{"id":20181,"date":"2023-12-16T12:26:58","date_gmt":"2023-12-16T15:26:58","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20181"},"modified":"2023-12-12T10:29:17","modified_gmt":"2023-12-12T13:29:17","slug":"a-filosofia-que-pensa-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/12\/16\/a-filosofia-que-pensa-o-brasil\/","title":{"rendered":"A filosofia que pensa o Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>ANTONIO VALVERDE*<\/strong> &#8211; Qui\u00e7\u00e1, seja chegada a hora de pensar o que \u00e9 o Brasil, sob um vagar ocioso, por\u00e9m, sim\u00e9trico \u00e0s urg\u00eancias do tempo presente.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cS\u00f3 h\u00e1 determinismo onde h\u00e1 mist\u00e9rio. Mas que temos n\u00f3s com isso? [\u2026] A nossa independ\u00eancia ainda n\u00e3o foi proclamada.\u201d (Oswald de Andrade,\u00a0<em>Manifesto Antrop\u00f3fago<\/em>, ano 374 da Degluti\u00e7\u00e3o do Bispo Sardinha, maio de 1928).<a id=\"_ednref1\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn1\">[i]<\/a><\/p>\n<p>\u201cTrazendo de pa\u00edses distantes nossas formas de vida, nossas institui\u00e7\u00f5es e nossa vis\u00e3o do mundo e timbrado em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavor\u00e1vel e hostil, somos uns desterrados em nossa terra.\u201d<\/p>\n<p>(SERGIO BUARQUE de HOLANDA,\u00a0<em>Ra\u00edzes do Brasil<\/em>, 1936).<a id=\"_ednref2\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn2\">[ii]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Sintomas e ind\u00edcios da filosofia no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Espessando a\u00a0<em>anamnesis<\/em>\u00a0do anivers\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil, a mat\u00e9ria \u201c200 anos, 200 livros\u201d,<a id=\"_ednref3\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn3\">[iii]<\/a>\u00a0do caderno \u201cIlustr\u00edssima\u201d, da<em>\u00a0Folha de S. Paulo<\/em>\u00a0de 04 de maio de 2022, trouxe uma lista de livros para \u201centender o Brasil\u201d, fruto de consulta a cento e sessenta e nove intelectuais. Encabe\u00e7ada pelo romance\u00a0<em>Quarto de despejo<\/em>, de Carolina de Jesus (1960), seguido de\u00a0<em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, de Guimar\u00e3es Rosa (1956), empatado com o relato m\u00edtico e autobiogr\u00e1fico,\u00a0<em>A queda do c\u00e9u: palavras de um xam\u00e3 yanomami,\u00a0<\/em>de Davi Kopenawa e Bruce Albert (2015).<\/p>\n<p>O primeiro com vinte e nove indica\u00e7\u00f5es, os segundos com vinte cada. Por\u00e9m, pr\u00f3ximo ao campo da filosofia, somente o ensaio\u00a0<em>Brasil: mito fundador e sociedade autorit\u00e1ria<\/em>, de Marilena Chau\u00ed, (2000), aparece mencionado. Ressalvado que, da lista, constam quarenta e oito livros acerca da condi\u00e7\u00e3o dos afrodescendentes e dezesseis, da dos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Qual tem sido o sintoma mais geral da Filosofia no Brasil? Por que ainda n\u00e3o foi criado um pensamento filos\u00f3fico brasileiro? Por que n\u00e3o superamos a coloniza\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, em curso, subsequente \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>Ratio Studiorum<\/em>, dos jesu\u00edtas, promovida aos alunos do Col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas da cidade de Salvador da Bahia, ao tempo do Brasil Col\u00f4nia, entre 1553 e 1759, sob o arco do esp\u00edrito barroco?<\/p>\n<p>Esp\u00edrito que se perpetuou, mesmo encerrada a catequese filosofal dos jesu\u00edtas, em vista da guinada pol\u00edtico-cultural institu\u00edda pelo Marqu\u00eas de Pombal, via inten\u00e7\u00e3o de renova\u00e7\u00e3o cultural de Portugal e das col\u00f4nias, ao tempo inaugural do Esclarecimento. Por que ainda n\u00e3o existe um estudo cr\u00edtico em torno da forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica brasileira,<a id=\"_ednref4\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn4\">[iv]<\/a>\u00a0aos moldes do ocorrido com os estudos da \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d da literatura brasileira, por Antonio Candido, da pol\u00edtica, por Caio Prado J\u00fanior e da economia, por Celso Furtado, a meados do s\u00e9culo passado?<\/p>\n<p>No caso da economia, o problema foi aprofundado e realinhado, por Francisco de Oliveira, em\u00a0<em>Cr\u00edtica \u00e0 Raz\u00e3o Dualista \/ O ornitorrinco\u00a0<\/em>(1981),ao retomar a tese furtadiana de que os planejamentos econ\u00f4micos nacionais s\u00e3o erigidos para refor\u00e7ar a manuten\u00e7\u00e3o da desigualdade social e da pobreza. Al\u00e9m das obras dos int\u00e9rpretes do Brasil,\u00a0<em>Casa Grande &amp; Senzala<\/em>, de Gilberto Freyre,\u00a0<em>Ra\u00edzes do Brasil<\/em>, de Sergio Buarque de Holanda e\u00a0<em>A revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil,\u00a0<\/em>de Florestan Fernandes. Ali\u00e1s, Florestan Fernandes completa o quadro dos intelectuais que filtraram, criticamente, a produ\u00e7\u00e3o estrangeira, ao momento de sua recep\u00e7\u00e3o, das sociologias de Durkheim, Marx e Weber, afim de verificar no que serviriam para pensar e compreender o Brasil. Florestan Fernandes que aderira, inicialmente, ao funcionalismo, e, ap\u00f3s, ao marxismo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a obra\u00a0<em>Filosofia no Brasil: legados e perspectivas. Ensaios metafilos\u00f3ficos<\/em>, de Ivan Domingues, \u00e9 o mais elaborado esfor\u00e7o de compreens\u00e3o e de avalia\u00e7\u00e3o dos sintomas e dos entraves \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de uma filosofia brasileira, ao atrelar, na min\u00facia, hist\u00f3ria e recep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica no Brasil. Sobremaneira, ao analisar os empreendimentos (in)gl\u00f3rios de Sylvio Romero, Tobias Barreto, Farias Brito, que se l\u00ea no \u201c3\u00ba Passo\u201d, intitulado \u201cIndepend\u00eancia, Imp\u00e9rio e Rep\u00fablica Velha: o intelectual estrangeirado (DOMINGUES, 2017, pp. 207-332)\u201d.<\/p>\n<p>Dentre os outros \u201cPassos\u201d exemplares de an\u00e1lise cr\u00edtica do estado da arte da filosofia no Brasil. A partir do incontorn\u00e1vel fato do n\u00e3o surgimento \u201cde um pensador original e, com ele, o da primeira escola filos\u00f3fica brasileira\u201d. Em contrapartida, o autor destaca o registro da emerg\u00eancia do pragmatismo, fundando a filosofia norte-americana, a primeira criada nas Am\u00e9ricas (DOMINGUES, 2017, p. 50).<a id=\"_ednref5\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn5\">[v]<\/a>\u00a0Por certo, deve-se considerar tamb\u00e9m o lastro cultural da poesia norte-americana, maximamente, a de Walt Whitman, o poeta da Am\u00e9rica do Norte, a expressar o sonho po\u00e9tico e hist\u00f3rico dos in\u00edcios da opul\u00eancia do pa\u00eds (PAZ, 2012, p. 305), que precedera aquela cria\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Enquanto o poeta Emerson ateve-se ao naturalismo, em registro anterior \u00e0 opul\u00eancia. Ora, poetas e romancistas cumpriram a tarefa de pensar o Brasil, que adiante se ver\u00e1. Sem prescindir das sabedorias amer\u00edndia e africana, a subsidiarem, necessariamente, de modo estendido, o pensar brasileiro.<\/p>\n<p>Retomando. Na esteira da\u00a0<em>Ratio Studiorum<\/em>, de primeiro at\u00e9 a mar\u00e9 de inspira\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica em busca de uma identidade nacional, a brasilidade \u2013 substrato da \u201calma brasileira\u201d \u2013, fora encontrada na pureza do ind\u00edgena, ao som de ecos rousseaunianos. De par com as incorpora\u00e7\u00f5es do ecletismo espiritualista, de Victor Cousin e do positivismo, praticamente\u00a0<em>in natura<\/em>, de Auguste Comte ou mediado por Sylvio Romero e Tobias Barreto, no \u00e2mbito da Escola do Recife criada a meados do s\u00e9culo XIX (PAIM, 1966).<\/p>\n<p>Sem ressoar todo eco da recep\u00e7\u00e3o e da assimila\u00e7\u00e3o da filosofia europeia do s\u00e9culo XIX em diante, hoje, o que se tem no \u00e2mbito dos estudos filos\u00f3ficos nacionais, parece ainda escalas do colonialismo, de toda sorte, ao sabor da decadente Europa a ruminar seus fantasmas, sem novidades relevantes, a n\u00e3o ser o remordimento de ter inventado o Esclarecimento, suas consequ\u00eancias e cr\u00edticas, sob o teto falsamente abrasador da travessia niilista e da sofr\u00eancia existencialista de matriz heideggeriana. \u2013 \u201cMas, o que temos n\u00f3s com isso?\u201d Bradara sonoro Oswald de Andrade \u2013 o mais perfeito cozinheiro das almas deste mundo \u2013, ao conceber a antropofagia, a particularidade cultural que \u201cnos une socialmente, economicamente, filosoficamente (ANDRADE, 1928, 1972, p. 226).\u201d Porquanto, de parte do Brasil, quase nada se tem a ver com aquilo que unira os europeus at\u00e9 o desencantar do Esclarecimento.<\/p>\n<p>Em verdade, perdemos muito tempo esmiu\u00e7ando o pensamento filos\u00f3fico de europeus e de norte-americanos, estudados, comentados, resenhados, compreendidos ao limite do descarte, em filigranas. Por que persistir na tarefa incoesa de competir com os magnos dissecadores de linhagens filos\u00f3ficas, que possuem um delta inicial inalcan\u00e7\u00e1vel, a come\u00e7ar pelo conhecimento do grego, do latim, das l\u00ednguas nativas, al\u00e9m do caldo cultural e hist\u00f3rico da produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de (suas) filosofias? \u2013 Eis a quest\u00e3o! O que fazer? Antes, o que n\u00e3o fazer?<\/p>\n<p>O c\u00e1lculo antropof\u00e1gico prev\u00ea tudo devorar da produ\u00e7\u00e3o cultural estrangeira, mas deixando, de modo simb\u00f3lico, ao intestino grosso a decis\u00e3o do que escolher para nossa apropria\u00e7\u00e3o, se for oportuna e necess\u00e1ria \u00e0 compreens\u00e3o do Brasil. Aos moldes do que faziam os Tupinamb\u00e1, submetendo os inimigos aos processos de engorda, antes de devor\u00e1-los, literalmente, para assimilar o m\u00e1ximo de seu esp\u00edrito e de sua for\u00e7a. Fora disto, o que poder\u00e1 interessar aos professores e pesquisadores de Filosofia no Brasil?<em>\u00a0Se\u00a0<\/em>nem conseguimos imitar a filosofia produzida na Europa e a desidratada filosofia norte-americana, ao momento de reproduzi-las. \u2013 Eis o drama da coloniza\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica somente esbo\u00e7ado.<\/p>\n<p>Sob hip\u00f3tese, talvez o excesso de rigor nos estudos de textos filos\u00f3ficos, calcados em leituras estruturais e desconsiderados os contextos hist\u00f3ricos de suas produ\u00e7\u00f5es, possa ter inibido, ou retardado, a experi\u00eancia do filosofar, livre, contradit\u00f3rio e imaginativo, no meio acad\u00eamico brasileiro. Sob antecipa\u00e7\u00f5es movidas pelas miss\u00f5es belga (1908) e a francesa (1934). A primeira organizara o curso de Filosofia da Faculdade S\u00e3o Bento, sob orienta\u00e7\u00e3o tomista (MUCHAIL, 1992); a segunda, intitulada \u201cDepartamento franc\u00eas de Ultramar\u201d \u2013 express\u00e3o derivada de uma\u00a0<em>blague<\/em>\u00a0de Michel Foucault \u2013, criou o da USP. (ARANTES, 1994). Ambas na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Todavia, na mar\u00e9 continuada de atualiza\u00e7\u00e3o pelo alto, r\u00e9plica em baixo relevo da inven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica prussiana de meados do s\u00e9culo XIX, ultimamente, surfa-se na onda da biopol\u00edtica, ap\u00f3s a da necropol\u00edtica e, hoje, sob a da descoloniza\u00e7\u00e3o.<a id=\"_ednref6\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn6\">[vi]<\/a>\u00a0A primeira pensada desde a realidade francesa e europeia. Por certo, a no\u00e7\u00e3o de necropol\u00edtica possa interessar, se assimilada de modo cr\u00edtico. E a descoloniza\u00e7\u00e3o sim, se observado o passado de contribui\u00e7\u00f5es que h\u00e1 tempos apontam para a necessidade de pensar filosoficamente os problemas do lugar Brasil, a realidade do lugar Brasil. N\u00e3o a partir de temas e problemas estrangeiros, criados em outros lugares com nexos causais pontuais. Mas, temas e problemas pr\u00f3prios do Brasil, que s\u00e3o diferentes em subst\u00e2ncia dos teorizados pelos europeus, para europeus. Fomos Col\u00f4nia, continuamos colonizados? Em quais sentidos?<\/p>\n<p><strong>A literatura adiante do tempo<\/strong><\/p>\n<p>Por certo, Machado de Assis, de um rasgo compreensivo face ao colonialismo europeizante, imaginara a filosofia do \u201chumanitismo\u201d, ao reclamo proclamado da aus\u00eancia de uma filosofia nacional. Tal filosofia inscrever-se-ia sob o g\u00eanero s\u00e1tira, no sentido romano do termo, educar pelo deboche, pelo escracho.<\/p>\n<p>Obra do personagem Quincas Borba, \u201cque trazia um gr\u00e3ozinho de sandice\u201d, \u201caquele mesmo n\u00e1ufrago da exist\u00eancia,\u201d de\u00a0<em>Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas,<\/em>\u00a0\u201cmendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia\u201d, a humanitista (MACHADO de ASSIS, 2015, p. 740). Cujo princ\u00edpio geral, \u201cHumanitas\u201d, \u00e9 \u201csubst\u00e2ncia ou verdade\u201d, um \u201cprinc\u00edpio indestrut\u00edvel. [\u2026] Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo \u00e9 o homem.\u201d<\/p>\n<p>Em seguida, Quincas relata ao amigo e cuidador, Rubi\u00e3o, o passo inicial de seu engenho: \u00a0\u201cN\u00e3o h\u00e1 morte. O encontro de duas expans\u00f5es, ou a expans\u00e3o de duas formas, pode determinar a supress\u00e3o de uma delas; mas, rigorosamente, n\u00e3o h\u00e1 morte, h\u00e1 vida, porque a supress\u00e3o de uma \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia da outra, e a destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o atinge o princ\u00edpio universal e comum. Da\u00ed o car\u00e1ter conservador e ben\u00e9fico da guerra. Sup\u00f5e tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire for\u00e7as para transpor a montanha e ir \u00e0 outra vertente, onde h\u00e1 batatas em abund\u00e2ncia; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, n\u00e3o chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inani\u00e7\u00e3o. A paz, nesse caso, \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o; a guerra \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Da\u00ed a alegria da vit\u00f3ria, os hinos, aclama\u00e7\u00f5es, recompensas p\u00fablicas e todos os demais efeitos das a\u00e7\u00f5es b\u00e9licas. Se a guerra n\u00e3o fosse isso, tais demonstra\u00e7\u00f5es n\u00e3o chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem s\u00f3 comemora e ama o que lhe \u00e9 apraz\u00edvel ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma a\u00e7\u00e3o que virtualmente a destr\u00f3i. Ao vencido, \u00f3dio ou compaix\u00e3o; ao vencedor, as batatas (MACHADO de ASSIS, 1891, 2015, p. 741)\u201d.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria de Quincas Borba, um milion\u00e1rio ocioso transfigurado em fil\u00f3sofo de ret\u00f3rica prosaica, combina os matizes modernos da filosofia e da ci\u00eancia, ao desvelar um padr\u00e3o de esc\u00e1rnio ao humanismo, diga-se, cl\u00e1ssico, ao positivismo e ao evolucionismo darwinista, lastreado do crescente darwinismo social.<a id=\"_ednref7\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn7\">[vii]<\/a>\u00a0Por extens\u00e3o, tamb\u00e9m ao liberalismo com suas promessas vazias, por\u00e9m, de um lugar do atraso, tomando o evolucionismo qual estocada curta de luta contra o atraso de todas as ordens da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o da leviandade operada por alguns professores de filosofia, que assimilavam e incorporavam doutrinas estrangeiras sem a necess\u00e1ria clivagem cr\u00edtica e a parcimoniosa desconfian\u00e7a. \u2013 Somente um homem rico poderia projetar uma filosofia extempor\u00e2nea no Brasil, passada a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica? Segundo Roberto Schwarz, o atraso nacional subsidia a obra machadiana, que, a partir de determinada altura de sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, lan\u00e7a m\u00e3o do humor, da ironia, da par\u00e1frase, ao assomar \u00e0 porta escancarada da mis\u00e9ria brasileira, a come\u00e7ar pelo do fardo hediondo da escravid\u00e3o, dentre outros similares de pesos diversos, em curso (SCHWARZ, janeiro 1973).<a id=\"_ednref8\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn8\">[viii]<\/a><\/p>\n<p>Assim, o fil\u00f3sofo Quincas Borba d\u00e1 a ver o que parece ser a jun\u00e7\u00e3o de sutileza e de s\u00e1tira ao cen\u00e1rio de fundo do drama, o do Brasil perif\u00e9rico da ordem capitalista. O mote, por certo, testifica um modelo imagin\u00e1rio para os fil\u00f3sofos brasileiros contempor\u00e2neos. Claro, demarcado pela gravidade exigida \u00e0s novas mis\u00e9rias de dura\u00e7\u00e3o indefinida.<\/p>\n<p>Acaso, ainda ser\u00e1 poss\u00edvel aparecer um Machado de Assis fil\u00f3sofo, ap\u00f3s tanta acumula\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o filos\u00f3ficas, no Brasil? Um Euclides da Cunha? Outro Guimar\u00e3es Rosa? Ainda um fil\u00f3sofo com a erudi\u00e7\u00e3o e a altura intelectual de Sergio Buarque de Holanda e de Antonio Candido?<\/p>\n<p>Fundamentando os sintomas. Tr\u00eas interroga\u00e7\u00f5es de fil\u00f3sofos nacionais, que, sob as devidas explicita\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises, a partir da Hist\u00f3ria e do cotidiano, apontam para o prov\u00e1vel horizonte futuro de uma filosofia brasileira. \u2013 Ou n\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Compreens\u00e3o filos\u00f3fica do Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Pensemos com Cruz Costa (1904-1978), o primeiro doutor em filosofia pela USP, a prop\u00f3sito da compreens\u00e3o filos\u00f3fica do Brasil, a sua recep\u00e7\u00e3o e o drama de \u201co que fazer\u201d. Em\u00a0<em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria das ideias no Brasil: o desenvolvimento da filosofia no Brasil e a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica nacional,\u00a0<\/em>publicado em 1956, propugnava que os estudos de filosofia no Brasil deveriam refluir para a compreens\u00e3o filos\u00f3fica do pa\u00eds. Originalmente, tese apresentada \u00e0 Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da Universidade de S\u00e3o Paulo, exig\u00eancia parcial do concurso \u00e0 cadeira de filosofia.<\/p>\n<p>De sa\u00edda, Cruz Costa argumentava: \u201cPara que o pensamento n\u00e3o seja mera fantasia sem proveito \u2013 como dizia el-rei Duarte \u2013 \u00e9 mister que n\u00e3o perca contato com a hist\u00f3ria, com os problemas reais da vida. [\u2026] (Posto que) A filosofia n\u00e3o \u00e9 mera especula\u00e7\u00e3o no v\u00e1cuo ou simples jogo de conceitos abstratos. \u00c9 trabalho sobre a experi\u00eancia real e que cumpre levar a cabo sem perder esse sentido concreto do que \u00e9 [\u2026], \u2018esta sabedoria que nasce da experi\u00eancia\u2019\u201d (CRUZ COSTA, 1956, pp. 7 e 22).<\/p>\n<p>Ao que Cruz Costa interrogava: \u201cQue valor poder\u00e1 ter uma cultura que n\u00e3o vise \u00e0 compreens\u00e3o do que somos, que se afaste das condi\u00e7\u00f5es da terra e que n\u00e3o atenda \u00e0s curiosas linhas do nosso destino?\u201d E complementava fugindo \u00e0 armadilha latente: \u201cSem renegar as culturas estranhas que expressam uma experi\u00eancia hist\u00f3rica mais rica do que a nossa \u2013 que \u00e9 preciosa heran\u00e7a recebida \u2013 nelas devemos ir beber uma li\u00e7\u00e3o que nos permita, antes de mais nada, a compreens\u00e3o daquilo que somos.\u201d Pois, \u201cser\u00edamos mais do que ineficazes, ser\u00edamos rid\u00edculos, se depois da li\u00e7\u00e3o que essas culturas nos proporcionam, ainda nos mantiv\u00e9ssemos desatentos aos fascinantes problemas que de mais perto nos tocam (CRUZ COSTA, 1956, p. 7).\u201d<\/p>\n<p>Ao mesmo passo, lembrava que pela \u201cm\u00e3o da Europa [\u2026] fizemos a nossa entrada na cena da Hist\u00f3ria, num momento de crise para a cultura ocidental.\u201d Vez que a \u201cEuropa nos imp\u00f4s as suas l\u00ednguas, a sua religi\u00e3o, as suas formas de vida, em suma a sua civiliza\u00e7\u00e3o.\u201d De tal forma se nenhum vi\u00e9s cultural estivesse em vigor nas terras invadidas pelos colonizadores. Religi\u00e3o, ritos, cuidados com a natureza, comida, educa\u00e7\u00e3o dos filhos etc. Por\u00e9m, se \u201cn\u00f3s da Am\u00e9rica, n\u00e3o temos o direito de falar de uma civiliza\u00e7\u00e3o propriamente americana\u201d, contudo, \u201cpodemos [\u2026] falar de uma experi\u00eancia americana, aquela que se veio formando, lentamente, nestes quatro s\u00e9culos de esfor\u00e7o dram\u00e1tico de constru\u00e7\u00e3o de povos e de adapta\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do nosso continente. A nossa vida transcorreu, por\u00e9m, num outro cen\u00e1rio e os nossos atores pertencem a todos os matizes da humanidade.\u201d Para concluir que \u201cNesse cen\u00e1rio tamb\u00e9m o tempo passou, tamb\u00e9m se fez hist\u00f3ria e dessa hist\u00f3ria desprende-se uma experi\u00eancia humana, uma\u00a0<em>filosofia\u00a0<\/em>apenas esbo\u00e7ada, mas que, para n\u00f3s, \u00e9 do mais alto valor (CRUZ COSTA, 1956, p. 14)\u201d.<\/p>\n<p>Calcado \u2013 de passagem \u2013 no pensamento historicista de Benedetto Crocce, escrevera: \u201c\u00c9 preciso, por\u00e9m, n\u00e3o esquecer que a hist\u00f3ria exclui certas restaura\u00e7\u00f5es. Ela n\u00e3o \u00e9 feita para restaurar, mas para (se) libertar do passado.\u201d Assim, a \u201cfilosofia encontra a verdade na sua adequa\u00e7\u00e3o com a realidade.\u201d Ao que aditava: \u201cEsta realidade n\u00e3o permanente, mas hist\u00f3rica. Quando muda a hist\u00f3ria, necessariamente tem que mudar tamb\u00e9m a filosofia (CRUZ COSTA, 1956, p. 24)\u201d.<\/p>\n<p>Antonio Candido ajuizara que \u201cCruz Costa insistia sem parar na necessidade de aplicar a reflex\u00e3o ao Brasil, mesmo que para isso fosse preciso sair da filosofia estritamente concebida\u201d (ARANTES, 1993, p. 23).<a id=\"_ednref9\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn9\">[ix]<\/a><\/p>\n<p>Acaso, Cruz Costa adentrara a concep\u00e7\u00e3o antropof\u00e1gica oswaldiana? Por certo, n\u00e3o ficara imune a ela, a tangenciara sem assumi-la por inteiro.<\/p>\n<p><strong>Cr\u00edtica da raz\u00e3o tupiniquim<\/strong><\/p>\n<p>Roberto Gomes, em\u00a0<em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o tupiniquim,\u00a0<\/em>de 1977, questiona o que pode vir a ser uma \u201craz\u00e3o tupiniquim\u201d, certamente, aquela que levar\u00e1 em conta a forma brasileira de pensar filosoficamente, de modo pr\u00f3prio, considerado, sobretudo, o lugar Brasil, seu l\u00f3cus origin\u00e1rio. N\u00e3o de alhures. Logo, emblematicamente, sem a sisudez cartesiana, a m\u00e1scara da excessiva seriedade, ao menos aparente, dos europeus, que, de modo gen\u00e9rico, tentamos reproduzir. A das tediosas ideias claras e distintas. Lembrando o Presidente Fernando Henrique Cardoso, em alocu\u00e7\u00e3o radiof\u00f4nica, de uma sexta-feira pela manh\u00e3, em que se saiu com esta: \u201cSou cartesiano com um p\u00e9 no candombl\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Antecipado por Paulo Leminski que, em\u00a0<em>Catatau<\/em>, transformara Descartes em um militar\u00a0<em>d\u00e2ndi<\/em>\u00a0do ex\u00e9rcito de Maur\u00edcio de Nassau, aportado no Recife, ao tempo do Brasil Holand\u00eas. De onde o racionalismo cartesiano \u00e9 devidamente tropicalizado, com muita cacha\u00e7a e\u00a0<em>cannabis<\/em>. N\u00e3o somos s\u00e9rios na vida cotidiana, fazemos pilh\u00e9ria de quase tudo. Ent\u00e3o, por que havemos de nos vestir com o bom senso europeu para reproduzir a filosofia da matriz? Que m\u00e1 consci\u00eancia \u00e9 essa? Somos brasileiros adeptos do riso f\u00e1cil, do bom humor, um eloquente sinal de intelig\u00eancia refinada, segundo Freud.<\/p>\n<p>Cabe\u00e7a feita na religiosidade do futebol, a entrecruzar o sagrado e o profano, por\u00e9m, submetidos a viol\u00eancia que queima livros, ideias, pessoas em pra\u00e7as p\u00fablicas e nas masmorras das ditaduras, oficiais ou n\u00e3o. Aditados do racismo estrutural, reiterado do fato hediondo da escravid\u00e3o. Amamos a pregui\u00e7a, que \u00e9 o ritmo da natureza em n\u00f3s, a \u201cdivina pregui\u00e7a\u201d de que falava M\u00e1rio de Andrade, campo de express\u00e3o da sensualidade livre e infrene, herdada dos tempos do Brasil-Col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Somos pobres de nascen\u00e7a. O Brasil entrara de cara nos quadros do antigo mercantilismo portugu\u00eas,<a id=\"_ednref10\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn10\">[x]<\/a>\u00a0pela forma alienada de fornecedor de mat\u00e9ria prima: a\u00e7\u00facar, tabaco, ouro, diamante, caf\u00e9. Darcy Ribeiro escreveu que fomos transformados, a contar dos prim\u00f3rdios, em m\u00e3o de obra estrangeira para o portugu\u00eas colonizador. E, de certa forma, em larga escala, continuamos a ser, pelo agroneg\u00f3cio e pelo extrativismo. Vez que a ind\u00fastria nacional, em crescimento galopante dos anos 1930 em diante, come\u00e7ou a minguar a partir de 1977, segundo Bresser Pereira.<\/p>\n<p>Acaso, haveria algum paralelo entre o mercantilismo e a entrada da filosofia no Brasil? Por ventura, nos encontramos transfigurados em m\u00e3o de obra filos\u00f3fica a secundar as cria\u00e7\u00f5es europeias e norte-americanas? Compreend\u00ea-las \u00e0 exaust\u00e3o, sem produzir a nossa? Sem alcan\u00e7ar as alturas de suas produ\u00e7\u00f5es originais?<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, Roberto Gomes cogitou: \u201cMergulhado num escafandro greco-romano \u2013 embora n\u00e3o seja nem grego nem romano \u2013 o brasileiro foge de sua identidade. Tem sido na filosofia que o esp\u00edrito humano tem buscado esta autorrevela\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, autocomplacente e conformista, sujeito s\u00e9rio, o brasileiro ainda n\u00e3o produziu filosofia. (Diga-se pr\u00f3pria). Assim \u00e9 necess\u00e1rio advertir que um pensamento brasileiro jamais esteve l\u00e1 onde tem sido procurado: teses universit\u00e1rias, cursos de gradua\u00e7\u00e3o e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, revistas especializadas.\u201d [\u2026] Pois, \u201cNo bolor de nosso \u2018pensamento oficial\u2019 n\u00e3o se encontra qualquer sinal de uma atitude que assuma o Brasil e pretenda pens\u00e1-lo em nossos termos. Al\u00e9m do palavr\u00f3rio aridamente t\u00e9cnico e est\u00e9ril, das ideias gerais, das teses que antecipadamente sabemos como v\u00e3o concluir, das ideias bem pensantes, nada encontramos que denuncie a presen\u00e7a de um pensamento brasileiro entre nossos \u2018fil\u00f3sofos oficiais\u2019, v\u00edtimas de um discurso que n\u00e3o pensa, delira (GOMES, 1977, pp. 11-12).\u201d<\/p>\n<p>Ao que acrescenta: \u201cN\u00e3o se trata de \u2018inventar\u2019 uma raz\u00e3o tupiniquim, mas de propor um projeto, um certo tipo de pretens\u00e3o, certamente, quixotesca, e evidentemente absurda: pensar o que se \u00e9, como se \u00e9 (GOMES, 1977, p. 12).\u201d<a id=\"_ednref11\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn11\">[xi]<\/a><\/p>\n<p>Freud dizia que tudo que procurava na expectativa de encontrar alguma coisa nova, a arte tinha alcan\u00e7ado antes. Se a arte em muitos momentos antecipara o que a filosofia viria a compreender mais adiante, o que fazer a um tempo em que a arte, a grande arte, supostamente, parece n\u00e3o expressar o tempo presente? As vicissitudes deste tempo. Mas, parece requentar o que foram as inven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e est\u00e9ticas recentes, por\u00e9m, de ares pret\u00e9ritos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a filosofia se aproxima do mesmo dilema, o de incender a produ\u00e7\u00e3o passada, de modo generalizado, a partir de matrizes positivista, marxiana, nietzschiana, neokantiana, l\u00f3gico-matem\u00e1tica, fenomenol\u00f3gica, existencialista, anal\u00edtica, estruturalista, p\u00f3s-estruturalista, adentrando a biol\u00f3gica, emparelhada \u00e0 teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin, al\u00e9m da psicanal\u00edtica, e, ao limite, a da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Assim, trata-se de momento azado aos estudiosos de filosofia no Brasil de atentar para a realidade brasileira, a Hist\u00f3ria do Brasil, o nosso modo de ser, a alegria e a trag\u00e9dia de ser brasileiro. Sem medo nem pudor, com distanciamento dos padr\u00f5es mofados de filosofias europeia e norte-americana. Para al\u00e9m do \u201capego extremo ao pensamento de outros por julgarmos que s\u00f3 os outros poder\u00e3o nos dar qualquer chave do saber (GOMES, 1977, p. 22).\u201d Como se fossem chaves precisas para compreens\u00e3o do ser brasileiro, por vezes, sem considerar o tempo presente.<\/p>\n<p>Contudo, h\u00e1 muita sabedoria acumulada nas can\u00e7\u00f5es populares brasileiras. Por exemplo, Noel Rosa a parodiar o positivismo, a filosofia mais popular do pa\u00eds: \u201co amor tem por princ\u00edpio a ordem por base \/ o progresso \u00e9 que deve vir depois \/ esquecestes esta lei de Auguste Comte \/ e fostes ser feliz longe de mim.\u201d<a id=\"_ednref12\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn12\">[xii]<\/a>\u00a0Outrossim, pela rima de Monsueto Menezes ao apelar para o \u201cmora na filosofia \/ pra que rimar amor e dor\u2026\u201d,<a id=\"_ednref13\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn13\">[xiii]<\/a>\u00a0antecipada do verso de Oswald de Andrade: \u201cAmor \/ humor\u201d. Al\u00e9m de toda cr\u00edtica social contidas nas can\u00e7\u00f5es de Chico Buarque, Milton Nascimento, Aldir Blanc. E na de Caetano Veloso, na linha do deboche ao senso comum: \u201cest\u00e1 provado que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel filosofar em alem\u00e3o\u2026\u201d<a id=\"_ednref14\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn14\">[xiv]<\/a><\/p>\n<p>Mormente, na interven\u00e7\u00e3o est\u00e9tica Tropic\u00e1lia, n\u00e3o somente da m\u00fasica, tamb\u00e9m do teatro, cinema e artes pl\u00e1sticas, qui\u00e7\u00e1 o \u00faltimo balan\u00e7o da cultura brasileira a remexer os traumas residuais latentes ou expl\u00edcitos. Desvelada por Celso Favaretto em\u00a0<em>Tropic\u00e1lia: alegoria, alegria<\/em>\u00a0(1979), ao lan\u00e7ar m\u00e3o da filosofia benjaminiana e de no\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise, no entanto, de modo descolonizado. Tomando ambas por ferramentas do pensar cr\u00edtico.<\/p>\n<p>A excelente poesia brasileira pode fornecer lastro para a cria\u00e7\u00e3o de uma filosofia p\u00e1tria, n\u00e3o necessariamente sorvidas de patriotadas conservadoras, autorit\u00e1rias. Desde a do bardo mineiro-universal, Carlos Drummond de Andrade, do lirismo de Manuel Bandeira, da refinada po\u00e9tica de Murilo Mendes e da s\u00f3bria e cerebral poesia de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto. A par da \u00e1cida e demolidora poesia de Oswald de Andrade, a chacoalhar os esqueletos do moralismo dos costumes na passagem do Brasil rural para o urbano, e de M\u00e1rio de Andrade, a lan\u00e7ar patamares est\u00e9ticos ao tempo de um Orfeu ext\u00e1tico na cidade macota de\u00a0<em>Zan Baolo<\/em>.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do lirismo \u00edmpar do mais expressivo poeta da gera\u00e7\u00e3o de 1960, M\u00e1rio Faustino (1930\u20131962), votado ao\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0e \u00e0 trag\u00e9dia existencial, identific\u00e1vel no poema \u201cBalada (Em mem\u00f3ria de uma poeta suicida)\u201d: \u201cN\u00e3o conseguiu firmar o nobre pacto \/ Entre o cosmos sangrento e a alma pura. \/ Por\u00e9m, n\u00e3o se dobrou perante o facto \/ Da vit\u00f3ria do caos sobre a vontade \/ Augusta de ordenar a criatura \/ Ao menos: luz ao sul da tempestade. \/ Gladiador defunto mas intacto (Tanta viol\u00eancia, mas tanta ternura) \/ Jogou-se contra um mar de sofrimentos (FAUSTINO, 1985, p. 115).\u201d<a id=\"_ednref15\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn15\">[xv]<\/a><\/p>\n<p>Al\u00e9m dos poucos imensos romancistas nacionais. \u00c0 testa, Machado de Assis, a ironizar a na\u00e7\u00e3o escravocrata sem destino hist\u00f3rico aparente; Graciliano Ramos, a desmitificar a trag\u00e9dia nordestina em\u00a0<em>Vidas Secas<\/em>, e a intrag\u00e1vel aus\u00eancia de liberdade sob a ditadura Vargas, de\u00a0<em>Mem\u00f3rias do c\u00e1rcere<\/em>; Guimar\u00e3es Rosa, em\u00a0<em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, em que os sert\u00f5es se tornam palco de guerras intestinas, encobertas; a saga dos pampas, em \u00c9rico Ver\u00edssimo; Raduan Nassar a lidar com o romance neur\u00f3tico familiar, em\u00a0<em>Lavoura arcaica<\/em>, e Clarice Lispector a embaralhar as obtusidades e as vulgaridades do sufocante mal-estar cotidiano. De modo particular, Lima Barreto, afrodescendente, pobre, internado em manic\u00f4mio, certamente, a met\u00e1fora viva mais significativa do Brasil ao in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Posto que a literatura durante muito tempo cumpriu a fun\u00e7\u00e3o de refletir acerca do Brasil.<\/p>\n<p>Do universo do cinema nacional, sobretudo o do \u201cCinema Novo\u201d (BERNARDET, 2007), h\u00e1 variadas virtualidades de compreens\u00e3o do Brasil, dada a exposi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de temas sociais multiplicados, substratos potenciais a agenciar elementos para o engenho de uma filosofia pr\u00f3pria, brasileira. Assim, Glauber Rocha, em entrevista \u00e0\u00a0<em>Positif \u2013 revue de cinema,\u00a0<\/em>concedida a E. T. Greville, intitulada \u201cGlauber fala \u00e0 Europa\u201d, exp\u00f4s a relev\u00e2ncia do cinema ao incluir temas brasileir\u00edssimos, relativos ao misticismo, messianismo, mandonismo, reforma agr\u00e1ria, candombl\u00e9, pol\u00edtica, revolu\u00e7\u00e3o, populismo, guerrilha urbana e o industrialismo em baixo relevo. Modelarmente, o voltado para a produ\u00e7\u00e3o de acess\u00f3rios da rec\u00e9m criada ind\u00fastria automobil\u00edstica, mostrada no filme\u00a0<em>S\u00e3o Paulo S.A.<\/em>,de Luiz Person, 1965. Glauber reconhecia o colonialismo cultural e a luta est\u00e9tica e pol\u00edtica na contram\u00e3o (do colonialismo). (GREVILLE, janeiro de 1968).<\/p>\n<p>Recordando que a filosofia grega foi inven\u00e7\u00e3o de um autodidata, um criador original, sem bagagem anterior, que n\u00e3o os poemas \u00e9picos e a realidade sob mudan\u00e7as s\u00f3cio-pol\u00edticas, radicais, aceleradas, em curso na Gr\u00e9cia do s\u00e9culo VII a. C. At\u00e9 a passagem da tradi\u00e7\u00e3o oral \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o da escrita. Entanto, por que carecemos de tanta bagagem filos\u00f3fica, se n\u00e3o conseguimos criar um modo pr\u00f3prio de pensar filos\u00f3fico? H\u00e1, de fato, um desejo verdadeiro para tal cria\u00e7\u00e3o? Talvez o excesso de conhecimento de filosofia e de hist\u00f3ria da filosofia, nas nossas universidades t\u00e3o burocratizadas e burocratizantes, tenha e continue a ter desfavorecido a insurg\u00eancia de um pensamento pr\u00f3prio, nacional, a partir de problemas nossos.<\/p>\n<p>Roberto Gomes reflete: \u201c[\u2026] a filosofia \u00e9 uma raz\u00e3o que se expressa \u2013 f\u00f3rmula onde a palavra raz\u00e3o comparece carregada de historicidade. E uma filosofia brasileira precisaria ser o desnudamento desta raz\u00e3o que viermos a ser. Seja por excesso de pudor, por medo, o fato \u00e9 que at\u00e9 hoje n\u00e3o nos despimos. Talvez temendo nada encontrar por debaixo de nossos trajes europeus\u2026 (GOMES, 1977, p. 25)\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Cr\u00edtica da raz\u00e3o tupiniquim,\u00a0<\/em>Gerd Bornheim publicou o ensaio \u201cFilosofia e realidade nacional\u201d (BORNHEIM, 1980).<a id=\"_ednref16\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn16\">[xvi]<\/a>\u00a0Roberto Gomes e Gerd Bornheim concordavam que a filosofia, no Brasil, carece de cuidar da singularidade dos problemas brasileiros, de modo a abandonar os aspectos de neutralidade e de universalidade. Mas, devendo atentar para a pluralidade cultural do Brasil, em todos os n\u00edveis, de modo a criar condi\u00e7\u00f5es de se aproximar do verdadeiro pensamento: o das ruas, o do povo, com sua sabedoria ainda n\u00e3o elevada a categorias conceituais mais amplas. Adiantavam, assim, o problema da descoloniza\u00e7\u00e3o. Apontando para a inven\u00e7\u00e3o de uma filosofia popular. Por certo, ressalvadas as viravoltas pol\u00edticas conservadoras que poderiam conter. A operar qual ponto de passagem para a constru\u00e7\u00e3o de uma filosofia brasileira.<\/p>\n<p><strong>A falta de assunto em filosofia no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, Paulo Arantes, o mais conhecido intelectual p\u00fablico brasileiro da atualidade, registrou: \u201cNo Brasil, a falta de assunto em filosofia \u00e9 quase uma fatalidade. Raz\u00e3o a mais para transform\u00e1-la em problema. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de talento, mas de forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata nem mesmo de forma\u00e7\u00e3o pessoal, embora uma n\u00e3o v\u00e1 sem a outra. Hoje em dia, esta \u00faltima se encontra ao alcance de todos nas boas universidades do pa\u00eds. Ali\u00e1s, n\u00e3o h\u00e1 outro caminho, pois a cultura filos\u00f3fica contempor\u00e2nea \u00e9 essencialmente universit\u00e1ria, uma especialidade entre outras muitas. Sucede que j\u00e1 esse ideal de forma\u00e7\u00e3o intelectual harmoniosa se desfaz em fic\u00e7\u00e3o dourada t\u00e3o logo o devolvemos ao ch\u00e3o bruto do conjunto de singularidades plasmadas ao longo do tempo pela expans\u00e3o desigual do capitalismo. Um sistema mundial descompensado que teima em deixar literalmente nossos fil\u00f3sofos a ver navios (ARANTES, 1993, p. 23)\u201d.<\/p>\n<p>Entanto, arremata o racioc\u00ednio, desbancando as pretens\u00f5es filos\u00f3ficas em\u00a0<em>Terrae Brasilis<\/em>. Arantes recorre ao bardo M\u00e1rio de Andrade: \u201ca nossa forma\u00e7\u00e3o nacional n\u00e3o \u00e9 natural, n\u00e3o \u00e9 espont\u00e2nea, n\u00e3o \u00e9, por assim dizer, l\u00f3gica (ARANTES, 1993, p. 24).\u201d Porque \u201cnaturalidade, espontaneidade e l\u00f3gica est\u00e3o evidentemente do outro lado do oceano. Diante da \u2018barafunda\u2019, da \u2018imund\u00edcie de contrastes\u2019 que somos, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que o ideal de harmonia e inteireza s\u00f3 pode ser a vincula\u00e7\u00e3o relativamente consistente que na tradi\u00e7\u00e3o europeia associa a vida do esp\u00edrito ao conjunto da vida social (ARANTES, 1993, p. 24)\u201d.<\/p>\n<p>Por mais que a filosofia componha parte da ideologia dominante, h\u00e1 um nexo causal entre a filosofia produzida e o ch\u00e3o hist\u00f3rico europeu. Aqui, a filosofia se assemelhou a uma flor ex\u00f3tica, brotada em outro jardim, que n\u00e3o o pensamento cultivado pelos aut\u00f3ctones, os povos origin\u00e1rios de Pindorama, o aut\u00eantico pensamento amer\u00edndio, desqualificado e, por consequ\u00eancia, desvalorizado com a invas\u00e3o dos colonizadores. O mesmo ocorreu com o pensamento africano espelhado da sabedoria ancestral dos escravizados trazidos d\u2019\u00c1frica, sem oportunidade de manifesta\u00e7\u00e3o durante todo o tempo do Brasil-Col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Contudo, sem engaste direto com aquela sabedoria, durante o Imp\u00e9rio, somente os escritores afrodescendentes Luis Gama e Machado de Assis se expressaram. Na Primeira Rep\u00fablica, Lima Barreto e Maria Firmina dos Reis. A partir dos anos 1950, Carolina de Jesus, Carlos Marighella, Abdias do Nascimento, Milton Santos, Joel Rufino dos Santos, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Ao contr\u00e1rio, do que ocorrera na m\u00fasica, em que muitos afrodescendentes figuraram no cen\u00e1rio art\u00edstico, de modo \u00edmpar. O que instiga pensar quanto esfor\u00e7o ter\u00e1 custado a Machado de Assis, autodidata, acompanhar as especula\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas europeias, transpostas para a mat\u00e9ria fin\u00edssima de sua literatura e de seu teatro.<\/p>\n<p>Ainda segundo Arantes, \u201ccomparada com a literatura, a filosofia ocupa um lugar subalterno no panorama cultural nacional. [\u2026] a pedra de toque ideol\u00f3gica representada pela literatura, que tem sido aqui \u2018o fen\u00f4meno central da vida do esp\u00edrito\u2019: uma infla\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria a servi\u00e7o da consci\u00eancia nacional, da exposi\u00e7\u00e3o e revela\u00e7\u00e3o do Brasil aos brasileiros. [\u2026] nem de longe foi este o caso da filosofia, a qual n\u00e3o somava experi\u00eancias.\u201d Ao que ilustra, \u201cQuem porventura tenha percorrido a historiografia em mangas de camisa de Jo\u00e3o Cruz Costa constatar\u00e1, um tanto sufocado e injustamente tentado a atribuir ao seu autor o acanhamento de perspectiva que lhe vinha do material de segunda m\u00e3o com que lidava, que nela a rigor nada se passa, nada se encadeia, a n\u00e3o ser a colcha disparatada de artefatos ret\u00f3ricos destinados a ofuscar os confrades (ARANTES, 1993, p. 24).\u201d Cruz Costa lamentava as tardes em que analisou a filosofia de Farias Brito, para ele \u201cfuma\u00e7as filos\u00f3ficas (ARANTES, 1993, p. 30)\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, h\u00e1 algo de novo no horizonte da pesquisa filos\u00f3fica acad\u00eamica brasileira. Trata-se de quatro teses de temas inovadores, a primeira, defendida por Luis Thiago Freire Dantas, na UFPR, intitulada\u00a0<em>Filosofia\u00a0<\/em><em>desde<\/em>\u00a0<em>\u00c1frica: perspectivas descoloniais<\/em>, men\u00e7\u00e3o honrosa da ANPOF, 2018; segunda, a de Felipe Beltran Katz,\u00a0<em>Contra a cordialidade: an\u00e1lise do conceito de homem cordial na obra de Sergio Buarque de Holanda<\/em>, pelo PPG em Filosofia da PUC-SP, do mesmo ano; terceira, a de Ubiratane de Morais Rodrigues,\u00a0<em>A est\u00e9tica da pr\u00e9-apar\u00eancia\u00a0<\/em>(<em>Vor-Schein<\/em>)<em>\u00a0como antecipa\u00e7\u00e3o transgressiva em Ernst Bloch<\/em>, enfeixada pela an\u00e1lise da est\u00e9tica transgressiva de\u00a0<em>Vidas Secas<\/em>, de Graciliano Ramos, defendida em 2020, pelo PPG em Filosofia da USP e a quarta, defendida na PUC-SP, em 2021, autoria de Rafael \u00c1vila Matede, sob o t\u00edtulo de\u00a0<em>Caderno de ax\u00e9: notas sobre filosofia de terreiro<\/em>. A \u00faltima, enceta a entrada da filosofia no terreiro de candombl\u00e9, pr\u00e1tica antecipada pela antropologia cultural h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Contudo, eis alguns prov\u00e1veis temas-problemas inadi\u00e1veis a instabilizarem o estado da arte da filosofia, em ambi\u00eancia nacional: preserva\u00e7\u00e3o da natureza, biofilia; justi\u00e7a social; ontonegatividade da pol\u00edtica; cordialidade, viol\u00eancia e contra viol\u00eancia; crise das ci\u00eancias humanas; camisa de for\u00e7a da tecnoci\u00eancia; autogest\u00e3o social, autonomia do trabalho; utopia concreta; humor; futebol \u2013 a religiosidade profana\u2013; horizonte de uma civiliza\u00e7\u00e3o libidinal; preconceitos raciais e de g\u00eanero ao campo da desigualdade social; carnaval \u2013 \u201co acontecimento religioso da ra\u00e7a\u201d \u2013; artes pl\u00e1sticas; m\u00fasica popular brasileira; Tropic\u00e1lia; cinema e dramaturgia nacionais; cultura popular; ancestralidade dos povos origin\u00e1rios; territorialidade; pregui\u00e7a \u2013 \u201ca s\u00e1bia pregui\u00e7a solar\u201d \u2013; fenomenologia do brasileiro;<a id=\"_ednref17\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn17\">[xvii]<\/a>\u00a0antropologia filos\u00f3fica brasileira;<a id=\"_ednref18\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn18\">[xviii]<\/a>\u00a0candombl\u00e9 etc.<\/p>\n<p>Temas dispostos de modo a reverterem os estudos de Filosofia para compreens\u00e3o do Brasil. No detalhe, forjada da constru\u00e7\u00e3o de linguagem pr\u00f3pria \u00e0 filosofia brasileira. Filosofia anoitecida dos sintomas e de ind\u00edcios guardados nas bagagens de Caio Prado J\u00fanior, M\u00e1rio Ferreira dos Santos, \u00c1lvaro Vieira Pinto, Lima Vaz, Leandro Konder, Jos\u00e9 Chasin, Paulo Freire e, extra limite, Moniz Sodr\u00e9. Circunscrita tamb\u00e9m \u00e0 revisita\u00e7\u00e3o do projeto filosofia da liberta\u00e7\u00e3o latino-americana e, em particular, \u00e0 literatura, m\u00e1xime \u00e0 poesia brasileira.<a id=\"_ednref19\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn19\">[xix]<\/a><\/p>\n<p><strong>Por em andamento<\/strong><\/p>\n<p>Dispensado qualquer tom exortat\u00f3rio, concluindo pelo plaus\u00edvel e \u00e0s margens do necess\u00e1rio, o mote do ensaio \u00e9 o de pensar o Brasil, desde a Filosofia. Assim, finquemos p\u00e9 no conhecimento da realidade brasileira \u2013 express\u00e3o anacr\u00f4nica \u2013, da hist\u00f3ria do Brasil. Para tanto, leia-se todos os renegados int\u00e9rpretes do Brasil. (PERIC\u00c1S; SECCO, 2014). Nesse passo, atende-se ao cotidiano, \u00e0 proletariza\u00e7\u00e3o das classes sociais, ao ser\u00a0<em>macuna\u00edmico<\/em>\u00a0brasileiro, de olho vivo \u00e0s nuances da cultura brasileira, aos literatos \u2013 poetas, romancistas, dramaturgos \u2013, m\u00fasicos populares e eruditos, \u2013 tendo Villa-Lobos por timoneiro.<\/p>\n<p>Em sintonia com os filmes do assim chamado Cinema Novo, balizados pela est\u00e9tica da fome, de par com a interven\u00e7\u00e3o est\u00e9tico-pol\u00edtica Tropic\u00e1lia. Assim, a cr\u00f4nica falta de assunto em filosofia no Brasil, poder\u00e1 \u2013 \u00e9 de crer \u2013, retirar mat\u00e9ria prima desse lastro cultural, para a cria\u00e7\u00e3o de uma filosofia brasileira, do lugar Brasil! De prefer\u00eancia, inspirada, metodicamente, na antropofagia oswaldiana. Afinal, ao momento em que mais se necessita de embasamento te\u00f3rico para compreens\u00e3o e de armas cr\u00edticas de combate ao neofascismo em curso no pa\u00eds, a filosofia se mostra desprovida de tal arsenal.<\/p>\n<p>Porque as matrizes de pensamento filos\u00f3fico-pol\u00edtico estrangeiras parecem n\u00e3o dar conta de compreender a particularidade do fen\u00f4meno, de modo a sustentar uma filosofia pol\u00edtica forte o bastante, frente ao cen\u00e1rio autorit\u00e1rio. \u2013 Salvo o livro pouco lido de Ernst Bloch,\u00a0<em>Heran\u00e7a desta \u00e9poca<\/em>, de 1934.<\/p>\n<p>Entretanto, Hegel registrara que \u201cConceituar o que \u00e9 \u00e9 a tarefa da filosofia, pois o que \u00e9 \u00e9 a raz\u00e3o. No que concerne ao indiv\u00edduo, cada um \u00e9 de toda maneira um filho do seu tempo; assim, a filosofia tamb\u00e9m \u00e9 o seu tempo apreendido em pensamentos (HEGEL, 2022, p. 142).\u201d Lima Vaz, nos passos de Hegel, por\u00e9m providos de outro registro, asseverou: \u201c\u2026num determinado momento hist\u00f3rico, a filosofia \u00e9 a resposta que uma sociedade traz \u00e0 dupla exig\u00eancia de refletir criticamente e de se explicar teoricamente quanto aos valores e representa\u00e7\u00f5es que tornam intelig\u00edveis, ou pelo menos aceit\u00e1veis, para os indiv\u00edduos que nela vivem um modo de ser, isto \u00e9, um modo de viver e de morrer, de imaginar e conhecer, de amar e trabalhar, [\u2026], etc., que constitui um legado da tradi\u00e7\u00e3o, e que os indiv\u00edduos devem assumir e, de fato, j\u00e1 assumiram antes mesmo de poder responder por ele, ou justific\u00e1-lo diante da pr\u00f3pria raz\u00e3o. (VAZ, 1978, p. 7).\u201d<\/p>\n<p>Qui\u00e7\u00e1, seja chegada a hora de pensar o que \u00e9 o Brasil, sob um vagar ocioso, por\u00e9m, sim\u00e9trico \u00e0s urg\u00eancias do tempo presente. Porque somente o particular pode universalizar-se. Entanto, sem abandonar o ac\u00famulo de conhecimento filos\u00f3fico, nem os temas atuais da sociedade global, a serem redefinidos para al\u00e9m da pauta de vi\u00e9s colonizador.<\/p>\n<p>Sem desistir da filosofia! \u2013 Posto que, filosoficamente, pensar \u00e9 transgredir, de prefer\u00eancia pela f\u00f3rmula antropof\u00e1gica: \u201cAlegria da ignor\u00e2ncia que descobre\u201d. Extra esquematismos, a filosofia no Brasil poder\u00e1 promover a sua \u201cvirada filos\u00f3fica\u201d, aos moldes da criada durante a Semana de Arte Moderna, de 1922, e extens\u00f5es, que, grosso modo, devorou renegando as escolas liter\u00e1rias e as artes pl\u00e1sticas, consolidadas na Europa, ao passo de incorporar criticamente as novidades dos manifestos modernistas europeus do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Demarcando a inven\u00e7\u00e3o e a originalidade da arte brasileira, ao intentar expor o modo de ser do brasileiro, sob o arco da cultura para al\u00e9m das chegan\u00e7as estrangeiras, filtradas de hostes do universo nacional-popular.<a id=\"_ednref20\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_edn20\">[xx]<\/a><\/p>\n<p>Afinal, Oswald de Andrade, sob a guarda est\u00e9tico-pol\u00edtica, antropof\u00e1gica, constatara: \u201cNunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O \u00edndio vestido de Senador do Imp\u00e9rio. [\u2026] J\u00e1 t\u00ednhamos o comunismo. J\u00e1 t\u00ednhamos a l\u00edngua surrealista. [\u2026] porque nunca tivemos gram\u00e1ticas, nem cole\u00e7\u00f5es de velhos vegetais. [\u2026] Mas nunca admitimos o nascimento da l\u00f3gica entre n\u00f3s. [\u2026] N\u00e3o t\u00ednhamos especula\u00e7\u00e3o. [\u2026] t\u00ednhamos adivinha\u00e7\u00e3o. T\u00ednhamos Pol\u00edtica que \u00e9 a ci\u00eancia da distribui\u00e7\u00e3o. E um sistema social-planet\u00e1rio. [\u2026] A contribui\u00e7\u00e3o milion\u00e1ria de todos os erros. Como falamos. Como somos (ANDRADE, 1924 e 1928, 1972, pp. 204, 227-230)\u201d.<\/p>\n<p><strong>*Antonio Valverde<\/strong><em>\u00a0\u00e9 professor do Programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em filosofia da PUC-SP.<\/em><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>ANDRADE, M., \u201cPirandello, a epiderme desvairada e um sentimento alegre da injusti\u00e7a\u201d,\u00a0<em>Terra roxa e outras terras<\/em>, a. I, n\u00ba 4, 1926; _______,\u00a0<em>Poesias Completas,\u00a0<\/em>volume 2, Rio de Janeiro, Record, 2013, pp. 158-163.<\/p>\n<p>ANDRADE, O. de, \u201cManifesto da poesia pau-brasil\u201d,\u00a0<em>In\u00a0<\/em>TELES, G.M.,\u00a0<em>Vanguarda europeia e modernismo brasileiro: apresenta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dos principais manifestos, pref\u00e1cios e confer\u00eancias vanguardistas, de 1857 at\u00e9 hoje,\u00a0<\/em>Petr\u00f3polis, Vozes, 1972, pp. 203-208.<\/p>\n<p>_______, \u201cManifesto Antrop\u00f3fago\u201d,<em>\u00a0Idem, ibidem<\/em>, pp. 226-232.<\/p>\n<p>ANTONIO CANDIDO, \u201cEsquema de Machado de Assis\u201d,\u00a0<em>In\u00a0<\/em>________,\u00a0<em>V\u00e1rios Escritos (1968)<\/em>, 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Rio de Janeiro, Ouro sobre Azul, 2011, pp. 15-33.<\/p>\n<p>ARANTES, P., \u201cCruz Costa, Bento Prado Jr. e o problema da filosofia no Brasil \u2013 uma digress\u00e3o\u201d,\u00a0<em>In\u00a0<\/em>ARANTES, P.\u00a0<em>et alii<\/em>, S\u00e3o Paulo, Educ, 1993, pp. 23-65.<\/p>\n<p>_______, \u201cUma hist\u00f3ria dos paulistas no seu desejo de ter uma filosofia\u201d,\u00a0<em>In\u00a0<\/em>_______,\u00a0<em>O fio da meada: uma conversa e quatro entrevistas sobre Filosofia e Vida Nacional<\/em>, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1993, pp. 319-347.<\/p>\n<p>_______,\u00a0<em>Um departamento franc\u00eas de ultramar: estudos sobre a forma\u00e7\u00e3o da cultura filos\u00f3fica uspiana (uma experi\u00eancia dos anos 1960),\u00a0<\/em>Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1994.<\/p>\n<p>BERNARDET, J-C.,\u00a0<em>Brasil em tempo de cinema: ensaio sobre o cinema brasileiro de 1958 a 1966,\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo, Cia. das Letras, 2007.<\/p>\n<p>BORNHEIM, G., \u201cFilosofia e realidade nacional\u201d,\u00a0<em>In Encontros com a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira,\u00a0<\/em>vol. 19, Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1980, pp. 93-112.<\/p>\n<p>CRUZ COSTA, J.,\u00a0<em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria das Ideias No Brasil: o desenvolvimento da filosofia no Brasil e a evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica nacional,\u00a0<\/em>Rio de Janeiro, Jos\u00e9 Olympio, 1956<\/p>\n<p>DOMINGUES, I.,\u00a0<em>Filosofia no Brasil: legados &amp; perspectivas. Ensaios metafilos\u00f3ficos,\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo, Unesp, 2017.<\/p>\n<p>FAORO, R.,\u00a0<em>Machado de Assis: a pir\u00e2mide e o trap\u00e9zio<\/em>, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, Nacional, 1976. (Cole\u00e7\u00e3o Brasiliana, v. 356).<\/p>\n<p>FAUSTINO, M., \u201c\u00daltimos poemas\u201d,\u00a0<em>In\u00a0<\/em>________,\u00a0<em>Poesia completa Poesia traduzida<\/em>, 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, Max Limonad, 1985, pp. 49-135.<\/p>\n<p>FLUSSER, V.,\u00a0<em>Fenomenologia do Brasileiro<\/em>, organiza\u00e7\u00e3o Gustavo Bernardo, Rio de Janeiro, UERJ, 1998. (<em>Brasilien oder die Suche nach dem neuen Menschen: F\u00fcr eine Ph\u00e4nomenologie der Unterentwicklung\u00a0<\/em>(Brasil, ou a procura de um novo homem: por uma fenomenologia do subdesenvolvimento), Bensheim, Bollmann Verlag, 1994).<\/p>\n<p>GOMES, R.,\u00a0<em>Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Tupiniquim<\/em>, Porto Alegre, Movimento \/ UFRS, 1977.<\/p>\n<p>HARDMAN, F. F.,\u00a0<em>A ideologia paulista e os eternos modernistas<\/em>, S\u00e3o Paulo, Unesp, 2022.<\/p>\n<p>HEGEL, G. W.F.,\u00a0<em>Linhas fundamentais da filosofia do direito<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o Marcos Lutz M\u00fcller, S\u00e3o Paulo, Editora 34, 2022.<\/p>\n<p>KOPENAWA, D.; ALBERT, B.,\u00a0<em>A queda do c\u00e9u: palavras de um xam\u00e3 yanomami<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o Beatriz Perrone-Mois\u00e9s, S\u00e3o Paulo, Cia. das Letras, 2015.<\/p>\n<p>MUCHAIL, S. T. (<em>Org<\/em>.),\u00a0<em>Um passado revisitado: 80 anos do curso de Filosofia da PUC-SP,<\/em>\u00a0Educ, 1992.<\/p>\n<p>NOVAIS, F. A., \u201cO Brasil nos quadros do antigo sistema colonial\u201d,\u00a0<em>In\u00a0<\/em>MOTA, C. G. (<em>Org.<\/em>),\u00a0<em>Brasil em perspectiva,\u00a0<\/em>7\u00aa edi\u00e7\u00e3o, fevereiro 1976, pp. 47-63.<\/p>\n<p>PAIM, A.,\u00a0<em>A filosofia da Escola do Recife,\u00a0<\/em>Rio de Janeiro, Saga, 1966.<\/p>\n<p>PAZ, O., \u201cWhitman, o poeta da Am\u00e9rica\u201d, ___,\u00a0<em>O arco e a lira,\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo, Cosac Naify, 2012, pp. 305-308.<\/p>\n<p>PERIC\u00c1S, L. B.; SECCO, L. (<em>Orgs<\/em>),\u00a0<em>Int\u00e9rpretes do Brasil: cl\u00e1ssicos, rebeldes e renegados<\/em>, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2014.<\/p>\n<p>ROCHA, G. Entrevista a E. T. Greville,\u00a0<em>Positif \u2013 revue de cinema,\u00a0<\/em>n. 91, Paris, janeiro de 68. (Edi\u00e7\u00e3o da Sociedade Amigos da Cinemateca, Livraria PAF, Cine Belas Artes).<\/p>\n<p>SANTOS, J. H., \u201cBrava gente brasileira: pequeno ensaio sobre sociedade e Estado por ocasi\u00e3o do V Centen\u00e1rio\u201d,\u00a0<em>Veritas,\u00a0<\/em>v. 44. N. 4, Porto Alegre, dezembro1999, pp. 977-994.<\/p>\n<p>SCHWARZ, R., \u201cAs ideias fora do lugar\u201d,\u00a0<em>Estudos Cebrap,\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo, janeiro 1973.<\/p>\n<p>_______,\u00a0<em>Martinha\u00a0<\/em>versus\u00a0<em>Lucr\u00e9cia: ensaios e entrevistas<\/em>, S\u00e3o Paulo, Cia. das Letras, 2012.<\/p>\n<p>VAZ, H. C. de L., \u201cFilosofia no Brasil, hoje\u2019,\u00a0<em>Cadernos SEAF,\u00a0<\/em>ano 1, n. 1, Rio de Janeiro, Sociedade de Estudos e Atividades Filos\u00f3ficas, agosto de 1978, pp. 7-16.<\/p>\n<p>VITA, L. W.,\u00a0<em>Tr\u00edptico de ideias<\/em>, S\u00e3o Paulo, Grijalbo, 1967. (Colabora\u00e7\u00e3o da Edusp).<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n<p><a id=\"_edn1\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref1\">[i]<\/a>\u00a0Talvez, por prenunciar a imagina\u00e7\u00e3o antropof\u00e1gica a caminho, M\u00e1rio de Andrade, em 1926, registrou: \u201c<em>N\u00e3o somos o que somos, somos o que os outros querem que sejamos<\/em>.\u201d (PAU-D\u2019ALHO, pseud\u00f4nimo de M\u00c1RIO de ANDRADE, 2013, p. 159).\u201d<\/p>\n<p><a id=\"_edn2\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref2\">[ii]<\/a>\u00a0De um ponto de vista conservador e datado, conferir o cap\u00edtulo \u201cMundivid\u00eancia brasil\u00edndia\u201d (VITA, 1967, pp. 35-45).<\/p>\n<p><a id=\"_edn3\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref3\">[iii]<\/a>\u00a0A prop\u00f3sito, conferir mat\u00e9ria acerca dos duzentos anos da Independ\u00eancia do Brasil, links de acesso:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2022\/05\/04\/200-livros-importantes-para-entender-o-brasil\/\">https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2022\/05\/04\/200-livros-importantes-para-entender-o-brasil\/<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/independencia-200\/2021\/05\/conheca-200-importantes-livros-para-entender-o-brasil.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/independencia-200\/2021\/05\/conheca-200-importantes-livros-para-entender-o-brasil.shtml<\/a>, acessados dia 01 de outubro de 2022.<\/p>\n<p><a id=\"_edn4\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref4\">[iv]<\/a>\u00a0\u201c\u2026 com Paulo Arantes dedicando seu livro \u00e0 forma\u00e7\u00e3o uspiana e abrindo o caminho para aquilo que seria a forma\u00e7\u00e3o da filosofia brasileira, que at\u00e9 hoje ainda n\u00e3o veio \u00e0 luz. No entanto, se ainda n\u00e3o h\u00e1 a obra, n\u00e3o nos faltam a experi\u00eancia e a realidade da p\u00e1gina virada, com a agenda da p\u00f3s-forma\u00e7\u00e3o ocupando hoje o primeiro plano\u2026 (DOMINGUES, 2017, p. 50).\u201d<\/p>\n<p><a id=\"_edn5\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref5\">[v]<\/a>\u00a0A prop\u00f3sito, Lima Vaz registrara \u201cAssim, vemos aparecer em fins do s\u00e9c. XIX e princ\u00edpios do s\u00e9c. XX, momento de crescimento mais r\u00e1pido da sociedade norte-americana, correntes filos\u00f3ficas como o pragmatismo, o instrumentalismo deweyano, o operacionalismo, que configuravam um pensamento filos\u00f3fico tipicamente norte-americano (VAZ, 1978, p. 13).\u201d<\/p>\n<p><a id=\"_edn6\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref6\">[vi]<\/a>\u00a0Descoloniza\u00e7\u00e3o para evitar o galicismo do termo \u201cdecoloniza\u00e7\u00e3o\u201d, ambos de sentido similar.<\/p>\n<p><a id=\"_edn7\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref7\">[vii]<\/a>\u00a0\u201cOs cr\u00edticos, sobretudo Barreto Filho, que melhor estudou o caso, interpretam o Humanitismo como s\u00e1tira ao Positivismo e em geral ao Naturalismo filos\u00f3fico do s\u00e9culo XIX, principalmente sob o aspecto da teoria darwiniana da luta pela vida com sobreviv\u00eancia do mais apto. Mas, al\u00e9m disso, \u00e9 not\u00f3ria uma conota\u00e7\u00e3o mais ampla, que transcende a s\u00e1tira e v\u00ea o homem como um ser devorador em cuja din\u00e2mica a sobreviv\u00eancia do mais forte \u00e9 um epis\u00f3dio e um caso particular. Essa devora\u00e7\u00e3o geral e surda tende a transformar o homem em instrumento do homem, e sob este aspecto a obra de Machado se articula, muito mais do que poderia parecer \u00e0 primeira vista, com os conceitos de aliena\u00e7\u00e3o e decorrente reifica\u00e7\u00e3o da personalidade, dominantes no pensamento e na cr\u00edtica marxista de nossos dias e j\u00e1 ilustrados pela obra dos grandes realistas, homens t\u00e3o diferentes dele quanto Balzac e Zola (ANTONIO CANDIDO, 2011, p. 29).\u201d Contudo, Faoro interpreta o programa filos\u00f3fico Humanitas, politicamente: \u201cO final do programa \u00e9 o verdadeiro programa: derrubar o minist\u00e9rio. Uma doutrina filos\u00f3fica justificaria a ambi\u00e7\u00e3o do poder, mitigada e embelezada na sua rudeza. Mas a filosofia, em ess\u00eancia, n\u00e3o ensina outra coisa sen\u00e3o o deslocamento do partido que manda por outro que quer mandar. Nessa manipula\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmulas e palavras, os ingredientes dos dois partidos tradicionais se misturavam e confundiam: \u2018defender os s\u00e3os princ\u00edpios da liberdade e conserva\u00e7\u00e3o (FAORO, 1976, p. 167).\u201d<\/p>\n<p><a id=\"_edn8\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref8\">[viii]<\/a>\u00a0A prop\u00f3sito de \u201cAs ideias fora do lugar\u201d (1973), ver \u201cPor que \u2018ideias fora do lugar\u2019? (SCHWARZ, 2012, pp. 165-172).<\/p>\n<p><a id=\"_edn9\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref9\">[ix]<\/a>\u00a0Para a cr\u00edtica distanciada da posi\u00e7\u00e3o de Cruz Costa, conferir \u201cUma hist\u00f3ria dos paulistas no seu desejo de ter uma Filosofia\u201d (ARANTES, 1993, pp. 319-347). Ver tamb\u00e9m \u201cInstinto de nacionalidade: Cruz Costa e herdeiros nos idos de 60\u201d (ARANTES (1984), 1994, pp. 102-126).<\/p>\n<p><a id=\"_edn10\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref10\">[x]<\/a>\u00a0Ver NOVAIS, F. \u201cO Brasil nos quadros do antigo sistema colonial\u201d, (MOTA, 1977, pp. 47-63).<\/p>\n<p><a id=\"_edn11\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref11\">[xi]<\/a>\u00a0Se a express\u00e3o \u201craz\u00e3o tupiniquim\u201d recendia certo pr\u00e9-ju\u00edzo em rela\u00e7\u00e3o a sabedoria dos povos origin\u00e1rios brasileiros; atualmente, ao contr\u00e1rio, h\u00e1 um interesse crescente por tal sabedoria, sobremodo, acerca do metabolismo homem-natureza retratado no depoimento autobiogr\u00e1fico do xam\u00e3 yanomami, Davi Kopenawa. (KOPENAWA; ALBERT, 2015).<\/p>\n<p><a id=\"_edn12\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref12\">[xii]<\/a>\u00a0Link de acesso ao samba \u201cPositivismo\u201d, de Noel Rosa,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=cDNXg_KdTM0\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=cDNXg_KdTM0<\/a><\/p>\n<p><a id=\"_edn13\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref13\">[xiii]<\/a>\u00a0Link de acesso ao samba \u201cMora na filosofia\u201d, de Monsueto Menezes,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ssfwerdOqVk\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ssfwerdOqVk<\/a>.<\/p>\n<p><a id=\"_edn14\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref14\">[xiv]<\/a>\u00a0Link de acesso \u00e0 can\u00e7\u00e3o \u201cL\u00edngua\u201d, de Caetano Veloso,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fsqoCBfucYo\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fsqoCBfucYo<\/a>.<\/p>\n<p><a id=\"_edn15\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref15\">[xv]<\/a>\u00a0O personagem Paulo Martins, vivido por Jardel Filho, jornalista e poeta, em\u00a0<em>Terra em transe,\u00a0<\/em>de Glauber Rocha, 1967, recita no filme partes de poemas de M\u00e1rio Faustino.<\/p>\n<p><a id=\"_edn16\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref16\">[xvi]<\/a>\u00a0\u201cO problema de uma Filosofia especificamente nacional, que encontre no car\u00e1ter aut\u00f3ctone seu crit\u00e9rio (ia dizer validez), vem sendo reiteradamente colocado na Am\u00e9rica Latina. Evidentemente, esse desiderato inscreve-se num complexo bem mais vasto de quest\u00f5es: trata-se do processo que pretende superar uma situa\u00e7\u00e3o de inferioridade cultural atrav\u00e9s da afirma\u00e7\u00e3o de uma \u2018linguagem\u2019 nacional. E nacional quer dizer, entre outras coisas, mas principalmente, o estabelecimento do estatuto de uma cultura n\u00e3o dependente, calcada na reivindica\u00e7\u00e3o de autonomia nacional, mesmo que n\u00e3o excludente. Assim, o que estaria em causa seria o ser mesmo destes povos, a escuta de sua \u00edndole mais profunda, \u00fanica garantia para conseguir alicer\u00e7ar a constru\u00e7\u00e3o de um perfil verdadeiramente nacional. E caberia ao comprometimento dos conceitos filos\u00f3ficos traduzir a riqueza da realidade dos diversos pa\u00edses em categorias racionais inconfund\u00edveis. [\u2026] (Contudo), Toda a problem\u00e1tica das rela\u00e7\u00f5es entre filosofia e realidade nacional acaba girando, necessariamente, em torno do conceito de diferen\u00e7a. E \u00e9 apenas ent\u00e3o que o problema pode come\u00e7ar a ser equacionado (BORNHEIM, 1980, pp. 93 e 103, respectivamente).\u201d<\/p>\n<p><a id=\"_edn17\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref17\">[xvii]<\/a>\u00a0Sugest\u00e3o de tema replicado do t\u00edtulo da obra\u00a0<em>Fenomenologia do Brasileiro<\/em>\u00a0(FLUSSER, 1988).<\/p>\n<p><a id=\"_edn18\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref18\">[xviii]<\/a>\u00a0De sa\u00edda, a tomar em conta \u201cBrava gente brasileira: pequeno ensaio sobre sociedade e Estado por ocasi\u00e3o do V Centen\u00e1rio\u201d (SANTOS, 1999, pp. 977-994).<\/p>\n<p><a id=\"_edn19\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref19\">[xix]<\/a>\u00a0De Greg\u00f3rio de Matos Guerra, Castro Alves, M\u00e1rio de Andrade, Oswald de Andrade, Murilo Mendes Jo\u00e3o Cabral, M\u00e1rio Faustino, Jo\u00e3o Cabral, Paulo Leminski, os irm\u00e3os Campos. \u2013 Carlos Drummond de Andrade, a estibordo.<\/p>\n<p><a id=\"_edn20\" href=\"read:\/\/https_aterraeredonda.com.br\/?url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fa-filosofia-que-pensa-o-brasil%2F#_ednref20\">[xx]<\/a> Contudo, ressalvado que projeto modernista viajava no tempo, antes de eclodir em 1922, atrav\u00e9s, basicamente, da interlocu\u00e7\u00e3o de Eduardo Prado com E\u00e7a de Queir\u00f3z, dentre outros, desde o final do s\u00e9culo XIX. Eduardo Prado, cuja fam\u00edlia deteve por d\u00e9cadas o controle da produ\u00e7\u00e3o e do com\u00e9rcio exterior do caf\u00e9. Para Hardman, subsidiada pela oligarquia agro comercial paulista, e expressa pela elite intelectual regional, o que se pretendeu com a Semana de Arte Moderna, para al\u00e9m das inten\u00e7\u00f5es de viravolta est\u00e9tica, fora a consolida\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de um projeto de pais, sob a hegemonia dos paulistas. (HARDMAN, 2022).<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A filosofia que pensa o Brasil &#8211; A Terra \u00e9 Redonda &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-filosofia-que-pensa-o-brasil\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANTONIO VALVERDE* &#8211; Qui\u00e7\u00e1, seja chegada a hora de pensar o que \u00e9 o Brasil, sob um vagar ocioso, por\u00e9m, sim\u00e9trico \u00e0s urg\u00eancias do tempo presente. \u201cS\u00f3 h\u00e1 determinismo onde h\u00e1 mist\u00e9rio. Mas que temos n\u00f3s com isso? 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