{"id":19813,"date":"2023-09-04T12:40:36","date_gmt":"2023-09-04T15:40:36","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19813"},"modified":"2023-09-03T18:45:30","modified_gmt":"2023-09-03T21:45:30","slug":"a-radicalidade-da-utopia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/09\/04\/a-radicalidade-da-utopia\/","title":{"rendered":"A Radicalidade da Utopia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jean Baudrillard<\/strong> &#8211; N\u00e3o h\u00e1 poss\u00edvel ou imposs\u00edvel. A utopia est\u00e1 l\u00e1, em todas as energias levantadas contra a economia pol\u00edtica.<\/p>\n<blockquote><p>Este texto \u00e9 a se\u00e7\u00e3o final do livro <em>Le miroir de la production: ou l\u2019illusion critique du mat\u00e9rialisme historique,<\/em>\u00a0quarto livro de Baudrillard, publicado em 1973. Hoje, o nome de Jean Baudrillard \u00e9 mais associado a provocativas e abstratas teorias \u201cp\u00f3s-modernas\u201d, mas em seus quatro primeiros livros \u2013 dos quais\u00a0<em>Le Miroir<\/em>\u00a0foi o \u00fanico a n\u00e3o ser publicado no Brasil \u2013 ele empreende uma acurada an\u00e1lise da sociedade capitalista contempor\u00e2nea, com alto teor cr\u00edtico e revolucion\u00e1rio, que infelizmente perderia lugar em suas obras posteriores ao desencantamento e ao niilismo. Baudrillard nunca escondeu a forte influ\u00eancia que recebeu dos situacionistas (ele mesmo foi professor assistente de Henri Lefebvre), n\u00edtida nas suas primeiras obras e na revista\u00a0<em>Utopie<\/em>, da qual participou at\u00e9 in\u00edcio dos anos 70. Pode-se dizer que na sua fase situacionista e revolucion\u00e1ria, Baudrillard conseguiu ir al\u00e9m deles teoricamente, e certamente construiu uma das melhores an\u00e1lises da sociedade capitalista contempor\u00e2nea em\u00a0<em>A Sociedade de Consumo<\/em>,\u00a0<em>Para Uma Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica do Signo<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Le Miroir de la production<\/em>. Evidentemente, o excerto aqui apresentando \u00e9 melhor compreendido dentro do conjunto dessas tr\u00eas obras.<\/p><\/blockquote>\n<p>De fato, Marx tem raz\u00e3o. Raz\u00e3o \u201cobjetivamente\u201d. Mas essa raz\u00e3o e essa objetividade s\u00e3o alcan\u00e7adas, como toda ci\u00eancia, ao pre\u00e7o do\u00a0<em>mau-conhecimento<\/em>, \u2013 mau-conhecimento da utopia radical contempor\u00e2nea do\u00a0<em>Manifesto<\/em>\u00a0e do\u00a0<em>Capital<\/em>. Pode-se tranq\u00fcilamente dizer que Marx \u201cobjetivamente\u201d teorizou as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas, a luta de classes, o movimento da hist\u00f3ria, etc. A convuls\u00e3o de uma ordem social, sua subvers\u00e3o imediata, a palavra de vida e de morte, libertadora no pr\u00f3prio instante, Marx a \u201cobjetivou\u201d em uma revolu\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica de longo prazo, em uma finalidade em espiral que n\u00e3o \u00e9 mais que uma rosca sem fim da economia pol\u00edtica<strong>[1]<\/strong>.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-149701 c008 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Title_page_for_Mores_Utopia_by_Hans_Holbein.svg_.png?resize=640%2C954&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Title_page_for_Mores_Utopia_by_Hans_Holbein.svg_.png 402w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Title_page_for_Mores_Utopia_by_Hans_Holbein.svg_-201x300.png 201w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Title_page_for_Mores_Utopia_by_Hans_Holbein.svg_-282x420.png 282w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"954\" \/><\/p>\n<p>A poesia maldita, a arte n\u00e3o oficial, o escrito ut\u00f3pico, dando um conte\u00fado presente, imediato, \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o do homem, deveriam ser a pr\u00f3pria palavra do comunismo, sua profecia direta. Eles s\u00e3o apenas sua m\u00e1 consci\u00eancia, exatamente porque neles alguma coisa do homem \u00e9\u00a0<em>imediatamente<\/em>\u00a0realizada, porque objetam sem piedade essa dimens\u00e3o \u201cpol\u00edtica\u201d da revolu\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 mais que a dimens\u00e3o do seu adiamento final. Eles s\u00e3o o equivalente no discurso a esses movimentos sociais selvagens, que nascem de uma situa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de ruptura (simb\u00f3lica, isto \u00e9, n\u00e3o universalizada, n\u00e3o dialetizada, n\u00e3o racionalizada no espelho de uma hist\u00f3ria objetiva imagin\u00e1ria). \u00c9 por isso que a poesia (n\u00e3o a \u201cArte\u201d) no fundo sempre esteve ligada aos movimentos de utopia social, de \u201cromantismo revolucion\u00e1rio\u201d, e jamais ao marxismo enquanto tal. \u00c9 que no fundo o conte\u00fado do homem libertado tem menos import\u00e2ncia do que a aboli\u00e7\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o entre o presente e o futuro. A aboli\u00e7\u00e3o dessa forma de tempo, dimens\u00e3o da sublima\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que n\u00e3o perdoam os idealistas da dial\u00e9tica, que s\u00e3o ao mesmo tempo os realistas da pol\u00edtica \u2013 para eles a revolu\u00e7\u00e3o deve se destilar na hist\u00f3ria, ela deve vir a prazo, deve amadurecer ao sol das contradi\u00e7\u00f5es \u2013 aqui, imediatamente, ela \u00e9 impens\u00e1vel, ela \u00e9\u00a0<em>insuport\u00e1vel<\/em>. O que a poesia e a revolta ut\u00f3pica t\u00eam em comum \u00e9 essa instantaneidade radical, essa contesta\u00e7\u00e3o das finalidades, essa imediaticidade do desejo, n\u00e3o mais exorcizado em uma liberta\u00e7\u00e3o futura, mas exigido aqui, agora, na sua puls\u00e3o de morte tamb\u00e9m, na radical contabilidade da vida e da morte. Tal \u00e9 o gozo, tal \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o tem nada a ver com as presta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-149699 c008 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Hans-Holbein-le-Jeune-La-Revelation-de-saint-Jean-dans-Le-Nouveau-Testament-Bale-1523.png?resize=640%2C1041&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Hans-Holbein-le-Jeune-La-Revelation-de-saint-Jean-dans-Le-Nouveau-Testament-Bale-1523.png 411w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Hans-Holbein-le-Jeune-La-Revelation-de-saint-Jean-dans-Le-Nouveau-Testament-Bale-1523-185x300.png 185w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Hans-Holbein-le-Jeune-La-Revelation-de-saint-Jean-dans-Le-Nouveau-Testament-Bale-1523-258x420.png 258w, \" alt=\"\" width=\"640\" height=\"1041\" \/><\/p>\n<p>Contrariamente \u00e0 an\u00e1lise marxista que coloca o homem como despossu\u00eddo, como alienado, e o relaciona a um homem total, a um Outro total, que \u00e9 a Raz\u00e3o futura (ut\u00f3pica, esta, no mau sentido do termo), que destina o homem a um projeto de totaliza\u00e7\u00e3o, a\u00a0<em>utopia<\/em>, ela,\u00a0<em>n\u00e3o conhece o conceito de aliena\u00e7\u00e3o<\/em>: ela concebe que todo homem, toda sociedade est\u00e1 inteira j\u00e1 aqui, a cada momento social, na sua exig\u00eancia simb\u00f3lica. O marxismo nunca analisa a revolta, ou o pr\u00f3prio movimento da sociedade, a n\u00e3o ser\u00a0<em>em filigrana da revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, como uma realidade em via de matura\u00e7\u00e3o. Racismo da perfei\u00e7\u00e3o, do estado acabado da raz\u00e3o, que reenvia todo o resto \u00e0 insignific\u00e2ncia das coisas ultrapassadas<strong>[2]<\/strong>. \u00c9 a\u00ed que o marxismo permanece profundamente uma filosofia, por tudo que permanece nele, mesmo no estado \u201ccient\u00edfico\u201d, pretensamente como aliena\u00e7\u00e3o. Atr\u00e1s do pensamento \u201ccr\u00edtico\u201d, em termos de \u201caliena\u00e7\u00e3o\u201d, est\u00e1 sempre uma ess\u00eancia total, que assombra uma exist\u00eancia dividida. Ora, essa metaf\u00edsica da totalidade n\u00e3o se op\u00f5e de modo algum \u00e0 realidade imediata da divis\u00e3o: ela faz sistema com ela. A perspectiva para o sujeito, ao fim da hist\u00f3ria, de reencontrar sua transpar\u00eancia, ou seu \u201cvalor de uso\u201d total, \u00e9 t\u00e3o religiosa quanto a reintegra\u00e7\u00e3o das ess\u00eancias. A \u201caliena\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 ainda o imagin\u00e1rio do sujeito, seja ele sujeito da hist\u00f3ria. O sujeito n\u00e3o tem que voltar a ser um homem total, n\u00e3o tem que se reencontrar, ele tem hoje \u00e9 que se perder. A totaliza\u00e7\u00e3o do sujeito \u00e9 ainda o fim do fim da economia pol\u00edtica da consci\u00eancia, selada pela identidade do sujeito como a economia pol\u00edtica o \u00e9 pelo princ\u00edpio da equival\u00eancia. \u00c9 aquela que deve ser abolida, no lugar de inculcar nos homens o fantasma de sua identidade perdida, de sua autonomia futura.<\/p>\n<p>Que absurdo pretender que os homens s\u00e3o \u201coutros\u201d, e de buscar os convencer que seu mais precioso desejo \u00e9 voltar a ser \u201celes mesmos\u201d! Cada homem est\u00e1 inteiro a cada instante. A sociedade, ela tamb\u00e9m, est\u00e1 inteira a cada instante. Courderoy<strong>[3]<\/strong>, os Ludditas, Rimbaud, os Communards, as pessoas das greves selvagens, aqueles de Maio de 68, n\u00e3o \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o que fala em filigrana, eles s\u00e3o a revolu\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o conceitos em tr\u00e2nsito. Sua palavra \u00e9 simb\u00f3lica, e n\u00e3o visa ess\u00eancia \u2013 \u00e9 uma palavra diante da hist\u00f3ria, diante da pol\u00edtica, diante da verdade, palavra diante da separa\u00e7\u00e3o e da totalidade futura \u2013 a \u00fanica que, falando o mundo como n\u00e3o separado, o revoluciona verdadeiramente.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-149698 c008 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/400px-Utopia.jpg?resize=610%2C915&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/400px-Utopia.jpg 400w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/400px-Utopia-200x300.jpg 200w, https:\/\/passapalavra.info\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/400px-Utopia-280x420.jpg 280w, \" alt=\"\" width=\"610\" height=\"915\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 poss\u00edvel ou imposs\u00edvel. A utopia est\u00e1 l\u00e1, em todas as energias levantadas contra a economia pol\u00edtica. Mas essa viol\u00eancia ut\u00f3pica n\u00e3o se acumula, ela se perde. Ela n\u00e3o busca se acumular, como o valor econ\u00f4mico, para abolir a morte. Ela n\u00e3o quer jamais o poder. Encerrar os \u201cexplorados\u201d na \u00fanica possibilidade hist\u00f3rica de tomar o poder \u00e9 a pior distor\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o que tem ocorrido. \u00c9 a\u00ed que se v\u00ea qu\u00e3o profundamente os axiomas da economia pol\u00edtica tem minado, investido, distorcido a perspectiva revolucion\u00e1ria. A utopia quer a palavra contra o poder, e contra o princ\u00edpio de realidade, que n\u00e3o \u00e9 mais que o fantasma do sistema e de sua reprodu\u00e7\u00e3o indefinida. Ela quer apenas a palavra, e para a\u00ed se perder.<\/p>\n<p><em>Traduzido por Leo Vinicius<\/em><\/p>\n<p><em>As ilustra\u00e7\u00f5es do artigo s\u00e3o de<\/em>\u00a0<em>Hans Holbein the Younger(1497-1543)<\/em><\/p>\n<h4><strong>Notas:<\/strong><\/h4>\n<p><strong>[1]<\/strong>\u00a0N\u00e3o \u00e9 verdade que Marx tenha \u201csuperado dialeticamente\u201d a utopia, conservando seu \u201cprojeto\u201d em um modelo \u201ccient\u00edfico\u201d de revolu\u00e7\u00e3o. Marx escreveu a Revolu\u00e7\u00e3o segundo a lei e n\u00e3o fez a s\u00edntese dial\u00e9tica entre este prazo necess\u00e1rio e a exig\u00eancia passional, imediata, ut\u00f3pica de transfus\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, pelo motivo de toda dial\u00e9tica entre esses dois termos antagonistas ser uma v\u00e3 palavra. O que o materialismo hist\u00f3rico ultrapassa conservando, \u00e9 pura e simplesmente a economia pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong>\u00a0Assim, durante muito tempo tomou-se o desenho por esbo\u00e7o de uma obra que, uma vez acabada, o reenviaria ao esquecimento e \u00e0 insignific\u00e2ncia. Isso \u00e9 falso: o desenho \u00e9 j\u00e1 toda a obra, n\u00e3o h\u00e1 outra.<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong>\u00a0Ernest Courderoy (1825-1862), socialista libert\u00e1rio franc\u00eas que adotou posi\u00e7\u00f5es radicais na revolu\u00e7\u00e3o de 1848, vivendo o resto de sua vida no ex\u00edlio (N.T.)<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A Radicalidade da Utopia | Passa Palavra &#8211; https:\/\/passapalavra.info\/2023\/08\/149697\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jean Baudrillard &#8211; N\u00e3o h\u00e1 poss\u00edvel ou imposs\u00edvel. A utopia est\u00e1 l\u00e1, em todas as energias levantadas contra a economia pol\u00edtica. 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