{"id":19850,"date":"2023-09-15T12:11:19","date_gmt":"2023-09-15T15:11:19","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19850"},"modified":"2023-09-11T20:17:01","modified_gmt":"2023-09-11T23:17:01","slug":"julho-foi-o-mes-mais-quente-da-historia-recente-e-quebrou-recordes-de-temperaturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/09\/15\/julho-foi-o-mes-mais-quente-da-historia-recente-e-quebrou-recordes-de-temperaturas\/","title":{"rendered":"Julho foi o m\u00eas mais quente da hist\u00f3ria recente e quebrou recordes de temperaturas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marcos Pivetta<\/strong> &#8211; Sem freio, aquecimento global provoca inc\u00eandios florestais no ver\u00e3o do hemisf\u00e9rio Norte e ameniza o inverno abaixo da linha do Equador.<\/p>\n<p>Um dado climatol\u00f3gico costuma passar despercebido pelos habitantes do hemisf\u00e9rio Sul, que correspondem a cerca de 12% da popula\u00e7\u00e3o global de 8 bilh\u00f5es de pessoas: julho, em pleno inverno abaixo do Equador, \u00e9 usualmente o m\u00eas mais quente da Terra. A explica\u00e7\u00e3o para essa ocorr\u00eancia se deve \u00e0s caracter\u00edsticas geoclim\u00e1ticas das duas metades do planeta. Por ter menos superf\u00edcie oce\u00e2nica e o dobro de \u00e1rea continental em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 parte abaixo da linha do Equador, o hemisf\u00e9rio Norte, que est\u00e1 no ver\u00e3o em meados do ano, tem um peso maior na determina\u00e7\u00e3o da temperatura m\u00e9dia do planeta. A \u00e1gua \u00e9 um elemento moderador do clima, que atenua os extremos de calor. Por isso, quando o ver\u00e3o no hemisf\u00e9rio Norte \u00e9 muito quente, como tem ocorrido nos \u00faltimos anos, a temperatura global sobe.<\/p>\n<p>Julho de 2023 confirmou essa tend\u00eancia com uma intensidade sem precedentes e assustadora. Turbinado pelo crescente aquecimento global causado pelo aumento nas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, o s\u00e9timo m\u00eas deste ano bateu v\u00e1rios recordes hist\u00f3ricos de temperatura, causou inc\u00eandios florestais e provocou mortes, sobretudo no hemisf\u00e9rio Norte. Por ora, o epis\u00f3dio mais grave desta temporada escaldante ocorreu no in\u00edcio de agosto na ilha de Maui, no Hava\u00ed. Ali, uma combina\u00e7\u00e3o fatal de tempo quente e seco e ventos fortes espalhou as chamas originadas na vegeta\u00e7\u00e3o para zonas residenciais e matou mais de 110 pessoas. Os preju\u00edzos materiais s\u00e3o calculados em US$ 5,5 bilh\u00f5es e 1.300 pessoas ainda n\u00e3o tinham sido encontradas quando esta reportagem foi escrita.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros finais relativos \u00e0 temperatura global m\u00e9dia de julho de 2023 variaram por alguns d\u00e9cimos, de acordo com a s\u00e9rie hist\u00f3rica e a metodologia de monitoramento adotadas por tr\u00eas grandes servi\u00e7os que acompanham o clima terrestre. Todos foram convergentes. Em julho, a atmosfera do planeta registrou, em m\u00e9dia, temperaturas na casa dos 17 graus Celsius (\u00baC).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-olho-1-2023-09-site-500.jpg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-490951 vertical alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-olho-1-2023-09-site-500.jpg?resize=596%2C715&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-olho-1-2023-09-site-500.jpg 500w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-olho-1-2023-09-site-500-250x300.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-olho-1-2023-09-site-500-120x144.jpg 120w, \" alt=\"\" width=\"596\" height=\"715\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Servi\u00e7o de Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica Copernicus (C3S), da Uni\u00e3o Europeia, divulgou que a temperatura m\u00e9dia global de julho de 2023 foi de 16,95 \u00b0C, a maior observada em qualquer m\u00eas desde o in\u00edcio de sua s\u00e9rie hist\u00f3rica, em 1940. O recorde anterior era julho de 2019, com 16,63\u2009\u00b0C. Dados da Administra\u00e7\u00e3o Nacional Oce\u00e2nica e Atmosf\u00e9rica (Noaa), dos Estados Unidos, indicaram que julho de 2023 foi o julho mais t\u00f3rrido dos \u00faltimos 174 anos, com temperatura m\u00e9dia de 16,92\u2009\u00baC. Foi tamb\u00e9m provavelmente o m\u00eas mais quente da hist\u00f3ria moderna. \u201cJulho deste ano foi muito mais quente do que qualquer julho precedente e do que qualquer m\u00eas em nosso registro, que retrocede a 1880\u201d, disse, em comunicado de imprensa, o climatologista Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais (Giss), da ag\u00eancia espacial norte-americana (Nasa), outra institui\u00e7\u00e3o que monitora o clima global.<\/p>\n<p>Mesmo no hemisf\u00e9rio Sul, o calor recente bateu recordes e tornou o inverno atual mais ameno, uma tend\u00eancia que se observa h\u00e1 anos. Em 1\u00ba de agosto, a temperatura m\u00e1xima em Buenos Aires passou dos 30\u2009\u00baC e foi a maior registrada nesse dia nos \u00faltimos 117 anos, quando o Servi\u00e7o Meteorol\u00f3gico Nacional (SMN) passou a colher sistematicamente esse tipo de dado. No norte do Chile, as m\u00e1ximas chegaram a 37\u2009\u00baC, cerca de 15\u2009\u00baC acima dos valores normais para essa \u00e9poca, normalmente a mais fria do ano.<\/p>\n<p>Com temperatura m\u00e9dia de 22,97 \u00b0C, julho deste ano foi o julho mais quente registrado no Brasil desde 1961, quando o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) come\u00e7ou a realizar medi\u00e7\u00f5es regulares em diversas partes do pa\u00eds. A marca foi 0,2 \u00b0C maior do que o recorde anterior \u2013 de 22,77 \u00b0C, medido em julho de 2022 \u2013 e 1,04 \u00b0C acima da m\u00e9dia hist\u00f3rica do m\u00eas. A temperatura m\u00e9dia do Brasil \u00e9 calculada a partir dos valores registrados por mais de 650 esta\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas do Inmet espalhadas pelo territ\u00f3rio nacional. As esta\u00e7\u00f5es autom\u00e1ticas captam a temperatura de hora em hora e as convencionais tr\u00eas vezes ao dia.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-490366 \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-china-julho-2023-09-site-1140.jpg?resize=640%2C354&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-china-julho-2023-09-site-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-china-julho-2023-09-site-1140-250x138.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-china-julho-2023-09-site-1140-700x387.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-china-julho-2023-09-site-1140-120x66.jpg 120w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"354\" \/><\/p>\n<p><em>A China registrou 52,2 \u00baC em julho, sua maior temperatura<\/em><\/p>\n<p>\u201cUm conjunto de fatores contribuiu para a eleva\u00e7\u00e3o das temperaturas, desde mudan\u00e7as no uso do solo, como a diminui\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes e o aumento das \u00e1reas urbanizadas, at\u00e9 a presen\u00e7a do El Ni\u00f1o neste ano [aquecimento anormal das \u00e1guas superficiais do centro-leste do Pac\u00edfico Equatorial que tende a alterar o regime de chuvas e o padr\u00e3o de temperatura em v\u00e1rias partes do globo]\u201d, comenta a meteorologista Danielle Barros Ferreira, do Inmet. \u201cMas, nos \u00faltimos 10 anos, o papel das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no aquecimento terrestre \u00e9 ineg\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise divulgada no fim de agosto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indica que a atual temperatura m\u00e1xima na maior parte do Brasil j\u00e1 \u00e9 1,5 \u00b0C acima da m\u00e9dia hist\u00f3rica registrada entre 1960 e 2020. Em alguns pontos do interior do Nordeste e no noroeste da Amaz\u00f4nia, o aquecimento chega a 2,5 e 3 \u00b0C. Na Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, o aumento tamb\u00e9m \u00e9 dessa ordem. \u201cEm n\u00edvel regional, o aquecimento \u00e9 por vezes muito maior do que a m\u00e9dia global. Isso ocorre n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas em v\u00e1rias partes do mundo\u201d, diz o climatologista Lincoln Muniz Alves, do Inpe, coordenador do estudo.<\/p>\n<p>Segundo as contas do servi\u00e7o Copernicus, o novo recorde de calor indica que, durante praticamente todo julho deste ano, a temperatura m\u00e9dia global esteve cerca de 1,5 \u00baC acima do valor m\u00e9dio entre 1850 e 1900. O per\u00edodo entre meados e final do s\u00e9culo XIX serve como base para calcular quanto o mundo esquentou desde o in\u00edcio da chamada Segunda Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Firmado em dezembro de 2015 no \u00e2mbito da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) por 195 pa\u00edses, o Acordo de Paris tem como meta principal estimular a\u00e7\u00f5es com o intuito de limitar o aumento do aquecimento global \u2013 ou seja, a eleva\u00e7\u00e3o atual da temperatura m\u00e9dia da atmosfera em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel da era pr\u00e9-industrial \u2013 a menos de 2 \u00baC, preferencialmente menos de 1,5 \u00baC.<\/p>\n<p>Cada eleva\u00e7\u00e3o de 0,5 \u00baC na temperatura m\u00e9dia do planeta repercute de forma n\u00e3o linear na frequ\u00eancia e intensidade de ondas de calor e de epis\u00f3dios de seca ou chuvas exacerbadas. O aumento parece pequeno, mas \u00e9 o suficiente para, \u00e0s vezes, dobrar ou triplicar a ocorr\u00eancia ou intensidade de um fen\u00f4meno clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>Em tese, o teto de 1,5 \u00baC de aumento n\u00e3o seria ainda t\u00e3o prejudicial para o planeta e deixaria alguma margem de manobra para adotar medidas de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 crise clim\u00e1tica. No entanto, o objetivo parece cada vez mais distante. As emiss\u00f5es de gases de efeito estufa decorrentes da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e de mudan\u00e7as de uso do solo, como o di\u00f3xido de carbono (CO\u2082) e o metano (CH\u2084), ca\u00edram levemente apenas durante o auge da pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2021, mas logo voltaram a crescer (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/aquecimento-global-pode-chegar-a-15-oc-em-nove-anos\/\" rel=\"noopener\"><em>ver\u00a0<\/em>Pesquisa FAPESP\u00a0<em>n\u00ba 323<\/em><\/a>).<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-490390 \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-sao-paulo-skate-2023-09-site-1140.jpg?resize=554%2C306&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-sao-paulo-skate-2023-09-site-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-sao-paulo-skate-2023-09-site-1140-250x138.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-sao-paulo-skate-2023-09-site-1140-700x387.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-sao-paulo-skate-2023-09-site-1140-120x66.jpg 120w, \" alt=\"\" width=\"554\" height=\"306\" \/><br \/>\n<em>O inverno no hemisf\u00e9rio Sul (como na imagem da capital paulista) foi bastante ameno<\/em><\/p>\n<p>\u201cDificilmente conseguiremos manter o aquecimento global em 1,5 \u00baC\u201d, comenta Jos\u00e9 Marengo, especialista em mudan\u00e7as e riscos clim\u00e1ticos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). \u201cMas isso n\u00e3o pode ser usado como desculpa para n\u00e3o adotarmos a\u00e7\u00f5es imediatas que reduzam a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa.\u201d Ao olhar os mapas da Noaa que mostravam as varia\u00e7\u00f5es de temperatura em todo o globo em julho deste ano, o climatologista teve uma surpresa. Eles se pareciam muito com os mapas divulgados nos \u00faltimos relat\u00f3rios do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) com previs\u00f5es sombrias para o pior cen\u00e1rio de aquecimento global em meados deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Os modelos clim\u00e1ticos atuais s\u00e3o mais eficientes em prever oscila\u00e7\u00f5es t\u00e9rmicas e ondas de calor do que varia\u00e7\u00f5es de chuvas em diferentes partes do globo. A forma\u00e7\u00e3o de nuvens de pluviosidade \u00e9 um processo complexo, muito mais complicado de ser simulado virtualmente do que o sobe e desce dos term\u00f4metros. Muitos estudos sinalizam essa limita\u00e7\u00e3o, como um artigo publicado por Marengo e colaboradores no\u00a0<em>International Journal of Climatology\u00a0<\/em>em abril de 2022. No trabalho, eles compararam a efic\u00e1cia de 31 modelos clim\u00e1ticos em reproduzir varia\u00e7\u00f5es de chuva e de temperatura j\u00e1 ocorridas na Am\u00e9rica do Sul e o grau de converg\u00eancia de suas proje\u00e7\u00f5es futuras para esses dois par\u00e2metros. Os resultados foram mais consistentes para emular a din\u00e2mica da temperatura do que da chuva.<\/p>\n<div><picture><source srcset=\"\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/rpf-calor-2023-08-info-2-640-1.png\" media=\"(min-width: 1920px)\" \/><source srcset=\"\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/rpf-calor-2023-08-info-2-640-1.png\" media=\"(min-width: 1140px)\" \/><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"responsive-img\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/rpf-calor-2023-08-info-2-760.png?w=640&#038;ssl=1\" \/>\u00a0<\/picture><span class=\"embed media-credits-inline\">Alexandre Affonso \/ Revista Pesquisa FAPESP<\/span><\/div>\n<p>A atual onda de calor promoveu a quebra de v\u00e1rios recordes em diferentes partes do globo. Em 16 de julho, a temperatura m\u00e1xima na China chegou a 52,2 \u00b0C, temperatura nunca medida no pa\u00eds. Segundo dados do servi\u00e7o Copernicus, 31 de julho de 2023 foi o dia mais quente registrado no planeta desde 1940. Nessa data, a temperatura m\u00e9dia global atingiu 20,96 \u00baC. A Noaa destacou que julho de 2023 foi tamb\u00e9m o m\u00eas com temperaturas mais elevadas em tr\u00eas continentes: \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica do Sul (na do Norte foi o segundo m\u00eas mais quente).<\/p>\n<p>N\u00e3o houve refresco nem no mar. Em julho, a extens\u00e3o da cobertura de gelo sobre a Ant\u00e1rtida exibiu uma retra\u00e7\u00e3o de 17%, um recuo sem precedentes, e, pelo quarto m\u00eas consecutivo de 2023, a temperatura m\u00e9dia sobre a superf\u00edcie dos oceanos foi recorde. Esteve 0,99 \u00b0C acima da m\u00e9dia hist\u00f3rica, de acordo com a Noaa. No Atl\u00e2ntico Norte, est\u00e3o ocorrendo neste ano ondas de calor marinho que colocam em risco a vida aqu\u00e1tica. \u201cH\u00e1 previs\u00f5es de 100% de branqueamento [processo de perda da cor] dos corais do Caribe at\u00e9 o fim do ver\u00e3o boreal, o que pode causar mortalidade em massa\u201d, comenta a ocean\u00f3grafa Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). \u201cCom o aquecimento global, as ondas marinhas de calor ficaram mais frequentes, intensas e longas.\u201d<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-490370 \" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-gelo-antartida-2023-09-site-1140.jpg?resize=640%2C353&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-gelo-antartida-2023-09-site-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-gelo-antartida-2023-09-site-1140-250x138.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-gelo-antartida-2023-09-site-1140-700x387.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RPF-calor-gelo-antartida-2023-09-site-1140-120x66.jpg 120w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"353\" \/><\/p>\n<p><em>A extens\u00e3o da cobertura de gelo na Ant\u00e1rtida foi em julho 17% menor do que a m\u00e9dia hist\u00f3rica<\/em><\/p>\n<p>Rodrigues estuda os impactos dos oceanos sobre o clima, em especial na Am\u00e9rica do Sul. Al\u00e9m do El Ni\u00f1o, que aquece o centro-leste do Pac\u00edfico Equatorial e altera o padr\u00e3o de chuvas e temperatura, a Corrente de Revolvimento Meridional do Atl\u00e2ntico (Amoc) \u00e9 um dos temas mais frequentes de seus trabalhos. Essa corrente leva \u00e1gua morna e superficial da parte meridional desse oceano, da Ant\u00e1rtida, para o hemisf\u00e9rio Norte e traz do \u00c1rtico \u00e1guas mais frias e profundas para o sul. H\u00e1 ind\u00edcios de que o aquecimento global levar\u00e1 \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da Amoc, talvez at\u00e9 ao seu colapso, daqui a algumas d\u00e9cadas. As consequ\u00eancias do decl\u00ednio da corrente poderiam bagun\u00e7ar ainda mais o clima global.<\/p>\n<p>O contexto global em que ocorreram as quebras de recordes de temperatura em julho passado \u00e9 preocupante. Nada indica que esse fen\u00f4meno seja passageiro ou tenha sido um caso isolado. Ao contr\u00e1rio. Os 10 anos mais quentes da hist\u00f3ria recente ocorreram de 2010 para c\u00e1. O ano de 2016, que marca o final do El Ni\u00f1o mais forte j\u00e1 registrado, \u00e9 o de temperaturas mais altas de acordo com a maioria dos levantamentos dos servi\u00e7os clim\u00e1ticos. Os cientistas da Noaa estimam que 2023 tem 50% de chance de se tornar o ano mais quente j\u00e1 registrado.<\/p>\n<p>\u201cO El Ni\u00f1o est\u00e1 apenas come\u00e7ando e \u00e9 pouco prov\u00e1vel que ele j\u00e1 tenha influenciado de forma significativa as atuais altas nas temperaturas globais\u201d, comenta o climatologista Carlos Nobre, pesquisador s\u00eanior do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da Universidade de S\u00e3o Paulo (IEA-USP). Os maiores impactos do fen\u00f4meno, que tem pelo menos 80% de chance de ser de intensidade entre moderada e forte, devem ocorrer no final do ano (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/el-nino-tem-80-de-chance-de-ser-de-intensidade-entre-moderada-e-forte\/\" rel=\"noopener\"><em>ver<\/em>\u00a0Pesquisa FAPESP\u00a0<em>n\u00ba 330<\/em><\/a>). At\u00e9 mar\u00e7o deste ano, as \u00e1guas do centro-leste do Pac\u00edfico Equatorial estavam mais frias do que o normal, sob influ\u00eancia do La Ni\u00f1a, fen\u00f4meno de caracter\u00edsticas inversas \u00e0s do El Ni\u00f1o. \u201cForam tr\u00eas anos de La Ni\u00f1a, o mais longo que j\u00e1 se viu\u201d, diz Nobre. Em tese, o resfriamento dessa parte do Pac\u00edfico Equatorial deveria amenizar a intensidade do aquecimento global. Talvez at\u00e9 tenha, mas n\u00e3o foi o suficiente para retirar os \u00faltimos tr\u00eas anos da lista dos 10 mais quentes da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>No final de julho passado, quando j\u00e1 era quase inevit\u00e1vel que o m\u00eas terminasse como o mais t\u00f3rrido da hist\u00f3ria recente, Ant\u00f3nio Guterres, ex-primeiro-ministro de Portugal e atual secret\u00e1rio-geral da ONU, sentenciou, talvez com uma ponta de exagero. \u201cA era do aquecimento global terminou; a era da fervura chegou. Tudo \u00e9 consistente com as previs\u00f5es e os avisos repetidos. A \u00fanica surpresa \u00e9 a velocidade da mudan\u00e7a. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 aqui. \u00c9 terr\u00edvel, e \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o.\u201d A sa\u00edda? Cortar de forma dr\u00e1stica e profunda as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e adotar formas de mitigar os impactos de um clima mais quente.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Julho foi o m\u00eas mais quente da hist\u00f3ria recente e quebrou recordes de temperaturas : Revista Pesquisa Fapesp &#8211; https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/julho-foi-o-mes-mais-quente-da-historia-recente-e-quebrou-recordes-de-temperaturas\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcos Pivetta &#8211; Sem freio, aquecimento global provoca inc\u00eandios florestais no ver\u00e3o do hemisf\u00e9rio Norte e ameniza o inverno abaixo da linha do Equador. 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