{"id":19326,"date":"2023-06-03T12:11:06","date_gmt":"2023-06-03T15:11:06","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19326"},"modified":"2023-05-29T16:16:16","modified_gmt":"2023-05-29T19:16:16","slug":"pesquisador-desbrava-o-caminho-milenar-dos-povos-originarios-da-america-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/06\/03\/pesquisador-desbrava-o-caminho-milenar-dos-povos-originarios-da-america-do-sul\/","title":{"rendered":"Pesquisador desbrava o caminho milenar dos povos origin\u00e1rios da Am\u00e9rica do Sul"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marcos Antonio Corbari e Katia Marko<\/strong> &#8211; A rede de estradas dos incas, guaranis e outras etnias vira tema de livro do professor da UFPel Carlos Dominguez.<\/p>\n<p>Um not\u00e1vel sistema de estradas desenvolvido pelos povos amer\u00edndios h\u00e1 mil\u00eanios ainda \u00e9 desconhecido da imensa maioria dos brasileiros. \u00c9 conhecido como o \u201cCaminho de Peabiru\u201d. Tem ramifica\u00e7\u00f5es no Brasil, Paraguai, Bol\u00edvia, Chile, Peru, Equador. Agora, ap\u00f3s cinco anos de estudo, o jornalista, pesquisador, escritor e professor de Jornalismo na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Carlos Dominguez est\u00e1 lan\u00e7ando Peabiru \u2013 Do Atl\u00e2ntico ao Pac\u00edfico, pelo m\u00edtico caminho sagrado.<\/p>\n<p>O significado integral do termo \u201cPeabiru\u201d ainda \u00e9 discutido, mas todas as vers\u00f5es coincidem em parte, garantindo o sentido de \u201crota\u201d, \u201ccaminho\u201d ou \u201crumo\u201d. Mescla de narrativa jornal\u00edstica com investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o livro recua milhares de anos at\u00e9 as civiliza\u00e7\u00f5es andinas prosseguindo at\u00e9 o desembarque dos primeiros europeus no Sul do Brasil.<\/p>\n<p>Brasil de Fato RS entrevistou (*) o autor, mais conhecido como Cadr\u00e9 e assim ser\u00e1 tratado nesta conversa animada, onde nos conta sua imers\u00e3o nas jornadas milenares de incas, guaranis, chimus, mochicas e outros povos origin\u00e1rios pelas trilhas do continente.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;O que acho fant\u00e1stico \u00e9 que tanto os guaranis quanto os incas cultivam uma forma de viver harm\u00f4nica que preserva o ambiente&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Brasil de Fato RS &#8211; No ano passado, estive no Peru, em Cusco, e eu fui ao Templo da Lua, por onde passa o caminho de Peabiru. Muita gente nunca ouviu falar sobre isso. Como te interessou buscar essa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Cadr\u00e9 &#8211; \u00c9 uma hist\u00f3ria muito antiga. Pode-se come\u00e7ar a falar em caminho de Peabiru dois mil anos antes de Cristo, desde a forma\u00e7\u00e3o das primeiras civiliza\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o norte e central do Peru. Diversas popula\u00e7\u00f5es ergueram coisas impressionantes. Mais modernamente, os Incas &#8211; apesar da gente falar dos Incas como algo muito antigo, eles s\u00e3o de 1400 e pouco &#8211; ergueram aquele gigantesco imp\u00e9rio. E uma das coisas que os Incas aproveitaram dessas outras civiliza\u00e7\u00f5es foram as estradas. Eles t\u00eam liga\u00e7\u00f5es que atravessam o continente. Em qu\u00edchua chamam Qhapaq \u00d1an. Essas estradas se estendem do Equador ao Chile, entrando na Bol\u00edvia. Era uma civiliza\u00e7\u00e3o dos Andes, que vivia muito em fun\u00e7\u00e3o da cordilheira, por\u00e9m chegou no Brasil pelo sul da Argentina. Aqui, nas terras baixas, nossas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas tamb\u00e9m ergueram as suas civiliza\u00e7\u00f5es. Qual \u00e9 a grande diferen\u00e7a? Nas montanhas da cordilheira, teu material construtivo \u00e9 pedra. Na regi\u00e3o, tanto do Paraguai quanto do Brasil, a tecnologia era outra.<\/p>\n<blockquote><p>Os Incas se chocaram com os guaranis, tinham brigas, mas tamb\u00e9m trocavam mercadorias<\/p><\/blockquote>\n<p>O caminho do Peabiru tinha v\u00e1rios ramais. N\u00e3o se pode pensar que \u00e9 uma \u00fanica estrada. \u00c9 um sistema de vias, que tem o tramo principal e tem outras sa\u00eddas. \u00c9 o natural do ser humano. Ele precisa transitar. Se transita muito em uma dire\u00e7\u00e3o, estabelece o caminho por onde \u00e9 mais f\u00e1cil, menos sofrido, tem os pontos de parada, onde tem \u00e1gua. O caminho do Peabiru no Brasil foi redescoberto em 1971 pelo arque\u00f3logo Igor Chmyz, do Paran\u00e1. Tinha 1,40 metro de largura por uns 30\/40 cent\u00edmetros de profundidade. Era suficientemente largo pra se passar a p\u00e9 e coberto com uma graminha que formava um tapete verde e impedia que outra vegeta\u00e7\u00e3o nascesse ali. Ela largava sementinhas que grudavam na roupa, nas pernas das pessoas que passavam e iam espalhando essa semente. No Paran\u00e1, na regi\u00e3o de Pitangas, um local ainda tem esse caminho. Visitamos os poucos trechos que existem. Chmyz conseguiu caminhar por mais de 30 quil\u00f4metros porque era uma \u00e9poca pr\u00e9-soja. Hoje em dia, em alguns lugares que as lavouras n\u00e3o devastaram completamente, ainda se encontra algum vest\u00edgio.<\/p>\n<p>BdF RS &#8211; Ele come\u00e7a em Santa Catarina?<\/p>\n<p>Cadr\u00e9 &#8211; Em Santa Catarina, sai da regi\u00e3o de Barra Velha, pr\u00f3ximo ao rio e sobe aquela serra na dire\u00e7\u00e3o do Paran\u00e1. Tem um outro ramal importante que sai da antiga popula\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Vicente, no litoral de S\u00e3o Paulo. Esses dois ramais se encontram no Paran\u00e1 e adentram o Paraguai. Segue em dire\u00e7\u00e3o ao Peru at\u00e9 o lago Titicaca. Da\u00ed existem v\u00e1rios ramais at\u00e9 o litoral peruano, passando por Cusco e rumando ao Equador. \u00c9 o trajeto. Muito bem preservado na parte andina at\u00e9 por ser feito em pedra e tamb\u00e9m por outro motivo importante: \u00e9 uma pol\u00edtica de governo. \u00c9 o projeto Qhapaq \u00d1an, do Minist\u00e9rio da Cultura do Peru, para preservar e detalhar todos os s\u00edtios arqueol\u00f3gicos dos caminhos\u2026<\/p>\n<p>L\u00e1 na regi\u00e3o andina ele \u00e9 preservado, e aqui n\u00e3o, e isso eu gosto de debater, da necessidade de que haja uma tentativa&#8230; O Peabiru tem alguns ramais principais, mas tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de outras vias que se interligam. O Paran\u00e1 \u00e9 um estado importante porque era o melhor caminho. E a\u00ed vem o ramal (paulista) de S\u00e3o Vicente, uma povoa\u00e7\u00e3o antiga que j\u00e1 era um aldeamento Guarani mil anos atr\u00e1s. Chega ao rio Paran\u00e1 e segue pr\u00f3ximo ao rio Paraguai, em dire\u00e7\u00e3o a Santa Cruz de La Sierra j\u00e1 na Bol\u00edvia, no altiplano, antes de cruzar os Andes. Depois tem os caminhos que cruzam os Andes, as quebradas como chamam em castelhano&#8230; Ele entra na Bol\u00edvia, vai at\u00e9 a regi\u00e3o do Titicaca, o centro das civiliza\u00e7\u00f5es andinas, e segue at\u00e9 Cusco, ap\u00f3s ao norte do Peru e \u00e0 regi\u00e3o acima no Equador e por a\u00ed afora.<\/p>\n<blockquote><p>Existem gravuras rupestres que marcam o caminho. Eram as placas de tr\u00e2nsito da \u00e9poca<\/p><\/blockquote>\n<p>No Peru, h\u00e1 dois ramais, um mais perto da cordilheira e outro pelo litoral. Essas duas civiliza\u00e7\u00f5es, as das terras baixas e as andinas, se intercambiavam de todas as formas. Faziam guerras. E a\u00ed tem os relatos dos cronistas da \u00e9poca da conquista, o principal \u00e9 Garcilaso de la Vega, filho de uma princesa inca com um dos espanh\u00f3is conquistadores. Ele escreveu o principal livro sobre a queda de uma civiliza\u00e7\u00e3o e a entrada de outra. Muitas vezes, os incas se chocaram com os guaranis, no caso os chiriguanos como chamavam, que s\u00e3o aqueles que sentem frio. Tinham muitas brigas, mas tamb\u00e9m trocavam mercadorias.<\/p>\n<p>Quando chegaram os primeiros portugueses e espanh\u00f3is no litoral, uma caravela naufragou na costa de Santa Catarina. Oito n\u00e1ufragos se estabeleceram ali, no continente, n\u00e3o na ilha. Foram salvos pelos guaranis. Um dos n\u00e1ufragos se chamava Aleixo Garcia. Ficou naquela comunidade, vivendo bem, muita comida, \u00e1gua, casou com a filha de um chefe, constituiu fam\u00edlia&#8230; E o que mostraram para ele e os outros que estavam l\u00e1? Objetos de ouro e prata finamente trabalhados que vinham de onde? Isso era 1521, antes da chegada dos espanh\u00f3is no norte do Peru, bem antes, esses objetos vinham de uma civiliza\u00e7\u00e3o que morava numa grande montanha. J\u00e1 sabiam da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O que Garcia fez? Organizou uma expedi\u00e7\u00e3o e foi pelo Peabiru. Foi o primeiro europeu a fazer o caminho. Saquearam as bordas ali na Bol\u00edvia, perto de Potos\u00ed, onde tem a mina de prata. No meio do caminho, foram atacados pelos \u00edndios Paiagu\u00e1s e Garcia morreu. Ele \u00e9 um desconhecido para a historiografia brasileira mas no Paraguai tem est\u00e1tua. Foi o primeiro europeu que chegou pr\u00f3ximo ao imp\u00e9rio inca, muito antes de chegar (Francisco) Pizarro. Depois veio o (navegador espanhol Alvar Nu\u00f1ez) Cabeza de Vaca. Desembarca de navio na \u00e1rea que hoje \u00e9 Florian\u00f3polis e vai a p\u00e9 at\u00e9 Asunci\u00f3n, tamb\u00e9m pelo Peabiru. Um mercen\u00e1rio alem\u00e3o, Ulrich Schmidl, fez o caminho ao contr\u00e1rio: saiu de Asunci\u00f3n e foi at\u00e9 S\u00e3o Vicente. Aleixo Garcia demorou uns seis meses andando para chegar l\u00e1. Em determinados lugares existem gravuras rupestres que marcam o caminho. Eram as placas de tr\u00e2nsito da \u00e9poca, os lugares mais prop\u00edcios para parar, em per\u00edodos de grandes chuvas n\u00e3o se podia seguir. Chmyz diz que o caminho \u00e9 realmente quase pr\u00e9-hist\u00f3rico.<\/p>\n<blockquote><p>A hist\u00f3ria do Peabiru \u00e9 t\u00e3o fascinante que as pessoas viram &#8216;peabirutas&#8217;<\/p><\/blockquote>\n<p>Eu estava na ilha de Campeche, local do pa\u00eds com mais gravuras rupestres e indecifr\u00e1veis at\u00e9 hoje, a maior parte delas voltadas para o mar, e o guia daquele lugar, disse: \u00b4A universidade veio aqui, eu acompanhei, uma s\u00e9rie de caciques e eles olharam essas gravuras (e disseram), isso aqui \u00e9 tudo da nossa cultura, porque indica que passava esse caminho do Peabiru`. Nunca tinha ouvido falar desse caminho. E a pessoa a que mais agrade\u00e7o \u00e9 a jornalista que vive hoje em Florian\u00f3polis, Rosana Bond. Se n\u00e3o fosse ela, que j\u00e1 escreveu tr\u00eas livros sobre o Peabiru, eu n\u00e3o conseguiria fazer nada. Ela me deu muitas dicas e disse que a hist\u00f3ria do Peabiru \u00e9 t\u00e3o fascinante que as pessoas viram \u201cpeabirutas\u201d&#8230;<\/p>\n<p>BdF RS &#8211; J\u00e1 que falamos de \u201cpeabirutas\u201d, voc\u00ea me falou muito dos personagens que estava encontrando. Temos aqui personagens que est\u00e3o nos livros, est\u00e3o nos vest\u00edgios, e gentes que foi encontrando ao percorrer esses meandros. Fala de quem voc\u00ea encontrou nesse caminho.<\/p>\n<p>Cadr\u00e9 &#8211; Na verdade, esse livro conta a hist\u00f3ria das pessoas que, por alguma maneira, se relacionam com o caminho do Peabiru. Pessoas que pesquisaram, jornalistas como a Rosana Bond, o Paulo Markun que fez um livro sobre Cabeza de Vaca, o Eduardo Bueno que \u00e9 uma pessoa que \u00e9 fissurada na quest\u00e3o&#8230;Rosana foi a pessoa mais fant\u00e1stica pelo conhecimento que compartilha com todo mundo. J\u00e1 \u00e9 tipo totem sagrado aqui no Brasil sobre Peabiru. E tamb\u00e9m fui por outros caminhos.<\/p>\n<p>Arque\u00f3logos que fazem esse trabalho min\u00fasculo que quase n\u00e3o tem reconhecimento, mas v\u00e3o de s\u00edtio em s\u00edtio arqueol\u00f3gico para conseguir desvendar de uma forma t\u00e9cnica, digamos assim, como era a vida dessas pessoas. Conversei com o Pedro Ign\u00e1cio Schmitz, principal arque\u00f3logo aqui do Rio Grande do Sul, l\u00e1 do Instituto Anchietano, de S\u00e3o Leopoldo. Ele tem um conhecimento fant\u00e1stico. \u00c9 uma das pessoas que mais fez pesquisa arqueol\u00f3gica no Brasil.<\/p>\n<blockquote><p>Seria o caminho que espalhou as sementes do milho pela Am\u00e9rica do Sul<\/p><\/blockquote>\n<p>Tive a sorte de encontrar &#8211; e isso me abriu outra linha de investiga\u00e7\u00e3o &#8211; a Patr\u00edcia Bustamante, pesquisadora no Cenargem, o centro de pesquisas na \u00e1rea gen\u00e9tica da Embrapa. Pesquisando na internet, me cai um artigo da Patr\u00edcia, resultado da tese dela de doutorado, onde juntou esse poss\u00edvel trajeto do caminho do Peabiru com a dispers\u00e3o do milho no continente americano. Existe milho arqueol\u00f3gico. Quando fazem as escava\u00e7\u00f5es, eles encontram essas sementes que se preservam em determinados ambientes e que tem dois ou tr\u00eas mil anos. Fazendo a pesquisa pelo DNA dessas sementes, ela chegou a um mapa da dispers\u00e3o, foi pegando sementes de milho em diversos locais e a dispers\u00e3o tinha a ver com o caminho do Peabiru. Ela tamb\u00e9m me indicou outros colegas dela que trabalham com essa quest\u00e3o da dispers\u00e3o do milho e de outras esp\u00e9cies, como o amendoim. Tudo afunilou no uso do caminho para trocas entre as popula\u00e7\u00f5es das terras baixas e as andinas. Como tinha na alimenta\u00e7\u00e3o dos incas uma coisa como amendoim que s\u00f3 \u00e9 daqui? Como chegou l\u00e1? Eles comem amendoim, mas l\u00e1 n\u00e3o tem. Havia um fluxo.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o problema? Na nossa hist\u00f3ria tem aquela bula papal dizendo que aqui \u00e9 uma terra vazia, que n\u00e3o tinha ningu\u00e9m, para justificar tanto o genoc\u00eddio como a conquista e a explora\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o tem ningu\u00e9m posso pegar pra mim. Porque n\u00e3o falamos no caminho do Peabiru? Porque isso vai de encontro a essa vis\u00e3o m\u00edope da historiografia oficial, que conta a nossa hist\u00f3ria a partir da chegada de portugueses. O Eduardo Bueno conseguiu popularizar (a quest\u00e3o) um pouco com os livros dele. Nas civiliza\u00e7\u00f5es andinas, s\u00e3o muito mais arraigados a sua cultura, ent\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o l\u00e1 \u00e9 um pouco melhor&#8230;<\/p>\n<p>BdF RS &#8211; A gente conhece a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o inca muito mais pelo olhar dos espanh\u00f3is. Visitei v\u00e1rios lugares em Cusco, fui a Machu Picchu, e s\u00e3o muito incr\u00edveis as constru\u00e7\u00f5es, o sistema de irriga\u00e7\u00e3o, a agricultura, toda a produ\u00e7\u00e3o, e a quest\u00e3o espiritual tamb\u00e9m que eles tinham, de terem os espa\u00e7os pra espiritualidade, os sacerdotes, as sacerdotisas, de ter uma liga\u00e7\u00e3o muito profunda tamb\u00e9m com o espiritual&#8230;<\/p>\n<p>Cadr\u00e9 &#8211; \u00c9 bem forte esse car\u00e1ter da espiritualidade que envolve o caminho do Peabiru. Os Guarani ainda viviam o sagrado, n\u00e3o era algo separado da gente. Isso foi uma coisa que aconteceu durante a revolu\u00e7\u00e3o industrial na Europa, que separou o sagrado do cotidiano. Conversei com chefes espirituais guaranis. Para eles, caminhar \u00e9 um ato sagrado. O caminhar \u00e9 sagrado, porque \u00e9 caminhando que tu interages com todas as cria\u00e7\u00f5es dessas divindades. Eles tem um mito fundador que \u00e9 a busca por Ivimarei, que \u00e9 a terra sem males, e sa\u00edram l\u00e1 do meio do continente e vieram at\u00e9 o litoral do Brasil.<\/p>\n<p>H\u00e1 aldeias deles desde aqui no Rio Grande at\u00e9 o norte do Esp\u00edrito Santo. Ali \u00e9 Ivipor\u00e3, o local em que eles tem que ficar esperando para serem chamados e irem para a terra sem males. Irem ainda vivos. Eles conseguem passar pela morte para ir para Ivimarei, onde n\u00e3o h\u00e1 fome, doen\u00e7a e guerra e convivem com seus ancestrais. Seria algo em dire\u00e7\u00e3o ao mar. Isso explica um pouco essas gravuras rupestres l\u00e1 na ilha de Campeche. D\u00e1 um sentido se voc\u00ea pega a mitologia guarani.<\/p>\n<blockquote><p>Quem quer entender os Incas, tem que pensar em Roma que pegou tudo das outras civiliza\u00e7\u00f5es<\/p><\/blockquote>\n<p>Pelo outro lado, l\u00e1 no altiplano, tem aquelas popula\u00e7\u00f5es que come\u00e7aram as civiliza\u00e7\u00f5es muito antiga. Vem de cinco mil anos a cidade de Caral, das mais exploradas arqueologicamente, ou Trujillo, no norte do Peru, com os mochicas que tem coisas espantosas. Tem o mito de Naylamp. \u00c9 o her\u00f3i civilizador. Chegou de barco tocando as molus sagradas, que s\u00e3o aquelas conchas, e que trouxe a civiliza\u00e7\u00e3o para o norte do Peru.<\/p>\n<p>A cultura Mochica \u00e9 de antes de Cristo. Eles ergueram pir\u00e2mides gigantescas que ainda est\u00e3o l\u00e1. E tamb\u00e9m tinham isso dentro dos mitos de tra\u00e7ar um caminho. A principal divindade das religi\u00f5es incaicas \u00e9 Viracocha, que teria sa\u00eddo do lago Titicaca e mandado emiss\u00e1rios para as quatro dire\u00e7\u00f5es. Por isso que o imp\u00e9rio Inca, o Tawantinsuyu, \u00e9 o imp\u00e9rio das quatro dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Todo o sistema de cosmogonia incaica era extremamente elaborado. E eles tra\u00e7aram esses caminhos a partir de Cusco em todas as dire\u00e7\u00f5es. E uma das dire\u00e7\u00f5es era para c\u00e1.<\/p>\n<p>Dentro dessa hist\u00f3ria do caminho do Peabiru, tem o car\u00e1ter de ser uma rota sagrada. \u00c9 o caminho do sol. Se voc\u00ea olhar a Via L\u00e1ctea, \u00e9 aquela linha que a gal\u00e1xia faz, ent\u00e3o est\u00e1 ligado aos costumes e a todas as cren\u00e7as, porque tem o caminho do sol. Uma Opy sagrada, que \u00e9 a casa de reza do guarani, est\u00e1 sempre colocada com a porta para o Leste onde nasce o sol e as costas para o Oeste.<\/p>\n<blockquote><p>Tanto os guaranis quanto os incas cultivam uma forma de viver harm\u00f4nica que preserva o ambiente<\/p><\/blockquote>\n<p>Os Guarani tem esse car\u00e1ter de seguir o caminho do sol, assim como as civiliza\u00e7\u00f5es (mais antigas). N\u00e3o digo s\u00f3 os incas, porque muitos vieram antes dos incas. Os incas englobaram tudo porque foram conquistadores. \u00c9 semelhante \u00e0 Roma. Se voc\u00ea quer entender os incas, tem que pensar em Roma que pegou tudo que tinha das outras civiliza\u00e7\u00f5es. Os romanos beberam na civiliza\u00e7\u00e3o grega em termos de cultura. Os incas beberam junto aos chimus que viviam no Norte, que faziam um artesanato maravilhoso em ouro.<\/p>\n<p>BdF RS &#8211; Quando se fala \u201co imp\u00e9rio\u201d, a gente pensa em guerra. Mas nem toda a conquista inca foi atrav\u00e9s de guerras. Havia algo de colabora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, das civiliza\u00e7\u00f5es quererem estar integradas aos incas.<\/p>\n<p>Cadr\u00e9 &#8211; Eles usavam primeiro a diplomacia. Os emiss\u00e1rios iam at\u00e9 os chefes locais e diziam: \u00b4Se voc\u00eas querem fazer parte do imp\u00e9rio, s\u00f3 tem que aceitar a lei incaica e pagar os tributos e n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1ria a guerra`. E muitas na\u00e7\u00f5es simplesmente se incorporavam ao imp\u00e9rio inca. Porque os incas ofereciam uma infraestrutura que eles n\u00e3o tinham, tanto de forma administrativa, quanto de tecnologia, de medicina, quanto nas pr\u00f3prias estradas, os famosos chasques que eram o servi\u00e7o de correio. Era algo que eles tinham a oferecer. Muitas pessoas viviam ali e bem, quem se casava ganhava uma casa e uma \u00e1rea de terra para produzir, as Ayllus, que eram os regimes comunit\u00e1rios, que at\u00e9 hoje existem l\u00e1.<\/p>\n<p>O que acho fant\u00e1stico \u00e9 que tanto os guaranis quanto os incas cultivam uma forma de viver harm\u00f4nica que preserva o ambiente. Os guaranis dizem: `A gente est\u00e1 aqui h\u00e1 dois mil anos. O problema que a gente tem \u00e9 voc\u00eas que vieram pra c\u00e1`. S\u00f3 que s\u00e3o t\u00e3o s\u00e1bios que dizem: \u00b4A gente est\u00e1 aqui ainda porque espera conseguir ensinar a voc\u00eas, brancos, os giru\u00e1s que chegaram aqui, que est\u00e1 errado do jeito que voc\u00eas est\u00e3o fazendo. A gente est\u00e1 aqui pra mostrar pra voc\u00eas a maneira certa de viver aqui`. Eles tem o nosso resgate como uma miss\u00e3o. Acho isso lindo.<\/p>\n<p>BdF RS &#8211; A gente fala muito das veias da nossa Am\u00e9rica Latina, relembrando Galeano. Seria o Peabiru as art\u00e9rias de onde essas veias derivam?<\/p>\n<p>Cadr\u00e9 &#8211; \u00d3tima imagem. Fiz o meu caminho do Peabiru mental que foi seguindo as popula\u00e7\u00f5es guaranis da aldeia que tem aqui, o Portal do Mar, entre Rio Grande e Pelotas, e fui at\u00e9 a Pedra Grande, em S\u00e3o Pedro do Sul. \u00c9 um s\u00edtio arqueol\u00f3gico espetacular. Depois Caembor\u00e1, que fica ali na quarta col\u00f4nia de Santa Maria, tudo com gravuras rupestres. \u00c9 um caminho vindo dos guaranis.<\/p>\n<p>BdF RS &#8211; O que essa pesquisa, essa grande reportagem, influenciou na tua vida? Mudou alguma coisa?<\/p>\n<p>Cadr\u00e9 &#8211; Mudou tudo. Sou outra pessoa. N\u00e3o sei se para melhor ou para pior. Eu fiz o meu caminho do Peabiru porque estava olhando para mim mesmo, refletindo sobre as coisas que fiz durante toda a minha vida. Tem um lado muito afetivo, porque o meu pai \u00e9 de origem paraguaia, o seu Bernardino Dominguez. Ele me incutiu o desejo de conhecer o nosso continente, a nossa realidade.<\/p>\n<p>O mais interessante numa reportagem \u00e9 que tu mudas primeiro a ti mesmo, a primeira pessoa que recebe aquela influ\u00eancia. O bom da reportagem \u00e9 ver o que nunca tinhas visto e conhecer quem nunca se imaginou sequer que existisse. \u00c9 um aprendizado que se traduz depois nas realiza\u00e7\u00f5es, como agora da impress\u00e3o do livro. Eu dou uma disciplina tamb\u00e9m, desde que estou aqui na UFPel, que se chama Temas Latino-Americanos, onde abordo todas essas quest\u00f5es que falamos aqui, da nossa hist\u00f3ria, dos problemas de hoje e mostrando a raiz hist\u00f3rica desses temas. \u00c9 horr\u00edvel aquele sentimento de inferioridade que se tenta nos passar \u00b4N\u00f3s somos ruins porque n\u00f3s somos ruins`. N\u00e3o, n\u00f3s somos explorados e atacados h\u00e1 500 anos. \u00c9 o pensamento que tenho e me deu mais for\u00e7a de seguir nessa narrativa, nesse discurso na sala de aula.<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 bom saber de onde se veio para chegar onde se quer chegar e n\u00e3o onde outros querem que a gente fique<\/p><\/blockquote>\n<p>Tem uma parte do livro em que eu falo s\u00f3 sobre esses mitos e as modifica\u00e7\u00f5es dos mitos, dos afloramentos dos mitos que permanecem no imagin\u00e1rio das popula\u00e7\u00f5es ao redor do caminho. Assim como fui surpreendido l\u00e1 na ilha do Campeche, quando n\u00e3o sabia que isso existia, a maior parte das pessoas com que converso tamb\u00e9m n\u00e3o conhecem. Ent\u00e3o, fazer tudo isso j\u00e1 me mant\u00e9m firme a\u00ed na labuta de continuar expandindo essa percep\u00e7\u00e3o. Para que as pessoas valorizem a sua hist\u00f3ria. N\u00e3o uma hist\u00f3ria dos que vieram aqui usurpar a riqueza, o patrim\u00f4nio, a pr\u00f3pria vida, quantos n\u00e3o morreram pela gan\u00e2ncia desses outros. E isso ainda acontece na nossa luta pol\u00edtica de hoje em dia.<\/p>\n<p>\u00c9 bom a gente saber de onde veio para conseguir chegar onde a gente quer chegar e n\u00e3o onde outros querem que a gente fique, nessa eterna servid\u00e3o. S\u00f3 mudaram um pouco os nomes, os palavr\u00f3rios, as coisas, mas \u00e9 uma servid\u00e3o. A gente n\u00e3o conseguiu escapar das garras dessa servid\u00e3o. Acho que se se consegue, nesse caminho, despertar a necessidade das pessoas fazerem o seu caminho j\u00e1 est\u00e1 \u00f3timo, est\u00e1 maravilhoso.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Pesquisador desbrava o caminho milenar dos povos origin\u00e1rios | Geral &#8211; https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/05\/28\/pesquisador-desbrava-o-caminho-milenar-dos-povos-originarios-da-america-do-sul<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcos Antonio Corbari e Katia Marko &#8211; A rede de estradas dos incas, guaranis e outras etnias vira tema de livro do professor da UFPel Carlos Dominguez. Um not\u00e1vel sistema de estradas desenvolvido pelos povos amer\u00edndios h\u00e1 mil\u00eanios ainda \u00e9 desconhecido da imensa maioria dos brasileiros. \u00c9 conhecido como o \u201cCaminho de Peabiru\u201d. 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