{"id":20001,"date":"2023-10-30T12:34:44","date_gmt":"2023-10-30T15:34:44","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=20001"},"modified":"2023-10-25T18:37:27","modified_gmt":"2023-10-25T21:37:27","slug":"algoritmos-e-redes-de-odio-nos-ataques-em-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/10\/30\/algoritmos-e-redes-de-odio-nos-ataques-em-escolas\/","title":{"rendered":"Algoritmos e redes de \u00f3dio nos ataques em escolas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Raphaela Ribeiro<\/strong> &#8211; Pesquisa da Unicamp mostra: 71% dos ataques no Brasil cont\u00e9m ind\u00edcios de radicaliza\u00e7\u00e3o pela busca de notoriedade online. Pouca modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados nas redes potencializa onda de viol\u00eancia, envolta na ideia de racismo, poder e masculinidade.<\/p>\n<p>O Brasil teve ao menos 11 ataques registrados em escolas este ano. No ano passado, foram 10. Apenas em outubro, dois ataques em escolas deixaram dois estudantes mortos e outras seis pessoas feridas. Na \u00faltima segunda-feira (23), um estudante do Ensino M\u00e9dio de 16 anos entrou na Escola Estadual Sapopemba, na Zona Leste de S\u00e3o Paulo, e atirou contra alunos e funcion\u00e1rios. Uma adolescente de 17 anos morreu e outros tr\u00eas ficaram feridos. O autor dos disparos foi detido no local.<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 10, no Col\u00e9gio Dom Bosco, em Po\u00e7os de Caldas (MG), um ex-aluno, ainda menor de idade, matou um estudante de 14 anos e feriu outros tr\u00eas a facadas.<\/p>\n<p>A onda de viol\u00eancia em institui\u00e7\u00f5es educacionais come\u00e7ou em 2001, mas se intensificou ap\u00f3s o massacre escolar de Realengo, em 2011, no Rio de Janeiro, quando 12 pessoas foram mortas, segundo estudo elaborado por pesquisadores do Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educa\u00e7\u00e3o Moral), vinculado \u00e0 Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e \u00e0 Unesp (Universidade Estadual Paulista).<\/p>\n<p>A pesquisa analisou 36 ataques violentos ocorridos em escolas brasileiras nos \u00faltimos 22 anos, at\u00e9 outubro de 2023. A maioria dos casos aconteceu em escolas p\u00fablicas. Todos os autores eram do sexo masculino, predominantemente brancos. Em sua maioria, os autores usaram armas de fogo.<\/p>\n<p>Telma Vinha, professora da Unicamp e coordenadora do estudo, explica que esses ataques \u201cn\u00e3o s\u00e3o eventos isolados e tem caracter\u00edsticas que se repetem\u201d. Ela alerta para os h\u00e1bitos online dos autores e intera\u00e7\u00f5es em comunidades virtuais que promovem discursos de \u00f3dio. O primeiro ataque com evid\u00eancias de influ\u00eancia online, segundo Vinha, foi o de Realengo, em 2011. Desde ent\u00e3o, em 71,8% dos casos foram encontrados sinais de radicaliza\u00e7\u00e3o online, como buscas na internet sobre instru\u00e7\u00f5es para cometer massacres.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, os autores dos ataques \u00e0s escolas, em sua maioria, possu\u00edam rela\u00e7\u00f5es sociais limitadas e n\u00e3o eram vistos como \u201cpopulares\u201d, mas buscavam reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o em grupos on-line. Ela aponta para o papel dos algoritmos das plataformas digitais na radicaliza\u00e7\u00e3o dos jovens, porque funcionam sugerindo conte\u00fados similares aos j\u00e1 visualizados, ou seja, potencializando a exposi\u00e7\u00e3o a discursos violentos.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, nas intera\u00e7\u00f5es realizadas on-line, como nos chats de jogos, pode proliferar incita\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia e discursos de \u00f3dio. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica, Vinha alertou para a pouca modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados das plataformas como um dos fatores que contribui para o aumento de ataques violentos nas escolas. Leia a entrevista completa:<\/p>\n<p>Telma Vinha, professora da Unicamp e coordenadora do estudo sobre ataques violentos em escolas Foto: Antoninho Perri\/Unicamp<br \/>\nNo estudo, afirma-se que a escolha de escolas como alvo de viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria. Qual \u00e9 o motivo?<\/p>\n<p>Esses estudantes t\u00eam uma liga\u00e7\u00e3o significativa com a escola; ela faz parte de sua identidade, de quem eles s\u00e3o. Quando t\u00eam experi\u00eancias nesse local, muitas vezes generalizam a vis\u00e3o que um grupo tem sobre ele. Por exemplo, alguns acham o ambiente escolar babaca, consideram-no inadequado ou bobo e, ent\u00e3o, generalizam isso como se todos o vissem dessa forma. E quando o estudante sofre ou acredita ser visto dessa maneira e retorna \u00e0quela escola, ele pode ter um ato extremo, um limite, para que, com esse ato violento, seja visto de outra forma.<\/p>\n<p>\u00c9 como se ele dissesse: \u201cminha identidade vai mudar com isso. Eu at\u00e9 abro m\u00e3o do meu futuro, mas para mostrar quem eu sou, o meu valor\u201d. Ent\u00e3o, tem a ver com o significado de identidade, uma mudan\u00e7a na maneira como eles acreditam que as pessoas os veem, al\u00e9m da ideia de ressentimento.<\/p>\n<p>E por que os ataques n\u00e3o podem ser vistos de maneira isolada?<\/p>\n<p>Porque envolvem algum tipo de planejamento, eles est\u00e3o relacionados \u00e0 ideia de masculinidade e poder. Sei que h\u00e1 meninas envolvidas em casos assim, mas predomina a ideia da viol\u00eancia como solu\u00e7\u00e3o. Todos t\u00eam um sentimento negativo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escola, e alguns fazem parte de grupos extremistas. S\u00e3o isolados, mas possuem caracter\u00edsticas que refletem essa percep\u00e7\u00e3o de um fen\u00f4meno. Essa ideia de \u201cvoc\u00eas v\u00e3o ouvir falar de mim\u201d \u00e9 marcante. A busca por notoriedade \u00e9 outra caracter\u00edstica presente. E a quest\u00e3o da idade, s\u00e3o muito jovens; mais de 70% s\u00e3o adolescentes, e isso \u00e9 muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Dos 36 ataques em 22 anos, 21 ocorreram entre fevereiro de 2022 e outubro de 2023 (58,33%). A que se atribui esse aumento?<\/p>\n<p>H\u00e1 diversos elementos que comp\u00f5em o que chamamos de ecossistema de viol\u00eancia, que nos \u00faltimos anos tem se intensificado, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil. L\u00edderes pol\u00edticos, religiosos e redes sociais t\u00eam incentivado fortemente uma ideia de viol\u00eancia, \u00f3dio e divis\u00e3o. Por exemplo, quando vemos o pastor Valad\u00e3o falando sobre os homossexuais, ele n\u00e3o apenas fala, mas incita a viol\u00eancia. Isso \u00e9 interpretado por muitos como uma autoriza\u00e7\u00e3o para agir violentamente, substituindo o di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, durante o governo Trump, a m\u00e9dia de ataques saltou de 12-15 por ano para 45-47. O ambiente influencia. Al\u00e9m disso, temos a influ\u00eancia das redes sociais, plataformas onde eles [autores] se relacionam com o mundo inteiro, e onde voc\u00ea tem grupos que incentivam claramente o conte\u00fado de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A pandemia teve algum impacto?<\/p>\n<p>A pandemia tamb\u00e9m teve seu impacto, isolando ainda mais jovens que j\u00e1 tinham rela\u00e7\u00f5es restritas, levando-os a uma imers\u00e3o on-line. O pertencimento a grupos \u00e9 vital para a sa\u00fade mental dos jovens. Durante a pandemia, muitos perderam essas conex\u00f5es, enfraquecendo seus la\u00e7os sociais, o que resultou em solid\u00e3o, ressentimento e adoecimento. Com o retorno das aulas, observamos um aumento da viol\u00eancia escolar, do adoecimento mental e da vulnerabilidade social. Houve um ataque forte \u00e0s escolas, no sentido de discutir pol\u00edticas, discutir hist\u00f3rias, e as escolas se ressentem, porque n\u00e3o querem aparecer na m\u00eddia, n\u00e3o querem aparecer em redes sociais, e deixam de discutir quest\u00f5es importantes. A\u00ed voc\u00ea tem in\u00fameros adolescentes questionando se o nazismo matou mesmo judeus ou n\u00e3o\u2026 e eles discutem com quem? Com grupos sociais de amigos, discutem muitas vezes com a fam\u00edlia, quando discutem.<\/p>\n<p>O acesso facilitado a armas \u00e9 outro fator importante. Voc\u00ea v\u00ea que todos eles [autores] gostam, de alguma maneira, de mostrar a arma da viol\u00eancia. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea soma tudo isso, \u00e9 um caldeir\u00e3o pedindo para que aconte\u00e7am mais ataques.<\/p>\n<p>Voc\u00ea diz que o massacre de Realengo foi o primeiro com evid\u00eancias de influ\u00eancia on-line. Pode explicar melhor?<\/p>\n<p>O ataque de Realengo marca a radicaliza\u00e7\u00e3o online. At\u00e9 ent\u00e3o, o acesso a conte\u00fados e grupos violentos era restrito \u00e0 Deep Web. No entanto, a Deep Web \u00e9 mais dif\u00edcil de acessar, pois exige um navegador espec\u00edfico. Com o passar do tempo, esse tipo de conte\u00fado foi se tornando mais acess\u00edvel na internet, especialmente nos \u00faltimos anos. E \u00e0 medida que o acesso se expande para a superf\u00edcie da internet, essa exposi\u00e7\u00e3o aumenta consideravelmente.<\/p>\n<p>Mesmo com a m\u00eddia regulando a cobertura do ataque de Po\u00e7os de Caldas, no qual ocorreu uma morte, percebe-se que, apesar de ter sido veiculado, a abordagem foi diferente. As reportagens foram reduzidas, mas as redes sociais tiveram grande repercuss\u00e3o. Vimos tudo sobre o jovem envolvido, quem ele era, como foi contido, entre outros detalhes. As redes sociais, que se proliferam rapidamente, s\u00e3o um prato cheio para aqueles com tend\u00eancia \u00e0 imita\u00e7\u00e3o. No entanto, mais do que simples competi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m um sentimento de ressentimento. O objetivo n\u00e3o \u00e9 apenas esse. A situa\u00e7\u00e3o piorou muito, porque antes era muito mais dif\u00edcil ter acesso a tudo isso.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa, 23 dos ataques efetuados t\u00eam ind\u00edcios de radicaliza\u00e7\u00e3o online. Como os algoritmos das redes sociais contribuem para a propaga\u00e7\u00e3o e perpetua\u00e7\u00e3o da cultura do \u00f3dio? E qual o papel delas no combate a esse tipo de radicaliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Primeiro, elas [as redes sociais] t\u00eam muito mais dinheiro do que muitos pa\u00edses e possuem uma for\u00e7a muito grande nesse sentido. Nenhuma sa\u00edda \u00e9 \u00fanica; existem diversas formas de abordagem. A colabora\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias plataformas \u00e9 fundamental, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente. Por exemplo, hoje em dia, se voc\u00ea coloca TCC (True Crime Community) no Twitter, isso \u00e9 removido. Coloque uma imagem de um peito no Twitter e veja se n\u00e3o \u00e9 retirada. Se isso \u00e9 removido, por que outras formas de viol\u00eancia, como cortes, n\u00e3o s\u00e3o? Eles t\u00eam mecanismos para isso.<\/p>\n<p>As plataformas mais fechadas s\u00e3o mais desafiadoras porque as intera\u00e7\u00f5es ocorrem online, em tempo real. O que se prop\u00f5e \u00e9 que os pr\u00f3prios administradores dos servidores sejam mais respons\u00e1veis. Eles poderiam investir muito mais em moderadores em tempo real e em intelig\u00eancia para isso, mas n\u00e3o o fazem porque n\u00e3o \u00e9 do interesse deles.<\/p>\n<p>Na Alemanha, por exemplo, eles t\u00eam um prazo, muitas vezes, de duas horas para remover conte\u00fados nazistas, e o fazem. Mas n\u00e3o basta apenas remover; \u00e9 preciso agir preventivamente. N\u00e3o se deve agir apenas com base em den\u00fancias; \u00e9 necess\u00e1rio determinar tipos de conte\u00fados que podem ser analisados e, posteriormente, devolvidos ou n\u00e3o. Al\u00e9m disso, na Inglaterra, devido ao aumento dos casos de problemas mentais e ao crescimento do suic\u00eddio entre jovens, foi aprovada uma lei que exige registro de identidade para acessar sites pornogr\u00e1ficos. A mesma responsabilidade se aplica a quem cria servidores e promove conte\u00fados violentos; a plataforma tem um prazo para remover, e a lei \u00e9 rigorosa. Por outro lado, defensores da liberdade argumentam, com raz\u00e3o, que o anonimato \u00e9 muitas vezes necess\u00e1rio para resistir, seja contra um governo ou em contextos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Enfrentamos um dilema como sociedade, e n\u00e3o existem solu\u00e7\u00f5es simples. Mas \u00e9 essencial tentar proteger ao m\u00e1ximo nossas crian\u00e7as e jovens. As plataformas t\u00eam o poder de fazer isso, mas n\u00e3o o fazem. O Telegram, por exemplo, \u00e9 um absurdo em nome da \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d. Com todo o dinheiro que o Telegram possui, ele n\u00e3o tem representa\u00e7\u00e3o no Brasil. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 relat\u00f3rios sobre as a\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo tomadas contra isso, etc. O Discord coopera mais, mas ainda \u00e9 muito complicado. Eles poderiam, por exemplo, manter a grava\u00e7\u00e3o das conversas no Discord por um per\u00edodo. Existem mecanismos que podem ser implementados. No entanto, no Brasil, o lobby foi muito forte, e, junto com as fake news, isso estagnou. Estamos pagando um pre\u00e7o alto por isso.<\/p>\n<p>A principal arma usada nos epis\u00f3dios de viol\u00eancia extrema foram armas de fogo, seguida de faca e coquetel molotov. Voc\u00ea avalia que essa facilidade de acesso a armas letais contribui para o aumento de casos de viol\u00eancia?<\/p>\n<p>O uso da arma depende muito do que a pessoa conseguiu acessar. Ainda bem que n\u00e3o era t\u00e3o f\u00e1cil para elas acessarem. As comunidades on-line que t\u00eam l\u00edderes, que s\u00e3o idolatrados, aqueles que s\u00e3o os chamados nesses espa\u00e7os de sanctus (refer\u00eancia a santo, divino), incentivam o uso de armas com alto poder de letalidade, bombas e rev\u00f3lveres. No entanto, nem sempre conseguem obter esses itens.<\/p>\n<p>Mesmo os ataques frustrados, muitas vezes, envolviam espingardas ou outras armas. Por isso, o f\u00e1cil acesso a esses itens significa aumentar a letalidade e o n\u00famero de v\u00edtimas. Muitos afirmam que queriam uma arma, mas n\u00e3o conseguiram.<\/p>\n<p>Cinco dos autores de ataques violentos registrados pela sua pesquisa faziam parte de comunidades de TCCs (True Crime Community, comunidades online que discutem crimes reais). Quais estrat\u00e9gias s\u00e3o empregadas nas redes sociais para atrair e cooptar os jovens para essas comunidades? \u00c9 poss\u00edvel associar esse comportamento on-line \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o dos jovens ou \u00e9 mais complexo do que isso?<\/p>\n<p>O \u201ctrue crime\u201d \u00e9 um tema complexo. H\u00e1 o \u201ctrue crime\u201d que muitos adoram acompanhar, mostrando interesse no assunto. N\u00e3o sei se voc\u00ea gosta, mas minha filha, que tem entre 12 anos, sabe tudo sobre o tema. O problema \u00e9 que, embora o \u201ctrue crime\u201d n\u00e3o incentive diretamente o crime, ele fornece muitas informa\u00e7\u00f5es. Quando h\u00e1 um imitador, ele se aprofunda muito mais para entender os detalhes, como foi feito e quem s\u00e3o as figuras que admira. Ao mesmo tempo em que temos o \u201ctrue crime\u201d sendo discutido abertamente, existem perfis e comunidades que incentivam a viol\u00eancia e glorificam os criminosos. Isso \u00e9 ainda mais preocupante, pois muitos se sentem comprometidos com essas comunidades e, ao se sentirem parte delas, desejam ser admirados e idolatrados.<\/p>\n<p>A coopta\u00e7\u00e3o pode ocorrer simplesmente ao descobrir a exist\u00eancia dessas comunidades e querer participar. Isso \u00e9 vis\u00edvel em plataformas como o Twitter, onde as pessoas pedem links para entrar em determinadas comunidades. H\u00e1 tamb\u00e9m diversas manifesta\u00e7\u00f5es na cultura juvenil, como memes que, atrav\u00e9s do humor, abordam a viol\u00eancia. Em algumas comunidades, a coes\u00e3o se d\u00e1 pelo \u00f3dio comum a algo ou algu\u00e9m. Em jogos, por exemplo, pode come\u00e7ar com xingamentos e evoluir para outros n\u00edveis de intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, a comunidade gamer ainda \u00e9 bastante mis\u00f3gina e preconceituosa. N\u00e3o \u00e9 que incentivem ataques diretamente, mas \u00e9 nas intera\u00e7\u00f5es que as coopta\u00e7\u00f5es ocorrem. A coopta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente \u201cte levar para o mal\u201d, pois muitos realmente acreditam naquilo como uma causa ou valor. Para um adolescente ressentido, angustiado e com sofrimento mental, ser reconhecido e ouvido, mesmo que por teorias conspirat\u00f3rias., ele passa a se sentir valorizado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desses aspectos que j\u00e1 falamos, quais outros pontos no perfil dos ataques violentos em escolas mais lhe chamam a aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>O que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o das concep\u00e7\u00f5es opressoras, que s\u00e3o muito fortes. Racismo, nazismo, misoginia: isso \u00e9 muito forte. E chama a aten\u00e7\u00e3o porque as respostas de seguran\u00e7a n\u00e3o atuar\u00e3o nisso. E n\u00f3s temos que atuar nisso, enquanto sociedade. Chama a aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o acesso muito f\u00e1cil a conte\u00fados que fomentam essa viol\u00eancia. E chama a aten\u00e7\u00e3o, principalmente pelo trabalho do nosso grupo, a quest\u00e3o de todos sofrerem na escola, sem exce\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o estou culpabilizando a escola.<\/p>\n<p>No Brasil, n\u00e3o temos pol\u00edticas p\u00fablicas de conviv\u00eancia que ajudem os professores. Por exemplo, eles t\u00eam que trabalhar, \u00e0s vezes, 40, 50 horas com 20, 30 turmas. Esperar que eles escutem os alunos \u00e9 algo at\u00e9 desumano. Passa necessariamente pela valoriza\u00e7\u00e3o dos professores e profissionais da escola. Mas a escola como lugar de sofrimento, e pensar que muitas vezes um manual, cartilha ou curso massivo vai mudar, n\u00e3o vai. Ou n\u00f3s, enquanto pa\u00eds, encaramos com muita seriedade o papel da escola como formadora de cidadania, de pertencimento, de cuidado, ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>A regula\u00e7\u00e3o dessas plataformas \u00e9 crucial tamb\u00e9m, pois elas t\u00eam uma influ\u00eancia muito maior sobre os jovens do que os adultos. E, ao mesmo tempo, \u00e9 necess\u00e1rio um trabalho muito s\u00e9rio com as quest\u00f5es do \u00f3dio, do discurso do \u00f3dio, focando em g\u00eanero, ra\u00e7a e hist\u00f3ria. Os ataques s\u00e3o apenas a ponta do iceberg de um fen\u00f4meno que envolve muitos jovens adoecendo e interagindo com conte\u00fado violento. Ent\u00e3o, discutir isso \u00e9 discutir o futuro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O que mais estamos esperando para encarar isso com seriedade? \u00c9 nesse sentido que precisamos formar pessoas diferentes do que temos feito at\u00e9 agora. Isso chama muito a aten\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, gera um sentimento de certa impot\u00eancia. Como cooperamos enquanto sociedade? Olhamos muito para isso. Minist\u00e9rio P\u00fablico, Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o, Secretaria de Seguran\u00e7a: todos tentam atuar, mas \u00e9 preciso mais direcionamento nesse sentido.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Algoritmos e redes de \u00f3dio nos ataques em escolas &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/os-algoritimos-de-odio-por-tras-dos-ataques-nas-escolas\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raphaela Ribeiro &#8211; Pesquisa da Unicamp mostra: 71% dos ataques no Brasil cont\u00e9m ind\u00edcios de radicaliza\u00e7\u00e3o pela busca de notoriedade online. Pouca modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fados nas redes potencializa onda de viol\u00eancia, envolta na ideia de racismo, poder e masculinidade. O Brasil teve ao menos 11 ataques registrados em escolas este ano. 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