{"id":19506,"date":"2023-06-28T12:42:19","date_gmt":"2023-06-28T15:42:19","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19506"},"modified":"2023-06-20T18:44:08","modified_gmt":"2023-06-20T21:44:08","slug":"hoje-o-epicentro-e-o-mundo-do-trabalho-nas-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/06\/28\/hoje-o-epicentro-e-o-mundo-do-trabalho-nas-ruas\/","title":{"rendered":"Hoje o epicentro \u00e9 o mundo do trabalho nas ruas"},"content":{"rendered":"<div id=\"__reading__mode__header__container\" class=\"header_container\">\n<div id=\"header_content_id\" class=\"header_content\">\n<p id=\"mainContentTitle\" class=\"__reading__mode__extracted__title c0011\"><strong>Joselicio Junior <\/strong><span style=\"font-size: 16px;\"><em>&#8211; <\/em>Recebemos na sede da Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos e Marielle Franco o professor Ruy Braga, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e vice-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic), que vem se dedicando nos \u00faltimos anos a estudar o mundo do trabalho e particularmente as\/os trabalhadores mais precarizados, ou usando uma categoria do professor Braga, o precariado. Nesse encontro tivemos a oportunidade de dialogar sobre as profundas mudan\u00e7as que o neoliberalismo vem impondo ao mundo do trabalho com o seu processo de mercantiliza\u00e7\u00e3o e os desafios de organiza\u00e7\u00e3o dessa classe trabalhadora que se desloca, significativamente, do ch\u00e3o das f\u00e1bricas para as ruas. \u00c9 um diagn\u00f3stico bastante relevante e que nos ajuda a pensar nossas estrat\u00e9gias de atua\u00e7\u00e3o, inclusive de forma mais ampliada e n\u00e3o apenas nos o espa\u00e7os vistos como tradicionais da esquerda, diante de uma sociedade cada vez mais complexa. Vale muito a pena a leitura.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"__reading__mode__mainbody__id\" class=\"__reading__mode__mainbody\">\n<div id=\"mainContainer\" class=\"__reading__mode__extracted__article__body\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"td_block_wrap tdb_single_content tdi_81 td-pb-border-top td_block_template_1 td-post-content tagdiv-type\">\n<div class=\"tdb-block-inner td-fix-index\">\n<p><em>\u2022 Joselicio Junior: O neoliberalismo vem nos impondo uma mudan\u00e7a significativa na organiza\u00e7\u00e3o dos modos de produ\u00e7\u00e3o, na acumula\u00e7\u00e3o da riqueza e, consequentemente, na organiza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio mundo do trabalho. Voc\u00ea poderia caracterizar um pouquinho para a gente quais s\u00e3o essas mudan\u00e7as?<\/em><br \/>\n<strong>\u2022 Ruy Braga<\/strong>\u00a0Olha, Juninho, desde que o mundo do trabalho passou a ser estruturado por pol\u00edticas e princ\u00edpios neoliberais, a gente tem observado uma forte tend\u00eancia daquilo que, grosseiramente, pode se chamar de mercantiliza\u00e7\u00e3o do trabalho. O que significa isso? Em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do trabalho em uma mercadoria como outra qualquer, mas o trabalho \u00e9 uma mercadoria muito especial. Por qu\u00ea? Porque \u00e9 indissoci\u00e1vel do corpo do trabalhador. Ent\u00e3o, existe uma quest\u00e3o de direito humano fundamental. Voc\u00ea n\u00e3o pode, por exemplo, alienar o seu corpo que n\u00e3o seja por uma certa dura\u00e7\u00e3o regulamentada em contrato. Se essa dura\u00e7\u00e3o se estende no tempo, voc\u00ea se transforma em um escravo e n\u00e3o mais em um trabalhador assalariado. O neoliberalismo mercantiliza essa rela\u00e7\u00e3o a ponto de n\u00e3o haver mais essa distin\u00e7\u00e3o entre aquilo que seria o valor da mercadoria for\u00e7a de trabalho reconhecida em contrato, ou seja, a troca de equivalentes entre trabalho e sal\u00e1rio. Isso tende a ser desafiado sistematicamente. Como percebemos isso? De v\u00e1rias maneiras. Por exemplo, uma maneira muito usual, muito simples, \u00e9 que o neoliberalismo n\u00e3o aceita nenhum tipo de obst\u00e1culo ao uso abusivo do trabalho. Ent\u00e3o, as formas de representa\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o, resist\u00eancia da classe trabalhadora a esse avan\u00e7o desmedido da mercantiliza\u00e7\u00e3o sobre o corpo do trabalhador s\u00e3o atacadas de todas as formas. Segundo dados da OIT, com exce\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia, todas as maiores 16 economias do mundo com mais de 50 milh\u00f5es de habitantes tiveram a taxa de densidade sindical reduzida. Isso para patamares que s\u00e3o hoje em dia muito irris\u00f3rios do ponto de vista protetivo. Se voc\u00ea pega a partir dos anos 1990, em especial a partir da segunda metade, quando a China entra com mais for\u00e7a no mercado mundial ap\u00f3s sua entrada na OMC, e tamb\u00e9m a \u00cdndia, voc\u00ea vai perceber que o valor da for\u00e7a de trabalho \u00e9 pressionado no mundo todo, tendo em vista a entrada desses ex\u00e9rcitos de reserva no mercado mundial de for\u00e7a de trabalho. Como \u00e9 que se d\u00e1 essa press\u00e3o que acompanha essa onda de globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal? A partir do ataque ao p\u00f3lo produtivo nacional do trabalho, \u00e0 previd\u00eancia p\u00fablica, aos direitos trabalhistas, que serviam para impor limites a esse avan\u00e7o da mercantiliza\u00e7\u00e3o sobre o corpo do trabalhador. O objetivo final \u00e9 transformar, evidentemente, todo o tempo do trabalhador em tempo de trabalho para o capital. A forma como isso aparece do ponto de vista das pol\u00edticas \u00e9 basicamente por meio do ataque \u00e0 representa\u00e7\u00e3o, \u00e0s formas organizativas dos trabalhadores de um lado, o ataque \u00e0s formas protetivas do trabalho, por outro, como, por exemplo, direito trabalhista, direito previdenci\u00e1rio, direitos sociais, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, tudo aquilo que impede a mercantiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho ou dificulta, ou bloqueia. Qual o impacto que o neoliberalismo tem sobre o mundo do trabalho? O impacto, na minha opini\u00e3o, talvez seja, do ponto de vista conceitual, essa transforma\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de troca de equivalentes entre trabalho e sal\u00e1rio por uma rela\u00e7\u00e3o de troca de n\u00e3o equivalentes, fundamentada na viol\u00eancia pol\u00edtica que o Estado muitas vezes imp\u00f5e, mas que tamb\u00e9m \u00e9 uma viol\u00eancia das empresas, obrigando o trabalhador a vender sua mercadoria a pre\u00e7os irris\u00f3rios, ou seja, obrigando o trabalhador a se reproduzir em condi\u00e7\u00f5es subnormais.<\/p>\n<p><em>\u2022 Joselicio Junior: O que voc\u00ea est\u00e1 nos dizendo \u00e9 que houve basicamente uma quebra de contrato, digamos assim, de uma rela\u00e7\u00e3o que foi pactuada durante um determinado ciclo, conhecido como fordismo. Pensando na posi\u00e7\u00e3o do Brasil nessa divis\u00e3o mundial do trabalho, o que alguns te\u00f3ricos v\u00e3o chamar de um capitalismo dependente que se consolida em sua transi\u00e7\u00e3o do escravismo para o capitalismo moderno, digamos assim, em que j\u00e1 h\u00e1 uma press\u00e3o de um ex\u00e9rcito de reserva que achata e produz um processo de superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho. Qual o impacto disso? Se j\u00e1 h\u00e1 um achatamento mundial e uma realidade nacional que j\u00e1 \u00e9 achatada, qual \u00e9 o impacto dessa mudan\u00e7a do mundo do trabalho diante dessas caracter\u00edsticas brasileiras?<\/em><br \/>\n<strong>\u2022 Ruy Braga<\/strong>\u00a0O impacto \u00e9 devastador. Do ponto de vista das hip\u00f3teses dentro da sociologia do trabalho, \u00e9 muito interessante observar, caso se pretenda identificar tend\u00eancias presentes que apontem para o futuro no mundo do trabalho, no caso brasileiro, ter sempre presente a quest\u00e3o do primeiro emprego, ou seja, quais s\u00e3o os setores que absorvem aquela massa entrante de jovens trabalhadores no mercado de trabalho. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds grande, est\u00e1 passando pela sua transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, mas ainda tem uma massa de gente jovem entrando todo ano no mercado de trabalho. Mais de 1 milh\u00e3o de jovens, seguramente. Quando voc\u00ea quer perceber quais s\u00e3o as tend\u00eancias, \u00e9 muito interessante voc\u00ea observar quais s\u00e3o os setores que absorvem prioritariamente essa massa de jovens entrantes. Nos anos 2000, estudei o setor de call center, que era o que mais absorvia jovens em seu primeiro emprego, sobretudo jovens mulheres negras. Ali as din\u00e2micas de racializa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tinham muita for\u00e7a, muita presen\u00e7a, associando-se \u00e0 quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, expropria\u00e7\u00e3o. De qualquer maneira, o que era vis\u00edvel naquele per\u00edodo dos anos 2000, auge da produ\u00e7\u00e3o de emprego da era Lula, entre outras coisas, \u00e9 que havia emprego formal. Entrevistei muitas trabalhadoras que vinham de fam\u00edlias, de empregadas dom\u00e9sticas ou de bab\u00e1s, e elas estavam transitando para o mercado formal em empresas de tecnologia multinacionais, ou seja, estavam recebendo algum tipo de qualifica\u00e7\u00e3o. E elas, no in\u00edcio, pelo menos o ciclo do trabalhador que eu acabei descrevendo em alguns trabalhos, tinham uma postura progressista, entusiasmada, se mostravam otimistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria s\u00f3cio ocupacional. Muitas delas, por exemplo, ganhavam um sal\u00e1rio m\u00ednimo, que era pouco, mas que servia para pagar a escola, a faculdade particular noturna. A pr\u00f3pria jornada do setor de telemarketing permitia isso porque era uma jornada menor que a jornada tradicional. Ent\u00e3o, o que se verificava era a promessa da cidadania salarial. O que \u00e9 a cidadania salarial? \u00c9 a combina\u00e7\u00e3o entre trabalho e direitos. Trabalho, trajet\u00f3ria, renda, dinheiro, progresso material e direitos: direito trabalhista, direito social, direitos humanos, direito previdenci\u00e1rio. E isso garante uma prote\u00e7\u00e3o \u00e0quele trabalhador. Ent\u00e3o, a cidadania salarial no Brasil, sempre foi cumprida pela metade. Exatamente por isso que voc\u00eas chamam de superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho, ou seja, um enorme mercado informal em torno daquele n\u00facleo formalizado, um pouco mais protegido. Mas no caso do Brasil, nunca foi assim. Por qu\u00ea? Porque normalmente o que voc\u00ea tinha era combina\u00e7\u00e3o entre o trabalho protegido, formalizado e o trabalho informal desprotegido na mesma fam\u00edlia, que era aquele exemplo do casal de trabalhadores em que ele era funcion\u00e1rio da ind\u00fastria, tinha a carteira de trabalho e ela era trabalhadora dom\u00e9stica, n\u00e3o tinha carteira de trabalho. Ent\u00e3o eles avan\u00e7avam juntos, coexistindo essas duas dimens\u00f5es do mercado de trabalho formal e informal. Isso mostrava uma certa inser\u00e7\u00e3o nessa sociedade salarial, ou seja, vertebrado pela cidadania, pela cidadania salarial, jun\u00e7\u00e3o entre trabalho e direitos. Isso se verificava com essa transi\u00e7\u00e3o do emprego dom\u00e9stico para o setor de call center, um emprego formal. Elas tinham acesso a qualifica\u00e7\u00f5es, estavam fazendo uma faculdade particular, noturna, de baixa qualidade, mas estavam progredindo. No geral se aproximaram das pol\u00edticas p\u00fablicas dos governos Lula por conta dos financiamentos, do Prouni, por conta do apoio ao cr\u00e9dito consignado e assim por diante. Isso da\u00ed, a grosso modo, avan\u00e7a at\u00e9 a metade dos anos 2010, quando veio a crise de 2015-16, e verifica-se uma queda de mais de 7% do PIB e o desemprego dobra.<br \/>\nA informalidade cresce na medida em que voc\u00ea n\u00e3o consegue ficar desempregado por muito tempo. Ningu\u00e9m \u00e9 rico para ficar desempregado por muito tempo, tem que voltar para o mercado de alguma forma. Se n\u00e3o tem emprego formal, voc\u00ea vai para a informalidade. A informalidade, tradicionalmente, tem esse comportamento de absorver aquela massa sobrante do mercado formal e, desde ent\u00e3o, o mercado de trabalho brasileiro se especializou em reciclar empregos, ou seja, o emprego diretamente contratado vira emprego terceirizado, o emprego terceirizado vira emprego intermitente, o emprego intermitente vira emprego informal, com evidente impacto sobre a renda, sobre os rendimentos do trabalho, ou seja, \u00e9 ladeira abaixo e as rendas se tornam cada dia mais inseguras e o rendimento se torna menor. Da\u00ed se v\u00ea o aumento das desigualdades entre as classes e intraclasses, tens\u00f5es ligadas \u00e0s fronteiras que dividem a classe trabalhadora e assim sucessivamente. Voc\u00ea estava perguntando sobre os efeitos do neoliberalismo. O que se observa \u00e9 o desmanche do horizonte da sociedade salarial e o desaparecimento da cidadania salarial. Eu fiz uma pesquisa com um orientando, o Douglas, sobre os entregadores aqui na cidade de S\u00e3o Paulo. Para simplificar muito, porque h\u00e1 muitas dimens\u00f5es, cito dois exemplos: os jovens entregadores s\u00e3o os que n\u00e3o conseguem ter acesso ao cr\u00e9dito, comprar uma moto, e precisam ou alugar a bike do Ita\u00fa ou comprar uma. Esses meninos que entram no mercado de trabalho hoje \u2013 a fun\u00e7\u00e3o das antigas operadoras de telemarketing \u2013 e eles n\u00e3o t\u00eam a menor perspectiva de aposentadoria, menor expectativa de contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria. A trajet\u00f3ria agora \u00e9 voc\u00ea fazer um pequeno pec\u00falio com a bike, o que \u00e9 muito dif\u00edcil. A molecada com quem eu conversei fazia metade do sal\u00e1rio-m\u00ednimo l\u00edquido trabalhando 6 dias por semana.<\/p>\n<p><em>\u2022 Joselicio Junior: E tem um detalhe, talvez o mais perverso desse processo, que \u00e9 a quest\u00e3o que voc\u00ea falou no in\u00edcio, dessa rela\u00e7\u00e3o trabalho e direitos humanos, ou seja, o quanto voc\u00ea coloca o seu corpo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. O Ifood fez, por exemplo, uma pesquisa criminosa considerando que os entregadores trabalham pouco, pois levaram em considera\u00e7\u00e3o somente o per\u00edodo da entrega.<\/em><br \/>\n<strong>\u2022 Ruy Braga<\/strong>\u00a0\u00c9 claro que eles s\u00f3 contam a hora cheia, o que n\u00e3o quer dizer nada, voc\u00ea tem que contar o deslocamento, o tempo que voc\u00ea fica em espera\u2026<\/p>\n<p><em>\u2022 Joselicio Junior: A outra perversidade \u00e9 justamente o esfor\u00e7o f\u00edsico.<\/em><br \/>\n\u2022\u00a0<strong>Ruy Braga<\/strong>\u00a0Claro, ningu\u00e9m consegue manter isso por muito tempo.<\/p>\n<p><em>\u2022 Joselicio Junior: O trabalho de bicicleta diante do que s\u00e3o as cidades brasileiras \u00e9 um esfor\u00e7o f\u00edsico monumental. Ent\u00e3o, remonta ao per\u00edodo escravocrata.<\/em><br \/>\n\u2022\u00a0<strong>Ruy Braga<\/strong>\u00a0\u00c9 o que eu digo. S\u00e3o as antigas escravas de ganho que v\u00e3o pra rua para fazer uma grana pra poder comprar sua alforria e mesmo quando compram a alforria, continuam tentando fazer uma grana para comprar alforria de outras pessoas. Ou seja, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito cr\u00edtica, e tamb\u00e9m por conta disso que voc\u00ea acabou de citar. Eles t\u00eam por objetivo fazer um pequeno pec\u00falio para dar entrada no financiamento de uma moto, que seria um primeiro n\u00edvel de dignidade. E esse primeiro n\u00edvel de dignidade gera aquilo que a gente observou quando est\u00e1 entrevistando os motoboys, eles se endividam para comprar o meio de produ\u00e7\u00e3o. Se eles perderem o meio de produ\u00e7\u00e3o, por alguma raz\u00e3o, eles n\u00e3o t\u00eam o ganha p\u00e3o, mas fica a d\u00edvida com o banco, que sempre sai ganhando. Isso cria uma psicologia mais conservadora, porque eles sabem que se a moto for roubada, est\u00e3o no pior de todos os mundos. E isso faz com que esses discursos sobre lei e ordem, sobre \u201cmatar bandido\u201d passem a ser aceit\u00e1veis quando antes n\u00e3o eram. Voc\u00ea percebe que existe uma l\u00f3gica muito perversa de desconstru\u00e7\u00e3o da cidadania salarial, da associa\u00e7\u00e3o entre trabalho e direitos. H\u00e1 uma inclina\u00e7\u00e3o a aceitar um discurso de \u00f3dio, de viol\u00eancia e naturalizar esse discurso como sendo algo necess\u00e1rio, porque, do ponto de vista deles \u00e9.<\/p>\n<p><em>\u2022 Joselicio Junior: Um outro exemplo, fazendo um par\u00eantese, considerando esse debate recente sobre a regula\u00e7\u00e3o das big techs (PL das Fake news). Vemos o quanto o que h\u00e1 de mais tecnol\u00f3gico no mundo se associa ao que h\u00e1 de mais conservador. Trazendo para o mundo do trabalho o que tem de mais perverso do ponto de vista da condi\u00e7\u00e3o do trabalhador caminha junto com uma ideologia conservadora que produz uma certa racionalidade de normatiza\u00e7\u00e3o de determinados conceitos conservadores.<\/em><br \/>\n\u2022<strong>\u00a0Ruy Braga<\/strong>\u00a0H\u00e1 o exemplo aplicativos de entrega que se vendem como startups, como empresas de tecnologia mediadoras de rela\u00e7\u00f5es, facilitadoras. S\u00f3 que, na verdade, elas fazem duas coisas: acumulam a partir da expropria\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas e sociais dos trabalhadores e, por outro lado, a expropria\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico e dos direitos da cidadania, porque eles usam toda a infraestrutura urbana, eles ajudam a degradar a estrutura urbana, est\u00e3o expropriando as ruas, os parques, as avenidas, os servi\u00e7os. Quando o entregador se acidenta, quem \u00e9 que vai [a seu socorro]? Os acidentes na cidade ap\u00f3s esse espalhamento da economia de entrega mediada por aplicativo aumentaram exponencialmente. Quando o jovem da moto se acidenta \u00e9 o Estado que paga. Ele vai ser atendido pelo Samu, que vai lev\u00e1-lo a um pronto socorro do SUS. Quem \u00e9 que est\u00e1 se beneficiando dessa trag\u00e9dia humana? As empresas. Elas n\u00e3o pagam nada por isso. N\u00e3o aceitam regula\u00e7\u00e3o de nenhum tipo, sequer o que seria a coisa mais \u00f3bvia, a saber, o reconhecimento de s\u00e3o simplesmente empresas de entrega, ou seja, o v\u00ednculo de hipossufici\u00eancia entre o trabalhador e a empresa tem que ser reconhecido. \u00c9 o m\u00ednimo. Mas n\u00e3o, n\u00e3o aceitam isso.<br \/>\nOutro exemplo s\u00e3o as redes sociais. Como o Facebook acumula? Basicamente vendendo os nossos dados para empresas, para que possam fazer publicidade, por isso que eu chamo de plataformas de publicidade. Agora, como acumulam os nossos dados, nossos gostos, nossas inclina\u00e7\u00f5es, nossas tend\u00eancias? Como fazem para identificar o que a gente quer e o que a gente n\u00e3o quer? Atrav\u00e9s dos nossos likes. E a gente d\u00e1 os nossos likes em cima do qu\u00ea? Em cima de um ex\u00e9rcito de pessoas que produz conte\u00fado para essas redes e praticamente n\u00e3o ganham nada com isso. Porque, para voc\u00ea monetizar, voc\u00ea precisa de muita gente envolvida e s\u00e3o poucos que realmente ganham dinheiro, a massa ganha muito pouco, ou seja, voc\u00ea est\u00e1 explorando uma massa de gente que produz os conte\u00fados para essas big tech, para essas empresas de tecnologia de comunica\u00e7\u00e3o digital acumularem bilh\u00f5es, trilh\u00f5es mundo afora \u00e0 custa dessa mir\u00edade de gente totalmente precarizada. Os influencers, os youtubers e n\u00e3o sei o qu\u00ea. Ent\u00e3o, isso tudo tem que acabar. A gente tem que regular essas empresas porque, na verdade, isso \u00e9 o que a gente pode chamar de regime de acumula\u00e7\u00e3o por expropria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 nem a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, \u00e9 a expropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do trabalho, das cidades, do comum, de tudo aquilo que, digamos, n\u00e3o \u00e9 mercantiliz\u00e1vel, porque n\u00e3o foi produzido para ser vendido. O corpo das pessoas n\u00e3o foi produzido para ser vendido. O espa\u00e7o da cidade n\u00e3o foi produzido para ser vendido. Ou seja, voc\u00ea tem um sistema, o neoliberalismo, que se apoia sobre a acumula\u00e7\u00e3o por expropria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u2022 Joselicio Junior: Voc\u00ea, durante muitos anos, se dedicou em construir uma categoria que pudesse dar conta de tentar identificar esse sujeito trabalhador a partir da ideia do precariado. Gostaria de perguntar: o que \u00e9 o precariado hoje? Esse conceito d\u00e1 conta dessa diversidade que tratamos aqui? Se n\u00e3o, quais s\u00e3o essas outras categorias? \u00c9 o plataformizado, \u00e9 o sem direitos, \u00e9 o trabalhador por conta pr\u00f3pria? Porque a gente est\u00e1 falando aqui das plataformas, das big tech, mas tem uma massa de trabalhadores que est\u00e3o ali em pequenos arranjos produtivos, como sal\u00e3o de cabeleireiro, com\u00e9rcios de bairro, pequenos servi\u00e7os, camel\u00f4s, enfim, uma gama de trabalhadores que n\u00e3o est\u00e3o amparados pela CLT, que n\u00e3o est\u00e3o na formalidade. Como a gente categoriza isso e quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas de cada uma dessas poss\u00edveis categorias?<\/em><br \/>\n\u2022\u00a0<strong>Ruy Braga<\/strong>\u00a0A primeira quest\u00e3o \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do que vem a ser precariado. E a partir da\u00ed a gente come\u00e7a a estabelecer as fronteiras entre o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9. Enfim, isso tudo n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio formal, mas \u00e9 uma quest\u00e3o real. Quer seja do ponto de vista da composi\u00e7\u00e3o, da forma\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, quer seja do ponto de vista da pr\u00f3pria composi\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho. Existem muitas defini\u00e7\u00f5es de precariado, que variam de acordo com o que se achar mais conveniente. Eu costumo dizer que o precariado \u00e9 uma fra\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, mas que acolhe tamb\u00e9m aqueles indiv\u00edduos e grupos que v\u00eam, por exemplo, de setores m\u00e9dios em processo de proletariza\u00e7\u00e3o, ou seja, de decad\u00eancia s\u00f3cio ocupacional. Ent\u00e3o, \u00e9 um am\u00e1lgama que poder\u00edamos chamar de policlassista, pois acolhe diferentes setores de classe, mas, predominantemente, \u00e9 uma fra\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora que transita, pendula permanentemente entre, por um lado, o aumento da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, como, por exemplo, a substitui\u00e7\u00e3o do trabalho diretamente contratado pelo trabalho terceirizado, o trabalho terceirizado pelo trabalho intermitente e assim sucessivamente. O aumento da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de um lado num p\u00f3lo e a amea\u00e7a permanente da expropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de outro lado, ou seja, a perda dos seus direitos trabalhistas, previdenci\u00e1rios, sociais. Ent\u00e3o, essas reformas neoliberais aumentam progressivamente a franja do precariado na economia, no mercado de trabalho e assim por diante. As pessoas que, por exemplo, n\u00e3o v\u00e3o poder mais se aposentar, v\u00e3o se aposentar mais tarde, trabalhando mais tempo em um mercado de trabalho como o brasileiro, no qual se voc\u00ea faz 40 anos, voc\u00ea est\u00e1 fora do mercado, isso significa que vai trabalhar por conta pr\u00f3pria em condi\u00e7\u00f5es absolutamente prec\u00e1rias de vida e de trabalho durante mais tempo. A sua renda vai ser mais insegura, o trabalho mais intermitente, assim sucessivamente. Ent\u00e3o, tendo em vista essa defini\u00e7\u00e3o, temos uma variedade que vai desde aquele emprego formal, mas muito explorado, como \u00e9 o caso do trabalho terceirizado, do trabalho intermitente at\u00e9 o emprego informal, o trabalho por conta pr\u00f3pria, formas de auto explora\u00e7\u00e3o do trabalho nas quais se coloca os filhos para trabalhar junto, os vendedores ambulantes, o pessoal que batalha na rua, a galera da entrega do aplicativo e assim sucessivamente. Todo esse conjunto heterog\u00eaneo de trabalhadores, na minha opini\u00e3o, s\u00e3o parte do que \u00e9 o precariado tomado, para usar uma linguagem marxiana, como algo para si pr\u00f3prio. Ou seja, a configura\u00e7\u00e3o objetiva do precariado. Esse am\u00e1lgama fragmentado de grupos que est\u00e3o o tempo todo pendulando, tendo em vista as caracter\u00edsticas de uma sociedade capitalista perif\u00e9rica. Mas isso acontece tamb\u00e9m no centro, enfim, entre a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a expropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, eles est\u00e3o o tempo todo fazendo essa trajet\u00f3ria. Qual \u00e9 a caracter\u00edstica atual? \u00c9 que a expropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica passa \u00e0 frente. Ou seja, esses setores que est\u00e3o na informalidade ganham monta por conta das caracter\u00edsticas da economia, por conta da expuls\u00e3o, do ataque aos direitos, das pol\u00edticas austericidas, por conta desse conjunto de quest\u00f5es. E assim o p\u00f3lo da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica vai ficando mais reduzido e restrito. Ent\u00e3o, tendo em vista isso, eu diria: olha, mas quais s\u00e3o os setores que est\u00e3o fora desse precariado? A maior parte, por exemplo, do funcionalismo p\u00fablico est\u00e1 fora. Aqueles setores mais qualificados da classe trabalhadora, os assalariados m\u00e9dios, que t\u00eam qualifica\u00e7\u00f5es, t\u00eam acesso a benef\u00edcios, conseguem efetivamente ter melhores sal\u00e1rios. Est\u00e3o todos fora do precariado. O precariado \u00e9 exatamente esse am\u00e1lgama entre emprego informal, emprego terceirizado, emprego intermitente, entre emprego por conta pr\u00f3pria. Todas essas atividades se situam naquela base alargada, cada vez mais ampla da pir\u00e2mide de renda do trabalho no Brasil. Ent\u00e3o eu entendo que essa categoria, ela \u00e9 importante basicamente para pensar o desdobramento, o efeito do neoliberalismo no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, na reconfigura\u00e7\u00e3o das identidades coletivas dos trabalhadores. Por qu\u00ea? Porque o precariado traz um desafio que \u00e9 como o trabalho organizado vai lidar com essa massa de gente.<\/p>\n<p><em>\u2022 Joselicio Junior: Eu acho que a gente conseguiu construir um bom diagn\u00f3stico e agora gostaria de pensar um pouco como isso nos afeta enquanto esquerda, enquanto ativistas militantes que lutam justamente por uma contraposi\u00e7\u00e3o a essa l\u00f3gica. H\u00e1 uma parcela importante das formas de organiza\u00e7\u00e3o da esquerda ainda est\u00e1 presa a um modo de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade que n\u00e3o existe mais ou que est\u00e1 em profunda transforma\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, como construir esse encaixe? E quais s\u00e3o os desafios do debate sobre o sindicalismo, sobre as formas de organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora? Quais s\u00e3o os principais desafios que est\u00e3o colocados? Tanto para uma esquerda progressista como para uma esquerda revolucion\u00e1ria, digamos assim? Quais s\u00e3o os principais desafios para pensar, tendo em vista, inclusive, isso que voc\u00ea acabou de dizer sobreo alargamento do precariado, portanto, se n\u00e3o houver uma forma efetiva de contraposi\u00e7\u00e3o isso tende a se aprofundar.<\/em><br \/>\n\u2022\u00a0<strong>Ruy Braga<\/strong>\u00a0O grande desafio \u00e9 saber como articular o trabalho organizado com o trabalho n\u00e3o organizado. Esse \u00e9 o grande desafio. Isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Em primeiro lugar, \u00e9 importante que se diga que, apesar das formas tradicionais de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora no mundo todo, e em especial no Brasil, terem perdido muita for\u00e7a com esses deslocamentos, com essas transforma\u00e7\u00f5es do mundo do trabalho nos \u00faltimos 20, 30 anos, elas ainda s\u00e3o importantes. Ent\u00e3o, esse \u00e9 um primeiro elemento que a gente deve levar em considera\u00e7\u00e3o. Eu digo isso por v\u00e1rias raz\u00f5es. A primeira delas \u00e9 porque em muitos lugares- \u00e9 o caso de Portugal, por exemplo -, o movimento sindical ainda \u00e9 atuante, tem um peso na sociedade. E ele se abre, desde que pressionado, \u00e0s associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores prec\u00e1rios e consegue, por exemplo, formar coaliz\u00f5es naquilo que eu costumo chamar de novas coaliz\u00f5es, absorver desafios, inovar. Inclusive ter vit\u00f3rias eleitorais. Foi o caso, por exemplo, h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s quando o Bloco de Esquerda cresceu, muito por conta da forma\u00e7\u00e3o dessas novas coaliz\u00f5es que se espalham pela sociedade. Mas tamb\u00e9m voc\u00ea tem pa\u00edses como os Estados Unidos, em que o fato de n\u00e3o existir um Partido dos Trabalhadores, o que poderia for\u00e7ar os trabalhadores a se organizarem [mais nacionalmente], a se organizarem de forma muito localizada e fragmentada, muito ligada aos locais de trabalho, enfim, obrigatoriamente faz com que os trabalhadores optem pela cria\u00e7\u00e3o de um sindicato independente, um sindicato constitu\u00eddo por eles mesmos. Ent\u00e3o, o trabalhador se v\u00ea obrigado a se organizar no local de trabalho, montar um comit\u00ea.<br \/>\nIsso tudo for\u00e7a os trabalhadores a criar sindicatos. No caso brasileiro, a gente continua tendo, a despeito dos ataques que o movimento sindical no pa\u00eds sofreu nos \u00faltimos anos, incluindo a reforma de novembro de 2017 que enfraquece o financiamento dos sindicatos e fragiliza muito a representa\u00e7\u00e3o sindical, um sindicalismo importante objetivamente, porque ainda presta um servi\u00e7o de suporte quando os trabalhadores s\u00e3o demitidos e entram na justi\u00e7a. E por outro lado, o sindicalismo forma a base de governos como os de Lula, Dilma, que elaboram pol\u00edticas p\u00fablicas e assim sucessivamente, ou seja, \u00e9 importante destacar isso, os sindicatos s\u00e3o importantes. Eles n\u00e3o s\u00e3o descart\u00e1veis, n\u00e3o s\u00e3o negligenci\u00e1veis, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes e n\u00e3o ir\u00e3o liderar o pr\u00f3ximo per\u00edodo de lutas. \u00c9 isso que precisa ficar claro. E s\u00e3o parte de uma sociedade que se transformou muito radicalmente. Eles s\u00e3o, digamos, parte de uma sociedade fordista cujo epicentro era o mundo do trabalho nas f\u00e1bricas e hoje o epicentro \u00e9 o mundo do trabalho nas ruas. Ent\u00e3o, existe uma outra din\u00e2mica, uma outra l\u00f3gica, e \u00e9 por isso que eu digo sobre estarmos atentos aos novos movimentos sociais urbanos que mobilizam os trabalhadores nos locais de moradia, que defendem as comunidades onde os trabalhadores vivem e se reproduzem em um contexto de trabalho plataformizado, no qual o entregador n\u00e3o tem tempo para nada e roda quatorze horas por dia, seis dias por semana, o motorista de Uber idem. Onde ele vai efetivamente se socializar politicamente? N\u00e3o \u00e9 no local de trabalho que \u00e9 a rua onde ele passa o tempo todo. \u00c9 onde? \u00c9 no WhatsApp e \u00e9 na sua comunidade, no seu bairro. Ent\u00e3o a gente tem que ser capaz de chegar nessa pessoa no bairro. Como fazer isso? Por meio da luta por moradia digna, algo fundamental hoje em dia na reconfigura\u00e7\u00e3o das identidades pol\u00edticas dos trabalhadores. A luta por moradia digna toca o interesse do trabalhador naquilo que \u00e9 a interface entre a mercantiliza\u00e7\u00e3o do trabalho, de um lado, a precariza\u00e7\u00e3o e a utiliza\u00e7\u00e3o da terra urbana, por outro, que \u00e9 o aluguel, por exemplo. Existe uma conex\u00e3o entre tudo isso? Existe, por exemplo, a luta por educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, os cursinhos populares da periferia que mobilizam a juventude preta, pobre, perif\u00e9rica e que aponta um horizonte de progresso pol\u00edtico, intelectual, social, de mobilidade, enfim, algo que muda potencialmente a vida deles e das pr\u00f3prias fam\u00edlias, e isso tem um impacto no interior da comunidade. A luta do movimento dos trabalhadores sem direitos, amalgamando a\u00ed os camel\u00f4s de um lado, os entregadores, por outro, enfim, esses movimentos que, por exemplo, defendem os centros das cidades como espa\u00e7os de reprodu\u00e7\u00e3o e de trabalho, o que significa, entre outras coisas, fazer com que os centros urbanos se tornem mais seguros e onde esses trabalhadores possam efetivamente trabalhar e ganhar a sua renda a levar para suas comunidades, possam desenvolver seus pequenos neg\u00f3cios. Ent\u00e3o, isso tudo o que eu estou chamando de politiza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios \u00e9 o horizonte de interven\u00e7\u00e3o desses setores precarizados. A gente tem que entender que a forma como o capitalismo hoje funciona no Brasil e no mundo \u00e9 basicamente por meio desse processo de expropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o que implica um permanente ataque do Estado atrav\u00e9s, por exemplo, da viol\u00eancia policial nas comunidades onde os trabalhadores se reproduzem. Por qu\u00ea? Porque ao atacar essas comunidades, ao fazer com que essas comunidades vivam e se reproduzam de forma segregada, em condi\u00e7\u00f5es subnormais, ao cortar, por exemplo, os investimentos p\u00fablicos nessas comunidades atrav\u00e9s das pol\u00edticas de austeric\u00eddios, voc\u00ea comprime artificial e politicamente o valor da for\u00e7a de trabalho, barateando-a. \u00c9 exatamente essa for\u00e7a de trabalho a que vai ser oferecida a pre\u00e7o de banana para as plataformas.<\/p>\n<p><em>\u2022 Joselicio Junior: Quando n\u00e3o tem horizonte, voc\u00ea se sujeita a qualquer coisa. Um poucos antes de come\u00e7ar a entrevista falamos sobre o Cl\u00f3vis Moura e parte disso que voc\u00ea t\u00e1 dizendo ele j\u00e1 apontava: diante de um processo em que uma massa de trabalhadores tiveram dificuldade de entrar ou sequer passaram pela formalidade, \u00e9 justamente a partir do associativismo, das formas culturais, na sua m\u00e1xima extens\u00e3o que eles se organizam. N\u00f3s estamos falando da religiosidade, do futebol de v\u00e1rzea, da escola de samba e outras in\u00fameras formas. O que voc\u00ea est\u00e1 trazendo \u00e9 um debate que aponta para que, mais do que nunca, precisamos ter um olhar para essas formas de associa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por acaso que um dos vetores do conservadorismo, \u00e9 justamente uma forma muito eficiente de associativismo, de rede de prote\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o as igrejas evang\u00e9licas. Ent\u00e3o me parece que olhar para cultura e pol\u00edtica, para o associativismo, para as formas pelas quais a classe se organiza, para al\u00e9m do local do trabalho, me parece ser um caminho essencial de organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora contempor\u00e2nea.<\/em><br \/>\n\u2022\u00a0<strong>Ruy Braga<\/strong>\u00a0Testei essa hip\u00f3tese em dois livros. Um sobre o precariado j\u00e1 foi lan\u00e7ado e trata-se de um estudo sobre o Sul Global em pa\u00edses como Brasil e \u00c1frica do Sul. E mais recentemente sobre os Estados Unidos, pegando o Norte global e a ideia que vertebra essas compara\u00e7\u00f5es e esses estudos de caso em ess\u00eancia, a ideia da hip\u00f3tese do refazer-se da classe trabalhadora. O que estou pleiteando? Estou dizendo o seguinte, que o neoliberalismo e a crise da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal produziram, em combina\u00e7\u00e3o, uma desconstru\u00e7\u00e3o, um desfazer daquelas formas tradicionais de organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora no sentido mais fordista, mais focado, por exemplo, nos locais de trabalho, nos sindicatos, e nos partidos pol\u00edticos, no sentido mais tradicional. Isso tudo colapsa, n\u00e3o \u00e9 que desaparece completamente, mas perde centralidade pol\u00edtica na medida em que se enfraquece muito, a gente pode dar os dados, quer seja de densidade sindical, quer seja de vota\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos oper\u00e1rios, quando o mundo todo colapsa ao longo dessas d\u00e9cadas de hegemonia neoliberal. E, por outro lado, o que voc\u00ea tem \u00e9 um processo de desconstru\u00e7\u00e3o, que \u00e9 sempre um processo de reconstru\u00e7\u00e3o das identidades coletivas dos trabalhadores porque os trabalhadores s\u00e3o sujeitos ativos da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, eles n\u00e3o s\u00e3o objeto passivo.<\/p>\n<p>\u2022<em>\u00a0Joselicio Junior: Me permite um par\u00eantese, Ruy. Eu acho que a pandemia nos mostrou isso de forma muito latente, como a gente viu pipocar nas periferias formas de solidariedade. Tivemos aqui a experi\u00eancia da cozinha solid\u00e1ria do MTST. Al\u00e9m das cozinhas, houveram in\u00fameras outras iniciativas boas de associativismo, de redes, de solidariedades extraordin\u00e1rias. Ent\u00e3o isso mostra uma exemplifica\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 nos dizendo.<\/em><br \/>\n\u2022\u00a0<strong>Ruy Braga<\/strong>\u00a0\u00c9 que esse processo, ele est\u00e1 acontecendo por v\u00e1rias raz\u00f5es. Esse processo est\u00e1 acontecendo nas comunidades. \u00c9 nas comunidades que voc\u00ea vai atuar de fato, no sentido de tentar politizar esse processo de reconstru\u00e7\u00e3o. Se n\u00f3s, como esquerda, como organiza\u00e7\u00f5es, com partidos, como sindicatos e de movimentos, n\u00e3o formos capazes de disputar essas identidades coletivas, de construir conjuntamente essas identidades coletivas nas comunidades, quem vai construir, quem vai continuar construindo, reconstruindo, s\u00e3o as igrejas neopentecostais, porque elas est\u00e3o a anos luz \u00e0 frente das nossas iniciativas. A gente tem que ser capaz de nos aproximarmos propriamente desse processo de atuar conjuntamente com outros atores, enfim, no interior desse processo, porque n\u00e3o vai se dar no local de trabalho, n\u00e3o temos mais o sindicato como a ponta de lan\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, em que todos os movimentos sociais convergem para a quadra do sindicato. N\u00e3o existe mais essa realidade. Isso mudou, o mundo mudou e agora a gente tem que entender que vamos ter que disputar isso.<br \/>\n\u00c9 no Islam, n\u00f3s vamos disputar isso \u00e9 no samba. N\u00f3s vamos disputar isso na cultura perif\u00e9rica. N\u00f3s vamos disputar isso \u00e9 na igreja, na associa\u00e7\u00e3o de bairro, na urbaniza\u00e7\u00e3o, na luta por moradia digna. N\u00f3s vamos disputar isso nas pol\u00edticas p\u00fablicas e tamb\u00e9m, evidentemente, no mundo do trabalho, politizando esses atores, trazendo o pessoal dos entregadores para pr\u00f3ximo das nossas perspectivas. Enfim, construindo movimentos unificados de camel\u00f4s no pa\u00eds todo com uma perspectiva classista. S\u00e3o v\u00e1rias frentes. Eu costumo dar como exemplo de algo do qual eu fa\u00e7o parte que \u00e9 a Rede Emancipa de Educa\u00e7\u00e3o Popular porque trabalha com muitas identidades: juventude, movimento negro, precarizados, pessoas nas universidades. A perspectiva de voc\u00ea entrar na universidade \u00e9 a partir desses, da combina\u00e7\u00e3o interseccional entre essas m\u00faltiplas identidades A\u00ed vamos de fato constituir um novo sujeito coletivo capaz de enfrentar o neoliberalismo e, se tudo der certo, super\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Hoje o epicentro \u00e9 o mundo do trabalho nas ruas &#8211; read:\/\/https_flcmf.org.br\/?url=https%3A%2F%2Fflcmf.org.br%2Fhoje-o-epicentro-e-o-mundo-do-trabalho-nas-ruas%2F<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joselicio Junior &#8211; Recebemos na sede da Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos e Marielle Franco o professor Ruy Braga, professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e vice-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic), que vem se dedicando nos \u00faltimos anos a estudar o mundo do trabalho e particularmente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":11740,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[45],"class_list":["post-19506","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sociedade","tag-trabalho"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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