{"id":19492,"date":"2023-06-23T12:12:32","date_gmt":"2023-06-23T15:12:32","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19492"},"modified":"2023-06-16T15:15:42","modified_gmt":"2023-06-16T18:15:42","slug":"eric-hobsbawm-uma-vida-na-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/06\/23\/eric-hobsbawm-uma-vida-na-historia\/","title":{"rendered":"Eric Hobsbawm: uma vida na hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><strong>Urariano Mota &#8211; <\/strong>A biografia do historiador marxista convida a revisitar seus conceitos, ainda fecundos. Conta de seu interesse pelo Brasil, que o levou a escrever sobre Lampi\u00e3o e as Ligas Camponesas \u2013 e como se safou da pol\u00edcia com um exemplar da <em>Folha<\/em>.<\/p>\n<p>Em 9 de junho, \u00e9 lembrado em todo o mundo o g\u00eanio de Eric Hobsbawm, o maior historiador do s\u00e9culo XX, reconhecido por marxistas e n\u00e3o marxistas. Talvez a sua obra se mantenha ainda acima dos demais historiadores, at\u00e9 mesmo nos mais recentes dias deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pena, \u00e9 lastim\u00e1vel, que em alguns estudos acad\u00eamicos ele seja posto de lado, porque possuiu at\u00e9 o fim da vida uma filia\u00e7\u00e3o comunista. A direita e seus liberais n\u00e3o o suportam. E por qu\u00ea? Antes de tax\u00e1-lo e tach\u00e1-lo de indiv\u00edduo comunista, como se isso fosse um grau menor de \u00e9tica em um homem, deveriam pelo menos ver as contribui\u00e7\u00f5es e conceitos inovadores que a sua obra inaugurou. Como a \u201cinven\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o\u201d, sobre a qual Hobsbawm trouxe esta luz: \u201cMuitas vezes, \u2018tradi\u00e7\u00f5es\u2019 que parecem ou s\u00e3o consideradas antigas s\u00e3o bastante recentes, quando n\u00e3o s\u00e3o inventadas. Ali\u00e1s, sempre que poss\u00edvel, tenta-se estabelecer continuidade com um passado hist\u00f3rico apropriado\u2026 A prop\u00f3sito, deve-se destacar um interesse espec\u00edfico que as \u2018tradi\u00e7\u00f5es inventadas\u2019 podem ter, de um modo ou de outro, para os estudiosos da hist\u00f3ria moderna e contempor\u00e2nea. Elas s\u00e3o altamente aplic\u00e1veis no caso de uma inven\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica comparativamente recente, a \u2018na\u00e7\u00e3o\u2019, e seus fen\u00f4menos associados: o nacionalismo, o Estado nacional, os s\u00edmbolos nacionais, as interpreta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, e da\u00ed por diante\u201d.<\/p>\n<p>Observe-se a prop\u00f3sito o que o grande historiador Evaldo Cabral de Mello pensa sobre a tradi\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria brasileira sobre a Batalha dos Guararapes, at\u00e9 hoje ensinada nas escolas e monumentos c\u00edvicos como o cerne da nacionalidade do Brasil. No livro\u00a0<em>O neg\u00f3cio do Brasil \u2013 Portugal, os Pa\u00edses Baixos e o Nordeste, 1641\/1649<\/em>, o historiador pernambucano escreve que a expuls\u00e3o dos holandeses n\u00e3o foi resultado de guerra heroica, da Batalha dos Guararapes, mas de um acordo pelo qual Portugal pagou 4 milh\u00f5es de cruzados (equivalentes a 63 toneladas de ouro) para ter o Nordeste brasileiro de volta. Um fato que n\u00e3o entra na tradi\u00e7\u00e3o inventada.<\/p>\n<p>Lembremos ainda, de passagem, o conceito de Hobsbawm para \u201cbanditismo social\u201d. Em seu livro<em>\u00a0Bandidos<\/em>, moderno e cl\u00e1ssico \u00e0 semelhan\u00e7a de poesia, ele fala: \u201cConv\u00e9m que comecemos com a \u2018imagem\u2019 do ladr\u00e3o nobre, que define tanto seu papel social quanto sua rela\u00e7\u00e3o com os camponeses comuns. Seu papel \u00e9 o do paladino, aquele que corrige os erros, que ministra a justi\u00e7a e promove a equidade social. Sua rela\u00e7\u00e3o com os camponeses \u00e9 de solidariedade e identidade totais. O ladr\u00e3o nobre inicia sua carreira de marginalidade n\u00e3o pelo crime, mas como v\u00edtima de injusti\u00e7a, ou sendo perseguido pelas autoridades devido a algum ato que estas, mas n\u00e3o o costume popular, consideram criminoso\u201d.<\/p>\n<p>Notem que Hobsbawm possu\u00eda o talento raro, rar\u00edssimo, de extrair o que \u00e9 universal de caracter\u00edsticas locais. Ele escreve\u00a0<em>Bandidos\u00a0<\/em>a partir do estudo particular de casos de famosos marginais na Inglaterra, China, M\u00e9xico, Estados Unidos, It\u00e1lia, Espanha\u2026 Mas \u00e9 imposs\u00edvel para um nordestino do Brasil\u00a0 n\u00e3o ver no trecho acima um retrato de Lampi\u00e3o! E, de fato, o bandido social do Nordeste \u00e9 referido em v\u00e1rios pontos do livro, como aqui: \u201cQuando Virgulino Lampi\u00e3o tinha 17 anos, os poderosos fazendeiros Nogueiras expulsaram os Ferreiras (da fam\u00edlia de Lampi\u00e3o) da fazenda onde viviam, acusando-os falsamente de roubo. Assim come\u00e7ou a rixa que o levaria \u00e0 marginalidade. \u2018Virgulino\u2019, recomendou algu\u00e9m, \u2018confie no divino juiz\u2019, mas ele respondeu: \u2018A B\u00edblia manda honrar pai e m\u00e3e, e se eu n\u00e3o defender nosso nome, eu perderei minha humanidade\u2019\u2026 (Diante da sua morte) a rea\u00e7\u00e3o de um sertanejo talvez seja mais t\u00edpica. Quando os soldados chegaram com as cabe\u00e7as dos cangaceiros, de forma a convencer todos que Lampi\u00e3o estava realmente morto, um sertanejo disse: \u2018Mataram o Capit\u00e3o porque a reza forte nada adianta na \u00e1gua\u2019. \u00c9 que o \u00faltimo ref\u00fagio de Lampi\u00e3o havia sido o leito seco de um ribeir\u00e3o, e de que outra forma, sen\u00e3o pelo fracasso da magia, podia-se explicar a derrota de Lampi\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p>Mas esses livros acima, de conceitos inovadores, s\u00e3o apenas duas de suas muitas contribui\u00e7\u00f5es publicadas, que v\u00e3o do jazz \u00e0 recria\u00e7\u00e3o original da hist\u00f3ria. A sua fama se fez nos livros que se tornaram best-sellers:\u00a0\u00a0<em>A Era das Revolu\u00e7\u00f5es<\/em>, que fala da transforma\u00e7\u00e3o do mundo entre 1789 e 1848, da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789 \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o industrial inglesa;\u00a0<em>A Era do Capital<\/em>, que trata da expans\u00e3o da economia capitalista em todo o planeta, de 1848 a 1875;\u00a0\u00a0<em>A Era dos Imp\u00e9rios<\/em>, de 1875 a 1914 ;<em>\u00a0A Era dos Extremos<\/em>:\u00a0<em>o breve s\u00e9culo XX<\/em>, que interpreta o per\u00edodo de 1914 a 1991, do qual fala no pref\u00e1cio: \u201co meu tempo de vida coincide com a maior parte da \u00e9poca de que trata este livro e durante a maior parte de meu tempo de vida \u2014 do in\u00edcio da adolesc\u00eancia at\u00e9 hoje \u2013 tenho tido consci\u00eancia dos assuntos p\u00fablicos\u201d.<\/p>\n<p>Trata-se, portanto, de um historiador de vista larga e profunda, que refletiu sobre as dores e alegrias dos s\u00e9culos sobre os quais escreveu. Ou melhor, dos s\u00e9culos sobre os quais participou escrevendo.\u00a0 Neste momento, tenho diante de mim a biografia\u00a0<em>Eric Hobsbawm: Uma vida na hist\u00f3ria<\/em>, um tijola\u00e7o agrad\u00e1vel, suave, de 728 p\u00e1ginas, anotado, mastigado e digerido. Pois \u00e9, quando um assunto nos interessa, tamb\u00e9m mastigamos tijolos como a mais apetitosa iguaria. Mas o melhor vir\u00e1 a seguir. Em um resumo da vida de Eric Hobsbawm, o seu bi\u00f3grafo Richard Evans fala em uma entrevista: \u201cEric Hobsbawm nasceu em Alexandria, cresceu em Viena e Berlim e se estabeleceu no Reino Unido (nasceu e continuou sendo um cidad\u00e3o brit\u00e2nico). Hobsbawm passou muito tempo na Fran\u00e7a na d\u00e9cada de 1930 e novamente na de 1950. Seus relat\u00f3rios escolares indicam que sua l\u00edngua nativa era ingl\u00eas\/alem\u00e3o \u2013 sua m\u00e3e, uma tradutora, insistia que a fam\u00edlia falasse em ingl\u00eas em casa. Ele tinha um franc\u00eas fluente e, mais tarde, aprendeu italiano e espanhol. Hobsbawm esteve sob vigil\u00e2ncia do MI5 [<em>Servi\u00e7o de intelig\u00eancia interno brit\u00e2nico<\/em>] desde a guerra \u2013 por quanto tempo, n\u00e3o sei, j\u00e1 que n\u00e3o tive permiss\u00e3o para ver o mais recente dos sete arquivos volumosos que compilaram sobre ele. Era um homem totalmente inofensivo \u2013 ao contr\u00e1rio dos \u2018cinco espi\u00f5es de Cambridge\u2019, que causaram muitos danos. Mas, como estes eram todos ingleses de classe m\u00e9dia alta com origens impec\u00e1veis, o MI5 e o MI6 confiavam neles, ao contr\u00e1rio de Hobsbawm, que, de alguma forma, era estrangeiro e n\u00e3o se encaixava naquele perfil\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 no pref\u00e1cio do livro, o bi\u00f3grafo Richard Evans nos acorda: \u201cS\u00f3 no Brasil, as vendas de seus livros chegaram a quase 1 milh\u00e3o de exemplares\u201d. Inacredit\u00e1vel, no fim da ditadura brasileira, houve um tempo que se destacava pelo amor \u00e0 cultura, pela leitura de um cl\u00e1ssico vivo. Mas recuemos um tempo antes, porque importa agora a movimenta\u00e7\u00e3o de Hobsbawm contra a corrente liberal e reacion\u00e1ria. Em 1943, ele publica em um artigo sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, durante a Segunda Guerra Mundial: \u201cO Terror tem sido difamado e caluniado desde a queda de Robespierre. N\u00f3s, que estamos engajados numa guerra total, podemos julgar o momento com mais vis\u00e3o. Mas, para conseguir a verdadeira perspectiva, devemos aprender a v\u00ea-lo, n\u00e3o s\u00f3 com os olhos de lutadores pela liberdade de 1943, mas com os olhos dos soldados comuns que, descal\u00e7os e famintos, salvaram o seu pa\u00eds porque era um bom pa\u00eds para salvar. Para eles o Terror n\u00e3o foi um pesadelo, mas a aurora da vida\u201d.<\/p>\n<p>Para mim \u00e9 dif\u00edcil um ponto da sua biografia, quando ele anota sobre o Recife de 1962: \u201cUma pobreza desesperadora em toda parte. Os habitantes parecem n\u00e3o ter feito uma refei\u00e7\u00e3o decente h\u00e1 dez gera\u00e7\u00f5es: raqu\u00edticos, nanicos e doentes\u201d Mas \u201chavia sinais de revolta, as Ligas Camponesas tinham aprendido a se comunicar com seus eleitores. O potencial de organiza\u00e7\u00e3o camponesa \u00e9 imenso\u201d.<\/p>\n<p>Na biografia, h\u00e1 trechos c\u00f4micos, ou quase c\u00f4micos, na altura em que o nosso historiador marxista, quando estava com 80 anos de idade, resolveu aceitar uma homenagem oficial da rainha. Chega a ser comovente a forma esperta e dial\u00e9tica que ele d\u00e1 para o recebimento dessa homenagem: \u201cEu n\u00e3o poderia ter aceitado um t\u00edtulo de nobreza. Eu nunca mais conseguiria olhar na cara dos meus antigos camaradas\u201d. Ainda assim, aceitou a nomea\u00e7\u00e3o de um\u00a0<em>Companion of Honour<\/em>\u00a0[Companheiro de Honra]. E quando se ajoelhou num tamborete para receber da rainha a fita e a medalha de Companheiro de Honra se desculpou: \u2018Minha m\u00e3e gostaria que eu fizesse isso\u2019\u201d. Acho que at\u00e9 Robespierre compreenderia.<\/p>\n<p>Em uma palestra na Creighton Lecture, com o poder de s\u00edntese em que era mestre, destruiu numa \u00fanica frase a afirma\u00e7\u00e3o vulgar de que a hist\u00f3ria \u00e9 escrita pelos vitoriosos. Ele falou: \u201cOs perdedores produzem os melhores historiadores\u201d. Os melhores escritores tamb\u00e9m, acrescento. E aqui vai uma agrad\u00e1vel descoberta da rela\u00e7\u00e3o entre Eric Hobsbawm e o Brasil. Foi entre os brasileiros que a\u00a0<em>Era dos Extremos<\/em>\u00a0alcan\u00e7ou o maior sucesso em todo o mundo! Desde o fim dos anos 1980, os la\u00e7os de Eric Hobsbawm com o Brasil se tornaram bem pr\u00f3ximos. O bi\u00f3grafo conta que, em sua chegada em 8 de junho de 1988, ele foi manchete na primeira p\u00e1gina da\u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo.<\/em>\u00a0Na ocasi\u00e3o, ficou na casa do editor brasileiro, Gasparian, em S\u00e3o Paulo. Ent\u00e3o o editor o levou junto com a esposa at\u00e9 uma praia. Mas aconteceu um problema:\u00a0 o carro em que viajavam foi parado por um policial. O diabo foi que o editor brasileiro havia esquecido a carteira de motorista. Na agonia, Gasparian explicou ao guarda quem era Eric Hobsbawm, e como prova mostrou a foto do historiador na primeira p\u00e1gina da\u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>\u00a0daquele dia. O policial olhou, olhou, comparou a primeira p\u00e1gina com as faces ao vivo no carro, magras, inconfund\u00edveis da fei\u00fara de Hobsbawm, e mandou que seguissem viagem. Sem mais explica\u00e7\u00f5es. \u00d3timo foi o coment\u00e1rio de Hobsbawm para o acontecimento: \u201cEssa foi a primeira vez em que meu of\u00edcio de historiador me livrou da pol\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p>Sobre o seu estilo claro, agrad\u00e1vel em expor as quest\u00f5es mais indigestas de modo que todos entendessem, Hobsbawm declarou em uma oportunidade: \u201cEu n\u00e3o desenvolvi meu estilo de prosa lendo historiadores. Sempre considerei o escritor Bernard Shaw como um modelo do que um homem inteligente pode fazer com a prosa: eu tive de ler todos os textos dele para minha tese de doutorado\u201d. Que li\u00e7\u00e3o para os nossos doutores de prosa mais dura. Sigam Hobsbawm, leiam, degustem, compreendam a literatura, e depois exponham as brilhantes ideias.<\/p>\n<p>Em janeiro de 1999, Eric Hobsbawm foi entrevistado pelo jornalista Antonio Polito, em italiano, que o historiador falava bem. Entre outras perguntas sobre at\u00e9 que ponto a perspectiva de Eric ainda estava enquadrada no marxismo, ele respondeu de modo mais frontal o que acima de tudo era o marxismo: \u201cO marxismo mostra que, ao ter compreendido que um est\u00e1gio espec\u00edfico da hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 permanente, a sociedade humana \u00e9 uma estrutura bem-sucedida por ser capaz de mudar, e por isso o presente n\u00e3o \u00e9 o seu ponto de chegada\u201d. Isso \u00e9 um conforto para todos n\u00f3s nestes dias. O fascismo jamais ser\u00e1 o ponto final da nossa jornada no Brasil.<\/p>\n<p>Na festa do seu \u00faltimo anivers\u00e1rio aos 95 anos, em junho de 2012, a escritora Claire Tomalin, ilustre bi\u00f3grafa de Charles Dickens, Thomas Hardy e Jane Austen, contou que Hobsbawm conversou muito com todos, com verve e sabedoria, e com uma presen\u00e7a de esp\u00edrito n\u00e3o ofuscada pelas dores f\u00edsicas que sentia. Na ocasi\u00e3o, o historiador fez piadas para os anos que teria pela frente, pois ainda ia ver o fracasso do capitalismo. Naquela idade, e nas condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de sa\u00fade em que se encontrava, a escritora pensou: \u201cEric \u00e9 um m\u00e1gico\u201d. O historiador faleceu em primeiro de outubro daquele mesmo ano de 2012.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel a um leitor, de qualquer pa\u00eds, n\u00e3o se emocionar com a batalha da vida pelo socialismo do pensador Eric Hobsbawm. Eu, que j\u00e1 ando de couro grosso com as perdas que temos visto de companheiros, camaradas e pessoas fundamentais que partem, ainda assim, fui vencido. Senti no mais \u00edntimo de mim um estremecimento na madrugada desta semana, quando li esta fala da sua filha Julia: \u201cSabe de uma coisa?, houve um momento maravilhoso quando ele j\u00e1 estava perto do fim. Ele falou para mil pessoas, no estande da Barclays Wealth. Ele estava realmente mal, sabe? E foi meio fantasmag\u00f3rico \u2013 ele simplesmente se transformou num homem de 45 anos, bem na nossa frente, no palco. E desempenhou um verdadeiro<em>\u00a0tour de force.<\/em>\u00a0Foi absolutamente maravilhoso\u201d.<\/p>\n<p>Entre as instru\u00e7\u00f5es que deixou para o seu funeral, lembrou a filha Julia:\u00a0 \u201cEm meio a todos cl\u00e1ssicos que desejava que tocassem, de Mozart, Schubert, ele escreveu que \u2018gostaria de uma grava\u00e7\u00e3o da Internacional quando eu partir\u2019, um lembrete de seu comprometimento de toda uma vida. No fim, Ira Katznelson se aproximou do caix\u00e3o e falou: \u2018Agora vou recitar a cl\u00e1ssica ora\u00e7\u00e3o judaica, o Kaddish, a pedido de Eric\u2019. E houve uma esp\u00e9cie de surpresa. As pessoas estranharam uma prece judaica numa cerim\u00f4nia que Eric tinha insistido que fosse absolutamente secular. Mas foi uma recorda\u00e7\u00e3o da sua m\u00e3e, que na inf\u00e2ncia lhe dissera para nunca falar ou fazer qualquer coisa que o fizesse sentir vergonha de ser judeu. Ele agora estava cumprindo o desejo da m\u00e3e em sua mem\u00f3ria, possivelmente quando mais importava\u201d.<\/p>\n<p>Ao ler as linhas acima, perdi o sono. Depois, me levantei e fiquei pensando, a lembrar para Eric Hobsbawm estes versos de Manuel Bandeira:<\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>Quando hoje acordei, ainda fazia escuro<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>(Embora a manh\u00e3 j\u00e1 estivesse avan\u00e7ada).<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Chovia.<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Chovia uma triste chuva de resigna\u00e7\u00e3o<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Ent\u00e3o me levantei,<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Bebi o caf\u00e9 que eu mesmo preparei,<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando\u2026<\/em><em><br \/>\n<\/em><em>\u2014 Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Eric Hobsbawm: uma vida na hist\u00f3ria &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/eric-hobsbawm-uma-vida-na-historia\/<\/p>\n<div id=\"__reading__mode__content_end_mark_container_id\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Urariano Mota &#8211; A biografia do historiador marxista convida a revisitar seus conceitos, ainda fecundos. 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