{"id":20079,"date":"2023-11-16T12:14:30","date_gmt":"2023-11-16T15:14:30","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20079"},"modified":"2023-11-13T13:17:47","modified_gmt":"2023-11-13T16:17:47","slug":"o-capitalismo-de-novo-em-crise-existencial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/11\/16\/o-capitalismo-de-novo-em-crise-existencial\/","title":{"rendered":"O capitalismo, de novo, em crise existencial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Michael Roberts &#8211; <\/strong><span style=\"font-size: 16px;\">Governos est\u00e3o inertes frente ao colapso clim\u00e1tico. Endividamento global e fome atingem picos. Enquanto isso, EUA insistem em <\/span><i style=\"font-size: 16px;\">guerras infinitas<\/i><span style=\"font-size: 16px;\"> para adiar seu decl\u00ednio. \u00c0 beira do abismo, sistema \u00e9 incapaz de forjar sa\u00eddas ao caos que criou.<\/span><\/p>\n<p>No in\u00edcio deste ano,\u00a0<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/policrise-e-depressao-no-seculo-xxi\/\" rel=\"noreferrer noopener\">escrevi um post<\/a>\u00a0sobre o que alguns chamam de \u201cpolicrise\u201d. O termo indica que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista est\u00e1 se defrontando com diversas tens\u00f5es disruptivas simult\u00e2neas: econ\u00f4mica (infla\u00e7\u00e3o e recess\u00e3o); ambiental (clima e pandemia); e geopol\u00edtica (guerra e divis\u00f5es internacionais). Tudo isso come\u00e7ou a acontecer j\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI.\u00a0 Palavra da moda na esquerda conectada \u00e0s novidades, resume, em muitos aspectos, a minha pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es do sistema. Aquilo que designei como \u201clonga depress\u00e3o\u201d j\u00e1 da d\u00e9cada de 2010 est\u00e1 agora atingindo o seu auge.<\/p>\n<p>Como neste m\u00eas de outubro as principais ag\u00eancias econ\u00f4micas internacionais, o FMI e o Banco Mundial, se re\u00fanem em Marraquexe, vale a pena atualizar aquela postagem. \u00c9 bom verificar o que est\u00e1 a acontecer com as contradi\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a policrise do capitalismo.<\/p>\n<p>Comecemos pelo clima e pelo aquecimento global. As temperaturas globais atingiram um novo recorde em setembro; subiram acima do valor hist\u00f3rico por enorme margem. Cientistas do Copernicus Climate Change Service vem dizendo que 2023 est\u00e1 a caminho de ser o ano mais quente j\u00e1 registrado na hist\u00f3ria. A temperatura m\u00e9dia global em setembro foi 1,75\u00b0C mais quente do que a m\u00e9dia registrada entre 1850-1900, per\u00edodo ainda pr\u00e9-industrial, ap\u00f3s o qual as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas induzidas pelo homem come\u00e7aram a ocorrer e a produzir efeitos.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3088165 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-1.png?resize=489%2C352&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-1.png 378w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-1-300x216.png 300w, \" alt=\"\" width=\"489\" height=\"352\" \/><br \/>\nO setembro mais quente j\u00e1 registrado segue o agosto mais quente; este, por sua vez, segue o julho mais quente. Ora, o primeiro referido \u2013 \u00faltimo observado \u2013 foi o m\u00eas mais quente j\u00e1 registrado cientificamente. O n\u00edvel de setembro de 2023 bateu o recorde anterior daquele m\u00eas em 0,5\u00baC, o maior salto de temperatura j\u00e1 visto. Este calor recorde \u00e9 o resultado dos elevados n\u00edveis de cont\u00ednuas emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono, combinados com uma r\u00e1pida mudan\u00e7a no maior fen\u00f4meno clim\u00e1tico natural do planeta, o El Ni\u00f1o. Ora, este \u201cm\u00eas extremo\u201d colocou provavelmente este ano de 2023 no topo. Ele est\u00e1 recebendo, assim, a \u201chonra duvidosa\u201dde se posicionar em primeiro lugar como o ano mais quente, com temperaturas cerca de 1,4\u00baC acima das temperaturas m\u00e9dias pr\u00e9-industriais.<\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 muito longe de enfrentar efetivamente as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Ao contr\u00e1rio, continua permitindo que um aumento da temperatura m\u00e9dia de at\u00e9 2,6\u00baC possa ser alcan\u00e7ado. Medidas contrariantes urgentes deveriam estar sendo tomadas \u2013 mas n\u00e3o est\u00e3o. Foi isso o que pediu a organiza\u00e7\u00e3o internacional do com\u00e9rcio, UNCTAD, em seu \u00faltimo relat\u00f3rio sobre a economia global. Os seus t\u00e9cnicos afirmaram que os pa\u00edses precisam ser \u201cmais ambiciosos na a\u00e7\u00e3o\u201d; eles precisam, ademais, definir \u201cmetas mais ambiciosas\u201d para reduzir as emiss\u00f5es nos 43% exigidos at\u00e9 2030 e em 60% at\u00e9 2035 em compara\u00e7\u00e3o com os n\u00edveis de 2019, a fim de evitar as terr\u00edveis consequ\u00eancias de um planeta mais quente.<\/p>\n<p>Isto exigiria uma transforma\u00e7\u00e3o \u201cradical\u201d dos sistemas econ\u00f4micos e sociais em todos os setores, incluindo o refor\u00e7o das energias renov\u00e1veis, o fim da utiliza\u00e7\u00e3o de todos os combust\u00edveis f\u00f3sseis, a redu\u00e7\u00e3o do metano e de outros gases com efeito de estufa, o fim da desfloresta\u00e7\u00e3o e a melhoria da efici\u00eancia energ\u00e9tica.<\/p>\n<p>Nada disso est\u00e1 acontecendo numa medida necess\u00e1ria. A organiza\u00e7\u00e3o International Energy Agency (IEA) tem afirmado que a demanda por combust\u00edveis f\u00f3sseis teria de cair mais de 25% at\u00e9 2030 e 80% em 2050. E at\u00e9 2035, as emiss\u00f5es precisariam diminuir 80% nas economias avan\u00e7adas e 60% nos mercados emergentes e nas economias em desenvolvimento, em compara\u00e7\u00e3o com para o n\u00edvel de 2022.<\/p>\n<p>Mas as atuais contribui\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses n\u00e3o est\u00e3o alinhadas com os compromissos de emiss\u00f5es l\u00edquidas zero assumidos por eles pr\u00f3prios. E esses compromissos, ademais, n\u00e3o s\u00e3o suficientes para colocar o mundo no caminho de zerar as emiss\u00f5es l\u00edquidas at\u00e9 2050. O n\u00edvel das emiss\u00f5es consistente com a limita\u00e7\u00e3o do aquecimento a 1,5\u00b0C. em 2030 est\u00e1 sendo ultrapassado em at\u00e9 24 bilh\u00f5es de toneladas.<\/p>\n<p>O financiamento global para a a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica atingiu cerca de 803 bilh\u00f5es de d\u00f3lares anuais para 2019-20, menos de um quinto do investimento anual estimado de 4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em tecnologia de energia limpa, necess\u00e1rio para limitar os aumentos de temperatura a 2\u00baC ou 1,5\u00baC. Entretanto, os subs\u00eddios globais aos combust\u00edveis f\u00f3sseis atingiram um recorde de 7 bili\u00f5es de d\u00f3lares em 2022, estima o FMI. O estudo desse \u00f3rg\u00e3o internacional afirma que os subs\u00eddios ao carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s natural em 2022 foram equivalentes a 7,1% do PIB global. Isto representou mais do que os governos gastaram na educa\u00e7\u00e3o e dois ter\u00e7os do que foi gasto na sa\u00fade.<\/p>\n<p>Na recente reuni\u00e3o do G20, uma das principais a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas necess\u00e1rias para salvar o planeta, nomeadamente o fim da produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis, foi ignorado.\u00a0\u00a0<em>\u201c<\/em>Para ter alguma chance de cumprir a meta de limita\u00e7\u00e3o de temperatura de 1,5\u00b0C estabelecida pelo Acordo de Paris, redu\u00e7\u00f5es acentuadas na produ\u00e7\u00e3o e uso de todos os combust\u00edveis f\u00f3sseis\u2026 s\u00e3o essenciais e, nesta quest\u00e3o, os l\u00edderes do G20 est\u00e3o em falta na a\u00e7\u00e3o\u201d, disse Alden Meyer, associado s\u00eanior da E3G, uma consultora clim\u00e1tica. Por tr\u00e1s desse fracasso est\u00e3o os enormes e grotescos lucros obtidos pelos gigantes do petr\u00f3leo e do g\u00e1s no per\u00edodo de infla\u00e7\u00e3o p\u00f3s-pandemia. A sua \u201crelut\u00e2ncia\u201d em se \u201cdespojar\u201d das suas fontes naturais de lucros (ou seja, n\u00e3o os utilizar e n\u00e3o os explorar para obter mais petr\u00f3leo e g\u00e1s) n\u00e3o vem a ser surpresa alguma.<\/p>\n<p>Que respostas pol\u00edticas foram oferecidas pelas empresas e pelos governos para acabar com o aquecimento global? Primeiro, h\u00e1 os rid\u00edculos esquemas de \u201ccompensa\u00e7\u00f5es de carbono\u201d. Muitas das maiores empresas do mundo usaram tais \u201ccr\u00e9ditos de carbono\u201d em seus \u201cesfor\u00e7os para garantir a sustentabilidade\u201d; assim, esse mercado volunt\u00e1rio, n\u00e3o regulamentado, cresceu e cresceu, tendo chegado agora a 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (1,6 bilh\u00f5es de libras esterlinas) em 2021. Esse ano, al\u00e9m disso, viu os pre\u00e7os dos cr\u00e9ditos de carbono subirem estratosfericamente.<\/p>\n<p>Os cr\u00e9ditos de carbono s\u00e3o muitas vezes gerados com base no pressuposto de que v\u00e3o contribuir para a mitiga\u00e7\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas; exigem em princ\u00edpio a cessa\u00e7\u00e3o do desflorestamento tropical, a planta\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores e a cria\u00e7\u00e3o de projetos de energias renov\u00e1veis \u200b\u200bnos pa\u00edses em desenvolvimento. As investiga\u00e7\u00f5es mostram que mais de 90% desses cr\u00e9ditos compensat\u00f3rios relativos \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o das florestas tropicais \u2013 os quais s\u00e3o os mais utilizados pelas empresas \u2013 constituem-se provavelmente em \u201ccr\u00e9ditos fantasmas\u201d, os quais n\u00e3o representam redu\u00e7\u00f5es genu\u00ednas da emiss\u00e3o de carbono na atmosfera.<\/p>\n<p>H\u00e1, tamb\u00e9m, os impostos e as eleva\u00e7\u00f5es dos pre\u00e7os relativos \u00e0 emiss\u00e3o de carbono.\u00a0 Esta solu\u00e7\u00e3o de mercado para dissuadir a utiliza\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 a principal plataforma do FMI para resolver o aquecimento global.\u00a0 Os regimes de fixa\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os da emiss\u00e3o de carbono, na verdade, apenas escondem a realidade. Nada tem bons resultados, ao mesmo tempo em que a ind\u00fastria dos combust\u00edveis f\u00f3sseis e as outras grandes multinacionais emissoras de gases com efeito de estufa permanecerem intocadas.<\/p>\n<p>Seria preciso que essas empresas fossem inclu\u00eddas num plano para a elimina\u00e7\u00e3o progressiva dessas emiss\u00f5es, antes que o ponto de viragem \u2013 aquele em que o aquecimento global se torna irrevers\u00edvel \u2013 venha a ser ultrapassado. Em vez de esperar que o mercado regulado fale e aja para o bem de todos, o que precisamos \u00e9 de um plano global em que as ind\u00fastrias de combust\u00edveis f\u00f3sseis, as institui\u00e7\u00f5es financeiras e os principais setores emissores sejam colocados sob a propriedade e controles p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Faltam dois meses para os pa\u00edses se reunirem em Dubai na c\u00fapula clim\u00e1tica COP28 da ONU. Dado que esta confer\u00eancia internacional sobre o clima est\u00e1 sendo organizada por um importante pa\u00eds produtor de petr\u00f3leo e g\u00e1s, n\u00e3o se pode esperar que a\u00ed nas\u00e7a qualquer a\u00e7\u00e3o radical em rela\u00e7\u00e3o aos combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>A outra dimens\u00e3o da policrise \u00e9 a pobreza e a desigualdade. Em reuni\u00e3o neste m\u00eas, o Banco Mundial apresenta um novo relat\u00f3rio sobre a pobreza.\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.worldbank.org\/opendata\/poverty-back-pre-covid-levels-globally-not-low-income-countries\" rel=\"noreferrer noopener\">Segundo o Banco Mundial,<\/a>\u00a0a pobreza global recuou para n\u00edveis mais pr\u00f3ximos dos anteriores \u00e0 pandemia, mas isto ainda significa que foram perdidos tr\u00eas anos na luta contra a pobreza. A recupera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 desigual: embora a pobreza extrema nos pa\u00edses de rendimento m\u00e9dio tenha diminu\u00eddo, a pobreza nos pa\u00edses mais pobres e nos pa\u00edses afetados por fragilidades, conflitos ou viol\u00eancia ainda \u00e9 pior do que antes da pandemia.<\/p>\n<p>Depois de muitas cr\u00edticas ao seu limiar ridiculamente baixo para a pobreza a n\u00edvel mundial, o Banco agora tem tr\u00eas n\u00edveis. Em 2023, prev\u00ea-se que 691 milh\u00f5es de pessoas (ou 8,6% da popula\u00e7\u00e3o mundial) vivam em \u201cpobreza extrema\u201d (ou seja, aquelas que vivem abaixo de 2,15 d\u00f3lares\/dia), o que \u00e9 um pouco abaixo do n\u00edvel anterior ao in\u00edcio da pandemia. Na linha de 3,65 d\u00f3lares\/dia, a taxa de pobreza e o n\u00famero de pobres s\u00e3o ambos inferiores aos de 2019. No n\u00edvel mais realista (mas ainda muito baixo) de 6,85 d\u00f3lares\/dia, uma percentagem menor da popula\u00e7\u00e3o global tamb\u00e9m vive agora abaixo daquele observado antes da pandemia. Mas devido ao crescimento populacional, o n\u00famero total de pobres que vivem abaixo desta linha ainda \u00e9 maior do que antes da pandemia. E quando olhamos para os pa\u00edses mais pobres, eles ainda t\u00eam taxas de pobreza mais elevadas do que antes, ou seja, n\u00e3o est\u00e3o reduzindo o \u201cgap\u201d que os separam de uma condi\u00e7\u00e3o mais satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Estas taxas de pobreza s\u00e3o enganosas, como antes j\u00e1 me esforcei para demonstrar. Quase toda a redu\u00e7\u00e3o registada na pobreza global (seja qual for o n\u00edvel utilizado) nos \u00faltimos 30 anos deve-se ao fato de que a China tirou cerca de 900 milh\u00f5es de chineses dessa condi\u00e7\u00e3o. Excluindo a China, a pobreza global n\u00e3o caiu quer em percentagem quer em n\u00famero absoluto. Na verdade, mesmo incluindo a China, ainda existem<strong>\u00a0<\/strong>3,65 bilh\u00f5es de pessoas no planeta abaixo do limiar de pobreza de 6,85 d\u00f3lares\/dia, segundo o Banco Mundial.<\/p>\n<p>Em 2021, a Lloyd\u2019s Register Foundation, numa parceria com o Instituto Gallup, entrevistou 125 mil pessoas em 121 pa\u00edses, perguntando por quanto tempo as pessoas poderiam cobrir as suas necessidades b\u00e1sicas se os seus rendimentos fossem suspensos. O estudo concluiu que um n\u00famero impressionante de pessoas, ou seja, 2,7 bilh\u00f5es, s\u00f3 poderiam cobrir as suas necessidades b\u00e1sicas durante um m\u00eas ou menos. E, desse n\u00famero, 946 milh\u00f5es poderiam sobreviver durante uma semana, no m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>A meta da ONU de acabar com a \u201cpobreza\u201d at\u00e9 2030 \u00e9, pois, uma miragem.<\/p>\n<p>A fome global ainda est\u00e1 muito acima dos n\u00edveis anteriores \u00e0 pandemia.\u00a0<a href=\"https:\/\/data.unicef.org\/resources\/sofi-2023\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Estima-se que entre 690 e 783 milh\u00f5es de pessoas no mundo enfrentaram a fome em 2022<\/a>. Isto representa 122 milh\u00f5es de pessoas a mais do que antes da pandemia do covid-19. Prev\u00ea-se que quase 600 milh\u00f5es de pessoas sofrer\u00e3o de subnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica em 2030. Portanto, a meta da ONU de fome zero at\u00e9 essa data est\u00e1 muito longe de ser cumprida. Mais de 3,1 bilh\u00f5es de pessoas no mundo \u2013 ou 42% \u2013 n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de pagar uma dieta saud\u00e1vel. Em todo o mundo, em 2022, estimava-se que 148,1 milh\u00f5es de crian\u00e7as com menos de cinco anos de idade (22,3%) sofriam de atraso no crescimento, 45 milh\u00f5es (6,8%) estavam debilitadas e 37 milh\u00f5es (5,6%) tinham excesso de peso.<\/p>\n<p>De um total de 2,4 mil milh\u00f5es de pessoas no mundo que enfrentavam a \u201cinseguran\u00e7a alimentar\u201d em 2022, quase metade (1,1 mil milh\u00f5es) estavam na \u00c1sia; 37% (868 milh\u00f5es) estavam em \u00c1frica; 10,5% (248 milh\u00f5es) viviam na Am\u00e9rica Latina e no Caribe; e cerca de 4% (90 milh\u00f5es) estavam na Am\u00e9rica do Norte e na Europa. Um bilh\u00e3o de indianos n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de ter uma dieta saud\u00e1vel. Isso \u00e9 74% da popula\u00e7\u00e3o. A \u00cdndia tem um desempenho ligeiramente melhor que o Paquist\u00e3o, mas est\u00e1 atr\u00e1s do Sri Lanka. O n\u00famero correspondente para a China \u00e9 de 11%.<\/p>\n<p>E depois h\u00e1 desigualdade de riqueza e de renda. O \u00faltimo relat\u00f3rio do Credit Suisse sobre a riqueza pessoal global mostrou que, em 2022, 1% dos adultos (isto \u00e9, 59 milh\u00f5es de pessoas) possu\u00eda 44,5% de toda a riqueza pessoal do mundo, um pouco mais do que antes da pandemia em 2019. No outro extremo da riqueza pir\u00e2mide, os 52,5% mais pobres da popula\u00e7\u00e3o mundial (2,8 mil milh\u00f5es de pessoas) tinham uma riqueza l\u00edquida de apenas 1,2%.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3088166 c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-2.png?resize=504%2C474&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-2.png 302w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-2-300x282.png 300w, \" alt=\"\" width=\"504\" height=\"474\" \/><br \/>\nA desigualdade de riqueza dentre todos pa\u00edses tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 diminuindo em geral. Veja-se: o coeficiente de Gini (a medida habitual da desigualdade) para a riqueza chegou a valores enormes nos Estados Unidos, ou seja, 85,0 (note-se que se esse n\u00famero fosse 100, isso significaria que um \u00fanico adulto possuiria toda a riqueza norte-americana). Na verdade, nos Estados Unidos, todas as medidas de desigualdade registaram uma tend\u00eancia ascendente desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000. Por exemplo, a parcela de riqueza do 1% dos adultos mais ricos aumentou de 32,9% em 2000 para 35,1% em 2021 nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A desigualdade de riqueza e renda \u00e9 a contrapartida de um sistema econ\u00f4mico voltado para o lucro e n\u00e3o para o atendimento das necessidades dos povos. Num relat\u00f3rio da UNCTAD l\u00ea-se que \u201cdurante o per\u00edodo de elevada volatilidade dos pre\u00e7os desde 2020, algumas grandes empresas de com\u00e9rcio de alimentos obtiveram lucros recordes nos mercados financeiros, mesmo quando os pre\u00e7os dos alimentos dispararam globalmente e milh\u00f5es de pessoas enfrentaram uma crise de custo de vida\u201d<em>.\u00a0<\/em>O gr\u00e1fico abaixo mostra isso de forma inilud\u00edvel:<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3088167 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-3.png?resize=542%2C456&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-3.png 302w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-3-300x252.png 300w, \" alt=\"\" width=\"542\" height=\"456\" \/><\/p>\n<p>Na verdade, a pandemia e o subsequente aumento da infla\u00e7\u00e3o deixaram a sua marca nos rendimentos m\u00e9dios dos agregados familiares. Tomemos como exemplo o Reino Unido: nunca na mem\u00f3ria das fam\u00edlias trabalhadoras atuais, elas ficaram t\u00e3o pobres como agora. De acordo com o grupo de reflex\u00e3o da Resolution Foundation, \u201cesta legislatura est\u00e1 a caminho de ser, de longe, a pior para os padr\u00f5es de vida desde a d\u00e9cada de 1950. Os rendimentos familiares t\u00edpicos em idade ativa dever\u00e3o ser 4% mais baixos em 2024-25 do que eram em 2019-20. Nunca, na mem\u00f3ria viva, as fam\u00edlias ficaram t\u00e3o mais pobres por causa de um parlamento.\u201d<\/p>\n<p>O vencedor do pr\u00eamio Nobel (na verdade, pr\u00eamio Riksbank) de economia relativo ao ano de 2015, Angus Deaton lan\u00e7ou um novo livro chamado\u00a0<em>Economics in America: an immigrant economist explores the land of inequality<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/inequality\/2023\/oct\/07\/angus-deaton-interview-book-economics-in-america\">\u00a0<\/a>Nele, ataca o fracasso da economia neocl\u00e1ssica em abordar de alguma forma as quest\u00f5es da pobreza e da desigualdade. Os principais economistas dos EUA ignoram deliberadamente os n\u00edveis crescentes de desigualdade e o terr\u00edvel impacto da pobreza, alegando que este n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o para a Economia (Economics).<\/p>\n<p>Veja-se o que diz neste livro: \u201cos sal\u00e1rios reais estagnaram desde 1980, enquanto a produtividade mais do que duplicou e os ricos perderam os lucros. Os 10% mais ricos das fam\u00edlias dos EUA possuem agora 76% da riqueza. Os 50% mais pobres possuem apenas 1%.\u201d\u00a0Imp\u00f4s agora um sistema de luta de classes: \u201ca guerra contra a pobreza tornou-se uma guerra contra os pobres\u201d.<\/p>\n<p>Deaton salienta que uma maior igualdade n\u00e3o ser\u00e1 alcan\u00e7ada simplesmente por meio de transfer\u00eancias dos recursos coletados de impostos, ou seja, por meio de pagamentos de assist\u00eancia social; dificilmente \u2013 disse ele \u2013 esse tipo de interfer\u00eancia no mercado far\u00e1 qualquer diferen\u00e7a. Uma melhor resposta, para ele, consistiria na eleva\u00e7\u00e3o dos gastos do Estado na educa\u00e7\u00e3o e na cria\u00e7\u00e3o de empregos para todos.<\/p>\n<p>Deaton se op\u00f5e \u00e0s pol\u00edticas mais radicais: \u201cN\u00e3o precisamos de abolir o capitalismo ou nacionalizar seletivamente os meios de produ\u00e7\u00e3o. Mas precisamos colocar novamente o poder da concorr\u00eancia ao servi\u00e7o das classes m\u00e9dia e trabalhadora. Existem riscos terr\u00edveis pela frente se continuarmos a gerir uma economia organizada para permitir que uma minoria ataque a maioria.\u201d<\/p>\n<p>Mas esse ataque da minoria \u00e0 maioria n\u00e3o seria na verdade a pr\u00f3pria ess\u00eancia das sociedades de classes e do capitalismo moderno em particular? Na minha opini\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Deaton \u00e9 t\u00e3o ut\u00f3pica quanto aquela que ele critica. Pois ela n\u00e3o aborda o controle e a propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o pelo capital; assim como n\u00e3o atenta para o fato de que o trabalho submetido ao capital \u00e9 o que garante que uma pequena minoria tenha grande parte da riqueza e do rendimento, enquanto a sociedade como um todo n\u00e3o tem o suficiente para satisfazer nem mesmo as necessidades b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>A pandemia e o subsequente aumento da infla\u00e7\u00e3o e das taxas de juro a n\u00edvel mundial expuseram muitos dos pa\u00edses mais pobres do mundo no Sul Global ao descumprimento de suas obriga\u00e7\u00f5es de d\u00edvida com o exterior.\u00a0Devem bilh\u00f5es a credores, tanto p\u00fablicos como privados, que est\u00e3o no chamado Norte Global. S\u00f3 conseguem pagar isto cortando servi\u00e7os e quaisquer despesas para satisfazer as necessidades dos seus cidad\u00e3os \u2013 e cada vez mais n\u00e3o conseguem pagar.<\/p>\n<p>A d\u00edvida global atingiu um novo m\u00e1ximo, de acordo com o Instituto Internacional de Finan\u00e7as (IIF). A d\u00edvida total \u2013 abrangendo governos soberanos, empresas e fam\u00edlias \u2013 aumentou 10 bili\u00f5es de d\u00f3lares, para cerca de 307 bili\u00f5es de d\u00f3lares, nos seis meses at\u00e9 junho, ou seja, 336% do PIB mundial. O Banco Mundial estima que 60 por cento dos pa\u00edses de baixo rendimento est\u00e3o fortemente endividados e correm um elevado risco de ficarem inadimplentes. Ao mesmo tempo, muitos pa\u00edses de rendimento m\u00e9dio tamb\u00e9m enfrentam desafios or\u00e7ament\u00e1rios significativos.<\/p>\n<p>Os aumentos dos juros por parte dos bancos centrais tamb\u00e9m provocaram um forte aumento dos custos dos empr\u00e9stimos. Conforme o FMI, eles podem atualmente atingir o n\u00edvel de 8%. O peso do pagamento de taxas de juro elevados ao pr\u00f3prio FMI est\u00e1 em processo de crescimento: \u201cSe o pior cen\u00e1rio do FMI, de deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas globais, se materializar, a procura de apoio do FMI aumentar\u00e1 ainda mais.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cer.eu\/publications\/archive\/policy-brief\/2023\/imf-lending-too-expensive?fbclid=IwAR3lTz_paVrTsgjkJ2TAWH3F3SaRFJSDRdJgO6hsCptz6vWPY2BsTClTvsg\" rel=\"noreferrer noopener\">Portanto, o FMI criou uma armadilha da d\u00edvida para o pr\u00f3prio FMI!\u00a0<\/a>Na reuni\u00e3o deste m\u00eas, essa institui\u00e7\u00e3o global alertar\u00e1 que os governos \u201cdeveriam tomar medidas urgentes para ajudar a reduzir as vulnerabilidades da d\u00edvida e inverter as tend\u00eancias da d\u00edvida de longo prazo\u201d<em>.<\/em>\u00a0 Mas como? N\u00e3o h\u00e1 propostas dos pa\u00edses ricos para amortizar estas d\u00edvidas ou mesmo para acabar com as tarifas comerciais e as restri\u00e7\u00f5es \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es dos mercados emergentes; ou, claro, parar a enorme extra\u00e7\u00e3o de lucros dos pa\u00edses pobres e ricos em recursos por parte de empresas multinacionais.<\/p>\n<p>Aquecimento global, pobreza e desigualdade globais sem fim, desastre do endividamento, todas essas vertentes da \u201cpolicrise\u201d do capitalismo no s\u00e9culo XXI est\u00e3o ligadas entre si devido \u00e0 crise econ\u00f4mica insol\u00favel e crescente.<\/p>\n<p>O volume de com\u00e9rcio global est\u00e1 agora caindo e do modo mais r\u00e1pido desde a pandemia. Os volumes de com\u00e9rcio ca\u00edram 3,2% em julho em compara\u00e7\u00e3o com o mesmo m\u00eas do ano passado, a queda mais acentuada desde os primeiros meses da pandemia do coronav\u00edrus em agosto de 2020. A reviravolta nos volumes de exporta\u00e7\u00e3o \u00e9 ampla; a maior parte dos pa\u00edses do mundo reportam agora que veem uma queda nos volumes de com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>A China, o maior exportador mundial de bens, registou uma queda anual de 1,5%; a zona euro, por sua vez, apontou uma contra\u00e7\u00e3o de 2,5%; nos EUA, ocorreu uma diminui\u00e7\u00e3o de 0,6%. O Banco Mundial tamb\u00e9m informou que a produ\u00e7\u00e3o industrial mundial caiu 0,1% em compara\u00e7\u00e3o com o m\u00eas anterior, impulsionada por quedas acentuadas na produ\u00e7\u00e3o no Jap\u00e3o, na zona euro e no Reino Unido \u2013 e tem diminu\u00eddo ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n<p>O Banco Mundial acaba de publicar um relat\u00f3rio no qual considera que a \u00c1sia enfrenta uma das piores perspectivas econ\u00f4micas em meio s\u00e9culo. Os anteriormente chamados \u201ctigres asi\u00e1ticos\u201d, formados pela Coreia, Taiwan, Singapura, Hong Kong etc., dever\u00e3o expandir-se a taxas mais baixas em cinco d\u00e9cadas, \u00e0 medida que o protecionismo dos EUA e os n\u00edveis crescentes de d\u00edvida representam um entrave econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O Banco Mundial previu que o crescimento da China abrandaria para 4,4% em 2024, a taxa mais baixa em d\u00e9cadas, embora ainda mais do dobro da taxa de qualquer economia do G7. A deteriora\u00e7\u00e3o das previs\u00f5es reflete tamb\u00e9m que grande parte da regi\u00e3o est\u00e1 a come\u00e7ar a ser afetada pelas novas pol\u00edticas industriais e comerciais dos EUA ao abrigo da lei de redu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o e da lei protetora dos chips e da ci\u00eancia associada (<em>Inflation Reduction Act and the\u00a0<\/em><em>Chips and Science Act<\/em>).<\/p>\n<p>O \u00faltimo relat\u00f3rio da UNCTAD sobre a economia mundial considera que a economia mundial estagnou e os riscos durante o pr\u00f3ximo ano est\u00e3o a aumentar.\u00a0<a href=\"https:\/\/unctad.org\/publication\/trade-and-development-report-2023?fbclid=IwAR3cJox6w8fASazcLQZrjZfQLy4aECRUIGbIAktaw4NmcruqMmKv0ED69Kw\" rel=\"noreferrer noopener\">A UNCTAD prev\u00ea<\/a>\u00a0que \u201co crescimento hesitante para o per\u00edodo 2022-24 ficar\u00e1 aqu\u00e9m da taxa pr\u00e9-Covid na maioria das regi\u00f5es da economia mundial. O peso da d\u00edvida est\u00e1 a esmagar demasiados pa\u00edses em desenvolvimento. O servi\u00e7o da d\u00edvida p\u00fablica externa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s receitas do governo aumentou de quase 6% para 16% entre 2010 e 2021.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 muito otimismo nos EUA de que a economia alcan\u00e7ar\u00e1 uma \u201caterragem suave\u201d, ou seja, que a taxa de infla\u00e7\u00e3o voltar\u00e1 em breve \u00e0 taxa-alvo de 2% ao ano sem que o PIB real entre em recess\u00e3o.\u00a0 Tenho discutido essa possibilidade. Mesmo que isso venha a acontecer, uma \u201caterragem suave\u201d n\u00e3o se aplica ao resto das principais economias capitalistas avan\u00e7adas. A \u00e1rea do euro est\u00e1 se contraindo fortemente. Ademais, pa\u00edses como o Canad\u00e1, o Reino Unido e v\u00e1rias economias menores, como a Su\u00e9cia est\u00e3o sofrendo; o Jap\u00e3o, por sua vez, est\u00e1 \u00e0 beira do precip\u00edcio.<\/p>\n<p>Na verdade, a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.oecd.org\/economic-outlook\/september-2023\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), no seu \u00faltimo relat\u00f3rio,<\/a>\u00a0prev\u00ea que o crescimento global em 2024 ser\u00e1 inferior ao de 2023, caindo de 3% este ano para 2,7% em 2024. Apesar da economia global, nos primeiros seis meses de 2023, estar provando que \u00e9 \u201cmais resiliente do que o esperado\u201d, as perspectivas de crescimento \u201cpermanecem fracas\u201d. O crescimento real do PIB nas economias capitalistas avan\u00e7adas abrandar\u00e1 de 1,5% este ano para apenas 1,2% em 2024; j\u00e1 o PIB\u00a0<em>per capita<\/em>\u00a0estar\u00e1 pr\u00f3ximo da contra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os economistas da OCDE consideram que a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o regressar\u00e1 t\u00e3o cedo aos n\u00edveis anteriores \u00e0 pandemia; em consequ\u00eancia, os bancos centrais dever\u00e3o manter as taxas de juro elevadas. Na verdade, o FMI tamb\u00e9m apela aos bancos centrais para que continuem a miser\u00e1vel pol\u00edtica de elevar os encargos da d\u00edvida na \u201cguerra contra a infla\u00e7\u00e3o\u201d. No entanto, como argumentei, como a infla\u00e7\u00e3o mais elevada advinha de um problema do \u201clado da oferta\u201d, o aperto monet\u00e1rio do banco central pouco faz para reduzir a infla\u00e7\u00e3o e \u00e9 apenas uma receita para a \u201crecess\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>E h\u00e1 duas outras vertentes da policrise do s\u00e9culo XXI que ainda est\u00e3o em desenvolvimento. H\u00e1 o enfraquecimento do dom\u00ednio dos EUA nos assuntos mundiais. A \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d do com\u00e9rcio e das finan\u00e7as durante os \u00faltimos 40 anos sob a hegemonia dos EUA acabou. O gr\u00e1fico em sequ\u00eancia mostra isso:<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3088168\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-4.png?resize=583%2C276&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-4.png 378w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/hoje-4-300x142.png 300w, \" alt=\"\" width=\"583\" height=\"276\" \/><\/p>\n<p>A capacidade do capital dos EUA para expandir os recursos produtivos e sustentar a rentabilidade tem diminu\u00eddo. Isto explica o seu esfor\u00e7o intensificado para estrangular e conter a crescente for\u00e7a econ\u00f4mica da China e assim manter a sua hegemonia na ordem econ\u00f4mica mundial.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/thenextrecession.wordpress.com\/2023\/09\/09\/iippe-2023-part-one-the-end-of-us-hegemony\/\" rel=\"noreferrer noopener\">Um estudo recente de Sergio Camera<\/a>\u00a0mostrou \u201cuma estagna\u00e7\u00e3o prolongada\u201d da taxa de lucro dos EUA no s\u00e9culo XXI. A taxa geral de lucro foi de 19,3% na \u201cera de ouro\u201d da supremacia dos EUA nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960; mas depois caiu para uma m\u00e9dia de 15,4% na d\u00e9cada de 1970; a recupera\u00e7\u00e3o neoliberal (coincidindo com uma nova onda de globaliza\u00e7\u00e3o) empurrou essa taxa para 16,2% na d\u00e9cada de 1990. Mas nas duas d\u00e9cadas deste s\u00e9culo a taxa m\u00e9dia caiu para apenas 14,3% \u2013 um m\u00ednimo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Isso levou a um menor investimento e ao menor crescimento da produtividade nessa d\u00e9cada. Por isso, indiquei j\u00e1 na d\u00e9cada de 2010 que se estava na presen\u00e7a de uma \u201clonga depress\u00e3o\u201d. Usando as palavras de Camera, tem-se que a \u201cbase econ\u00f4mica dos EUA ficou seriamente debilitada\u201d.\u00a0\u00a0Ora, isso est\u00e1 a enfraquecer a posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica do capitalismo norte-americano no mundo. Agora h\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/cepr.org\/voxeu\/columns\/geoeconomic-fragmentation-new-ebook\" rel=\"noreferrer noopener\">o que \u00e9 descrito como \u201cfragmenta\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica\u201d,<\/a>\u00a0isto \u00e9, a ascens\u00e3o de blocos alternativos que tentam romper com o bloco imperialista liderado pelos EUA. A invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia p\u00f5e em evid\u00eancia essa \u201cfragmenta\u00e7\u00e3o\u201d de um modo dram\u00e1tico.<\/p>\n<p>O que o mundo precisa \u00e9 de coopera\u00e7\u00e3o global para superar a policrise do capitalismo. Em vez disso, o capitalismo est\u00e1 se fragmentando; na verdade, ele \u00e9 inerentemente incapaz de forjar uma unidade internacional que promova um planeamento global.\u00a0<a href=\"https:\/\/cepr.org\/voxeu\/columns\/geoeconomic-fragmentation-new-ebook\" rel=\"noreferrer noopener\">Os custos econ\u00f4micos desta fragmenta\u00e7\u00e3o j\u00e1 foram at\u00e9 medidos<\/a>: devido \u00e0 contra\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio, ela ser\u00e1 de at\u00e9 7% do PIB mundial; com a adi\u00e7\u00e3o da dissocia\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, a perda de produ\u00e7\u00e3o poder\u00e1 atingir 8-12% em alguns pa\u00edses.<\/p>\n<p>A longo prazo \u00e9 a crescente perturba\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica trazidas pela ascens\u00e3o da intelig\u00eancia artificial (IA). Os economistas da Goldman Sachs consideram que se a nova tecnologia de IA cumprisse a sua promessa (o que \u00e9 duvidoso), isso traria \u201cperturba\u00e7\u00f5es significativas\u201d ao mercado de trabalho. O equivalente a 300 milh\u00f5es de trabalhadores ficariam expostos ao desemprego em tempo integral nas principais economias devido \u00e0 automatiza\u00e7\u00e3o do trabalho que eles realizam. Calcula-se que cerca de dois ter\u00e7os dos empregos nos EUA e na Europa est\u00e3o expostos a algum grau de automatiza\u00e7\u00e3o por meio da IA. Chegou-se a essa conclus\u00e3o com base em dados sobre as tarefas normalmente executadas em milhares de profiss\u00f5es.<\/p>\n<p>A humanidade e o planeta enfrentam uma crise existencial devido ao aquecimento global e \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas; mas ser\u00e1 que o trabalho humano ser\u00e1 substitu\u00eddo por m\u00e1quinas pensantes mesmo antes que sobrevenha a cat\u00e1strofe clim\u00e1tica, ampliando assim as desigualdades e aumentando a riqueza para os propriet\u00e1rios das m\u00e1quinas (capital) e a pobreza para os milhares de milh\u00f5es (trabalho)? A policrise do capitalismo no s\u00e9culo XXI apenas come\u00e7ou.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O capitalismo, de novo, em crise existencial &#8211; read:\/\/https_outraspalavras.net\/?url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-civilizatoria%2Fcapitalismo-de-novo-em-crise-existencial%2F<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Michael Roberts &#8211; Governos est\u00e3o inertes frente ao colapso clim\u00e1tico. Endividamento global e fome atingem picos. Enquanto isso, EUA insistem em guerras infinitas para adiar seu decl\u00ednio. \u00c0 beira do abismo, sistema \u00e9 incapaz de forjar sa\u00eddas ao caos que criou. No in\u00edcio deste ano,\u00a0escrevi um post\u00a0sobre o que alguns chamam de \u201cpolicrise\u201d. 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