{"id":19634,"date":"2023-07-29T12:33:06","date_gmt":"2023-07-29T15:33:06","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19634"},"modified":"2023-08-02T19:15:51","modified_gmt":"2023-08-02T22:15:51","slug":"rumo-a-uma-nova-ordem-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/07\/29\/rumo-a-uma-nova-ordem-mundial\/","title":{"rendered":"Rumo a uma nova ordem mundial"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jacques Sapir<\/strong> &#8211;\u00a0As hostilidades na Ucr\u00e2nia aceleraram \u2013 mas n\u00e3o criaram \u2013 uma mudan\u00e7a de enorme import\u00e2ncia na ordem mundial. Esta, tal como existia desde a dissolu\u00e7\u00e3o da URSS (1991) e tal como decorria desde a segunda guerra mundial, foi deitada abaixo. A pot\u00eancia dominante, os Estados Unidos, viu-se contestada; sua capacidade de construir uma hegemonia sobre as outras pot\u00eancias provavelmente est\u00e1 arruinada. Um grupo de pot\u00eancias emergentes (caso da China, da \u00cdndia e do Brasil) ou re-emergentes contesta n\u00e3o s\u00f3 a sua hegemonia como tamb\u00e9m a sua capacidade de definir as institui\u00e7\u00f5es mundiais. A organiza\u00e7\u00e3o do mundo, que repousava sobre o multilateralismo definindo est\u00e3o as modalidades da globaliza\u00e7\u00e3o (ou \u201cmundializa\u00e7\u00e3o\u201d) e que pretendia repousar sobre regras apol\u00edticas entrou em crise. As rela\u00e7\u00f5es internacionais repolitizaram-se brutalmente. Mas esta repolitiza\u00e7\u00e3o \u00e9 acompanhada tamb\u00e9m de uma forma de desocidentaliza\u00e7\u00e3o do mundo que, nas representa\u00e7\u00f5es dos atores, pode ter a apar\u00eancia de uma segunda descoloniza\u00e7\u00e3o, o que vem renovar e consumar o processo dos anos 1960 e 1970. Express\u00f5es novas surgiram, como \u201cOcidente coletivo\u201d e \u201cSul coletivo\u201d. Se circula\u00e7\u00e3o das mercadorias, dos fluxos financeiros e dos capitais \u00e9 posta em causa, \u00e9 no dom\u00ednio monet\u00e1rio mas tamb\u00e9m no dom\u00ednio informacional que o policentrismo e a fragmenta\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o s\u00e3o mais evidentes. O sonho de uma \u201caldeia global\u201d, tal como havia definido McLuhan, parece morto.<\/p>\n<p>Estas transforma\u00e7\u00f5es \u2013 e \u00e9 nisto que elas s\u00e3o paradoxais \u2013 foram iniciadas pela antiga pot\u00eancia dominante, os Estados Unidos. Mas elas lhe escaparam e adquiriram din\u00e2micas pr\u00f3prias. O dilema de Triffin est\u00e1 na sua origem\u00a0<a href=\"read:\/\/https_resistir.info\/?url=https%3A%2F%2Fresistir.info%2Fcrise%2Fsapir_13jul23.html#notas\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o central que se coloca doravante \u00e9 saber se uma ordem global poder\u00e1 ser recomposta ou se ordens regionais \u2013agora que certas rela\u00e7\u00f5es entre eles se desenvolvem de maneira aut\u00f3noma e com a constru\u00e7\u00e3o dos seus pr\u00f3prios sistemas de valores e de representa\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o ser\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o do futuro nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p><b>O decl\u00ednio do imp\u00e9rio americano&#8230;<\/b><\/p>\n<p>Os Estados Unidos dispunham, desde o princ\u00edpio da \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XX, de uma supremacia total, tanto militar como econ\u00f3mica, tanto pol\u00edtica como cultural. A pot\u00eancia americana reunia ent\u00e3o a totalidade das caracter\u00edsticas do \u201cpoder dominante\u201d global, capaz de influenciar o conjunto dos atores sem ter de usar diretamente a sua for\u00e7a e impondo as suas representa\u00e7\u00f5es e o seu vocabul\u00e1rio. Esta hegemonia, que naturalmente tamb\u00e9m se traduzia pela ado\u00e7\u00e3o generalizada de regras de livre com\u00e9rcio com a passagem do GATT \u00e0 OMC em 1994, vai se desmoronar progressivamente diante das crises financeiras que os Estados Unidos n\u00e3o saber\u00e3o e n\u00e3o poder\u00e3o controlar (1997-99 e 2007-200), fracassos militares patentes (no Iraque e no Afeganist\u00e3o) e na emerg\u00eancia r\u00e1pida de novas pot\u00eancias (China, \u00cdndia, Brasil mas doravante tamb\u00e9m a Indon\u00e9sia e a Turquia) ou de antigas que souberam reinventar-se (a R\u00fassia).<\/p>\n<p>A crise financeira de 2007-2009, que se denomina \u201ccrise das subprimes\u201d, e decorre ap\u00f3s a \u201ccrise asi\u00e1tica\u201d (e russa) de 1997-1999, foi um momento importante no questionamento da ordem mundial que emergira em 1991-1992, assim como foi uma grande reviravolta na ordem econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>A ordem mundial, que aparentava de facto a uma Pax Americana, est\u00e1 a desintegrar-se rapidamente tanto devido \u00e0s incapacidades e erros cometidos pelos dirigentes dos Estados Unidos como pela ascens\u00e3o de outras pot\u00eancias. A globaliza\u00e7\u00e3o, que fora aceite como um quadro \u00fanico das atividades econ\u00f3micas, come\u00e7a na realidade a desfazer-se e a ser posta em causa mesmo antes da crise de 2008-2010 com a emerg\u00eancia dos BRICS.<\/p>\n<p>Esta desintegra\u00e7\u00e3o \u00e9 acompanhada tamb\u00e9m por um refor\u00e7o parcial. Se os Estados Unidos perdem a sua capacidade de hegemonizar o conjunto do globo, capacidade que era real no princ\u00edpio dos anos 1990, eles refor\u00e7am progressivamente o seu controle sobre os seus aliados europeus. Estes \u00faltimos doravante parecem incapazes de contestar a domin\u00e2ncia dos Estados Unidos como haviam conseguido fazer acerca da invas\u00e3o do Iraque (2003). O processo de tomada de controle dos Estados Unidos sobre a Uni\u00e3o Europeia, processo que havia sido encetado aquando das guerras civis dos Balc\u00e3s na sequ\u00eancia da dissolu\u00e7\u00e3o da Jugosl\u00e1via e das opera\u00e7\u00f5es contra a S\u00e9rvia a respeito do Kosovo, desenvolveu-se amplamente com a interven\u00e7\u00e3o na L\u00edbia e tornou-se evidente no per\u00edodo que vai da ruptura das negocia\u00e7\u00f5es com o Ir\u00e3o (2016) ao per\u00edodo atual.<\/p>\n<p>Mas este refor\u00e7o local da domina\u00e7\u00e3o americana deve-se muito \u00e0 crise de legitimidade pol\u00edtica que mina as institui\u00e7\u00f5es da UE, institui\u00e7\u00f5es em que cada avan\u00e7o rumo ao federalismo revela as contradi\u00e7\u00f5es internas (o conflito franco-alem\u00e3o sobre a quest\u00e3o da energia sendo o \u00faltimo exemplo) e o seu car\u00e1ter disfuncional. Cada crise (como a do COVID-19 e a da energia, nomeadamente) engendra um impulso para o federalismo, mas que p\u00f5e as institui\u00e7\u00f5es europeias em contradi\u00e7\u00e3o com os valores da \u201cdemocracia\u201d que supostamente elas defendem. Isto refor\u00e7a a contesta\u00e7\u00e3o soberanista no seio da UE e conduz a m\u00faltiplas tens\u00f5es entre os pa\u00edses membros da UE (Hungria, Pol\u00f3nia, \u00c1ustria) sem esquecer a sa\u00edda dos Reino Unidos da UE (o \u201cBrexit\u201d).<\/p>\n<p>Os Estados Unidos perderam o dom\u00ednio sobre o que eles pr\u00f3prios qualificavam de \u201cp\u00e1tio das traseiras\u201d, ou seja, os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. A emancipa\u00e7\u00e3o progressiva destes pa\u00edses fora da tutela dos EUA, emancipa\u00e7\u00e3o conduzida pelo par Brasil-Argentina (e provavelmente Chile) \u00e9 um fen\u00f3meno de uma amplitude bem mais consider\u00e1vel que a contesta\u00e7\u00e3o efectuada pelos Estados ditos revolucion\u00e1rios (Cuba, Nicar\u00e1gua, Venezuela). A isto conv\u00e9m acrescentar a perda de influ\u00eancia dos Estados Unidos no M\u00e9dio Oriente, perda que se tornou evidente com a nova pol\u00edtica de pa\u00edses como a Ar\u00e1bia Saudita, Turquia e Emirados \u00c1rabes Unidos, mas que estava em gesta\u00e7\u00e3o desde o fracasso da invas\u00e3o do Iraque em 2003 e da incapacidade dos Estados Unidos de reconstruir o pa\u00eds para dele fazer um aliado constante.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos est\u00e3o portanto confrontados com um decl\u00ednio multiforme, decl\u00ednio econ\u00f3mico (validando a ideia de um \u201cdilema de Triffin\u201d), mas tamb\u00e9m decl\u00ednio nas capacidades geopol\u00edticas, decl\u00ednio militar (fracasso da guerra no Iraque, retirada catastr\u00f3fica do Afeganist\u00e3o em 2021) e, finalmente, decl\u00ednio de influ\u00eancia com a ascens\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de imprensa e medias sa\u00eddos dos \u201cnovos\u201d pa\u00edses e contestando cada vez mais a domina\u00e7\u00e3o informacional americana.<\/p>\n<p><b>A emerg\u00eancia dos BRICS: polo de reconstru\u00e7\u00e3o de uma nova \u201cordem mundial\u201d?<\/b><\/p>\n<p>Conv\u00e9m recordar que os BRICS s\u00e3o \u00e0 partida uma ideia \u201cocidental\u201d e financeira (mercados emergentes). Esta ideia saiu diretamente da esfera financeira (Goldman Sachs, 2003). Mas os pa\u00edses ditos \u201cemergentes\u201d reapropriaram-se desta ideia e progressivamente transformaram-na num sentido radicalmente novo. Hoje, vinte ano ap\u00f3s o aparecimento da sigla sob a pena de um analista da Goldman Sachs (Jim O&#8217;Neill), o sentido desta sigla tornou-se cada vez mais sin\u00f3nimo de \u201cSul Coletivo\u201d numa oposi\u00e7\u00e3o a \u201cOcidente Coletivo\u201d que se pode tamb\u00e9m chamar \u201cNorte Coletivo\u201d.<\/p>\n<p>A progressiva institucionaliza\u00e7\u00e3o dos BRICS, encetada em 2005 acelera-se ap\u00f3s a crise de 2008-2010 (cria\u00e7\u00e3o do Novo Banco de Desenvolvimento, cimeiras anuais regulares, cria\u00e7\u00e3o de um secretariado). Esta institucionaliza\u00e7\u00e3o transforma o grupo de pa\u00edses numa estrutura propondo um modo de desenvolvimento alternativo oferecendo doravante cr\u00e9ditos (via NBD) aos outros pa\u00edses em desenvolvimento e executando projetos dentre os quais o mais conhecido \u00e9 aquele das \u201cnovas rotas da seda\u201d mas tamb\u00e9m projetos russos e indianos. Atrav\u00e9s da constitui\u00e7\u00e3o de fontes de financiamento alternativas, eles tornam-se uma refer\u00eancia para o que se chama o \u201cSul Coletivo\u201d.<\/p>\n<p>O grupo dos BRICS mudou mais uma vez de natureza a partir de 2022 com a subida do n\u00famero de pedidos de ades\u00e3o (19 pa\u00edses, dois quais 8 identificados). Notar-se-\u00e1 a presen\u00e7a de um pa\u00eds da NATO entre os pa\u00edses que pediram a sua ades\u00e3o. O seu PIB acumulado, calculado em PPC, j\u00e1 ultrapassa o do G-7.<\/p>\n<p><b>Tabela 1<br \/>\nMembros e pa\u00edses filiados ao G7, ao grupo dos BRICS e \u00e0 OCS<\/b><\/p>\n<table class=\"__reading_mode_data_table_class\" style=\"width: 52.4133%; height: 522px;\" border=\"1\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"4\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"34%\"><b>Pa\u00edses do G-7<\/b><\/td>\n<td width=\"33%\"><b>Pa\u00edses membros do BRICS<\/b><\/td>\n<td width=\"33%\"><b>Pa\u00edses membros da OCS<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Canad\u00e1<br \/>\nFran\u00e7a<br \/>\nAlemanha<br \/>\nIt\u00e1lia<br \/>\nJap\u00e3o<br \/>\nReino Unido<br \/>\nEstados Unidos<\/td>\n<td>Brasil<br \/>\nChina<br \/>\n\u00cdndia<br \/>\nR\u00fassia<br \/>\nRep\u00fablica da \u00c1frica do Sul<\/td>\n<td>China<br \/>\n\u00cdndia<br \/>\nR\u00fassia<br \/>\nIr\u00e3o<br \/>\nCazaquist\u00e3o<br \/>\nQuirguist\u00e3o<br \/>\nUsbequist\u00e3o<br \/>\nTajiquist\u00e3o<br \/>\nPaquist\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><b>Pa\u00edses considerados como &#8220;aliados&#8221; dos do G-7<\/b><\/td>\n<td><b>Pa\u00edses tendo pedido a sua ades\u00e3o aos BRICS<\/b><\/td>\n<td><b>Pa\u00edses parceiros ou observadores<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Austr\u00e1lia<br \/>\n\u00c1ustria<br \/>\nB\u00e9lgica<br \/>\nGr\u00e9cia<br \/>\nHungria<br \/>\nIrlanda<br \/>\nCoreia do Sul<br \/>\nPa\u00edses Baixos<br \/>\nNova Zel\u00e2ndia<br \/>\nNoruega<br \/>\nPol\u00f3nia<br \/>\nPortugal<br \/>\nRom\u00e9nia<br \/>\nSingapura<br \/>\nEspanha<br \/>\nSu\u00e9cia<\/td>\n<td>Arg\u00e9lia<br \/>\nArgentina<br \/>\nAr\u00e1bia Saudita<br \/>\nBarain<br \/>\nEgito<br \/>\nEmirados \u00c1rabes Unidos<br \/>\nIndon\u00e9sia<br \/>\nIr\u00e3o<br \/>\nTurquia<\/td>\n<td>Arm\u00e9nia<br \/>\nAfeganist\u00e3o<br \/>\nAzerbaij\u00e3o<br \/>\nBielor\u00fassia<br \/>\nCamboja<br \/>\nMong\u00f3lia<br \/>\nNepal<br \/>\nSri Lanka<br \/>\nTurquia<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<div>\n<div><\/div>\n<div class=\"c019 c0111\">O peso dos BRICS conjuga-se com o desenvolvimento da Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Shangai. A OCS foi, inicialmente, concebida como uma organiza\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a regional, encarregada de tratar os problemas decorrentes da desestabiliza\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o. Ela tende, progressivamente, a estender seu dom\u00ednio de compet\u00eancia.<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>Gr\u00e1fico 1<\/b><br \/>\n<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" title=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/crise\/imagens\/sapir_13jul23_1.jpg?resize=640%2C600&#038;ssl=1\" alt=\"Gr\u00e1fico 1.\" width=\"640\" height=\"600\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em>Fonte : FMI via apresenta\u00e7\u00e3o de Jacques Sapir, CEMI-EGE<\/em><br \/>\n<em>Os dados para 2022 s\u00e3o estimativas.<\/em><br \/>\n<em>Os dados para 2023 e 2024 s\u00e3o previs\u00f5es<\/em><\/div>\n<p>V\u00ea-se de imediato duas din\u00e2micas de expans\u00e3o diferentes, mas que talvez estejam destinadas a conjugar-se. Os BRICS v\u00e3o se estender mundialmente, ainda que esta extens\u00e3o afete pa\u00edses com diferentes n\u00edveis de desenvolvimento. Isto corresponde a uma vontade de autonomia em rela\u00e7\u00e3o a institui\u00e7\u00f5es de desenvolvimento e a regras que s\u00e3o consideradas como dominadas ou impostas pelos pa\u00edses do &#8220;Norte&#8221;. A OCS, por sua vez, desenvolve-se devido a uma necessidade de seguran\u00e7a manifestada por um certo n\u00famero de pa\u00edses. No momento, estes pa\u00edses est\u00e3o quase todos, com exce\u00e7\u00e3o da Bielor\u00fassia, na mesma &#8220;regi\u00e3o&#8221;. Mas a quest\u00e3o de saber se a OCS est\u00e1 destinada a permanecer uma organiza\u00e7\u00e3o puramente regional, centrada na \u00c1sia Central, ou se est\u00e1 destinada a estender a sua \u00e1rea geogr\u00e1fica para nela inscrever o Oceano \u00cdndico, ou mesmo uma parte do M\u00e9dio Oriente, coloca-se. De facto, ela se afirma como portadora de um projeto de seguran\u00e7a alternativo \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es ligadas aos Estados Unidos e \u00e0 NATO.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da OCS, uma outra organiza\u00e7\u00e3o regional desempenhou um papel importante na solidifica\u00e7\u00e3o de um bloco em torno da R\u00fassia, \u00e9 a Comunidade Econ\u00f3mica Euro-asi\u00e1tica. No dia 1\u00ba de Janeiro de 2012, os quatro Estados (Bielor\u00fassia, Casaquist\u00e3o, Arm\u00e9nia e R\u00fassia) estabeleceram o espa\u00e7o econ\u00f3mico comum que garante o funcionamento efetivo do mercado comum para os bens, os servi\u00e7os, o capital e o trabalho, e estabeleceu pol\u00edticas industriais, de transportes, energ\u00e9ticas e agr\u00edcolas coerentes. A Comiss\u00e3o Euro-asi\u00e1tica suprema (composta pelos chefes econ\u00f3micos euro-asi\u00e1ticos serve de ag\u00eancia regulat\u00f3ria dos Estados da Uni\u00e3o) decorre uma vez por ano para a Uni\u00e3o Aduaneira Euro-asi\u00e1tica, e espa\u00e7o econ\u00f3mico com e a uni\u00e3o econ\u00f3mica euro-asi\u00e1tica. A Uni\u00e3o Econ\u00f3mica Euro-asi\u00e1tica pode ser considerada como sendo a continuidade desta uni\u00e3o econ\u00f3mica. Ela assinou acordos com a Coreia do Sul (2017) e depois com a China e o Ir\u00e3o (2018).<\/p>\n<p>Os BRICS tornaram-se, tanto pelo projeto como pela for\u00e7a das coisas, uma forma de reagrupamento de um &#8220;Sul Coletivo&#8221; frente a um &#8220;Ocidente Coletivo&#8221; a partir do princ\u00edpio das hostilidades na Ucr\u00e2nia. A import\u00e2ncia dos BRICS nas exporta\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m no crescimento mundial, n\u00e3o \u00e9 preciso demonstrar.<\/p>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>Gr\u00e1fico 2<\/b><br \/>\n<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" title=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/crise\/imagens\/sapir_13jul23_2.jpg?resize=640%2C533&#038;ssl=1\" alt=\"Gr\u00e1fico 2.\" width=\"640\" height=\"533\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em>Fonte : FMI via apresenta\u00e7\u00e3o de Jacques Sapir, CEMI-EGE<\/em><\/div>\n<p>O desenvolvimento agora r\u00e1pido, e mesmo \u201cexplosivo\u201d do com\u00e9rcio da R\u00fassia com os pa\u00edses asi\u00e1ticos e aqueles do M\u00e9dio Oriente, o refor\u00e7o do com\u00e9rcio da China com estes mesmos pa\u00edses, pode constituir uma indica\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias que est\u00e3o por vir. O papel em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a da China e da R\u00fassia tender\u00e1 a refor\u00e7ar-se, provavelmente em liga\u00e7\u00e3o com o da \u00cdndia, em zonas como o Oceano \u00cdndico, mas tamb\u00e9m a \u00c1frica e o M\u00e9dio Oriente. O acordo recente entre a Ar\u00e1bia Saudita e o Ir\u00e3o, que foi assinado sob a \u00e9gide da China, a pol\u00edtica de distanciamento da Ar\u00e1bia Saudita em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos e sua aproxima\u00e7\u00e3o comercial com a R\u00fassia (quer no quadro da OPEP+ quer nas rela\u00e7\u00f5es bilaterais), a decis\u00e3o, enfim, de utilizar o Yuan e n\u00e3o mais o d\u00f3lar americano num certo n\u00famero de transa\u00e7\u00f5es petrol\u00edferas e gasistas, \u00e9 um bom indicador da interpenetra\u00e7\u00e3o entre as l\u00f3gicas geopol\u00edtica e de seguran\u00e7a e as l\u00f3gicas comerciais.<\/p>\n<p>A sub-representa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses dos BRICS nas principais institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais coloca tamb\u00e9m um grande problema e evidencia estas institui\u00e7\u00f5es como uma emana\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do \u201cNorte\u201d, legitimando portanto a constru\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para os pa\u00edses do \u201cSul\u201d.<\/p>\n<p><b>Tabela 2<br \/>\nParte dos pa\u00edses dos BRICS na institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais<\/b><\/p>\n<table class=\"__reading_mode_data_table_class\" border=\"1\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"4\">\n<tbody>\n<tr>\n<td rowspan=\"2\" width=\"10%\"><\/td>\n<td colspan=\"2\"><b>Banco Mundial<\/b><\/td>\n<td colspan=\"2\"><b>IDA<\/b><\/td>\n<td colspan=\"2\"><b>MIGA<\/b><\/td>\n<td colspan=\"2\"><b>FMI<\/b><\/td>\n<td colspan=\"2\"><b>Quota para os DES<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>N\u00ba de votos<\/td>\n<td>% do total<\/td>\n<td>N\u00ba de votos<\/td>\n<td>% do total<\/td>\n<td>N\u00ba de votos<\/td>\n<td>% do total<\/td>\n<td>N\u00ba de votos<\/td>\n<td>% do total<\/td>\n<td>Milh\u00f5es<\/td>\n<td>% do total<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Brasil<\/td>\n<td>54,264<\/td>\n<td>2.11<\/td>\n<td>478,0<\/td>\n<td>1.66<\/td>\n<td>2,83<\/td>\n<td>1.3<\/td>\n<td>111,9<\/td>\n<td>2.22<\/td>\n<td>11,0<\/td>\n<td>2.32<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>R\u00fassia<\/td>\n<td>67,26<\/td>\n<td>2.62<\/td>\n<td>90,65<\/td>\n<td>0.31<\/td>\n<td>5,752<\/td>\n<td>2.64<\/td>\n<td>130,5<\/td>\n<td>2.59<\/td>\n<td>12,9<\/td>\n<td>2.71<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\u00cdndia<\/td>\n<td>76,777<\/td>\n<td>2.99<\/td>\n<td>835,2<\/td>\n<td>2.89<\/td>\n<td>1,218<\/td>\n<td>0.56<\/td>\n<td>132,6<\/td>\n<td>2.63<\/td>\n<td>13,1<\/td>\n<td>2.76<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>China<\/td>\n<td>131,426<\/td>\n<td>5.11<\/td>\n<td>661,0<\/td>\n<td>2.29<\/td>\n<td>5,754<\/td>\n<td>2.64<\/td>\n<td>306,3<\/td>\n<td>6.08<\/td>\n<td>30,5<\/td>\n<td>6.41<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>RAS<\/td>\n<td>18,698<\/td>\n<td>0.73<\/td>\n<td>74,37<\/td>\n<td>0.26<\/td>\n<td>1,886<\/td>\n<td>0.86<\/td>\n<td>32,0<\/td>\n<td>0.63<\/td>\n<td>3,1<\/td>\n<td>0.64<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><b>Total<\/b><\/td>\n<td>348,425<\/td>\n<td>13.56<\/td>\n<td>2,139,1<\/td>\n<td>7.41<\/td>\n<td>17,44<\/td>\n<td>8.0<\/td>\n<td>713,2<\/td>\n<td>14.15<\/td>\n<td>70,6<\/td>\n<td>14.84<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><em>Significado dos acr\u00f3nimos: IDA, International Development Association; MIGA, Multilateral Investment Guarantee Agency, FMI, Fundo Monet\u00e1rio Internacional, DTS, Direitos Especiais de Saque (geridos pelo FMI)<\/em><br \/>\n<em>Fonte: Liu Z. &amp; Papa M., \u201cCan BRICS De-dollarize the Global Financial System\u201d in\u00a0\u00a0Elements in the Economics of Emerging Markets,\u00a0Cambridge University Press, January 2022, Table 5, p. 56.<\/em><\/p>\n<p><b>A emerg\u00eancia de uma desglobaliza\u00e7\u00e3o e suas consequ\u00eancias<\/b><\/p>\n<p>Estamos, e desde h\u00e1 v\u00e1rios anos, na presen\u00e7a de um fen\u00f3meno de \u201c<b>desglobaliza\u00e7\u00e3o<\/b>\u201d ou de \u201c<b>desmundializa\u00e7\u00e3o<\/b>\u201d. Isto foi reconhecido pelo FMI e v\u00e1rias outras institui\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Constata-se portanto um importante recuo do multilateralismo a partir dos anos 2010, assinalado pelas organiza\u00e7\u00f5es internacionais. Ele assume a forme de movimentos de\u00a0<i>\u201cre-shoring\u201d<\/i>\u00a0[re-escoramento] ou de\u00a0<i>\u201cfriendly shoring\u201d<\/i>\u00a0[escoramento amistoso] e, globalmente, de medidas protecionistas que inquietam cada vez mais as institui\u00e7\u00f5es do \u201cNorte\u201d\u00a0<a href=\"read:\/\/https_resistir.info\/?url=https%3A%2F%2Fresistir.info%2Fcrise%2Fsapir_13jul23.html#notas\">[2]<\/a>. Estas medidas protecionistas n\u00e3o se limitam a restri\u00e7\u00f5es \u00e0s importa\u00e7\u00f5es mais doravante afetam cada vez mais restri\u00e7\u00f5es \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o frequentemente tomadas nos dom\u00ednios considerados como \u201cestrat\u00e9gicos\u201d.<\/p>\n<p>Este fen\u00f3meno \u00e9 acompanhado de uma estagna\u00e7\u00e3o, mesmo de uma regress\u00e3o, do com\u00e9rcio mundial em percentagem do PIB, estagna\u00e7\u00e3o que parece remontar \u00e0 crise financeira de 2007-2009. Em retrospectiva, esta crise parece mesmo como uma grande crise da mundializa\u00e7\u00e3o da qual nem todas as li\u00e7\u00f5es foram extra\u00eddas.<\/p>\n<p>Somos a partir de agora confrontado com um mundo que n\u00e3o pode mais ser regido por regras \u00fanicas a-pol\u00edticas. O fim da globaliza\u00e7\u00e3o mede-se essencialmente pelo retorno do POL\u00cdTICO (e n\u00e3o \u201cda pol\u00edtica\u201d) no seio das rela\u00e7\u00f5es internacionais, ou seja, a \u201crela\u00e7\u00e3o amigo\/inimigo\u201d. A desmundializa\u00e7\u00e3o que se desenrola diante dos nossos olhos \u00e9 movida pelo retorno das na\u00e7\u00f5es e a crise do multilateralismo n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o retorno do pol\u00edtico \u00e0 escala mundial.<\/p>\n<p>O fen\u00f3meno da mundializa\u00e7\u00e3o, e o que o havia constitu\u00eddo num \u201cfacto social\u201d generalizado, era um duplo movimento: a combina\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o emaranhamento dos fluxos de mercadorias e dos fluxos financeiros E o desenvolvimento de uma forma de governo (ou de governa\u00e7\u00e3o) em que o econ\u00f3mico parecia dever prevalecer sobre o pol\u00edtico. Com efeito, a \u201cmundializa\u00e7\u00e3o\u201d caracteriza-se por um duplo movimento em que se v\u00ea as empresas a tentarem preced\u00eancia sobre os Estados e a normas e as regras sobre a pol\u00edtica. Este processo resulta na nega\u00e7\u00e3o da democracia. Ora, sobre este ponto n\u00e3o podemos sen\u00e3o constatar uma retomada destes fluxos pelos Estados, um retorno vitorioso da pol\u00edtica. Este movimento chama-se o retorno da soberania dos Estados.<\/p>\n<p>Este fen\u00f3meno, conv\u00e9m recordar, foi iniciado pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Com efeito, este questionamento do multilateralismo foi iniciado, na realidade por um dos pa\u00edses que mais haviam feito para imp\u00f4-lo: os Estados Unidos. A implementa\u00e7\u00e3o de diversas medias, como o\u00a0<i>Foreign Corrupt Practices Act,<\/i>\u00a0lei votada em 1977 mas que adquiriu toda a sua import\u00e2ncia com uma modifica\u00e7\u00e3o de 1998 e sua aplica\u00e7\u00e3o agressiva a partir dos anos 2000, e o\u00a0<i>Foreign Account Tax Compliance Act<\/i>\u00a0de 2010. A retirada americana do acordo de Viena com o Ir\u00e3o (o\u00a0<i>Joint Comprehensive Plan of Action<\/i>) desempenhou um papel de acelerador. Na verdade, ele n\u00e3o visava exclusivamente isolar o Ir\u00e3o por meio de san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas. Por medo de repres\u00e1lias devido \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o extra-territ\u00f3rial do direito americano, a den\u00fancia deste acordo permitiu atingir a Fran\u00e7a e a Alemanha. Na realidade, estas medidas levaram pa\u00edses a tomarem contra-medidas, de modo concertado.<\/p>\n<p>Portanto, historicamente os Estados Unidos aparecer\u00e3o como o pa\u00eds que iniciou a destrui\u00e7\u00e3o de uma ordem da qual era o principal benefici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Entretanto, a destrui\u00e7\u00e3o da ordem antiga coloca v\u00e1rios problemas:<\/p>\n<ul>\n<li>A nova ordem resultar\u00e1 da emerg\u00eancia de uma nova \u201chiper-pot\u00eancia\u201d (como no caso dos Estados Unidos que sucederam \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha) ou se assistir\u00e1 antes a uma ordem internacional a constituir-se progressivamente numa base multipolar?<\/li>\n<li>A constru\u00e7\u00e3o de uma ordem mundial fundamentada sobre a multipolaridade coloca por sua vez a quest\u00e3o de saber se termos e no\u00e7\u00f5es comuns poder\u00e3o emergir entre estes diferente polos. Entrar\u00e3o eles numa l\u00f3gica em que a coopera\u00e7\u00e3o dominar\u00e1 sobre a concorr\u00eancia ou, antes, a concorr\u00eancia (sob a forma de um policentrismo ativo) prevalecer\u00e1 sobre a coopera\u00e7\u00e3o?<\/li>\n<li>A que ritmo de far\u00e1 a mudan\u00e7a? Poderia ela verificar-se de maneira \u201ccatastr\u00f3fica\u201d ap\u00f3s uma nova crise (ou guerra) internacional ou, ao contr\u00e1rio, ser\u00e1 ela caracterizada por um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o relativamente longo que permita \u00e0s institui\u00e7\u00f5es potencialmente em concorr\u00eancia encontrar modos de concerta\u00e7\u00e3o e de regula\u00e7\u00e3o?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Estas diversas quest\u00f5es resumem bem a complexidade dos problemas levantados pelo fim da \u201cordem antiga\u201d e pela emerg\u00eancia de uma \u201cnova ordem\u201d. Assim, mesmo no caso da emerg\u00eancia da ordem p\u00f3s segunda guerra mundial, o per\u00edodo de estabelecimento estende-se de 1944 ao come\u00e7o dos anos cinquenta com a emerg\u00eancia do movimento de descoloniza\u00e7\u00e3o, a estabiliza\u00e7\u00e3o progressiva do FMI e aquela do GATT. N\u00e3o se deve, t\u00e3o pouco, opor-nos de maneira demasiado simplista uma constru\u00e7\u00e3o pela concerta\u00e7\u00e3o e uma constru\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da emerg\u00eancia de uma nova pot\u00eancia dominante. No primeiro caso, certos pa\u00edses t\u00eam evidentemente mais peso que outros e na emerg\u00eancia de uma nova pot\u00eancia dominante elementos de concerta\u00e7\u00e3o estar\u00e3o necessariamente presentes. O que pode parecer exclu\u00eddo \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o como a dos anos 1990-1992 com a emerg\u00eancia, aceite na \u00e9poca, dos Estados Unidos como pot\u00eancia universalmente dominante.<\/p>\n<p><b>Um caso de aplica\u00e7\u00e3o do policentrismo: o sistema monet\u00e1rio internacional<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 preciso constatar que a ordem internacional arruinou-se tamb\u00e9m no dom\u00ednio monet\u00e1rio. Este repousava, desde o fim dos acordos de Bretton-Woods em 1973, sobre um sistema que se pode qualificar de padr\u00e3o-d\u00f3lar. Este sistema sempre foi relativamente disfuncional, mas tem-no sido cada vez mais desde os anos 2000.<\/p>\n<p>A tese defendida por Michel Aglietta de um \u201cfim das divisas-chaves\u201d\u00a0<a href=\"read:\/\/https_resistir.info\/?url=https%3A%2F%2Fresistir.info%2Fcrise%2Fsapir_13jul23.html#notas\">[3]<\/a>, substitu\u00eddas por moedas multinacionais por enquanto tem sido um fracasso. A dimens\u00e3o de \u201cbem p\u00fablico\u201d de uma moeda internacional, ainda que ela seja incontest\u00e1vel, n\u00e3o tem sido suficiente para engendrar a cria\u00e7\u00e3o de uma verdadeira moeda internacional. A parte do Euro, que foi precisamente uma tentativa neste sentido\u00a0<a href=\"read:\/\/https_resistir.info\/?url=https%3A%2F%2Fresistir.info%2Fcrise%2Fsapir_13jul23.html#notas\">[4]<\/a>, continua significativamente inferior \u00e0 parte das moedas europeias nas reservas cambiais do Bancos Centrais antes de 1999.<\/p>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>Gr\u00e1fico 3<\/b><br \/>\n<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"c008\" title=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/crise\/imagens\/sapir_13jul23_3.jpg?resize=640%2C349&#038;ssl=1\" alt=\"Gr\u00e1fico 3.\" width=\"640\" height=\"349\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em>Fonte: COFER, FMI (via apresenta\u00e7\u00e3o de J. Sapir)<\/em><\/div>\n<p>Esta incapacidade do Euro para corresponder \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es dos seus partid\u00e1rios tem sido atribu\u00edda a diversas causas: falta de um referencial pol\u00edtico sobre o qual se apoiar e problemas ligados \u00e0 estrutura de governa\u00e7\u00e3o, dilema de Triffin invertido (a Zona Euro geralmente est\u00e1 em excedente comercial em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo), crises sucessivas que t\u00eam agitado a Zona Euro.<\/p>\n<p>Se tanto o D\u00f3lar como o Euro baixam, isto se deve \u00e0 subida das \u201coutras moedas\u201d utilizadas como reservas pelos bancos centrais. Portanto est\u00e1 claro, e isto desde 2010, que se est\u00e1 na presen\u00e7a de uma tend\u00eancia \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o do sistema monet\u00e1rio internacional, tend\u00eancia em parte induzida por raz\u00f5es de seguran\u00e7a geopol\u00edticas.<\/p>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>Gr\u00e1fico 4<\/b><br \/>\n<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" title=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/crise\/imagens\/sapir_13jul23_4.jpg?resize=640%2C553&#038;ssl=1\" alt=\"Gr\u00e1fico 4.\" width=\"640\" height=\"553\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em>Fonte: COFER, FMI (via apresenta\u00e7\u00e3o de J. Sapir)<\/em><\/div>\n<p>A ascens\u00e3o das \u201coutras moedas\u201d nas reservas internacionais, ascens\u00e3o que \u00e9 um indicador seguro do processo de fragmenta\u00e7\u00e3o do sistema monet\u00e1rio internacional, acelerou-se a partir da crise do Covid-19. Mas ela j\u00e1 existia antes. O ponto importante \u00e9 que a parte do D\u00f3lar dos Estados Unidos posteriormente acelerou a sua baixa com a crise sanit\u00e1ria, ap\u00f3s um pequeno ressalto ligado ao princ\u00edpio das opera\u00e7\u00f5es militares na Ucr\u00e2nia \u2013 ressalto que pode estar ligado ao papel de dire\u00e7\u00e3o da NATO desempenhado pelos Estados Unidos \u2013 e recome\u00e7ou a baixar fortemente, apesar pode-se dizer deste papel. Este ponto \u00e9 importante, ainda que a sua interpreta\u00e7\u00e3o no momento seja dif\u00edcil: os Estados Unidos pagam a relativa inefic\u00e1cia do apoio da NATO \u00e0 Ucr\u00e2nia ou o D\u00f3lar sofre a consequ\u00eancia da diversifica\u00e7\u00e3o das moedas de pagamentos no quadro do que \u00e9 preciso denominar um processo de \u201cdesdolariza\u00e7\u00e3o\u201d?<\/p>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>Gr\u00e1fico 5<\/b><br \/>\n<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" title=\"\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/crise\/imagens\/sapir_13jul23_5.jpg?resize=640%2C417&#038;ssl=1\" alt=\"Gr\u00e1fico 5.\" width=\"640\" height=\"417\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em>Fonte: COFER, FMI (via apresenta\u00e7\u00e3o de J. Sapir)<\/em><\/div>\n<p>Neste contexto, a perspectiva de uma \u201cmoeda dos BRICS\u201d \u00e9 interessante, mas este projeto \u00e9 e ser\u00e1 complexo para executar. Ele vai colocar o problema da implica\u00e7\u00e3o de pa\u00edses tendo dimens\u00f5es econ\u00f3micas muito diferentes. Esta moeda, se ela vier \u00e0 luz, ser\u00e1 al\u00e9m disso uma \u201cmoeda comum\u201d e n\u00e3o uma \u201cmoeda \u00fanica\u201d conforme o modelo do Euro. Al\u00e9m disso, ainda n\u00e3o est\u00e1 decidido se esta moeda servir\u00e1 unicamente para as transa\u00e7\u00f5e no interior dos BRICS, caso em que se trataria de uma forma de c\u00e2mara de compensa\u00e7\u00e3o para os interc\u00e2mbios entre os pa\u00edses considerados, ou se ela ser\u00e1 uma moeda capaz de tratar dos interc\u00e2mbio entre os pa\u00edses dos BRICS (inclusive dos novos aderentes) e o resto do mundo. Este projeto n\u00e3o pode ser sen\u00e3o um projeto parcial e a longo prazo e n\u00e3o poder\u00e1 ser conclu\u00eddo sen\u00e3o daqui a v\u00e1rios anos. No entanto, continua extremamente interessante e contribui com uma pedra suplementar para o policentrismo monet\u00e1rio que est\u00e1 em vias de ser implementado.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia de perda de influ\u00eancia do d\u00f3lar \u00e9 antiga mas lenta. Ela confirma o \u201cdilema de Triffin\u201d e \u00e9 acompanhada pela redu\u00e7\u00e3o da parte da economia mundial ocupada pela economia dos Estados Unidos. Por raz\u00f5es institucionais, como a sua utiliza\u00e7\u00e3o maci\u00e7a como unidade de conta em numerosos mercados de mat\u00e9rias-primas e por raz\u00f5es de oportunidade pr\u00e1tica.<\/p>\n<p><b>Desglobaliza\u00e7\u00e3o e des-ocidentaliza\u00e7\u00e3o do mundo<\/b><\/p>\n<p>A \u201cdesglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d que se constata est\u00e1 em vias de assumir a forma de uma fragmenta\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o internacional em \u201cblocos\u201d mais ou menos antag\u00f3nicos. As hostilidades na Ucr\u00e2nia tenderam a endurecer os antagonismos como se verifica com proposi\u00e7\u00f5es visando transformar o G-7 numa \u201cNATO\u201d econ\u00f3mica. Mas estas hostilidades n\u00e3o criaram o fen\u00f3meno. Ele estava em germe desde 2014 e da expuls\u00e3o da R\u00fassia do G-8, assim como desde o agravamento do contencioso comercial entre a China e os Estados Unidos e o caso \u201cHuawei\u201d.<\/p>\n<p>Esta fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente vis\u00edvel no espa\u00e7o monet\u00e1rio e financeiro. Sem d\u00favida \u00e9 a\u00ed que a conflitualidade potencial \u00e9 mais elevada. Com efeito, a ruptura atual torna pouco prov\u00e1vel a constitui\u00e7\u00e3o de um novo \u201cBretton Woods\u201d (1944), ou mesmo de novos \u201cAcordos da Jamaica\u201d (1971) que implicariam a emerg\u00eancia de uma forma de consenso internacional. Este consenso n\u00e3o inconceb\u00edvel. Mas no momento atual ele continua muito pouco prov\u00e1vel e implicar\u00e1, para se constituir, que os diferentes blocos fa\u00e7am compromissos de maneira consciente.<\/p>\n<p>Acerca deste ponto, conv\u00e9m dizer que a amea\u00e7a de um \u201cconfisco\u201d dos haveres russos congelados pelas decis\u00f5es dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia representa um grande risco para os fluxos financeiros e os IDE \u00e0 escala internacional. Efetivamente, se se passasse de um \u201ccongelamento\u201d a um \u201cconfisco\u201d, al\u00e9m do facto de que medidas de retors\u00e3o certamente seriam tomadas pela R\u00fassia, a mensagem que se estaria a enviar ao \u201cresto do mundo\u201d seria que os pa\u00edses constitutivos do \u201cOcidente Coletivo\u201d n\u00e3o respeitam a propriedade dos outros. Note-se que gestos desta natureza, mas simbolicamente bem menos fortes, j\u00e1 foram tomadas pelos Estados Unidos a prop\u00f3sito do Iraque (onde no entanto se podia argumentar com o desaparecimento do Estado iraquiano na sequ\u00eancia da invas\u00e3o pelos Estados Unidos) e do Afeganist\u00e3o. Um tal gesto colocaria em causa a seguran\u00e7a dos capitais e dos investimentos (em particular os investimentos feitos por fundos soberanos) \u00e0 escala mundial e provocaria uma ruptura nos movimentos financeiros e nos fluxos dos IDE entre os pa\u00edses do \u201cOcidente Coletivo\u201d e o resto do mundo.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o dos pa\u00edses produtores de hidrocarbonetos do M\u00e9dio Oriente de come\u00e7ar a \u201csair\u201d da zona d\u00f3lar, decis\u00e3o que se pode ligar a esta amea\u00e7a de confisco dos haveres russos, \u00e9 certamente a forma mais significativa desta fragmenta\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria.<\/p>\n<p>A \u201c<b>desglobaliza\u00e7\u00e3o<\/b>\u201d \u00e9 tamb\u00e9m em grande medida uma \u201c<b>des-ocidentaliza\u00e7\u00e3o<\/b>\u201d do mundo que se traduz sobretudo \u2013 mas n\u00e3o unicamente \u2013 na contra\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia da Europa.<\/p>\n<ul>\n<li>A \u201caldeia global\u201d (Mc Luhan) n\u00e3o fala mais apenas o ingl\u00eas. Constata-se uma ascens\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es divergentes do \u201cSul\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s representa\u00e7\u00f5es do \u201cNorte\u201d. Esta ascens\u00e3o das representa\u00e7\u00f5es divergentes \u00e9 tamb\u00e9m o resultado da ascens\u00e3o dos medias do \u201cSul\u201d (\u00cdndia, Indon\u00e9sia, Singapura, mas tamb\u00e9m \u00c1frica do Sul, Nig\u00e9ria, Qu\u00e9nia, Brasil e Argentina). Deste ponto de vista deve-se fazer uma compara\u00e7\u00e3o entre a situa\u00e7\u00e3o no momento da opera\u00e7\u00e3o internacional no Kuwait (1991) em que as representa\u00e7\u00f5es americanas (via CNN) eram amplamente dominantes e a situa\u00e7\u00e3o atual marcada por uma pluralidade de medias e de vetores de informa\u00e7\u00e3o, com uma emerg\u00eancia r\u00e1pida dos media e vetores do \u201cSul\u201d. Os pa\u00edses do \u201cOcidente Coletivo\u201d dever\u00e3o habituar-se a n\u00e3o serem mais dominantes na informa\u00e7\u00e3o e mesmo a serem cada vez mais marginalizados.<\/li>\n<li>A Europa, no sentido da Uni\u00e3o Europeia, \u00e9 certamente a mais afetada por este fen\u00f3meno pois ela abdicou de toda autonomia pol\u00edtica e n\u00e3o soube construir um \u201csoft-power\u201d global. Deste ponto de vista a crise no processo de marcha rumo ao federalismo europeu \u00e9 manifesto. Se, a cada nova crise econ\u00f3mica (crise da d\u00edvida ap\u00f3s a crise das \u201csubprimes\u201d, crise do Covid-19, crise da energia) s\u00e3o efetuadas tentativas de fazer avan\u00e7ar a UE rumo a um modelo federal, cada uma destas tentativas n\u00e3o faz sen\u00e3o por mais em evid\u00eancia o problema da crise de legitimidade do modo de governa\u00e7\u00e3o da UE e afasta-a sempre para mais longe do campo realmente pol\u00edtico em dire\u00e7\u00e3o a campos t\u00e9cnicos mas onde a execu\u00e7\u00e3o de medidas eventuais choca-se novamente com uma quest\u00e3o de legitimidade pol\u00edtica.<\/li>\n<\/ul>\n<p>As perspectivas do crescimento mundial s\u00f3 traduzem este movimento de desocidentaliza\u00e7\u00e3o do mundo e sua deseuropeiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Tabela 3<br \/>\nTaxa de crescimento por grupos de pa\u00edses desde a crise do Covid-19<\/b><\/p>\n<table class=\"__reading_mode_data_table_class\" style=\"width: 63.3484%; height: 206px;\" border=\"1\" width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"4\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td><b>2019<\/b><\/td>\n<td><b>2020<\/b><\/td>\n<td><b>2021<\/b><\/td>\n<td><b>2022<\/b><\/td>\n<td><b>2023<\/b><\/td>\n<td><b>2024<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Mundo<\/td>\n<td>2,80%<\/td>\n<td>-2,80%<\/td>\n<td>6,30%<\/td>\n<td>3,40%<\/td>\n<td>2,80%<\/td>\n<td>3,00%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Economias avan\u00e7adas<\/td>\n<td>1,70%<\/td>\n<td>-4,20%<\/td>\n<td>5,40%<\/td>\n<td>2,70%<\/td>\n<td>1,30%<\/td>\n<td>1,40%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\u00a0\u00a0\u00a0Das quais: UE<\/td>\n<td>2,00%<\/td>\n<td>-5,60%<\/td>\n<td>5,60%<\/td>\n<td>3,70%<\/td>\n<td>0,70%<\/td>\n<td>1,60%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\u00a0\u00a0\u00a0Das quais: Zona EURO<\/td>\n<td>1,60%<\/td>\n<td>-6,10%<\/td>\n<td>5,40%<\/td>\n<td>3,50%<\/td>\n<td>0,80%<\/td>\n<td>1,40%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Estados Unidos<\/td>\n<td>2,30%<\/td>\n<td>-2,80%<\/td>\n<td>5,90%<\/td>\n<td>2,10%<\/td>\n<td>1,60%<\/td>\n<td>1,10%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Jap\u00e3o<\/td>\n<td>-0,40%<\/td>\n<td>-4,30%<\/td>\n<td>2,10%<\/td>\n<td>1,10%<\/td>\n<td>1,30%<\/td>\n<td>1,00%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Economias emergentes e em desenvolvimento<\/td>\n<td>3,60%<\/td>\n<td>-1,80%<\/td>\n<td>6,90%<\/td>\n<td>4,00%<\/td>\n<td>3,90%<\/td>\n<td>4,20%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\u00a0\u00a0\u00a0Das quais: Economias emergentes da \u00c1sia<\/td>\n<td>5,20%<\/td>\n<td>-0,50%<\/td>\n<td>7,50%<\/td>\n<td>4,40%<\/td>\n<td>5,30%<\/td>\n<td>5,10%<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\u00a0\u00a0\u00a0Das quais: Economias emergentes da Europa<\/td>\n<td>2,50%<\/td>\n<td>-1,60%<\/td>\n<td>7,30%<\/td>\n<td>0,80%<\/td>\n<td>1,20%<\/td>\n<td>2,50%<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><em>2023 e 2024 s\u00e3o previs\u00f5es. 2022 s\u00e3o estimativas.<\/em><br \/>\n<em>Fonte: IMF, World Economic Outlook, Appendix A,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/WEO\/Issues\/2023\/04\/11\/world-economic-outlook-april-2023#statistical\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/WEO\/Issues\/2023\/04\/11\/world-economic-outlook-april-2023#statistical<\/a>Entretanto, \u00e9 de esperar que esta constitui\u00e7\u00e3o de \u201cblocos\u201d antag\u00f3nicos permita a manuten\u00e7\u00e3o de fluxos comerciais e financeiros entre os mesmos.<\/em><\/p>\n<p>No entanto, os fluxos de mercadorias, os fluxos financeiros, os fluxos de informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o v\u00e3o cessar mas n\u00e3o ser\u00e3o mais hegemonizados pelos pa\u00edses do \u201cNorte\u201d.<\/p>\n<p><b>As repercuss\u00f5es no seio dos pa\u00edses<\/b><\/p>\n<p>As mudan\u00e7as na ordem mundial a que se assistiu desde o fim de 2019 significaram o fim do contrato social impl\u00edcito que predominava nos pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<ul>\n<li>A forte alta dos pre\u00e7os que come\u00e7ou em meados de Junho de 2021 implica uma crise de um modelo social fundamentado sobre uma financiariza\u00e7\u00e3o acelerada com a manuten\u00e7\u00e3o de uma estabilidade de pre\u00e7os permitida por fluxos de importa\u00e7\u00f5es a baixos custos.<\/li>\n<li>Isso leva a uma tomada de consci\u00eancia, mais ou menos r\u00e1pida e mais ou menos importante conforme o pa\u00eds considerado, de que a continuidade do modelo de crescimento ligado \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel.<\/li>\n<li>Al\u00e9m disso, a tomada de consci\u00eancia dos limites ecol\u00f3gicos do antigo modelo de crescimento, limites que muito frequentemente s\u00e3o reduzidos \u00e0 quest\u00e3o da desregulamenta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica mas que na realidade incluem a quest\u00e3o dos res\u00edduos e da polui\u00e7\u00e3o dos solos e da \u00e1gua, tamb\u00e9m se afirmou atrav\u00e9s do choque social induzidos pela pandemia do COVID-19.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Contudo, estas mudan\u00e7as n\u00e3o se limitam \u00e0s economias desenvolvidas. A \u201cnova ordem mundial\u201d implica uma mudan\u00e7a de modelos de desenvolvimento para os pa\u00edses do \u201cSul Coletivo\u201d:<\/p>\n<ul>\n<li>Para a R\u00fassia, esta \u00e9 a estrat\u00e9gia de desenvolvimento adotada desde os anos 2000 e fundada sobre os la\u00e7os de depend\u00eancia rec\u00edproca com as economias europeias (energias\/produtos manufaturados) \u00e9 \u00e9 posta em causa. O modelo da venda de uma energia barata contra investimentos industriais e importa\u00e7\u00f5es de bens manufaturados e de tecnologia foi invalidade.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A R\u00fassia n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 neste caso. A \u00cdndia e a China poderiam muito bem, daqui a alguns meses ou alguns anos, serem confrontadas com questionamentos semelhantes.<\/p>\n<ul>\n<li>Que abertura da \u00cdNDIA diante das press\u00f5es crescentes dos Estados Unidos? Um modelo \u201cneo-nacionalista\u201d, retomando a pol\u00edtica dos anos 1950-1970, poderia surgir?<\/li>\n<li>Que din\u00e2mica para a CHINA no momento em que o conflito comercial com os Estados Unidos se envenena dia a dia?<\/li>\n<li>Pode-se considerar que um modelo de \u201csoberanismo econ\u00f3mico\u201d est\u00e1 em vias de ganhar terreno? Qual ser\u00e1 o desenvolvimento de \u201cmodelos\u201d de industrializa\u00e7\u00e3o espec\u00edficos na TURQUIA, na INDON\u00c9SIA e tamb\u00e9m para pa\u00edses como a Arg\u00e9lia, o Egito, a Nig\u00e9ria, os pa\u00edses da \u00c1frica Ocidental?<\/li>\n<\/ul>\n<p>Globalmente, o grau de abertura dos BRICS tendeu a reduzir-se ao longo dos dez anos a partir da crise de 2008-2010. Os pa\u00edses dos BRICS procuraram reduzir a sua depend\u00eancia do com\u00e9rcio internacional e este processo deveria naturalmente acelerar-se nas circunst\u00e2ncias atuais marcadas por uma politiza\u00e7\u00e3o cada vez maior dos interc\u00e2mbios internacionais. Isto traduz a necessidade para estes pa\u00edses de construir e desenvolver seu mercado interno. Mas este movimento reflete tamb\u00e9m a tomada de consci\u00eancia de que os interc\u00e2mbio econ\u00f3micos podem ser instrumentalizados pela \u201cpot\u00eancia dominante\u201d e, portanto, que podem, para al\u00e9m de um certo limite, revelar-se fontes de vulnerabilidades. Resultar\u00e3o estas mudan\u00e7as num novo \u201cpacto social para a produ\u00e7\u00e3o\u201d?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que se est\u00e1 a retornar a um \u201cbom senso\u201d protecionista ap\u00f3s os excessos do \u201clivre com\u00e9rcio\u201d?<\/p>\n<p><b>Conclus\u00e3o<\/b><\/p>\n<ul>\n<li>Desde o princ\u00edpio de 2022 assistimos a uma acelera\u00e7\u00e3o das transforma\u00e7\u00f5es que j\u00e1 estavam em curso desde pelo menos a uma dezena de anos na economia mundial. Estas transforma\u00e7\u00f5es assinam a senten\u00e7a de morte da ordem mundial sa\u00edda do princ\u00edpio dos anos 1990.<\/li>\n<li>Esta senten\u00e7a de morte toma a forma da ascens\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o ocidentais (BRICS, OCS) na vida internacional, do questionamento brutal do livre com\u00e9rcio generalizado e do sistema monet\u00e1rio internacional. Esta mudan\u00e7a na ordem mundial toma a forma de uma desocidentaliza\u00e7\u00e3o do mundo e pretende, erradamente ou com raz\u00e3o, mergulhar suas ra\u00edzes no movimento de descoloniza\u00e7\u00e3o dos anos 1950-1960.<\/li>\n<li>Mas estas transforma\u00e7\u00f5es afetam tamb\u00e9m o pacto social, quer seja ele impl\u00edcito ou expl\u00edcito, que funcionava na maior parte dos pa\u00edses desenvolvidos ou em desenvolvimento. Ele confronta os pa\u00edses desenvolvidos com a impossibilidade de prosseguir na via que era sua desde o come\u00e7o dos anos 1990.<\/li>\n<li>Esta mudan\u00e7a exige aos pa\u00edses emergentes ou em desenvolvimento que se afastem da financiariza\u00e7\u00e3o das atividades e que n\u00e3o tentem imitar a trajet\u00f3ria passada dos pa\u00edses desenvolvidos. Em ambos os casos, estabelece-se que o Estado ter\u00e1 de desempenhar um papel mais importante \u2013 direta ou indiretamente \u2013 na atividade econ\u00f3mica e na estrutura\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><b>Anexo<\/b><br \/>\nO semin\u00e1rio foi realizado conforme as chamadas regras de Chatham House. As propostas dos participantes n\u00e3o s\u00e3o referenciadas deliberadamente.<\/span><\/p>\n<p><b>Lista dos participantes<\/b><br \/>\nBoris Nikolaevich Porfiryev\u00a0 \u2013 Responsable scientifique de l\u2019IPE-ASR, Acad\u00e9micien \u00e0 l\u2019Acad\u00e9mie des Sciences de Russie<br \/>\nAlexander A. Shirov\u00a0 \u2013 Directeur de l\u2019Institut de pr\u00e9vision \u00e9conomique de l\u2019Acad\u00e9mie russe des sciences (IPE-ASR), membre correspondant de l\u2019Acad\u00e9mie des sciences de Russie<br \/>\nDmitry Kuvalin\u00a0 \u2013 Directeur adjoint de l\u2019IPE-ASR, docteur en \u00e9conomie, chef de laboratoire<br \/>\nOleg Dzhondovich Govtvan\u00a0 \u2013 Chercheur en chef, l\u2019IPE-ASR, docteur en \u00e9conomie<br \/>\nIgor Eduardovich Frolov\u00a0 \u2013 Directeur adjoint de l\u2019IPE-ASR, docteur en \u00e9conomie<br \/>\nYury Alekseevich Shcherbanin\u00a0 \u2013 Chef de laboratoire, Institut d\u2019\u00e9conomie, Acad\u00e9mie russe des sciences, docteur en \u00e9conomie, professeur<br \/>\nValery Semikashev\u00a0 \u2013 Chef de laboratoire, Institut d\u2019\u00e9conomie, Acad\u00e9mie russe des sciences, candidat en sciences \u00e9conomiques<br \/>\nElena Valerievna Ordynskaya\u00a0 \u2013 Chef de laboratoire, Institut d\u2019\u00e9conomie, Acad\u00e9mie russe des sciences, candidate en sciences \u00e9conomiques<br \/>\nAlexander Olegovich Baranov\u00a0 \u2013 Directeur adjoint de l\u2019Institut d\u2019\u00e9conomie et de commerce de la branche sib\u00e9rienne de l\u2019Acad\u00e9mie russe des sciences (Novosibirsk), docteur en \u00e9conomie<br \/>\nMariam Voskanyan\u00a0 \u2013 Chef du D\u00e9partement d\u2019\u00e9conomie et de finance de l\u2019Institut d\u2019\u00e9conomie et de commerce de l\u2019Universit\u00e9 russo-arm\u00e9nienne, docteur en \u00e9conomie, professeur<br \/>\nAshot Tavadyan\u00a0 \u2013 Chef de d\u00e9partement \u00e0 l\u2019Universit\u00e9 russo-arm\u00e9nienne, docteur en \u00e9conomie, professeur<br \/>\nIrina Petrosyan\u00a0 \u2013 Chef de d\u00e9partement \u00e0 l\u2019Universit\u00e9 russo-arm\u00e9nienne, candidate en sciences \u00e9conomiques<br \/>\nAlexander Vladislavovich Gotovsky\u00a0 \u2013 Directeur adjoint de l\u2019Institut d\u2019\u00e9conomie de l\u2019Acad\u00e9mie nationale des sciences de la R\u00e9publique du B\u00e9larus, candidat en sciences \u00e9conomiques<br \/>\nJacques Sapir\u00a0 \u2013 Directeur du Centre d\u2019\u00e9tudes des modes d\u2019industrialisation (CEMI-EGE), Directeur d\u2019\u00e9tudes de l\u2019\u00c9cole des hautes \u00e9tudes en sciences sociales (EHESS), enseignant \u00e0 l\u2019\u00c9cole de Guerre \u00c9conomique, membre \u00e9tranger de l\u2019Acad\u00e9mie des Sciences de Russie.<br \/>\nH\u00e9l\u00e8ne Cl\u00e9ment-Pitiot\u00a0 \u2013 Chercheuse CEMI-EGE, Ma\u00eetre de conf\u00e9rences \u00e0 l\u2019Universit\u00e9 de Cergy-Pontoise et CEMI<br \/>\nJean-Michel Salmon\u00a0 \u2013 Ma\u00eetre de Conf\u00e9rences \u00e0 l\u2019Universit\u00e9 de la Martinique (Universit\u00e9 de la Martinique), chercheur au CEMI-EGE<br \/>\nRenaud Bouchard\u00a0 \u2013 Chercheur au CEMI-EGE<br \/>\nMaxime Izoulet\u00a0 \u2013 Chercheur CEMI-EGE, \u00c9ducation nationale.<br \/>\nDavid Cayla\u00a0 \u2013 Ma\u00eetre de Conf\u00e9rences \u00e0 l\u2019Universit\u00e9 d\u2019Angers (Universit\u00e9 d\u2019Angers)<\/p>\n<p><a name=\"notas\"><\/a><b>Notas<\/b><br \/>\n[1]\u00a0 Triffin, R.,\u00a0\u00a0<i>Gold and the Dollar Crisis. The Future of Convertibility,<\/i>\u00a0New Haven, Connecticut, Yale University Press et London: Oxford University Press, 1960.<br \/>\n[2]\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/fandd\/issues\/2023\/06\/growing-threats-to-global-trade-goldberg-reed\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/fandd\/issues\/2023\/06\/growing-threats-to-global-trade-goldberg-reed<\/a><br \/>\n[3]\u00a0 Aglietta M.,\u00a0\u00a0<i>La fin des devises clefs,<\/i>\u00a0Paris, La D\u00e9couverte, coll. Agalma, 1986.<br \/>\n[4]\u00a0 Aglietta M., (dir),\u00a0\u00a0<i>L\u2019Ecu et la vieille dame,<\/i>\u00a0Paris, Economica, 1986.<\/p>\n<p>Este texto foi redigido na sequ\u00eancia da 65\u00aa sess\u00e3o do semin\u00e1rio Franco-Russo co-organizado pelo Centro de Estados dos Modos de Industrializa\u00e7\u00e3o da Escola de Guerra Econ\u00f3mica (Paris) e pelo Instituto de Previs\u00e3o Econ\u00f3mica da Academia de Ci\u00eancias da R\u00fassia (Moscovo). O semin\u00e1rio efetuou-se de 3 a 5 de Julho tanto \u00e0 dist\u00e2ncia como presencialmente e foi abrigado no edif\u00edcio da Escola de Guerra Econ\u00f3mica, \u00e0 qual agrade\u00e7o. Ele reuniu investigadores franceses, russo e tamb\u00e9m arm\u00e9nios e da Bielor\u00fassia.<br \/>\nEste texto foi redigido seguindo as regras de Chatham House. As interven\u00e7\u00f5es dos participantes s\u00e3o an\u00f3nimas. O autor agradece aos seus colegas pelas observa\u00e7\u00f5es e contribui\u00e7\u00f5es efetuadas durante o semin\u00e1rio. Ele permanece como \u00fanico respons\u00e1vel pelos erros e omiss\u00f5es do presente texto.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Rumo a uma nova ordem mundial &#8211; https:\/\/resistir.info\/crise\/sapir_13jul23.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jacques Sapir &#8211;\u00a0As hostilidades na Ucr\u00e2nia aceleraram \u2013 mas n\u00e3o criaram \u2013 uma mudan\u00e7a de enorme import\u00e2ncia na ordem mundial. 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