{"id":19520,"date":"2023-07-03T12:39:42","date_gmt":"2023-07-03T15:39:42","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19520"},"modified":"2023-07-01T13:10:03","modified_gmt":"2023-07-01T16:10:03","slug":"antropologia-de-darwin-e-chave-para-entender-o-antropoceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/07\/03\/antropologia-de-darwin-e-chave-para-entender-o-antropoceno\/","title":{"rendered":"\u201cAntropologia\u201d de Darwin \u00e9 chave para entender o Antropoceno"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Prado<\/strong> &#8211;\u00a0Livro do professor da USP Jos\u00e9 Eli da Veiga avalia recep\u00e7\u00e3o da ideia de Antropoceno nas humanidades e sugere resgate de \u201cteoria esquecida\u201d do naturalista ingl\u00eas.<\/p>\n<p>A ideia de tempo geol\u00f3gico diz respeito a toda a hist\u00f3ria do planeta Terra, desde sua origem at\u00e9 o presente. \u00c9 organizado em \u00e9ons, eras, per\u00edodos e \u00e9pocas, divis\u00f5es que procuram apontar as transforma\u00e7\u00f5es mais significativas pelas quais o planeta passou em seus 4,6 bilh\u00f5es de anos. Assim, o Arqueano, por exemplo, \u00e9 o \u00e9on durante o qual a crosta terrestre foi formada, h\u00e1 cerca de 4 bilh\u00f5es de anos. J\u00e1 o Mesozoico, que teve in\u00edcio 250 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s, \u00e9 famoso por ser a era de surgimento, apogeu e desaparecimento dos dinossauros, compreendendo os per\u00edodos Tri\u00e1ssico, Jur\u00e1ssico e Cret\u00e1ceo.<\/p>\n<p>Atualmente, estamos no \u00e9on Farenozoico, que come\u00e7ou h\u00e1 542 milh\u00f5es de anos e \u00e9 marcado pela explos\u00e3o de vida na Terra. A era \u00e9 a Cenozoica, momento em que a superf\u00edcie do planeta adquiriu sua forma atual, h\u00e1 mais ou menos 65,5 milh\u00f5es de anos. J\u00e1 o per\u00edodo \u00e9 o Quatern\u00e1rio, quando surgiu o\u00a0<i>Homo sapiens<\/i>, 2,6 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. A \u00e9poca, por sua vez, \u00e9 o Holoceno, iniciada com o derretimento das grandes geleiras e o fim do \u00faltimo momento glacial do planeta, h\u00e1 12 mil anos. \u00c9 tamb\u00e9m a etapa do crescimento da presen\u00e7a e do impacto humano sobre a Terra.<\/p>\n<p>Pelo tamanho das transforma\u00e7\u00f5es imprimidas pela humanidade ao planeta \u2013 com extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, altera\u00e7\u00f5es brutais na flora e outros efeitos \u2013, amplia-se o n\u00famero de cientistas e pesquisadores que anunciam o fim do Holoceno e o surgimento de uma nova \u00e9poca, o Antropoceno. Sem consenso a respeito do momento exato de seu in\u00edcio, mas tendo a segunda metade do s\u00e9culo 20 como uma refer\u00eancia, os especialistas concordam em que a esp\u00e9cie humana se tornou uma for\u00e7a determinante nas altera\u00e7\u00f5es pelas quais passa a Terra, para o bem ou para o mal.<\/p>\n<p>Dizer que toda a comunidade cient\u00edfica concorda em que as dores e as del\u00edcias correspondentes ao que o planeta se tornou caiam na conta da humanidade n\u00e3o \u00e9 exatamente correto, entretanto. Isso porque, para uma parte da intelectualidade internacional, sobretudo nas humanidades, as agressivas transforma\u00e7\u00f5es vividas pela Terra s\u00e3o resultado das expans\u00f5es do sistema capitalista e de seu processo desenfreado de industrializa\u00e7\u00e3o, impulsionado pelos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Para esses estudiosos, o mais correto seria, portanto, chamar o per\u00edodo atual de Capitaloceno, dando nome aos bois.<\/p>\n<p>\u00c9 essa recep\u00e7\u00e3o, um tanto resistente, \u00e0 no\u00e7\u00e3o de Antropoceno nas ci\u00eancias humanas que inspira\u00a0<i>O Antropoceno e as Humanidades<\/i>, novo livro de Jos\u00e9 Eli da Veiga, professor s\u00eanior do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados (IEA) da USP e colunista da R\u00e1dio USP. Esp\u00e9cie de continua\u00e7\u00e3o de sua publica\u00e7\u00e3o de 2019,\u00a0<i>O Antropoceno e a Ci\u00eancia do Sistema Terra,<\/i>\u00a0o volume agrega uma revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica de f\u00f4lego ao apelo pela descoberta do \u201cantrop\u00f3logo Charles Darwin\u201d pelos pesquisadores das ci\u00eancias humanas.<\/p>\n<p>Veiga refere-se ao pensamento de Darwin presente em seu livro de 1871,\u00a0<i>The Descent of Man,\u00a0<\/i><i>and Selection in Relation to Sex<\/i>. Muito menos lido, lembrado, celebrado ou criticado do que\u00a0<i>The Origin of Species<\/i> (1859), a obra de 1871 corresponderia \u00e0 segunda metade da teoria darwiniana da sele\u00e7\u00e3o natural, conforme explica o professor. Seria a \u201cmetade faltante\u201d ou \u201causente\u201d de sua obra-prima.<\/p>\n<p>Ao se deter sobre a humanidade e o processo civilizador, o que Darwin registrou n\u00e3o foi simplesmente a aplica\u00e7\u00e3o direta da sele\u00e7\u00e3o natural, suposi\u00e7\u00e3o que levaria ao darwinismo social de Herbert Spencer ou \u00e0s proposi\u00e7\u00f5es eugenistas de Francis Galton. Ao contr\u00e1rio, o naturalista entendeu que, na sociedade humana, a luta pela exist\u00eancia \u00e9 superada por outros fatores.<\/p>\n<p>Ao transformar o ambiente ao redor, os humanos se libertaram em grande medida da sele\u00e7\u00e3o natural e foram os instintos sociais relacionados \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o e aos comportamentos solid\u00e1rios que prevaleceram. Da barb\u00e1rie para a civiliza\u00e7\u00e3o, a evolu\u00e7\u00e3o eliminat\u00f3ria deu lugar \u00e0 prote\u00e7\u00e3o e ao reconhecimento do outro como um semelhante. Ou seja, na humanidade, a sele\u00e7\u00e3o natural acabou levando justamente ao seu contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas o que isso tem a ver com o Antropoceno? Veiga v\u00ea nesse entendimento de Darwin uma maneira original de se compreender a rela\u00e7\u00e3o entre natureza e cultura, na qual a segunda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o somente uma mudan\u00e7a qualitativa, uma ruptura em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 primeira. Ao sugerir que a sele\u00e7\u00e3o natural, quando encontra a humanidade, des\u00e1gua em seu oposto, Darwin estaria indicando que a passagem natureza-cultura \u00e9 reversiva. Uma seria o avesso indissoci\u00e1vel da outra e a natureza subsistiria em todos os pontos da cultura. N\u00e3o existe planeta de um lado e seres humanos de outro, mas planeta\u00a0<i>e<\/i>\u00a0seres humanos, misturados de um jeito dif\u00edcil de determinar os limites de cada um.<\/p>\n<p>As ci\u00eancias humanas ainda seriam \u201cpr\u00e9-darwinianas\u201d nesse quesito, aponta o autor. Para grande parte desses cientistas, natureza e cultura continuam sendo vistas como universos separados, cujo ponto de contato passaria por uma fissura, vari\u00e1vel de um pesquisador para outro. Ora no dom\u00ednio da linguagem simb\u00f3lica, ora na inven\u00e7\u00e3o do fogo, ora no tabu do incesto, por exemplo. Mas sempre marcando uma cis\u00e3o entre os dois dom\u00ednios.<\/p>\n<p>Veiga defende que a compreens\u00e3o do Antropoceno passa exatamente pela substitui\u00e7\u00e3o dessa mirada apartada pela compreens\u00e3o da unidade natureza-cultura. \u00c9 esse ponto de vista que permitiria avan\u00e7os significativos nas \u201cnovas ci\u00eancias da complexidade\u201d, a segunda perna do trip\u00e9 para os estudos da \u201cci\u00eancia do sistema Terra\u201d.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia da complexidade \u2013 profetizada pelo f\u00edsico ingl\u00eas Stephen Hawking como a ci\u00eancia do s\u00e9culo 21 \u2013 \u00e9 um campo de estudos que aborda os objetos e acontecimentos do mundo de maneira integrada e abrangente, buscando transcender as fronteiras tradicionais das disciplinas cient\u00edficas. Segundo o professor, ela entende que distintos fen\u00f4menos, como o sistema imunol\u00f3gico, o c\u00e9rebro, um formigueiro ou mesmo redes econ\u00f4micas, apresentam certas caracter\u00edsticas em comum. Trata-se de grandes redes auto-organizadas que produzem comportamentos complexos e processam informa\u00e7\u00f5es, a partir de alguns esquemas operacionais e sem controle central. E grande parte desses sistemas pode se adaptar e se transformar, seja atrav\u00e9s de aprendizado ou evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que essa defini\u00e7\u00e3o, conforme o pr\u00f3prio Veiga aponta, n\u00e3o \u00e9 nada consensual entre os pr\u00f3prios pesquisadores da complexidade. Para se ter uma ideia, o jornalista cient\u00edfico John Horgan catalogou pelo menos 31 no\u00e7\u00f5es diferentes para o termo em seu livro\u00a0<i>The End of Science<\/i>, publicado em 1996, enquanto, 25 anos depois, Fabricio Li Vigni ainda registrava 20 variantes para o entendimento da complexidade na obra\u00a0<i>Histoire et Sociologie des Sciences de la Complexit\u00e9<\/i>, de 2021. No meio dessa confus\u00e3o, algo fundamental acabou escapando \u00e0 aten\u00e7\u00e3o dos estudiosos, na opini\u00e3o do professor: a \u201cmetade faltante\u201d da teoria de Darwin.<\/p>\n<p>As conex\u00f5es com os debates sobre a evolu\u00e7\u00e3o s\u00e3o escassas na literatura a respeito da complexidade, pontua Veiga. Existe dificuldade para se explicar as origens e raz\u00f5es para o aumento da complexibilidade da vida na Terra e a teoria da sele\u00e7\u00e3o natural n\u00e3o d\u00e1 conta da tarefa de maneira satisfat\u00f3ria. Justamente porque n\u00e3o seria a no\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica da sele\u00e7\u00e3o natural \u2013 o modelo da competitividade e do individualismo \u2013 que definiria essa evolu\u00e7\u00e3o, mas sim a coopera\u00e7\u00e3o, a \u201csele\u00e7\u00e3o sin\u00e9rgica\u201d, uma subcategoria da sele\u00e7\u00e3o natural. O que ficaria mais \u00f3bvio se os cientistas tivessem dado mais aten\u00e7\u00e3o a\u00a0<i>The Descent of Man<\/i>.<\/p>\n<p>Sem pensar os sistemas complexos a partir da coopera\u00e7\u00e3o e da rela\u00e7\u00e3o indissoci\u00e1vel entre natureza e cultura, o resultado s\u00f3 poderia levar fatalmente a refletir sobre os efeitos provocados pela a\u00e7\u00e3o humana no planeta considerando apenas a pr\u00f3pria cultura. Ou seja, os efeitos do capitalismo, o que \u00e9 uma forma incompleta de tratar o problema, nem tanto para diagnosticar suas causas, mas para se pensar nas solu\u00e7\u00f5es. A rejei\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias humanas ao termo Antropoceno carregaria o DNA desse grande divisor \u2013 natureza x cultura \u2013, pois a base dessa negativa seria a dificuldade de pensar em conjunto e simultaneamente as quatro grandes din\u00e2micas hist\u00f3ricas da Terra: planeta, vida, natureza humana e civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 o interc\u00e2mbio permanente entre natureza e cultura, escreve Veiga, que pode fornecer a chave para os processos socioevolutivos, o cerne de uma ecologia cient\u00edfica. Em outras palavras, um estudo das transforma\u00e7\u00f5es vivenciadas pelo (e no) planeta, comprometido com a continuidade na\/da Terra, precisa considerar os limites da interfer\u00eancia humana na natureza e, simultaneamente, as imposi\u00e7\u00f5es da pr\u00f3pria natureza diante do que fazemos com ela.<\/p>\n<p>E \u00e9 a\u00ed que o projeto intelectual de Darwin se aproxima, para surpresa de muitos, de Karl Marx. Porque, ao considerar as ideias contidas em\u00a0<i>The Descent of Man<\/i>, o professor encontra na obra uma dial\u00e9tica da natureza que teria agradado a Marx, caso este n\u00e3o tivesse interrompido suas leituras do autor ingl\u00eas em\u00a0<i>The Origin of Species<\/i>\u00a0e tido contato com a \u201cmetade ausente\u201d da teoria da sele\u00e7\u00e3o natural. Assim, n\u00e3o h\u00e1 confronto entre Marx e Darwin, assinala Veiga, mas pontos de vista diferentes sobre a hist\u00f3ria. Para o primeiro, ela trata dos eventos hist\u00f3ricos, ligados \u00e0 humanidade. Para o segundo, ela encerra uma trajet\u00f3ria vasta de eventos evolutivos. Mas, para ambos, a natureza n\u00e3o \u00e9 apenas objeto nas rela\u00e7\u00f5es com o ser humano. Ela tamb\u00e9m se imp\u00f5e.<\/p>\n<p>Dessa forma, partindo de concep\u00e7\u00f5es distintas, os dois autores terminam por apontar um projeto comum de futuro para a humanidade, no qual percebem um movimento de luta cuja tend\u00eancia \u00e9 causar sua pr\u00f3pria aboli\u00e7\u00e3o. Em Darwin, isso se manifesta na diminui\u00e7\u00e3o da luta biol\u00f3gica pela sobreviv\u00eancia gra\u00e7as a um processo evolutivo de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d. J\u00e1 em Marx, seria o comunismo que, ao extinguir as classes sociais, acabaria tamb\u00e9m com essa luta.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que Veiga sugere a aproxima\u00e7\u00e3o entre suas teorias, acreditando ser esse o passo decisivo para que as humanidades possam chegar a uma ecologia que re\u00fana, em um \u00fanico campo de conhecimento, o social e o natural. Essa seria a chave para a compreens\u00e3o do Antropoceno e da defini\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias de como viver nele, j\u00e1 que o capitalismo ir\u00e1 acabar um dia, mas a humanidade ainda estar\u00e1 por aqui, tendo de escolher como ir\u00e1 se relacionar com o planeta (caso o capitalismo n\u00e3o acabe antes com ele).<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: \u201cAntropologia\u201d de Darwin \u00e9 chave para entender o Antropoceno \u2013 Jornal da USP &#8211; https:\/\/jornal.usp.br\/cultura\/antropologia-de-darwin-e-chave-para-entender-o-antropoceno\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Prado &#8211;\u00a0Livro do professor da USP Jos\u00e9 Eli da Veiga avalia recep\u00e7\u00e3o da ideia de Antropoceno nas humanidades e sugere resgate de \u201cteoria esquecida\u201d do naturalista ingl\u00eas. 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