{"id":19334,"date":"2023-06-06T12:55:27","date_gmt":"2023-06-06T15:55:27","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19334"},"modified":"2023-05-29T20:00:18","modified_gmt":"2023-05-29T23:00:18","slug":"poderia-a-felicidade-ser-subversiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/06\/06\/poderia-a-felicidade-ser-subversiva\/","title":{"rendered":"Poderia a felicidade ser subversiva?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Amador Fern\u00e1nde-Savater &#8211; <\/strong>Vista antes como conservadora e burguesa, ela pode criar sensibilidades criativas e antissit\u00eamicas \u2014 e ser chave para o bem viver e a coopera\u00e7\u00e3o. Diante de um mundo gris, \u00e9 preciso novos v\u00ednculos afetivos e er\u00f3ticos; nem repressores, nem coisificante.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cPovos felizes n\u00e3o t\u00eam hist\u00f3ria\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A felicidade tem uma fama muito ruim hoje para o pensamento cr\u00edtico. \u00c9 considerada uma ilus\u00e3o, mais uma injun\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, um sonho trapaceiro de classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Posto no Facebook uma frase de Pasolini a favor da felicidade e logo algu\u00e9m responde: \u201cPasolini capacitista!\u201d A felicidade cancelada.<\/p>\n<p>No entanto, a rela\u00e7\u00e3o entre felicidade e revolu\u00e7\u00e3o tem sido muito pr\u00f3xima at\u00e9 recentemente. Um ligava seu destino \u00e0 outra, como Pasolini chegou a dizer justamente na cita\u00e7\u00e3o respondida.<\/p>\n<p>A felicidade talvez tenha sido a forma europeia e ocidental de discutir o que hoje, na Am\u00e9rica Latina mais influenciada por tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, chama-se \u201co bom viver\u201d ou \u201co viver saboroso\u201d (nas belas palavras de Francia M\u00e1rquez). Ou seja, discutir\u00a0<em>a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de vida boa<\/em>.<\/p>\n<p>Os grupos subalternos tinham suas pr\u00f3prias imagens de felicidade, a partir das quais disputavam com a concep\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica. Imagens n\u00e3o s\u00f3 do futuro, de uma felicidade poss\u00edvel depois ou mais tarde, mas\u00a0<em>aqui e agora<\/em>, relativa \u00e0 experi\u00eancias vividas no presente.<\/p>\n<p>Por acaso esse potencial se esgotou? Ser\u00e1 que a ideia de felicidade \u00e9 algo agora apenas a ser desmontado, denunciado e desconstru\u00eddo? N\u00e3o existem imagens de plenitude e alegria fora das concep\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas? As centelhas de\u00a0<em>felicidade subversiva<\/em> se apagaram para sempre?<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Felicidade e revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Encontramos o primeiro elo entre felicidade e revolu\u00e7\u00e3o n\u00edtido nos discursos p\u00fablicos \u2013 Robespierre, Saint-Just ou Babeuf \u2013 durante a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>\u201cO ser humano nasceu para a felicidade e para a liberdade, em toda parte ele \u00e9 escravo e miser\u00e1vel\u201d, afirma Robespierre. Se o ser humano \u00e9 escravo e miser\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 por nenhuma fatalidade inscrita nas marcas de nascen\u00e7a, mas pela \u201ccorrup\u00e7\u00e3o do poder\u201d. Ao poder mesmo como corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Corrup\u00e7\u00e3o de qu\u00ea? Do \u201cestado de natureza\u201d segundo o qual se deveria legislar para devolver a liberdade, a virtude e a felicidade ao povo. Contra a promessa compensat\u00f3ria de uma felicidade s\u00f3 poss\u00edvel no outro mundo, a revolu\u00e7\u00e3o espalha por toda parte a ideia de uma\u00a0<em>felicidade terrena e acess\u00edvel a todos<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cA felicidade \u00e9 uma ideia nova na Europa\u201d, escreve Saint-Just como toque final de um texto-decreto sobre o confisco de bens dos inimigos da revolu\u00e7\u00e3o e a indeniza\u00e7\u00e3o dos indigentes. A felicidade \u00e9 poss\u00edvel e sua ferramenta \u00e9 a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201cPertence \u00e0s grandes assembleias criar a felicidade comum\u201d. Uma legisla\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de acordo com o estado de natureza pode tornar efetiva esta aspira\u00e7\u00e3o humana, dissolvendo as desigualdades sociais e promovendo os direitos necess\u00e1rios \u00e0 assist\u00eancia, ao trabalho, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a ideia do Estado social natural.<\/p>\n<p>Os jacobinos apostaram na revolu\u00e7\u00e3o permanente \u201cenquanto houver apenas um pobre ou miser\u00e1vel na terra\u201d, mas o processo terminou no ano II com a rea\u00e7\u00e3o do Termidor. \u201cA revolu\u00e7\u00e3o congelou\u201d, observa Saint-Just antes de silenciar para sempre.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O fracasso das revolu\u00e7\u00f5es comunistas do s\u00e9culo XX<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1970, o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Herbert Marcuse refletiu com J\u00fcrgen Habermas e outros sobre sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria pol\u00edtica e intelectual. Tudo come\u00e7ou com um fracasso, diz ele, a derrota da revolu\u00e7\u00e3o espartaquista de 1918-1919 na Alemanha.<\/p>\n<p>\u201cFiz parte da \u00faltima concentra\u00e7\u00e3o de massa em que Rosa Luxemburgo falou; eu estava em Berlim quando ela e Karl Liebknecht foram assassinados. O que eu queria entender era como, com a presen\u00e7a de massas genuinamente revolucion\u00e1rias, a revolu\u00e7\u00e3o p\u00f4de ser derrotada. Por que o potencial revolucion\u00e1rio daquela \u00e9poca, historicamente raro, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o foi aproveitado, como foi desperdi\u00e7ado por d\u00e9cadas? Por que foi desativado diretamente? Significativamente, comecei estudando Freud\u201d.<\/p>\n<p>A derrota de 1918-19 antecipa outro fracasso: o das\u00a0<em>vitoriosas<\/em>\u00a0revolu\u00e7\u00f5es comunistas do s\u00e9culo XX. Tamb\u00e9m nelas o potencial revolucion\u00e1rio das massas \u00e9 inutilizado e o sonho coletivo de liberdade e felicidade se transforma em um pesadelo de terror e escravid\u00e3o. Como \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>O que Marcuse pensa \u00e9 que as revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o derrotadas n\u00e3o apenas por for\u00e7as externas, como a repress\u00e3o ou a coopta\u00e7\u00e3o de revolucion\u00e1rios, mas tamb\u00e9m por din\u00e2micas internas e\u00a0<em>inconscientes<\/em>. Ao Termidor hist\u00f3rico-social acrescenta-se um \u201cTermidor ps\u00edquico\u201d cujo mist\u00e9rio deve ser penetrado para compreender algo da maldi\u00e7\u00e3o das contrarrevolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es comunistas do s\u00e9culo XX retomam sem questionar o imagin\u00e1rio do progresso: desdobramento das for\u00e7as produtivas, dom\u00ednio da natureza e da fabrica\u00e7\u00e3o de bens de consumo. O socialismo \u00e9 definido como a redistribui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria do progresso industrial, que L\u00eanin resume em sua famosa f\u00f3rmula: \u201co comunismo s\u00e3o os sovietes mais a eletricidade\u201d.<\/p>\n<p>O problema, diz Marcuse, \u00e9 que esse imagin\u00e1rio j\u00e1\u00a0<em>pressup\u00f5e<\/em>\u00a0um\u00a0<em>tipo de corpo<\/em>. Somente o corpo reprimido e insatisfeito, que aprendeu a adiar o prazer e a se sublimar em ideais futuros, \u00e9 capaz de impulsionar o progresso quantitativo infinito. S\u00f3 esse tipo de corpo pode experimentar a vida como um trabalho sem prazer baseado na produtividade e na promessa de um futuro.<\/p>\n<p>Como se \u201ceduca\u201d esse corpo? Claro, a partir de todos os tipos de viol\u00eancia externa: n\u00f3s os conhecemos bem gra\u00e7as \u00e0s obras de Marx, Foucault ou Silvia Federici. Mas n\u00e3o s\u00f3. O que Freud permite a Marcuse \u00e9 pensar a \u201cinterioriza\u00e7\u00e3o do poder\u201d atrav\u00e9s do pr\u00f3prio fato cultural.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0 cultura e \u00e0 linguagem imp\u00f5e a cada ser humano o sacrif\u00edcio do corpo pulsional em favor do princ\u00edpio da realidade. O delegado do princ\u00edpio de realidade dentro de cada um de n\u00f3s \u00e9 chamado de superego. Este vigilante interno, que tomamos como a voz da consci\u00eancia moral, trabalha para manter a ordem com as armas mais eficazes que existem: o sentimento de culpa e d\u00edvida, a ang\u00fastia \u00e0 menor transgress\u00e3o, o desejo de puni\u00e7\u00e3o como reden\u00e7\u00e3o. E nessa estrutura (ontol\u00f3gica) que se enra\u00edzam os diferentes poderes hist\u00f3rico-sociais.<\/p>\n<p>No caso do princ\u00edpio de realidade capitalista, o mandato transmitido pelo superego \u00e9 primeiro a ren\u00fancia pulsional em favor da produtividade. A puls\u00e3o amorosa (<em>Eros<\/em>) ser\u00e1 reduzida \u00e0 sexualidade genito-reprodutiva. E a puls\u00e3o destrutiva (<em>Thanatos<\/em>) ser\u00e1 instrumentalizada contra os \u201cinimigos do progresso\u201d externos e internos: as paix\u00f5es in\u00fateis, inclina\u00e7\u00f5es \u00e0 vagabundagem e \u00e0 pregui\u00e7a, tudo o que resiste a sacrificar a felicidade do presente \u00e0 produtividade.<\/p>\n<p>Agora podemos entender melhor o fracasso das revolu\u00e7\u00f5es comunistas do s\u00e9culo XX: ao copiar o imagin\u00e1rio burgu\u00eas do progresso como ele \u00e9, querendo simplesmente coloc\u00e1-lo a servi\u00e7o de outras finalidades, reproduziram o mesmo \u201ctipo humano\u201d, o corpo da ren\u00fancia pulsional e da sublima\u00e7\u00e3o ao futuro, o corpo sempre insatisfeito e infeliz.<\/p>\n<p>Esse corpo se materializa na subjetividade que concebe a revolu\u00e7\u00e3o como \u201ctrabalho\u201d, a milit\u00e2ncia como \u201csacrif\u00edcio\u201d, o tempo como \u201cespera\u201d e o comunismo como sociedade da produtividade total. A luta pelo socialismo \u2013 e logo o pr\u00f3prio socialismo \u2013 se objetiva e reifica. O potencial pulsional e criativo das massas fica inutilizado. A revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 derrotada por dentro.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>A liberta\u00e7\u00e3o de Eros<\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Robespierre, n\u00e3o nascemos para a liberdade e a felicidade. O acesso \u00e0 cultura nos predisp\u00f5e antes \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o e \u00e0 infelicidade. A revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 suficiente, pensa Marcuse, \u00e9 necess\u00e1ria uma\u00a0<em>revolu\u00e7\u00e3o cultural<\/em>. Uma mudan\u00e7a radical na estrutura das necessidades pulsionais, invariante e ao mesmo tempo aberta \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Essa revolu\u00e7\u00e3o cultural consiste em\u00a0<em>reativar as for\u00e7as er\u00f3ticas reprimidas<\/em>. A liberta\u00e7\u00e3o como felicidade. O que \u00e9 Eros? O impulso de proteger, enriquecer e embelezar a vida, o instinto de coopera\u00e7\u00e3o, a energia capaz de compor coletivos a partir de uma solidariedade\u00a0<em>sentida<\/em>\u00a0(e n\u00e3o apenas for\u00e7ada), \u00fanica for\u00e7a capaz de deter a destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A liberta\u00e7\u00e3o de Eros \u00e9 antes de tudo um\u00a0<em>protesto<\/em>: contra o mundo da produtividade autopropulsada, da agressividade permanente e da instrumentaliza\u00e7\u00e3o de tudo. Sem esse fio negativo, sem esse poder de rejei\u00e7\u00e3o, Eros corre o risco de ser reduzido a uma mera compensa\u00e7\u00e3o tolerada.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m \u00e9 uma\u00a0<em>afirma\u00e7\u00e3o<\/em>. O aparecimento de\u00a0<em>um novo tipo de liga\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0entre os seres, as coisas e o mundo. Um v\u00ednculo sens\u00edvel e afetivo capaz de cuidar de cada ser vivo como uma pot\u00eancia singular, como sujeito e n\u00e3o como objeto. Uma nova sublima\u00e7\u00e3o da energia libidinal, n\u00e3o mais repressiva ou compensat\u00f3ria, mas criativa.<\/p>\n<p>A for\u00e7a de Eros, antes antecipada e reservada ao campo da est\u00e9tica, deve agora\u00a0<em>impregnar a vida toda<\/em>: organizar o trabalho, orientar a constru\u00e7\u00e3o de ambientes habit\u00e1veis, determinar as rela\u00e7\u00f5es com a natureza, encharcar os espa\u00e7os educativos.<\/p>\n<p>Esta liberta\u00e7\u00e3o implica uma\u00a0<em>outra temporalidade<\/em>, n\u00e3o mais o tempo da espera infinita, mas o dos processos que trazem em si a recompensa. O tempo de amadurecimento, crescimento e desdobramento do que<em>\u00a0j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed<\/em>, como semente e potencia. O tempo do processo e n\u00e3o do progresso.<\/p>\n<p>Implica um\u00a0<em>outro corpo<\/em>, n\u00e3o mais o do militante sempre insatisfeito e em guerra com o mundo, sem nada a perder a n\u00e3o ser suas correntes, mas um corpo que tira sua for\u00e7a dos mil la\u00e7os amorosos que j\u00e1 o prendem ao mundo: as formas de vida desej\u00e1veis, os territ\u00f3rios que habitamos, as mem\u00f3rias e hist\u00f3rias que nos constituem.<\/p>\n<p>Em suma, implica uma\u00a0<em>nova concep\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, como muta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica, mudan\u00e7a de pele e surgimento de uma nova sensibilidade. Essa nova concep\u00e7\u00e3o, reivindicada\u00a0<em>teoricamente<\/em>\u00a0por Marcuse desde a d\u00e9cada de 1950, vai se concretizar\u00a0<em>praticamente<\/em>\u00a0nos movimentos da d\u00e9cada de 1960: os estudantes pacifistas contra a Guerra do Vietn\u00e3, o feminismo e as primeiras lutas ambientalistas, anticoloniais e raciais. Os diferentes atores do que Marcuse chamou de Grande Rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>O mandato de desempenho<\/strong><\/p>\n<p>A Grande Rejei\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue derrubar o capitalismo, mas for\u00e7a uma reorganiza\u00e7\u00e3o geral em resposta. \u00c9 o que se conhece como passagem entre fordismo e p\u00f3s-fordismo, ou sociedade industrial e neoliberalismo; e implica tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a profunda no n\u00edvel ps\u00edquico e subjetivo, que \u00e9 o que nos interessa agora.<\/p>\n<p>O sujeito industrial torna-se o sujeito perform\u00e1tico dos nossos dias. N\u00e3o mais definido pela ren\u00fancia pulsional, mas pelo envolvimento total na guerra econ\u00f4mica: entrega, motiva\u00e7\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por obedi\u00eancia e conformismo, mas por desenraizamento e autossupera\u00e7\u00e3o constante. N\u00e3o por ascetismo puritano, economia ou modera\u00e7\u00e3o, mas por excesso: hiperatividade, hiperexpressividade, hiperestimula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o como principal caracter\u00edstica do capitalismo \u00e9 internalizada, tornando-se uma modalidade subjetiva e modo de vida. Al\u00e9m do pr\u00f3prio trabalho, afetando toda a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O novo mandato do superego dita: \u201cvoc\u00ea deve sempre tirar vantagem, tirar o m\u00e1ximo proveito de cada situa\u00e7\u00e3o\u201d. A energia amorosa de Eros \u00e9 subjugada sob todas as formas de hiper-sexualiza\u00e7\u00e3o. A energia destrutiva de Thanatos \u00e9 instrumentalizada para a competi\u00e7\u00e3o geral e a guerra de todos contra todos.<\/p>\n<p>E o desconforto? Como fica o sofrimento ps\u00edquico nesse tempo de desempenho obrigat\u00f3rio?<\/p>\n<p>\u00c9 a sensa\u00e7\u00e3o constante de que o tempo est\u00e1 se acelerando, de que \u201cn\u00e3o consigo chegar l\u00e1\u201d ou \u201cn\u00e3o tenho vida\u201d. A sensa\u00e7\u00e3o de estar sempre em falta, sempre em d\u00e9ficit, de n\u00e3o ser suficiente, de n\u00e3o fazer o suficiente, de n\u00e3o ter o suficiente. A dificuldade vivida na rela\u00e7\u00e3o com o outro, sempre rival e nunca c\u00famplice, um constante medir-se pela inveja e pela frustra\u00e7\u00e3o, uma exig\u00eancia sufocante.<\/p>\n<p>Se Freud ofereceu a Marcuse um esquema para pensar a internaliza\u00e7\u00e3o do poder, o psicanalista Jacques Lacan acrescentou posteriormente mais um elemento, bastante perturbador:\u00a0<em>o mandato do superego se regogiza<\/em>. Somos n\u00f3s mesmos que aceleramos a roda do hamster, que entramos na competi\u00e7\u00e3o com o outro, que cobramos de todos e de tudo um resultado imediato.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma alegria nisso tudo, uma satisfa\u00e7\u00e3o na insatisfa\u00e7\u00e3o, um certo apego emocional, uma esp\u00e9cie de v\u00edcio. O reclamante basicamente n\u00e3o quer mudar nada, a v\u00edtima est\u00e1 satisfeita com sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem pensar profundamente em todas essas quest\u00f5es, sem entrar seriamente no \u201cninho de v\u00edboras\u201d da subjetividade, os apelos \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o social permanecem mero discurso, um cad\u00e1ver na boca, a prepara\u00e7\u00e3o de um novo Termidor ps\u00edquico.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>A felicidade do desertor<\/strong><\/p>\n<p>E ent\u00e3o, hoje, felicidade? N\u00e3o, claro, a felicidade obrigat\u00f3ria do mandato de desempenho (\u201cseja feliz, aproveite!\u201d), mas a felicidade de justamente desfazer todos os comandos, a felicidade que subverte, a felicidade de Eros.<\/p>\n<p>Vamos ensaiar um pouco, sem negar outras poss\u00edveis linhas de interpreta\u00e7\u00e3o, nem t\u00ea-las todas conosco. Hoje h\u00e1 quem abandone o emprego, quem rejeite o consumo como rela\u00e7\u00e3o privilegiada com o mundo, quem d\u00ea as costas \u00e0 pol\u00edtica e aos meios de comunica\u00e7\u00e3o, quem se v\u00e1, quem desapare\u00e7a. Grande Resigna\u00e7\u00e3o, decl\u00ednio, \u00eaxodo das cidades, novos comunalismos, mil tentativas de desligar e desacelerar a vida, desamor libidinal.<\/p>\n<p>O pano de fundo da \u00e9poca, pelo menos no Norte global, \u00e9 esse vasto movimento de afastamento dos mecanismos de ansiedade. \u00c0s vezes sozinho e outras em grupo, \u00e0s vezes trocando de lugar e \u00e0s vezes sem sair do lugar, \u00e0s vezes com fala e outras vezes apenas por instinto. N\u00e3o se trata exatamente de lutas ou movimentos sociais, mas de uma esp\u00e9cie de deslocamento de placas tect\u00f4nicas, em que novas lutas e movimentos podem surgir. Estou pensando, por exemplo, na atual desidentifica\u00e7\u00e3o geral em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho, considerado por d\u00e9cadas como a principal fonte de autorrealiza\u00e7\u00e3o e felicidade. N\u00e3o pode faltar ao trabalho, porque \u00e9 dinheiro e renda, mas toma dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Franco Berardi (Bifo) prop\u00f5e a imagem da\u00a0<em>deser\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0para pensar esse movimento de retirada. A deser\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m do simples desligamento moment\u00e2neo: uma licen\u00e7a m\u00e9dica, uma fuga, um ver\u00e3o. Porque implica precisamente um gesto de\u00a0<em>ren\u00fancia<\/em>: de subtra\u00e7\u00e3o e desapego do n\u00f3 que nos prendia, de elabora\u00e7\u00e3o da armadilha em que estamos presos, de abertura a novos ritmos e respira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em>A deser\u00e7\u00e3o implica uma ruptura subjetiva<\/em>. Um corte com o gozo do desempenho. Uma perda de certas certezas \u00e0s quais nos apeg\u00e1vamos e a passagem dessa ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Atrever-nos a perder. Essa \u00e9 a proibi\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia sob o imperativo de desempenho: perder tempo e n\u00e3o fazer render, perder prest\u00edgio na disputa por visibilidade, perder posi\u00e7\u00f5es na guerra econ\u00f4mica. A famosa s\u00edndrome FOMO (<em>fear of missing out<\/em>), o medo constante de perder algo, expressa essa terr\u00edvel ansiedade.<\/p>\n<p>O perdedor (el\u00a0<em>loser<\/em>) \u00e9 a figura mais desvalorizada do neoliberalismo, o espantalho com o qual nos assustamos e normalizamos. Mas s\u00f3 ousando perder podemos enfraquecer esse mandato do superego que nos mortifica. Perder, como diz Jorge Alem\u00e1n, sem se identificar com o que se perde, sem melancolia.<\/p>\n<p>Perde-se, tamb\u00e9m, por amor. Como aconteceu na excepcional hist\u00f3ria de \u201cLoco\u201d P\u00e9rez, o jogador que abriu m\u00e3o de um contrato de dois milh\u00f5es de euros e caiu para a Terceira Divis\u00e3o por seu amor de inf\u00e2ncia a La Coru\u00f1a. Perder como forma de dar e doar-se sem c\u00e1lculo, na fidelidade ao que verdadeiramente sustenta a vida.<\/p>\n<p>Perder, n\u00e3o para depois ganhar, como dizem os atletas de elite e os loucos empres\u00e1rios, mas para\u00a0<em>aprender a viver em uma perda<\/em>, no sentido de que o desejo \u2013 ao contr\u00e1rio do gozo \u2013 n\u00e3o acumula, fica \u00e0 deriva o tempo todo, tem mar\u00e9 alta e baixa, se dissipa, constr\u00f3i labirintos sem sa\u00edda.<\/p>\n<p>A felicidade do desertor passaria por esse abandono da obriga\u00e7\u00e3o-alegria de ceder, de acumular, de controlar. Essa deser\u00e7\u00e3o pode se tornar um movimento coletivo, estrat\u00e9gico, organizado? Um movimento de engenheiros, t\u00e9cnicos e pesquisadores franceses, unidos em sua rejei\u00e7\u00e3o a \u201crobotizar, mecanizar, otimizar, acelerar e desumanizar o mundo\u201d, autodenominaram-se recentemente \u201c<a href=\"https:\/\/desertheureuses.noblogs.org\/\" rel=\"noreferrer noopener\">os desertores felizes<\/a>\u201d e convidam a uma grande ren\u00fancia construtiva, criativa, ofensiva.<\/p>\n<p>Marcuse fala em algum lugar sobre \u201cfelicidade sem m\u00e9rito\u201d. N\u00e3o aquela que se consegue com esfor\u00e7o, aquela que se adquire ou conquista, aquela que \u00e9 pr\u00eamio ou decretada, mas aquela que pode irromper, sem garantias e inesperadamente, justamente\u00a0<em>se ousarmos perder<\/em>.<\/p>\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Referencias:\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Filosof\u00eda radical: conversaciones con Herbert Marcuse<\/em>, J\u00fcrgen Habermas y otros, Gedisa (2018).<\/p>\n<p>\u201cLa idea del progreso a la luz del psicoan\u00e1lisis\u201d, Herbert Marcuse (1969).<\/p>\n<p><em>La nueva raz\u00f3n del mundo<\/em>, Pierre Dardot y Christian Laval, Gedisa (2013).<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Poderia a felicidade ser subversiva? &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/poderia-afelicidade-ser-subversiva\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amador Fern\u00e1nde-Savater &#8211; Vista antes como conservadora e burguesa, ela pode criar sensibilidades criativas e antissit\u00eamicas \u2014 e ser chave para o bem viver e a coopera\u00e7\u00e3o. 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