{"id":19592,"date":"2023-07-16T13:15:10","date_gmt":"2023-07-16T16:15:10","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19592"},"modified":"2023-07-16T13:09:23","modified_gmt":"2023-07-16T16:09:23","slug":"a-guerra-e-o-perigo-dos-mercenarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/07\/16\/a-guerra-e-o-perigo-dos-mercenarios\/","title":{"rendered":"A guerra e o perigo dos mercen\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jo\u00e3o Rafael Gualberto de Souza Morais<\/strong> &#8211; Em que medida Academi (EUA), Grupo Wagner (R\u00fassia) e assemelhados representam uma tend\u00eancia hist\u00f3rica? Como a Guerra Fria quebrou o monop\u00f3lio estatal dos ex\u00e9rcitos? Quais os riscos de brutalidades ainda maiores e rebeli\u00f5es?<\/p>\n<p>No \u00faltimo final de semana, um motim do Grupo Wagner, uma companhia militar privada russa, abalou a estabilidade da grande pot\u00eancia nuclear. Especula\u00e7\u00f5es sobre um golpe logo apareceram e diversas an\u00e1lises apontaram o risco de guerra civil. Debelado o motim, ainda n\u00e3o se sabe com precis\u00e3o o que ocorreu, mas uma coisa se pode afirmar: a rela\u00e7\u00e3o entre o grupo e o Estado russo atingiu o ponto de fervura e se tornou uma amea\u00e7a ao esfor\u00e7o de guerra na Ucr\u00e2nia e \u00e0 ordem interna na pr\u00f3pria R\u00fassia. A tens\u00e3o entre o Minist\u00e9rio da Defesa e o grupo escala h\u00e1 semanas com declara\u00e7\u00f5es de Yevgeny Prigozhin, l\u00edder do Wagner, acusando erros na condu\u00e7\u00e3o da guerra por parte do MD, que tenta, por sua vez (e sem sucesso), subordinar os mercen\u00e1rios. O cl\u00edmax e a centelha para a rebeli\u00e3o teriam sido a acusa\u00e7\u00e3o, feita por Prigozhin, de ataques do ex\u00e9rcito russo contra o seu grupo na frente ucraniana.<\/p>\n<p>Isso nos leva a indagar: estaria Putin decidido a destruir o grupo, mediante a recusa de Prigozhin em incorporar-se \u00e0s for\u00e7as regulares? N\u00e3o se sabe ao certo, mas \u00e9 uma hip\u00f3tese razo\u00e1vel. Outrora um instrumento pr\u00e1tico e eficiente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Estado para projetar poder a baixos custos pol\u00edticos, o G. Wagner parece ter se tornado uma amea\u00e7a. E n\u00e3o surpreende: historicamente, mercen\u00e1rios representam um perigo e, por isso, foram superados por ex\u00e9rcitos nacionais. Vejamos como se deu esse processo, como se apresenta esse perigo e por que o recurso a esse expediente retornou e hoje ocupa os notici\u00e1rios sobre a maior pot\u00eancia nuclear do mundo. Comecemos pelos fundamentos do problema.<\/p>\n<p>Yevgeny Prigozhin e membros do grupo Wagner em v\u00eddeo divulgado no dia 23 de junho (Reprodu\u00e7\u00e3o\/V\u00eddeo\/AP)<br \/>\nGuerra, estado e monop\u00f3lio da viol\u00eancia<br \/>\nA guerra \u00e9 um fen\u00f4meno constitutivo do Estado. A era moderna observou o desenvolvimento de um sistema internacional protagonizado por Estados soberanos dotados de ex\u00e9rcitos profissionais, regulares e nacionais. Esse processo, al\u00e9m de condicionado por conting\u00eancias hist\u00f3ricas, foi tamb\u00e9m pautado por reflex\u00f5es dedicadas \u00e0 guerra e sua rela\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica, como a obra do florentino Nicolau Maquiavel, um dos autores seminais para pensar a modernidade, e a de Carl von Clausewitz, general prussiano autor de uma densa an\u00e1lise sobre a \u201cnatureza\u201d pol\u00edtica da guerra. O espa\u00e7o compreendido entre os dois corresponde ao processo de desenvolvimento dos ex\u00e9rcitos modernos, que demandou a supera\u00e7\u00e3o do emprego de mercen\u00e1rios em prol da institucionaliza\u00e7\u00e3o do poder militar.<\/p>\n<p>Mas qual \u00e9 o problema no emprego de mercen\u00e1rios? Por que ex\u00e9rcitos nacionais se tornaram hegem\u00f4nicos? E em que medida o que aconteceu na R\u00fassia representa uma tend\u00eancia hist\u00f3rica? Segundo Clausewitz, o conflito militar se define por uma ontologia pol\u00edtica: \u201cA guerra nada mais \u00e9 que um duelo em escala mais vasta, (\u2026) um ato de viol\u00eancia destinado a compelir o oponente a fazer nossa vontade. (\u2026) N\u00e3o seria a guerra meramente uma outra linguagem para veicular o pensamento pol\u00edtico? \u00c9 certo que possui uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria, mas n\u00e3o uma l\u00f3gica pr\u00f3pria. (\u2026) A guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios.\u201d<\/p>\n<p>Embora a guerra tenha imensa amplitude na hist\u00f3ria e esteja sujeita a abordagens diversas, tomemos sua acep\u00e7\u00e3o mais compat\u00edvel com a rela\u00e7\u00e3o interestatal, isto \u00e9, enquanto fen\u00f4meno pol\u00edtico indissoci\u00e1vel da realidade internacional. As rela\u00e7\u00f5es internacionais se d\u00e3o em um ambiente carente de regula\u00e7\u00e3o supraestatal, onde prevalecem arquiteturas de seguran\u00e7a baseadas no equil\u00edbrio de poder. Isso significa que o emprego da viol\u00eancia como instrumento pol\u00edtico tem sido uma marca irredut\u00edvel do horizonte internacional.<\/p>\n<p>Com efeito, a guerra demanda log\u00edstica complexa e impulsionou o desenvolvimento do Estado moderno, cuja centraliza\u00e7\u00e3o se baseia em dois elementos articulados: a burocracia e o monop\u00f3lio da viol\u00eancia, traduzindo empiricamente uma f\u00f3rmula de Maquiavel: boas armas para garantir boas leis; e boas leis para garantir boas armas. Consolidado, o Estado passou \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia canalizando-a para fora atrav\u00e9s de guerras que definiram os limites \u2013 sempre flex\u00edveis \u2013 do sistema internacional. Esse processo levou \u00e0 necessidade de mais poder militar, e o aumento da arrecada\u00e7\u00e3o \u2013 a partir da expans\u00e3o comercial e da burocracia \u2013 viabilizou a substitui\u00e7\u00e3o do antigo sistema de vassalagem, dominante na Idade M\u00e9dia, por ex\u00e9rcitos permanentes.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o dos ex\u00e9rcitos modernos: dos mercen\u00e1rios aos ex\u00e9rcitos nacionais<br \/>\nOs ex\u00e9rcitos contempor\u00e2neos s\u00e3o constitu\u00eddos por tr\u00eas elementos b\u00e1sicos: profissionalismo, subordina\u00e7\u00e3o e nacionalismo. O primeiro est\u00e1 associado \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o exclusiva e regular \u00e0 atividade militar; o segundo, ao bin\u00f4mio hierarquia e disciplina, que s\u00f3 foi poss\u00edvel com a burocracia do Estado moderno; e o terceiro diz respeito ao sentido de perten\u00e7a \u00e0 comunidade nacional, consolidada durante o s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Segundo Hobsbawm (2010, p. 28), antes do Estado, o poder esteve limitado pela incapacidade dos governos de exercer um monop\u00f3lio efetivo dos armamentos devido \u00e0 \u201cincapacidade de manter e suprir continuamente um corpo de servidores armados e civis suficientemente numeroso, e, naturalmente, pela insufici\u00eancia de t\u00e9cnica das informa\u00e7\u00f5es, das comunica\u00e7\u00f5es e dos transportes\u201d. Nesses reinos, e at\u00e9 mesmo nos poderosos imp\u00e9rios, a for\u00e7a f\u00edsica \u201cdependia de uma reserva de guerreiros que pudessem ser mobilizados em casos de especial necessidade e de uma reserva desses guerreiros que estivessem dispon\u00edveis de forma mais ou menos permanente\u201d. O poder pol\u00edtico \u201cera medido pela quantidade de guerreiros que um l\u00edder pudesse mobilizar com regularidade\u201d.<\/p>\n<p>A Europa medieval foi dominada por um sistema militar baseado no compromisso entre seguran\u00e7a e propriedade (a \u201cvassalagem\u201d), amador se comparado aos ex\u00e9rcitos profissionais modernos. As for\u00e7as eram tempor\u00e1rias, de preparo rudimentar e a atividade militar funcionava como um sistema sazonal: o nobre guerreiro oferecia seu servi\u00e7o e suas tropas a outro mais poderoso (seu suserano) quando convocado em troca de terras ou destaque no reino. Nessa fase, o soberano n\u00e3o era capaz de manter for\u00e7as regulares, que demandam complexa burocracia e log\u00edstica, al\u00e9m de uma arquitetura pol\u00edtica bem definida.<\/p>\n<p>Com o aumento da arrecada\u00e7\u00e3o de moedas, consequ\u00eancia da expans\u00e3o da economia mercantil do s\u00e9culo XIV, muitos pr\u00edncipes passaram a ter condi\u00e7\u00f5es de empregar mercen\u00e1rios, soldados profissionais que viviam de oferecer seus servi\u00e7os por pagamentos. As novas receitas \u2013 advindas da expans\u00e3o da tributa\u00e7\u00e3o, inclusive, daqueles capazes de pagar para n\u00e3o prestar servi\u00e7o militar \u2013 geraram receitas para a manuten\u00e7\u00e3o prolongada dos soldados que desejassem servir em troca de pagamentos regulares. Foi, assim, poss\u00edvel lan\u00e7ar as bases de um ex\u00e9rcito permanente e reduzir progressivamente a depend\u00eancia da vassalagem, condicionada a controles subjetivos.<\/p>\n<p>Foi na pen\u00ednsula it\u00e1lica, cen\u00e1rio das maiores pot\u00eancias financeiras da \u00e9poca, que o emprego de soldados profissionais adquiriu car\u00e1ter mais est\u00e1vel primeiro. As cidades italianas passaram a confiar sua seguran\u00e7a inteiramente a profissionais, dando \u00e0 atividade militar contornos de \u201cuma profiss\u00e3o na inteireza do termo, separada por completo de qualquer outra atividade civil\u201d (PARET, 2003, p. 32). O emprego de mercen\u00e1rios proporcionou aos reinos mais ricos o recurso a instrumentos militares mais competentes, dando origem a uma revolu\u00e7\u00e3o militar e social. A riqueza das cidades italianas atra\u00eda soldados de toda a Europa, levando \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de ex\u00e9rcitos capazes n\u00e3o apenas de prover seguran\u00e7a, mas tamb\u00e9m conquistas que aumentavam os esp\u00f3lios e a arrecada\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Apesar da import\u00e2ncia que os mercen\u00e1rios tiveram no processo de profissionaliza\u00e7\u00e3o dos ex\u00e9rcitos \u2013 inclusive treinando as mil\u00edcias que se tornariam os primeiros ex\u00e9rcitos nacionais \u2013, os riscos implicados no seu emprego logo ficaram evidentes. Em princ\u00edpios do s\u00e9culo XVI, Maquiavel refletiu sobre o problema a partir de suas observa\u00e7\u00f5es das guerras na It\u00e1lia, e entendeu que era necess\u00e1rio n\u00e3o apenas profissionalizar a atividade militar, mas tamb\u00e9m subordin\u00e1-la ao Estado. A melhor maneira seria constituir um ex\u00e9rcito de cidad\u00e3os, pois estes lutariam melhor por suas cidades, fam\u00edlia e valores do que mercen\u00e1rios, que s\u00f3 lutam por si mesmos. N\u2019O Pr\u00edncipe, ele sustenta que aqueles que mant\u00eam seus principados com mercen\u00e1rios arriscam-se, pois estes lutam apenas por si. Segundo ele: \u201cse um pr\u00edncipe fundamenta o seu poder nas armas mercen\u00e1rias, n\u00e3o o ter\u00e1 jamais s\u00f3lido nem gozar\u00e1 de seguran\u00e7a, porque os soldados n\u00e3o se lhe afei\u00e7oam, s\u00e3o ambiciosos, indisciplinados e infi\u00e9is.\u201d (MAQUIAVEL, 1987, p. 88)<\/p>\n<p>Instru\u00eddos pela experi\u00eancia das guerras na pen\u00ednsula it\u00e1lica, quando houve diversos epis\u00f3dios de trai\u00e7\u00e3o por parte dos mercen\u00e1rios, os ex\u00e9rcitos italianos passaram, cada vez mais, bem como outros pela Europa, a se organizar segundo o modelo greco-romano da antiguidade: homens recrutados por um per\u00edodo de treinamento e empregados, quando necess\u00e1rio, em unidades seguindo o padr\u00e3o da infantaria romana, modelo preferido de Maquiavel, segundo padr\u00f5es disciplinares cada vez mais r\u00edgidos que proporcionaram o surgimento de tropas mais organizadas, numerosas e hierarquicamente mais complexas. Uma revolu\u00e7\u00e3o militar acontecia aceleradamente e sua for\u00e7a motriz seria, segundo Weber (2011), a disciplina, n\u00e3o a p\u00f3lvora.<\/p>\n<p>Com efeito, Hobsbawm (2010, p. 29) afirma que \u201cnenhum Estado europeu antes do s\u00e9culo XVII tinha capacidade de manter um ex\u00e9rcito nacional permanente, recrutado, pago e administrado diretamente pelo governo central\u201d. O monop\u00f3lio das armas foi, portanto, consolidado apenas no s\u00e9culo XIX. Entre os s\u00e9culos XVI e XVIII, tropas regulares formadas em meio a dificuldades burocr\u00e1ticas e financeiras dos jovens Estados europeus n\u00e3o somavam mais do que algumas poucas dezenas de milhares de homens e, por isso, era necess\u00e1rio complement\u00e1-las com mercen\u00e1rios. Mas a impossibilidade de subordinar esses soldados convenceu os soberanos da necessidade de expans\u00e3o dos ex\u00e9rcitos permanentes, ainda que mais caros e dif\u00edceis de manter. Esse seria o caminho que levaria aos ex\u00e9rcitos nacionais contempor\u00e2neos e \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Antigo Regime.<\/p>\n<p>O retorno dos mercen\u00e1rios<br \/>\nAp\u00f3s s\u00e9culos de guerras travadas por ex\u00e9rcitos estatais, a Guerra Fria gestou grandes mudan\u00e7as na din\u00e2mica dos conflitos. Em fun\u00e7\u00e3o da dissuas\u00e3o nuclear entre as pot\u00eancias, a guerra transferiu-se para regi\u00f5es perif\u00e9ricas do sistema internacional, atrav\u00e9s do recurso a expedientes n\u00e3o convencionais, como grupos irregulares armados e financiados por Estados para realizarem o emprego militar direto reduzindo os custos e riscos pol\u00edticos\/sociais da guerra.<\/p>\n<p>A partir de 1945, a emerg\u00eancia de uma ordem internacional voltada para a coopera\u00e7\u00e3o e a criminaliza\u00e7\u00e3o da guerra, respaldada pela dissuas\u00e3o nuclear, gerou constrangimentos para o emprego do poder militar, notadamente o risco de escalada entre atores nucleares e a opini\u00e3o p\u00fablica \u2013 fator inexistente ou pouco relevante para os estadistas at\u00e9 o s\u00e9culo XX. Depois, a atmosfera de pacifica\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-Guerra Fria tornou o recurso \u00e0 for\u00e7a ainda mais dif\u00edcil, elevando os custos pol\u00edticos para a\u00e7\u00f5es consideradas agressivas na pol\u00edtica internacional. O desenvolvimento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que tornam cada vez mais instant\u00e2neas as atrocidades da guerra, influenciam a opini\u00e3o p\u00fablica a rejeitar o emprego de suas for\u00e7as armadas em incurs\u00f5es de resultado duvidoso.<\/p>\n<p>No entanto, apesar dessas mudan\u00e7as, a defesa dos interesses estatais continua pautando a realidade internacional e levou ao retorno de um velho expediente: as companhias militares privadas, alternativa conveniente em face da hesita\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes pol\u00edticos para pagar os custos nacionais do envolvimento em certos conflitos.<\/p>\n<p>O ressurgimento dos mercen\u00e1rios representa um processo de terceiriza\u00e7\u00e3o do emprego militar, lembrando as fases iniciais da forma\u00e7\u00e3o do Estado, e foi tamb\u00e9m express\u00e3o do neoliberalismo hegem\u00f4nico sob o lastro do consenso de Washington. Entre as pot\u00eancias, destacam-se o Black Water, empenhado na 2\u00aa Guerra do Golfo, e o DynCorp, na Col\u00f4mbia, envolvido no combate ao narcotr\u00e1fico, ambos dos EUA, a na\u00e7\u00e3o mais beligerante do mundo desde 1945. O outro caso que merece nossa aten\u00e7\u00e3o, e que enseja essa reflex\u00e3o, \u00e9 o Grupo Wagner, criado em 2014 para atuar na Ucr\u00e2nia e utilizado tamb\u00e9m, e com enorme efic\u00e1cia, na guerra da S\u00edria, al\u00e9m de conflitos no Mali, Sud\u00e3o e, mais recentemente, na Rep\u00fablica Centro Africana. O custo pol\u00edtico do emprego desses grupos para os Estados \u00e9 m\u00ednimo. Todavia, como j\u00e1 sabemos, os riscos podem ser altos.<\/p>\n<p>Esses riscos s\u00e3o, objetivamente, trai\u00e7\u00e3o e secess\u00e3o. O que aconteceu no caso em tela levanta diversas suspeitas, inclusive do poss\u00edvel aliciamento do G. Wagner por for\u00e7as inimigas da R\u00fassia, fato recorrente no emprego de mercen\u00e1rios ao longo da hist\u00f3ria. Se algo dessa natureza acontece, pode comprometer seriamente o esfor\u00e7o de guerra, pois existe a possibilidade de o motim galvanizar elementos das for\u00e7as regulares simp\u00e1ticos \u00e0s demandas do grupo ou solid\u00e1rios a ele em decorr\u00eancia do esp\u00edrito de corpo gerado pelo campo de batalha. A quest\u00e3o central, retomando os fundamentos deste texto, \u00e9, portanto, o risco cr\u00edtico que essa insubordina\u00e7\u00e3o representa ao monop\u00f3lio da viol\u00eancia do Estado.<\/p>\n<p>\u00c9 sintom\u00e1tico desse risco o fato de o ministro da defesa russo ter negado apoio log\u00edstico e operacional \u00e0s for\u00e7as do G. Wagner empenhadas na Ucr\u00e2nia, insinuando o reconhecimento do grupo como uma amea\u00e7a a ser contida. Isso significa um perigo de divis\u00e3o nas for\u00e7as combatentes, o que explica as tentativas de assimila\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o do Wagner pelo MD, sumariamente rejeitadas pelo grupo. Prigozhin, nesse momento, parece lutar por sua autonomia, e o Estado russo parece j\u00e1 ter compreendido que a rela\u00e7\u00e3o ultrapassou o limite, pois a import\u00e2ncia assumida pelo grupo aumentou seu poder de barganha, que come\u00e7a a incomodar. Atingido este ponto, s\u00f3 h\u00e1 duas sa\u00eddas para o Estado: a subordina\u00e7\u00e3o dos mercen\u00e1rios atrav\u00e9s da sua incorpora\u00e7\u00e3o, como a pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia fez com algumas mil\u00edcias, como o Batalh\u00e3o Azov; ou sua elimina\u00e7\u00e3o \u2013 por destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica (o que significaria uma guerra civil) ou ex\u00edlio (que parece ser o acordo negociado entre as partes na Bielorr\u00fassia).<\/p>\n<p>De qualquer jeito, uma coisa \u00e9 certa: s\u00f3 h\u00e1 espa\u00e7o para um no manuseio da espada do Estado.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<br \/>\nCLAUSEWTIZ, Carl von. Da guerra. 3 ed. S\u00e3o Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.<\/p>\n<p>GIDDENS, A. O Estado-na\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia. S\u00e3o Paulo: Edusp, 2008.<\/p>\n<p>GILBERT, Feliz. \u201cMaquiavel: o renascimento da arte da guerra\u201d. In: PARET, Peter. Construtores da estrat\u00e9gia moderna \u2013 Tomo 1. Bibliex, 2001.<\/p>\n<p>HOBSBAWM, Eric. Bandidos. 4 ed. S\u00e3o Paulo: Paz e Terra, 2010.<\/p>\n<p>KALDOR, Mary. New and old wars: organized violence in a global era. Stanford: Stanford University Press, 2006.<\/p>\n<p>MAQUIAVEL, Nicolau. Da arte da guerra. Bauru, SP: EDIPRO, 2002.<\/p>\n<p>_______. O Pr\u00edncipe: escritos pol\u00edticos. 4 ed. S\u00e3o Paulo: Nova Cultural, 1987.<\/p>\n<p>PARET, Peter. (org.) Construtores da estrat\u00e9gia moderna. Tomos 1 e 2. Rio de Janeiro: Biblioteca do Ex\u00e9rcito Editora, 2003.<\/p>\n<p>WEBER, Max. Ci\u00eancia e pol\u00edtica: duas voca\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2011.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A guerra e o perigo dos mercen\u00e1rios &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/a-guerra-e-o-perigo-dos-mercenarios\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Rafael Gualberto de Souza Morais &#8211; Em que medida Academi (EUA), Grupo Wagner (R\u00fassia) e assemelhados representam uma tend\u00eancia hist\u00f3rica? Como a Guerra Fria quebrou o monop\u00f3lio estatal dos ex\u00e9rcitos? Quais os riscos de brutalidades ainda maiores e rebeli\u00f5es? 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