{"id":20061,"date":"2023-11-11T12:35:01","date_gmt":"2023-11-11T15:35:01","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20061"},"modified":"2023-11-06T19:37:49","modified_gmt":"2023-11-06T22:37:49","slug":"kleber-mendonca-filho-fala-sobre-politica-cultural-defesa-da-cidade-e-a-paixao-por-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/11\/11\/kleber-mendonca-filho-fala-sobre-politica-cultural-defesa-da-cidade-e-a-paixao-por-cinema\/","title":{"rendered":"Kleber Mendon\u00e7a Filho fala sobre pol\u00edtica cultural, defesa da cidade e a paix\u00e3o por cinema"},"content":{"rendered":"<p><strong>Erika Muniz &#8211; <\/strong>Desde a inf\u00e2ncia, Kleber Mendon\u00e7a Filho j\u00e1 se encantava com as potencialidades do cinema. E essa rela\u00e7\u00e3o recebeu incentivo de sua fam\u00edlia desde sempre, sobretudo por parte da sua m\u00e3e, a historiadora Joselice Juc\u00e1. Mas tamb\u00e9m \u2013 como \u00e9 roteiro na vida de muitos que se prop\u00f5em a seguir uma carreira ligada \u00e0s \u00e1reas art\u00edsticas \u2013 encontrou quem acreditasse que seria passageiro, que se tratava de um hobby ou que n\u00e3o imaginava que aquele interesse e dedica\u00e7\u00e3o fossem resultar numa parte importante de sua vida, sua profiss\u00e3o \u2013 mas, felizmente, \u00e9 o que aconteceu. Hoje, j\u00e1 s\u00e3o mais de duas d\u00e9cadas deste pernambucano como realizador.<\/p>\n<section class=\"text-post\">Diretor de obras como\u00a0<em>O Som ao Redor<\/em>,\u00a0<em>Aquarius<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Bacurau<\/em>, entre muitas outras, Kleber lan\u00e7ou este ano\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>, que, na melhor das s\u00ednteses, \u00e9 um filme \u201csobre esse cinema\u201d \u2013\u00a0 essa linguagem capaz de reunir multid\u00f5es em uma fila ao redor do Cinema S\u00e3o Luiz, na rua da Aurora, durante um festival dedicado a essa arte, seus sentimentos e seus encontros.<\/section>\n<p>Al\u00e9m de cineasta, Kleber se dedica \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o de cinema do Instituto Moreira Salles, mas j\u00e1 trabalhou tamb\u00e9m como cr\u00edtico no Jornal do Commercio e como programador do Cinema da Funda\u00e7\u00e3o, participando da constru\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rio de gera\u00e7\u00f5es de cin\u00e9filos e cin\u00e9filas recifenses.<\/p>\n<p>\u201cTem a hist\u00f3ria do Paul Schrader, o roteirista de\u00a0<em>Taxi Driver<\/em>, que \u00e9 cineasta tamb\u00e9m. Ele sempre diz que descobriu o cinema aos 18 anos. Muito impressionante. Acho bonito at\u00e9, a pessoa ter chegado t\u00e3o tarde \u00e0 ideia de cinema. Se apaixonar por um filme pela primeira vez aos 18 anos. Acho que \u00e9 uma loucura e acho incr\u00edvel que ele seja Paul Schrader e fale isso. Mas, no meu caso, realmente foi desde crian\u00e7a, desde pequeno. Eu ia para a m\u00e1quina de escrever da minha m\u00e3e para poder escrever pedidos, com at\u00e9 o hor\u00e1rio da sess\u00e3o, para a gente ver um filme no cinema\u201d, relembra o artista, durante nossa conversa, e complementa: \u201c\u00c9 coisa antiga.\u201d<\/p>\n<p>Esta entrevista aconteceu numa manh\u00e3 de quarta-feira, no parque das Gra\u00e7as, em meio \u00e0 agenda de viagens que o diretor vem realizando para a divulga\u00e7\u00e3o de sua mais recente produ\u00e7\u00e3o, cuja estreia mundial aconteceu no Festival de Cannes \u2013 e, inclusive, j\u00e1 ultrapassa 70 mil espectadores. Bem pr\u00f3ximo ao Capibaribe, o intenso calor do Recife deu uma tr\u00e9gua naquele turno e conversamos sobre\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>, pol\u00edtica p\u00fablica de cultura, direito \u00e0 cidade, mas tamb\u00e9m sobre fic\u00e7\u00e3o, poesia, \u201creal\u201d, a cidade que se deseja e sobre, como n\u00e3o poderia deixar de ser, o fazer cinema.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-57334\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMFCreditos_-Joao-Carlos-Lacerda-1024x651.jpeg?resize=640%2C407&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMFCreditos_-Joao-Carlos-Lacerda-1024x651.jpeg 1024w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMFCreditos_-Joao-Carlos-Lacerda-300x191.jpeg 300w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMFCreditos_-Joao-Carlos-Lacerda-768x488.jpeg 768w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMFCreditos_-Joao-Carlos-Lacerda-1536x976.jpeg 1536w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMFCreditos_-Joao-Carlos-Lacerda-2048x1301.jpeg 2048w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMFCreditos_-Joao-Carlos-Lacerda-150x95.jpeg 150w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"407\" \/><\/p>\n<p><em>Cinema S\u00e3o Luiz marca a vida do cineasta e de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de recifenses. Cr\u00e9dito: Jo\u00e3o Carlos Lacerda<\/em><\/p>\n<p>Marco Zero Conte\u00fado<strong>\u00a0\u2013 Em\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>, voc\u00ea traz sua m\u00e3e, a historiadora Joselice Juc\u00e1, para a narrativa. E ela lhe levava para a sala de cinema. A primeira vez que fui ao cinema, foi com a tia Eliane, que hoje trabalha l\u00e1. Foi justamente no S\u00e3o Luiz, ele que me apresentou o que \u00e9 uma sala de cinema. Queria saber como foi a constru\u00e7\u00e3o de sua rela\u00e7\u00e3o com o cinema, que passa pela sua m\u00e3e. E, tamb\u00e9m, o que \u00e9 o que o Cinema S\u00e3o Luiz significa para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Kl\u00e9ber Mendon\u00e7a Filho<\/strong>\u00a0\u2013 Bom, feito voc\u00ea, eu tamb\u00e9m tive essa experi\u00eancia de ir pela primeira vez numa sala de cinema no S\u00e3o Luiz. Fui com minha m\u00e3e, acho que foi em 1973. Eu tinha 4 anos e ela me levou para ver um festival\u00a0<em>Tom &amp; Jerry<\/em>, s\u00f3 desenho animado. E o S\u00e3o Luiz\u2026 claro que se tivesse sido em qualquer outro cinema, seria memor\u00e1vel. Mas, por sorte, foi o S\u00e3o Luiz, que \u00e9 uma sala muito especial, e que permanece, n\u00e9? Ela foi salva, digamos assim, ela sobreviveu. Tanto \u00e9 que voc\u00ea, de uma gera\u00e7\u00e3o que veio depois, tamb\u00e9m teve essa experi\u00eancia. E hoje a sua tia trabalha no S\u00e3o Luiz. Mas o S\u00e3o Luiz foi s\u00f3 o in\u00edcio de uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima que eu tive \u2013 e que foi estimulada pela minha m\u00e3e \u2013 de ir ao cinema. Ir ao cinema no Recife, depois, quando ela foi estudar na Inglaterra, ir ao cinema na Inglaterra, ir ao cinema em v\u00e1rios lugares que a gente viajou. Ela me dar uma c\u00e2mera fotogr\u00e1fica para tirar fotos, quando eu era adolescente. Ent\u00e3o, todas essas rela\u00e7\u00f5es passam muito por ela. A ideia de contar hist\u00f3rias passa por ela tamb\u00e9m. Ela n\u00e3o era s\u00f3 uma contadora de hist\u00f3rias de maneira informal, mas era uma historiadora, n\u00e9? E ela ia geralmente nas fontes que n\u00e3o eram\u2026 que ningu\u00e9m prestava muita aten\u00e7\u00e3o naquelas fontes. Pessoas chamadas \u201ccomuns\u201d, que n\u00e3o s\u00e3o \u201cpessoas comuns\u201d, s\u00e3o pessoas. Mas dentro da ideia da Academia, eram \u201cpessoas comuns\u201d, n\u00e3o eram acad\u00eamicos e intelectuais \u201cque tinham algo a falar\u201d. Isso tudo, para mim, \u00e9 muito formador.<\/p>\n<p><strong>Ainda sobre\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>, queria que voc\u00ea contasse um pouco sobre essa sele\u00e7\u00e3o das imagens que foi utilizada e sobre o roteiro tamb\u00e9m.<\/strong><\/p>\n<p>O roteiro, na verdade, n\u00e3o existiu. N\u00e3o teve roteiro. Claro que agora que o filme est\u00e1 pronto, pensando no processo, algu\u00e9m pode tentar argumentar que \u00e9 claro que teve roteiro, que ele foi constru\u00eddo, mas ele foi constru\u00eddo na montagem. A montagem que me pedia \u2013 a montagem n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m, \u00e9 o filme sendo feito \u2013, mas o filme me pedia que eu escrevesse determinadas falas para o filme. A\u00ed, dia a dia, fui escrevendo novas falas e dia a dia, eu levava nessa hora, inclusive, para casa de Matheus (Farias, montador, diretor e roteirista), onde a gente trabalhava na montagem do filme. Ent\u00e3o, ele n\u00e3o teve roteiro.\u00a0<em>O Agente Secreto<\/em>, que \u00e9 o meu novo filme, tem um roteiro, de 167 p\u00e1ginas. At\u00e9 por uma quest\u00e3o de responsabilidade fiscal, tem que ter um roteiro, mas o\u00a0<em>Retratos Fantasmas\u00a0<\/em>foi se fazendo pelo material que encontrei. \u00c9 como um historiador mesmo, que encontra depoimentos, encontra fotos, encontra documentos que v\u00e3o construindo a ideia do historiador, da historiadora, sobre o que est\u00e1 escrevendo. \u00c9 muito isso mesmo, \u00e9 um filme de Hist\u00f3ria ao p\u00e9 da letra.<\/p>\n<p><strong>Que cidade voc\u00ea deseja para a gente, Kleber? Falando sobre direito \u00e0 cidade, mas tamb\u00e9m sobre direito \u00e0 cultura.<\/strong><\/p>\n<p>Desejo uma cidade onde a cultura estabele\u00e7a o estado de esp\u00edrito da cidade. E eu desejo uma cidade onde o mercado n\u00e3o domine o estado de esp\u00edrito da cidade. Acho que o mercado pode existir e faz parte da sociedade, mas o mercado n\u00e3o pode estabelecer o batimento card\u00edaco da cidade e acho que \u00e9 isso que acontece em muitas cidades do mundo, brasileiras e tem acontecido com o Recife. \u201cO mercado decidiu que o centro da cidade n\u00e3o \u00e9 mais interessante.\u201d N\u00e3o, algu\u00e9m precisa ignorar isso. \u201cO mercado decidiu que o lugar para passear \u00e9 o shopping center.\u201d Isso n\u00e3o pode acontecer. \u201cO mercado decidiu que o lugar para ver filme \u00e9 o multiplex.\u201d Isso n\u00e3o pode acontecer. A gente deveria ser capaz de somar coisas, n\u00e3o de aniquilar coisas para o mercado poder se aproveitar. E a cidade precisa ter uma governan\u00e7a humana. Porque a cidade \u00e9 para muita gente, n\u00e3o \u00e9 para uma tribo especial. Ent\u00e3o, essa \u00e9 a cidade que eu quero.<\/p>\n<p><strong>Tem uma frase de\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>\u00a0que me marcou e muita gente tem comentado: \u201cfilmes de fic\u00e7\u00e3o s\u00e3o os melhores document\u00e1rios\u201d. Quanto de fic\u00e7\u00e3o tem no real e quanto de real existe na fic\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, esse parque aqui (O parque das Gra\u00e7as, localizado no bairro hom\u00f4nimo), ele \u00e9 o que ele \u00e9. Ele \u00e9 um parque, ele foi projetado e foi constru\u00eddo. E voc\u00ea pode ter uma vis\u00e3o bem seca e pragm\u00e1tica dele, que acho que seria a \u201crealidade\u201d. Mas o que voc\u00ea coloca de bom no parque, que vem de voc\u00ea, talvez seja uma fic\u00e7\u00e3o. Mas acho que ela tamb\u00e9m \u00e9 baseada na realidade. Voc\u00ea pode anular o Recife, dizer: \u201cessa cidade \u00e9 horr\u00edvel\u201d. Mas voc\u00ea pode dizer: \u201cn\u00e3o, essa cidade \u00e9 interessante\u2026\u201d O interessante \u00e9 a sua parte, que voc\u00ea consegue trazer pra ela. \u00c9 voc\u00ea que poetiza um pouco a cidade. Essa \u00e9 a parte talvez ficcional da realidade, o quanto voc\u00ea consegue trazer de voc\u00ea mesmo para algo que \u00e9 pragm\u00e1tico. Acho que o\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>\u00a0\u00e9 sobre coisas reais, mas tem uma carga muito forte de poesia ali, n\u00e9? E, na carga de poesia, existe tamb\u00e9m um sentimento real, por exemplo: pegar um uber \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o real, do mundo real, mas, a partir de um momento, a partir de uma determinada hora da noite talvez eu come\u00e7o a sair fora da realidade, quando estou num uber. \u00c0s vezes, at\u00e9 a conversa com o motorista ou a motorista me leva a isso. Ent\u00e3o, essa fronteira se torna bem dif\u00edcil de estabelecer.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea se formou na UFPE. Como foi esse momento para voc\u00ea e como voc\u00ea v\u00ea a import\u00e2ncia da valoriza\u00e7\u00e3o da universidade p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n<p>A universidade p\u00fablica \u00e9 uma das bases da sociedade. No Brasil, com certeza; na Europa, com certeza. Nos Estados Unidos, ainda est\u00e3o trabalhando nisso, mas espero que eles cheguem l\u00e1. Para mim, foram anos de forma\u00e7\u00e3o muito importantes, entre 1988 e 1992. Conheci muita gente que me desafiou, que me fez companhia em pensamentos e que, at\u00e9 hoje, s\u00e3o parte da minha vida. Tive professores que me formaram, que me trouxeram ideias. A grande Nelly Carvalho, In\u00eas Amorim s\u00e3o professoras que me acompanham at\u00e9 hoje em ideias. No uso do Portugu\u00eas, na ideia de neologismo e nas fotografias. A universidade p\u00fablica precisa sempre ser valorizada e defendida pelo Brasil. N\u00e3o s\u00f3 pela gente, mas pelos governos. \u00c9 uma base muito importante da sociedade brasileira.<\/p>\n<p><strong>Em sua obra, alguns de seus filmes me fazem pensar muito sobre os lugares. Sobre a nossa rela\u00e7\u00e3o com esses lugares, com a casa, com a cidade. E o centro da cidade tamb\u00e9m aparece. Mas de que lugares s\u00e3o feitos para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Eles s\u00e3o feitos de hist\u00f3ria, de geografia\u2026 mas, como falei na outra resposta, eles s\u00e3o feitos tamb\u00e9m de voc\u00ea mesmo. \u00c9 o que voc\u00ea consegue fazer do lugar. O S\u00e3o Luiz, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o S\u00e3o Luiz. \u00c9 o que ele agregou ao longo de 70 anos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o dessa cidade. E [agregou] a tamb\u00e9m muita gente que n\u00e3o \u00e9 da cidade e, por acaso, se viu no S\u00e3o Luiz ao longo da vida. Algu\u00e9m que veio numa viagem de trabalho, algu\u00e9m que veio ficar com a fam\u00edlia e terminou sendo levado para uma sess\u00e3o no S\u00e3o Luiz. Tudo isso faz parte da experi\u00eancia pessoal, a experi\u00eancia pessoal \u00e9 projetada no lugar. E o lugar tamb\u00e9m se projeta na pessoa. Isso, para mim, \u00e9 fascinante. Acho que \u00e9 por a\u00ed que surge a ideia de um sentimento fantasmag\u00f3rico. Porque, no S\u00e3o Luiz, quando voc\u00ea vai no S\u00e3o Luiz\u2026 sei l\u00e1, quando voc\u00ea vai de manh\u00e3 no S\u00e3o Luiz e est\u00e3o fazendo a faxina e voc\u00ea entra naquela sala e v\u00ea aquela sala vazia, \u00e9 muito forte. Porque, na verdade, voc\u00ea tem a experi\u00eancia de estar naquele lugar repleto de gente. Essa carga se torna hist\u00f3rica. E, ao ser hist\u00f3rica, ela \u00e9 cultural tamb\u00e9m. E ela \u00e9 social. Porque o S\u00e3o Luiz \u00e9 um dos poucos lugares no Recife que juntam uma diversidade muito grande de pessoas. Isso \u00e9 muito forte. A\u00ed, voc\u00ea est\u00e1 falando de cultura, de ind\u00fastria \u2013 cinema \u00e9 ind\u00fastria tamb\u00e9m \u2013, mas \u00e9 cultura, \u00e9 forma\u00e7\u00e3o, \u00e9 ponto de vista e identidade cultural.<\/p>\n<p><strong>\u00c0s vezes, a gente escuta tanto no jornalismo cultural, como tamb\u00e9m na cr\u00edtica de cinema, uma ideia de \u201ccinema pernambucano\u201d. O que \u00e9 que voc\u00ea pensa sobre isso? Existe, na sua percep\u00e7\u00e3o, uma identidade do cinema pernambucano?<\/strong><\/p>\n<p>Eu at\u00e9 acho que existe. Porque o cinema pernambucano \u00e9 muito peculiar no jeito de\u2026 tem uma personalidade forte. N\u00e3o existe, por exemplo, um cinema pernambucano comercial gen\u00e9rico. O cinema pernambucano, geralmente, \u00e9 bem autoral. Hoje, neste momento, n\u00e3o sei muito bem como est\u00e1 o conjunto coletivo do cinema pernambucano. Eu tinha uma vis\u00e3o mais clara h\u00e1 dez anos, por exemplo. Acho que com a pandemia, com os anos de Bolsonaro, \u00e9 como se tivessem botado \u00e1gua. Mas, de toda forma, esse cinema existe. E \u00e9 um cinema que tem um ponto de vista que \u00e9 muito diferente do cinema, por exemplo, sudestino, que domina, de uma certa forma, o cinema comercial, a teledramaturgia. \u00c9 muito diferente de tudo isso. Durante muito tempo foi um padr\u00e3o no Brasil, talvez ainda seja um padr\u00e3o. Mas o cinema pernambucano tem um sotaque e um ponto de vista muito peculiar e muito nosso.<\/p>\n<p><strong>A gente tem acesso a not\u00edcias da m\u00eddia de um filme brasileiro quando sai l\u00e1 fora. Mas como costuma ser a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico? Como trocam com voc\u00ea sobre os seus filmes?<\/strong><\/p>\n<p>Tenho a sorte de ter feito filmes que, de alguma maneira que eu n\u00e3o entendo muito bem como, eles se comunicam fora do Brasil tamb\u00e9m. \u00c9 claro que um filme americano visto no Brasil n\u00e3o tem a mesma rea\u00e7\u00e3o que ele pode ter numa cidade nos Estados Unidos. A mesma coisa com um filme brasileiro. Talvez se percam alguns aspectos relacionados \u00e0 linguagem, a observa\u00e7\u00f5es da vida no Brasil, mas em geral s\u00e3o filmes que\u2026 tipo,\u00a0<em>Aquarius<\/em>\u00a0\u00e9 um filme que \u00e9 muito visto na Fran\u00e7a, lan\u00e7ado nos Estados Unidos. Bacurau tamb\u00e9m, em muitos pa\u00edses. Acho que \u00e9 muito boa a forma como esses filmes chegam.\u00a0<em>Retratos Fantasmas,<\/em>\u00a0muita gente, no in\u00edcio, que acho que vem de uma vis\u00e3o muito provinciana daqui, reagiu assim: \u201cAh, mas o filme \u00e9 muito daqui, a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 daqui, n\u00e3o sei se esse filme vai ser entendido l\u00e1 fora, porque ele \u00e9 muito sobre a ponte Duarte Coelho\u201d. L\u00e1 fora, a ponte Duarte Coelho \u00e9 uma ponte, voc\u00ea n\u00e3o sabe qual \u00e9 o nome da ponte. A ponte da Boa Vista \u00e9 uma ponte de ferro que voc\u00ea v\u00ea no filme, n\u00e3o acho que tem tanta diferen\u00e7a, n\u00e3o. Acho que o brasileiro tem uma tend\u00eancia a achar que nossos filmes talvez n\u00e3o sejam compreendidos l\u00e1 fora. Mas a gente v\u00ea filmes feitos no Brooklyn ou na Su\u00e9cia e a gente os entende.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-57335\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-CENTRO_RECIFE_SA%CC%83O_LUIZ_v2-1-1024x538.jpeg?resize=640%2C336&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-CENTRO_RECIFE_SA\u0303O_LUIZ_v2-1-1024x538.jpeg 1024w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-CENTRO_RECIFE_SA\u0303O_LUIZ_v2-1-300x158.jpeg 300w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-CENTRO_RECIFE_SA\u0303O_LUIZ_v2-1-768x403.jpeg 768w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-CENTRO_RECIFE_SA\u0303O_LUIZ_v2-1-1536x806.jpeg 1536w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-CENTRO_RECIFE_SA\u0303O_LUIZ_v2-1-2048x1075.jpeg 2048w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-CENTRO_RECIFE_SA\u0303O_LUIZ_v2-1-150x79.jpeg 150w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"336\" \/><figcaption class=\"c007\"><em>Kl\u00e9ber Mendon\u00e7a acredita que p\u00fablico internacional entender\u00e1\u00a0Retratos Fantasmas.\u00a0Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>A gente est\u00e1 falando de arte, mas sobretudo de audiovisual. Qual a import\u00e2ncia, na sua percep\u00e7\u00e3o, das pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura para o desenvolvimento dessa cadeia produtiva no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Elas s\u00e3o totalmente importantes, s\u00e3o parte da Constitui\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea poder se expressar e ter os meios para poder se expressar, num mundo onde a gente recebe tudo pronto e empacotado dos Estados Unidos, \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9 uma quest\u00e3o de identidade cultural, \u00e9 uma quest\u00e3o de cidadania. Ent\u00e3o, que artistas brasileiros continuem tendo os meios para continuar pensando, produzindo e se expressando. Quando um filme como\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>\u00a0passa no Festival de Nova York \u2013 como vai passar \u2013 e tem mat\u00e9ria no New York Times, voc\u00ea est\u00e1 marcando presen\u00e7a como cultura, como pa\u00eds. Quando um filme como\u00a0<em>Retratos Fantasmas\u00a0<\/em>\u00e9 lan\u00e7ado na Fran\u00e7a \u2013 como vai ser, no dia 11 de novembro \u2013, voc\u00ea est\u00e1 dizendo: \u201ca gente faz parte da discuss\u00e3o cultural.\u201d E isso vem de um filme que foi feito com recursos p\u00fablicos, um filme que custou 1 milh\u00e3o de reais, o que \u00e9 muito, muito pouco, sobretudo para um longa. Acho que prova que o sangue da cultura \u00e9 feito pelas obras feitas no pa\u00eds. E que essas obras sejam cada vez mais diversas, que sejam do Rio Grande do Sul, que sejam de Tocantins, da Para\u00edba, do Rio de Janeiro, do Recife, que a periferia fa\u00e7a filmes, que o pessoal do Amazonas fa\u00e7a filmes e que tudo isso fa\u00e7a parte de um caldeir\u00e3o de ideias e que isso seja feito com investimento do Estado, porque esse investimento vai voltar. Ele volta na quantidade de gente que trabalha no filme, na quantidade de gente que divulga o filme, nas pessoas que escrevem sobre o filme, que est\u00e3o tamb\u00e9m ao redor dessa cadeia. E, tudo dando certo, nas pessoas que v\u00e3o ao cinema ver o filme, ou no\u00a0<em>streaming<\/em>\u00a0que vai comprar o filme. Tudo isso faz parte do sangue da cultura. E esse dinheiro n\u00e3o \u00e9 investimento ou fundo perdido, como muita gente diz, \u00e9 um dinheiro que volta, ele faz parte da sociedade.<\/p>\n<p><strong>Tenho amigos que fazem ou fizeram cinema, e voc\u00ea \u00e9 uma das refer\u00eancias. Queria que voc\u00ea falasse, para quem est\u00e1 come\u00e7ando a fazer cinema agora. O que voc\u00ea gostaria de ter ouvido quando come\u00e7ou?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que hoje quem est\u00e1 fazendo cinema, e \u00e9 muito jovem, est\u00e1 fazendo cinema numa \u00e9poca que \u00e9 incr\u00edvel, porque a tecnologia lhe permite se expressar. Hoje, com um telefone, como esse que voc\u00ea est\u00e1 segurando, voc\u00ea pode fazer algo incrivelmente bem-acabado, 100 vezes melhor do que eu conseguia fazer quando estava na universidade. Tinha acesso a um equipamento VHS, com fitas grandes e qualidade bem baixa. A parte que os jovens precisam entender \u00e9 que tecnicamente a coisa est\u00e1 muito mais f\u00e1cil, mas a capacidade de expressar ideias continua sempre o mesmo desafio. O mesmo desafio do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, quando eu estava na faculdade, continua hoje. O que voc\u00ea vai colocar para fora? O que voc\u00ea vai expressar? Isso vem de experi\u00eancia de vida, de talento art\u00edstico. Talento n\u00e3o \u00e9 algo que voc\u00ea consegue comprar nem baixar um aplicativo. E da sua forma\u00e7\u00e3o como pessoa, n\u00e9? Isso vem de livros, vem da sua capacidade de interagir e entender o mundo, vem de filmes que voc\u00ea v\u00ea, vem de toda uma forma\u00e7\u00e3o pessoal, que a\u00ed \u00e9 voc\u00ea que tem que trilhar o seu pr\u00f3prio caminho. E voc\u00ea precisa estar de olhos e ouvidos abertos para o mundo. Essa \u00e9 a parte que eu n\u00e3o tenho muito como ajudar, porque cada um trilha o seu caminho.<\/p>\n<p>C<strong>omo nasce uma hist\u00f3ria que voc\u00ea queira realizar e queira contar nos seus filmes? Como ela costuma nascer? Ou ela n\u00e3o tem uma l\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tem uma l\u00f3gica. \u00c9 algo que voc\u00ea vai pensando aos poucos, aos poucos e depois passa um tempo e voc\u00ea acha que aquela ideia realmente continua na sua cabe\u00e7a e voc\u00ea est\u00e1 realmente pensando em desenvolv\u00ea-la. \u00c9 algo que leva muito tempo e voc\u00ea tem que testar a ideia por um tempo, n\u00e3o atrav\u00e9s de uma prova com itens, mas voc\u00ea deixa o tempo passar e entende que aquilo realmente \u00e9 algo que voc\u00ea quer fazer.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 sua expectativa com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>\u00a0ir para o Oscar?<\/strong><\/p>\n<p><em>Retratos Fantasmas<\/em>\u00a0\u00e9 o filme brasileiro de maior presen\u00e7a internacional este ano e, como tal, ele vai representar o Brasil no Oscar. Eu, como sempre, divulgo os meus filmes e trabalho para os meus filmes. Vou aonde os meus filmes v\u00e3o. Vou para os Estados Unidos na semana que vem, vou para Los Angeles no final do m\u00eas e vou fazer tudo o que o filme quer que eu fa\u00e7a para divulg\u00e1-lo. \u00c9 um filme sobre o cinema e Hollywood gosta de filmes que falam sobre o cinema. Encaro tudo isso com muita tranquilidade. Sei que \u00e9 um pandem\u00f4nio, as pessoas pensam em Oscar, mas, para mim, \u00e9 um desafio como qualquer outro. O filme vai para o Festival de Cannes, vou para o Festival de Cannes; as pessoas fazem perguntas, tento responder \u00e0s perguntas; a imprensa quer falar comigo, falo com a imprensa. Tudo isso faz parte do trabalho do filme. Acho que o Oscar \u00e9 isso, talvez numa energia mais alta, mas estou sempre pronto para trabalhar para o filme.<\/p>\n<p><strong>Sobre a pol\u00edtica de Cota de Tela para produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas nacionais. Como voc\u00ea percebe a relev\u00e2ncia disso para a forma\u00e7\u00e3o do p\u00fablico brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 totalmente importante e elas precisam voltar o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. O agroneg\u00f3cio tem cotas. Os sul-coreanos e os franceses usam cotas para defender o mercado nacional de filmes estrangeiros, de Hollywood. O\u00a0<em>Retratos Fantasmas<\/em>\u00a0j\u00e1 est\u00e1 com 70 mil espectadores \u2013 o que \u00e9 muito bom e sem cotas \u2013 mas se tivesse cota, teriam muito mais, porque os cinemas precisam cumprir as cotas e ao tentar evitar as multas, v\u00e3o procurar filmes brasileiros e geralmente eles pegam filmes que est\u00e3o muito em evid\u00eancia.\u00a0<em>Retratos Fantasmas\u00a0<\/em>\u00e9 um filme que est\u00e1 em evid\u00eancia, o\u00a0<em>Elis &amp; Tom<\/em>\u00a0\u00e9 um filme que est\u00e1 em evid\u00eancia, o\u00a0<em>Nosso Sonho<\/em>\u00a0\u00e9 um filme que est\u00e1 em evid\u00eancia, ent\u00e3o, todos esses filmes se beneficiariam da Lei de Cota de Tela. Defendo e quero que ela volte o mais r\u00e1pido poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>E, para finalizar, por que cinema?<\/strong><\/p>\n<p>Porque, para mim, \u00e9 fascinante poder capturar imagens e retransform\u00e1-las. Gosto muito da ideia dessas imagens serem vistas daqui a 300 anos. [risos] Tudo dando certo, v\u00e3o ficar guardadas em algum lugar. E acho tamb\u00e9m que \u00e9 uma maneira de eu colocar a minha m\u00e3o para cima e dizer que tenho algo a falar. O grande desafio \u00e9 entender se tenho algo a falar. O grande perigo \u00e9 voc\u00ea colocar a m\u00e3o para cima e quando vai falar, n\u00e3o tem o que dizer. Esse \u00e9 o meu maior medo, talvez. Mas at\u00e9 agora estou indo de uma maneira que geralmente tenho algo a falar.\u00a0<em>Retratos Fantasmas\u00a0<\/em>foi esse \u00faltimo exerc\u00edcio, cronologicamente, no sentido de dizer que tenho algo a falar. O pr\u00f3ximo \u00e9\u00a0<em>O Agente Secreto<\/em>. Acho que cinema \u00e9 como se fosse a cria\u00e7\u00e3o de um \u00e1lbum de imagens.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-57336\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-Creditos_-Cinemascopio-1024x538.jpeg?resize=640%2C336&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-Creditos_-Cinemascopio-1024x538.jpeg 1024w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-Creditos_-Cinemascopio-300x158.jpeg 300w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-Creditos_-Cinemascopio-768x403.jpeg 768w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-Creditos_-Cinemascopio-1536x807.jpeg 1536w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-Creditos_-Cinemascopio-2048x1076.jpeg 2048w, https:\/\/marcozero.org\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/KMF-Creditos_-Cinemascopio-150x79.jpeg 150w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"336\" \/><figcaption class=\"c007\"><em>O papel do mercado na vida da cidade \u00e9 alvo das cr\u00edticas do diretor. Cr\u00e9dito: Cinemasc\u00f3pio<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Kleber Mendon\u00e7a Filho fala sobre pol\u00edtica cultural, defesa da cidade e a paix\u00e3o por cinema &#8211; Marco Zero Conte\u00fado &#8211; https:\/\/marcozero.org\/kleber-mendonca-filho-fala-sobre-politica-cultural-defesa-da-cidade-e-a-paixao-por-cinema\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Erika Muniz &#8211; Desde a inf\u00e2ncia, Kleber Mendon\u00e7a Filho j\u00e1 se encantava com as potencialidades do cinema. E essa rela\u00e7\u00e3o recebeu incentivo de sua fam\u00edlia desde sempre, sobretudo por parte da sua m\u00e3e, a historiadora Joselice Juc\u00e1. 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