{"id":19766,"date":"2023-08-25T12:53:11","date_gmt":"2023-08-25T15:53:11","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19766"},"modified":"2023-08-23T09:57:45","modified_gmt":"2023-08-23T12:57:45","slug":"negri-aos-90-o-comunismo-nao-morreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/08\/25\/negri-aos-90-o-comunismo-nao-morreu\/","title":{"rendered":"Negri, aos 90: \u201co comunismo n\u00e3o morreu\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>Roberto Ciccarelli &#8211; <\/strong>Para ele, uma esquerda autossuficiente n\u00e3o enxergou as muta\u00e7\u00f5es do capital, nem buscou respostas. Da\u00ed a \u201cderrota colossal\u201d p\u00f3s-1970. Mas o sistema segue em crise, o poder \u201c\u00e9 sempre dividido\u201d e o amor \u201cmant\u00e9m a esp\u00e9cie humana em p\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Da inf\u00e2ncia nos anos de guerra ao aprendizado de filosofia e \u00e0 milit\u00e2ncia comunista, de 68 ao massacre da Piazza Fontana, do Poder Oper\u00e1rio \u00e0 Autonomia e de 77 \u00e0 pris\u00e3o e ao ex\u00edlio. E novamente a pris\u00e3o, antes da liberdade definitiva. Toni Negri \u2013 que contou sua trajet\u00f3ria, em parceria com Girolamo De Michele, em tr\u00eas volumes autobiogr\u00e1ficos:\u00a0<em>Storia di un comunista<\/em>\u00a0[Hist\u00f3ria de um comunista],\u00a0<em>Galera e esilio<\/em>\u00a0[<em>Pris\u00e3o e ex\u00edlio<\/em>] e\u00a0<em>Da Genova a Domani<\/em>\u00a0[<em>De G\u00eanova ao amanh\u00e3<\/em>] (Ponte alle Grazie) \u2013 completou 90 anos no \u00faltimo dia 1\u00ba de agosto.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, concedida ao jornal\u00a0<em>Il Manifesto<\/em>, o fil\u00f3sofo e militante retoma momentos cruciais de sua vida, como os anos 1960, o 68 italiano, os anos de pris\u00e3o e ex\u00edlio. Tamb\u00e9m coloca em perspectiva o Partido Comunista Italiano, que em determinado momento caiu na armadilha de um justicialismo e delegou a pol\u00edtica aos magistrados, processo que est\u00e1 na origem, segundo Negri, do desaparecimento da esquerda no pa\u00eds, nos dias atuais<\/p>\n<p>A entrevista aborda tamb\u00e9m os escritos que deram ao fil\u00f3sofo uma renovada proje\u00e7\u00e3o internacional, em coautoria com Michael Hardt, professor de literatura na Duke University, nos Estados Unidos, como:\u00a0<em>Imp\u00e9rio<\/em>,\u00a0<em>Multid\u00e3o<\/em>,\u00a0<em>Comum<\/em>\u00a0<em>e O Bem Estar Comum<\/em>\u00a0[Record]. E ainda revisita sua aproxima\u00e7\u00e3o a pensadores como Spinoza, sobre quem escreveu um importante livro \u2013\u00a0<em>Spinoza Subversivo<\/em>\u00a0\u2013 quando estava na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, Toni Negri responde a um questionamento a respeito do modo como se refere a S\u00e3o Francisco de Assis, ao qual ele diz se sentir pr\u00f3ximo desde muito cedo. Para ele, Francisco \u00e9, sobretudo, um modo de trazer o amor, \u201ccomo uma arma para a vida\u201d, para o campo pol\u00edtico. Diz Negri:<\/p>\n<p>\u201cFrancisco \u00e9 o amor contra a propriedade: exatamente o que poder\u00edamos ter feito na d\u00e9cada de 1970, revertendo esse desenvolvimento e criando uma nova maneira de produzir. Francisco nunca foi suficientemente abordado, nem a import\u00e2ncia que o franciscanismo teve na hist\u00f3ria italiana foi devidamente levada em conta. Menciono isso porque quero que palavras como amor e alegria entrem na linguagem pol\u00edtica.\u201d<\/p>\n<p><strong>Roberto Ciccarelli \u2013 Voc\u00ea completou 90 anos. Como vive o seu tempo hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Toni Negri \u2013\u00a0<\/strong>Lembro-me de Gilles Deleuze, que sofria de uma doen\u00e7a semelhante \u00e0 minha. A assist\u00eancia e a tecnologia de que dispomos hoje n\u00e3o existiam naquela \u00e9poca. A \u00faltima vez que o vi ele se movia com um carrinho com cilindros de oxig\u00eanio. Foi muito dif\u00edcil. Hoje tamb\u00e9m \u00e9 para mim. Acho que nessa idade cada dia que passa \u00e9 um dia a menos. Voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o tem for\u00e7as para torn\u00e1-lo um dia m\u00e1gico. \u00c9 como quando voc\u00ea come uma boa fruta e ela deixa na boca um gosto maravilhoso. Esse fruto \u00e9 a vida, provavelmente. \u00c9 uma de suas grandes virtudes.<\/p>\n<p><strong>Noventa anos s\u00e3o um s\u00e9culo breve.<\/strong><\/p>\n<p>Pode haver v\u00e1rios s\u00e9culos breves. H\u00e1 o cl\u00e1ssico per\u00edodo definido por Hobsbawm, de 1917 a 1989. Houve o s\u00e9culo americano, que foi bem mais curto. Durou desde os acordos monet\u00e1rios e de governan\u00e7a global em Bretton Woods at\u00e9 os atentados \u00e0s Torres G\u00eameas em setembro de 2001. No que me concerne, meu longo s\u00e9culo come\u00e7ou com a vit\u00f3ria bolchevique, pouco antes de eu nascer, e continuou com as lutas dos trabalhadores e todos os conflitos pol\u00edticos e sociais dos quais participei.<\/p>\n<p><strong>Este breve s\u00e9culo terminou com uma derrota colossal.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Mas eles pensaram que era o fim da hist\u00f3ria e que havia come\u00e7ado uma era de globaliza\u00e7\u00e3o pacificada. Nada mais falso, como verificamos todos os dias h\u00e1 mais de 30 anos. Estamos em um momento de transi\u00e7\u00e3o, mas na realidade sempre estivemos. Embora possa passar despercebido, encontramo-nos em uma nova era marcada pelo ressurgimento mundial de lutas, contra as quais existe uma resposta dura. As lutas dos trabalhadores come\u00e7aram a se cruzar cada vez mais com lutas feministas, antirracistas, em defesa dos imigrantes e pela liberdade de movimento, ou com as lutas ambientais.<\/p>\n<p><strong>Fil\u00f3sofo, voc\u00ea se tornou professor em P\u00e1dua ainda muito jovem. Participou da\u00a0<em>Quaderni Rossi<\/em>, a revista do operariado italiano. Fez pesquisa e trabalho de base nas f\u00e1bricas, a come\u00e7ar pela Petroqu\u00edmica em Marghera. Voc\u00ea fez parte, primeiro, do\u00a0<em>Potere Operaio<\/em>, depois da\u00a0<em>Autonomia Operaia<\/em>. Voc\u00ea viveu o longo 68 italiano, come\u00e7ando com o impetuoso 1969 dos trabalhadores em Corso Traiano, em Turim. Qual foi o momento pol\u00edtico culminante dessa hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1970, quando o capitalismo antecipou fortemente uma estrat\u00e9gia para o seu futuro. Com a globaliza\u00e7\u00e3o, precarizou-se o trabalho industrial e todo o processo de acumula\u00e7\u00e3o de valor. Nessa transi\u00e7\u00e3o, foram lan\u00e7ados novos polos produtivos: trabalho intelectual, trabalho afetivo, trabalho social que constr\u00f3i a coopera\u00e7\u00e3o. Na base da nova acumula\u00e7\u00e3o de valor tamb\u00e9m est\u00e3o, \u00e9 claro, o ar, a \u00e1gua, a vida e todos os bens comuns que o capital continuou a explorar para neutralizar a queda da taxa de lucro que vinha sofrendo desde os anos 1960.<\/p>\n<p><strong>Por que, desde meados dos anos 1970, a estrat\u00e9gia capitalista triunfou?<\/strong><\/p>\n<p>Porque faltou uma resposta da esquerda. De fato, por muito tempo houve um total desconhecimento desses processos. Desde o final da d\u00e9cada de 1970, foi eliminada qualquer for\u00e7a intelectual ou pol\u00edtica, pontual ou de movimento, que tentasse mostrar a import\u00e2ncia dessa transforma\u00e7\u00e3o e que visasse a reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio em torno de novas formas de socializa\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural. Foi uma trag\u00e9dia. Aqui aparece a continuidade do curto s\u00e9culo no tempo que vivemos agora. Havia uma vontade da esquerda de bloquear o quadro pol\u00edtico para preservar o que j\u00e1 tinha.<\/p>\n<p><strong>E o que essa esquerda tinha?<\/strong><\/p>\n<p>Uma imagem poderosa, mas j\u00e1 ent\u00e3o insuficiente. Mitificou-se a figura do trabalhador industrial sem perceber que ele mesmo desejava algo muito diferente. Ele n\u00e3o queria se conformar com a f\u00e1brica de Agnelli, mas destruir sua organiza\u00e7\u00e3o; ele queria construir carros para oferecer aos outros sem escravizar ningu\u00e9m. Em Marghera, eles n\u00e3o queriam morrer de c\u00e2ncer ou destruir o planeta. Isso \u00e9 basicamente o que Marx escreveu em\u00a0<em>Cr\u00edtica ao Programa de Gotha<\/em>: contra a emancipa\u00e7\u00e3o pelo trabalho mercantil patrocinado pela social-democracia e pela liberta\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho do trabalho mercantilizado. Estou convencido de que a dire\u00e7\u00e3o tomada pela Internacional Comunista \u2013 de forma \u00f3bvia e tr\u00e1gica com o stalinismo, e depois de forma cada vez mais contradit\u00f3ria e impetuosa \u2013 destruiu o desejo que mobilizava massas gigantescas. Para toda a hist\u00f3ria do movimento comunista, aquela foi a batalha.<\/p>\n<p><strong>O que foi enfrentado naquele campo de batalha?<\/strong><\/p>\n<p>Por um lado, havia a ideia de liberta\u00e7\u00e3o. Na It\u00e1lia, foi iluminada pela resist\u00eancia contra o nazifascismo. A ideia de liberta\u00e7\u00e3o foi projetada na pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o, como a interpretamos ent\u00e3o quando \u00e9ramos jovens. E aqui eu n\u00e3o subestimaria a evolu\u00e7\u00e3o social da Igreja Cat\u00f3lica que culminou no Conc\u00edlio Vaticano II. Por outro lado, havia o realismo, herdado da social-democracia pelo Partido Comunista Italiano, aquele de Amendola e dos seguidores de Togliatti, de diferentes origens. Tudo come\u00e7ou a desmoronar nos anos 1970, precisamente quando, pelo contr\u00e1rio, surgiu a possibilidade de inventar uma nova forma de vida, uma nova forma de ser comunistas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea continua a se definir como comunista. O que significa isso hoje?<\/strong><\/p>\n<p>O que significou para mim quando jovem: conhecer um futuro em que ter\u00edamos conquistado o poder de ser livres, de trabalhar menos, de nos amar. Est\u00e1vamos convencidos de que conceitos burgueses como liberdade, igualdade e fraternidade poderiam se materializar em palavras de ordem como coopera\u00e7\u00e3o, solidariedade, democracia radical e amor. Pensamos e fizemos, assim pensou a maioria que votou na esquerda e a fez existir. Mas o mundo era e \u00e9 insuport\u00e1vel, tem uma rela\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria com as virtudes essenciais do viver junto. No entanto, essas virtudes n\u00e3o se perdem, s\u00e3o adquiridas por meio da pr\u00e1tica coletiva e v\u00eam acompanhadas da transforma\u00e7\u00e3o da ideia de produtividade, o que n\u00e3o significa produzir mais bens em menos tempo, nem travar guerras cada vez mais devastadoras. Pelo contr\u00e1rio, trata-se de alimentar a todos, modernizar, fazer as pessoas felizes. O comunismo \u00e9 uma paix\u00e3o coletiva alegre, \u00e9tica e pol\u00edtica que luta contra a trindade da propriedade, das fronteiras e do capital.<\/p>\n<p><strong>As pris\u00f5es de 7 de abril de 1979, primeiro momento da repress\u00e3o ao movimento da autonomia oper\u00e1ria, marcaram um antes e um depois. Por diversas raz\u00f5es, a meu ver, foi tamb\u00e9m pela hist\u00f3ria do\u00a0<em>Il Manifesto<\/em>,<\/strong>\u00a0<strong>gra\u00e7as a uma vibrante campanha garantista que durou anos, um caso jornal\u00edstico \u00fanico realizado com militantes do movimento, um grupo de valentes intelectuais e o Partido Radical. Oito anos depois, em 9 de junho de 1987, quando desabou o castelo das acusa\u00e7\u00f5es cambiantes e infundadas, Rossana Rossanda [fundadora do jornal\u00a0<em>Il Manifesto]<\/em>\u00a0escreveu que foi uma \u201crepara\u00e7\u00e3o tardia e parcial de tantas coisas irrepar\u00e1veis\u201d. O que tudo isso significa para voc\u00ea hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Foi sobretudo o sinal de uma amizade que nunca foi tra\u00edda. Rossana foi para n\u00f3s uma pessoa de uma generosidade incr\u00edvel. Por\u00e9m, em determinado momento, ela tamb\u00e9m parou: ela n\u00e3o era capaz de responsabilizar o PCI pelo que o PCI havia se tornado.<\/p>\n<p><strong>Em que ele se tornou?<\/strong><\/p>\n<p>Em um opressor. Ele massacrou aqueles que denunciaram a situa\u00e7\u00e3o em que ele se meteu. Naqueles anos, muitos de n\u00f3s dissemos isso ao partido. Havia outra maneira, que era ouvir a classe trabalhadora, o movimento estudantil, as mulheres e todas as novas formas pelas quais as paix\u00f5es sociais, pol\u00edticas e democr\u00e1ticas estavam se organizando. Propusemos uma alternativa de maneira honesta, limpa e em massa. Faz\u00edamos parte de um enorme movimento que investiu nas grandes f\u00e1bricas, nas escolas e nas gera\u00e7\u00f5es. O fechamento do PCI levou ao surgimento do extremismo terrorista. Pagamos por tudo isso e muito caro. S\u00f3 eu passei um total de 14 anos no ex\u00edlio e 11 anos e meio na pris\u00e3o.\u00a0<em>Il Manifesto<\/em>\u00a0sempre defendeu nossa inoc\u00eancia. Era completamente idiota que eu ou outros membros da Autonomia f\u00f4ssemos considerados sequestradores de Aldo Moro ou assassinos de companheiros. Entretanto, na campanha pela inoc\u00eancia, que se manteve corajosa e importante, um aspecto substancial foi deixado de lado.<\/p>\n<p><strong>Qual?<\/strong><\/p>\n<p>Fomos politicamente respons\u00e1veis \u200b\u200bpor um movimento muito mais amplo contra o \u201ccompromisso hist\u00f3rico\u201d entre o PCI e os democratas-crist\u00e3os. Houve uma resposta da pol\u00edcia de direita contra n\u00f3s, e isso \u00e9 compreens\u00edvel. Pelo contr\u00e1rio, o que n\u00e3o se quer perceber \u00e9 a abrang\u00eancia que o PCI deu a esta resposta. No fundo, eles temiam que o horizonte da classe pol\u00edtica mudasse. Se esse n\u00f3 hist\u00f3rico n\u00e3o for compreendido, como se poder\u00e1 lamentar a inexist\u00eancia de uma esquerda na It\u00e1lia atual?<\/p>\n<p><strong>A opera\u00e7\u00e3o de 7 de abril e o chamado \u201cteorema de Calogero\u201d [<em>em refer\u00eancia ao procurador que investigava o caso e que pediu as pris\u00f5es dos principais l\u00edderes da Autonomia Oper\u00e1ria<\/em>] foram considerados um passo para a convers\u00e3o de uma parte n\u00e3o desprez\u00edvel da esquerda ao \u201cjudiciarismo\u201d e a delega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica ao poder judici\u00e1rio. Como foi poss\u00edvel cair em tal armadilha?<\/strong><\/p>\n<p>Quando o PCI substituiu a centralidade da luta econ\u00f4mica e pol\u00edtica pela luta moral, e o fez por meio dos ju\u00edzes que gravitavam em torno do partido, encerrou sua trajet\u00f3ria. Eles realmente acreditavam que estavam usando o judiciarismo para construir o socialismo? O judiciarismo \u00e9 uma das coisas mais apreciadas pela burguesia. \u00c9 uma ilus\u00e3o devastadora e tr\u00e1gica que nos impede de ver o uso classista da lei, da pris\u00e3o ou da pol\u00edcia contra os subalternos. Naqueles anos, os jovens ju\u00edzes tamb\u00e9m mudaram. Antes eram muito diferentes. Eram chamados de \u201cpreceptores de assalto\u201d. Lembro-me dos primeiros n\u00fameros da revista<em>\u00a0Democrazia e Diritto\u00a0<\/em>[<em>Democracia e Direito<\/em>], no qual tamb\u00e9m colaborei. Eles me encheram de alegria porque est\u00e1vamos falando sobre justi\u00e7a de massa. Depois a ideia de justi\u00e7a decaiu de forma bem diferente, voltou aos conceitos de legalidade e legitimidade. E no Judici\u00e1rio deixou de haver posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, restando apenas coliga\u00e7\u00f5es entre correntes. Assim, temos hoje uma Constitui\u00e7\u00e3o reduzida a um pacote de regras que nem mais correspondem \u00e0 realidade do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Na pris\u00e3o, voc\u00ea continuou a batalha pol\u00edtica. Em 1983, escreveu um documento na pris\u00e3o, publicado por\u00a0<\/strong><strong><em>Il Manifesto<\/em><\/strong><strong>, intitulado\u00a0<\/strong><strong><em>Do You Remember Revolution?\u00a0<\/em><\/strong><strong>[<\/strong><strong><em>Voc\u00ea lembra da revolu\u00e7\u00e3o?<\/em><\/strong><strong>]. Falava da originalidade do 68 italiano, dos movimentos dos anos 70 que n\u00e3o podiam ser reduzidos aos \u201canos de chumbo\u201d. Como voc\u00ea viveu aqueles anos?<\/strong><\/p>\n<p>Aquele documento dizia coisas importantes com certa timidez. Acho que estava dizendo mais ou menos as coisas que acabei de recordar. Foi um per\u00edodo dif\u00edcil. Est\u00e1vamos dentro, t\u00ednhamos que sair de alguma maneira. Confesso que em meio \u00e0quele imenso sofrimento era melhor para mim estudar Spinoza do que pensar na escurid\u00e3o absurda em que nos encerraram. Escrevi um longo livro sobre Spinoza e isso foi meio que um ato her\u00f3ico. Eu n\u00e3o poderia ter mais de cinco livros em minha cela. E estava constantemente mudando de pris\u00e3o especial: Rebibbia, Palmi, Trani, Fossombrone, Rovigo. Cada vez em uma nova cela, com pessoas diferentes. Esperar alguns dias e recome\u00e7ar. O \u00fanico livro que carreguei comigo foi a\u00a0<em>\u00c9tica<\/em>\u00a0de Spinoza. Tive a sorte de terminar meu texto antes do motim na pris\u00e3o de Trani em 1981, quando as for\u00e7as especiais destru\u00edram tudo. Fico feliz que esse livro tenha produzido um choque na hist\u00f3ria da filosofia.<\/p>\n<p><strong>Em 1983 voc\u00ea foi eleito deputado e saiu da pris\u00e3o por alguns meses. O que voc\u00ea acha do momento em que votaram no parlamento a favor de seu retorno \u00e0 pris\u00e3o e voc\u00ea decidiu se exilar na Fran\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Ainda sofro muito com isso. Se tenho que fazer um julgamento hist\u00f3rico e imparcial, acho que fiz bem em sair. Na Fran\u00e7a fui \u00fatil para estabelecer rela\u00e7\u00f5es entre gera\u00e7\u00f5es e pude estudar. Tive a oportunidade de trabalhar com F\u00e9lix Guattari e pude entrar nos debates do momento. Me ajudou muito a entender a vida dos \u201c<em>sans papiers<\/em>\u201d [ou \u201csem documentos\u201d, refer\u00eancia aos imigrantes ilegais na Fran\u00e7a]. Eu tamb\u00e9m estava nessa situa\u00e7\u00e3o: eu dava aulas, mesmo sem ter uma carteira de identidade. Meus colegas da Universidade de Paris 8 me ajudaram, mas em outros aspectos acho que me enganei. Fiquei profundamente abalado por ter deixado meus companheiros na pris\u00e3o, aqueles com quem vivi os melhores anos da minha vida e as revoltas em quatro anos de pris\u00e3o preventiva. Ainda d\u00f3i t\u00ea-los deixado. Aquela pris\u00e3o destruiu a vida de colegas que eu amava muito e, em muitos casos, tamb\u00e9m de suas fam\u00edlias. Tenho 90 anos e fui salvo. Mas isso n\u00e3o me traz mais serenidade diante daquele drama.<\/p>\n<p><strong>Rossanda tamb\u00e9m o criticou\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Sim, ela me pediu para me comportar como S\u00f3crates. Respondi que corria o risco de acabar como o fil\u00f3sofo. Por causa dos relacionamentos na pris\u00e3o, eu poderia ter morrido. Pannella me tirou materialmente da pris\u00e3o e depois jogou toda a culpa em mim porque eu n\u00e3o queria voltar. Muitas pessoas me enganaram. Rossana me alertou naquela \u00e9poca, e talvez ela estivesse certa.<\/p>\n<p><strong>Houve outra ocasi\u00e3o em que ela fez isso?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, quando ela me disse para n\u00e3o voltar de Paris para a It\u00e1lia em 1997, ap\u00f3s 14 anos de ex\u00edlio. Eu a vi pela \u00faltima vez antes de partir, em um caf\u00e9 perto do Museu Cluny, o museu nacional da Idade M\u00e9dia. Ela me disse que queria me amarrar com uma corrente para me impedir de pegar aquele avi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Por que voc\u00ea decidiu voltar para a It\u00e1lia?<\/strong><\/p>\n<p>Eu estava convencido de que iria lutar pela anistia para todos os companheiros da d\u00e9cada de 1970. Na \u00e9poca, isso parecia poss\u00edvel. Fiquei seis anos na pris\u00e3o at\u00e9 2003. Talvez Rossana tivesse raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Que lembran\u00e7as voc\u00ea tem dela hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Lembro-me da \u00faltima vez que a vi em Paris. Ela era uma amiga muito querida que estava preocupada com minhas viagens \u00e0 China, com medo de que algo de mal se passasse comigo. Ela era uma pessoa maravilhosa, naquela \u00e9poca e sempre.<\/p>\n<p><strong>Anna Negri, sua filha, escreveu\u00a0<\/strong><strong><em>Con un piede impigliato nella storia<\/em><\/strong><strong>\u00a0[<\/strong><strong><em>Com um p\u00e9 enredado na hist\u00f3ria<\/em><\/strong><strong>] (DeriveApprodi), que conta essa hist\u00f3ria do ponto de vista de seus afetos e de outra gera\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Tenho tr\u00eas filhos maravilhosos, Anna, Francesco e Nina, que sofreram de forma indescrit\u00edvel o que aconteceu. Assisti \u00e0 s\u00e9rie de Bellocchio sobre Aldo Moro e ainda fico at\u00f4nito por ter sido acusado dessa incr\u00edvel trag\u00e9dia. Penso em meus dois primeiros filhos, que estavam na escola. Alguns os viam como filhos de um monstro. Esses meninos, de uma forma ou de outra, suportaram eventos enormes. Eles sa\u00edram da It\u00e1lia e voltaram, eles mesmos passaram por aquele longo inverno. O m\u00ednimo que eles podem ter \u00e9 uma certa raiva dos pais que os colocaram nessa situa\u00e7\u00e3o. E eu tenho uma certa responsabilidade nessa hist\u00f3ria. N\u00f3s nos tornamos amigos novamente. Para mim, isso \u00e9 um presente de imensa beleza.<\/p>\n<p><strong>No final da d\u00e9cada de 1990, coincidindo com os novos movimentos globais e, em seguida, com os movimentos contra a guerra, voc\u00ea conquistou uma posi\u00e7\u00e3o de grande reconhecimento junto com Michael Hardt, come\u00e7ando com a publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Imp\u00e9rio<\/em>. Como voc\u00ea definiria a rela\u00e7\u00e3o entre filosofia e milit\u00e2ncia hoje, em um momento de retorno \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o e \u00e0s ideias reacion\u00e1rias e elitistas?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil para mim responder a essa pergunta. Quando as pessoas me dizem que fiz uma \u201c\u00f3pera\u201d, eu respondo: l\u00edrica? D\u00e1 para acreditar nisso? Tenho de rir. Porque sou mais um militante do que um fil\u00f3sofo. Isso pode fazer algumas pessoas rirem, mas eu me vejo assim, como Papageno\u2026 [o personagem p\u00e1ssaro da \u00f3pera\u00a0<em>A flauta m\u00e1gica<\/em>, de Mozart]<\/p>\n<p><strong>Mas a verdade \u00e9 que voc\u00ea escreveu muitos livros.<\/strong><\/p>\n<p>Tive a sorte de estar a meio caminho entre a filosofia e a milit\u00e2ncia. Nos melhores per\u00edodos da minha vida, passei constantemente de um para o outro. Isso me permitiu cultivar uma rela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica com a teoria capitalista do poder. Piv\u00f4 em Marx, fui de Hobbes a Habermas, passando por Kant, Rousseau e Hegel. Pessoas s\u00e9rias o suficiente para serem combatidas. Em contrapartida, a linha Maquiavel-Spinoza-Marx era uma alternativa real. Para reiterar: a hist\u00f3ria da filosofia, para mim, n\u00e3o \u00e9 um tipo de texto sagrado que misturou todo o conhecimento ocidental, de Plat\u00e3o a Heidegger, com a civiliza\u00e7\u00e3o burguesa e transmitiu conceitos funcionais ao poder. A filosofia faz parte de nossa cultura, mas deve ser usada para o que \u00e9 necess\u00e1rio, ou seja, para transformar o mundo e torn\u00e1-lo mais justo. Deleuze falou de Spinoza e retomou a iconografia que o retratava como Masaniello. Gostaria que isso fosse verdade para mim. Mesmo agora que estou com 90 anos, ainda tenho essa rela\u00e7\u00e3o com a filosofia. Viver a milit\u00e2ncia \u00e9 menos f\u00e1cil, mas consigo escrever e ouvir, em uma situa\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio.<\/p>\n<p><strong>Exilado, ainda hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Um pouco, sim. Mas \u00e9 um ex\u00edlio diferente. Depende do fato de que os dois mundos em que vivo, It\u00e1lia e Fran\u00e7a, t\u00eam din\u00e2micas de movimento muito diferentes. Na Fran\u00e7a, o opera\u00edsmo n\u00e3o teve um grande n\u00famero de seguidores, mesmo que esteja sendo redescoberto hoje. O movimento de esquerda na Fran\u00e7a sempre foi liderado pelo trotskismo ou pelo anarquismo. Na d\u00e9cada de 1990, com a revista\u00a0<em>Futur ant\u00e9rieur<\/em>, com meu amigo e camarada Jean-Marie Vincent, encontramos uma media\u00e7\u00e3o entre o\u00a0<em>gauchisme<\/em>\u00a0e o opera\u00edsmo: funcionou por cerca de dez anos. Mas fizemos isso com muita cautela. Deixamos o julgamento da pol\u00edtica francesa para nossos camaradas franceses. O \u00fanico editorial importante escrito por italianos na revista foi aquele sobre a grande greve dos trabalhadores ferrovi\u00e1rios de 1995, que era muito parecida com as lutas italianas.<\/p>\n<p><strong>Por que o\u00a0<\/strong><strong><em>opera\u00edsmo<\/em><\/strong><strong>\u00a0tem uma resson\u00e2ncia global atualmente?<\/strong><\/p>\n<p>Porque responde \u00e0 necessidade de resist\u00eancia e de um renascimento das lutas, como em outras culturas cr\u00edticas com as quais dialoga: feminismo, ecologia pol\u00edtica, cr\u00edtica p\u00f3s-colonial, por exemplo. E tamb\u00e9m porque n\u00e3o \u00e9 a costela de nada ou de ningu\u00e9m. Nunca foi, nem foi um cap\u00edtulo na hist\u00f3ria do PCI, como alguns se iludem. Em vez disso, \u00e9 uma ideia precisa da luta de classes e uma cr\u00edtica da soberania que coagula o poder em torno do polo patronal, propriet\u00e1rio e capitalista. Mas o poder \u00e9 sempre dividido e est\u00e1 sempre aberto, mesmo quando parece n\u00e3o haver alternativa. Toda a teoria do poder como uma extens\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o e da autoridade, feita pela Escola de Frankfurt e suas evolu\u00e7\u00f5es recentes, \u00e9 falsa, mesmo que infelizmente continue hegem\u00f4nica. O opera\u00edsmo joga por terra essa leitura brutal. \u00c9 um estilo de trabalho e pensamento. Assume a hist\u00f3ria de baixo para cima, feita pelas grandes massas que se movem, e busca a singularidade em uma dial\u00e9tica aberta e produtiva.<\/p>\n<p><strong>Suas constantes refer\u00eancias a Francisco de Assis sempre me impressionaram. De onde veio esse interesse pelo santo e por que voc\u00ea o tomou como exemplo de sua alegria em ser comunista?<\/strong><\/p>\n<p>Desde jovem, riam de mim porque eu usava a palavra amor. Eles me tomavam por um poeta ou um iludido. Pelo contr\u00e1rio, sempre achei que o amor era uma paix\u00e3o fundamental que mant\u00e9m o g\u00eanero humano de p\u00e9. Pode se tornar uma arma para seguir vivendo. Venho de uma fam\u00edlia que foi miser\u00e1vel durante a guerra e me ensinou uma afei\u00e7\u00e3o com a qual vivo at\u00e9 hoje. No fundo, Francisco \u00e9 um burgu\u00eas que vive em uma \u00e9poca em que percebe a possibilidade de transformar a pr\u00f3pria burguesia e criar um mundo em que as pessoas se amem e amem os viventes. O apelo a ele, para mim, \u00e9 como o apelo a Ciompi feito por Maquiavel. Francisco \u00e9 o amor contra a propriedade: exatamente o que poder\u00edamos ter feito na d\u00e9cada de 1970, revertendo esse desenvolvimento e criando uma nova maneira de produzir. Francisco nunca foi suficientemente abordado, nem a import\u00e2ncia que o franciscanismo teve na hist\u00f3ria italiana foi devidamente levada em conta. Menciono isso porque quero que palavras como amor e alegria entrem na linguagem pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Negri, aos 90: \u201co comunismo n\u00e3o morreu\u201d\u00a0 &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/movimentoserebeldias\/negri-aos-90-comunismo-nao-morreu\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto Ciccarelli &#8211; Para ele, uma esquerda autossuficiente n\u00e3o enxergou as muta\u00e7\u00f5es do capital, nem buscou respostas. Da\u00ed a \u201cderrota colossal\u201d p\u00f3s-1970. Mas o sistema segue em crise, o poder \u201c\u00e9 sempre dividido\u201d e o amor \u201cmant\u00e9m a esp\u00e9cie humana em p\u00e9\u201d. 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