{"id":1991,"date":"2016-10-30T12:43:53","date_gmt":"2016-10-30T14:43:53","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1991"},"modified":"2016-10-27T16:52:11","modified_gmt":"2016-10-27T18:52:11","slug":"fim-da-farra-tio-sam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/10\/30\/fim-da-farra-tio-sam\/","title":{"rendered":"\u201cFim da farra, Tio Sam!\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Dilip Hiro<i>\u00a0&#8211;\u00a0<\/i><\/strong>Sinais de um tremor na geopol\u00edtica global. China e R\u00fassia, fortalecidas, unem-se em m\u00faltiplos terrenos para enfrentar hegemonia dos EUA. Desafio \u00e9 militar, financeiro e cultural<\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 como D. Quixote consola Sancho Pan\u00e7a, [com a ideia] de que,<br \/>\nembora, sim, lhe venham todas as surras, ao menos n\u00e3o precisa ser valente\u201d<br \/>\n<strong>Karl Marx, Grundisse<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Sejam todos bem-vindos a um mundo multipolar. Um dos fatos que salta aos olhos e destaca-se imediatamente: o planeta Terra j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 propriedade-quintal da \u201c\u00fanica superpot\u00eancia\u201d do globo.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea quer uma prova, pode come\u00e7ar por checar o papel recente de Moscou, que reformatou a guerra na S\u00edria e, com isso, frustrou a agenda de Washington para derrubar o presidente Bashar al-Assad. Esses s\u00e3o s\u00f3 alguns dos desenvolvimentos que destacam a diminui\u00e7\u00e3o do poder dos EUA. Ele est\u00e1 encolhendo globalmente: seja na arena militar, seja na diplom\u00e1tica. Considere-se o modo como a China obteve sucesso no lan\u00e7amento do Banco Asi\u00e1tico de Investimento e Infraestrutura, para concorrer com o Banco Mundial; para n\u00e3o falar da implementa\u00e7\u00e3o de um plano para conectar v\u00e1rios pa\u00edses asi\u00e1ticos e europeus com a China, numa vasta rede multinacional de transporte e oleogasodutos que Pequim denominou grandiloquentemente \u201cUm Cintur\u00e3o e Uma Estrada\u201d ou \u201cProjeto Novas Rotas da Seda\u201d. Nesses desenvolvimentos, podem-se ver meios pelos quais os EUA, antes a pot\u00eancia econ\u00f4mica plenamente dominante, est\u00e1 sendo gradualmente desafiada e ultrapassada internacionalmente.<\/p>\n<p><strong>Moscou: no Oriente M\u00e9dio, em p\u00e9 de igualdade com Washington<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>O acordo Moscou-Washington do dia de setembro, alcan\u00e7ado depois de dez meses de dura negocia\u00e7\u00e3o, est\u00e1 agora em ru\u00ednas, depois de mais uma quebra na tr\u00e9gua que acordada. Por\u00e9m, tinha uma caracter\u00edstica crucial, pouco destacada pelos comentaristas. Pela primeira vez a R\u00fassia aparecia em p\u00e9s de igualdade diplom\u00e1tica com os EUA, desde a implos\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Como o ministro russo Sergei Lavrov comentou, \u201cN\u00e3o \u00e9 o fim da estrada (\u2026), apenas o in\u00edcio de nossas novas rela\u00e7\u00f5es\u201d com Washington. Ainda que essas rela\u00e7\u00f5es estejam hoje num estado de suspens\u00e3o e acirramento, \u00e9 indiscut\u00edvel que a limitada interven\u00e7\u00e3o militar do Kremlin na S\u00edria (a pedido do governo s\u00edrio) foi desenhada para obter efeito multiplicador, gerando retornos tento naquele pa\u00eds devastado pela guerra como na diplomacia internacional.<\/p>\n<p>Em agosto de 2015, por todos os crit\u00e9rios que se adotem, o presidente Assad estava nas cordas e a moral de seu ex\u00e9rcito, muito baixa. Nem o apoio do Ir\u00e3 e do Hezbollah liban\u00eas mostravam-se suficientes para reverter a fragilidade de Damasco, naquele momento.<\/p>\n<p>Para salvar do colapso o governo do presidente Assad, os planejadores militares do Kremlin decidiram ocupar o vazio criado pelo colapso da For\u00e7a A\u00e9rea S\u00edria. Aumentaram muito as defesas a\u00e9reas do pa\u00eds e reabasteceram o arsenal dos s\u00edrios, muito carente de tanques e ve\u00edculos blindados. Para isso, converteram uma das \u00faltimas bases russas fora do territ\u00f3rio nacional \u2014 uma base a\u00e9rea pr\u00f3xima do porto mediterr\u00e2neo de Latakia \u2014 em posto operacional avan\u00e7ado. Despacharam para l\u00e1 \u00a0jatos de combate, helic\u00f3pteros de ataque, tanques, artilharia e carros blindados para transporte de pessoal. A R\u00fassia tamb\u00e9m deslocou seus mais avan\u00e7ados m\u00edsseis S-400 terra-ar.<\/p>\n<p>O n\u00famero de militares russos deslocado foi estimado em de 4 a 5 mil. Embora nenhum deles fosse soldado de infantaria, foi passo sem precedentes na hist\u00f3ria russa recente. A \u00faltima vez que o Kremlin deslocou for\u00e7as significativas para fora do pr\u00f3prio territ\u00f3rio \u2013 em dezembro de 1979 no Afeganist\u00e3o \u2013 acabou mal, uma d\u00e9cada depois, com retirada seguida pelo colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em dezembro de 1991.<\/p>\n<p>\u201cA tentativa de R\u00fassia e do Ir\u00e3 para promover Assad e tentar pacificar a popula\u00e7\u00e3o, s\u00f3 ir\u00e1 atol\u00e1-los num p\u00e2ntano, e n\u00e3o vai dar certo\u201d \u2013 disse o presidente Barack Obama em entrevista coletiva na Casa Branca, pouco depois da interven\u00e7\u00e3o militar russa na S\u00edria. Obama deveria conhecer mais e melhor o tema, porque uma coaliz\u00e3o comandada pelos EUA l\u00e1 estava, bombardeando alvos em territ\u00f3rio s\u00edrio controlado pelos terroristas do Estado Isl\u00e2mico (ISIS) desde setembro de 2014. Ainda assim, o Pent\u00e1gono logo depois assinou um Memorando de Entendimento [ing. Memorandum of Understanding, MoU] com o Kremlin sobre procedimentos de seguran\u00e7a para os respectivos avi\u00f5es, que partilhavam o espa\u00e7o a\u00e9reo s\u00edrio, e estabeleceu um link de comunica\u00e7\u00e3o para quaisquer problemas que surgissem.<\/p>\n<p>Durante os seis meses seguintes de campanha a\u00e9rea cont\u00ednua, os jatos russos cumpriram 9 mil miss\u00f5es. Teriam sido destru\u00eddas 209 instala\u00e7\u00f5es para produ\u00e7\u00e3o e transporte de petr\u00f3leo (supostamente controladas pelo ISIS). Geraram-se condi\u00e7\u00f5es para que o ex\u00e9rcito s\u00edrio retomasse 400 postos, espalhados por cerca de 10 mil km\u00b2. No processo, os russos perderam apenas cinco homens.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, ao mesmo tempo em que crescia a perspectiva de a R\u00fassia desempenhar papel cada vez mais criticamente importante na S\u00edria, a Casa Branca come\u00e7ou a mudar. Em meados de mar\u00e7o de 2016, o secret\u00e1rio de estado John Kerry reuniu-se com o presidente Vladimir Putin da R\u00fassia no Kremlin. A implica\u00e7\u00e3o foi que, ainda que rilhando os dentes, os EUA reconheciam a legitimidade da posi\u00e7\u00e3o russa na S\u00edria, e que era preciso coordenar a a\u00e7\u00e3o dos dois principais atores para esmagar o ISIS.<\/p>\n<p>Um ano depois de a campanha russa ter sido lan\u00e7ada, a maioria das cidades s\u00edrias estava novamente sob controle do governo Assad (embora a maioria delas, em ru\u00ednas). O setor oriental de Aleppo, ainda controlado pelos rebeldes, estava sob ataque. A moral do ex\u00e9rcito s\u00edrio j\u00e1 era outra, apesar de seu contingente ter diminu\u00eddo. J\u00e1 n\u00e3o havia risco de o governo ser derrubado e melhoraram muito as condi\u00e7\u00f5es da na\u00e7\u00e3o s\u00edria em qualquer mesa de negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o menos importante para os russos, apenas reemergentes no cen\u00e1rio do Oriente M\u00e9dio, todos os atores anti-Assad estrangeiros reconheciam a posi\u00e7\u00e3o de piv\u00f4 crucialmente importante que o Kremlin alcan\u00e7ara naquele pa\u00eds destro\u00e7ado pela guerra, onde cinco anos e meio de conflitos resultaram em cerca 500 mil mortos, e o bombardeio de hospitais havia se tornado rotina. No primeiro anivers\u00e1rio da campanha russa na S\u00edria, Putin mandou para l\u00e1 mais avi\u00f5es, o que aumentou o risco de se meter num p\u00e2ntano sem sa\u00edda poss\u00edvel. Mas n\u00e3o se pode negar que, nesse \u00ednterim, a estrat\u00e9gia de Putin serviu muito bem aos objetivos estrat\u00e9gicos russos.<\/p>\n<h3><strong>\u00c1rabes anti-Assad fazem contato com Putin<\/strong><\/h3>\n<p>Entre outubro de 2015 e agosto de 2016, altos funcion\u00e1rios dos governos de Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos, Qatar, Bahrain e Turquia estiveram com Putin, em diferentes ocasi\u00f5es. O primeiro a aparecer foi o ministro da Defesa saudita, pr\u00edncipe Muhammad, filho do rei Salman. Encontraram-se na dacha do presidente russo em Sochi, no Mar Negro. A Ar\u00e1bia Saudita j\u00e1 havia financiado a compra, por encomenda feita pela CIA, de m\u00edsseis TOW antitanques, que aumentaram consideravelmente a capacidade da ofensiva dos rebeldes contra Assad no ver\u00e3o de 2015. No encontro, os dois concordaram que partilhavam o objetivo comum de impedir que \u201cum califato terrorista [ISIS] chegue a comandar os acontecimentos.\u201d Quando o ministro saudita de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Adel al-Jubeir, mencionou sua preocupa\u00e7\u00e3o com os grupos rebeldes que os russos estavam alvejando, Putin imediatamente ofereceu-se para partilhar informa\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia, que significaria futura coopera\u00e7\u00e3o entre os servi\u00e7os de seguran\u00e7a e militares dos dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Mais tarde, no mesmo dia, o xeque Mohammed bin Zayed al-Nahyan, vice-comandante das For\u00e7as Armadas dos Emirados \u00c1rabes Unidos, telefonou ao presidente Putin. \u201cPosso dizer que a R\u00fassia desempenha papel muito s\u00e9rio nos assuntos do Oriente M\u00e9dio\u201d, declarou al-Nahyan mais tarde, acrescentando: \u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que mantemos rela\u00e7\u00e3o privilegiada.\u201d<\/p>\n<p>O governante do Qatar, Emir Tamim bin Hamad al-Thani, deu um passo al\u00e9m depois de se reunir com Putin no Kremlin, em janeiro de 2016. \u201cA R\u00fassia,\u201d declarou, \u201cdesempenha papel protagonista no que tenha a ver com a estabilidade no mundo.\u201d Assim como a Jord\u00e2nia, o Qatar garantia \u00e0 CIA as bases de que carecia para treinamento e o armamento dos insurgentes anti-Assad. Um m\u00eas depois, mais uma alta autoridade do Golfo a visitar o presidente Putin em Sochi seria o rei Hamad bin Isa al-Khalifa do Bahrain, que hospeda a 5\u00aa Frota da Marinha dos EUA desde 1971. O rei presenteou o presidente russo com uma \u201cespada da vit\u00f3ria\u201d fundida em a\u00e7o damasceno. Depois das conversa\u00e7\u00f5es, o ministro russo das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Lavrov, informou que os dois pa\u00edses haviam decidido conjuntamente aprofundar os la\u00e7os econ\u00f4micos e militares que os ligam.<\/p>\n<p>Em agosto, o presidente Recep Tayyip Erdogan da Turquia viajou a S\u00e3o Petersburgo para encontrar \u201cmeu caro amigo\u201d Putin. As rela\u00e7\u00f5es entre eles haviam ca\u00eddo ao ponto mais frio de todos os tempos quando os turcos derrubaram um jato russo no norte da S\u00edria. Diferente de outros l\u00edderes ocidentais contudo, Putin telefonara diretamente a Erdogan para lhe dar parab\u00e9ns por ter derrotado uma tentativa de golpe em julho. \u201cSomos sempre categoricamente contra qualquer tipo de tentativa de atividade anticonstitucional\u201d \u2013 explicou. Depois de tr\u00eas horas de conversas, concordaram em reparar as danificadas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Numa virada surpreendente, Erdogan parou de insistir na sa\u00edda de Assad.<\/p>\n<p>Em resumo, gra\u00e7as a sua interven\u00e7\u00e3o militar limitada na S\u00edria, Putin ganhou ascend\u00eancia para opinar em decis\u00f5es que afetem o futuro do Oriente M\u00e9dio. Para satisfa\u00e7\u00e3o de Putin, conseguiu responder, em campo, contra o que Obama disse, quando Moscou reincorporou a Crimeia: \u201ca R\u00fassia \u00e9 pot\u00eancia regional que n\u00e3o defende os aliados e amea\u00e7a seus vizinhos mais pr\u00f3ximos, n\u00e3o devido \u00e0 sua for\u00e7a, mas \u00e0 sua fraqueza.\u201d<\/p>\n<p>Como b\u00f4nus extra, Putin ajudou a firmar sua popularidade dom\u00e9stica, alcan\u00e7ando espantosos 89% de aprova\u00e7\u00e3o logo depois dos eventos na Crimeia e no leste da Ucr\u00e2nia. Naquele momento, as san\u00e7\u00f5es dos EUA e Europa, combinadas com os baixos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, haviam levado a R\u00fassia a uma recess\u00e3o que faria a economia encolher 3,7% em 2015. Foi impressionante demonstra\u00e7\u00e3o de que, em pol\u00edtica interna, a percep\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds tenha de lideran\u00e7a forte consegue atropelar at\u00e9 as realidades econ\u00f4micas. Esse ano, a economia russa ainda encolher\u00e1 mais cerca de 1%. Mesmo assim, nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares recentes, o partido R\u00fassia Unida, de Putin, obteve 54% dos votos e 343 das 450 cadeiras da Duma, o parlamento nacional.<\/p>\n<h3><strong>Interesses geopol\u00edticos de chineses e russos convergem<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/102106832-492559195.530x298.jpg\" data-slb-active=\"1\" data-slb-asset=\"631300073\" data-slb-internal=\"0\" data-slb-group=\"438298\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-438318\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/102106832-492559195.530x298-485x273.jpg?resize=485%2C273\" alt=\"102106832-492559195-530x298\" width=\"485\" height=\"273\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em parte como resposta \u00e0s san\u00e7\u00f5es ocidentais, a R\u00fassia tem tamb\u00e9m estreitado seus la\u00e7os comerciais com a China. Em junho de 2016, Putin fez sua quarta viagem a Pequim desde mar\u00e7o de 2013, quando Xi Jinping tomou posse como presidente. Os dois l\u00edderes refor\u00e7aram a vis\u00e3o partilhada com vistas aos interesses geopol\u00edticos convergentes de seus pa\u00edses, e para com\u00e9rcio e investimentos.<\/p>\n<p>\u201cO presidente Putin e eu concordamos\u201d, disse Xi, \u201cem que, diante de circunst\u00e2ncias internacionais a cada dia mais complexas e sempre mut\u00e1veis, temos de persistir com ainda maior determina\u00e7\u00e3o em manter o esp\u00edrito da parceria estrat\u00e9gica sino-russa de 2001 e a coopera\u00e7\u00e3o.\u201d Sintetizando as rela\u00e7\u00f5es entre os dois vizinhos, Putin ofereceu sua avalia\u00e7\u00e3o: \u201cR\u00fassia e China t\u00eam pontos de vista muito pr\u00f3ximos um do outro, ou praticamente id\u00eanticos, na arena internacional.\u201d Como cofundadores da Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai em 1996, os dois pa\u00edses veem-se reciprocamente como pot\u00eancias eurasianas.<\/p>\n<p>Durante sua visita a Pequim em junho passado, Putin mencionou 58 acordos, no valor total de 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, que estavam sendo discutidos naquele momento pelos dois governos. A R\u00fassia tamb\u00e9m prepara-se para lan\u00e7ar b\u00f4nus soberanos denominados em yuan, para levantar US$ 1 bilh\u00e3o, e discute planos para ligar a rede nacional chinesa de pagamentos eletr\u00f4nicos ao seu pr\u00f3prio sistema de cart\u00f5es de cr\u00e9dito. Os dois vizinhos j\u00e1 s\u00e3o parceiros no acordo de US$ 400 bilh\u00f5es pelo qual a empresa russa de energia Gazprom deve fornecer g\u00e1s natural \u00e0 China pelos pr\u00f3ximos 30 anos.<\/p>\n<p>Como exemplo da converg\u00eancia geopol\u00edtica sino-russa j\u00e1 em andamento, o vice-almirante Guan Youfei, chefe do Gabinete Chin\u00eas para Coopera\u00e7\u00e3o Militar Internacional, visitou recentemente a capital s\u00edria, Damasco. Ali se reuniu com o ministro da Defesa da S\u00edria Fahd, Jassem al-Freij, e manteve conversa\u00e7\u00f5es para assist\u00eancia de coordena\u00e7\u00e3o militar com o general russo encarregado da \u00e1rea na S\u00edria. Guan e al-Freij concordaram com expandir o treinamento e a ajuda humanit\u00e1ria chinesa, para conter o extremismo religioso.<\/p>\n<p>Durante a visita de Putin \u00e0 China, em junho, Xi falou a favor de estreitarem-se as rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o entre as respectivas ag\u00eancias de not\u00edcias, de modo que os dois pa\u00edses possam \u201caumentar a influ\u00eancia\u201d de suas m\u00eddias sobre a opini\u00e3o p\u00fablica mundial. Essas ag\u00eancias noticiosas j\u00e1 obtiveram avan\u00e7os significativos no fluxo global de comunica\u00e7\u00e3o. Na China, a Administra\u00e7\u00e3o Estatal de R\u00e1dio, Cinema e Televis\u00e3o iniciou seu projeto de \u201cexpandir-se para o exterior\u201d j\u00e1 em 2001, com a China Central Television. Em 2009, os setores de transmiss\u00e3o em idiomas estrangeiros j\u00e1 distribu\u00edam programas para todo o planeta \u2014 em \u00e1rabe, ingl\u00eas, franc\u00eas, russo e espanhol.<\/p>\n<p>Em 2006, Putin inaugurou a <em>Russia Today <\/em>(RT) como um bra\u00e7o da TV-Novosti, organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma sem finalidades de lucro, financiada pela ag\u00eancia de not\u00edcias da R\u00fassia, RIA Novosti, com or\u00e7amento de US$ 30 milh\u00f5es. Constituiu-a com mandato para expor o ponto de vista russo oficial sobre eventos internacionais. Desde ent\u00e3o, a RT International distribui boletins de not\u00edcias 24 horas por dia: document\u00e1rios, programas de entrevistas, debates, notici\u00e1rio esportivo e programa\u00e7\u00e3o cultural em 12 idiomas, dentre os quais ingl\u00eas, espanhol, hindi e turco. A RT America e a RT Reino Unido transmitem notici\u00e1rio de conte\u00fado local desde 2010 e 2014 respectivamente.<\/p>\n<p>Com or\u00e7amento anual de US$ 300 milh\u00f5es em 2013-2014, RT ainda fica atr\u00e1s do BBC World Service Group, com seus US$ 367 milh\u00f5es de or\u00e7amento e notici\u00e1rio em 36 idiomas. Durante uma visita aos modern\u00edssimos est\u00fadios da RT em Moscou em 2013, Putin conclamou os funcion\u00e1rios a \u201cromper o monop\u00f3lio anglo-sax\u00e3o sobre os fluxos globais de informa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<h3><strong>A China e a proje\u00e7\u00e3o global de poder<\/strong><\/h3>\n<p>Em 2010, o presidente Obama lan\u00e7ou sua estrat\u00e9gia de \u201cpiv\u00f4 para a \u00c1sia\u201d, concebida para conter o poder crescente da China. Em resposta, antes de completar seis meses na presid\u00eancia, Xi Jinping j\u00e1 revelava o primeiro esbo\u00e7o, j\u00e1 bastante elaborado, de seu ambicioso projeto \u201cUm Cintur\u00e3o, Uma Estrada\u201d, conhecido tamb\u00e9m como \u201cNovas Rotas da Seda\u201d. O projeto tinha j\u00e1 o objetivo de reordenar a configura\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da pol\u00edtica internacional, ao mesmo tempo em que promove a reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da Eur\u00e1sia. Domesticamente, visava equilibrar o excessivo peso que t\u00eam as \u00e1reas costeiras para a economia chinesa, e promover o desenvolvimento de regi\u00f5es ocidentais do interior. Visava tamb\u00e9m a unir China, Sudeste Asi\u00e1tico, Sul da \u00c1sia e \u00c1sia Central \u00e0 Europa, mediante vasta rede de ferrovias e dutos de energia (gasodutos e oleodutos). Em fevereiro de 2015, o primeiro trem cargueiro completou com sucesso a viagem de 26 mil quil\u00f4metros, de Yiwu no leste da China, at\u00e9 Madrid, Espanha, ida e volta \u2013 impressionante sinal de novos tempos j\u00e1 efetivamente em curso.<\/p>\n<p>Em 2014, para implementar seu projeto de \u201cNovas Rotas da Seda\u201d, Pequim estabeleceu o Fundo Rota da Seda, capitalizado com US$ 40 bilh\u00f5es. O objetivo era promover maiores investimentos nos pa\u00edses ao longo das v\u00e1rias rotas do projeto. Considerado o total das reservas chinesas no exterior \u2014 US$3,3\u00a0 trilh\u00f5es em 2015, contra US$ 1,9 trilh\u00e3o em 2008 \u2013 a quantia envolvida era at\u00e9 modesta; mas parece ser crucialmente importante para os planos grandiosos que a China construiu para o futuro, seu e do mundo.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2015, o governo chin\u00eas tamb\u00e9m estabeleceu o Banco Asi\u00e1tico de Investimento e Infraestrutura (BAII), em Pequim. Dois meses depois, ignorando as \u201cconclama\u00e7\u00f5es\u201d de Washington, a Gr\u00e3-Bretanha tornou-se a primeira grande na\u00e7\u00e3o ocidental a aderir, como membro fundador, ao BAII. Na sequ\u00eancia, Fran\u00e7a, Alemanha e It\u00e1lia tamb\u00e9m se associaram. Nenhuma dessas na\u00e7\u00f5es pode cometer a temeridade de ignorar o robusto crescimento econ\u00f4mico da China, a qual, dentre outras coisas, j\u00e1 \u00e9 a primeira na\u00e7\u00e3o do mundo em volume de com\u00e9rcio. Com exporta\u00e7\u00f5es e importa\u00e7\u00f5es que chegavam a US$ 3,87 trilh\u00f5es em 2012, ultrapassou os US$ 3,82 trilh\u00f5es dos EUA. Foi a primeira vez, em 60 anos, que os EUA apareceram em segundo lugar nesse ranking.<\/p>\n<p>A China \u00e9 agora a principal parceira comercial de 29 pa\u00edses, inclusive alguns dos dez integrantes da forte Associa\u00e7\u00e3o de Na\u00e7\u00f5es do Sudeste da \u00c1sia, (ASEAN, em ingl\u00eas). Isso explica por que a ASEAN n\u00e3o votou unanimemente a favor de apoiar as Filipinas, um estado-membro do grupo, quando a Corte Permanente de Arbitragem em Haia exarou senten\u00e7a em julho, contra os direitos que a China requeria sobre o Mar do Sul da China. Poucos dias depois, a China j\u00e1 anunciava manobras navais de dez dias, a serem realizadas naquelas \u00e1guas, em conjunta com os russos.<\/p>\n<p>Reflexo desse aumento no PIB, os gastos militares tamb\u00e9m cresceram na China. Segundo relat\u00f3rio anual do Pent\u00e1gono sobre as for\u00e7as armadas chinesas, o or\u00e7amento de defesa da China aumentou 9,8% ao ano desde 2006, chegando a US$ 180 bilh\u00f5es em 2015, ou 1,7% do PIB. Para efeito de compara\u00e7\u00e3o, o or\u00e7amento do Pent\u00e1gono em 2015, de US$ 585 bilh\u00f5es, devorava 3,2% do PIB dos EUA.<\/p>\n<p>Dos quatro bra\u00e7os de suas for\u00e7as armadas, o governo chin\u00eas tem focado, por \u00f3bvias raz\u00f5es, especialmente em expandir e melhorar a capacidade naval. Estudo da doutrina naval chinesa mostra que est\u00e1 seguindo o padr\u00e3o cl\u00e1ssico j\u00e1 seguido por EUA, Alemanha e Jap\u00e3o no final do s\u00e9culo 19, na busca para alcan\u00e7arem status de pot\u00eancias globais. Primeiro, foco na defesa das costas litor\u00e2neas do pr\u00f3prio pa\u00eds; segundo, garantir a seguran\u00e7a das \u00e1guas territoriais e de navega\u00e7\u00e3o; e terceiro, proteger as rotas mar\u00edtimas que a China usa para seus interesses comerciais. Para Pequim, \u00e9 crucial proteger eficientemente as rotas mar\u00edtimas usadas para trazer o petr\u00f3leo do Golfo P\u00e9rsico at\u00e9 os portos do sul da China.<\/p>\n<p>O objetivo final, e quarto est\u00e1gio desse processo, para qualquer na\u00e7\u00e3o que aspire o grau de pot\u00eancia mundial \u00e9, claro, projetar o pr\u00f3prio poder para terras distantes. No momento, chegada j\u00e1 ao terceiro est\u00e1gio, a China implanta as funda\u00e7\u00f5es de seu objetivo seguinte com um projeto de Rota Mar\u00edtima da Seda, que envolve construir portos em Burma, Bangladesh, Sri Lanka e Paquist\u00e3o.<\/p>\n<p>O objetivo de m\u00e9dio prazo da Marinha chinesa \u00e9 p\u00f4r fim ao monop\u00f3lio que sempre foi dos EUA no Oceano Pac\u00edfico. Com esse objetivo, est\u00e1 rapidamente ampliando a frota de submarinos. Ao mesmo tempo, e sinal do que est\u00e1 por vir, a China j\u00e1 comprou (leasing por dez anos) uma \u00e1rea de 40 km\u00b2 em Djbouti, no Chifre da \u00c1frica, para construir seu primeiro posto militar fora do territ\u00f3rio chin\u00eas. Mais uma vez em condi\u00e7\u00e3o bem diferentes dos EUA, que, segundo o mais recente Base Structure Report, mant\u00eam bases em 74 pa\u00edses. A Fran\u00e7a est\u00e1 em dez; a Gr\u00e3-Bretanha, em sete. Obviamente, a China tem longo caminho a percorrer, se quiser alcan\u00e7\u00e1-las.<\/p>\n<h3><strong>Objetivos realistas da China e R\u00fassia<\/strong><\/h3>\n<p>Nesse momento, os l\u00edderes chineses n\u00e3o parecem antever que seu pa\u00eds possa desafiar os EUA pela hegemonia mundial, no m\u00ednimo nas d\u00e9cadas vindouras. H\u00e1 dez anos, a Academia de Ci\u00eancias Sociais da China, o mais prestigioso centro de pensamento e projetos do pa\u00eds, ofereceu o conceito de \u201cpoder nacional global\u201d, formulado como um n\u00famero cuidadosamente definido e finamente calculado, numa escala de 100. Em 2015, os n\u00fameros eram: EUA = 91,68; China = 33,92; e R\u00fassia = 30,48.<\/p>\n<p>Com 35,12, o Jap\u00e3o era o segundo da lista. Com 12,97, a \u00cdndia aparecia em 10\u00ba lugar, o que n\u00e3o impediu o primeiro-ministro Narendra Modi de declarar que seu pa\u00eds entrara na \u201cera da aspira\u00e7\u00e3o\u201d, e que a por\u00e7\u00e3o final do s\u00e9culo 21 pertencer\u00e1 \u00e0 \u00cdndia. Para muitos realistas, o plano de Modi permanece no campo da fantasia, mas ajuda a lembrar que as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas conhecer\u00e3o r\u00e1pida escalada na dire\u00e7\u00e3o da multipolaridade. (No que tenha a ver com poder de proje\u00e7\u00e3o no longo prazo, a \u00cdndia at\u00e9 agora s\u00f3 come\u00e7ou a construir uma rede de radar nas ilhas Mauritius, nas Seychelles, nas Maldivas e no Sri Lanka no Oceano \u00cdndico, para n\u00e3o perder de vista os navios mercantes e de guerra da China.)<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio global antevisto pelos presidentes de China e R\u00fassia, que sempre mant\u00eam os p\u00e9s firmemente plantados na realidade, parece assemelhar-se ao tipo de equil\u00edbrio de poder que existia na Europa um s\u00e9culo depois da derrota de Napole\u00e3o em 1815. Na sequ\u00eancia daquele ano fat\u00eddico, os monarcas de Gr\u00e3-Bretanha, \u00c1ustria, R\u00fassia e Pr\u00fassia decidiram que nenhum pa\u00eds europeu voltaria algum dia a ser t\u00e3o poderoso quanto a Fran\u00e7a chegara a ser sob Napole\u00e3o. O resultante Concerto Europeu ent\u00e3o firmado durou de 1815 at\u00e9 a eclos\u00e3o da 1\u00aa Guerra Mundial, em 1914.<\/p>\n<p>China e R\u00fassia cuidam agora de garantir que Washington n\u00e3o possa mais exercer irrestrito poder global, como exerceu entre 1992 e o ver\u00e3o de 2008. No in\u00edcio de agosto de 2008, sobrecarregado com os crescentes desafios que lhe vinham do Afeganist\u00e3o e da ocupa\u00e7\u00e3o militar no Iraque, o governo Bush limitou-se a condena\u00e7\u00f5es verbais da a\u00e7\u00e3o militar dos russos para reverter os ganhos do presidente pr\u00f3-ocidente da Ge\u00f3rgia, Mikheil Saakashvili, que realizara ataque n\u00e3o provocado na regi\u00e3o separatista da Oss\u00e9tia do Sul.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 um epis\u00f3dio que deve ser visto como marco \u2014 cujo significado poucos perceberam \u2014 do fim de um planeta unipolar, em que o poder dos EUA reinou praticamente sem limites. A ser bem isso, sejam bem-vindos, todos, ao nono ano de vida de um novo mundo multipolar.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"HSipgB84BZ\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/a-farra-acabou-tio-sam\/\">&quot;Fim da farra, Tio Sam!&quot;<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;&quot;Fim da farra, Tio Sam!&quot;&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/a-farra-acabou-tio-sam\/embed\/#?secret=kPvSJIkTpE#?secret=HSipgB84BZ\" data-secret=\"HSipgB84BZ\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dilip Hiro\u00a0&#8211;\u00a0Sinais de um tremor na geopol\u00edtica global. 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