{"id":20174,"date":"2023-12-12T12:54:13","date_gmt":"2023-12-12T15:54:13","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20174"},"modified":"2023-12-11T18:58:43","modified_gmt":"2023-12-11T21:58:43","slug":"como-frear-a-marcha-para-a-iii-guerra-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/12\/12\/como-frear-a-marcha-para-a-iii-guerra-mundial\/","title":{"rendered":"Como frear a marcha para a III Guerra Mundial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jeffrey D. Sachs &#8211; <\/strong>Ocidente fustiga guerras, sabota diplomacia e recusa-se a pagar pelas crises que gerou, como na Ucr\u00e2nia e Palestina. \u00c9 tempo de a\u00e7\u00f5es concretas \u2013 e profundas. Que tal come\u00e7ar deslocando parte dos gastos militares a um projeto de paz global?<\/p>\n<p><em>Senhor Presidente; Embaixadores; Secret\u00e1rio-Geral da ONU, Antonio Guterres; Presidenta do NDB, Dilma Rousseff; ilustres diplomatas; senhoras e senhores,<\/em><\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Jeffrey D. Sachs. Sou professor universit\u00e1rio na Universidade de Columbia. Sou especialista em economia global e desenvolvimento sustent\u00e1vel. Compare\u00e7o perante o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU em meu pr\u00f3prio nome. N\u00e3o represento nenhum governo ou organiza\u00e7\u00e3o no testemunho que prestarei.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o de hoje ocorre num momento em que h\u00e1 v\u00e1rias guerras importantes. No meu testemunho referir-me-ei a quatro: a Guerra da Ucr\u00e2nia, que come\u00e7ou em 2014 com a derrubada violenta do presidente da Ucr\u00e2nia, Viktor Yanukovich; a Guerra Israel-Palestina, que se desencadeou repetidamente desde 1967; a Guerra S\u00edria, iniciada em 2011; e as Guerras do Sahel, que come\u00e7aram em 2012 no Mali e que agora se espalham por toda a regi\u00e3o do Sahel.<\/p>\n<p>Estas e outras guerras recentes ceifaram milh\u00f5es de vidas, desperdi\u00e7aram trilh\u00f5es de d\u00f3lares em despesas militares e destru\u00edram riqueza cultural, natural e econ\u00f4mica constru\u00edda ao longo de gera\u00e7\u00f5es e, na verdade, mil\u00eanios. As guerras s\u00e3o o pior inimigo do desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Estas guerras podem parecer intrat\u00e1veis, mas n\u00e3o s\u00e3o. Na verdade, eu sugeriria que todas as quatro guerras poderiam ser rapidamente encerradas atrav\u00e9s de acordo no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Uma raz\u00e3o \u00e9 que as grandes guerras s\u00e3o alimentadas do exterior, tanto com finan\u00e7as externas como com armamentos. O Conselho de Seguran\u00e7a da ONU poderia concordar em sufocar estas guerras terr\u00edveis barrando o financiamento externo e os armamentos. Isso exigiria um acordo entre as grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p>A outra raz\u00e3o pela qual estas guerras podem terminar rapidamente \u00e9 que resultam de fatores econ\u00f4micos e pol\u00edticos que podem ser resolvidos por meio da diplomacia e em vez da guerra. Ao abordar os fatores pol\u00edticos e econ\u00f4micos subjacentes, o Conselho de Seguran\u00e7a pode estabelecer condi\u00e7\u00f5es para a paz e o desenvolvimento sustent\u00e1vel. Consideremos cada uma das quatro guerras separadamente.<\/p>\n<p>A Guerra na Ucr\u00e2nia tem duas causas pol\u00edticas principais. A primeira \u00e9 a tentativa da OTAN de se expandir para a Ucr\u00e2nia, apesar das obje\u00e7\u00f5es oportunas, repetidas e cada vez mais urgentes da R\u00fassia. A R\u00fassia considera a presen\u00e7a da OTAN na Ucr\u00e2nia como uma amea\u00e7a significativa \u00e0 sua seguran\u00e7a.[1] A segunda causa pol\u00edtica \u00e9 a divis\u00e3o \u00e9tnica Leste-Oeste na Ucr\u00e2nia, em parte ao longo de linhas lingu\u00edsticas e em parte ao longo de linhas religiosas. Ap\u00f3s a derrubada do presidente Yanukovych, em 2014, as regi\u00f5es de maioria \u00e9tnica russa romperam com o governo p\u00f3s-golpe e clamaram por prote\u00e7\u00e3o e autonomia. O acordo de Minsk II, aprovado por unanimidade por este Conselho na Resolu\u00e7\u00e3o 2202, apelava a que fosse incorporada a autonomia regional na constitui\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia, mas o acordo nunca foi implementado pelo governo da Ucr\u00e2nia, apesar do apoio do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU.<\/p>\n<p>A causa econ\u00f4mica da guerra resulta do fato da economia da Ucr\u00e2nia estar voltada tanto para oeste, para a Uni\u00e3o Europeia, como para leste, para a R\u00fassia, \u00c1sia Central e \u00c1sia Oriental. Quando a UE tentou negociar um acordo de livre com\u00e9rcio com a Ucr\u00e2nia, a R\u00fassia manifestou alarme de que o seu pr\u00f3prio com\u00e9rcio e investimentos na Ucr\u00e2nia seriam prejudicados, a menos que fosse alcan\u00e7ado um acordo tripartido entre UE, R\u00fassia e Ucr\u00e2nia para garantir que o com\u00e9rcio ucraniano-russo e o investimento seria sustentado juntamente com o com\u00e9rcio UE-Ucr\u00e2nia. Infelizmente, a UE aparentemente n\u00e3o estava preparada para negociar com a R\u00fassia sobre esse acordo tripartido, e a orienta\u00e7\u00e3o concorrente leste-oeste da economia ucraniana nunca foi resolvida.<\/p>\n<p>Este Conselho poderia p\u00f4r fim rapidamente \u00e0 Guerra da Ucr\u00e2nia, abordando suas causas pol\u00edticas e econ\u00f4micas subjacentes. Na frente pol\u00edtica, os pa\u00edses P5 deveriam concordar em estender garantia de seguran\u00e7a \u00e0 Ucr\u00e2nia, e ao mesmo tempo concordar que a OTAN n\u00e3o se expandir\u00e1 para a Ucr\u00e2nia, dando assim uma resposta \u00e0 profunda oposi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia \u00e0 extens\u00e3o da OTAN. O Conselho dever\u00e1 tamb\u00e9m trabalhar no sentido de alcan\u00e7ar uma solu\u00e7\u00e3o de governan\u00e7a duradoura para o tema das divis\u00f5es \u00e9tnicas da Ucr\u00e2nia. O fracasso da Ucr\u00e2nia em implementar o acordo de Minsk II, e do Conselho em fazer cumprir o acordo, significa que a solu\u00e7\u00e3o da autonomia regional j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente. Ap\u00f3s quase 10 anos de duros combates, \u00e9 realista que algumas das regi\u00f5es etnicamente russas permane\u00e7am como parte da R\u00fassia, enquanto a grande maioria do territ\u00f3rio ucraniano permanecer\u00e1, naturalmente, com uma Ucr\u00e2nia soberana e segura.<\/p>\n<p>No aspecto econ\u00f4mico, h\u00e1 duas considera\u00e7\u00f5es a se fazer, uma relativa \u00e0 pol\u00edtica e outra relativa ao financiamento. Em termos pol\u00edticos, o forte interesse econ\u00f4mico da Ucr\u00e2nia \u00e9 o de aderir \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e, ao mesmo tempo, manter rela\u00e7\u00f5es comerciais e financeiras abertas com a R\u00fassia e o resto da Eur\u00e1sia. A pol\u00edtica comercial da Ucr\u00e2nia deve ser inclusiva e n\u00e3o divisionista, permitindo \u00e0 Ucr\u00e2nia servir como uma vibrante ponte econ\u00f4mica entre o leste e o oeste da Eur\u00e1sia. No que tange ao financiamento, a Ucr\u00e2nia necessitar\u00e1 de financiamento para a reconstru\u00e7\u00e3o e para nova infraestrutura f\u00edsica \u2013 como trens r\u00e1pidos, energias renov\u00e1veis, 5G e moderniza\u00e7\u00e3o portu\u00e1ria. Tal como descrevo abaixo, recomendo que o Conselho de Seguran\u00e7a estabele\u00e7a um novo Fundo para a Paz e o Desenvolvimento, para favorecer o financiamento com o objetivo de ajudar a Ucr\u00e2nia e outras zonas de conflito b\u00e9lico a abandonarem a guerra em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o e ao desenvolvimento sustent\u00e1vel a longo prazo.<\/p>\n<p>Consideremos de forma semelhante a guerra em Israel e na Palestina. Tamb\u00e9m aqui a guerra poderia ser rapidamente encerrada se o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU aplicasse as suas muitas resolu\u00e7\u00f5es tomadas ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, apelando ao regresso \u00e0s fronteiras de 1967, ao fim das atividades de coloniza\u00e7\u00e3o de Israel nos territ\u00f3rios ocupados e \u00e0 solu\u00e7\u00e3o de dois Estados, incluindo as resolu\u00e7\u00f5es 242, 338, 1397, 1515 e 2334 do CSNU. \u00c9 claro que Israel e Palestina s\u00e3o incapazes de chegar a acordos bilaterais em linha com estas resolu\u00e7\u00f5es do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Em ambos os lados, os representantes da linha dura frustra repetidamente os moderados, que procuram a paz tendo como base a solu\u00e7\u00e3o de dois Estados.<\/p>\n<p>\u00c9 mais do que tempo, portanto, de o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU fazer cumprir as suas decis\u00f5es, implementando uma solu\u00e7\u00e3o justa e duradoura que seja do interesse tanto de Israel como da Palestina, em vez de permitir que a linha dura de ambos os lados ignore o poder outorgado a este Conselho e amea\u00e7ando assim a paz global. A minha recomenda\u00e7\u00e3o a este Conselho \u00e9 que reconhe\u00e7a imediatamente o Estado da Palestina, numa quest\u00e3o de dias ou semanas, e receba a Palestina como membro de pleno direito das Na\u00e7\u00f5es Unidas, com capital em Jerusal\u00e9m Oriental e com controle soberano sobre os Locais Sagrados Isl\u00e2micos. O Conselho deveria tamb\u00e9m criar uma for\u00e7a de manuten\u00e7\u00e3o da paz, proveniente em grande parte dos pa\u00edses \u00e1rabes vizinhos, para ajudar a garantir a seguran\u00e7a na Palestina. Tal resultado constitui a vontade esmagadora da comunidade internacional e \u00e9 do interesse manifesto tanto de Israel como da Palestina, apesar das veementes obje\u00e7\u00f5es dos rejeicionistas extremistas de ambos os lados do conflito.<\/p>\n<p>Tal como aconteceu com a Ucr\u00e2nia, o fracasso deste Conselho em fazer cumprir as suas resolu\u00e7\u00f5es anteriores relativas a Israel e \u00e0 Palestina tornou a situa\u00e7\u00e3o atual muito mais dif\u00edcil de resolver. As col\u00f4nias ilegais de Israel j\u00e1 se expandiram para mais de 600 mil colonos. No entanto, a viola\u00e7\u00e3o descarada e de longa data do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU por parte de Israel quanto a isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para o Conselho recuar agora em rela\u00e7\u00e3o a uma a\u00e7\u00e3o decisiva, especialmente porque Gaza est\u00e1 em chamas e a regi\u00e3o em geral \u00e9 um barril de p\u00f3lvora que pode explodir a qualquer momento.<\/p>\n<p>Uma estrat\u00e9gia econ\u00f4mica deve acompanhar a estrat\u00e9gia pol\u00edtica. Mais importante ainda, o novo Estado soberano da Palestina deve ser economicamente vi\u00e1vel. Isto exigir\u00e1 diversas medidas econ\u00f4micas. Em primeiro lugar, a Palestina deveria se beneficiar dos reservat\u00f3rios de petr\u00f3leo e g\u00e1s\u00a0<em>offshore<\/em>, localizados em suas \u00e1guas territoriais. Em segundo lugar, o novo Fundo para a Paz e o Desenvolvimento dever\u00e1 ajudar a Palestina a financiar um porto moderno em Gaza e uma liga\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria e ferrovi\u00e1ria segura que ligue Gaza e a Cisjord\u00e2nia. Terceiro, os recursos h\u00eddricos vitais do Vale do Jord\u00e3o devem ser partilhados equitativamente entre Israel e a Palestina, e ambas as na\u00e7\u00f5es em conjunto devem ser apoiadas para garantir um aumento substancial na capacidade de dessaliniza\u00e7\u00e3o para satisfazer as necessidades urgentes e crescentes de \u00e1gua de ambos os pa\u00edses. Em quarto lugar, e mais importante, tanto Israel como a Palestina devem tornar parte de um plano integrado de desenvolvimento sustent\u00e1vel para o Mediterr\u00e2neo Oriental e Oriente M\u00e9dio, que apoie a resili\u00eancia clim\u00e1tica e a transi\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o para a energia verde.<\/p>\n<p>O Conselho pode igualmente p\u00f4r fim \u00e0 guerra na S\u00edria. A Guerra S\u00edria eclodiu em 2011, quando v\u00e1rias pot\u00eancias regionais e os Estados Unidos uniram for\u00e7as para derrubar o governo do presidente s\u00edrio, Bashar al-Assad. Esta opera\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a de regime profundamente equivocada n\u00e3o apenas falhou, como desencadeou uma guerra prolongada com enorme derramamento de sangue e destrui\u00e7\u00e3o, incluindo de antigos locais de patrim\u00f3nio cultural. O Conselho dever\u00e1 deixar claro que todos os pa\u00edses P5 e os pa\u00edses vizinhos da S\u00edria est\u00e3o plenamente de acordo que todas as tentativas de mudan\u00e7a de regime est\u00e3o agora permanentemente encerradas e que o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU pretende trabalhar em estreita colabora\u00e7\u00e3o com o governo s\u00edrio na reconstru\u00e7\u00e3o e no desenvolvimento.<\/p>\n<p>No aspecto econ\u00f4mico, a maior esperan\u00e7a da S\u00edria \u00e9 tornar-se estreitamente integrada na regi\u00e3o do Mediterr\u00e2neo Oriental \u2013 Oriente M\u00e9dio, especialmente pela constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas f\u00edsicas (estradas, ferrovias, fibra \u00f3ptica, energia, \u00e1gua) que liguem a S\u00edria \u00e0 Turquia, ao Oriente M\u00e9dio e \u00e0s na\u00e7\u00f5es mediterr\u00e2neas. Tal como acontece com Israel e a Palestina, este programa de investimento deve ser parcialmente financiado por um novo Fundo para a Paz e o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel criado por este Conselho.<\/p>\n<p>A guerra no Sahel tem ra\u00edzes semelhantes \u00e0s da guerra na S\u00edria. Assim como as pot\u00eancias regionais e os EUA pretendiam derrubar o regime de Bashar al-Assad em 2011, as principais pot\u00eancias da OTAN tamb\u00e9m pretendiam derrubar o regime de Muamar Kadafi na L\u00edbia em 2011. Ao perseguir este objetivo, excederam grosseiramente o mandato da ONU. A Resolu\u00e7\u00e3o 1973 do Conselho de Seguran\u00e7a autorizou a prote\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o civil da L\u00edbia, mas certamente n\u00e3o uma opera\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a de regime liderada pela OTAN. A derrubada violenta do governo l\u00edbio rapidamente se estendeu aos pa\u00edses empobrecidos do Sahel. A pobreza, por si s\u00f3, tornou estes pa\u00edses do Sahel altamente vulner\u00e1veis \u200b\u200bao influxo de armamentos e de mil\u00edcias. O resultado tem sido a viol\u00eancia cont\u00ednua e m\u00faltiplos golpes de estado, minando gravemente a possibilidade de melhoria econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>A crise do Sahel \u00e9 hoje, antes de qualquer outra coisa, uma crise de inseguran\u00e7a e pobreza. O Sahel \u00e9 uma regi\u00e3o entre semi\u00e1rida e hiper\u00e1rida, com inseguran\u00e7a alimentar cr\u00f4nica, fome e pobreza extrema. A maioria dos pa\u00edses da regi\u00e3o n\u00e3o tem acesso ao mar, o que lhes causa enormes dificuldades para os transportes e o com\u00e9rcio internacional. No entanto, ao mesmo tempo, a regi\u00e3o possui enormes reservas de minerais altamente valiosos, grande biodiversidade e potencial agron\u00f4mico, enorme potencial de energia solar e, claro, um enorme potencial humano que ainda n\u00e3o se realizou devido a uma car\u00eancia cr\u00f4nica de escolaridade e forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses do Sahel formam um agregado natural para o investimento econ\u00f4mico regional em infraestruturas. Toda a regi\u00e3o necessita urgentemente de investimentos em sistema de eletricidade, acesso digital, \u00e1gua e saneamento, nos transportes rodovi\u00e1rios e ferrovi\u00e1rios, bem como nos servi\u00e7os sociais, em especial em educa\u00e7\u00e3o e cuidados de sa\u00fade. Como o Sahel est\u00e1 entre as regi\u00f5es mais pobres do mundo, os governos s\u00e3o totalmente incapazes de financiar os investimentos necess\u00e1rios. Tamb\u00e9m aqui, e talvez mais do que em qualquer outra regi\u00e3o, o Sahel necessita de financiamento externo para fazer a transi\u00e7\u00e3o da guerra para a paz e da pobreza extrema para o desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Todos os membros do P5, e na verdade o mundo inteiro, sofrem consequ\u00eancias adversas da continuidade dessas guerras. Todos est\u00e3o pagando um pre\u00e7o traduzido em encargos financeiros, instabilidade econ\u00f4mica, riscos de terrorismo e riscos de uma guerra mais vasta. O Conselho de Seguran\u00e7a est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o de tomar medidas decisivas para acabar com a guerra precisamente porque \u00e9 evidente que o interesse de todos os membros do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, e em especial de todos os pa\u00edses do P5, \u00e9 p\u00f4r fim a estas guerras duradouras, antes que se transformem em conflitos ainda mais perigosos.<\/p>\n<p>O Conselho de Seguran\u00e7a \u00e9 investido de poderes consider\u00e1veis \u200b\u200bpela Carta da ONU quando seus membros demonstram determina\u00e7\u00e3o. Pode utilizar for\u00e7as de manuten\u00e7\u00e3o da paz e at\u00e9 ex\u00e9rcitos, se necess\u00e1rio. Pode impor san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas a pa\u00edses que n\u00e3o cumpram as suas Resolu\u00e7\u00f5es. Pode fornecer garantias de seguran\u00e7a \u00e0s na\u00e7\u00f5es. Pode encaminhar a\u00e7\u00f5es ao Tribunal Penal Internacional para impedir crimes de guerra. Em suma, o Conselho \u00e9 certamente capaz de fazer cumprir as suas resolu\u00e7\u00f5es se assim o desejar. Em nome da paz global, que o Conselho agora decida p\u00f4r fim a essas guerras.<\/p>\n<p>O Conselho de Seguran\u00e7a da ONU tamb\u00e9m deve refor\u00e7ar o seu conjunto de ferramentas, envolvendo-se na constru\u00e7\u00e3o da paz econ\u00f4mica, juntamente com as decis\u00f5es mais comuns sobre fronteiras, for\u00e7as de manuten\u00e7\u00e3o da paz, san\u00e7\u00f5es e afins. Mencionei v\u00e1rias vezes a ideia de criar um novo Fundo para a Paz e o Desenvolvimento que o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU poderia implementar para criar din\u00e2micas positivas para o desenvolvimento sustent\u00e1vel e para encorajar outros investidores \u2013 como o Banco Mundial, o FMI e o Fundo Multilateral de Desenvolvimento regional. Bancos \u2013 para co-investir na promo\u00e7\u00e3o da paz.<\/p>\n<p>Eu recomendaria tr\u00eas diretrizes para esse novo fundo.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, este fundo seria financiado pelas grandes pot\u00eancias, atrav\u00e9s da transfer\u00eancia de uma parte dos seus gastos militares para a manuten\u00e7\u00e3o da paz global. Os EUA, por exemplo, gastam agora cerca de 1 trilh\u00e3o de d\u00f3lares por ano nas for\u00e7as armadas, em seguida v\u00eam a China, a R\u00fassia, a \u00cdndia e a Ar\u00e1bia Saudita como maiores gastadores, cuja soma de gastos militares representa um pouco mais de metade dos EUA, talvez cerca de US$ 600 bilh\u00f5es. Suponhamos que estes pa\u00edses reduzissem os gastos militares em apenas 10% e redirecionassem as poupan\u00e7as para o Fundo para a Paz e o Desenvolvimento. S\u00f3 isso libertaria cerca de 160 bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano. Mesmo essa soma poderia ser aproveitada com alguma engenharia financeira para permitir empr\u00e9stimos anuais de, digamos, 320 bilh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano, ou seja, o suficiente para ajudar as atuais zonas de guerra a iniciarem uma virada vigorosa para a recupera\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o fundo enfatizaria a integra\u00e7\u00e3o regional. Isto \u00e9 fundamental para a pacifica\u00e7\u00e3o, bem como para o desenvolvimento bem-sucedido. A Ucr\u00e2nia seria ajudada a integrar tanto o Ocidente (via UE) como o Leste (em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia, \u00c1sia Central e \u00c1sia Oriental). Israel, a Palestina e a S\u00edria seriam todos ajudados a integrar-se numa rede de infraestruturas para a regi\u00e3o do Mediterr\u00e2neo Oriental e Oriente M\u00e9dio, aprofundando a paz, bem como o desenvolvimento econ\u00f4mico. Os pa\u00edses do Sahel seriam ajudados a quebrar o seu isolamento e a falta de servi\u00e7os b\u00e1sicos atrav\u00e9s de uma rede de infraestruturas rodovi\u00e1rias, ferrovi\u00e1rias, portu\u00e1rias, de fibra \u00f3ptica e de energia.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, o Fundo para a Paz e o Desenvolvimento estabeleceria parcerias com outras fontes de financiamento, como a Iniciativa Cintur\u00e3o e Rota da China, o Portal Global da Uni\u00e3o Europeia, a Parceria Global para Infraestruturas e Investimento do G7 e o aumento dos empr\u00e9stimos concedidos pelas institui\u00e7\u00f5es de Bretton Woods e pelos bancos de desenvolvimento regional. Curiosamente, o Fundo para a Paz e o Desenvolvimento poderia ser um ve\u00edculo para maiores parcerias de investimento ligando a China, a UE, os Estados Unidos e o G7. Isto tamb\u00e9m seria uma contribui\u00e7\u00e3o para a paz, n\u00e3o s\u00f3 nas zonas de guerra atuais, mas tamb\u00e9m entre as principais pot\u00eancias do mundo.<\/p>\n<p>Do outro lado da rua est\u00e1 o muro de Isa\u00edas, com as\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.us19.list-manage.com\/track\/click?u=50ec04f7fdd8f247aecfa0ddf&amp;id=d0704a215f&amp;e=6dd3eb9aca\">palavras vision\u00e1rias<\/a>\u00a0do grande profeta judeu do s\u00e9culo 8 a.C.:\u00a0 \u201cEles transformar\u00e3o suas espadas em relhas de arado e suas lan\u00e7as em foices; na\u00e7\u00e3o n\u00e3o levantar\u00e1 espada contra na\u00e7\u00e3o, nem aprender\u00e3o mais a guerra\u201d. \u00c9 tempo de honrar as palavras de Isa\u00edas, acabando com estas guerras in\u00fateis, reduzindo os gastos militares e transformando as poupan\u00e7as em novos investimentos na educa\u00e7\u00e3o, nos cuidados de sa\u00fade, nas energias renov\u00e1veis \u200b\u200be na prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A proposta de redirecionar os gastos militares de hoje para o financiamento do desenvolvimento sustent\u00e1vel de amanh\u00e3 baseia-se n\u00e3o s\u00f3 na sabedoria duradoura de Isa\u00edas, mas tamb\u00e9m nas propostas dos l\u00edderes religiosos e das na\u00e7\u00f5es do mundo na Assembleia Geral da ONU. O Papa Paulo VI, em sua brilhante enc\u00edclica\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.us19.list-manage.com\/track\/click?u=50ec04f7fdd8f247aecfa0ddf&amp;id=8dd899d703&amp;e=6dd3eb9aca\">Populorum Progresio<\/a>\u00a0(1967) apelou aos l\u00edderes mundiais \u201cpara reservarem parte das suas despesas militares para um fundo mundial para aliviar as necessidades dos povos empobrecidos\u201d. A Assembleia Geral da ONU assumiu esta causa em sua Resolu\u00e7\u00e3o 75\/43, apelando \u201c\u00e0 comunidade internacional para que dedique parte dos recursos disponibilizados pela implementa\u00e7\u00e3o de acordos de desarmamento e de limita\u00e7\u00e3o de armas ao desenvolvimento econ\u00f4mico e social, com vistas a reduzir o fosso cada vez maior entre pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento.\u201d<\/p>\n<p>Como americano, tenho orgulho de que o nosso maior presidente, Franklin Delano Roosevelt, tenha sido o vision\u00e1rio que supervisionou o estabelecimento desta grande institui\u00e7\u00e3o. Acredito firmemente na capacidade das Na\u00e7\u00f5es Unidas e deste Conselho de Seguran\u00e7a de manter a paz e promover o desenvolvimento sustent\u00e1vel. Quando todos os 193 Estados-membros da ONU, ou 194 com a entrada da Palestina, cumprirem a Carta da ONU, teremos uma nova Era Global de Paz e Desenvolvimento Sustent\u00e1vel.<\/p>\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Nota<\/strong><\/h3>\n<p>(1) Podemos recordar que o artigo 2.\u00ba, n.\u00ba 4, da Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas pro\u00edbe n\u00e3o s\u00f3 o uso da for\u00e7a, mas tamb\u00e9m a sua amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Como frear a marcha para a III Guerra Mundial &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/como-frear-marcha-para-a-iii-guerra-mundial\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jeffrey D. Sachs &#8211; Ocidente fustiga guerras, sabota diplomacia e recusa-se a pagar pelas crises que gerou, como na Ucr\u00e2nia e Palestina. \u00c9 tempo de a\u00e7\u00f5es concretas \u2013 e profundas. Que tal come\u00e7ar deslocando parte dos gastos militares a um projeto de paz global? 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