{"id":1946,"date":"2016-10-25T15:55:56","date_gmt":"2016-10-25T17:55:56","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1946"},"modified":"2016-10-23T14:58:09","modified_gmt":"2016-10-23T16:58:09","slug":"colombia-um-estado-debil-e-dois-paises-fortes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/10\/25\/colombia-um-estado-debil-e-dois-paises-fortes\/","title":{"rendered":"Col\u00f4mbia: um estado d\u00e9bil e dois pa\u00edses fortes"},"content":{"rendered":"<p><strong>RAUL ZIBECHI<\/strong> &#8211;\u00a0As duas Col\u00f4mbias que se chocaram no \u00faltimo dia 2 de outubro encarnam mundos que se temem. Uma realidade que antecede, em muito, o posicionamento ideol\u00f3gico e vem justificar dist\u00e2ncias culturais sobre as que tomam forma em diferen\u00e7as pol\u00edticas. Esses dois mundos puderam mais do que as longas negocia\u00e7\u00f5es entre Governo e FARC em Havana, sobrevoaram o apoio internacional massivo aos acordos de paz e desbarataram a mais s\u00e9ria e firme tentativa de superar uma guerra que leva 52 anos.<\/p>\n<p>O \u201cSim\u201d tinha tudo a seu favor, com o respaldo que havia recebido tanto do Governo quanto da oposi\u00e7\u00e3o de esquerda moderada, agrupada no Polo Democr\u00e1tico, e at\u00e9 mesmo dos governos da regi\u00e3o e dos organismos financeiros internacionais, passando por diversos movimentos sociais. A pr\u00f3pria diretora geral do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), Christine Lagarde, havia prometido em Cartagena, durante a assinatura dos acordos de paz entre governo e guerrilha, abrir uma linha de cr\u00e9dito especial para a Col\u00f4mbia de 11 bilh\u00f5es de d\u00f3lares no caso de uma vit\u00f3ria do \u201cSim\u201d.<\/p>\n<p>Todo o mundo acreditou na veracidade das pesquisas que prognosticavam at\u00e9 60% de votos favor\u00e1veis aos acordos de paz. Mas ganharam os partid\u00e1rios do \u201cN\u00e3o\u201d, com o Centro Democr\u00e1tico de \u00c1lvaro Uribe, ex-presidente e ex-aliado do atual presidente Juan Manuel Santos, \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Uribe pode ser considerado o principal vencedor da consulta. Contudo, n\u00e3o pode ser visto como fator determinante da derrota do \u201cSim\u201d. A habilidade do ex-presidente consistiu em captar a bronca e o rancor da metade dos colombianos com as FARC, uma antipatia que seu governo (2002-2010) contribuiu como poucos a potencializar, aliando-se com as for\u00e7as armadas e uma parte substancial do empresariado, em particular criadores de gado \u2013 e tamb\u00e9m com paramilitares e narcotraficantes.<\/p>\n<p><strong>Explicar uma surpresa<\/strong><\/p>\n<p>Uma parte consider\u00e1vel das an\u00e1lises sobre o resultado do referendo p\u00f4s a \u00eanfase em quest\u00f5es pontuais vinculadas a acertos e erros da campanha. \u201cEnquanto a campanha do N\u00e3o seguiu de forma unificada as diretrizes do uribismo, a do Sim foi mais dispersa\u201d, sustentou um dos jornais mais prestigiados do pa\u00eds (El Espectador, 4 de outubro de 2016). O di\u00e1rio aludia \u00e0 multiplicidade de apoios que recebeu o Sim, e afirmou que se todos os que apoiavam a paz tivessem feito uma campanha unificada os resultados seriam diferentes.<\/p>\n<p>Entre os argumentos menos s\u00f3lidos apareceu o que atribui a passagem do furac\u00e3o Matthew pela costa do Caribe \u00e0 absten\u00e7\u00e3o de mais de 100 mil eleitores na regi\u00e3o mais favor\u00e1vel \u00e0 paz. As mesmas premissas defendem aqueles que se queixam da baixa participa\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o mais de 37%. Devemos recordar que as elei\u00e7\u00f5es na Col\u00f4mbia, desde sempre, se caracterizaram pela baixa participa\u00e7\u00e3o. Em todo caso, deveriam pensar nas raz\u00f5es pelas quais a dirig\u00eancia pol\u00edtica possui t\u00e3o mirrada credibilidade.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o La Silla Vacia (\u201cA cadeira vazia\u201d, nome que faz refer\u00eancia \u00e0 aus\u00eancia de Manuel Marulanda em El Cagu\u00e1n, durante as negocia\u00e7\u00f5es de paz dos anos 90), uma das mais s\u00f3lidas an\u00e1lises da pol\u00edtica colombiana, esgrimiu cinco raz\u00f5es que explicariam o fracasso do \u201cSim\u201d. A primeira consiste em haver subestimado a rejei\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s FARC, que Uribe soube capitalizar ao lan\u00e7ar a consigna de que o Sim equivalia a dizer que \u201cser gatuno tem seu pre\u00e7o a pagar\u201d. Durante a campanha o ex-presidente exibiu an\u00fancios simulando cartazes a favor de \u201cTimochenko presidente\u201d, aludindo que o Sim levaria longe o atual l\u00edder das FARC, at\u00e9 a presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>A segunda raz\u00e3o seria haver subestimado a rejei\u00e7\u00e3o que Santos suscita. Com efeito, o governo tem menos de 30% de aprova\u00e7\u00e3o, pelo qual o presidente \u201cse transformou desde o in\u00edcio em um lastro para o plebiscito\u201d (La Silla Vacia, 3 de outubro de 2016). Logo destaca que os partid\u00e1rios do N\u00e3o tiveram a habilidade de n\u00e3o se opor \u00e0 paz, mas apostar em um \u201cacordo melhor\u201d.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o atribui \u00e0s FARC e ao governo atitudes de soberba. Ou seja, o presidente exibiu um estilo caudilhista e autorit\u00e1rio, enquanto a guerrilha mostrou tudo, menos humildade. Em Cartagena, durante a cerim\u00f4nia da assinatura dos acordos de paz da semana passada, Timochenko \u201csaiu do cen\u00e1rio como uma estrela de rock\u201d, exibindo sua \u201csuperioridade moral\u201d que causou desgosto a muitos, observou a revista. Os dirigentes da guerrilha nunca entenderam que se tratava de conquistar a vontade dessa outra metade do pa\u00eds, que s\u00f3 a conhece atrav\u00e9s da publicidade negativa de seus inimigos, agregou.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, o seman\u00e1rio aludiu ao proverbial conservadorismo dos colombianos: cat\u00f3licos e homof\u00f3bicos. Uribe fez chamados para resgatar a \u201cfam\u00edlia tradicional\u201d, enquanto que o procurador Alejandro Ord\u00f3\u00f1ez assegurou que os acordos de Havana pretendiam mudar institui\u00e7\u00f5es sagradas, como o matrim\u00f4nio. O governo n\u00e3o p\u00f4de convencer a Igreja Cat\u00f3lica, em uma reuni\u00e3o que manteve com v\u00e1rias centenas de pastores crist\u00e3os, de que as den\u00fancias n\u00e3o eram verdadeiras (Semana, 2 de outubro de 2016).<\/p>\n<p><strong>Campo e cidade<\/strong><\/p>\n<p>O certo \u00e9 que a sociedade colombiana vive h\u00e1 d\u00e9cadas em profunda e crescente polariza\u00e7\u00e3o que teve seu ponto de partida no assassinato do l\u00edder liberal Jorge Eli\u00e9cer Gait\u00e1n, em 9 de abril de 1948, in\u00edcio de uma guerra civil entre liberais e conservadores que criou as condi\u00e7\u00f5es para o nascimento das FARC nos anos 60. Mas essa guerra n\u00e3o afetou a todos os colombianos por igual, mas em primeiro lugar os moradores das zonas rurais.<\/p>\n<p>O Grupo Mem\u00f3ria Hist\u00f3rica denunciou que o conflito causou a morte de 220 mil pessoas entre 1958 e 2012, das quais mais de 80% foram civis. Em paralelo, o Registro \u00danico de V\u00edtimas indicou que at\u00e9 mar\u00e7o de 2013 haviam sido registrados 25 mil desaparecidos e quase 6 milh\u00f5es de desabrigados, em um pa\u00eds de 48 milh\u00f5es de habitantes. Desaparecidos e desabrigados prov\u00eam das \u00e1reas rurais que votaram majoritariamente pela paz, como Choc\u00f3, Cauca, Guaviare, Nari\u00f1o, Caquet\u00e1, Vaup\u00e9s, Meta e Putumayo, onde o Sim se imp\u00f4s com certa folga. Por isso se diz que as v\u00edtimas da guerra votaram afirmativamente.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, nas grandes cidades e zonas urbanas triunfou o N\u00e3o. Como assinala a jornalista Constanza Vieira, \u201cA Col\u00f4mbia exibiu seu peculiar transtorno de dupla personalidade, que faz que se fale de dois pa\u00edses: o mais desenvolvido, predominante nos Andes, que votou majoritariamente pelo N\u00e3o. E o pa\u00eds da periferia, com menor densidade populacional, votou pelo Sim, junto com Bogot\u00e1, uns 8 milh\u00f5es de habitantes\u201d (lps, 3 de outubro de 2016).<\/p>\n<p>O interessante, e verdadeiramente complexo, \u00e9 que o pa\u00eds \u201cmoderno\u201d deu as costas para a paz e se aliou com o ultradireitista Uribe, salvo Bogot\u00e1, que experimentou um processo de democratiza\u00e7\u00e3o ap\u00f3s duas d\u00e9cadas de governos progressistas.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es desta suposta discrep\u00e2ncia entre modernidade e atitude pol\u00edtica conservadora seriam basicamente duas. A primeira se relaciona com os cen\u00e1rios de guerra. Para os citadinos o conflito \u00e9 algo que acontece longe da sua vida cotidiana, entre contendentes com os quais n\u00e3o t\u00eam o menor contato. Esta popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o sofre a guerra, mas ainda \u201cse informa\u201d por meios de comunica\u00e7\u00e3o sempre controlados por uma alian\u00e7a entre o Estado militarista e empres\u00e1rios amigos dos militares.<\/p>\n<p>Contudo, nas cidades se respira prosperidade, por um lado, e pobreza em outro extremo. Mas em um pa\u00eds como a Col\u00f4mbia uma e outra n\u00e3o se olham, muito menos se relacionam. H\u00e1 os 60%, maioria de colombianos que n\u00e3o vota e parece pertencer \u00e0 metade mais pobre da popula\u00e7\u00e3o, o que explica o pequeno peso de uma esquerda que, ademais, h\u00e1 tempos est\u00e1 desconectada da realidade.<\/p>\n<p>A segunda explica\u00e7\u00e3o tem a ver como peso das \u201cigrejas de garagem\u201d, que proliferaram a tal ponto nos \u00faltimos 20 anos que o governo tentou control\u00e1-las atrav\u00e9s de um registro. De acordo com este \u201ccadastro\u201d, h\u00e1 tr\u00eas anos, data do \u00faltimo controle, havia na Col\u00f4mbia 5071 igrejas n\u00e3o cat\u00f3licas anotadas pelo Minist\u00e9rio do Interior (Caracol, 17 de janeiro de 2014). A cada dia se apresentam 3 novas igrejas, al\u00e9m das que funcionam de forma \u201cilegal\u201d.<\/p>\n<p>Em sua imensa maioria se tratam de pequenos templos evang\u00e9licos ou pentecostais que atendem a dezenas de pessoas. Provavelmente t\u00eam uma incid\u00eancia similar a das igrejas neopentescostais no Brasil, que contam com poderosos meios de comunica\u00e7\u00e3o, grandes templos e uma numerosa bancada de deputados e senadores. Mas na Col\u00f4mbia o fen\u00f4meno n\u00e3o conta com estudos que permitam conhecer a quantidade de fieis que abarcam, nem suas caracter\u00edsticas. Se sabe que ingressaram nessas igrejas informais, h\u00e1 apenas 3 anos, cerca de 10 bilh\u00f5es de pesos colombianos, cinco vezes mais que o or\u00e7amento estatal para educa\u00e7\u00e3o (Dinero.com, 24 de setembro de 2013).<\/p>\n<p>Essas milhares de igrejas se mostraram contr\u00e1rias aos acordos de paz. Uma das escassas investiga\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas sobre este fen\u00f4meno, realizada pelo jornalista Ricardo Sarmiento, divide as igrejas em tr\u00eas categorias: as locais ou \u201cde garagem\u201d, com sede \u00fanica, quase sempre pentecostais e que influenciam pessoas das redondezas de onde est\u00e3o instaladas; as que t\u00eam v\u00e1rias sedes em Bogot\u00e1 e em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds; e as \u201cmegaigrejas\u201d, que pertencem a congrega\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Este universo em expans\u00e3o geom\u00e9trica tem uma poderosa influ\u00eancia sobre o comportamento dos setores populares. Fundamentalmente, as pequenas \u201cigrejas de garagem\u201d, que est\u00e3o radicadas em bairros perif\u00e9ricos, funcionam em casas de fam\u00edlia e encarnam um \u201cprotestantismo informal que cresce sem necessidade de apoio econ\u00f4mico de fora\u201d, segundo afirma em um informe o soci\u00f3logo William Beltr\u00e1n. Podemos consider\u00e1-las como \u201cuma forma de resist\u00eancia social\u201d dos mais pobres, porque \u201cpropiciam espa\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria para desabrigados e marginalizados que encontram no seio dessas comunidades a possibilidade de reestruturar o sentido de sua exist\u00eancia e sua identidade\u201d.<\/p>\n<p>O outro ref\u00fagio dos pobres s\u00e3o as For\u00e7as Armadas, que captam jovens em busca de um sentido a suas vidas e um sal\u00e1rio seguro, como pode ser constatado em uma volta por qualquer cidade colombiana. \u201cSe o presidente Santos, de verdade, quer fazer a paz com todo o pa\u00eds deve oferecer aos militares, e a Uribe, e aos interesses e medos que ele representa, um acordo que os contemple\u201d, escrevia bem antes do referendo o jornalista H\u00e9ctor Abad Faciolince (El Espectador, 30 de julho de 2016).<\/p>\n<p>\u201cTemo que aqui seguir\u00e1 a guerra se alguns militares e civis recebem mais penas e vergonhas que a guerrilha. Se Santos define um trato especial para militares e civis implicados no conflito (e s\u00f3 ele tem o poder de fazer isto), acredito que at\u00e9 o Centro Democr\u00e1tico votaria pelo Sim no plebiscito. Aqui h\u00e1 certa direita que n\u00e3o descansar\u00e1 at\u00e9 ver presa ou morta a c\u00fapula guerrilheira; e h\u00e1 uma certa esquerda que n\u00e3o estar\u00e1 contente at\u00e9 ver Uribe e seus amigos presos. Tanto a essa direita quanto a essa esquerda \u00e9 preciso desarm\u00e1-las com um perd\u00e3o especial\u201d, concluiu Abad.<\/p>\n<p>http:\/\/correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&#038;view=article&#038;id=12085:2016-10-11-22-58-09&#038;catid=72:imagens-rolantes<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RAUL ZIBECHI &#8211;\u00a0As duas Col\u00f4mbias que se chocaram no \u00faltimo dia 2 de outubro encarnam mundos que se temem. 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