{"id":19732,"date":"2023-08-19T12:27:17","date_gmt":"2023-08-19T15:27:17","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19732"},"modified":"2023-08-16T16:34:00","modified_gmt":"2023-08-16T19:34:00","slug":"como-os-trabalhadores-conquistaram-o-final-de-semana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/08\/19\/como-os-trabalhadores-conquistaram-o-final-de-semana\/","title":{"rendered":"Como os trabalhadores conquistaram o final de semana"},"content":{"rendered":"<p><strong>TAJ ALI<\/strong> &#8211; Na Batalha de George Square, em 31 de janeiro de 1919, milhares de trabalhadores em greve entraram em confronto com a pol\u00edcia em um confronto sangrento sobre as demandas por uma semana de 40 horas.<\/p>\n<p>O final de semana n\u00e3o nos foi dado de bandeja pela classe dominante \u2013 foi disputado com unhas e dentes pela classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Quem de n\u00f3s estranha a express\u00e3o \u201cGra\u00e7as a deus, finalmente \u00e9 sexta!\u201d, ap\u00f3s uma daquelas\u00a0semanas complicadas? De modo geral, nosso tempo est\u00e1 regulado pelos cinco dias \u00fateis de trabalho. E os fins de semana como a oportunidade para descansar, para atividades de lazer e divers\u00e3o, assim como de maior tempo para a fam\u00edlia e amigos.<br \/>\nNunca nos foi dado a conhecer nada muito al\u00e9m deste padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, o final de semana \u00e9 um fen\u00f4meno relativamente moderno \u2014 e n\u00e3o nos foi entregue de bandeja! O final de semana, bem como outros direitos que temos hoje, \u00e9 resultado de duros combates, a ferro e fogo, da classe trabalhadora. Passaram-se muitos anos, d\u00e9cadas, de luta por dezenas de milhares de trabalhadores, antes que o fim-de-semana, como nomeamos s\u00e1bado e domingo hoje, pudesse existir.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e3-Bretanha pr\u00e9-industrial, o trabalho era determinado pelas esta\u00e7\u00f5es do ano e pelas horas da luz natural. Al\u00e9m disso, os sistemas de trabalho ainda n\u00e3o se haviam estabelecido, ainda n\u00e3o existiam rel\u00f3gios de ponto nas f\u00e1bricas, nem o controle de cada momento do dia de trabalho, como hoje acontece \u2014 seja nos escrit\u00f3rios ou na Amazon. De v\u00e1rias formas, os trabalhadores de ent\u00e3o detinham\u00a0 mais controle sobre suas pr\u00f3prias vidas do que agora.<\/p>\n<p>Logo sobreveio a consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo industrial, acompanhado das formas coletivas de emprego, da padroniza\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, e da crescente delimita\u00e7\u00e3o entre trabalho e (limitado) lazer. N\u00e3o era nada raro para os trabalhadores fabris trabalharem por dezesseis horas em ambientes sujos e perigosos, mais exauridos pelo sufocante calor de f\u00e1bricas projetadas sem janelas ou ventila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a maioria dos trabalhadores, n\u00e3o havia alternativa \u2014 eles eram obrigados a cumprir uma extensa e extenuante jornada, para sobreviver. Mas o equil\u00edbrio entre t\u00e3o degradante trabalho e a mitiga\u00e7\u00e3o que o\u00a0tempo de lazer proporciona, estava prestes a ser contestado.<\/p>\n<p><strong>Segunda-feira santa<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">Antes do estabelecimento da semana de cinco dias \u00fateis, as<a href=\"https:\/\/tribunemag.co.uk\/2020\/06\/workers-playtime\">\u00a0segundas-feiras<\/a>\u00a0constituiam o ponto alto da semana para muitos trabalhadores brit\u00e2nicos. No in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, a tradi\u00e7\u00e3o de absente\u00edsmo dos artes\u00e3os especializados nas segundas-feiras tornou-se conhecida como a \u201cSegunda-feira Santa\u201d. Estes trabalhadores trabalhavam por in\u00fameras horas, de ter\u00e7a a s\u00e1bado, e consideravam que um \u00fanico dia de descanso, iniciado no s\u00e1bado at\u00e9 o fim do domingo, era insuficiente.<\/p>\n<p>O botic\u00e1rio e escritor John Houghton descreveu o come\u00e7o deste h\u00e1bito em 1861:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cQuando nas malharias, ou na fabrica\u00e7\u00e3o de meias de seda, tecel\u00f5es e tecel\u00e3s ganhavam bom pagamento pelo trabalho, era raro ver essa categoria trabalhando nas segundas e ter\u00e7as-feiras, mas passar a maior parte do tempo na cervejaria ou na jogatina. Entre os trabalhadores da tecelagem, o comum \u00e9 beber na segunda-feira, lidar com suas dores de cabe\u00e7a na ter\u00e7a-feira, e na quarta-feira\u2026 ter suas ferramentas quebradas\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os trabalhadores de v\u00e1rias ind\u00fastrias, como as de tecelagem e de min\u00e9rio, eram pagos no s\u00e1bado, e ent\u00e3o tinham uma sobra de dinheiro para gastar na segunda-feira. As \u201cSegundas Santas\u201d eram combatidas ferozmente pelos donos das f\u00e1bricas e expressivamente\u00a0pelo Clero que associava tal conduta ao alcoolismo e degrada\u00e7\u00e3o moral \u2014 no entanto, seu controle tornou-se cada vez mais dif\u00edcil por parte das autoridades. Originada como h\u00e1bito de um\u00a0grupo de trabalhadores pouco mais especializados, a Segunda Sagrada, nos meados do s\u00e9culo XIX,\u00a0difundiu-se nas f\u00e1bricas e usinas, e afirmou-se como uma institui\u00e7\u00e3o popular na sociedade brit\u00e2nica.<\/p>\n<p>Para muitos, as segundas-feiras eram uma chance para recuperar-se da ressaca de uma bebedeira na noite anterior; para outros, era s\u00f3 outro dia.<\/p>\n<p>Intrinsecamente decorrente da \u201cSegunda Santa\u201d foi o crescimento de uma cultura de lazer comercial, com eventos musicais e teatros apresentando encena\u00e7\u00f5es neste dia. Para aqueles mais s\u00f3brios, havia a op\u00e7\u00e3o de passar o dia visitando o jardim bot\u00e2nico ou assistindo a uma partida de cr\u00edquete. \u2018<em>The Jovial Cutler\u2019<\/em>, uma tradicional can\u00e7\u00e3o de Sheffield, do s\u00e9culo XVIII, retrata o esp\u00edrito desse tempo<\/p>\n<p>Brother workmen, cease your labour,<br \/>\nSuspenda a labuta, irm\u00e3o trabalhador<\/p>\n<p>Lay your files and hammers by<br \/>\nLargue de lado a lima e o martelo,<\/p>\n<p>Listen while a brother neighbour<br \/>\nOu\u00e7a o cantar do irm\u00e3o companheiro<\/p>\n<p>Sings a cutler\u2019s destiny:<br \/>\nQue conta a saga do cuteleiro:<\/p>\n<p>How upon a good Saint Monday,<br \/>\nDe como a Santa Segunda-feira,<\/p>\n<p>Sitting by the smithy fire,<br \/>\nHabituados na forja e ao calor da fogueira,<\/p>\n<p>We tell what\u2019s been done o\u2019t Sunday,<br \/>\nFez nosso domingo alongar<\/p>\n<p>And in cheerful mirth conspire<br \/>\nE mais alegrias inspirar.<\/p>\n<p><strong>A \u201c<\/strong><strong><em>Early Closing Association<\/em><\/strong><strong>\u201d\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Com as \u201cSegundas Santas\u201d associadas a bebedeira e jogos \u201cprofanos\u201d, as institui\u00e7\u00f5es religiosas, visando reduzir tal expans\u00e3o, defendem a redu\u00e7\u00e3o das horas de trabalho no s\u00e1bado, o que poderia incentivar maior frequ\u00eancia nos domingos \u00e0 Igreja. Donos das ind\u00fastrias e demais empregadores, acompanharam essa medida na esperan\u00e7a de confrontar a tradi\u00e7\u00e3o do absente\u00edsmo dos trabalhadores nas segundas, e aumentar a produtividade.<\/p>\n<p>Em 1842, para esta campanha, foi criada a\u00a0<em>Early Closing Association (Associa\u00e7\u00e3o pela Antecipa\u00e7\u00e3o do Fechamento)<\/em>, um grupo formalmente composto pelos trabalhadores do com\u00e9rcio \u2014 desejosos da redu\u00e7\u00e3o de sua jornada aos s\u00e1bados \u2014 em todo territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o teve o apoio e lideran\u00e7a dos not\u00e1veis reformadores sociais Samuel Carter Hall e George Passmore Edwards. Este grupo tinha filiais em todo o pa\u00eds e pressionou o Governo, com a pretens\u00e3o de assegurar as tardes livres no s\u00e1bado, em troca de um dia inteiro de trabalho na segunda. O meio-per\u00edodo de trabalho aos s\u00e1bados para os trabalhadores da ind\u00fastria e\u00a0f\u00e1bricas s\u00f3 se tornou realidade 25 anos depois, atrav\u00e9s da lei do\u00a0<em>Factory Act<\/em>\u00a0de 1867.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1886, o parlamentar e fundador da Irish Home Rule League (Liga Irlandesa pela Autonomia Local) Myles William Patrick O\u2019Reilly, discorreu no Parlamento sobre os m\u00e9ritos do fechamento antecipado e conclamou que este meio-dia livre fosse estendido a todos os funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Isso beneficia, disse ele, uma s\u00e9rie de trabalhadores, inclusive os\u00a0das ferrovias e do servi\u00e7o postal, j\u00e1 que os pr\u00f3prios empregadores elogiam seus benef\u00edcios, em termos do ganho de produtividade e da moral da for\u00e7a de trabalho. Suas palavras foram veementemente contestadas pelo Secret\u00e1rio do Interior, Hugh Childers, ao responder que os funcion\u00e1rios p\u00fablicos n\u00e3o estavam sobrecarregados, e que encerrar o expediente na metade\u00a0do dia no s\u00e1bado amea\u00e7aria interesses do governo.<\/p>\n<p>Mas Childers n\u00e3o poderia impedir o que j\u00e1 era uma demanda com crescente ades\u00e3o p\u00fablica. Trabalhadores de diferentes ind\u00fastrias encontraram maneiras de solucionar seus pr\u00f3prios casos: trabalhadores de lojas, por exemplo, que frequentemente trabalhavam at\u00e9 mais tarde, apelaram \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para fazer compras no in\u00edcio do dia. Algumas empresas chegaram a concordar em reduzir a jornada de trabalho\u00a0apenas durante a semana, mas a grande maioria acabaria por concordar que\u00a0fechar mais cedo aos s\u00e1bados era a melhor solu\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s d\u00e9cadas de campanhas e lutas dos comerci\u00e1rios, o Act Shop (Lei das Lojas),\u00a0em 1911, foi aprovado, autorizando a metade de um dia por semana (al\u00e9m do domingo) como folga, para os funcion\u00e1rios das lojas.<\/p>\n<p>Uma vez que o direito tinha sido concedido a determinados trabalhadores, era imposs\u00edvel deter sua propaga\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 regulando o tempo de jornada de outras categorias profissionais, como tamb\u00e9m seus desdobramentos no denominado tempo do lazer.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o da sa\u00edda \u00e0s 15h\u00a0no s\u00e1bado, a que nos habituamos, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia: este novo padr\u00e3o de trabalho vinha configurar e promover o progresso do futebol como o entretenimento favorito nos anos 1890, com a maioria das f\u00e1bricas a fechar \u00e0s 13h ou 14h. As principais ofertas de lazer foram transferidas de segunda-feira para s\u00e1bado \u00e0 tarde, consagrando a meia jornada, pr\u00e9-dominical, como norma.<\/p>\n<p><strong>O final de semana da modernidade<\/strong><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\">No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, as centrais sindicais levaram a luta mais al\u00e9m, empenhando-se em assegurar um fim de semana de 2 dias completos, na f\u00f3rmula de 1 semana com 40 horas trabalhadas semanais, e o compromisso de 8 horas de trabalho di\u00e1rio. Esta demanda ensejou\u00a0muitas disputas industriais.<\/p>\n<p>Como exemplo, h\u00e1 o ocorrido em janeiro de 1919, em Glasgow, quando milhares de ex-soldados brit\u00e2nicos, voltando da Primeira Guerra \u2014 s\u00e3o, salvos, e desempregados \u2014 disputam um mercado de trabalho quando simplesmente n\u00e3o havia postos de trabalho suficientes para todos. A cidade de Glasgow naquela \u00e9poca destacava-se como um polo de m\u00e3o de obra qualificada.<\/p>\n<p>A STUC,\u00a0<em>Scottish Trade Union Congress<\/em>\u00a0(Congresso de Uni\u00f5es Sindicais Escocesas) e o Glasgow Trades and Labor Council (Conselho Sindical e Trabalhista de Glasgow) reuniram-se, e propuseram reduzir a jornada semanal nas ind\u00fastrias, de 54 para 40 horas, o que permitiria que o emprego pudesse ser distribu\u00eddo mais justamente. Por\u00e9m, a resist\u00eancia a essa proposta, por parte dos donos das ind\u00fastrias, levou a uma greve de 40 horas, talvez o mais not\u00e1vel confronto local, em Clyde.<\/p>\n<p>40.000 trabalhadores das ind\u00fastrias de engenharia e constru\u00e7\u00e3o naval de\u00a0<em>Clyde<\/em>\u00a0 participaram. Eles conseguiram a ades\u00e3o\u00a0 dos trabalhadores das centrais el\u00e9tricas locais (de Port Pundas e Pinkston), que cortaram o abastecimento de energia para Glasgow. Milhares de mineiros, dos po\u00e7os nas vizinhas Lanarkshire e Stirlingshire, logo seguiram seus passos. No espa\u00e7o\u00a0 de poucos dias, uma explosiva greve geral\u00a0 estava acontecendo em Glasgow, com piquetes rel\u00e2mpagos, liderados pelos ex-combatentes da Grande Guerra, \u201cdisparados\u201d por toda a cidade.<\/p>\n<p>Estima-se que aproximadamente 100.000 pessoas estiveram presentes durante a manifesta\u00e7\u00e3o no dia 31 de janeiro de 1919, pela jornada semanal de 40 horas \u2014 a infame Batalha de<a href=\"https:\/\/www.tribunemag.co.uk\/2019\/01\/the-battle-of-george-square\">\u00a0George Square<\/a>. Ela tornou-se conhecida como \u201cSexta Feira Sangrenta\u201d, devido \u00e0 resposta brutal do governo, que enviou tropas e tanques para dissolver a manifesta\u00e7\u00e3o A viol\u00eancia dos cassetetes policiais resultou em muitos e graves ferimentos, inclusive em David Kirkwood \u2014 mais tarde eleito parlamentar pelo partido trabalhista\u00a0que, de t\u00e3o golpeado, desmaiou.<\/p>\n<p>A greve n\u00e3o foi vitoriosa, por\u00e9m deu lugar a alguns tipos de\u00a0concess\u00e3o, como o retorno dos trabalhadores grevistas da engenharia e constru\u00e7\u00e3o naval que, na volta ao trabalho, passaram a cumprir uma jornada de 47h semanais em vez das 57h, a qual eles se sujeitavam antes. Mais do que isso, a greve produziu um impacto pol\u00edtico em Glasgow, com representantes do partido trabalhista\u00a0<em>Independent Labour<\/em>\u00a0vencendo em 10 de seus 15 distritos eleitorais nas elei\u00e7\u00f5es gerais de 1922.<\/p>\n<p>Um dos eleitos foi George Buchanan,\u00a0 sindicalista escoc\u00eas, antigo estampador da ind\u00fastria naval, que nunca esqueceu suas ra\u00edzes. Em maio de 1925, ele fez um discurso\u00a0apaixonado em defesa do projeto da\u00a0<em>Lei de Horas no Trabalho Industrial<\/em>, que propunha a redu\u00e7\u00e3o da semana de trabalho para todos os trabalhadores:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cVi homens no trabalho, e vi rapazes, cumpridores da jornada, em p\u00e9 na bancada, mas incapazes de manter os olhos abertos ao concluir suas tarefas di\u00e1rias. Pe\u00e7o aos oponentes ao projeto das Horas que eles n\u00e3o esque\u00e7am destes fatos, quando falarem como se estivessem fazendo a an\u00e1lise de uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Eles j\u00e1 trabalharam em um estaleiro e viram o que acontece? Estiveram l\u00e1 \u00e0s 6h da manh\u00e3? Aqui ouvimos falar muito das prova\u00e7\u00f5es, processos e problemas do com\u00e9rcio. Ser\u00e1 que os honrados membros gostariam de estar em um estaleiro \u00e0s 6h da manh\u00e3 de um dia gelado, com o frio comendo at\u00e9 seus ossos, sem nada no est\u00f4mago, pois\u00a0 se atrasariam, fazendo uma refei\u00e7\u00e3o decente antes de pegar no batente, das 6h at\u00e9 as 21h?<\/p>\n<p>J\u00e1 vi homens nos estaleiros que n\u00e3o podiam comer o desjejum porque seus est\u00f4magos estavam t\u00e3o esvaziados, que n\u00e3o conseguiam digerir direito uma refei\u00e7\u00e3o quando ganhavam. Isso n\u00e3o era incomum, mas no entanto s\u00f3 ouvimos falar dos empres\u00e1rios e donos dos estaleiros, e alguns membros desta Casa nos levariam de volta \u00e0queles velhos tempos, se deix\u00e1ssemos.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Determinadas empresas, n\u00e3o deixaram de contribuir a seu modo, para o aumento da dissemina\u00e7\u00e3o da semana de trabalho padronizada. Em 1933, a ind\u00fastria qu\u00edmica Boots tinha um estoque excedente em uma nova f\u00e1brica. A pr\u00e1tica usual na \u00e9poca era demitir trabalhadores para compensar a falta de demanda. A Boots, entretanto, decidiu reduzir a semana de trabalho, permitindo que seus trabalhadores tivessem um fim se semana de 48h, para evitar demiss\u00f5es. Uma pesquisa realizada por Richard Redmayne depois concluiu que os trabalhadores ficaram mais satisfeitos, mais saud\u00e1veis, e menos propensos a faltar.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltavam evid\u00eancias de que essa pr\u00e1tica se tornaria padr\u00e3o. Os sindicatos aumentaram o n\u00famero de seus membros para 3 milh\u00f5es durante a Segunda Guerra, e no fim do conflito mundial ficaram mais fortes, social e politicamente.<\/p>\n<p>Isto foi acompanhado pela dissemina\u00e7\u00e3o de acordos de reconhecimento feitos por diversas ind\u00fastrias no p\u00f3s-guerra, que permitiu que os sindicatos, ao negociar com os empregadores, obtivessem pelo menos o b\u00e1sico: o fim de semana de 2 dias, o padr\u00e3o b\u00e1sico. Por anos e anos,\u00a0os sindicatos nunca deixaram de negociar acordos setoriais e, assim, no p\u00f3s-guerra brit\u00e2nico, o fim de semana de 2 dias inteiros tornou-se norma.<\/p>\n<p class=\"destaque-centro\">\u201cO fim de semana n\u00e3o foi uma gra\u00e7a ca\u00edda dos c\u00e9us. Ele \u00e9 o resultado de mudan\u00e7as sucessivas, advindas ao longo de uma s\u00e9rie de lutas, com derrotas e vit\u00f3rias, e da resist\u00eancia inabal\u00e1vel do movimento da classe trabalhadora.\u201d<\/p>\n<p>Amplas coaliz\u00f5es com institui\u00e7\u00f5es religiosas e simpatizantes no Parlamento e em outras inst\u00e2ncias de poder foram fundamentais \u2014 inclusive com a Uni\u00e3o Europeia, que instituiu a Diretriz do Tempo de Trabalho, que em 1993 estabelecia uma semana de no m\u00e1ximo 48h de trabalho. Mas a for\u00e7a motriz que impulsionou o direito ao fim de semana, bem como muitos outros\u00a0direitos ou demandas atendidas hoje, foi orientada pela classe trabalhadora organizada.<\/p>\n<p>Recentemente, um projeto-piloto de semana de trabalho de 4 dias revelou-se \u201cum grande avan\u00e7o\u201d, j\u00e1 que 56 empresas das 61 participantes adotaram a mudan\u00e7a. Os trabalhadores relataram sentir-se menos estressados e dormir melhor, e os empregadores relataram taxas maiores de satisfa\u00e7\u00e3o dos clientes. A TUC,\u00a0<em>Trade Union Congress<\/em>\u00a0(Central Sindical Brit\u00e2nica) apoia a altera\u00e7\u00e3o para os\u00a0 4 dias.<\/p>\n<p>O movimento dos trabalhadores organizados n\u00e3o arrefecer\u00e1 sua luta pela implanta\u00e7\u00e3o da futura semana de 4 dias trabalhados, da mesma maneira que atuou e conquistou no passado o atual fim de semana de 2 dias. Na medida que o governo tem em vista reprimir ainda mais a for\u00e7a renovada do movimento dos trabalhadores, \u00e9 hora de reacender o esp\u00edrito de luta.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Como os trabalhadores conquistaram o final de semana &#8211; https:\/\/jacobin.com.br\/2023\/08\/como-os-trabalhadores-conquistaram-o-final-de-semana\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TAJ ALI &#8211; Na Batalha de George Square, em 31 de janeiro de 1919, milhares de trabalhadores em greve entraram em confronto com a pol\u00edcia em um confronto sangrento sobre as demandas por uma semana de 40 horas. 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