{"id":19503,"date":"2023-06-27T12:37:07","date_gmt":"2023-06-27T15:37:07","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19503"},"modified":"2023-06-20T18:42:02","modified_gmt":"2023-06-20T21:42:02","slug":"trabalho-e-subjetividade-a-batalha-dos-sentidos-e-significados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/06\/27\/trabalho-e-subjetividade-a-batalha-dos-sentidos-e-significados\/","title":{"rendered":"Trabalho e subjetividade: a batalha dos sentidos e significados"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marcio Farias &#8211; <\/strong>A importante vit\u00f3ria do Partido dos Trabalhadores em 2022, sob a lideran\u00e7a de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, foi um alento frente ao que significaria a perman\u00eancia por mais quatro anos de Jair Bolsonaro no poder. Com a tarefa de reconstru\u00e7\u00e3o nacional, Lula montou uma base ministerial que refletiu a pol\u00edtica de frente ampla adotada ao longo da campanha, mesclando acenos \u00e0s alian\u00e7as que o trouxeram pela terceira vez ao poder, representantes de pautas contempor\u00e2neas da sociedade civil organizada, bem como, por \u00f3bvio, a base petista, que com 17 das 37 cadeiras1, assumiu os postos chave para a execu\u00e7\u00e3o das tarefas do governo.<\/p>\n<p>Dentre as pastas estrat\u00e9gicas, Lula trouxe para o Minist\u00e9rio do Trabalho o sindicalista da velha guarda Luiz Marinho, que j\u00e1 havia sido o titular desse minist\u00e9rio em sua primeira gest\u00e3o. Apoiado numa trajet\u00f3ria pol\u00edtica como lideran\u00e7a sindical, o ex-presidente do PT e ex-prefeito de S\u00e3o Bernardo do Campo mal tomou posse e j\u00e1 seguiu o receitu\u00e1rio que se esperava dele frente ao posto que ocupa: realizou um conjunto de reuni\u00f5es com as principais centrais sindicais e lideran\u00e7as do movimento de trabalhadores de diversos ramos de atua\u00e7\u00e3o para ter um diagn\u00f3stico sobre o conjunto de reivindica\u00e7\u00f5es pautadas pelos setores organizados dessas fra\u00e7\u00f5es de classe. Entre as diversas reuni\u00f5es, no dia 19 de janeiro, Marinho promoveu o encontro entre as centrais sindicais e os representantes dos motoboys e dos trabalhadores por aplicativo. Na ocasi\u00e3o, comentou em suas redes sociais: \u201cSei das diversas opini\u00f5es que existem entre essas categorias e elas ser\u00e3o levadas em considera\u00e7\u00e3o. Nosso empenho ser\u00e1 para garantir a empregabilidade com remunera\u00e7\u00f5es justas e prote\u00e7\u00e3o social. Tudo constru\u00eddo com muito di\u00e1logo em um processo tripartite\u201d2.<\/p>\n<p>Dentre as lideran\u00e7as que participaram dessa rodada de conversas, esteve presente Paulo Roberto da Silva Lima, mais conhecido como Paulo Galo, militante que se notabilizou pela lideran\u00e7a do Breque dos Apps, em 2020, manifesta\u00e7\u00e3o grevista dos trabalhadores de aplicativos por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Na reuni\u00e3o em quest\u00e3o, Galo, diante das velhas e novas lideran\u00e7as presentes \u2013 sendo ele representante da nova gera\u00e7\u00e3o -, apontou para o desafio de se pensar uma unidade sindical que leve em considera\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 as diferentes reivindica\u00e7\u00f5es, mas, sobretudo, a aten\u00e7\u00e3o sobre as novas condi\u00e7\u00f5es de trabalho em que est\u00e3o inseridos os motoboys e trabalhadores de aplicativos: \u201c(\u2026) a quest\u00e3o desses trabalhadores de n\u00e3o se sentirem representados pelas centrais sindicais tem muito mais a ver com a falta de disputa que as centrais n\u00e3o querem fazer. \u00c9 preciso fazer uma disputa com esses trabalhadores. A gente tem uma outra no\u00e7\u00e3o de trabalho agora. O trabalho que era f\u00edsico passou a ser l\u00edquido com a terceiriza\u00e7\u00e3o, e agora com a uberiza\u00e7\u00e3o passa a ser gasoso. (\u2026) Como \u00e9 que voc\u00ea dialoga com um entregador que est\u00e1 passando a 80 km por hora na rua, e quando ele para, para pra comer um cachorro quente por 5 minutos (\u2026) \u00e0s vezes falta a vontade de disputar esse trabalhador (\u2026)\u201d3<\/p>\n<p>Galo indica, assim, que h\u00e1, portanto, uma batalha a ser enfrentada, mas sob determinadas circunst\u00e2ncias: uma nova situa\u00e7\u00e3o do trabalhador no mundo do trabalho.<\/p>\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o social em que o atual governo assume a presid\u00eancia \u00e9 ainda reflexo da crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica que assola o Brasil desde 2014 e que se estendeu at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es de 2022, apresentando tr\u00eas grandes aspectos: o primeiro diz respeito ao fim do pacto social estabelecido pela concilia\u00e7\u00e3o de classes das gest\u00f5es petistas em que todas as fra\u00e7\u00f5es do capital e do trabalho, em tese, ganharam. O segundo aspecto diz respeito ao novo pacto das fra\u00e7\u00f5es internas do capital com o grande capital internacional que exigiu de seus representantes pol\u00edticos uma atua\u00e7\u00e3o austera e coercitiva, dando ao Estado fei\u00e7\u00f5es bonapartistas de modo a garantir a acumula\u00e7\u00e3o. O terceiro diz respeito \u00e0 fraca contra hegemonia dos atingidos pelo golpe, o que possibilitou ao capital redesenhar a planta produtiva e a regula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o sem grandes entraves at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p>Essa nova onda neoliberal abre um per\u00edodo de associa\u00e7\u00e3o entre algumas fra\u00e7\u00f5es da burguesia interna e o conservadorismo pol\u00edtico, com tra\u00e7os autorit\u00e1rios, representado pela chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Esse novo ciclo representou a objetiva\u00e7\u00e3o de um desempenho pol\u00edtico da nova direita mundial, que busca uma esp\u00e9cie de alinhamento internacional. Estruturalmente, ainda estamos diante de uma forma atual da antiga rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia e subservi\u00eancia de alguns setores da burguesia interna ao capital internacional e em sua disputa pela consolida\u00e7\u00e3o do novo bloco no poder. Associa-se a esse movimento uma nova forma pol\u00edtica, uma esp\u00e9cie de internacional da ultra direita no mundo, sendo o Brasil uma das sucursais mais proeminentes desse movimento global (Lima, 2023).<\/p>\n<p>O corol\u00e1rio de derrotas para a classe trabalhadora nesse contexto foi a consolida\u00e7\u00e3o da reforma trabalhista e, posteriormente, da reforma da previd\u00eancia. Ambas efetivaram um novo cen\u00e1rio de desprote\u00e7\u00e3o aos que vivem do trabalho. Soma-se, ainda, a PEC 241, que limitou os gastos p\u00fablicos do governo por 20 anos. S\u00e3o esses, portanto, os par\u00e2metros dessa nova configura\u00e7\u00e3o da luta de classes no Brasil, na medida em que as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o passam a ter na sua composi\u00e7\u00e3o uma massa de trabalhadores sem prote\u00e7\u00e3o social, informais e terceirizados em quase todos os setores da economia.<\/p>\n<p>E quem s\u00e3o esses trabalhadores? Em termos gerais, o que as pesquisas sobre a riqueza e a mis\u00e9ria do trabalho no Brasil tem mostrado \u00e9 que, em grande medida, os trabalhos informais e prec\u00e1rios est\u00e3o sendo realizados por uma maioria negra. Sendo assim, \u00e9 poss\u00edvel argumentar que a correla\u00e7\u00e3o entre trabalho e capital no Brasil est\u00e1 lastreada pela ideologia do racismo.<\/p>\n<p>Na gest\u00e3o de Bolsonaro, o rei ficou nu: as v\u00edtimas da fome, os condenados da terra eram, em sua imensa maioria, negros e negras. O encontro entre trabalho superexplorado, cidadania mutilada e viol\u00eancia direta e indireta das elites por meio do Estado explicitaram a particularidade do capitalismo brasileiro e essa \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o em que se encontra a classe trabalhadora no momento em que o Partido dos Trabalhadores volta ao poder em 2023.<\/p>\n<p><strong>A batalha<\/strong><\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o de janeiro sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho no Brasil, Luiz Marinho era a representa\u00e7\u00e3o da forma tradicional de organiza\u00e7\u00e3o sindical em di\u00e1logo com um novo representante desse trabalhador contempor\u00e2neo. H\u00e1 uma certa esquerda que considera o trabalhador conscientizado aquele que est\u00e1 organizado em sindicatos para a luta espec\u00edfica e em um partido para a luta geral. Numa primeira aproxima\u00e7\u00e3o, essa opera\u00e7\u00e3o faz sentido, pois as configura\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e suas estruturas determinam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, as condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o social da vida. Nesse sentido, a divis\u00e3o social do trabalho \u00e9 um processo essencialmente din\u00e2mico e condicionado pelo modo de produ\u00e7\u00e3o \u2013 nesse caso o capitalista e dependente \u2013 sustentado pelo desenvolvimento de for\u00e7as produtivas espec\u00edficas. \u00c9 na divis\u00e3o social do trabalho que opera o processo por meio do qual se concretiza a produ\u00e7\u00e3o, a apropria\u00e7\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o e as possibilidades de consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o social da vida. Seguindo essa linha de an\u00e1lise, tal como Ricardo Antunes (2018) nos alerta sobre a nova morfologia do trabalho e a import\u00e2ncia do proletariado dos servi\u00e7os, ou como Ruy Braga nos indicava sobre a revolu\u00e7\u00e3o passiva dos subalternizados e sua inquieta\u00e7\u00e3o traduzida em luta por cidadania, a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 repensar os sindicatos e os partidos. (Braga, 2012). A quest\u00e3o \u00e9: como?<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o acima mencionada, o recado de Paulo Galo de reorienta\u00e7\u00e3o dos sindicatos, partidos e do governo dos trabalhadores foi para Luiz Marinho. Agora, h\u00e1 um hiato a ser sanado: como os sindicatos e partidos disputar\u00e3o a consci\u00eancia desse trabalhador e como ser\u00e1 poss\u00edvel um espa\u00e7o de organiza\u00e7\u00e3o permanente para esse setor da classe?<\/p>\n<p>Uma pista talvez esteja na reconstitui\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica da lideran\u00e7a que convocava para a batalha: como foi poss\u00edvel a emerg\u00eancia de Paulo Galo? Ele \u00e9 o representante da classe cuja posi\u00e7\u00e3o social, em tese, possui dificuldades para sua tomada de consci\u00eancia cr\u00edtica. O contexto hist\u00f3rico de suas a\u00e7\u00f5es no mundo \u00e9 de uma nova raz\u00e3o empreendedora, lastreada pelo neopentecostalismo, o consumismo inveterado, as redes sociais e o individualismo exacerbado. Como dar sentido e significados coletivos para a atual classe trabalhadora? Paulo Galo, por exemplo, n\u00e3o vem de tradi\u00e7\u00e3o sindical, nem da milit\u00e2ncia partid\u00e1ria, sua forte base argumentativa, boa orat\u00f3ria, repert\u00f3rio e capacidade de organiza\u00e7\u00e3o se remetem \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o no movimento Hip Hop.<\/p>\n<p>Pois bem, Cl\u00f3vis Moura (1983) e L\u00e9lia Gonz\u00e1lez (2018) j\u00e1 alertavam sobre a necessidade de justapor, com a devida densidade, trabalho, cultura e arte para o entendimento da experi\u00eancia da classe trabalhadora brasileira. J\u00e1 que no Brasil o capitalismo tem na superexplora\u00e7\u00e3o uma determina\u00e7\u00e3o geral, e no racismo e no heterosexismo seu corol\u00e1rio ideol\u00f3gico, como demonstra respectivamente Cristiane Sabino (2022) e B\u00e1rbara Ara\u00fajo (2020), quais s\u00e3o as formas de tomada de consci\u00eancia entre os condenados da terra? Ora, o ser social e as suas m\u00faltiplas experi\u00eancias n\u00e3o se definem apenas pela posi\u00e7\u00e3o em que o sujeito ocupa nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o entre \u201cas determina\u00e7\u00f5es n\u00e3o econ\u00f4micas\u201d s\u00e3o perspectivas importantes, na medida em que as formas de consci\u00eancia forjadas no cotidiano dos trabalhadores, em especial nos espa\u00e7os de associa\u00e7\u00e3o e trocas culturais, foram e continuam sendo media\u00e7\u00f5es em que a cr\u00edtica do modo de vida pode emergir. Essa \u00e9 uma das contribui\u00e7\u00f5es do historiador ingl\u00eas E.P. Thompson (1998) que com sua no\u00e7\u00e3o de economia moral e viv\u00eancia pode nos ajudar a refletir sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a particularidade brasileira e as formas de consci\u00eancia pol\u00edtica. Em especial o tema do trabalho, da cultura e da pol\u00edtica, na medida em que nos faz atentar para a exist\u00eancia de um duplo estatuto da cultura prolet\u00e1ria: de um lado, a resigna\u00e7\u00e3o ao que lhe \u00e9 imposto pelas classes dominantes, quase sempre necess\u00e1ria para a sua sobreviv\u00eancia enquanto classe trabalhadora, mas, por outro, a experi\u00eancia comum, partilhada pelos seus companheiros de trabalho, seus vizinhos de bairro, seus irm\u00e3os de culto, que vivenciam a mesma experi\u00eancia de explora\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o e injusti\u00e7a, expondo, assim, ao nomear essas situa\u00e7\u00f5es nos espa\u00e7os comuns, o campo de significados e sentidos de maneira cr\u00edtica, o que, em algumas circunst\u00e2ncias pode levar \u00e0 revolta.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria brasileira est\u00e1 repleta de exemplos em que a posi\u00e7\u00e3o do sujeito nas rela\u00e7\u00f5es sociais desdobrou-se em formas culturais de resist\u00eancia, como ocorreu na Revolta dos Mal\u00eas, Canudos, Contestado, Revolta dos Marinheiros e Revolta da Vacina. Isso porque na experi\u00eancia cotidiana, sobretudo no capitalismo racial brasileiro que cria paredes de vidro e muros intranspon\u00edveis para fra\u00e7\u00f5es inteiras das classe trabalhadora, forjou-se uma rela\u00e7\u00e3o entre subjetividade e realidade objetiva em que os esp\u00edritos inquietos expiaram suas dores, louvores, proje\u00e7\u00f5es e idealiza\u00e7\u00f5es por meio da cultura e da arte, n\u00e3o s\u00f3 como sublima\u00e7\u00e3o ou entretenimento, mas como media\u00e7\u00e3o cultural para a revolta.<\/p>\n<p>Uma pista para entender as conex\u00f5es entre trabalho, cultura e pol\u00edtica contemporaneamente \u00e9 a reflex\u00e3o proposta pelo soci\u00f3logo Felipe Oliveira Campos em seu livro Rap, cultura e pol\u00edtica: Batalha da Matrix e a est\u00e9tica da supera\u00e7\u00e3o empreendedora (2020). Nesse volume, Campos aponta para uma rela\u00e7\u00e3o entre essas novas experi\u00eancias de fra\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora e seus reflexos em uma forma cultural e art\u00edstica que via na ascens\u00e3o empreendedora e no consumo uma possibilidade para mitigar os flagelos que marcaram sua experi\u00eancia de superexplora\u00e7\u00e3o e de humilha\u00e7\u00e3o social do capitalismo racial brasileiro.<\/p>\n<p>O autor aponta, por exemplo, a posi\u00e7\u00e3o social do p\u00fablico frequentador da Batalha da Matrix, duelo de MCs que fazem rimas improvisadas na Pra\u00e7a da Matriz (onde fica a Igreja Central de S\u00e3o Bernardo do Campo), organizada desde maio de 2013. As batalhas re\u00fanem em m\u00e9dia em torno de mil pessoas por encontro todas as ter\u00e7as-feiras, sendo a maioria negra, aponta Campos. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es, \u201cpraticamente a totalidade das profiss\u00f5es [dos frequentadores] comp\u00f5e o campo dos servi\u00e7os\u201d. Em termos de sal\u00e1rio, tanto os trabalhadores informais como os formais \u2013 em sua maioria na condi\u00e7\u00e3o de trabalhadores precarizados \u2013 a m\u00e9dia salarial era de um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Ou seja, na cidade onde Lula e Luiz Marinho forjaram sua trajet\u00f3ria, cen\u00e1rio no qual se formou politicamente o ex-oper\u00e1rio que comanda o pa\u00eds, \u00e9 o trabalhador jovem, negro, prec\u00e1rio e informal que volta a ocupar as ruas e, por meio da est\u00e9tica, busca alcan\u00e7ar seu novo horizonte. \u00c9 ali, nesses espa\u00e7os de associa\u00e7\u00e3o cultural e art\u00edstica, que os \u201cPaulos Galos da Vida\u201d emergem. No caso de Paulo Galo especificamente, como o pr\u00f3prio j\u00e1 contou em relatos sobre sua viv\u00eancia, a senten\u00e7a se confirma: foi no movimento Hip Hop que ele tomou consci\u00eancia pol\u00edtica do seu pertencimento de classe. Experi\u00eancia an\u00e1loga \u00e0 do deputado estadual do Paran\u00e1, Renato Freitas (PT), que tamb\u00e9m se forjou enquanto sujeito a partir do Hip Hop. Segundo ele, em entrevista recente, foi o rap que lhe deu as chaves para interpreta\u00e7\u00e3o do seu pertencimento racial e de sua posi\u00e7\u00e3o de classe (Souza, 2023). A pesquisa de Campos \u00e9, nesse sentido, uma s\u00edntese qualificada entre a sociologia do trabalho e os estudos culturais e, por isso, nos d\u00e1 algumas pistas sobre como operar na batalha das ideias com o atual trabalhador urbano, pauta cobrada por Galo na reuni\u00e3o entre minist\u00e9rio e lideran\u00e7as. Essas pistas dizem da rela\u00e7\u00e3o entre cultura e pol\u00edtica e das novas configura\u00e7\u00f5es de trabalho, t\u00e3o bem analisadas pela sociologia do trabalho. O que se aponta com esse trabalho de Campos \u00e9 que h\u00e1 uma dial\u00e9tica entre a viv\u00eancia, os signos e significados. A dimens\u00e3o subjetiva dessa experi\u00eancia elaborada se deu em torno da sa\u00edda empreendedora que era, diante das respostas imediatas que se apresentavam a esse sujeito, uma possibilidade de mitigar seus flagelos. N\u00e3o havia apenas sujei\u00e7\u00e3o, mas uma ag\u00eancia diante das circunst\u00e2ncias dadas.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o \u00e9 a consci\u00eancia que determina o ser, mas \u00e9 o ser que determina a consci\u00eancia. Ainda que a forma apresentada pelos frequentadores da Batalha diga sobre a integra\u00e7\u00e3o por meio do consumo e da ascens\u00e3o econ\u00f4mica, eles continuam sendo trabalhadores, em sua maioria negros, na condi\u00e7\u00e3o de informais ou trabalhadores precarizados. Ocupam uma pra\u00e7a p\u00fablica, e isso faz emergir um campo de tens\u00e3o com a classe m\u00e9dia e as elites do entorno da Igreja que, em conluio com o clero local, conclamam o Estado a intervir, por meio da pol\u00edcia, para coibir o som alto e as pr\u00e1ticas sociais por eles indesejadas.<\/p>\n<p>Assim, essa juventude negra e trabalhadora, no processo hist\u00f3rico, teve de lidar, num segundo momento, com a a\u00e7\u00e3o conservadora de outros setores e classes sociais e enfrentar o Estado para manter sua pr\u00e1tica cultural. Da\u00ed a necessidade de compreens\u00e3o mais ampla sobre o funcionamento da sociedade, pois tiveram de fazer articula\u00e7\u00f5es com outros agentes culturais e pol\u00edticos da regi\u00e3o, com outros setores, com demandas distintas da sua, mas com o mesmo inimigo em comum. Foi preciso se articular com agentes p\u00fablicos, parlamentares progressistas e com o sistema de justi\u00e7a. A batalha agora n\u00e3o era s\u00f3 entre os MCs, mas tamb\u00e9m com as for\u00e7as de repress\u00e3o do Estado. Precisaram ter ampla capacidade de argumenta\u00e7\u00e3o, negocia\u00e7\u00e3o e confronto com as for\u00e7as da ordem e com as demais classes sociais que os viam como perigosos. Diante da sua a\u00e7\u00e3o cultural, mudaram o mundo que os circunda, mas tamb\u00e9m mudaram enquanto sujeitos: reconhecem-se enquanto agentes culturais e agentes pol\u00edticos,<\/p>\n<p>O ponto a ser analisado, portanto, \u00e9 sobre a consci\u00eancia em si e para si da classe. Se a consci\u00eancia est\u00e1 o tempo todo se modificando diante das circunst\u00e2ncias da vida, o campo da cultura e da arte \u00e9 justamente o campo aberto de possibilidades em que os sentidos do indiv\u00edduo se encontram com os significados do grupo. A afirma\u00e7\u00e3o da cultura e da pol\u00edtica como campo de possibilidade para a batalha das ideias aponta, portanto, para a supera\u00e7\u00e3o do trabalhador apenas numa leitura final\u00edstica. Implica, assim, numa mirada mais complexa da vida desses sujeitos que vivem em algum lugar, t\u00eam amizades, frequentam determinados espa\u00e7os.<\/p>\n<p>E talvez aqui a an\u00e1lise do capitalismo racializado como determina\u00e7\u00e3o geral deve ser considerada chave de reflex\u00e3o sobre os motivos pelos quais historicamente os negros e negras vindos dos setores mais pauperizados da classe trabalhadora fizeram lutas. Justamente pela condi\u00e7\u00e3o informal e prec\u00e1ria em que estavam inseridos nas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o, as formas pol\u00edticas que derivam desses grupos foram diversas: associa\u00e7\u00f5es, clubes, frentes ou a luta por cidadanias a partir dos movimentos de moradia, sa\u00fade e dos movimentos culturais, em geral liderados por mulheres negras. Ou seja, ao longo da hist\u00f3ria, as condi\u00e7\u00f5es de informalidade e precariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o impediram o surgimento de lutas sociais.<\/p>\n<p>Ver nota do Diret\u00f3rio do Partido dos Trabalhadores sobre os 100 primeiros dias de governo. Nota do Diret\u00f3rio Nacional do PT: 100 dias de reconstru\u00e7\u00e3o do Brasil. Dispon\u00edvel em: https:\/\/pt.org.br\/nota-do-diretorio-nacional-do-pt-100-dias-de-reconstrucao-do-brasil\/ Acesso em: 30 abr. 022).<\/p>\n<p>2\u2002Parte do texto que Luiz Marinho escreveu sobre essa reuni\u00e3o em suas redes sociais.<\/p>\n<p>3\u2002Transcri\u00e7\u00e3o da fala de Paulo Galo em sua participa\u00e7\u00e3o na reuni\u00e3o com o ministro do Trabalho dispon\u00edvel em sua rede social.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Antunes, Ricardo. O privil\u00e9gio da servid\u00e3o: o novo proletariado de servi\u00e7os na era digital. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2018.<\/p>\n<ul>\n<li>\u2002Ara\u00fajo, B\u00e1rbara. A forma\u00e7\u00e3o do movimento de mulheres negras no Brasil (1979- 2000): uma abordagem a partir da teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social. Tese. (Doutorado). Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade Federal Fluminense, 2020.<\/li>\n<li>\u2002Braga, Ruy. A pol\u00edtica do precariado: do populismo \u00e0 hegemonia lulista. S\u00e3o Paulo:<\/li>\n<\/ul>\n<p>Boitempo, 2012.<\/p>\n<ul>\n<li>\u2002Campos, Felipe Oliveira. Rap, cultura e pol\u00edtica: Batalha da Matrix e a est\u00e9tica da supera\u00e7\u00e3o empreendedora. S\u00e3o Paulo\/ Porto Alegre: Hucitec, 2020.<\/li>\n<li>\u2002Gonz\u00e1lez, L\u00e9lia. Primavera para as rosas negras. Di\u00e1spora Africana, 2018.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Lima, Jo\u00e3o Gabriel. \u201cA internacional da ultradireita: cresce o interc\u00e2mbio entre os partidos radicais no mundo \u2013 e o bolsonarismo est\u00e1 nesse mapa\u201d. Revista Piau\u00ed, ed. 199, abr. 2023.<\/p>\n<ul>\n<li>\u2002Moura, Cl\u00f3vis. As Ra\u00edzes do Protesto Negro. S\u00e3o Paulo: Dandara, 2023.<\/li>\n<li>\u2002Sabino, Cristiane. \u201cRacismo e superexplora\u00e7\u00e3o: apontamentos sobre a hist\u00f3ria do trabalho e da classe trabalhadora no Brasil\u201d. Germinal: Marxismo e educa\u00e7\u00e3o em Debate, v. 14, n. 2, p. 33\u201355, 2022. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.9771\/gmed.v14i2.49530.<\/li>\n<li>\u2002Souza, Renato. \u201cO rap me salvou e me preparou para a guerra\u201d. Entrevista concedida a Oliveira, Gercyane. Jacobin Brasil, 10 maio 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/jacobin.com.br\/2023\/02\/o-rap-me-salvou-e-me-preparou-para-a-guerra\/.<\/li>\n<li>\u2002Thompson, E.P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura tradicional. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1998.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Trabalho e subjetividade: a batalha dos sentidos e significados | Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos e Marielle Franco &#8211; https:\/\/flcmf.org.br\/trabalho-e-subjetividade-a-batalha-dos-sentidos-e-significados\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcio Farias &#8211; A importante vit\u00f3ria do Partido dos Trabalhadores em 2022, sob a lideran\u00e7a de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, foi um alento frente ao que significaria a perman\u00eancia por mais quatro anos de Jair Bolsonaro no poder. 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