{"id":20123,"date":"2023-11-26T12:42:51","date_gmt":"2023-11-26T15:42:51","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20123"},"modified":"2023-11-22T16:45:56","modified_gmt":"2023-11-22T19:45:56","slug":"as-telas-sao-perigosas-para-o-seu-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/11\/26\/as-telas-sao-perigosas-para-o-seu-filho\/","title":{"rendered":"As telas s\u00e3o perigosas para o seu filho?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ana Elisa Faria<\/strong> &#8211; A psicanalista, especializada em estimula\u00e7\u00e3o precoce, fala sobre a ansiedade e o encurtamento do pensamento de beb\u00eas e crian\u00e7as intoxicadas por eletr\u00f4nicos<\/p>\n<blockquote><p>\u201cTudo o que \u00e9 excessivamente fragment\u00e1rio produz uma condi\u00e7\u00e3o muito ansiog\u00eanica e gera o encurtamento do pensamento\u201d, diz a psicanalista Julieta Jerusalinsky, especialista em estimula\u00e7\u00e3o precoce, sobre os preju\u00edzos \u00e0 inf\u00e2ncia que a exposi\u00e7\u00e3o exacerbada e sem acompanhamento a telas e redes sociais \u2014 como o TikTok, que oferece milh\u00f5es de v\u00eddeos curtos deixando os pequenos siderados \u2014, tem gerado nos pequenos de todas as classes sociais.<\/p><\/blockquote>\n<p>A profissional n\u00e3o demoniza as novas tecnologias que, para ela, \u201cresolveram muitos problemas\u201d, mas que, por outro lado, trouxeram novos \u2014 e gigantes \u2014, como um sem-n\u00famero de beb\u00eas e crian\u00e7as intoxicadas por eletr\u00f4nicos.<\/p>\n<p>O desenvolvimento humano, de acordo com Julieta, depende da transmiss\u00e3o simb\u00f3lica e da intera\u00e7\u00e3o com o ambiente, especialmente nos primeiros anos de vida. O uso indiscriminado de telas nessa fase, por\u00e9m, pode privar as crian\u00e7as de experi\u00eancias estruturantes, substituindo situa\u00e7\u00f5es cotidianas significativas por est\u00edmulos descontextualizados e fragmentados.<\/p>\n<p>Nesta entrevista a Gama, ela aborda ainda a necessidade de desintoxicar crian\u00e7as dos abusos tecnol\u00f3gicos, destacando a import\u00e2ncia de pais e m\u00e3es se questionarem sobre o que os dispositivos eletr\u00f4nicos substituem na vida dos filhos, qual buraco eles preenchem. A psicanalista refor\u00e7a que o desmame das telas de cristal l\u00edquido deve ser acompanhado por situa\u00e7\u00f5es que permitam que a crian\u00e7a possa representar e elaborar simbolicamente as experi\u00eancias vivenciadas.<\/p>\n<p>G |Quais os principais preju\u00edzos que o contato excessivo e precoce com as telas oferece \u00e0s crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Julieta Jerusalinsky |<br \/>\nAs crian\u00e7as n\u00e3o chegam ao mundo estruturadas. Nascemos com caracter\u00edsticas org\u00e2nicas de base, um c\u00f3digo gen\u00e9tico e certas caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas, mas as experi\u00eancias de vida s\u00e3o decisivas para nos tornarmos quem somos. Por isso, o contato e a rela\u00e7\u00e3o com os outros, al\u00e9m da possibilidade da crian\u00e7a ter com quem representar o que a afeta, s\u00e3o cruciais. Assim, o que precisamos perguntar \u00e9: De que maneira o uso de telas pode privar uma crian\u00e7a, desde a mais tenra inf\u00e2ncia, de situa\u00e7\u00f5es estruturantes? Por exemplo, um beb\u00ea que convive com os adultos que compartilham as situa\u00e7\u00f5es mais cotidianas, como comer, tomar banho, se vestir, passear. Essas s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es nas quais h\u00e1 est\u00edmulos que fazem parte da vida cotidiana e s\u00e3o representados a partir desse cotidiano. As cores, as temperaturas e os sons que atingem um beb\u00ea v\u00e3o ganhando representa\u00e7\u00f5es naquele contexto de vida. No momento em que se tem a ilus\u00e3o de que isso pode ser substitu\u00eddo por uma tela de cristal l\u00edquido, que tornaria as crian\u00e7as inteligentes, o que acaba sendo produzido \u00e9 um excesso de est\u00edmulos descontextualizados que est\u00e3o fora da situa\u00e7\u00e3o em que esses contextos ganham um valor simb\u00f3lico e fora de uma situa\u00e7\u00e3o em que eles podem ser representados numa estrutura de di\u00e1logo com os outros. \u00c9 por isso que de 0 a 3 anos, fase de entrada na linguagem, a utiliza\u00e7\u00e3o dos eletr\u00f4nicos causa um enorme dano. No momento seguinte do desenvolvimento, vem a import\u00e2ncia do brincar simb\u00f3lico. E, ao substituir o brincar simb\u00f3lico, com constru\u00e7\u00e3o de cenas a partir de outros imagin\u00e1rios de representa\u00e7\u00e3o, pela forma de brincar dos jogos eletr\u00f4nicos, a gente passa a se encontrar com um cen\u00e1rio que est\u00e1 dado e que, portanto, coloca a crian\u00e7a como um ser passivo, justamente quando ela precisa ser a autora do faz de conta.<\/p>\n<blockquote><p>A riqueza do di\u00e1logo e a riqueza do brincar s\u00e3o insubstitu\u00edveis<\/p><\/blockquote>\n<p>G |Como educar crian\u00e7as sem TV ou internet em um mundo hiperconectado?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nTem uma pergunta crucial que os pais precisam se fazer: no lugar do que a tela entra? Hoje, a tela entra com o desenho que a crian\u00e7a v\u00ea enquanto come porque isso pode ser mais f\u00e1cil para o adulto. Mas que representa\u00e7\u00e3o a crian\u00e7a tem desse alimento, dos sabores e da produ\u00e7\u00e3o de um h\u00e1bito compartilhado com o outro? N\u00e3o se trata de isolar completamente uma crian\u00e7a dessas novas linguagens, trata-se de pensar que, por exemplo, ao contar uma hist\u00f3ria, um adulto modula a voz, estendendo aquele momento e produzindo mais interesse na crian\u00e7a. Quando uma crian\u00e7a assiste a um desenho que tem um ritmo maqu\u00ednico, aquilo n\u00e3o est\u00e1 endere\u00e7ado singularmente a ela. J\u00e1 quando \u00e9 o adulto que est\u00e1 ali, ou quando se permite que crian\u00e7as criem cenas em conjunto, vai se produzindo um enriquecimento simb\u00f3lico sem precedentes. A riqueza do di\u00e1logo e a riqueza do brincar s\u00e3o insubstitu\u00edveis porque quando conversamos ou brincamos h\u00e1, pelo menos, tr\u00eas entroncamentos cruciais da linguagem. Ficamos expostos \u00e0 polissemia, quer dizer, \u00e0s diversas significa\u00e7\u00f5es que uma palavra pode ter, dependendo do contexto, ficamos sujeitos aos nossos pr\u00f3prios atos falhos e somos expostos a mal-entendidos que o outro pode ter. Nesses entroncamentos \u00e9 que se revela a riqueza simb\u00f3lica que a linguagem tem para o ser humano, muito diferente de quando temos contextos prontos de jogos que, tantas vezes, s\u00e3o de correspond\u00eancia de id\u00eanticos, com uma forma de jogar pr\u00e9-pronta que suprime a criatividade. Por isso, \u00e9 fundamental nos perguntarmos que crian\u00e7as queremos criar: crian\u00e7as criativas, inventivas, que v\u00e3o para o mundo autorizadas a transform\u00e1-lo, ou crian\u00e7as que seguem instru\u00e7\u00f5es? E, dentro disso, \u00e9 importante perceber que, muitas vezes, os adultos dizem sim ou n\u00e3o para o acesso de crian\u00e7as \u00e0s telas e usam esse poder como moeda de troca para pr\u00eamios ou castigos. Ou seja, se a crian\u00e7a n\u00e3o se comportar, ela ser\u00e1 privada desse objeto que a cultura tanto sublinha como sendo fundamental. Ao fazer isso, o que os adultos est\u00e3o dizendo? Que o importante \u00e9 o tablet, \u00e9 o celular. Por\u00e9m, os pr\u00f3prios adultos, em alguns casos, n\u00e3o armam seus limites em rela\u00e7\u00e3o a esses objetos. Eles mesmos ficam, no almo\u00e7o ou num momento de conv\u00edvio familiar, com os celulares na m\u00e3o. N\u00e3o basta dizer n\u00e3o para uma crian\u00e7a e n\u00e3o armar o pr\u00f3prio limite porque sen\u00e3o a gente acaba tendo adultos que convivem com as crian\u00e7as de corpo presente, mas psiquicamente ausentes.<\/p>\n<p>G |Pais e m\u00e3es que ficam com as crian\u00e7as de \u201ccorpo presente, mas psiquicamente ausentes\u201d s\u00e3o capazes de desintoxicar os filhos? Uma vez que eles pr\u00f3prios est\u00e3o intoxicados \u2014 seja porque o trabalho exige ou pelo v\u00edcio em redes sociais, por exemplo. Como ajudar esses pais?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nAs crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o tolas. A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem a ver s\u00f3 com o que se diz, ela tem a ver com o cruzamento entre o que se diz e o que se faz. Ent\u00e3o, as crian\u00e7as aprendem muito por identifica\u00e7\u00e3o. Trata-se tamb\u00e9m de como os pais podem fazer obje\u00e7\u00e3o ao uso de telas nos momentos de conv\u00edvio. E isso \u00e9 um enorme desafio. Quando, fundamentalmente, eu falo da quest\u00e3o das intoxica\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas, h\u00e1 15 anos, isso tem a ver com o qu\u00ea? Com a entrada da internet wireless e com o uso dos smartphones. A partir do momento em que tivemos a possibilidade de uma janela virtual no nosso bolso, apagaram-se as bordas temporais e espaciais do trabalho, sendo poss\u00edvel trabalhar de qualquer lugar e a qualquer momento, o que suprime os tempos de conv\u00edvio e de lazer. Ou seja, isso invade o tempo inteiro a vida dos adultos, causando danos \u00e0s crian\u00e7as. Sem d\u00favida, as novas tecnologias resolveram muitos problemas, e a gente n\u00e3o quer voltar atr\u00e1s, mas elas tamb\u00e9m causaram novos problemas.<\/p>\n<p>G |Como essa forma de \u201cestar junto\u201d afeta pais e crian\u00e7as?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nMuitas vezes, os pais se sentam para brincar com as crian\u00e7as com o celular do lado. A gente n\u00e3o pode minimizar o efeito que tem, por exemplo, quando um adulto est\u00e1 \u00e0 mesa para uma refei\u00e7\u00e3o e, de repente, ele se tensiona porque recebeu uma not\u00edcia de trabalho que invade a cena. Os adultos precisam come\u00e7ar a refutar essa invas\u00e3o permanente das telas na vida. Vemos pessoas que perdem o fio do que est\u00e1 em jogo na cena e acabam ficando desanimadas porque, durante uma conversa, h\u00e1 outros 20 papos em paralelo pelo WhatsApp, ou seja, as pessoas, tamb\u00e9m ficam fragmentadas, descontextualizadas. E se isso tem um efeito para adultos j\u00e1 estruturados, certamente \u00e9 muito mais radical para as crian\u00e7as que est\u00e3o em plena estrutura\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, os adultos pensam no que fazer para que uma crian\u00e7a fique, sem a tela, sentada \u00e0 mesa de um restaurante. Que tal desligar a tela? Pode surgir uma conversa, uma brincadeira com palitinhos, com giz de cera. Vivemos em um mundo em que as pessoas t\u00eam horror do vazio. E quando se produz um certo vazio porque, claro, o celular preenche tudo \u2014 sempre tem uma not\u00edcia a mais para ler, uma foto para dar like, um e-mail por responder \u2014, \u00e9 desse vazio que coisas novas podem surgir, em vez da compulsividade digital que tem produzido ansiedades, distra\u00e7\u00f5es e ins\u00f4nias. Ent\u00e3o, isso tamb\u00e9m produz um adoecimento porque se imp\u00f5e um ritmo maqu\u00ednico, e n\u00e3o o ritmo necess\u00e1rio que n\u00f3s precisamos para elaborar a significa\u00e7\u00e3o do nosso viver na rela\u00e7\u00e3o com o outro.<\/p>\n<blockquote><p>Tudo o que \u00e9 excessivamente fragment\u00e1rio produz uma condi\u00e7\u00e3o muito ansiog\u00eanica e gera o encurtamento do pensamento<\/p><\/blockquote>\n<p>G |No livro \u201cIntoxica\u00e7\u00f5es Eletr\u00f4nicas \u2013 O Sujeito na Era das Rela\u00e7\u00f5es Virtuais\u201d (Agalma, 2017), publica\u00e7\u00e3o organizada por voc\u00ea, o termo intoxicado \u00e9 bastante utilizado. Uma crian\u00e7a intoxicada por eletr\u00f4nicos \u00e9, necessariamente, uma crian\u00e7a viciada em eletr\u00f4nicos?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nEu n\u00e3o gosto muito de usar a palavra v\u00edcio, me parece importante pensar na ideia de uma intoxica\u00e7\u00e3o. Porque a ideia de algo t\u00f3xico \u00e9 a ideia de algo que est\u00e1 em excesso, ou seja, que est\u00e1 ocupando um lugar que n\u00e3o deveria ocupar.<\/p>\n<p>G |Na quarentena, pais e m\u00e3es, sem sa\u00edda porque precisavam trabalhar de casa, ofereceram telas \u2014 da TV, do tablet e do celular \u2014 aos filhos. Muitas crian\u00e7as que, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o tinham tido contato com esses objetos eletr\u00f4nicos, ficaram intoxicadas. Como desmam\u00e1-las das telas?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nDurante a pandemia, isso foi radical, sobretudo para as crian\u00e7as das classes m\u00e9dia e alta. Esses pais tinham que trabalhar em home office, ou seja, estavam em casa, mas n\u00e3o podiam dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as. E ali houve um efeito catalisador de um problema que a gente j\u00e1 encontrava: a quest\u00e3o das intoxica\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas, que \u00e9 diferente de usar uma tela para falar com um av\u00f4 que mora longe, fazer a li\u00e7\u00e3o de casa junto com um amigo ou ter aula virtualmente. \u00c9 preciso entender que \u00e9 muito diferente ver um filme do que, por exemplo, passar 1 hora e 20 minutos no TikTok vendo v\u00eddeos de 30 segundos que produzem uma fragmenta\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o em que tudo fica muito curto e imediato. H\u00e1 uma enorme diferen\u00e7a entre ver um filme com a crian\u00e7a e, depois, conversar sobre aquela obra do que ver um fragmento, outro fragmento, mais um fragmento, sem espa\u00e7o para elabora\u00e7\u00e3o. A pandemia produziu um efeito catalisador disso. Agora, as intoxica\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas atingem todas as classes sociais, porque a primeira coisa que algu\u00e9m compra quando pode \u00e9 um celular. A gente encontra esse problema n\u00e3o s\u00f3 nas cl\u00ednicas das classes m\u00e9dia e alta, ele est\u00e1 presente tamb\u00e9m na sa\u00fade p\u00fablica. \u00c9 o uso das telas como uma maneira de fazer com que uma crian\u00e7a fique quieta, pare de explorar o espa\u00e7o ou pare de chorar. Quando usamos uma tela com algum desses intuitos, impedimos que a crian\u00e7a simbolize o que acontece com ela pr\u00f3pria, impedimos que se console de uma frustra\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o com o outro, atrapalhamos a compreens\u00e3o do que \u00e9 certo e do que \u00e9 errado e inibimos a explora\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Quando suspendemos essas situa\u00e7\u00f5es que, sim, d\u00e3o trabalho e s\u00e3o desafiadoras, como a troca de uma fralda \u2014 tarefa que necessita da contribui\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a e do entendimento de que a mam\u00e3e ou o papai est\u00e3o trocando a fralda dela \u2014, e fazemos isso dissociando a crian\u00e7a do que est\u00e1 em jogo, com uma tela a uma pequena dist\u00e2ncia do seu rosto, impedimos que ela represente o que est\u00e1 acontecendo. Precisamos entender que se endere\u00e7ar \u00e0 crian\u00e7a \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o pela palavra, pelo chamamento aos h\u00e1bitos que fazem sentido e t\u00eam import\u00e2ncia. Quando suprimimos isso, deixamos de estruturar uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>G |E voc\u00ea tem dicas pr\u00e1ticas de como ajudar nesse desmame das telas?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\n\u00c9 preciso produzir situa\u00e7\u00f5es porque com a crian\u00e7a trancada dentro de casa fica mais dif\u00edcil. Tamb\u00e9m temos que entender que toda essa problem\u00e1tica \u00e9 consequ\u00eancia de uma forma de cuidar que se tornou muito perform\u00e1tica e solit\u00e1ria porque os pais pensam que o educar vir\u00e1 dos aplicativos ou de conselhos dos aplicativos. Muitas vezes, os pais querem seguir esses conselhos e deixam de olhar para os seus pr\u00f3prios filhos ou deixam de buscar na sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria o que eles faziam, do que \u00e9 que brincavam, o que eles podem compartilhar de uma maneira prazerosa e menos solit\u00e1ria, indo para uma pracinha, se juntando com outras fam\u00edlias. Ou seja, criando situa\u00e7\u00f5es em que eles tamb\u00e9m saiam da sua solid\u00e3o e busquem espa\u00e7os de trocas coletivas e vivam, com a crian\u00e7a, situa\u00e7\u00f5es surpreendentes. \u00c9 crucial tamb\u00e9m buscar dentro de si aquilo que gostaria de transmitir para as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>G |Como identificar uma crian\u00e7a intoxicada pelas telas? Quais s\u00e3o os sinais?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nJustamente quando, diante das brechas, ao inv\u00e9s de brincar, inventar, buscar o outro pelo olhar, pela vocaliza\u00e7\u00e3o, demonstrar interesses diversos, a crian\u00e7a suprime a curiosidade, a brincadeira e a inven\u00e7\u00e3o por algo que ela espera que a preencha de uma maneira pronta.<\/p>\n<p>G |Como saber que o trabalho de desintoxicar uma crian\u00e7a deu certo? O que muda no comportamento de uma crian\u00e7a sem o contato com as telas?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nQuando as situa\u00e7\u00f5es v\u00e3o se tornando atravess\u00e1veis porque passam a ser representadas pela crian\u00e7a, quando se torna poss\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o do valor da palavra e quando a crian\u00e7a descobre o prazer de inventar em vez de receber algo pronto que encharca os seus sentidos.<\/p>\n<p>G |\u00c9 poss\u00edvel as crian\u00e7as terem uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel com as telas? A partir de qual idade as telas podem ser oferecidas? Qual seria o tempo m\u00e1ximo de uso por dia?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nMe interessa muito menos produzir instru\u00e7\u00f5es fixas, porque as instru\u00e7\u00f5es est\u00e3o a\u00ed, dadas, existem tabelas de associa\u00e7\u00f5es de pediatria de diferentes pa\u00edses, mas elas n\u00e3o garantem nada. H\u00e1 uma pergunta essencial que a gente n\u00e3o pode perder de vista antes de entregar uma tela na m\u00e3o de uma crian\u00e7a ou antes de pegar uma tela na presen\u00e7a de uma crian\u00e7a. Precisamos nos perguntar: no lugar do que que a tela est\u00e1? N\u00e3o significa que a crian\u00e7a nunca, jamais, poder\u00e1 ver um desenho animado. Mas a pergunta \u00e9: no lugar do que isso entra? Essa \u00e9 a melhor chance que a gente tem para n\u00e3o produzir um excesso que pode suprimir uma experi\u00eancia estruturante.<\/p>\n<p>G |A televis\u00e3o, muito demonizada em outros tempos, parece ser a tela menos danosa hoje. A partir de qual idade, e por quanto tempo, \u00e9 saud\u00e1vel uma crian\u00e7a assistir tev\u00ea? A TV pode ser educativa em algum n\u00edvel?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nN\u00f3s n\u00e3o podemos simplesmente pensar em equivaler tudo. Esses gadgets s\u00e3o um meio. A quest\u00e3o \u00e9 o que se opera atrav\u00e9s deles quando se coloca fragmentos de imagens de 30 segundos, quando se insere propagandas, quando h\u00e1 um youtuber falando diretamente para a crian\u00e7a, sem que aquele conte\u00fado seja discutido com os pais, ou quando existem joguinhos compulsivos. Com certeza, tudo isso gera danos. Agora, uma crian\u00e7a que assiste a um filme ou a um programa, entre tantos maravilhosos da TV Cultura, por exemplo, e que depois tenha uma conversa com os pais sobre o que foi visto, certamente n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa do que jogar um jogo compulsivo. H\u00e1 uma diferen\u00e7a. Tudo o que \u00e9 excessivamente fragment\u00e1rio produz uma condi\u00e7\u00e3o muito ansiog\u00eanica e gera o encurtamento do pensamento. Aquilo que \u00e9 mais criativo, menos passivo, que tem mais alinhavo e, sobretudo, que n\u00e3o se faz sozinho, tende a ser melhor. \u00c9 como as coisas se elaboram ou n\u00e3o. Mas se a crian\u00e7a anda pela cidade olhando para um tablet em vez de olhar pela janela, isso ocupa outro lugar. O que eu acho mais importante, numa \u00e9poca em que os pais t\u00eam tantas instru\u00e7\u00f5es, \u00e9 reabrir o espa\u00e7o para a interroga\u00e7\u00e3o: a tela est\u00e1 no lugar do qu\u00ea? Isso \u00e9 crucial.<\/p>\n<p>G |As escolas podem e devem fazer algo ao identificar que seus alunos est\u00e3o intoxicados?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nH\u00e1 obje\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias a se fazer, sim, porque essa quest\u00e3o diz respeito a todos n\u00f3s, como sociedade. A quest\u00e3o \u00e9 conversar sobre o tema e pensar o que \u00e9 preciso construir no lugar da tela. Porque, por exemplo, o celular n\u00e3o deve estar na sala de aula, certo? Mas as crian\u00e7as t\u00eam aulas sobre como fazer pesquisas virtuais de uma maneira segura e s\u00e9ria, entendendo que nem tudo o que est\u00e1 na internet se equivale. Assim, a gente tamb\u00e9m vai rompendo com o analfabetismo digital que torna as crian\u00e7as presas f\u00e1ceis para uma situa\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m \u00e9 um conceito que eu tenho trabalhado: a sobredetermina\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica. Alguns anos atr\u00e1s se discutia sobre como a crian\u00e7a, por meio da televis\u00e3o, era alvo da propaganda. Hoje em dia, por meio da pegada digital, vai se produzindo toda uma propaganda endere\u00e7ada com a qual a gente tem que ter cuidado, porque ela produz uma sobredetermina\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica em que a crian\u00e7a tamb\u00e9m pode ser bombardeada pela publicidade. Outro ponto fundamental \u00e9 a deep web que, sabemos, existe, e a crian\u00e7a pode acabar tendo acesso a conte\u00fados excessivos ou inadequados para a idade dela. E como se trata de uma forma de transmiss\u00e3o n\u00e3o mediada, \u00e9 bem diferente da transmiss\u00e3o que familiares ou professores fazem. Sem media\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a pode estar exposta a conte\u00fados que n\u00e3o est\u00e3o tramitando simbolicamente por algu\u00e9m para quem a vida dela tem import\u00e2ncia. Nesse sentido, por pior que seja um programa televisivo, se tem algu\u00e9m do lado, d\u00e1 para produzir uma cr\u00edtica, que vai ajudar a desenvolver um pensamento cr\u00edtico na crian\u00e7a. Mas o que acontece quando cada um fica solit\u00e1rio com a sua tela? Deixa-se de conversar sobre o que est\u00e1 ali.<\/p>\n<p>G |O que fazer quando as crian\u00e7as que frequentam uma mesma escola t\u00eam, em casa, regras diferentes sobre uso de eletr\u00f4nicos e influenciam negativamente umas \u00e0s outras? Como lidar com essa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>JJ |<br \/>\nAinda bem que ir para a escola traz diferen\u00e7as porque a escola \u00e9 um lugar de encontro com a alteridade. A casa de um n\u00e3o \u00e9 id\u00eantica \u00e0 casa do outro. E isso \u00e9 muito bom. Porque \u00e9 a partir de situa\u00e7\u00f5es assim que se pode problematizar e discutir. \u00c9 o que prepara para, mais tarde, ir para o mundo, onde n\u00e3o se pensa todo mundo igual.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: As telas s\u00e3o perigosas para o seu filho? \u2014 Gama Revista &#8211; https:\/\/gamarevista.uol.com.br\/semana\/tem-jeito-certo-de-criar-os-filhos\/julieta-jerusalinsky-as-telas-sao-perigosas-para-os-seus-filhos-tecnologia-crianca\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Elisa Faria &#8211; A psicanalista, especializada em estimula\u00e7\u00e3o precoce, fala sobre a ansiedade e o encurtamento do pensamento de beb\u00eas e crian\u00e7as intoxicadas por eletr\u00f4nicos \u201cTudo o que \u00e9 excessivamente fragment\u00e1rio produz uma condi\u00e7\u00e3o muito ansiog\u00eanica e gera o encurtamento do pensamento\u201d, diz a psicanalista Julieta Jerusalinsky, especialista em estimula\u00e7\u00e3o precoce, sobre os preju\u00edzos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19244,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[54],"class_list":["post-20123","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-comportamento"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>As telas s\u00e3o perigosas para o seu filho? 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