{"id":19706,"date":"2023-08-15T12:50:33","date_gmt":"2023-08-15T15:50:33","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19706"},"modified":"2023-08-11T17:04:02","modified_gmt":"2023-08-11T20:04:02","slug":"o-vento-nos-governa-a-crise-climatica-muda-o-ritmo-do-ar-e-mexe-com-tudo-que-e-vivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/08\/15\/o-vento-nos-governa-a-crise-climatica-muda-o-ritmo-do-ar-e-mexe-com-tudo-que-e-vivo\/","title":{"rendered":"O vento nos governa: a crise clim\u00e1tica muda o ritmo do ar e mexe com tudo que \u00e9 vivo"},"content":{"rendered":"<p><strong>SANTIAGO WILLS<\/strong> &#8211; Como uma gota de \u00e1gua nascida em um ponto desolado no oceano Atl\u00e2ntico pode ser levada pelos ares at\u00e9 o Caribe e afetar uma comunidade ind\u00edgena no norte da Col\u00f4mbia?<\/p>\n<blockquote><p><em>Quando falamos sobre a crise do clima, raramente pensamos nos ventos. Esquecemos que o ar em movimento \u00e9 o maior fecundador do planeta, o leito celeste do maior rio do mundo, o fator que determina a posi\u00e7\u00e3o de nossas casas, a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de nossas cidades e a exist\u00eancia de todos os seres na Terra. Hoje, assim como a temperatura, o n\u00edvel do mar e a biodiversidade, os ventos est\u00e3o mudando. Uma varia\u00e7\u00e3o de alguns quil\u00f4metros por hora em sua velocidade pode ter consequ\u00eancias graves para nossas vidas<\/em><\/p>\n<p><em>Para Karim Ganem Maloof<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Cerca de oito minutos antes do amanhecer do dia 2 de outubro de 2022, fus\u00f5es nucleares no centro do Sol emitiram um feixe de luz que disparou na dire\u00e7\u00e3o da Terra. Por volta das 6 horas da manh\u00e3, depois que parte do feixe foi absorvida, refletida e espalhada no ar, no vapor da \u00e1gua e em meio a v\u00e1rios poluentes, a luz chegou a um ponto desolado no oceano Atl\u00e2ntico, a cerca de 2 mil quil\u00f4metros de Cabo Verde. A temperatura na \u00e1rea come\u00e7ou a aumentar e uma min\u00fascula gota de \u00e1gua \u2013 pequena o suficiente para que a gravidade n\u00e3o a reclamasse de volta \u2013 subiu acima da superf\u00edcie, levada por uma brisa.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, em redemoinhos e rajadas, a gota de \u00e1gua foi carregada para cima pelo vento. Ultrapassou os 50 metros, o limite habitual para o voo das gaivotas durante o dia, superou a \u00e1rvore mais alta do planeta, alcan\u00e7ou a Torre Eiffel e, por volta do meio-dia, atingiu a altitude de 780 metros acima da superf\u00edcie do mar \u2013 apenas meia centena de metros abaixo do topo do hotel Burj Khalifa (em Dubai), o edif\u00edcio mais alto do mundo.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a gota subia, os ventos al\u00edsios, correntes cont\u00ednuas nascidas da evapora\u00e7\u00e3o nos tr\u00f3picos e da rota\u00e7\u00e3o da Terra, a empurravam na dire\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica, assim como fizeram 530 anos atr\u00e1s com as caravelas de Colombo. Entre 2 e 5 de outubro, a pequena gota de \u00e1gua percorreu cerca de 1,6 mil quil\u00f4metros. Durante a noite e as primeiras horas da manh\u00e3 seguinte, os ventos se curvaram sutilmente para o sul sobre Roseau, a capital de Dominica (uma ilha no mar do Caribe), em um c\u00e9u relativamente ensolarado. Impulsionada por correntes cada vez mais r\u00e1pidas, a gota nascida perto de Cabo Verde, agora um pouco mais pesada, mas n\u00e3o o suficiente para retornar \u00e0s ondas, se dirigiu para o sudoeste, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela e ao norte da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Em termos gerais, a viagem se assemelhava \u00e0quela que trilh\u00f5es de got\u00edculas microsc\u00f3picas de \u00e1gua fazem todos os dias nessa \u00e9poca do ano. A gota percorreu um caminho a\u00e9reo conhecido, por assim dizer. Entretanto, havia certas diferen\u00e7as em sua rota e, nos Estados Unidos e na pen\u00ednsula de La Guajira, no norte da Col\u00f4mbia, alguns meteorologistas come\u00e7aram a detect\u00e1-las com preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Uma viagem para perseguir o vento<\/strong><\/p>\n<p>Em uma tarde do in\u00edcio de outubro, aterrissei em La Guajira, um departamento \u00e1rido na costa caribenha da Col\u00f4mbia, acompanhado pelo fot\u00f3grafo Sebasti\u00e1n Di Domenico. Em Riohacha, a capital regional, rajadas de vento levantavam redemoinhos de areia ao nosso redor. Sem aviso, um temporal fez meu chap\u00e9u voar sobre a tape\u00e7aria de conchas que demarca a fronteira entre a \u00e1gua e a terra. No horizonte, nuvens cinzentas escureciam o c\u00e9u. Gaivotas, cormor\u00f5es e pelicanos ascendiam usando correntes verticais de ar para ter uma vis\u00e3o melhor das \u00e1guas. No cal\u00e7ad\u00e3o, o cabelo de uma menina imitava o balan\u00e7o das palmeiras que, impulsionadas pelo vento, emolduravam a cidade por tr\u00e1s dela. \u00c0 medida que a noite se aproximava, a mar\u00e9 consumia cada vez mais a areia da praia e as ondas arrebentavam com mais for\u00e7a. \u201cHoje, retiramos da \u00e1gua um menino de 9 anos que estava se afogando\u201d, me disse um salva-vidas que estava deixando seu posto de vigil\u00e2ncia. \u201cEle est\u00e1 no hospital. Est\u00e1 em mau estado. A praia fecha \u00e0s 17 horas.\u201d Nossa viagem tinha como objetivo perseguir o vento: senti-lo, toc\u00e1-lo, cheir\u00e1-lo, fotograf\u00e1-lo. Se isso era poss\u00edvel, seria ali.<\/p>\n<p>Em 2000, a Empresas P\u00fablicas de Medell\u00edn (EPM) e a Deutsche Gesellschaft f\u00fcr Internationale Zusammenarbeit (GIZ), uma companhia estatal alem\u00e3 dedicada \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o internacional, instalaram duas esta\u00e7\u00f5es de monitoramento e\u00f3lico em La Guajira. A an\u00e1lise de 18 meses de dados concluiu que o departamento \u2014 divis\u00e3o administrativa que corresponde ao estado no Brasil \u2014 era ideal para a explora\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica, com velocidade m\u00e9dia para o vento de cerca de 9,8 metros por segundo durante todo o ano, quase o dobro da m\u00e9dia de Chicago, a \u201ccidade do vento\u201d. A partir daquele momento, a energia desse tipo passou a representar uma promessa de desenvolvimento para La Guajira, o quarto departamento mais pobre da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>A energia e\u00f3lica tamb\u00e9m \u00e9 uma das grandes apostas do governo do presidente\u00a0<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/pt\/tag\/gustavo-petro\/\" rel=\"noopener\">Gustavo Petro<\/a>\u00a0na\u00a0<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/pt\/tag\/transicao-energetica\/\" rel=\"noopener\">transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica<\/a>. De acordo com Belizza Janet Ruiz, ent\u00e3o vice-ministra de Minas e Energia, se tudo correr como o governo espera, at\u00e9 o final do mandato ser\u00e3o produzidos 5 mil gigawatts de energia, aproximadamente 6% da matriz de gera\u00e7\u00e3o de energia colombiana, ou o suficiente para fornecer energia a um pa\u00eds como a Nicar\u00e1gua. Isso substituiria quase 700 mil toneladas de di\u00f3xido de carbono, ou o total de emiss\u00f5es de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.minambiente.gov.co\/cambio-climatico\/en-promedio-un-colombiano-emite-al-ano-16-toneladas-de-co2\/\" rel=\"noopener\">437,5 mil colombianos<\/a>, de acordo com seus c\u00e1lculos. Em janeiro de 2023, no entanto, Ruiz renunciou ao cargo. Entre os motivos, ela citou a hostilidade da ministra de Minas e Energia, Irene V\u00e9lez, a inclus\u00e3o de dados falsos nos relat\u00f3rios e a sele\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios que n\u00e3o atendiam aos requisitos t\u00e9cnicos exigidos por lei para os conselhos de administra\u00e7\u00e3o e outros cargos. No fim de junho, apesar dos problemas no minist\u00e9rio, Petro aumentou consideravelmente sua aposta energ\u00e9tica na energia e\u00f3lica. \u201cCom apenas a energia limpa de La Guajira em seu m\u00e1ximo, poder\u00edamos substituir toda a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade da Col\u00f4mbia, inclusive as usinas hidrel\u00e9tricas\u201d, ele disse durante a assinatura de um pacto com comunidades ind\u00edgenas para autorizar a constru\u00e7\u00e3o de uma linha capaz de transmitir energia do norte para o centro do pa\u00eds. (Em julho, Irene V\u00e9lez, a ministra da pasta encarregada de executar essa vis\u00e3o, renunciou em meio a um esc\u00e2ndalo de tr\u00e1fico de influ\u00eancia envolvendo seu marido. Pelo que se sabe, Petro a nomeou devido \u00e0 sua proximidade com o pai de V\u00e9lez. Para substitu\u00ed-la, o presidente nomeou Andr\u00e9s Camacho, um engenheiro e\u00a0<em>ex-skinhead<\/em>\u00a0que, ao se candidatar a outro cargo no governo, apresentou um curr\u00edculo no qual afirmava ter 22 anos de experi\u00eancia profissional. Desse total, ele s\u00f3 conseguiu comprovar nove. Camacho atribuiu o mal-entendido a um \u201cerro de registro\u201d.)<\/p>\n<p>De acordo com Lyall Watson, bot\u00e2nico, zo\u00f3logo e antrop\u00f3logo sul-africano, em\u00a0<em>Heaven\u2019s Breath: A Natural History of the Wind<\/em>\u00a0[A Respira\u00e7\u00e3o dos C\u00e9us \u2013 Uma Hist\u00f3ria Natural do Vento], a b\u00edblia do vento, estima-se que aproximadamente 2% da energia que a Terra recebe do Sol seja convertida em energia cin\u00e9tica na forma de vento. Isso significa que, a cada momento, a energia produzida pelo vento na atmosfera seria suficiente para suprir as necessidades energ\u00e9ticas do planeta inteiro. O problema \u00e9 que o vento est\u00e1 distribu\u00eddo por toda a atmosfera, e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil captur\u00e1-lo. Atualmente, as energias e\u00f3lica e solar\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/science-environment-60917445\" rel=\"noopener\">atendem a 10%<\/a>\u00a0das necessidades energ\u00e9ticas mundiais. A maioria dos pa\u00edses est\u00e1 em uma corrida para aumentar essa participa\u00e7\u00e3o. (As apostas relacionadas ao vento n\u00e3o se limitam \u00e0 energia:\u00a0<a href=\"https:\/\/news.mongabay.com\/2021\/03\/new-age-of-sail-looks-to-slash-massive-maritime-carbon-emissions\/\" rel=\"noopener\">um retorno ao transporte mar\u00edtimo movido a vento<\/a>\u00a0tamb\u00e9m foi proposto para substituir as emiss\u00f5es do setor de navega\u00e7\u00e3o internacional.)<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 v\u00e1rias suposi\u00e7\u00f5es problem\u00e1ticas por tr\u00e1s desse objetivo e dos planos ambiciosos de presidentes como Petro. Por um lado, o hist\u00f3rico de desenvolvimento de usinas e\u00f3licas em pa\u00edses como a Col\u00f4mbia vem sendo prejudicado por dificuldades culturais, burocr\u00e1ticas e sociais. Sua implementa\u00e7\u00e3o na Col\u00f4mbia vem avan\u00e7ando de forma morosa: hoje, h\u00e1 pelo menos\u00a0<a href=\"https:\/\/cambiocolombia.com\/articulo\/medio-ambiente\/los-grandes-retos-de-la-transicion-y-la-soberania-energetica\" rel=\"noopener\">cinco dezenas de usinas e\u00f3licas<\/a>\u00a0no papel e duas em opera\u00e7\u00e3o. Por outro lado, o vento \u2013 esse motor que durante s\u00e9culos serviu fielmente a agricultores, navegadores e aeronautas \u2013 parece estar mudando, em grande parte por causa da crise do clima.<\/p>\n<div class=\"font-30\">\n<p><strong>\u2018P\u00edlulas de otimismo est\u00e3o em falta\u2019<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>O vento nasce de um bal\u00e9 conduzido por uma estrela. As rajadas que sentimos acariciar nossa pele s\u00e3o consequ\u00eancia de um eterno jogo de persegui\u00e7\u00e3o entre o ar quente e o ar frio. Quando os raios solares aquecem a mistura invis\u00edvel de gases que comp\u00f5em um segmento do ar, as mol\u00e9culas desses gases come\u00e7am a se movimentar mais r\u00e1pido e a se afastar umas das outras. O espa\u00e7o entre as mol\u00e9culas aumenta e essa por\u00e7\u00e3o de ar se torna menos densa do que a mat\u00e9ria ao seu redor, de modo que, como acontece em um bal\u00e3o de ar quente, ela sobe. O oposto ocorre quando uma por\u00e7\u00e3o de ar esfria: as mol\u00e9culas se movem mais lentamente e se aproximam, e o segmento de ar desce, pois se torna mais denso e pesado. Quando uma massa de ar sobe, o espa\u00e7o que ela ocupava fica livre. Cria-se, assim, uma zona de baixa press\u00e3o, que o ar ao redor procura ocupar (os gases s\u00e3o fluidos, bem como os l\u00edquidos, e procuram preencher o espa\u00e7o livre). Esse movimento, que tamb\u00e9m acontece no sentido oposto, quando o ar frio desce e cria uma zona de alta press\u00e3o, \u00e9 o que chamamos de vento.<\/p>\n<p>Os raios solares golpeiam o planeta em \u00e2ngulos diferentes, a depender da inclina\u00e7\u00e3o e da posi\u00e7\u00e3o da Terra. Em lugares como Riohacha, nos tr\u00f3picos, os raios chegam de forma quase perpendicular. O ar se aquece mais do que no resto do mundo, expande-se e sobe quase 15 quil\u00f4metros acima da superf\u00edcie. O oposto ocorre nos polos em diversas \u00e9pocas do ano. Essas diferen\u00e7as de temperatura, aliadas \u00e0 rota\u00e7\u00e3o do planeta, s\u00e3o respons\u00e1veis por correntes de ar cont\u00ednuas em escala global, como os ventos do oeste, os ventos al\u00edsios e as\u00a0<em>jet streams<\/em>\u00a0(correntes de jato), que circundam o planeta na atmosfera superior em velocidades de centenas de quil\u00f4metros por hora.<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas d\u00e9cadas, o ritmo dessa dan\u00e7a impulsionada pelo sol vem desacelerando. Diversos estudos cient\u00edficos detectaram mudan\u00e7as nas velocidades do vento na superf\u00edcie \u2013 medidas 10 metros acima do solo \u2013 que n\u00e3o podem ser atribu\u00eddas a varia\u00e7\u00f5es c\u00edclicas ou simples anomalias. Em 1999,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.int-res.com\/articles\/cr1999\/13\/c013p193.pdf\" rel=\"noopener\">uma an\u00e1lise<\/a>\u00a0sobre quase 30 anos de dados constatou uma redu\u00e7\u00e3o m\u00e9dia na velocidade do vento. Estudos realizados na Austr\u00e1lia, na \u00c1sia, na Europa e na Am\u00e9rica chegaram a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/ngeo979\" rel=\"noopener\">resultados semelhantes<\/a>. Por causa deles, come\u00e7ou a se falar de uma redu\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/news.2010.543\" rel=\"noopener\">de cerca de 10%<\/a>\u00a0na velocidade m\u00e9dia do vento em todo o mundo (havia casos mais preocupantes: na China, por exemplo,\u00a0<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s00382-017-3997-y#Tab1\" rel=\"noopener\">a redu\u00e7\u00e3o foi de cerca de 29%<\/a>) e de um fen\u00f4meno n\u00e3o totalmente explic\u00e1vel chamado\u00a0<em>global terrestrial stilling<\/em>\u00a0[literalmente, calmaria terrestre mundial]. Em 2021, o norte da Europa sofreu uma escassez de ventos. De acordo com\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/d53b5843-dbe0-4724-8adf-75c66127ea80\" rel=\"noopener\">uma an\u00e1lise<\/a>, as velocidades do vento na superf\u00edcie naquela parte do planeta diminu\u00edram em m\u00e9dia 15%. Isso afetou especialmente os pa\u00edses que mais progrediram na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Em setembro de 2020, 18% da energia do Reino Unido foi gerada por usinas e\u00f3licas, mas, no mesmo m\u00eas de 2021,\u00a0<a href=\"https:\/\/e360.yale.edu\/features\/global-stilling-is-climate-change-slowing-the-worlds-wind\" rel=\"noopener\">apenas 2%<\/a>\u00a0eram provenientes dessa fonte de energia alternativa, para oferecer um exemplo.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia, n\u00e3o existem grandes estudos sobre as mudan\u00e7as na velocidade do vento na superf\u00edcie, de acordo com a engenheira Yolanda Gonz\u00e1lez Hern\u00e1ndez,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.larepublica.co\/economia\/yolanda-gonzalez-sera-directora-del-centro-de-investigacion-de-fenomeno-de-el-nino-3665553\" rel=\"noopener\">ent\u00e3o diretora do Instituto de Hidrolog\u00eda, Meteorolog\u00eda y Estudios Ambientales (Ideam)<\/a>, a ag\u00eancia governamental encarregada de monitorar, analisar e ajudar a mitigar os desastres clim\u00e1ticos. Mesmo em La Guajira, cuja economia pode muito bem depender do vento no futuro, n\u00e3o h\u00e1 dados sobre o assunto. De qualquer forma, o padr\u00e3o \u00e9 global: os ventos est\u00e3o mudando, e h\u00e1 ind\u00edcios de que o fen\u00f4meno n\u00e3o est\u00e1 ocorrendo apenas perto da superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Assim como acontece com o n\u00edvel do mar e a temperatura \u2013 talvez as consequ\u00eancias mais frequentemente mencionadas da crise clim\u00e1tica \u2013, as mudan\u00e7as est\u00e3o ocorrendo em ritmo que dificulta a coleta de dados suficientes. O Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7a do Clima (IPCC), da ONU, calculou redu\u00e7\u00f5es e aumentos de cerca de 10% na velocidade dos ventos em diferentes partes do mundo, sob um cen\u00e1rio de uma alta de 1,5 grau Celsius na temperatura com rela\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis pr\u00e9-industriais,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2022\/oct\/27\/climate-crisis-un-pathway-1-5-c#:~:text=There%20is%20%E2%80%9Cno%20credible%20pathway,%E2%80%9Crapid%20transformation%20of%20societies%E2%80%9D.\" rel=\"noopener\">o que j\u00e1 \u00e9 inevit\u00e1vel mesmo a curto prazo<\/a>. \u00c0 primeira vista, as varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o m\u00ednimas. Ou pelo menos esse seria o consolo inicial. Mas se acreditamos nisso \u00e9 simplesmente porque nos esquecemos da \u2013 ou n\u00e3o conhecemos a \u2013 extens\u00e3o dos movimentos do ar na Terra.<\/p>\n<p>\u201cAs p\u00edlulas de otimismo est\u00e3o em falta\u201d, me disse Juan Fernando Salazar, professor da Escola Ambiental na Faculdade de Engenharia da Universidade de Antioquia, certa tarde em Medell\u00edn. \u201cEstamos mudando a termodin\u00e2mica da atmosfera\u201d, ele prosseguiu. \u201cE bastam pequenas mudan\u00e7as para causar coisas graves.\u201d<\/p>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"galeria-conteudo\">\n<div>\n<div class=\"img-conteudo-wrapper\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2_Copia-de-04102022-_DSC4522-1998x1332.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<div class=\"legendas font-12 font-space-grotesk color-dark_green\">\n<p><em>Julia, a tempestade que vai virar furac\u00e3o, come\u00e7a a levar ondas fortes para as praias de Riohacha, capital de La Guajira, na Col\u00f4mbia<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"conteudo-repetidor grid-10\">\n<div class=\"conteudo_principal grid-span-6\">\n<div class=\"font-30\">\n<p><strong>A subst\u00e2ncia das nuvens<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Na manh\u00e3 de 6 de outubro, a pequena gota, que havia surgido quatro dias antes no meio do oceano Atl\u00e2ntico, cruzou o meridiano 65 graus a oeste em uma corrente de ar e cerca de 800 metros acima da superf\u00edcie da \u00e1gua. \u00c0 medida que a temperatura aumentava, a gota ascendia sobre o agitado mar do Caribe.<\/p>\n<p>Horas depois, com o sol a pino, a gota estava posicionada entre a Rep\u00fablica Dominicana e a costa da Venezuela, ao largo de Maracay, impulsionada por rajadas cada vez mais r\u00e1pidas. Com o tempo, ela havia aumentado de tamanho, ganhando microgramas de peso. Apesar desse crescimento, ela ainda era extremamente leve e os ventos a mantinham no ar sem muito esfor\u00e7o (em m\u00e9dia, uma gota de chuva pesa 0,034 grama, menos do que o peso de um c\u00edlio). Bilh\u00f5es de gotas semelhantes, \u201ca subst\u00e2ncia das nuvens\u201d, como as define Lyall Watson, estavam se movendo ao lado dela na dire\u00e7\u00e3o da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Por volta das 11 da manh\u00e3 daquele dia, o Ideam emitiu um alerta sobre uma onda tropical no mar do Caribe venezuelano. Funcion\u00e1rios do instituto identificaram uma massa de ar com baixa press\u00e3o movimentando-se a 25 quil\u00f4metros por hora na dire\u00e7\u00e3o oeste. O Ideam tem acesso a cerca de 2,6 mil esta\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas e v\u00e1rios sat\u00e9lites de acesso livre que rastreiam os padr\u00f5es de vento no mundo todo. Os meteorologistas do instituto identificaram e acompanharam o sistema de baixa press\u00e3o por dois dias, e o monitoraram cuidadosamente. De acordo com o Centro Nacional de Furac\u00f5es, uma divis\u00e3o do governo dos EUA encarregada de monitorar tempestades tropicais a partir de uma base na Universidade da Fl\u00f3rida que est\u00e1 em contato permanente com o Ideam, havia uma alta probabilidade de que a onda se convertesse no 13\u00ba furac\u00e3o da temporada.<\/p>\n<div class=\"font-30\">\n<p>A vida depende do vento e existe por causa dele<\/p>\n<\/div>\n<p>O vento nos governa. Sua presen\u00e7a determina o clima de cada dia, a maneira como nos vestimos e a vida de bilh\u00f5es de seres, inclusive os humanos. Ele afeta as chuvas \u2013 as chuvas n\u00e3o passam, elas s\u00e3o carregadas pelo vento \u2013, a localiza\u00e7\u00e3o de nossas cidades e assentamentos, as formas de nossas casas, pontes e edif\u00edcios; a reprodu\u00e7\u00e3o de dezenas de milhares de esp\u00e9cies de fungos, samambaias, musgos e algas; a sobreviv\u00eancia de praticamente todos os p\u00e1ssaros, flores, plantas com sementes, aranhas, insetos, r\u00e9pteis, moluscos e mam\u00edferos que aprenderam a planar, voar em correntes de ar ou voar (uma vez me perguntaram como os p\u00e1ssaros voam: em poucas palavras, as asas aceleram massas de ar para baixo e criam for\u00e7a suficiente para contrabalan\u00e7ar o peso do animal e levant\u00e1-lo); o rendimento das safras, nossa sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica e o fluxo de bact\u00e9rias e v\u00edrus em todo o mundo; as mar\u00e9s, a polui\u00e7\u00e3o do ar e a migra\u00e7\u00e3o de p\u00e1ssaros, lib\u00e9lulas, borboletas e centenas de esp\u00e9cies de plantas e animais; o formato das dunas, os nutrientes no solo e a extens\u00e3o dos desastres naturais e humanos.<\/p>\n<p>A vida no planeta depende dos ventos e existe por causa deles e de sua relativa const\u00e2ncia, dessa partitura conduzida por uma estrela. A maioria das culturas ao redor do mundo est\u00e1 ciente disso e designou uma ou mais divindades para represent\u00e1-lo. Os sum\u00e9rios tinham Enlil, senhor de todos os ventos; os gregos tinham Zeus, deus do trov\u00e3o, das tempestades e do clima, e os\u00a0<em>anemi<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>anemoi<\/em>\u00a0\u2013 Noto, B\u00f3reas, Euro e Z\u00e9firo \u2013, os quatro deuses do vento, associados aos pontos cardeais, que \u00c9olo mantinha cativos em sua ilha, de acordo com a\u00a0<em>Odisseia<\/em>; os Tainos, na Am\u00e9rica, tinham Jun Raqan, um deus representado por uma figura de cabe\u00e7a grande com bra\u00e7os que se movem no sentido anti-hor\u00e1rio \u2013 a origem da palavra furac\u00e3o; para os astecas, era Tezcatlipoca, o vento noturno onipresente; e os Wayuu tinham Pulowi, uma divindade feminina associada ao vento e \u00e0 seca. H\u00e1 tamb\u00e9m uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre o vento e o esp\u00edrito. Em latim,\u00a0<em>spiritus<\/em>\u00a0\u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o ou respira\u00e7\u00e3o de um deus; em grego,\u00a0<em>pneuma<\/em>\u00a0\u00e9 tanto esp\u00edrito quanto vento; e em \u00e1rabe e hebraico,\u00a0<em>ruh<\/em>\u00a0\u00e9 vento e sopro.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO sopro do universo se chama vento\u201d, escreveu o fil\u00f3sofo taoista chin\u00eas Chuang Tzu.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cO vento somos n\u00f3s, recolhe e recorda todas as nossas vozes, depois as envia para falar e contar hist\u00f3rias em meio \u00e0s folhas e aos campos\u201d, escreveu Truman Capote. Quando, perto da Terra do Fogo, uma migra\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de borboletas o cercou no navio Beagle, Darwin anotou: \u201c\u2026voavam em bandos ou massas de incont\u00e1veis milhares, estendendo-se at\u00e9 onde a vista alcan\u00e7ava. Mesmo com a ajuda de um telesc\u00f3pio, n\u00e3o era poss\u00edvel observar um espa\u00e7o livre de borboletas. Os marinheiros gritavam que \u2018estava nevando borboletas\u2019, e de fato parecia que sim\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSem o vento, a maior parte da Terra seria inabit\u00e1vel\u201d, escreve Lyall Watson em\u00a0<em>Heaven\u2019s Breath<\/em>.<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"galeria-conteudo\">\n<div>\n<div class=\"img-conteudo-wrapper\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3_Copia-de-06102022-_H4I4102-1998x1332.jpg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" width=\"640\" height=\"426\" \/><\/p>\n<div class=\"legendas font-12 font-space-grotesk color-dark_green\">\n<p><em>Colhereiro-rosado e gar\u00e7a branca decolam perto da costa, em busca de alimento<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"conteudo-repetidor grid-10\">\n<div class=\"conteudo_principal grid-span-6\">\n<p>O vento \u00e9 o maior fecundador do planeta: carrega cada um do bilh\u00e3o de gr\u00e3os de p\u00f3len que anualmente cobrem cada metro quadrado da Terra. Conecta o Polo Norte ao Caribe, a Patag\u00f4nia \u00e0 Austr\u00e1lia e o norte da \u00c1frica \u00e0 Europa e Am\u00e9rica do Sul. As correntes de vento que transportam a areia avermelhada do Saara causaram chuvas cor de sangue nos pa\u00edses europeus. Homero e Virg\u00edlio as mencionam. Em 1859, uma neve carmesim cobriu milhares de quil\u00f4metros quadrados na Alemanha. O f\u00f3sforo da areia vermelha do Saara fertiliza e d\u00e1 vida \u00e0 Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua sem vento\u201d, diz um ditado. Todos os rios do mundo correm para o mar, devido \u00e0 atra\u00e7\u00e3o gravitacional da Terra. Em m\u00e9dia, eles depositam aproximadamente 40 mil quil\u00f4metros c\u00fabicos de \u00e1gua por ano, o suficiente para cobrir toda a superf\u00edcie terrestre da Am\u00e9rica do Sul com mais de 2 metros de \u00e1gua. A atmosfera rep\u00f5e essa \u00e1gua na forma de chuva \u2013 se isso n\u00e3o acontecesse, os rios secariam \u2013, e o faz por meio de correntes de vento carregadas de \u00e1gua, \u00e0s vezes chamadas de rios a\u00e9reos ou rios voadores (Jos\u00e9 Marengo, meteorologista peruano e colaborador do IPCC, cunhou o termo h\u00e1 pelo menos 15 anos). Essas correntes s\u00e3o alimentadas pela evapora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua causada pelo Sol e pela transpira\u00e7\u00e3o das plantas, outro fen\u00f4meno igualmente importante.<\/p>\n<p>Assim como n\u00f3s, as \u00e1rvores transpiram. Na Amaz\u00f4nia, uma \u00e1rvore saud\u00e1vel de 20 metros de altura pode liberar mil litros de \u00e1gua no ar todos os dias por meio da transpira\u00e7\u00e3o. Essa \u00e1gua sobe em forma de vapor e alimenta o rio voador acima dela, que, por sua vez, alimentar\u00e1 os rios e as \u00e1rvores no solo.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 poss\u00edvel calcular a trajet\u00f3ria da chuva que caiu em um ponto espec\u00edfico do planeta usando imagens de sat\u00e9lite (os c\u00e1lculos para este artigo s\u00e3o cortesia do pesquisador Rub\u00e9n Molina, da SOS-Cuenca). As proje\u00e7\u00f5es sobre as trajet\u00f3rias passadas mostram a import\u00e2ncia dos rios a\u00e9reos e os perigos associados \u00e0s mudan\u00e7as neles. A chuva em uma cidade como Medell\u00edn \u00e9 \u00e1gua que poderia estar nas Antilhas ou em Manaus h\u00e1 uma semana.<\/p>\n<p>As florestas s\u00e3o florestas, as plan\u00edcies s\u00e3o plan\u00edcies e os desertos s\u00e3o desertos por causa do vento. Um aumento ou uma diminui\u00e7\u00e3o de alguns quil\u00f4metros por hora na velocidade do vento pode mudar um ecossistema, criar uma paisagem e determinar se sobreviveremos a uma onda de calor, se ouviremos um pedido de ajuda, se sentiremos o cheiro do fog\u00e3o a g\u00e1s que o vizinho esqueceu de desligar, se a chuva cair\u00e1 sobre nossas cabe\u00e7as e se uma tempestade tropical se tornar\u00e1 um furac\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"font-30\">\n<p><strong>Melhorias prometidas pelo vento<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Enquanto a pequena gota nascida nas proximidades de Cabo Verde ganhava velocidade ao passar por La Guajira, Sebasti\u00e1n Di Domenico e eu partimos de Riohacha para Cabo de la Vela, uma pequena cidade balne\u00e1ria conhecida por suas praias, comida e kitesurf. N\u00e3o muito longe dali est\u00e3o as duas \u00fanicas usinas e\u00f3licas em funcionamento na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Sob um c\u00e9u ensolarado, dirigimos por uma estrada ladeada de espinheiros, moinhos de vento com l\u00e2minas de estanho e ac\u00e9quias repletas de \u00e1gua at\u00e9 Uribia, uma cidade ocre de ruas sem pavimenta\u00e7\u00e3o conhecida como a capital ind\u00edgena da Col\u00f4mbia, pois tem a maior popula\u00e7\u00e3o nativa do pa\u00eds. Noventa e oito por cento de seus quase 190 mil habitantes s\u00e3o parte dos Wayuu, um povo ind\u00edgena que vive principalmente de pastoreio e com\u00e9rcio na pen\u00ednsula colombiana de La Guajira e no estado de Zulia, no noroeste da Venezuela.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"galeria-conteudo\">\n<div class=\"img-conteudo-wrapper\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-19710\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ashampoo_Snap_sexta-feira-11-de-agosto-de-2023_16h54m6s.png?resize=640%2C791&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"791\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ashampoo_Snap_sexta-feira-11-de-agosto-de-2023_16h54m6s.png?w=649&amp;ssl=1 649w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ashampoo_Snap_sexta-feira-11-de-agosto-de-2023_16h54m6s.png?resize=243%2C300&amp;ssl=1 243w, https:\/\/i0.wp.com\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ashampoo_Snap_sexta-feira-11-de-agosto-de-2023_16h54m6s.png?resize=10%2C12&amp;ssl=1 10w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<div class=\"legendas font-12 font-space-grotesk color-dark_green\">\n<p><em>Mulher Wayuu faz artesanato em Uribia, capital ind\u00edgena da Col\u00f4mbia<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"conteudo-repetidor grid-10\">\n<div class=\"conteudo_principal grid-span-6\">\n<p>Tomamos caf\u00e9 da manh\u00e3, comendo arepas e uma mistura de ensopados de cabra, carne bovina e ovelha (n\u00e3o comemos iguana), e depois nos reunimos com Edgar Paz Gonz\u00e1lez, uma autoridade tradicional da comunidade Wourre de Wayuu, e Hern\u00e1n G\u00f3mez, subsecret\u00e1rio de Minas e Energia do munic\u00edpio entre 2021 e 2022, para falar sobre a hist\u00f3ria das usinas e\u00f3licas na regi\u00e3o. Paz nos recebeu em sua casa, nos arredores da cidade, pouco antes de o segundo aguaceiro do dia invadir o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Desde 2015 a comunidade Wourre vem negociando com uma empresa chamada Begonia Power, hoje controlada pela Celsia, parte do Grupo Argos, um dos maiores conglomerados colombianos. A Begonia Power pretende instalar 16 turbinas e\u00f3licas \u2013 enormes e finos moinhos de vento de tr\u00eas p\u00e1s que podem transformar a energia e\u00f3lica em eletricidade \u2013 e duas linhas de transmiss\u00e3o em terras pertencentes \u00e0 comunidade Wourre e a duas outras comunidades Wayuu, a pouco mais de uma hora ao sul de Uribia. \u201cNascemos, e \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica\u201d, disse Paz sobre o vento na regi\u00e3o. \u201cAqui \u00e9 quente. J\u00e1 ali voc\u00ea se deita em um\u00a0<em>chinchorro<\/em>\u00a0[rede] e a brisa sopra.\u201d<\/p>\n<p>Os problemas para a constru\u00e7\u00e3o da usina, batizada de Acacia 2, s\u00e3o emblem\u00e1ticos da regi\u00e3o. Em princ\u00edpio, a Acacia 2 representa uma oportunidade importante para essas comunidades, porque elas n\u00e3o t\u00eam escolas, moradias feitas com material de constru\u00e7\u00e3o, energia, aquedutos ou acesso constante \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel (muitas vezes precisam trazer caminh\u00f5es-tanque de cidades pr\u00f3ximas). Em troca da instala\u00e7\u00e3o de turbinas em seu territ\u00f3rio, a empresa deve compens\u00e1-las com melhorias em sua qualidade de vida \u2013 escolas, casas, po\u00e7os etc. \u2013 e com apoio para a cria\u00e7\u00e3o de projetos produtivos, a exemplo de artesanato, pecu\u00e1ria e planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples, \u00e9 claro. Para erguerem usinas e\u00f3licas, as empresas precisam cumprir v\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es legais, como estudos de impacto ambiental, exig\u00eancias burocr\u00e1ticas e consulta pr\u00e9via. Essa \u00faltima \u00e9 um direito fundamental que os grupos \u00e9tnicos e ind\u00edgenas t\u00eam ao tomar decis\u00f5es sobre projetos que possam afetar uma comunidade. No caso da Acacia 2, havia tr\u00eas comunidades no local escolhido para a constru\u00e7\u00e3o da usina. A empresa optou por negociar individualmente e realizar consultas pr\u00e9vias com cada uma delas, ainda que, no in\u00edcio, houvesse uma frente comum, de acordo com Edgar Paz. No caso da comunidade dele, a usina ocupar\u00e1 metade do territ\u00f3rio, especificamente a pastagem de suas vacas, cabras e ovelhas, o principal ganha-p\u00e3o dos moradores. \u201cAceitamos esses projetos em um esfor\u00e7o para melhorar o que nos falta e sabendo que os impactos negativos ser\u00e3o significativos para n\u00f3s\u201d, disse Paz naquela manh\u00e3 em Uribia. \u201cPara n\u00f3s, isso n\u00e3o tem pre\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>A licen\u00e7a ambiental para a usina Acacia 2 foi aprovada em 2016. Segundo os engenheiros, a constru\u00e7\u00e3o da infraestrutura f\u00edsica pode levar de um a dois anos, mas, apesar das in\u00fameras reuni\u00f5es entre a comunidade e a empresa, ainda n\u00e3o se chegou a um acordo final sobre a compensa\u00e7\u00e3o. O Minist\u00e9rio do Interior e o gabinete do prefeito de Maicao deveriam acompanhar as conversas, mas apenas o primeiro esteve presente, disse Paz. E at\u00e9 que cheguem a um acordo nem a constru\u00e7\u00e3o da usina, nem a constru\u00e7\u00e3o da escola, nem as outras melhorias prometidas pelo vento poder\u00e3o come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Assim como o Acacia 2, a maioria dos projetos e\u00f3licos em La Guajira est\u00e1 progredindo mais lentamente do que o planejado, segundo Hern\u00e1n G\u00f3mez, ex-secret\u00e1rio de Minas e Energia em Uribia. Entre 2018 e 2022, o governo do presidente Iv\u00e1n Duque promoveu quase uma dezena de projetos. Alpha y Beta, o maior deles, ter\u00e1 50 turbinas e\u00f3licas capazes de produzir 504 megawatts, energia suficiente para abastecer 2,5 milh\u00f5es de colombianos. Elas deveriam ter entrado em opera\u00e7\u00e3o meses atr\u00e1s, me disse G\u00f3mez em um escrit\u00f3rio da prefeitura. O governo local est\u00e1 tentando dar continuidade \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o existem recursos suficientes para isso. H\u00e1 3,5 mil comunidades registradas, para mais de 50 usinas e\u00f3licas, informa G\u00f3mez. O gabinete do prefeito recebe cinco ou seis convites por dia para consultas pr\u00e9vias, mas n\u00e3o h\u00e1 capacidade financeira nem funcion\u00e1rios suficientes, concluiu ele antes de nos despedirmos.<\/p>\n<p>Ao meio-dia, pegamos a \u00fanica estrada que leva de Uribia a Cabo de la Vela. Uma chuva torrencial vinda do leste transformava a estrada em um loda\u00e7al de cor acobreada. Do lado de fora da cabine do utilit\u00e1rio, ventos caprichosos e fortes mudavam a dire\u00e7\u00e3o da chuva de um momento para o outro. As gotas agu\u00e7adas sacudiam as cercas vivas e as paredes de barro dos ranchos Wayuu pelos quais pass\u00e1vamos ao longo do caminho.<\/p>\n<p>O vento havia arrastado a maior parte das nuvens para o mar quando, duas horas depois, vimos as primeiras turbinas e\u00f3licas no horizonte. Elas pareciam gigantes esbeltos transmitindo sinais no meio dos campos desolados. Paramos no meio da estrada, que corria paralela aos trilhos da ferrovia de Cerrej\u00f3n, a maior mina de carv\u00e3o a c\u00e9u aberto do mundo.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"galeria-conteudo\">\n<div>\n<div class=\"img-conteudo-wrapper\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/5_Copia-de-05102022-_DSC4681-1998x1332.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" width=\"640\" height=\"427\" \/><\/p>\n<div class=\"legendas font-12 font-space-grotesk color-dark_green\">\n<p><em>Parque E\u00f3lico de Jep\u00edrachi, em territ\u00f3rio Wayuu: primeira usina e\u00f3lica a entrar em opera\u00e7\u00e3o na Col\u00f4mbia<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"conteudo-repetidor grid-10\">\n<div class=\"conteudo_principal grid-span-6\">\n<p>\u00c0 nossa frente, as tr\u00eas p\u00e1s das turbinas da usina e\u00f3lica Guajira I, inaugurada no in\u00edcio do ano, giravam, giravam e giravam. Atr\u00e1s delas, a nordeste, 15 turbinas um pouco menores, na usina e\u00f3lica de Jep\u00edrachi, seguiam a mesma coreografia. Jep\u00edrachi \u2013 \u201cventos que v\u00eam do nordeste\u201d em Wayuunaiki, o idioma Wayuu \u2013 foi a primeira usina e\u00f3lica da Col\u00f4mbia a entrar em opera\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou a operar em 2004, depois que a Empresas P\u00fablicas de Medell\u00edn (EPM) a construiu a toque de caixa. As 15 turbinas e\u00f3licas \u2013 Nordex N60, com capacidade total efetiva de 18,42 megawatts, energia suficiente para abastecer cerca de 9,8 mil resid\u00eancias colombianas \u2013 foram instaladas em terras Wayuu.\u00a0<a href=\"https:\/\/indepaz.org.co\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/EL-VIENTO-DEL-ESTE-LLEGA-CON-REVOLUCIONES.pdf\" rel=\"noopener\">De acordo com uma investiga\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz), uma ONG colombiana, o modelo foi um desastre. A consulta \u00e0 comunidade foi limitada e n\u00e3o houve transpar\u00eancia sobre os pagamentos que esta receberia ou sobre as melhorias que seriam feitas. A EPM presumiu que a comunidade era \u201cincapaz de administrar dinheiro ou contas\u201d e se reservou o \u201ccontrole sobre pagamentos ou despesas em esp\u00e9cie e por projeto\u201d, diz a Indepaz. (J\u00e1 a EPM afirma que \u201c<a href=\"https:\/\/www.epm.com.co\/site\/documentos\/mediosdecomunicacion\/publicacionesimpresas\/jepirachi\/LibroJepirachienespanol.pdf\" rel=\"noopener\">houve um processo extenso e bem-sucedido de consulta pr\u00e9via<\/a>\u201d aos Wayuu que vivem na \u00e1rea de influ\u00eancia de Jep\u00edrachi.)<\/p>\n<p>Originalmente, a usina e\u00f3lica deveria encerrar suas opera\u00e7\u00f5es em 2023, pois sua licen\u00e7a n\u00e3o foi renovada. As turbinas e\u00f3licas deveriam ser substitu\u00eddas por outras mais modernas e mais altas, mas, de acordo com o governo, isso poderia prejudicar os voos que chegam ao aeroporto da mina de Cerrej\u00f3n, a cerca de 5 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. No entanto, em julho de 2023, a ent\u00e3o ministra de Minas e Energia, Irene V\u00e9lez, anunciou que a EPM entregaria a opera\u00e7\u00e3o do parque \u00e0s comunidades Wayuu, como parte de uma parceria entre o setor p\u00fablico e o privado. A informa\u00e7\u00e3o pegou de surpresa at\u00e9 mesmo algumas das comunidades que se tornariam propriet\u00e1rias de Jep\u00edrachi, conforme noticiou o jornal\u00a0<a href=\"https:\/\/www.elespectador.com\/ambiente\/lo-que-no-conto-el-gobierno-sobre-el-parque-eolico-que-le-dio-a-las-comunidades-wayuu\/\" rel=\"noopener\"><em>El Espectador<\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Em meio a uma leve garoa, cruzamos os trilhos da ferrovia e fomos em dire\u00e7\u00e3o a Guajira I \u2013 com capacidade efetiva de 20 megawatts, para abastecer cerca de 10,6 mil resid\u00eancias. O projeto entrou em opera\u00e7\u00e3o no in\u00edcio de 2022, ap\u00f3s mais de uma d\u00e9cada de estudos e negocia\u00e7\u00f5es com os Wayuu. A Isagen, uma antiga empresa estatal colombiana que agora pertence a um fundo canadense, investiu 75 bilh\u00f5es de pesos (cerca de 18 milh\u00f5es de d\u00f3lares, na \u00e9poca) em sua constru\u00e7\u00e3o. O presidente Iv\u00e1n Duque foi pessoalmente inaugur\u00e1-la. Dias antes de a foto da inaugura\u00e7\u00e3o ser tirada, as quatro comunidades Wayuu haviam entrado em greve e bloqueado as estradas de acesso para protestar contra o complexo e\u00f3lico. (Os protestos n\u00e3o pararam com a chegada do governo Petro: em maio de 2023, o Grupo Enel, uma empresa multinacional de energia, suspendeu a constru\u00e7\u00e3o do Windpeshi, um projeto e\u00f3lico de 205 megawatts, energia suficiente para abastecer 500 mil casas, por n\u00e3o ter conseguido chegar a um acordo com as comunidades da \u00e1rea.)<\/p>\n<p>Paramos sob uma turbina e\u00f3lica para tirar fotos. O som das p\u00e1s lembrava os sopros de ar em uma caverna ou uma m\u00e1quina de secar m\u00e3os ouvida ao longe. Elas estavam girando a 9,5 rota\u00e7\u00f5es por minuto. Um grupo de soldados, usando uniformes camuflados para ambiente des\u00e9rtico, se aproximou para perguntar quem \u00e9ramos. Eles estavam patrulhando a \u00e1rea havia v\u00e1rias semanas. O relacionamento deles com as comunidades \u00e9 bom, mas estas \u00e0s vezes t\u00eam problemas com as empresas, disseram.<\/p>\n<p>Continuamos pela estrada at\u00e9 outro grupo de turbinas e\u00f3licas. Havia cabras caminhando perto da base. N\u00e3o muito longe dali, tr\u00eas mulheres Wayuu estavam sentadas em uma colina, observando os animais. Suas roupas de cores vivas dan\u00e7avam com a ventania. O assobio do vento nas hastes das turbinas abafava o murm\u00fario ocasional das rajadas que vinham do mar.<\/p>\n<p>\u201cDesde que entraram em opera\u00e7\u00e3o, eu sonho com \u00e1gua\u201d, disse Elba Vel\u00e1zquez, uma mulher Wayuu de 54 anos que mora em uma das comunidades onde o parque foi constru\u00eddo. \u201cParece \u00e1gua de um riacho, n\u00e3o \u00e9?\u201d, ela perguntou. \u201cNo come\u00e7o, eles colocavam cordas nas l\u00e2minas para afastar os p\u00e1ssaros e elas soavam como passos, \u00e0 noite\u201d, disse, em tom levemente incomodado.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"galeria-conteudo\">\n<div>\n<div class=\"img-conteudo-wrapper\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/6_Copia-de-05102022-_DSC4697-1998x1332.jpg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" width=\"640\" height=\"426\" \/><\/p>\n<div class=\"legendas font-12 font-space-grotesk color-dark_green\">\n<p><em>As fam\u00edlias Wayuu sofrem com os inc\u00f4modos da usina e\u00f3lica na regi\u00e3o. O barulho das turbinas, por exemplo, perturba o sono<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"conteudo-repetidor grid-10\">\n<div class=\"conteudo_principal grid-span-6\">\n<p>Em geral, as comunidades n\u00e3o est\u00e3o satisfeitas com a usina. Algumas pessoas ficaram desempregadas, nos disse a neta de Elba, Karolay Patricia Berrier, 15 anos. Como parte das negocia\u00e7\u00f5es, foi solicitado que a empresa encarregasse a popula\u00e7\u00e3o local de vigiar o parque. Dessa forma, alguns membros das comunidades teriam empregos permanentes e bem remunerados, uma raridade na regi\u00e3o. Mas a Isagen estava considerando dispensar os seguran\u00e7as e simplesmente colocar c\u00e2meras nas turbinas e\u00f3licas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as comunidades sentem que n\u00e3o est\u00e3o recebendo os benef\u00edcios da energia e\u00f3lica. De acordo com a legisla\u00e7\u00e3o colombiana, 1% das vendas l\u00edquidas deve ser distribu\u00eddo entre a prefeitura do munic\u00edpio onde o projeto est\u00e1 localizado (0,4%) e a comunidade (0,6%). Isso se somaria \u00e0 compensa\u00e7\u00e3o negociada e \u00e0s melhorias. At\u00e9 o momento, a comunidade de Elba recebeu 30 milh\u00f5es de pesos (cerca de 6 mil d\u00f3lares), nove casas de alvenaria e uma cisterna melhorada. Mas muitas pessoas tiveram que se mudar e agora precisam conviver com o barulho constante das turbinas e\u00f3licas. Em outras palavras, a empresa parece estar ficando com a maior parte dos lucros, quando o acordo deveria ser equitativo.<\/p>\n<p>\u201cHouve sete anos de reuni\u00f5es, mas s\u00f3 soubemos da realidade do que foi prometido muito mais tarde\u201d, me contou Elba. \u201cQuerem que n\u00e3o falemos, que n\u00e3o digamos nada\u201d, ela prosseguiu, enquanto agitava um len\u00e7o turquesa para espantar os mosquitos, que tentavam aproveitar os intervalos do vento.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a chuviscar novamente, e Karolay acenou para que a av\u00f3 fosse embora. Antes de sair, ela olhou para o oceano. Um navio carregado de carv\u00e3o havia ancorado na costa. No lado venezuelano, a nordeste, uma frente de nuvens escuras estava se aproximando em marcha for\u00e7ada.<\/p>\n<div class=\"font-30\">\n<p><strong>Tempestades, tormentas e furac\u00f5es<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>A diferen\u00e7a entre uma tempestade tropical e um furac\u00e3o \u00e9 de 1 quil\u00f4metro por hora na velocidade do vento. Se a velocidade sustentada da rajada est\u00e1 entre 63 quil\u00f4metros por hora e 118 quil\u00f4metros por hora, ela \u00e9 classificada como tempestade. Se a velocidade supera 118 quil\u00f4metros por hora, \u00e9 um furac\u00e3o. A partir da\u00ed, a velocidade determina a categoria, sendo a mais alta a categoria 5, com velocidades acima de 252 quil\u00f4metros por hora (o vento mais r\u00e1pido do mundo, exclu\u00eddos tornados ou furac\u00f5es, foi medido em 12 de abril de 1934 no topo do Monte Washington, nos Estados Unidos: 341 quil\u00f4metros por hora).<\/p>\n<p>No Atl\u00e2ntico, um furac\u00e3o sobrevive por cerca de nove dias e pode viajar milhares de quil\u00f4metros. A velocidade dos ventos n\u00e3o chega a ser a de um tornado, mas as rajadas s\u00e3o mais constantes e duram mais tempo. Suas ondas podem chegar a 25 metros de altura e, segundo o livro\u00a0<em>Tropical Meteorology<\/em>\u00a0[T.N. Krishnamurti, Lydia Stefanova, Vasubandhu Misr], descarregam uma m\u00e9dia de 20 bilh\u00f5es de toneladas de \u00e1gua por dia, energia equivalente \u00e0 de meio milh\u00e3o de bombas at\u00f4micas.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil encontrar compara\u00e7\u00f5es para o poder destrutivo dos furac\u00f5es. Um furac\u00e3o que varreu Bangladesh em 1970 causou entre 300 mil e 500 mil mortes, mais do que o dobro do n\u00famero de mortos em Hiroshima [no ataque at\u00f4mico]. Quase um s\u00e9culo antes, em 1881, no Vietn\u00e3, um tuf\u00e3o \u2013 do canton\u00eas\u00a0<em>daai fung<\/em>, \u201cgrande vento\u201d, o nome asi\u00e1tico para essas tempestades \u2013 matou quase 300 mil pessoas. Em 1737, outro tuf\u00e3o, na \u00cdndia, deixou pelo menos 200 mil pessoas mortas e afundou, de acordo com os cronistas da \u00e9poca, cerca de 20 mil embarca\u00e7\u00f5es. Em 1772, em Cuba, uma tempestade que ficou conhecida como O Grande Furac\u00e3o matou 20 mil pessoas, informa o livro\u00a0<em>Divine Wind: The History and Science of Hurricanes<\/em>\u00a0[Vento Divino: a Hist\u00f3ria e a Ci\u00eancia dos Furac\u00f5es, em tradu\u00e7\u00e3o livre], do meteorologista americano Kerry Emanuel.<\/p>\n<p>Os danos materiais s\u00e3o igualmente chocantes. Em 2005, nos Estados Unidos, o furac\u00e3o Katrina, o mais destrutivo da hist\u00f3ria, causou perdas que chegaram a 195,2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, em valores de 2022, o equivalente a 40% do total gasto com a previd\u00eancia social americana. Em 2017, o furac\u00e3o Maria\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2017\/09\/24\/us\/puerto-rico-hurricane-maria-agriculture-.html\" rel=\"noopener\">destruiu 80% das planta\u00e7\u00f5es<\/a>\u00a0em Porto Rico, levou \u00e0 fal\u00eancia a empresa de energia e atrasou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cnbc.com\/2017\/10\/09\/puerto-rico-economic-recovery-may-now-take-more-than-10-years.html\" rel=\"noopener\">em mais de uma d\u00e9cada a poss\u00edvel recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da ilha<\/a>. No total, o custo dos tr\u00eas furac\u00f5es mais destrutivos dos Estados Unidos \u00e9 maior do que a soma do produto interno bruto do Uruguai, Bol\u00edvia, Paraguai e Chile. (\u201cEsp\u00edrito selvagem que se move em toda parte \/ destruidor, protetor: ou\u00e7a-me, oh, ou\u00e7a!\u201d, escreveu o poeta ingl\u00eas Percy Blythe Shelley em sua\u00a0<em>Ode ao Vento Oeste<\/em>.)<\/p>\n<p>Em seu livro\u00a0<em>Natural Disasters in Latin America<\/em>\u00a0[Desastres Naturais na Am\u00e9rica Latina], a jornalista americana June Carolyn Erlick mostra como esses fen\u00f4menos moldaram f\u00edsica e mentalmente o Caribe. Em Cuba, os furac\u00f5es do s\u00e9culo 19 mudaram a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola da ilha, de acordo com o historiador Louis A. P\u00e9rez Jr. Cuba deixou de cultivar caf\u00e9, banana e outras safras e passou a depender principalmente da cana-de-a\u00e7\u00facar devido \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o causada pelas tempestades. \u201cAssim como a escravid\u00e3o, a ra\u00e7a, a imigra\u00e7\u00e3o ou o imperialismo, os furac\u00f5es definiram a regi\u00e3o\u201d, escreve Stuart B. Schwartz, professor de hist\u00f3ria da Universidade Yale.<\/p>\n<p>Historicamente, a Col\u00f4mbia n\u00e3o tem sido um dos pa\u00edses mais afetados por furac\u00f5es. Talvez por esse motivo, n\u00e3o tememos tanto o mar nem tenhamos o mesmo respeito por ele que na\u00e7\u00f5es como a Rep\u00fablica Dominicana, os Estados Unidos ou Cuba. Nos \u00faltimos 100 anos, apenas 15 grandes tempestades atingiram a costa continental colombiana. Nesse mesmo per\u00edodo, no entanto, o arquip\u00e9lago de San Andr\u00e9s, Providencia e Santa Catalina, um dos principais destinos tur\u00edsticos do pa\u00eds, foi atingido por oito tormentas que causaram danos significativos.<\/p>\n<p>A mais recente ocorreu em novembro de 2020, em meio \u00e0 pandemia. Entre 15 e 16 de novembro, os ventos de mais de 230 quil\u00f4metros por hora do furac\u00e3o Iota \u2013 desde a Segunda Guerra Mundial eles s\u00e3o nomeados em ordem alfab\u00e9tica; antes recebiam nomes de mulher \u2013 mataram quatro pessoas no arquip\u00e9lago, afetaram 98% da infraestrutura de San Andr\u00e9s e destru\u00edram 1.134 casas em Providencia (a ilha tem pouco mais de 5 mil habitantes). O governo alocou 1,2 trilh\u00e3o de pesos para a reconstru\u00e7\u00e3o, cerca de 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares na \u00e9poca, ou quase tr\u00eas vezes o or\u00e7amento anual da Col\u00f4mbia para ci\u00eancia e tecnologia (n\u00e3o est\u00e1 claro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.regioncaribe.org\/post\/qu%C3%A9-pas%C3%B3-con-el-presupuesto-que-estaba-asignado-para-la-reconstrucci%C3%B3n-de-san-andr%C3%A9s\" rel=\"noopener\">o que aconteceu\u00a0<\/a>com alguns desses recursos e que porcentagem dos custos de desastres como esse\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/09\/27\/climate\/climate-imf-world-bank.html?smid=nytcore-ios-share&amp;referringSource=articleShare\" rel=\"noopener\">deveria ser assumida por outros pa\u00edses<\/a>).<\/p>\n<p>O Iota, um furac\u00e3o de categoria 4, foi traum\u00e1tico para as ilhas e para o pa\u00eds. A quest\u00e3o da reconstru\u00e7\u00e3o dominou o notici\u00e1rio por meses e inspirou campanhas de doa\u00e7\u00e3o em toda a Col\u00f4mbia. O Iota mudou a maneira pela qual os colombianos pensam sobre as tempestades. Por quase 30 anos, furac\u00f5es eram eventos que aconteciam em outros lugares \u2013 o Joan, a \u00faltima tempestade de categoria 1 ou superior a atingir o arquip\u00e9lago, ocorreu em 1988. Assim como tornados, tsunamis e tempestades de neve, eles eram eventos clim\u00e1ticos alheios ao pa\u00eds, curiosidades tr\u00e1gicas ou problemas de outras na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O que aconteceu no arquip\u00e9lago de San Andr\u00e9s, Providencia e Santa Catalina alterou radicalmente essa vis\u00e3o. Em setembro, Javier Pava S\u00e1nchez, diretor da Unidade Nacional para a Gest\u00e3o do Risco de Desastres,\u00a0<a href=\"https:\/\/portal.gestiondelriesgo.gov.co\/Paginas\/Noticias\/2022\/Colombia-se-convirtio-en-zona-de-influencia-de-huracanes-como-consecuencia-del-cambio-climatico.aspx\" rel=\"noopener\">admitiu o fato explicitamente<\/a>. A Col\u00f4mbia n\u00e3o est\u00e1 preparada para essas tempestades, e tudo indica que elas se tornar\u00e3o mais frequentes. Se a temperatura subir, em princ\u00edpio os furac\u00f5es ter\u00e3o mais combust\u00edvel \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, pois haver\u00e1 maior disponibilidade de ar quente e \u00famido para abastecer e aumentar sua intensidade. Os modelos do IPCC e v\u00e1rios estudos projetam exatamente isso. Nesse sentido, milh\u00f5es de colombianos, como se fossem marinheiros, ter\u00e3o de voltar a ficar atentos \u2013 e muitas vezes temerosos \u2013 \u00e0 dire\u00e7\u00e3o e ao movimento do ar.<\/p>\n<div style=\"width: 640px;\" class=\"wp-video\"><video class=\"wp-video-shortcode\" id=\"video-19706-1\" width=\"640\" height=\"360\" preload=\"metadata\" controls=\"controls\"><source type=\"video\/mp4\" src=\"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/08_colombia_colapso_latinoamerica_1.mp4?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/08_colombia_colapso_latinoamerica_1.mp4\">https:\/\/controversia.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/08_colombia_colapso_latinoamerica_1.mp4<\/a><\/video><\/div>\n<p><strong>A onda virou tempestade: Julia<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0s 11 horas do dia 7 de outubro, depois de deixarmos La Guajira para tr\u00e1s, paramos em um restaurante perto de Minca, a cidade mais pr\u00f3xima de El Dorado, uma reserva natural para observa\u00e7\u00e3o de p\u00e1ssaros no sop\u00e9 da Sierra Nevada de Santa Marta. A Sierra, uma cadeia montanhosa com picos nevados de mais de 5.700 metros distante 40 quil\u00f4metros do mar, \u00e9 uma peculiaridade geogr\u00e1fica que afeta profundamente o clima e os ventos da regi\u00e3o. E El Dorado, que fica cerca de 2.400 metros acima do n\u00edvel do mar, oferece vistas privilegiadas aos observadores.<\/p>\n<p>Inconscientemente, seguimos a rota da gota de \u00e1gua. Naquela manh\u00e3, a onda identificada no dia anterior pelo Ideam no Caribe venezuelano atingiu o status de tempestade tropical. O sistema chegou \u00e0 costa colombiana e recebeu um nome: Julia. \u00c0s 10 horas e 20 minutos, em Providencia,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.eltiempo.com\/vida\/medio-ambiente\/fenomeno-de-el-nino-colombiana-dirigira-centro-de-estudios-de-la-onu-789581\" rel=\"noopener\">Yolanda Gonz\u00e1lez Hern\u00e1ndez<\/a>, ent\u00e3o diretora do Ideam, afirmou que as condi\u00e7\u00f5es apontavam para a possibilidade de que a tempestade se convertesse em furac\u00e3o. \u00c0s 11 horas, em conjunto com o Centro Nacional de Furac\u00f5es, o instituto anunciou um alerta m\u00e1ximo para o arquip\u00e9lago de San Andr\u00e9s e Providencia.<\/p>\n<p>De acordo com as proje\u00e7\u00f5es, o olho da tempestade passaria em frente \u00e0 Sierra Nevada de Santa Marta por volta das 13 horas. Como todas as grandes montanhas, a Sierra tem seus pr\u00f3prios sistemas de circula\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, que hav\u00edamos planejado observar das alturas de El Dorado muito antes de o Julia nascer no Atl\u00e2ntico. Agora ter\u00edamos a possibilidade de observar a tempestade das alturas.<\/p>\n<p>No restaurante, os vendavais se sucediam rapidamente. No vale, as \u00e1rvores se retorciam e as mariposas disparavam para o c\u00e9u, voando com esfor\u00e7o. A chuva se lan\u00e7ava diagonalmente contra as janelas do carro. Enquanto tom\u00e1vamos uma bebida quente, uma rajada forte de vento arrancou uma telha de lat\u00e3o e a arremessou na dire\u00e7\u00e3o do abismo. De vez em quando, um redemoinho fazia dan\u00e7ar as folhas arrancadas das guaduas. O vento carregava poeira, sementes e card\u00e1pios com os pre\u00e7os das\u00a0<em>aguapanelas<\/em>, uma bebida \u00e0 base de rapadura, costelas e carnes (em holand\u00eas, a palavra\u00a0<em>uitwaaien<\/em>\u00a0significa algo como ficar de frente para o vento para se purificar f\u00edsica e espiritualmente). Fechei o z\u00edper da minha jaqueta e coloquei as m\u00e3os nos bolsos. Dois cachorros passaram correndo por n\u00f3s, enquanto outro tremia e tentava se abrigar das rajadas de vento. Eu o imitei, segurando uma x\u00edcara de\u00a0<em>aguapanela<\/em> fervente nas m\u00e3os, tr\u00eamulo e preocupado.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"galeria-conteudo\">\n<div>\n<div class=\"img-conteudo-wrapper\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"427\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/7_Fot-2-1920x1280.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div class=\"legendas font-12 font-space-grotesk color-dark_green\">\n<p><em>No Atl\u00e2ntico, um furac\u00e3o sobrevive por cerca de nove dias e pode percorrer milhares de quil\u00f4metros<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"conteudo-repetidor grid-10\">\n<div class=\"conteudo_principal grid-span-6\">\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica, como sabem as pessoas que convivem com o vento, n\u00e3o depende exclusivamente da temperatura ambiente. H\u00e1 uma fina camada de ar em contato permanente com a nossa pele que funciona como uma esp\u00e9cie de cobertor. Quando o ar se aquece \u2013 devido \u00e0 nossa temperatura, ao Sol ou a qualquer outro motivo \u2013, ele sobe e o ar mais frio o substitui. Esse ciclo \u00e9 interrompido \u2013 e nos sentimos confort\u00e1veis \u2013 assim que a camada de ar se aproxima da temperatura corporal. O vento acelera o processo de substitui\u00e7\u00e3o do cobertor e reduz sua espessura. A pele dos c\u00e3es e de outros animais protege esse cobertor contra o vento.<\/p>\n<p>Em 1941, a ind\u00fastria da moda analisou a quantidade de roupas que uma pessoa precisaria vestir para ficar confort\u00e1vel e n\u00e3o sentir frio em uma sala fechada com 50% de umidade e temperatura de 21 graus Celsius. Na \u00e9poca, foi determinado que um homem vestido com um terno de tr\u00eas pe\u00e7as poderia manter uma temperatura corporal constante nessas condi\u00e7\u00f5es. Esse isolamento se tornou uma unidade de medi\u00e7\u00e3o internacional no setor t\u00eaxtil e representa um valor de 1 Clo [de\u00a0<em>Clothing and Thermal Insulation<\/em>]. Um biqu\u00edni tem um valor Clo de 0,04; uma camiseta, 0,10; um su\u00e9ter com gola em V, 0,37; um traje polar acolchoado, 3,5; um c\u00e3o husky, sem roupas, 4,1; um lobo, 7,5; e um urso-polar, 8. Medi\u00e7\u00f5es como essas s\u00e3o usadas para medir a quantidade de isolamento necess\u00e1ria para viver confortavelmente em qualquer lugar. Isso depende, em grande parte, do vento, que, portanto, tamb\u00e9m determina a maneira como as pessoas se vestem. No inverno de 1814, um dos mais frios da hist\u00f3ria da Inglaterra, James Woodforde, um p\u00e1roco ingl\u00eas e autor de\u00a0<em>The Diary of a Country Parson<\/em>\u00a0[Di\u00e1rio de um P\u00e1roco Rural], um curioso relato da vida no campo brit\u00e2nico no s\u00e9culo 19, resumiu a situa\u00e7\u00e3o da seguinte forma: \u201cCoube ao vento norte impor um retorno \u00e0 mod\u00e9stia no vestu\u00e1rio feminino\u201d.<\/p>\n<p>Na Sierra, e sem o isolamento adequado, almo\u00e7amos em uma mesa exposta \u00e0 ventania e continuamos nossa subida. Chegamos a El Dorado por volta das 14 horas. Uma n\u00e9voa espessa como creme de leite cobria as montanhas, as cidades de Santa Marta e Ci\u00e9naga, e os picos. Deixamos nossas malas em uma edifica\u00e7\u00e3o redonda, com telhado de palha, inspirada nas casas dos ind\u00edgenas Kogui, os principais habitantes da Sierra durante s\u00e9culos. Subimos as escadas para o restaurante, uma constru\u00e7\u00e3o semelhante, por\u00e9m maior, com paredes de vidro e uma varanda ao redor, equipada com cadeiras nas quais as pessoas podem se acomodar para observar a paisagem. Samantha Archila, uma engenheira florestal de 23 anos, de Bogot\u00e1, que administrava o El Dorado havia alguns meses, nos recebeu na entrada. Ela nos disse que em dias claros era poss\u00edvel ver \u2013 a partir daquele ponto \u2013 picos cobertos de neve, sete vales, a zona de cultivo de banana no interior do pa\u00eds, Ci\u00e9naga Grande, Santa Marta, Barranquilla e o mar do Caribe fundido ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o havia coisa alguma a ser vista naquele dia. Uma garoa gelada acariciava o mirante e rajadas fortes de vento estrondavam de tempos em tempos. \u201c\u00c9 por causa do ciclone\u201d, disse Samantha, apontando na dire\u00e7\u00e3o onde dever\u00edamos poder ver o oceano. Quando a tempestade atingiu a costa, as nuvens cobriram tudo. Como parte de alguma delas, a cerca de 40 ou 50 quil\u00f4metros da varanda onde est\u00e1vamos, a min\u00fascula gota de \u00e1gua do Atl\u00e2ntico, surgida perto de Cabo Verde, galopava em correntes voadoras a\u00e7oitadas por Julia.<\/p>\n<div class=\"font-30\">\n<p><strong>A tempestade Julia virou um furac\u00e3o<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Na madrugada de 8 de outubro, fui acordado repentinamente pelo rugido do vento. Ainda estava escuro, mas do quarto eu conseguia ver as luzes da cidade de Santa Marta, cerca de 2.400 metros abaixo. Amanheceu \u00e0s 5 horas e 25 minutos. O c\u00e9u estava completamente limpo. A visibilidade era de pelo menos 120 quil\u00f4metros. O sol subia lentamente, tingindo as montanhas de azul. Do vale mais pr\u00f3ximo, o vento rugia, imitando os macacos-uivadores ou\u00a0<a href=\"https:\/\/sumauma.com\/apresentando-guariba-uma-visao-nao-humana-da-historia-da-amazonia\/\" rel=\"noopener\">macacos-uivadores (guaribas)<\/a>\u00a0rugiam imitando o vento.<\/p>\n<p>Ao meio-dia, cerca de 780 metros acima do n\u00edvel do mar, ao largo de Cartagena, a pequena gota de \u00e1gua nascida no meio do Atl\u00e2ntico mudou abruptamente de dire\u00e7\u00e3o. Durante a noite do dia 7 e a madrugada do dia 8, ela continuava colada \u00e0 costa. Mas horas depois a for\u00e7a exercida pela \u00e1rea de baixa press\u00e3o no centro do Julia se tornou inescap\u00e1vel.<\/p>\n<p>Durante a tarde, a corrente de vento em que a gota viajava come\u00e7ou a assumir a forma de uma espiral. Passou novamente em frente \u00e0 Sierra Nevada, virou para noroeste e continuou em dire\u00e7\u00e3o ao arquip\u00e9lago de San Andr\u00e9s e Providencia, que estava em alerta m\u00e1ximo havia horas.<\/p>\n<p>Em Providencia, a energia el\u00e9trica em certas partes da ilha havia acabado \u00e0s 9 da manh\u00e3. Uma crian\u00e7a sobrevivente do Iota come\u00e7ou a desenhar para se distrair do furac\u00e3o que se aproximava,\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/america-colombia\/2022-10-09\/enfrentar-los-miedos-en-medio-del-huracan-julia-el-testimonio-de-una-familia-desde-providencia.html\" rel=\"noopener\">reportou Camila Osorio<\/a>\u00a0no jornal\u00a0<em>El Pa\u00eds<\/em>. Ela desenhou uma casa que tinha elementos de sua antiga resid\u00eancia \u2013 destru\u00edda pela tempestade em 2020 \u2013 e da nova, que o governo havia entregado \u00e0 sua fam\u00edlia recentemente. \u201cEsse \u00e9 o poder desintegrador de um grande vento: isola o homem de sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie\u201d, escreveu Joseph Conrad no livro\u00a0<em>Tuf\u00e3o<\/em>. \u201cUm terremoto, um deslizamento de terra, uma avalanche, se abatem sobre a pessoa incidentalmente \u2013 sem paix\u00e3o. Uma tempestade furiosa ataca como se fosse um inimigo pessoal, tenta agarrar seus membros, toma sua mente como presa, busca derrot\u00e1-la e arrancar-lhe o esp\u00edrito.\u201d<\/p>\n<p>Por volta das 18 horas, um avi\u00e3o Hercules WC-130J da For\u00e7a A\u00e9rea dos Estados Unidos voou at\u00e9 o olho do Julia, a 15 quil\u00f4metros de San Andr\u00e9s, e registrou velocidades de vento constantes. As rajadas mais r\u00e1pidas atingiam 120 quil\u00f4metros por hora, o que significava que o Julia tinha acabado de se tornar um furac\u00e3o.<\/p>\n<p>A passagem do Julia por San Andr\u00e9s deixou duas pessoas feridas, duas casas destru\u00eddas e outras 11 danificadas. Poderia ter sido muito pior. Os ventos arrancaram telhas e quebraram palmeiras perto do centro. Mais de 70 pessoas se refugiaram em abrigos oferecidos pelo governo durante a passagem do furac\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que se esperava, os danos foram maiores em La Guajira. Em Uribia, as correntes de vento e a chuva que se seguiram ao furac\u00e3o criaram um rio que dividiu a cidade em duas partes. Muitas das estradas pelas quais t\u00ednhamos viajado ficaram bloqueadas, e o comandante do Ex\u00e9rcito teve de enviar batalh\u00f5es de engenharia para restabelecer as conex\u00f5es em todo o departamento.<\/p>\n<p>\u201cDe todos os fen\u00f4menos naturais, talvez n\u00e3o haja nenhum que o homem civilizado se sinta mais impotente para influenciar do que o vento\u201d, escreveu o antrop\u00f3logo escoc\u00eas James Frazer. Mas o estamos mudando e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil prever as consequ\u00eancias. De qualquer forma, elas ser\u00e3o dram\u00e1ticas. \u201cA ci\u00eancia \u00e9 clara o suficiente: hidr\u00f3logos, meteorologistas etc. n\u00e3o t\u00eam muito mais a dizer\u201d, resumiu o professor Juan Fernando Salazar ao conversar comigo em uma tarde nublada em Medell\u00edn. \u201cAgora \u00e9 a vez dos governantes, dos pol\u00edticos, dos economistas e assim por diante\u2026 Mas teremos que nos deslocar pelo mundo; as fronteiras v\u00e3o mudar.\u201d Ele pensou por um momento antes de continuar: \u201cEnquanto eu vir a possibilidade de uma solu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vou parar de procurar. Tenho um filho de 7 anos. N\u00e3o tenho outra op\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No mar do Caribe, a pequena gota nascida no Atl\u00e2ntico em 2 de outubro e levada pelas correntes de ar at\u00e9 San Andr\u00e9s, finalmente se uniu a outras gotas semelhantes para atingir um peso de cerca de 0,034 grama e assim formar uma gota maior e cheia de trilh\u00f5es de mol\u00e9culas de \u00e1gua. Depois do furac\u00e3o Julia, ela chegou ao ch\u00e3o em uma \u00e1rea pavimentada pr\u00f3xima a uma \u00e1rvore de fruta-p\u00e3o, a 60 metros de um cemit\u00e9rio no centro da ilha.<\/p>\n<div class=\"font-14\">\n<p><strong>Santiago Wills<\/strong>\u00a0<em>\u00e9 um jornalista e escritor colombiano.\u00a0<\/em>Jaguar<em>\u00a0(Penguin Random House, 2022), seu primeiro romance, foi semifinalista do Pr\u00eamio Herralde. Santiago vive em Bogot\u00e1 com seu c\u00e3o, um galgo-russo chamado Quijote.<br \/>\nEsta reportagem faz parte do\u00a0<a href=\"https:\/\/colapso.dromomanos.com\/\" rel=\"noopener\">projeto Colapso,<\/a>\u00a0da\u00a0<a href=\"https:\/\/dromomanos.com\/\" rel=\"noopener\">Drom\u00f3manos<\/a>, uma produtora de jornalismo independente sediada no M\u00e9xico.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<hr \/>\n<div class=\"font-14\">\n<p><strong>Sobre a Drom\u00f3manos<br \/>\n<\/strong>A Drom\u00f3manos \u00e9 uma produtora mexicana de jornalismo independente que investiga, treina e conduz experi\u00eancias para contar a hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina, com jornalistas de toda a regi\u00e3o. O projeto nasceu em 2011, quando seus fundadores, Alejandra S. Inzunza e Jos\u00e9 Luis Pardo Veiras, viajaram pelo continente a bordo de um Volkswagen Pointer de terceira m\u00e3o, tentando criar um novo modelo jornal\u00edstico de cobertura continental e documentando, com mais de 20 reportagens longas e o livro\u00a0<em>Narcoam\u00e9rica<\/em>, a maneira pela qual o tr\u00e1fico de drogas afeta a vida de nossas sociedades em toda a Am\u00e9rica Latina. Nesses doze anos, a Drom\u00f3manos trabalhou com mais de 100 colaboradores e se aliou a 60 meios de comunica\u00e7\u00e3o nacionais e internacionais para narrar as quest\u00f5es mais urgentes para os latino-americanos, como a viol\u00eancia, a crise do clima, o autoritarismo, a migra\u00e7\u00e3o e a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Sobre o projeto Colapso<br \/>\n<\/strong>O que acontece quando a for\u00e7a da natureza encontra as mis\u00e9rias da humanidade? Em poucos lugares \u00e9 poss\u00edvel obter uma resposta mais contundente a essa pergunta sobre nosso presente e futuro do que na Am\u00e9rica Latina, a regi\u00e3o mais desigual e uma das mais biodiversas do mundo. Colapso se aprofunda nas selvas, montanhas, ilhas, florestas, desertos, oceanos e cidades da regi\u00e3o para contar, de perto, a hist\u00f3ria dos sintomas e das consequ\u00eancias da crise do clima.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"font-14\">\n<p><strong>Texto:\u00a0<\/strong>Santiago Wills\u00a0<strong><br \/>\nFotos:\u00a0<\/strong>Sebastian Di Domenico<strong><br \/>\nChecagem:<\/strong>\u00a0Drom\u00f3manos<br \/>\n<strong>Revis\u00e3o ortogr\u00e1fica (portugu\u00eas):<\/strong>\u00a0Elvira Gago<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas:<\/strong>\u00a0Paulo Migliacci<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas:<\/strong>\u00a0Charlotte Combe<br \/>\n<strong>Edi\u00e7\u00e3o visual e montagem de p\u00e1gina:<\/strong> Mariana Greif, Lela Beltr\u00e3o e \u00c9rica Saboya<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"galeria-conteudo\">\n<div>\n<div class=\"img-conteudo-wrapper\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"427\" width=\"640\" decoding=\"async\" class=\"c008\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/sumauma.com\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/8_Copia-de-07102022-_H4I4316-1998x1332.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<div class=\"legendas font-12 font-space-grotesk color-dark_green\">\n<p><em>Em novembro de 2020, os ventos de mais de 230 quil\u00f4metros por hora do furac\u00e3o Iota mataram quatro pessoas no arquip\u00e9lago de San Andres, Providencia e Santa Catalina<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"coluna_simples\">\n<div class=\"row row-texto color-dark_green\">\n<div class=\"texto font-20\">\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O vento nos governa: a crise clim\u00e1tica muda o ritmo do ar e mexe com tudo que \u00e9 vivo &#8211; SUMA\u00daMA &#8211; https:\/\/sumauma.com\/vento-nos-governa-crise-climatica-muda-ritmo-ar-mexe-com-tudo-que-vivo\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SANTIAGO WILLS &#8211; Como uma gota de \u00e1gua nascida em um ponto desolado no oceano Atl\u00e2ntico pode ser levada pelos ares at\u00e9 o Caribe e afetar uma comunidade ind\u00edgena no norte da Col\u00f4mbia? 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