{"id":19547,"date":"2023-07-06T12:17:12","date_gmt":"2023-07-06T15:17:12","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19547"},"modified":"2023-07-02T15:23:57","modified_gmt":"2023-07-02T18:23:57","slug":"os-economistas-que-desafiam-os-velhos-dogmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/07\/06\/os-economistas-que-desafiam-os-velhos-dogmas\/","title":{"rendered":"Os economistas que desafiam os velhos dogmas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ladislau Dowbor<\/strong> &#8211; Crise do neoliberalismo desperta, em todo o mundo, busca de novas teorias. Elas zombam do culto \u00e0 cobi\u00e7a e falam em igualdade, volta do Estado, miss\u00f5es sociais e repeito \u00e1 natureza. Quem as defende? Por que a m\u00eddia brasileira omite este debate?<\/p>\n<blockquote><p>O mundo mudou, mas ainda ensinamos e discutimos teorias que s\u00e3o essencialmente justificativas de neg\u00f3cios como sempre, ignorando os novos dram\u00e1ticos desafios que enfrentamos. Uma nova gera\u00e7\u00e3o de economistas est\u00e1 construindo o que podemos chamar de economia do mundo real.<br \/>\n<strong>Ladislau Dowbor<\/strong><\/p>\n<p>Os economistas est\u00e3o se conscientizando da insustentabilidade do atual modelo social e fiscal.<br \/>\n<strong>Thomas Piketty,\u00a0<em>Le Monde<\/em>, 7 de maio de 2023<\/strong><\/p>\n<p>O aumento do servi\u00e7o da d\u00edvida (juros e amortiza\u00e7\u00f5es) desvia os gastos de bens e servi\u00e7os, encolhendo a economia e, assim, reduzindo o investimento e novas contrata\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<strong>Michael Hudson,\u00a0<em>J is for Junk Economics<\/em>, 2017, p. 258<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Temos nos apegado aos experimentos mais curiosos e muitas vezes rid\u00edculos em an\u00e1lise econ\u00f4mica, alguns at\u00e9 consagrados com o Pr\u00eamio Nobel do Banco da Su\u00e9cia (n\u00e3o um pr\u00eamio Nobel oficial) como \u00e9 o caso de Milton Friedmann, com pessoas ofegantes com a profundidade de sua simplicidade:<em>\u00a0\u201cO neg\u00f3cio do neg\u00f3cio \u00e9 o neg\u00f3cio\u201d<\/em>. Como se isso significasse algo al\u00e9m de comportamento corporativo gratuito. Os modelos matem\u00e1ticos deram uma apar\u00eancia de ci\u00eancia s\u00e9ria ao que se tornou, nas palavras de Michael Hudson,<em>\u201ceconomia lixo\u201d<\/em>. Parece que a economia est\u00e1 atualmente recolocando os p\u00e9s no ch\u00e3o. E, olhando para tr\u00e1s, \u00e9 impressionante o quanto estivemos (e ainda estamos) atrelados a simplifica\u00e7\u00f5es absurdas. Basicamente, se cada um de n\u00f3s se concentrar em se apropriar do m\u00e1ximo que puder, o resultado ser\u00e1 mais prosperidade para geral. Qu\u00e3o racional \u00e9 o slogan\u00a0<em>A gan\u00e2ncia \u00e9 boa<\/em>?<\/p>\n<p>A humanidade est\u00e1 pronta para acreditar em quase tudo, e transformar suas cren\u00e7as em dogmas, se sentir que tem companheiros ao seu lado. A bestialidade coletiva surge com tanta for\u00e7a e muitas vezes encontra cientistas de prontid\u00e3o para apoi\u00e1-la com argumentos. Esses argumentos s\u00e3o racionais, mas constru\u00eddos sobre pressupostos absurdos, como a inven\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>homo economicus<\/em>, o indiv\u00edduo racional que maximiza o lucro. Dar asas \u00e0s tens\u00f5es internas e poder cobri-las com argumentos gera uma impressionante sensa\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o. Jonathan Haidt chamou isso de \u201cmente correta\u201d, que justifica qualquer coisa. Se hoje reagimos aos absurdos da Ku-Klux-Klan, ou ao lema nazista\u00a0<em>Deutschland \u00dcber Alles<\/em>\u00a0(com\u00a0<em>Gott Mit Uns<\/em>, \u00e9 claro), tantos compraram a \u201cteoria do domin\u00f3\u201d que justificou a invas\u00e3o do Vietn\u00e3, ou a narrativa das \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o em massa\u201d para justificar a invas\u00e3o do Iraque, ou as ditaduras militares na Am\u00e9rica Latina supostamente para nos salvar do comunismo. \u00c9 dif\u00edcil abrir a mente de algu\u00e9m, se seu conforto emocional depende de mant\u00ea-la fechada. E os interesses econ\u00f4micos podem ser facilmente envolvidos em argumentos cient\u00edficos, se poss\u00edvel complexos o suficiente para evitar que as pessoas olhem mais de perto. Na verdade, a teoria econ\u00f4mica tornou-se principalmente uma justificativa de interesses privados, disfar\u00e7ada de ci\u00eancia. J.K. Galbraith chamou isso de \u201ceconomia da fraude inocente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDevido \u00e0s press\u00f5es e modas pecuni\u00e1rias e pol\u00edticas da \u00e9poca, a economia e os sistemas econ\u00f4micos e pol\u00edticos mais amplos cultivam sua pr\u00f3pria vers\u00e3o da verdade. Isso n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria com a realidade\u201d (Galbraith, p.x). Este \u201c[n\u00e3o ter] rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria com a realidade\u201d faz parte da leve abordagem ir\u00f4nica de Galbraith. \u00c0s vezes ele \u00e9 mais direto: \u201cOs executivos da espetacularmente falida Enron foram um exemplo proeminente, assim como os da respeit\u00e1vel General Electric. Recompensas generosas para a administra\u00e7\u00e3o se estendem por toda a empresa corporativa moderna. O autoenriquecimento legal de milh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e9 uma caracter\u00edstica comum do governo corporativo moderno. N\u00e3o surpreende: os gerentes estabelecem sua pr\u00f3pria remunera\u00e7\u00e3o\u201d (p. 27). Bem, \u00e9 o mercado! \u201cA cren\u00e7a em uma economia de mercado na qual o consumidor \u00e9 soberano \u00e9 uma de nossas formas mais difundidas de fraude. Que ningu\u00e9m tente vender sem o controle da gest\u00e3o do consumidor\u201d (p.\u00a014). Nosso progresso econ\u00f4mico deve ser resumido no valor do PIB: \u201cMas do tamanho, composi\u00e7\u00e3o e emin\u00eancia do PIB se origina tamb\u00e9m uma de nossas socialmente mais difundidas formas de fraude\u2026 A fraude mais b\u00e1sica consiste em medir o progresso social quase exclusivamente pelo volume de produ\u00e7\u00e3o influenciada pelo produtor, o aumento do PIB\u2026 N\u00e3o a educa\u00e7\u00e3o ou a literatura ou as artes, mas a produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis, incluindo SUVs: Aqui est\u00e1 a medida moderna de realiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e, portanto, social\u201d (p.\u00a015).<\/p>\n<p>Em uma abordagem cr\u00edtica similar, de acordo com\u00a0<strong>Kate Raworth,<\/strong>\u00a0as economias devem \u201cnos fazer prosperar, cres\u00e7am ou n\u00e3o\u201d. Nesta simples imagem, temos o pudim \u2013 o lugar seguro onde devemos estar \u2013, o meio \u2013\u00a0as car\u00eancias \u2013\u00a0e a parte de fora do c\u00edrculo \u2013 os excessos que devemos reduzir. Colocar resultados em vez de velocidade na forma como medimos o progresso \u00e9 uma mudan\u00e7a profunda naquilo para que vemos a economia ser \u00fatil. A economista apresenta mais visualiza\u00e7\u00f5es em seu\u00a0<em>Doughnut Economics: seven ways to think like a 21st century economist [Economia do Pudim: sete maneiras de pensar como um economista do s\u00e9culo 21]<\/em>. Mas conduzir a economia para aquilo que precisamos, e n\u00e3o o contr\u00e1rio, \u00e9 uma mudan\u00e7a profunda.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3082584\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rosquinha.jpg?resize=503%2C502&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rosquinha.jpg 1000w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rosquinha-300x300.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rosquinha-150x150.jpg 150w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rosquinha-768x767.jpg 768w, \" alt=\"\" width=\"503\" height=\"502\" \/><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><figcaption class=\"wp-element-caption c007\">O Pudim [<em>The Doughnut<\/em>]. Gr\u00e1fico de Kate Raworth e Christian Guthier\/The Lancet Planetary Health<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Robert Skidelsky<\/strong>, com\u00a0<em>What\u2019s Wrong with Economics [O que h\u00e1 de errado com a economia]<\/em>, \u00e9 outro estudioso que aponta para novas tend\u00eancias. Ele sugere um \u201crepensar radical da metodologia\u201d, em que \u201cos t\u00f3picos centrais seriam o papel do Estado, a distribui\u00e7\u00e3o de poder e o efeito de ambos na distribui\u00e7\u00e3o de riqueza e renda\u2026 Al\u00e9m disso, meu livro deixaria claro que o \u00fanico prop\u00f3sito defens\u00e1vel da economia \u00e9 tirar a humanidade da pobreza\u201d (p.\u00a0193). E se a economia for \u00fatil hoje, \u201cela precisar\u00e1 modificar sua cren\u00e7a no mercado autorregulado\u201d. As fortunas financeiras est\u00e3o crescendo, mas \u201cos historiadores do futuro, olhando para tr\u00e1s, podem muito bem identificar a globaliza\u00e7\u00e3o liderada pelas finan\u00e7as como a causa raiz das tribula\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XXI\u201d. N\u00e3o se trata apenas de crescimento, mas o que produzimos, para quem, com quais impactos ambientais. E recoloca a economia no seu lugar, apenas como parte das ci\u00eancias sociais, numa abordagem sist\u00eamica: \u201c\u00c9 pelo fato de que a economia n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia que ela precisa de outros campos de estudo \u2013 quais sejam, psicologia, sociologia, pol\u00edtica, \u00e9tica, hist\u00f3ria \u2013 para suprir as lacunas em seu m\u00e9todo de compreens\u00e3o da realidade\u2026 A tarefa \u00e9 nada menos do que recuperar a economia para as humanidades\u201d (p. 78).<\/p>\n<p><strong>Thomas Piketty<\/strong>\u00a0teve um papel importante nessa redefini\u00e7\u00e3o do pensamento econ\u00f4mico. Analisando\u00a0<em>O Capital no S\u00e9culo 21<\/em>, ele mostrou uma mudan\u00e7a fundamental nas economias atuais: a produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os cresce em torno de 2,5% ao ano, enquanto as aplica\u00e7\u00f5es financeiras rendem entre 7% e 9%, o que significa simplesmente que o sistema financeiro est\u00e1 drenando as atividades produtivas. A financeiriza\u00e7\u00e3o tornou-se n\u00e3o apenas evidente, mas os economistas de todo o mundo voltaram sua aten\u00e7\u00e3o para um conjunto de transforma\u00e7\u00f5es dela decorrente. Em seus estudos mais recentes, Piketty mostrou como isso mudou a rela\u00e7\u00e3o entre poder econ\u00f4mico (e particularmente financeiro) e poder pol\u00edtico. Com contribui\u00e7\u00f5es do WID (World Inequality Database) e de economistas como Gabriel Zucman, hoje podemos ter uma compreens\u00e3o muito mais clara n\u00e3o apenas do aumento dram\u00e1tico da desigualdade, mas de como o dinheiro virtual (97% da liquidez hoje em dia s\u00e3o apenas sinais magn\u00e9ticos, n\u00e3o dinheiro impresso pelo governo) permite uma gigantesca drenagem de riqueza.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de \u201cmercados\u201d, mesmo que o chamemos assim. Trata-se de um poder radicalmente concentrado. Larry Fink, chefe da BlackRock, uma corpora\u00e7\u00e3o de gest\u00e3o de ativos, administra US$ 10 trilh\u00f5es; o or\u00e7amento federal dos Estados Unidos da Am\u00e9rica \u00e9 de US$ 6 trilh\u00f5es. O rabo est\u00e1 abanando o cachorro. Compreender o dreno financeiro improdutivo da economia est\u00e1 levando a um amplo conjunto de estudos sobre sistemas de distribui\u00e7\u00e3o, tributa\u00e7\u00e3o, financiamento de servi\u00e7os p\u00fablicos como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, pol\u00edticas ambientais. Em particular, ficou evidente a lacuna de governan\u00e7a entre os fluxos financeiros, um processo de escala global, e a regula\u00e7\u00e3o financeira, fragmentada entre tantos pa\u00edses. A evas\u00e3o fiscal \u00e9 escancarada, e em lugares pr\u00f3ximos como, por exemplo, Delaware. O que ficou evidente \u00e9 que atualmente n\u00e3o temos regula\u00e7\u00e3o de mercado (os gigantes corporativos mundiais gostam do nome, \u201cmercados\u201d, e afetam agir como se estivessem obedecendo a \u201celes\u201d) nem regula\u00e7\u00e3o governamental (qualquer esfor\u00e7o de regula\u00e7\u00e3o em n\u00edvel nacional leva a corpora\u00e7\u00e3o a mudar seu local de resid\u00eancia fiscal).<\/p>\n<p>O resultado geral \u00e9 que estamos diante da converg\u00eancia de uma cat\u00e1strofe ambiental, de desigualdades explosivas (tanto a n\u00edvel nacional como internacional) e de uma gest\u00e3o ca\u00f3tica e oportunista dos recursos financeiros, que deveriam justamente estar nos ajudando a financiar os desafios ecol\u00f3gicos e sociais. Precisamos de uma sociedade que n\u00e3o seja apenas economicamente vi\u00e1vel, mas tamb\u00e9m socialmente justa e ambientalmente sustent\u00e1vel. Esse triplo resultado final est\u00e1 se tornando \u00f3bvio em c\u00edrculos amplos e foi detalhado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel. Mas podemos organizar a economia de acordo com metas? A mudan\u00e7a b\u00e1sica deve ser a concentra\u00e7\u00e3o em como devemos migrar da maximiza\u00e7\u00e3o do lucro em escala corporativa mundial gratuita para uma economia que seja social e ambientalmente \u00fatil, ou no m\u00ednimo menos destrutiva. Praticamente todas as corpora\u00e7\u00f5es afirmam aderir aos ESGs [ambiente, sociedade e governan\u00e7a], o que significa que est\u00e3o conscientes dos desafios, mas deixam isso restrito aos seus departamentos de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e comunica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 falta de entendimento, mas falha no processo de tomada de decis\u00f5es corporativas. Governan\u00e7a \u00e9 a quest\u00e3o central.<\/p>\n<p><strong>Mariana Mazzucato<\/strong>\u00a0tem sido particularmente bem-sucedida na divulga\u00e7\u00e3o dessa nova vis\u00e3o da economia do mundo real, tanto em seu livro\u00a0<em>The Entrepreneurial State<\/em>\u00a0[<em>O Estado Empreendedor<\/em>] como em\u00a0<em>Mission Economy\u00a0<\/em>[<em>Economia por Miss\u00f5es<\/em>]. Em vez da maximiza\u00e7\u00e3o imprudente dos lucros corporativos junto com a t\u00edmida regulamenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica, dever\u00edamos nos concentrar nas principais quest\u00f5es que a humanidade enfrenta, particularmente nos dramas sociais e ambientais. Esses s\u00e3o os desafios, e pol\u00edticas p\u00fablicas, iniciativas empresariais e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil devem se unir para enfrent\u00e1-los em conjunto. O exemplo que ela usa \u00e9 a miss\u00e3o da corrida \u00e0 lua, que organizou contribui\u00e7\u00f5es de diferentes setores, gerando sinergia em vez de competi\u00e7\u00e3o. Mazzucato mostra, assim, n\u00e3o apenas o papel fundamental do setor p\u00fablico na provis\u00e3o de bens e servi\u00e7os (o Estado como empreendedor), mas tamb\u00e9m seu papel em promover a converg\u00eancia de esfor\u00e7os em torno de prioridades nacionais e internacionais.<\/p>\n<p><em>J is for Junk Economics\u00a0<\/em>[<em>L de Economia Lixo<\/em>] de\u00a0<strong>Michael Hudson<\/strong>\u00a0apresenta, em linguagem f\u00e1cil, uma descri\u00e7\u00e3o bem-humorada do que ele chamou de \u201cos 22 mitos econ\u00f4micos mais difundidos de nosso tempo\u201d, como o de que os ciclos econ\u00f4micos s\u00e3o regulados pelos estabilizadores autom\u00e1ticos da economia, que a privatiza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais eficiente do que a propriedade e gest\u00e3o p\u00fablicas, que n\u00e3o existe renda n\u00e3o auferida, que a desregulamenta\u00e7\u00e3o do setor financeiro ir\u00e1 liber\u00e1-lo da burocracia e permitir que ele repasse a economia de custos para seus clientes, entre outros mitos muito presentes. \u201cO ant\u00eddoto para essa economia lixo deve explicar por que as economias tendem a se tornar mais inst\u00e1veis \u200b\u200be\u00a0<em>mais<\/em>\u00a0polarizadas como resultado de suas pr\u00f3prias din\u00e2micas internas (\u201cend\u00f3genas\u201d) \u2013 acima de tudo, din\u00e2micas de cr\u00e9dito e d\u00edvida, e a desonera\u00e7\u00e3o da renda econ\u00f4mica n\u00e3o auferida\u201d (p. 267). Para cada mito, Hudson apresenta \u201crealidade\u201d.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise particularmente bem estruturada da mudan\u00e7a global na an\u00e1lise econ\u00f4mica \u00e9 apresentada por\u00a0<strong>Brett Christophers<\/strong>, em\u00a0<em>Rentier Capitalism<\/em>\u00a0(<em>Capitalismo rentista<\/em>, 2020), bem como em\u00a0<em>Our lives in their portfolios: why asset managers own the world\u00a0<\/em>(<em>Nossas vidas nos portf\u00f3lios deles: por que os gestores de ativos s\u00e3o donos do mundo<\/em>, 2023). O argumento b\u00e1sico consiste no fato de que ganhar dinheiro (<em>Big Money<\/em>) resulta essencialmente de escoamentos financeiros, n\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o. Gest\u00e3o de cr\u00e9dito e ativos financeiros, apropria\u00e7\u00e3o de reservas naturais, propriedade intelectual, plataformas digitais, contratos de servi\u00e7os, taxas de licenciamento de infraestrutura, aluguel do solo \u2013 todas essas atividades t\u00eam a comum caracter\u00edstica de obter dinheiro com produtos e capitais existentes, n\u00e3o com produ\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o est\u00e3o aumentando nossa capacidade de produ\u00e7\u00e3o, a est\u00e3o drenando.<\/p>\n<p>Quer se trate de fraude absoluta na an\u00e1lise econ\u00f4mica, como colocado por Galbraith, ou a mudan\u00e7a na forma como medimos os resultados que exp\u00f5e o absurdo que \u00e9 a contabilidade centrada no PIB, quer seja a an\u00e1lise de Skidelsky sobre como a economia perdeu sua liga\u00e7\u00e3o com aquilo para o que precisamos dela, a poderosa an\u00e1lise de Piketty sobre o significado do pr\u00f3prio capital, a abordagem de Mazzucato sobre o resgate da capacidade do Estado em definir miss\u00f5es e organizar a converg\u00eancia racional de esfor\u00e7os, ou ainda a demonstra\u00e7\u00e3o de Hudson de como a economia (a chamada economia ortodoxa) perdeu contato com a realidade, ou finalmente a s\u00edntese de Christophers sobre como o capitalismo produtivo migrou para o capitalismo de extra\u00e7\u00e3o de renda financeira \u2013 a imagem geral que construo em minha mente \u00e9 a de uma mudan\u00e7a global em como os economistas est\u00e3o abordando nossas novas realidades. E eles s\u00e3o novos.<\/p>\n<p>Gosto da abordagem direta de\u00a0<strong>Robert Reich<\/strong>, em\u00a0<em>The System\u00a0<\/em>[<em>O sistema<\/em>]: \u201cN\u00e3o pode haver responsabilidade sem leis que obriguem as corpora\u00e7\u00f5es a sacrificar alguns ganhos dos acionistas em benef\u00edcio dos trabalhadores, das comunidades e da sociedade. E entender\u00e3o que as pr\u00f3prias leis n\u00e3o t\u00eam sentido se as grandes corpora\u00e7\u00f5es continuarem a viol\u00e1-las sempre que as multas resultantes forem inferiores aos benef\u00edcios derivados de sua ilegalidade. Eles ver\u00e3o que o atual sistema americano n\u00e3o \u00e9 uma meritocracia onde a capacidade e o trabalho \u00e1rduo s\u00e3o recompensados, mas uma impostura cruel dominada pela riqueza e pelo privil\u00e9gio\u201d (p.\u00a0189).<\/p>\n<p>Tantos outros autores poderiam ser mencionados aqui, desde\u00a0<strong>Joseph Stiglitz<\/strong>\u00a0em\u00a0<em>New Rules for the 21st Century<\/em>\u00a0[<em>Novas regras para o s\u00e9culo 21<\/em>], at\u00e9 Michael Sandel de\u00a0<em>The Tyranny of Merit: What\u2019s Become of the Common Good?\u00a0<\/em>[<em>A tirania do m\u00e9rito: o que \u00e9 feito do bem comum?<\/em>], mas a quest\u00e3o-chave \u00e9 que os contos de fadas, movidos a altos juros, a respeito dos mercados, do gotejamento para baixo ou que a busca por ganhos individuais trar\u00e1 naturalmente a prosperidade social est\u00e3o todos sendo deixados para tr\u00e1s, enquanto uma nova economia do mundo real est\u00e1 nos dando novas ferramentas para enfrentar nossos desafios: a cat\u00e1strofe ambiental, a desigualdade explosiva e o caos financeiro.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Os economistas que desafiam os velhos dogmas &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/os-economistas-que-desafiam-os-velhos-dogmas\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ladislau Dowbor &#8211; Crise do neoliberalismo desperta, em todo o mundo, busca de novas teorias. 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