{"id":1972,"date":"2016-10-29T09:38:14","date_gmt":"2016-10-29T11:38:14","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1972"},"modified":"2016-10-25T09:49:16","modified_gmt":"2016-10-25T11:49:16","slug":"ben-hur-e-a-grandeza-perdida-de-hollywood","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/10\/29\/ben-hur-e-a-grandeza-perdida-de-hollywood\/","title":{"rendered":"Ben-Hur e a grandeza perdida de Hollywood"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Geraldo Couto &#8211;\u00a0<\/strong>Nova vers\u00e3o do cl\u00e1ssico revela: quando mais o cinema contempor\u00e2neo ganha recursos t\u00e9cnicos, mais parece perder em for\u00e7a narrativa, poder de sugest\u00e3o, capacidade de convocar a imagina\u00e7\u00e3o do espectador<\/p>\n<p>\u00c9 justo e leg\u00edtimo descartar sumariamente o novo <em>Ben-Hur<\/em>, de Timur Bekmambetov, como uma \u201cnovela da Record com mais recursos\u201d, a exemplo do que fez Thales de Menezes na <em>Folha de S. Paulo<\/em>. Mas talvez seja interessante tomar esse <em>remake <\/em>med\u00edocre de um filme cl\u00e1ssico como gancho para pensar a dificuldade do cinema norte-americano contempor\u00e2neo em lidar com o g\u00eanero \u00e9pico, em especial com o \u00e9pico b\u00edblico, ou \u201cparab\u00edblico\u201d, como \u00e9 o caso aqui.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o \u00e9pico hist\u00f3rico-mitol\u00f3gico murchou, tornou-se exangue e est\u00e9ril, a despeito da profus\u00e3o de efeitos especiais capazes de criar multid\u00f5es de centenas de milhares de figurantes e erigir fant\u00e1sticas paisagens em 3D, sob o ru\u00eddo ensurdecedor do Dolby digital.Entre o <em>Ben-Hur <\/em>de 1959, filmado por William Wyler, ganhador de onze Oscars, e a vers\u00e3o de 2016, a tecnologia do cinema avan\u00e7ou tremendamente, gra\u00e7as \u00e0s novas possibilidades digitais, mas alguma coisa muito profunda e essencial parece ter se perdido. Correndo o risco de soar exagerado, eu diria que Hollywood perdeu o sentido da grandeza. Ou talvez a grandeza hollywoodiana tenha se deslocado para outros terrenos: n\u00e3o mais o passado \u00e9pico, mas o futuro das aventuras intergal\u00e1cticas juvenis \u00e0 la <em>Star Wars<\/em> ou das distopias selvagens \u00e0 la<em>Mad Max<\/em>, ou ainda o mundo atemporal da pura fantasia \u00e0 la <em>Senhor dos An\u00e9is <\/em>ou <em>Harry Potter<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Artesanato da emo\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Essa parafern\u00e1lia toda, que submerge a plateia numa massa um tanto aleat\u00f3ria de imagens e sons, n\u00e3o substitui a contento o que se perdeu, a saber: uma esp\u00e9cie de artesanato da emo\u00e7\u00e3o, uma constru\u00e7\u00e3o narrativa que sabia jogar com as sensa\u00e7\u00f5es, as intui\u00e7\u00f5es e a intelig\u00eancia do espectador, dando alguma margem para que este tamb\u00e9m se sentisse part\u00edcipe do espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Seria exaustivo e injusto cotejar ponto por ponto das vers\u00f5es de 1959 e 2016 de <em>Ben-Hur<\/em>. Para come\u00e7ar, o filme de William Wyler tinha tr\u00eas horas e meia e o atual tem pouco mais de duas horas. Esse tempo mais dilatado permitiu a Wyler uma constru\u00e7\u00e3o melhor dos personagens e uma matura\u00e7\u00e3o mais consistente dos dramas e conflitos do enredo extra\u00eddo do romance de Lew Wallace, que j\u00e1 tinha sido filmado em 1907 e em 1925.<\/p>\n<p>A nova produ\u00e7\u00e3o, mais abreviada, deixa de lado alguns pontos centrais da vers\u00e3o de 1959: a salva\u00e7\u00e3o do c\u00f4nsul romano por Ben-Hur quando do naufr\u00e1gio da gal\u00e9 em que ele \u00e9 remador; a ado\u00e7\u00e3o do her\u00f3i como filho pelo c\u00f4nsul; o epis\u00f3dio todo do \u201cvale dos leprosos\u201d para onde v\u00e3o parar a m\u00e3e e a irm\u00e3 de Ben-Hur etc.<\/p>\n<p>Deixemos de lado as partes suprimidas. Tr\u00eas passagens presentes em ambos os filmes talvez sejam suficientes para ilustrar as diferen\u00e7as fundamentais entre eles. A primeira \u00e9 a cena que d\u00e1 origem \u00e0 desgra\u00e7a da fam\u00edlia de Hur: o suposto ataque ao novo governador romano da prov\u00edncia da Judeia. No filme de Wyler, quando a irm\u00e3 do protagonista se debru\u00e7a no terra\u00e7o para ver a comitiva passar, uma telha se desloca e cai diante do cavalo do governador, que empina e derruba o cavaleiro. Na vers\u00e3o de 2016, \u00e9 um jovem zelote, escondido na casa dos Hur, que dispara uma flecha contra o romano.<\/p>\n<p><strong>Tributo aos tempos<\/strong><\/p>\n<p>Aqui cabe um par\u00eantese. Todo filme hist\u00f3rico diz muito sobre sua pr\u00f3pria \u00e9poca. No novo <em>Ben-Hur<\/em>, a caracteriza\u00e7\u00e3o do grupo de fan\u00e1ticos judeus (os chamados zelotes) que defendem a viol\u00eancia como forma de luta contra o imp\u00e9rio remete inevitavelmente aos terroristas contempor\u00e2neos do Estado Isl\u00e2mico e outras organiza\u00e7\u00f5es. H\u00e1 outra mudan\u00e7a que pode ser interpretada como um tributo aos tempos atuais: na produ\u00e7\u00e3o de 1959, quem contrata Ben-Hur como condutor de quadriga \u00e9 um sheik \u00e1rabe (Hugh Griffith); na de 2016, \u00e9 um negro africano (Morgan Freeman). \u00c9 como se, nos dias que correm, n\u00e3o fosse conveniente apresentar um \u00e1rabe como aliado do her\u00f3i. Para o p\u00fablico norte-americano, soa mais politicamente correto escalar um negro. Fecha par\u00eantese.<\/p>\n<p>O cotejo entre as duas cenas do suposto atentado (falso numa vers\u00e3o, verdadeiro na outra) contra o governador romano ilumina algo importante: o papel do acaso em momentos-chave da primeira vers\u00e3o, e n\u00e3o na segunda. J\u00e1 vimos que esta \u00faltima suprime o salvamento do c\u00f4nsul pelo her\u00f3i, fruto da casualidade. Outros exemplos proliferam ao longo da narrativa.<\/p>\n<p>Uma segunda compara\u00e7\u00e3o entre passagens an\u00e1logas dos dois filmes revela ainda mais claramente diferen\u00e7as de estilo narrativo. Trata-se da c\u00e9lebre sequ\u00eancia da corrida de quadrigas. \u00c9 um dos momentos altos da vers\u00e3o de William Wyler, com uma articula\u00e7\u00e3o sagaz de grandes planos abertos da arena, planos m\u00e9dios dos principais competidores (Ben-Hur e Messala), closes e pormenores de rodas se chocando, cavalos pateando etc. A todo momento temos uma ideia clara de onde est\u00e1 cada personagem em rela\u00e7\u00e3o ao outro e em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto do cen\u00e1rio. A tens\u00e3o cresce num ritmo que se acelera gradualmente, sem que se perca em nenhum momento a tens\u00e3o dos antagonistas.<\/p>\n<p>Na nova produ\u00e7\u00e3o, a fragmenta\u00e7\u00e3o da imagem, a acelera\u00e7\u00e3o artificial do galope, os closes de pedras que v\u00eam em dire\u00e7\u00e3o ao espectador, a m\u00fasica enf\u00e1tica, tudo cria uma esp\u00e9cie de confus\u00e3o fren\u00e9tica, em que nunca sabemos bem onde estamos e o que se passa na arena. \u00c9 uma est\u00e9tica de videogame, que tenta compensar pelo acr\u00e9scimo de est\u00edmulos sensoriais a falta de envolvimento emocional real com o drama apresentado. Nada parece de verdade, e a satura\u00e7\u00e3o de elementos acaba tendo um efeito anest\u00e9sico, que s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 sopor\u00edfico porque n\u00e3o h\u00e1 quem durma com tanto barulho.<\/p>\n<p>Para que fique mais claro o ponto defendido aqui, vale a pena ver ou rever a sequ\u00eancia da corrida da vers\u00e3o de 1959, uma li\u00e7\u00e3o de cinema cl\u00e1ssico de a\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"473\" height=\"266\" frameborder=\"0\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/frE9rXnaHpE\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Quem assistir ao novo <em>Ben-Hur <\/em>poder\u00e1 conferir na sequ\u00eancia da corrida a diferen\u00e7a de abordagem, de composi\u00e7\u00e3o, de estilo, de ritmo \u2013 e tirar suas conclus\u00f5es. Boa parte do impacto dram\u00e1tico do atropelamento de Messala, na vers\u00e3o anterior, vem da rea\u00e7\u00e3o daqueles que o presenciam: a express\u00e3o de Ben-Hur, do governador Pilatos e dos espectadores an\u00f4nimos diz tanto quanto as breves imagens do corpo pisoteado e ensanguentado.<\/p>\n<p><strong>Jesus prosaico<\/strong><\/p>\n<p>E aqui chegamos ao terceiro cotejamento, entre as apari\u00e7\u00f5es de Jesus Cristo nos dois filmes. No de Wyler, n\u00e3o vemos nunca o rosto do Messias, nem ouvimos sua voz. \u00c9 por meio do efeito que sua presen\u00e7a causa nos outros que intu\u00edmos sua grandeza, seu car\u00e1ter divino. A cena em que Jesus desafia os soldados romanos e d\u00e1 de beber ao her\u00f3i, ent\u00e3o prisioneiro, \u00e9 eloquente. Os olhos do exausto Ben-Hur se iluminam de esperan\u00e7a, o gesto do soldado romano se paralisa de temor. S\u00f3 vemos a cabeleira e as costas de Jesus, seu nome n\u00e3o \u00e9 pronunciado, mas sabemos que \u00e9 ele pelo contexto, pela encena\u00e7\u00e3o, pela presen\u00e7a em nossa mem\u00f3ria de s\u00e9culos de iconografia crist\u00e3.<\/p>\n<p>Em contraste, na vers\u00e3o de Bekmambetov a primeira apari\u00e7\u00e3o de Cristo (Rodrigo Santoro) \u00e9 de um prosa\u00edsmo lament\u00e1vel. Ele aparece no canto direito do quadro, trabalhando numa bancada de marcenaria, quando Ben-Hur fala com Esther sobre a resist\u00eancia judaica aos romanos, e entra na conversa defendendo uma vers\u00e3o <em>pr\u00eat-\u00e0-porter<\/em>dos ensinamentos crist\u00e3os. Parece mais um divulgador de autoajuda do que um ser divino.<\/p>\n<p>A dial\u00e9tica de Wyler (e de boa parte do cinema cl\u00e1ssico) entre o mostrar e o omitir, esse modo de sugerir ao espectador aquilo que um ou v\u00e1rios personagens veem, aparece claramente no epis\u00f3dio da m\u00e3e e da irm\u00e3 leprosas do her\u00f3i. Quando se descobre a masmorra em que elas est\u00e3o, num escuro subsolo de pedra, quem as v\u00ea primeiro, iluminando a cela com uma tocha, \u00e9 o carcereiro, que arregala os olhos e d\u00e1 um passo para tr\u00e1s. Em seguida \u00e9 o soldado romano que avan\u00e7a, estaca e recua assombrado. Nesta cena n\u00e3o vemos nem sequer o vulto das duas, mas o horror \u00e9 enorme. Compare-se, mais uma vez, com a cena banal do seu encontro na vers\u00e3o de 2016. Para Bekmambetov, como para quase todo o cinema americano atual, parece que tudo tem que ser mostrado, explicado, imposto ao espectador, vedando a este a possibilidade de participar da constru\u00e7\u00e3o da fantasia.<\/p>\n<p>Mas talvez a ideia de perda de grandeza a que venho aludindo esteja sintetizada de modo mais simples e cabal no paralelo entre os atores que encarnam o protagonista. Muitos cr\u00edticos n\u00e3o consideravam Charlton Heston um grande ator, em termos t\u00e9cnicos. Mas sua figura imponente e seu rosto de tra\u00e7os fortes enchem a tela, irradiam pot\u00eancia e intensidade. Perto dele, o esfor\u00e7ado Jack Huston quase some, ou antes, fica reduzido a\u2026 um ator de novela da Record.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"CwXEYlTw3u\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/ben-hur-e-a-grandeza-perdida-de-hollywood\/\">Ben-Hur e a grandeza perdida de Hollywood<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Ben-Hur e a grandeza perdida de Hollywood&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/ben-hur-e-a-grandeza-perdida-de-hollywood\/embed\/#?secret=Tc79E4sJF6#?secret=CwXEYlTw3u\" data-secret=\"CwXEYlTw3u\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Geraldo Couto &#8211;\u00a0Nova vers\u00e3o do cl\u00e1ssico revela: quando mais o cinema contempor\u00e2neo ganha recursos t\u00e9cnicos, mais parece perder em for\u00e7a narrativa, poder de sugest\u00e3o, capacidade de convocar a imagina\u00e7\u00e3o do espectador \u00c9 justo e leg\u00edtimo descartar sumariamente o novo Ben-Hur, de Timur Bekmambetov, como uma \u201cnovela da Record com mais recursos\u201d, a exemplo do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1973,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-1972","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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