{"id":19668,"date":"2023-08-07T12:54:54","date_gmt":"2023-08-07T15:54:54","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19668"},"modified":"2023-08-02T18:57:20","modified_gmt":"2023-08-02T21:57:20","slug":"um-novo-lugar-para-a-agricultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/08\/07\/um-novo-lugar-para-a-agricultura\/","title":{"rendered":"Um novo lugar para a agricultura"},"content":{"rendered":"<p><strong>JEAN MARC VON DER WEID<\/strong> &#8211; Contribui\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento da agricultura familiar.<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Um esfor\u00e7o de planejamento de um programa para a promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento da agricultura familiar tem que ir al\u00e9m da identifica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de curto prazo e pensar em mecanismos para prepararmos o futuro pr\u00f3ximo ou remoto. Para isto, \u00e9 necess\u00e1rio diagnosticar as amea\u00e7as ambientais, econ\u00f4micas, sociais, financeiras e pol\u00edticas que possam existir pairando sobre o presente e o futuro desta categoria social. A partir desta avalia\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es externas \u00e9 preciso fazer outro diagn\u00f3stico sobre as condi\u00e7\u00f5es atuais da agricultura familiar para finalmente estudar o efeito das pol\u00edticas p\u00fablicas aplicadas nas \u00faltimas e sua rela\u00e7\u00e3o com este \u00faltimo diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>\u00c9 o que vou tentar fazer como contribui\u00e7\u00e3o para os companheiros e companheiras do atual Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio (MDA). Para evitar cansar os interlocutores ser\u00e1 uma s\u00e9rie de artigos que eu tentarei manter t\u00e3o curtos quanto poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>As amea\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>Estamos vivendo, aqui e no resto do mundo, sob a amea\u00e7a de uma s\u00e9rie de crises que se aceleram e que se alimentam umas \u00e0s outras. Sem querer estabelecer ordens de import\u00e2ncia ou de causalidade, me limito a afirmar quais s\u00e3o estas crises: ambiental, que pode ser subdividida em aquecimento global, perda de biodiversidade, destrui\u00e7\u00e3o de recursos naturais como solo e \u00e1gua, polui\u00e7\u00f5es de solo, \u00e1guas e ar, e outros; energ\u00e9tica; alimentar; sanit\u00e1ria e financeira.<\/p>\n<p>Todas estas crises j\u00e1 est\u00e3o impactando a vida (e provocando a morte), tanto humana como animal e vegetal no planeta. E est\u00e3o em processo de acelera\u00e7\u00e3o acentuada, algumas chegando ao que os cientistas chamam de \u201cn\u00e3o retorno\u201d, ou seja, elas provocaram mudan\u00e7as em suas din\u00e2micas que retroalimentam a evolu\u00e7\u00e3o em curso, independentemente da a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>\u00c9 importante, em primeiro lugar, lembrar que este conjunto de fen\u00f4menos que alteram as condi\u00e7\u00f5es de vida do planeta n\u00e3o fazem parte de uma evolu\u00e7\u00e3o natural, como foram outras grandes mudan\u00e7as em eras geol\u00f3gicas passadas. O que estamos vivendo \u00e9 resultado da a\u00e7\u00e3o humana e seus impactos sobre as condi\u00e7\u00f5es ambientais. Por isto mesmo alguns ge\u00f3logos j\u00e1 denominaram a era atual de antropoceno ou a idade da a\u00e7\u00e3o humana. Outros analistas deram outro nome \u00e0 era em que vivemos:\u00a0<em>capitaloceno<\/em>, ou era do capitalismo.<\/p>\n<p>E como est\u00e3o atuando estes fen\u00f4menos? O aquecimento global j\u00e1 nos levou a um aumento da temperatura m\u00e9dia do planeta de 1\u00ba C, desde o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o industrial no s\u00e9culo 18. Este n\u00famero foi alcan\u00e7ado em 2015 e est\u00e1 se aproximando de 1,5\u00ba C muito mais rapidamente do que previsto pelos cientistas do IPCC. Nos relat\u00f3rios anteriores, se apontava um cen\u00e1rio onde tal \u00edndice seria alcan\u00e7ado em meados do s\u00e9culo, se tudo continuasse igual do ponto de vista da emiss\u00e3o de gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>Ocorre que a previs\u00e3o era otimista (o que sempre acontece nos relat\u00f3rios do IPCC, por mais que estejam anunciando trag\u00e9dias) e, por outro lado, as condi\u00e7\u00f5es pioraram, com uma acelera\u00e7\u00e3o do aumento de emiss\u00f5es de GEE acima do esperado, com exce\u00e7\u00e3o do breve hiato provocado pela pandemia da COVID. A data para batermos o limite definido no acordo de Paris para o aumento de temperatura, ultrapassando os 1,5\u00ba C, passou a ser meados dos anos 2030, sendo que os cientistas mais pessimistas ou mais realistas, j\u00e1 apontam para o ano de 2030, daqui a pouco mais de seis anos.<\/p>\n<p>Os efeitos do aquecimento j\u00e1 est\u00e3o sendo vividos na forma de grandes diferenciais de temperatura, com ver\u00f5es quent\u00edssimos (como agora nos EUA e na Uni\u00e3o Europeia, onde os term\u00f4metros neste ver\u00e3o est\u00e3o batendo um recorde atr\u00e1s do outro e chegando nos 53\u00ba C) e com invernos gelados, tamb\u00e9m com recordes negativos.<\/p>\n<p>Estas temperaturas elevadas s\u00e3o acompanhadas de uma enorme instabilidade clim\u00e1tica, com chuvas diluvianas, tempestades de neve e granizo arrasadoras, tuf\u00f5es, ciclones e outras manifesta\u00e7\u00f5es ambientais ocorrendo com maior intensidade e maior frequ\u00eancia. As ondas de calor provocam inc\u00eandios devastadores, mesmo sem a colabora\u00e7\u00e3o humana (e ela existe por todo lado, intencionalmente ou n\u00e3o), com destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade e a intensa polui\u00e7\u00e3o do ar, \u00e0s vezes muito longe dos locais onde eles s\u00e3o originados. Os inc\u00eandios h\u00e1 umas poucas semanas no meio oeste do Canad\u00e1, com a fuma\u00e7a contaminando todo o nordeste dos EUA, de Chicago a Nova Iorque, s\u00e3o um bom exemplo. Outro foi a fuma\u00e7a das queimadas da Amaz\u00f4nia fechando aeroportos em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 dois anos.<\/p>\n<p>Um outro efeito de alt\u00edssimo impacto \u00e9 menos percept\u00edvel para o comum dos mortais, menos para aqueles que moram em ilhas com baixas altitudes: o aumento do n\u00edvel dos oceanos. Pequenos pa\u00edses insulares est\u00e3o desaparecendo, sinistro pren\u00fancio do que vai ocorrer nas \u00e1reas costeiras do planeta.<\/p>\n<p>Da \u00faltima vez em que a Terra viveu com as atuais concentra\u00e7\u00f5es de GEE, o n\u00edvel dos mares alcan\u00e7ou quase 10 metros a mais do que o n\u00edvel atual. Por que n\u00e3o estamos com estes n\u00edveis mais altos agora? \u00c9 s\u00f3 quest\u00e3o de tempo, infelizmente. O aumento da concentra\u00e7\u00e3o de GEE n\u00e3o tem reflexo imediato no aumento da temperatura m\u00e9dia do planeta, h\u00e1 um delay enquanto as grandes massas de terra e de \u00e1gua v\u00e3o se aquecendo e as geleiras se derretendo.<\/p>\n<p>Ou seja, mesmo se interrompermos as emiss\u00f5es totalmente e imediatamente, o aquecimento vai continuar por um tempo e o impacto no aumento do n\u00edvel dos oceanos tamb\u00e9m. Para impedir este processo seria necess\u00e1rio n\u00e3o s\u00f3 parar de emitir GEE como conseguir retirar GEE da atmosfera. E muito. Mesmo nessa hip\u00f3tese superotimista, os cientistas calculam que os mecanismos postos em marcha com o atual aquecimento n\u00e3o ser\u00e3o revertidos r\u00e1pido o suficiente para que cidades como Nova Iorque, Cidade do Cabo, Marselha, Alexandria, Rio de Janeiro, Salvador, Recife e muitas outras escapem da inunda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E enormes regi\u00f5es de costas baixas na \u00cdndia, China, Bangladesh, Filipinas, Indon\u00e9sia, entre outras menores, seriam alagadas, deslocando perto de um bilh\u00e3o de pessoas. E quanto mais GEE for emitido daqui para frente, mais as temperaturas subir\u00e3o e mais cidades e \u00e1reas costeiras desaparecer\u00e3o. E mais \u00e1reas agricult\u00e1veis ser\u00e3o inutilizadas. E mais destrui\u00e7\u00e3o ser\u00e1 provocada por mais e mais potentes ciclones e tuf\u00f5es e inc\u00eandios.<\/p>\n<p>\u00c9 uma vis\u00e3o tr\u00e1gica para o futuro, mas j\u00e1 \u00e9 horr\u00edvel no presente de muita gente.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou me estender sobre quem \u00e9 culpado pelas emiss\u00f5es de GEE. Todo mundo sabe que o CO<sub>2<\/sub>\u00a0emitido pela queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 o principal respons\u00e1vel do aquecimento global, sendo que Estados Unidos, Uni\u00e3o Europeia, China e R\u00fassia tem a maior responsabilidade nestas emiss\u00f5es. E que o uso para movimentar carros, avi\u00f5es, navios \u00e9 a maior fonte de emiss\u00f5es. Mas \u00e9 preciso lembrar que muito CO<sub>2<\/sub>\u00a0\u00e9 emitido em v\u00e1rios outros empreendimentos, j\u00e1 que o petr\u00f3leo \u00e9 utilizado em quase todas as atividades industriais, quer como combust\u00edvel quer como mat\u00e9ria prima para produtos pl\u00e1sticos, cosm\u00e9ticos, farmac\u00eauticos, alimentares, inform\u00e1ticos e muitos outros.<\/p>\n<p>\u00c9 importante notar que a agricultura convencional, a do agroneg\u00f3cio, tamb\u00e9m emite CO<sub>2<\/sub>\u00a0em grandes quantidades, sendo uma das maiores fontes de emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub>\u00a0fora dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, isto porque ela \u00e9 respons\u00e1vel pelo desmatamento em larga escala. Neste quesito, o Brasil e a Indon\u00e9sia s\u00e3o os maiores respons\u00e1veis, colocando-os como quinto e sexto entre os maiores emissores de CO<sub>2<\/sub>. \u00a0Finalmente, a agricultura \u00e9 a principal respons\u00e1vel pela emiss\u00e3o do segundo g\u00e1s mais importante na gera\u00e7\u00e3o do efeito estufa: o metano. H\u00e1 menos metano sendo emitido e se acumulando na atmosfera, mas ele tem um poder aquecedor 300 vezes maior do que o etano. \u00c9 ainda a agricultura a respons\u00e1vel pelo terceiro em import\u00e2ncia dos gases de efeito estufa, o \u00f3xido nitroso.<\/p>\n<p>Computando todas as fontes de GEE, alguns c\u00e1lculos apontam para a agricultura como o setor com as maiores emiss\u00f5es, direta ou indiretamente, algo perto de 35%. O setor agroalimentar como um todo, envolve (al\u00e9m da agropecu\u00e1ria propriamente dita) a produ\u00e7\u00e3o dos insumos, a industrializa\u00e7\u00e3o dos produtos agr\u00edcolas e seu transporte e a forma\u00e7\u00e3o de lixo org\u00e2nico derivado das sobras da alimenta\u00e7\u00e3o caseira, em restaurantes ou nos mercados, lixo esse que, lan\u00e7ado em rios ou em dep\u00f3sitos ao ar livre, emite toneladas gigantescas de metano. Segundo alguns c\u00e1lculos, o conjunto dos impactos diretos e indiretos do setor agroalimentar como um todo chega a pouco mais de 50% das emiss\u00f5es de GEE, bem acima das emiss\u00f5es provocadas pelo uso de gasolina e \u00f3leo diesel nos transportes terrestres, a\u00e9reos e mar\u00edtimos.<\/p>\n<p>O aquecimento global impacta a agropecu\u00e1ria de forma brutal. Cada grau Celcius a mais na temperatura m\u00e9dia do planeta tem repercuss\u00f5es muito significativas nas \u00e1reas cultivadas e de pastagens. Lembremos que a temperatura m\u00e9dia planet\u00e1ria significa um balan\u00e7o entre temperaturas muito baixas nos polos e muito altas nos tr\u00f3picos. Uma temperatura m\u00e9dia anual de 17,5\u00ba C no planeta implica em uma temperatura m\u00e9dia de at\u00e9 40\u00ba C nos ver\u00f5es das \u00e1reas mais quentes dos tr\u00f3picos. Nas zonas produtoras tropicais ou temperadas, 1\u00ba C de aumento m\u00e9dio anual derruba a produtividade das culturas em valores que v\u00e3o de 10 at\u00e9 25% segundo o produto e a regi\u00e3o. Isto sem levar em conta os efeitos indiretos do aquecimento, gerando instabilidade na oferta h\u00eddrica e na ocorr\u00eancia de fen\u00f4menos atmosf\u00e9ricos como ciclones, tuf\u00f5es, geadas, secas e inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em um planeta com perto de 1 bilh\u00e3o de pessoas passando fome, estas mudan\u00e7as provocadas pelo aquecimento ser\u00e3o dram\u00e1ticas. Sim, h\u00e1 c\u00e1lculos que indicam que haver\u00e1 um aumento de produ\u00e7\u00e3o nas zonas mais frias, mas h\u00e1 um acordo que ela n\u00e3o compensar\u00e1 as perdas nas \u00e1reas mais quentes.<\/p>\n<p>Tomando o Brasil como exemplo, podemos esperar que os impactos ser\u00e3o totalmente negativos pois nos encontramos inteiramente dentro da zona tropical ou subtropical. J\u00e1 estamos vivenciando este processo, com os impactos cada vez maiores dos ver\u00f5es mais quentes em todo o territ\u00f3rio. Por outro lado, estamos muito amea\u00e7ados pelo processo de desmatamento na Amaz\u00f4nia, que se aproxima perigosamente do momento em que a floresta ainda existente perde as condi\u00e7\u00f5es de se reproduzir e inicia uma degrada\u00e7\u00e3o \u201cnatural\u201d no caminho de tornar-se uma savana seca ou mesmo uma zona des\u00e9rtica (como acontece no Saara ou no Atacama, desertos que est\u00e3o na mesma latitude da Amaz\u00f4nia).<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o da floresta Amaz\u00f4nica n\u00e3o tem apenas (e j\u00e1 \u00e9 muito) um impacto no aquecimento global, ela vai anular o fluxo da umidade gerada por este ecossistema e que irriga naturalmente toda a nossa agricultura do centro-oeste, do sudeste e do sul. J\u00e1 o desmatamento do Cerrado est\u00e1 impactando o fluxo de \u00e1gua nos grandes rios gerados nesse bioma e que se dirigem para o norte, o Tocantins e o Araguaia, com efeitos significativos na gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Saindo da amea\u00e7a representada pelo aquecimento global ca\u00edmos na amea\u00e7a da crise energ\u00e9tica. Os combust\u00edveis f\u00f3sseis que tanto contribuem para a gera\u00e7\u00e3o de GEE est\u00e3o em processo acelerado de desapari\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vou me estender neste t\u00f3pico, que tratei em outros artigos, limitando-me a apontar para a crise anunciada para meados desta d\u00e9cada (nos pr\u00f3ximos dois a tr\u00eas anos!), quando os pre\u00e7os do petr\u00f3leo e do g\u00e1s dever\u00e3o voltar aos patamares dos anos 2000, que levaram \u00e0 crise financeira de 2008. Se precisamos chegar rapidamente a zerar as emiss\u00f5es de GEE, a crise da produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo poderia ser uma boa not\u00edcia. Entretanto, o mundo n\u00e3o se preparou para uma queda brusca na oferta de petr\u00f3leo que ser\u00e1 acompanhada por um aumento tamb\u00e9m brusco dos pre\u00e7os desta oferta residual. O choque da crise do petr\u00f3leo vai se fazer sentir em toda a cadeia produtiva mundial, al\u00e9m de impactar os meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para completar este cen\u00e1rio cr\u00edtico \u00e9 preciso lembrar da amea\u00e7a representada pela paulatina desapari\u00e7\u00e3o das reservas de f\u00f3sforo e de pot\u00e1ssio em todo mundo. Estes elementos s\u00e3o essenciais para a vida das plantas. No modelo do agroneg\u00f3cio eles s\u00e3o aplicados no solo ou nas folhas sob a forma de adubos qu\u00edmicos sol\u00faveis. Este procedimento \u00e9 de imensa inefici\u00eancia, pois calcula-se que menos de 50% dos insumos sejam aproveitados pelas culturas, enquanto o resto \u00e9 levado pelas \u00e1guas de chuva ou de irriga\u00e7\u00e3o e v\u00e3o parar em rios, lagos, aqu\u00edferos e len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos ou mar, com enorme impacto na eutrofiza\u00e7\u00e3o destas reservas h\u00eddricas.<\/p>\n<p><strong>Implica\u00e7\u00f5es destas amea\u00e7as para a agricultura<\/strong><\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o destes diferentes fen\u00f4menos sobre a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos no mundo (e no Brasil) vai ser a de reduzir a oferta global de alimentos e torn\u00e1-los mais caros pelo aumento dos custos de adubos, agrot\u00f3xicos e transportes, al\u00e9m do efeito da lei da oferta\/procura. Avalia-se que o com\u00e9rcio internacional vai ser reduzido, quer porque muitos pa\u00edses v\u00e3o priorizar o abastecimento interno frente \u00e0 escassez, quer porque o custo do transporte vai ficar muito mais elevado. \u00c9 um movimento de contra-globaliza\u00e7\u00e3o, revertendo uma tend\u00eancia dominante desde o p\u00f3s-guerra mundial.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, j\u00e1 temos problemas com o abastecimento interno de alimentos, j\u00e1 que somos, cada vez mais, um pa\u00eds centrado na produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de milho e soja (para ra\u00e7\u00e3o) e carnes. Importamos muito do que consumimos e estamos em pleno processo de mudan\u00e7a dos h\u00e1bitos alimentares entre os consumidores de menor renda, abandonando produtos como arroz e feij\u00e3o, milho (fub\u00e1) e mandioca e aderindo ao consumo de processados e ultra processados, com base no trigo (p\u00e3o e massas). Do ponto de vista de uma dieta recomend\u00e1vel estamos muito mal na fita e os efeitos sobre a sa\u00fade p\u00fablica s\u00e3o pesados.<\/p>\n<p>Com as crises citadas se abatendo sobre n\u00f3s teremos dificuldades de importar o necess\u00e1rio, tanto para a dieta ideal como para a atual dieta delet\u00e9ria predominante. Teremos que fazer uma brutal convers\u00e3o da nossa agricultura tanto no direcionamento dos produtos para o mercado interno como no modo de produzi-los.<\/p>\n<p>Vai ser necess\u00e1rio controlar os desmatamentos, n\u00e3o s\u00f3 da Amaz\u00f4nia e do Cerrado (os ecossistemas mais amea\u00e7ados e com efeitos mais devastadores), mas em todos os biomas. Esta n\u00e3o s\u00f3 vai ser a nossa principal contribui\u00e7\u00e3o para conter o ac\u00famulo de GEE na atmosfera, como pode ser important\u00edssimo para retirar GEE da atmosfera, se adotarmos a pol\u00edtica de reflorestamento maci\u00e7o. E, \u00e9 claro, para manter em atividade os \u201crios voadores\u201d que garantem a nossa produ\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas mais importantes da nossa agricultura.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a no modo de produzir vai se impor, tanto pelo aumento do custo dos insumos industriais (adubos qu\u00edmicos e agrot\u00f3xicos, quase tudo importado atualmente) como pela necessidade de conter a emiss\u00e3o dos GEE emitidos pelo agroneg\u00f3cio (al\u00e9m do CO<sub>2<\/sub>), o metano e o \u00f3xido nitroso. Resta saber se vamos nos antecipar \u00e0s crises e organizar uma transi\u00e7\u00e3o \u00e0 tempo ou se vamos esperar que tudo desabe para ver como resolver.<\/p>\n<p>Mas como produzir de forma sustent\u00e1vel no formato das mega planta\u00e7\u00f5es que hoje dominam a agricultura brasileira? A alternativa conhecida para o modelo agroqu\u00edmico e motomecanizado \u00e9 a agroecologia. O agroneg\u00f3cio pode adotar esta proposta? Dificilmente, j\u00e1 que a caracter\u00edstica do modelo agroecol\u00f3gico \u00e9 o uso da biodiversidade, tanto a agr\u00edcola como a natural, para substituir o uso de insumos qu\u00edmicos externos e controlar pragas, doen\u00e7as e invasoras restabelecendo o equil\u00edbrio ambiental. Substituir planta\u00e7\u00f5es em monocultura de soja, para dar um exemplo, ocupando dezenas de milhares de hectares, por sistemas diversificados com v\u00e1rios produtos agropecu\u00e1rios dividindo os espa\u00e7os produtivos inibe o uso de maquin\u00e1rio em grande escala. E \u00e9 nesta super produtividade do trabalho que reside o lucro do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Quando a crise provocada pela queda do sistema sovi\u00e9tico abalou a agricultura cubana a resposta do governo foi distribuir as terras das grandes monoculturas estatais de cana de a\u00e7\u00facar em lotes atribu\u00eddos a neocamponeses familiares. N\u00e3o teremos alternativa sen\u00e3o fazer o mesmo ou viver com uma crise gigante, social e econ\u00f4mica, atingindo a maioria da popula\u00e7\u00e3o. A fome \u00e9 um estopim para a instabilidade social e pol\u00edtica e, em outros pa\u00edses, levou a movimentos de revolta, nos idos dos anos 2000.<\/p>\n<p>Exemplos em todo o mundo apontam para a agricultura familiar em pequena escala como a mais bem adaptada para incorporar os princ\u00edpios da agroecologia. Mas substituir o agroneg\u00f3cio pela agricultura familiar agroecol\u00f3gica implica em radicalizar muito (e corrigir muito) o processo de reforma agr\u00e1ria iniciado por Fernando Henrique Cardoso e seguido nos mesmos moldes por Lula (Dilma Rousseff reduziu a reforma a quase nada, e Michel Temer\/Jair Bolsonaro liquidaram a fatura). Avalia-se que foram assentados perto de um milh\u00e3o de fam\u00edlias entre 1994 e 2016 e que mais da metade abandonou seus lotes por falta de condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e de escoamento das safras, por endividamento e fal\u00eancia ou por falta de infraestruturas econ\u00f4micas e sociais b\u00e1sicas. Para preparar a agricultura do futuro precisaremos fazer muito mais e muito melhor do que no passado.<\/p>\n<p>Segundo alguns c\u00e1lculos, uma agricultura centrada na produ\u00e7\u00e3o familiar agroecol\u00f3gica implantada em todo o espa\u00e7o rural brasileiro implicaria em garantir terra e muitos outros fatores produtivos e sociais para 20 milh\u00f5es de fam\u00edlias dotadas com 10 hectares cada uma. \u00c9 um desafio gigante para o nosso futuro, implicando em forte recampesina\u00e7\u00e3o da nossa popula\u00e7\u00e3o. Quando nos damos conta de que a evas\u00e3o rural n\u00e3o foi contida pelos governos populares e que o n\u00famero de agricultores familiares caiu perto de 10% entre os censos agr\u00e1rios de 2006 e 2017 podemos medir o tamanho do desafio.<\/p>\n<p>Para nos prepararmos para estas crises temos que pensar no que \u00e9 poss\u00edvel fazer desde j\u00e1, visando mitigar os impactos quando eles ocorrerem.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Um novo lugar para a agricultura &#8211; A TERRA \u00c9 REDONDA &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/um-novo-lugar-para-a-agricultura\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JEAN MARC VON DER WEID &#8211; Contribui\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento da agricultura familiar. 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