, ainda era poss\u00edvel esquecer o trabalho quando se deixava a f\u00e1brica ou o escrit\u00f3rio. A esperan\u00e7a de podermos usufruir de um consumo capitalista sem trabalho capitalista, porque os rob\u00f4s ser\u00e3o nossos trabalhadores e servos, est\u00e1 ultrapassada: al\u00e9m disso, as tecnologias representam cada vez mais uma amea\u00e7a, mas nos \u00e9 proposto que confiemos neles at\u00e9 as nossas atividades intelectuais ou a nossa reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Um mundo totalmente automatizado parece ser um pre\u00e7o muito alto a pagar para escapar do trabalho.<\/p>\n<p><strong>Ainda assim, o horizonte deve ser a supera\u00e7\u00e3o do trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>A divis\u00e3o est\u00e1 realmente entre \u201cpregui\u00e7a\u201d e \u201ctrabalho\u201d? Ou talvez entre atividade sensata e atividade insensata? Mesmo as atividades cansativas podem ser agrad\u00e1veis quando s\u00e3o escolhidas livremente e cont\u00eam suas finalidades nelas mesmas: quem gosta de cultivar uma horta n\u00e3o gostaria de receber seus tomates num clique. \u00c9 a obriga\u00e7\u00e3o permanente de trabalhar para viver que d\u00e1 origem ao desejo oposto de n\u00e3o fazer nada. A pregui\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica alternativa ao trabalho. Como bem explica Alastair Hemmens em\u00a0<em>Nunca trabalhe!<\/em>, a cr\u00edtica do trabalho dos \u00faltimos dois s\u00e9culos \u2013 minorit\u00e1ria, muitas vezes limitada aos c\u00edrculos art\u00edsticos e bo\u00eamios, tendo como ponto alto o \u201cnunca trabalhe\u201d de Guy Debord \u2013 n\u00e3o levou verdadeiramente em conta aquilo a que Karl Marx chamou \u201ca dupla natureza do trabalho\u201d: abstrato e concreto.<\/p>\n<p>Na sociedade capitalista, cada trabalho tem um lado concreto que o diferencia dos outros e satisfaz uma necessidade qualquer. Ao mesmo tempo, todos os trabalhos s\u00e3o iguais por sua dimens\u00e3o \u201cabstrata\u201d: neste caso, \u00e9 o tempo de trabalho que conta \u2013 a dimens\u00e3o puramente quantitativa que cria o \u201cvalor\u201d das mercadorias e que se torna finalmente vis\u00edvel num pre\u00e7o. O mesmo trabalho possui estes dois lados. Mas, na produ\u00e7\u00e3o capitalista, \u00e9 a dimens\u00e3o abstrata que est\u00e1 por cima. E isso \u00e9 indiferente ao conte\u00fado, visando apenas seu crescimento quantitativo.<\/p>\n<p>O que conta n\u00e3o \u00e9 nem a utilidade, nem a qualidade do produto, nem a satisfa\u00e7\u00e3o do produtor. Os aspectos mais desagrad\u00e1veis do trabalho, como a explora\u00e7\u00e3o, os ritmos fren\u00e9ticos, a especializa\u00e7\u00e3o extrema e, muitas vezes, a perda de sentido \u2013 trabalha-se por um sal\u00e1rio ou uma renda, n\u00e3o por um resultado vis\u00edvel, como ocorria com o campon\u00eas ou o artes\u00e3o \u2013 s\u00e3o as consequ\u00eancias deste papel do trabalho na sociedade moderna. \u00c9 por isso que a grande maioria das profiss\u00f5es n\u00e3o oferece qualquer satisfa\u00e7\u00e3o, fazendo, em vez disso, sonhar com a pregui\u00e7a.<\/p>\n<p>At\u00e9 poder\u00edamos argumentar que h\u00e1 trabalhos pouco agrad\u00e1veis, mas algu\u00e9m deve faz\u00ea-los assim mesmo; na realidade, a grande maioria dos empregos contempor\u00e2neos n\u00e3o s\u00e3o objetivamente necess\u00e1rios, e a humanidade n\u00e3o perderia nada se eles fossem abolidos. Ao mesmo tempo, a sociedade do trabalho impede frequentemente as atividades que n\u00e3o s\u00e3o rent\u00e1veis, condenando os indiv\u00edduos a uma inatividade indesejada, por exemplo, expulsando camponeses de suas terras, das quais eles j\u00e1 n\u00e3o podem viver, ou impedindo as pessoas que querem ser ativas de acessar os recursos ou as resid\u00eancias, com o pretexto de serem propriedades privadas.<\/p>\n<p>Estamos assistindo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de massas cada vez maiores de \u201csup\u00e9rfluos\u201d, pessoas muitas vezes condenadas a uma pregui\u00e7a involunt\u00e1ria. Al\u00e9m disso, mesmo as atividades mais nocivas, como a fabrica\u00e7\u00e3o e venda de armas ou de pesticidas, s\u00e3o consideradas trabalho, ao passo que uma grande parte das atividades dom\u00e9sticas, geralmente realizadas por mulheres, como o cuidado das crian\u00e7as ou dos idosos, n\u00e3o o s\u00e3o, independentemente de sua utilidade.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o a categoria \u201ctrabalho\u201d \u00e9 amb\u00edgua?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso lembrar que a categoria \u201ctrabalho\u201d \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o moderna: nas sociedades anteriores, as atividades produtivas, a reprodu\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, os jogos, os rituais e a vida social formavam um\u00a0<em>continuum<\/em>. A burguesia capitalista, sobretudo a partir do s\u00e9culo XVIII, atribuiu uma nobreza particular \u00e0s atividades que nomeamos \u201ctrabalho\u201d. A palavra \u201ctrabalho\u201d n\u00e3o significa originalmente a atividade \u00fatil, mas prov\u00e9m do baixo latim\u00a0<em>tripalium<\/em>, um instrumento de tortura utilizado para castigar os servos recalcitrantes. O latim\u00a0<em>labor<\/em>\u00a0refere-se ao peso sob o qual cambaleamos, ou seja, \u00e0 dor f\u00edsica; o alem\u00e3o\u00a0<em>Arbeit<\/em>\u00a0refere-se \u00e0 dor e \u00e0 fadiga.<\/p>\n<p>Em quase todas as culturas, o trabalho foi considerado um sofrimento que se deve limitar ao estritamente necess\u00e1rio para satisfazer necessidades e desejos; s\u00f3 na modernidade capitalista, em que a quantidade de trabalho (pr\u00f3prio ou alheio, do qual se apropria) determina o papel social do indiv\u00edduo, \u00e9 que ele se afirmou como um pilar da vida econ\u00f4mica e social. Com esta valoriza\u00e7\u00e3o moral do esfor\u00e7o, acabamos com a quest\u00e3o da finalidade do trabalho.<\/p>\n<p><strong>Como seria uma sociedade livre desse dogma do trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Uma sociedade livre de trabalho n\u00e3o estaria necessariamente condenada a n\u00e3o fazer nada. Ela definiria o que \u00e9 realmente necess\u00e1rio para uma \u201cboa vida\u201d, antes de distribuir as atividades indispens\u00e1veis \u00e0 sua realiza\u00e7\u00e3o. A quantidade de trabalho necess\u00e1rio seria ent\u00e3o muito reduzida, o que s\u00f3 \u00e9 um problema quando o trabalho \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para se poder viver. Numa sociedade um pouco razo\u00e1vel, que j\u00e1 n\u00e3o identifica a felicidade social com a \u201ccria\u00e7\u00e3o de empregos\u201d, isso significaria ultrapassar a alternativa entre a pregui\u00e7a e a fadiga in\u00fatil.<\/p>\n<p>A renda universal garantida \u00e9 problem\u00e1tica por v\u00e1rias raz\u00f5es. No entanto, ao abrir a possibilidade de escapar \u00e0 chantagem do trabalho a todo custo, ela poderia ajudar a romper com a ideologia de que \u201cse uma pessoa n\u00e3o quer trabalhar, ela tamb\u00e9m n\u00e3o comer\u00e1\u201d e, assim, ajudar a inverter a glorifica\u00e7\u00e3o secular do trabalho. N\u00e3o em nome da pregui\u00e7a em si, mas em nome de atividades que t\u00eam sentido em si mesmas e que s\u00e3o conscientemente escolhidas.<\/p>\n<p><strong>*Anselm Jappe<\/strong><em>\u00a0\u00e9 professor na Academia de Belas Artes de Sassari, na It\u00e1lia. Autor, entre outros livros, de\u00a0<a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/a-sociedade-autofagica\/\"><strong>A sociedade autof\u00e1gica:<\/strong>\u00a0<strong>capitalismo, desmesura e autodestrui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a>\u00a0(2021) e co-autor de\u00a0<a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/capitalismo-em-quarentena\/\"><strong>Capitalismo em quarentena: notas sobre a crise global\u00a0<\/strong><\/a>(2020).<\/em><\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O culto do trabalho &#8211; Editora Elefante &#8211; https:\/\/editoraelefante.com.br\/o-culto-do-trabalho\/?utm_source=Not%C3%ADcias+da+Editora+Elefante&amp;utm_campaign=e37e16cd35-EMAIL_CAMPAIGN_2023_12_15_05_21&amp;utm_medium=email&amp;utm_term=0_-e37e16cd35-%5BLIST_EMAIL_ID%5D&amp;goal=0_3b69653244-e37e16cd35-151449053&amp;mc_cid=e37e16cd35&amp;mc_eid=0ac7cd7efd<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anselm Jappe &#8211; A pregui\u00e7a \u00e9 uma forma de resist\u00eancia? 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