{"id":19299,"date":"2023-05-30T12:55:54","date_gmt":"2023-05-30T15:55:54","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19299"},"modified":"2023-05-21T21:13:45","modified_gmt":"2023-05-22T00:13:45","slug":"metaverso-entre-a-possibilidade-de-uma-existencia-estendida-e-a-escravidao-algoritmica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/05\/30\/metaverso-entre-a-possibilidade-de-uma-existencia-estendida-e-a-escravidao-algoritmica-2\/","title":{"rendered":"Metaverso: entre a possibilidade de uma exist\u00eancia estendida e a escravid\u00e3o algor\u00edtmica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ricardo Machado &#8211; <\/strong>Rafael Zanatta traz a conceitua\u00e7\u00e3o do metaverso, novo horizonte da Internet, e fala das possibilidades e limites que esta nova tecnologia deve trazer para a conviv\u00eancia humana nos ambientes f\u00edsicos e digitais<\/p>\n<p>A palavra \u201c<strong>metaverso<\/strong>\u201d tem voltado ao vocabul\u00e1rio atual, sobretudo ap\u00f3s o salto na comunica\u00e7\u00e3o por videochamadas e do trabalho remoto em decorr\u00eancia da pandemia da Covid-19. \u201cO conceito de metaverso \u00e9 novo e pode ser definido como uma ideia de um universo digital compartilhado na nuvem, mesclando os elementos fisicamente presentes, por Realidade Aumentada, com espa\u00e7os virtuais. Trata-se de algo distinto da Realidade Aumentada, no sentido que opera em camadas incrementais ao mundo f\u00edsico\u201d, explica o professor e pesquisador\u00a0<strong>Rafael Zanatta<\/strong>\u00a0concedeu uma entrevista por e-mail \u00e0\u00a0<strong>Revista IHU On-Line<\/strong>. \u201cEla possui tr\u00eas caracter\u00edsticas fundamentais. Ela \u00e9 imersiva, colaborativa e interativa\u201d, complementa.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o pol\u00edtica de fundo, o que torna todas as coisas no metaverso um pouco mais complexas, \u00e9 uma certa agudiza\u00e7\u00e3o de nossa vulnerabilidade em ambientes digitais. \u201cSuponha que voc\u00ea entre em uma reuni\u00e3o simulada em um escrit\u00f3rio. No quadro, h\u00e1 tr\u00eas pinturas. Uma de Cildo Meirelles, uma de Tarsila do Amaral e uma de Jackson Pollock. O que seria poss\u00edvel dizer de uma pessoa que ignora Meirelles e Pollock e presta aten\u00e7\u00e3o em Tarsila, por alguns segundos antes da reuni\u00e3o come\u00e7ar? No metaverso, em tese, todas essas intera\u00e7\u00f5es podem ser registradas, rotuladas, catalogadas, identificadas a certas prefer\u00eancias e proxies sobre desejos e comportamentos. Na pr\u00f3xima vez que voc\u00ea usasse um aplicativo de redes sociais, poderiam aparecer an\u00fancios sobre objetos de decora\u00e7\u00e3o, com pre\u00e7os levemente maiores (e personalizados), a partir daquele input, explorando um desejo de forma sutil, induzindo um processo de compra\u201d, problematiza o entrevistado.<\/p>\n<p>Como se todas essas transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o fossem suficientemente radicais, h\u00e1 ainda o desafio de pensar todas essas quest\u00f5es em um contexto global de profunda desigualdade. \u201cO que precisamos desmascarar \u00e9 essa falsa ideia de que existe uma \u2018economia imaterial\u2019 descolada da materialidade, como se toda a sociedade global pudesse se beneficiar de \u2018trabalhos criativos e inteligentes\u2019 e uma prosperidade abundante a todos. Essa \u00e9 apenas uma das dimens\u00f5es de desigualdades que essa discuss\u00e3o provoca\u201d, postula.<\/p>\n<p><strong>Rafael Zanatta<\/strong>\u00a0\u00e9 diretor da Associa\u00e7\u00e3o Data Privacy Brasil de Pesquisa. \u00c9 mestre pela Faculdade de Direito da USP e doutorando pelo Instituto de Energia e Ambiente da USP. Al\u00e9m disso tamb\u00e9m realizou mestrado em direito e economia pela Universidade de Turim e Alumni do Privacy Law and Policy Course da Universidade de Amsterdam. Research Fellow da The New School (EUA). Membro da Rede Latino-Americana de Vigil\u00e2ncia, Tecnologia e Sociedade &#8211; Lavits. Membro do Instituto Brasileiro de Responsabilidade Civil &#8211; Iberc.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU \u2013 O que \u00e9 metaverso? H\u00e1 no campo jur\u00eddico h\u00e1 alguma discuss\u00e3o relativa ao metaverso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rafael Zanatta \u2013<\/strong>\u00a0O conceito de metaverso \u00e9 novo e pode ser definido como uma ideia de um universo digital compartilhado na nuvem, mesclando os elementos fisicamente presentes, por Realidade Aumentada, com espa\u00e7os virtuais. Trata-se de algo distinto da Realidade Aumentada, no sentido que opera em camadas incrementais ao mundo f\u00edsico.<\/p>\n<p>O projeto History of Computing define o metaverso como &#8220;a cole\u00e7\u00e3o de todos os mundos conectados pelo espa\u00e7o f\u00edsico&#8221;, como uma cole\u00e7\u00e3o dos mundos virtuais e camadas de Realidade Aumentada. Ela possui tr\u00eas caracter\u00edsticas fundamentais. Ela \u00e9 imersiva, colaborativa e interativa.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 defini\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas sobre o metaverso, pois, no momento, ele \u00e9 uma vers\u00e3o conceitual do futuro da Internet, contendo a conex\u00e3o e interliga\u00e7\u00e3o entre mundos 2D, 3D e de Realidade Aumentada, apresentadas de forma persistente e compartilhada. Seria muito cedo para uma defini\u00e7\u00e3o conceitual. N\u00f3s n\u00e3o conseguimos nem mesmo chegar a um acordo sobre o conceito jur\u00eddico de tecnologias automatizadas de reconhecimento facial, mesmo ap\u00f3s anos de discuss\u00f5es e tens\u00f5es sociais em torno da utiliza\u00e7\u00e3o dessas tecnologias.<\/p>\n<p>Pode ser mais pr\u00e1tico entender o metaverso por suas consequ\u00eancias. De acordo com essa vis\u00e3o conceitual, uma pessoa seria capaz de manipular objetos virtuais utilizando dispositivos de rastreamento de movimentos, como pulseiras inteligentes. Por meio desses dispositivos, seria poss\u00edvel, por exemplo, participar de uma reuni\u00e3o por meio de seu avatar, interagindo em uma realidade simulada, como uma sala de reuni\u00e3o, com a presen\u00e7a de colaboradores, que estariam, por sua vez, conectados em suas pr\u00f3prias casas, sem a presen\u00e7a f\u00edsica. Evidentemente que a pandemia da Covid-19 aqueceu fortemente esse tipo de proposta conceitual, especialmente pelas possibilidades de solu\u00e7\u00f5es ao trabalho virtual e a colabora\u00e7\u00e3o entre times para al\u00e9m de uma experi\u00eancia de aplicativos como Zoom.<\/p>\n<p><strong>Computa\u00e7\u00e3o ub\u00edqua<\/strong><\/p>\n<p>Em termos de ambi\u00e7\u00e3o, ela relembra o ide\u00e1rio de computa\u00e7\u00e3o ub\u00edquia e Ambiente Inteligente anunciado em 1991 por engenheiros, em Palo Alto (EUA), que ambicionavam uma dissemina\u00e7\u00e3o completa dos computadores no ambiente, tornando-os impercept\u00edveis, interligados uns aos outros, permitindo um grande fluxo de informa\u00e7\u00e3o. Trinta anos atr\u00e1s, acreditava-se que estar\u00edamos t\u00e3o cercados de microcomputadores (uns ligados aos outros e conectados \u00e0 Internet) que nem perceber\u00edamos a presen\u00e7a da computa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Evidentemente que esse ide\u00e1rio n\u00e3o se concretizou, como bem lembra a fil\u00f3sofa Mireille Hildebrandt , mas as preocupa\u00e7\u00f5es sobre os impactos do Ambiente Inteligente permanecem. Ainda n\u00e3o temos centenas de computadores em nossas casas, acopladas em nossas mesas, l\u00e2mpadas, portas, geladeiras e m\u00e1quinas de caf\u00e9. De fato, nem \u00e9 certo que teremos energia el\u00e9trica sustent\u00e1vel para manuten\u00e7\u00e3o dessa computa\u00e7\u00e3o. Ainda enfrentamos problemas estruturais brutais de pessoas marginalizadas, sem acesso a computadores ou mesmo casas com saneamento b\u00e1sico. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para o Congresso de qualquer Rep\u00fablica discutir metaverso quando h\u00e1 problemas de desigualdade e viola\u00e7\u00e3o de direitos fundamentais no n\u00edvel mais b\u00e1sico.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, portanto, compreender a l\u00f3gica corporativa que anuncia o metaverso como futuro da Internet justamente para poder constitu\u00ed-lo enquanto projeto empresarial, explorando fronteiras ainda mais novas do capitalismo cognitivo e imaterial. O mesmo tipo de ceticismo e olhar cr\u00edtico pode ser aplicado ao metaverso. Trata-se de uma vis\u00e3o conceitual sobre uma possibilidade sociot\u00e9cnica. Por tal motivo, deve ser visto tamb\u00e9m pelas lentes das l\u00f3gicas discursivas que tentam apresentar construir novos mercados, na medida em que introduzem novos projetos sobre tecnologia e sociedade. H\u00e1 livros importantes sobre essa rela\u00e7\u00e3o, como as obras cr\u00edticas como Smart Cities. Relembro, em especial, o livro A Cidade Inteligente (S\u00e3o Paulo: Editora Ubu, 2019) de Evgeny Morozov e Francesca Bria , publicado pela editora Ubu, que faz justamente essa cr\u00edtica ao modo como existe uma economia pol\u00edtica, fortemente corporativa, na introdu\u00e7\u00e3o do conceito de Smart Cities.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Facebook e Microsoft veem o investimento em tecnologias voltadas ao metaverso como a futura \u201cgalinha dos ovos de ouro\u201d. Trata-se de uma nova investida do capitalismo de vigil\u00e2ncia para ganhar mais dinheiro ou da possibilidade de ampliar a liberdade humana no contexto digital?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rafael Zanatta \u2013<\/strong>\u00a0Essa \u00e9 uma quest\u00e3o complexa, pois envolve, tamb\u00e9m, a l\u00f3gica de reconstru\u00e7\u00e3o permanente da economia imaterial e do capitalismo cognitivo, que buscam explorar aspectos ligados \u00e0 subjetividade, como emo\u00e7\u00f5es, vontades, desejos e afetividades. Isso foi muito bem notado por Andr\u00e9 Gorz , no livro O Imaterial (S\u00e3o Paulo: Anablume, 2021), que observou n\u00e3o apenas uma guinada do capital imaterial como um meio de produzir consumidores (produzindo desejos, vontades de imagens de si e dos estilos de vida, pessoas que s\u00e3o &#8220;incans\u00e1veis m\u00e1quinas de felicidade&#8221;) mas tamb\u00e9m a introdu\u00e7\u00e3o de uma socializa\u00e7\u00e3o anti-social, apelando \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o e ao desejo de cada um, e n\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>O capitalismo imaterial opera no talhamento de consumidores que s\u00e3o individuais por defini\u00e7\u00e3o. Como dizia Gorz, eles s\u00e3o o &#8220;ant\u00eddoto \u00e0 express\u00e3o coletiva de necessidades coletivas&#8221; e &#8220;\u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o com o bem comum&#8221;. Gorz escreveu isso em 2005, antes da explos\u00e3o do Twitter, YouTube, Instagram e TikTok, aplica\u00e7\u00f5es que levaram a l\u00f3gica do indiv\u00edduo narc\u00edsico a um novo patamar (algo tamb\u00e9m observado por Byung Chul Han de forma magistral nos \u00faltimos anos).<\/p>\n<p>Gorz havia percebido como o capitalismo cognitivo promete a cada um escapar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o comum tornando-o um &#8220;feliz privilegiado&#8221; que p\u00f4de oferecer a si mesmo algo melhor, mais raro, distinto, \u00fanico. Essa \u00e9 uma das caracter\u00edsticas do capitalismo imaterial, que assume fei\u00e7\u00f5es muito distintas do fordismo. Isso tamb\u00e9m foi percebido por Adam Curtis , em document\u00e1rio The Century of The Self, produzido h\u00e1 vinte anos, que destacava a manipula\u00e7\u00e3o do consumidor por t\u00e9cnicas de marketing e produ\u00e7\u00e3o de subjetividade. N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que a ind\u00fastria da publicidade encontra-se acoplada com a economia das aplica\u00e7\u00f5es de Internet. A retroalimenta\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o de subjetividade, economiciza\u00e7\u00e3o da vida, coleta de dados (que permitem inferir estados emocionais) e manipula\u00e7\u00e3o do inconsciente para engajamento e consumo \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>O que Shoshana Zuboff faz, com a introdu\u00e7\u00e3o do conceito de &#8220;capitalismo de vigil\u00e2ncia&#8221;, \u00e9 buscar sentido nessa l\u00f3gica econ\u00f4mica que se volta ao futuro, \u00e0 possibilidade de behavioral surplus, \u00e0 efici\u00eancia da probabilidade skinneriana de indu\u00e7\u00e3o de um comportamento por est\u00edmulos e feedbacks. N\u00e3o \u00e9 uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica sobre modos de vigil\u00e2ncia, \u00e9 um estudo de economia pol\u00edtica com a introdu\u00e7\u00e3o de artefatos conceituais que nos permitam compreender melhor o que se passa. E n\u00e3o somente ela. O trabalho de Morozov sobre extrativismo digital, capitalismo dadoc\u00eantrico e modula\u00e7\u00e3o comportamental tem preocupa\u00e7\u00f5es semelhantes, bem como as an\u00e1lises do fil\u00f3sofo estadunidense Jaron Lanier e sua &#8220;teoria BUMMER&#8221; (&#8220;Behaviours of Users Modified, and Made into an Empire for Rent&#8221;).<\/p>\n<p>O problema \u00e9 o modo silencioso e a explora\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade humana em sentido psicol\u00f3gico em sistemas de computa\u00e7\u00e3o em nuvem acoplados com camadas de Realidade Aumentada e dispositivos de interatividade. Suponha que voc\u00ea entre em uma reuni\u00e3o simulada em um escrit\u00f3rio. No quadro, h\u00e1 tr\u00eas pinturas. Uma de Cildo Meirelles , uma de Tarsila do Amaral e uma de Jackson Pollock . O que seria poss\u00edvel dizer de uma pessoa que ignora Meirelles e Pollock e presta aten\u00e7\u00e3o em Tarsila, por alguns segundos antes da reuni\u00e3o come\u00e7ar? No metaverso, em tese, todas essas intera\u00e7\u00f5es podem ser registradas, rotuladas, catalogadas, identificadas a certas prefer\u00eancias e proxies sobre desejos e comportamentos. Na pr\u00f3xima vez que voc\u00ea usasse um aplicativo de redes sociais, poderiam aparecer an\u00fancios sobre objetos de decora\u00e7\u00e3o, com pre\u00e7os levemente maiores (e personalizados), a partir daquele input, explorando um desejo de forma sutil, induzindo um processo de compra. Um outro exemplo ilustrativo. Suponha que, durante a reuni\u00e3o operacionalizada no metaverso, aparecesse diferentes pessoas andando de bicicleta na janela, em um momento de concentra\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o. O sistema \u00e9 projetado para testar diferentes corpos humanos, pedalando em diferentes modelos de bicicleta. Para qual voc\u00ea olharia e desviaria sua aten\u00e7\u00e3o? O que seria poss\u00edvel inferir sobre algo que desloca sua aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Por ser um sistema bastante sofisticado de imers\u00e3o, interatividade e colabora\u00e7\u00e3o, as possibilidades de infer\u00eancias s\u00e3o muitas. As t\u00e9cnicas de perfiliza\u00e7\u00e3o de plataformas como Instagram talvez parecer\u00e3o arcaicas e rudimentares perto das possibilidades de trabalho virtual em projetos conceituais de metaverso. Seria poss\u00edvel identificar rea\u00e7\u00f5es a m\u00fasicas ambientes, est\u00edmulos visuais (e mensura\u00e7\u00f5es por tempo de eyeball), transformando a viv\u00eancia em laborat\u00f3rio permanente de mensura\u00e7\u00e3o. Para mercados centrados em perfiliza\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o de subjetividades e governan\u00e7a algor\u00edtmica, trata-se de um prato cheio. O ensaio recente de Ronaldo Lemos na Ilustr\u00edssima da Folha de S\u00e3o Paulo sobre &#8220;A Grande Ruptura&#8221; explora muito bem como a fronteira do capitalismo contempor\u00e2neo est\u00e1 no interesse em impactar a experi\u00eancia emocional dos usu\u00e1rios (que ele chamou de usuados) e na percep\u00e7\u00e3o de realidade.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 At\u00e9 que ponto leis brasileiras como o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados, entre outras, est\u00e3o atentas a estas futuras mudan\u00e7as que podem ocorrer?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rafael Zanatta \u2013<\/strong>\u00a0Precisamos discutir elementos mais centrais de desigualdades, vulnerabilidades, assimetrias de poderes e discrimina\u00e7\u00e3o abusiva. Esses s\u00e3o elementos que est\u00e3o sim presentes, de forma principiol\u00f3gica, no Marco Civil da Internet e na Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados Pessoais. Mas, evidentemente, oferecem uma resposta muito limitada para identificarmos a natureza do problema e o que pode ser feito a respeito, em n\u00edvel coletivo.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es s\u00e3o muito mais importantes e grandiosas do que meras tecnicidades de regula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e direitos digitais. A problem\u00e1tica demanda a presen\u00e7a constante de fil\u00f3sofos(as) nos debates, de engenheiros fil\u00f3sofos e de intersec\u00e7\u00f5es entre psicologia, sociologia e antropologia. Abre-se, tamb\u00e9m, uma discuss\u00e3o sobre como podemos ser &#8220;re-engenheirados&#8221; (como dizem os fil\u00f3sofos Evan Selinger e Brett Frischmann no importante livro Re-Engineering Humanity [Cambridge: Cambridge University Press, 2018]), em detrimento dos valores b\u00e1sicos de ag\u00eancia, autonomia e liberdade. Seria absurdo limitar a grandeza dessas discuss\u00f5es ao campo jur\u00eddico no sentido de aplica\u00e7\u00e3o correta das leis existentes. Woodrow Hartzog e Neil Richards colocam essa quest\u00e3o com muita clareza. A prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais possui uma natureza procedimental que tende a legitimar os processos de tratamento de dados. \u00c9 preciso retomar uma discuss\u00e3o sobre o &#8220;momento constitucional da privacidade&#8221; no sentido de centralidade da dimens\u00e3o de poder e dos direitos civis na era digital.<\/p>\n<p>Evidentemente que h\u00e1 contramovimentos jur\u00eddicos importantes a serem feitos &#8212; fil\u00f3sofas como Julie Cohen e Mireille Hildebrandt problematizam uma agenda mais abrangentes de legal protection by design e delimita\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura para constru\u00e7\u00e3o da personalidade em constantes fluxos de recomposi\u00e7\u00e3o e renegocia\u00e7\u00e3o mediadas pela tecnologia e pelo social, sem sermos estigmatizados pela proje\u00e7\u00e3o do que somos &#8211;, mas o ponto \u00e9 que as discuss\u00f5es v\u00e3o muito al\u00e9m de prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais. Em um ensaio escrito com Davi Te\u00f3filo e Pedro Martins , chamamos esse processo expansivo de constitucionaliza\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o de dados no sentido de uma conex\u00e3o mais intr\u00ednseca com a gram\u00e1tica dos direitos fundamentais e os valores de nossa comunidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos e seus desdobramentos, tais como o metaverso, mas n\u00e3o somente, acentuam ainda mais a desigualdade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rafael Zanatta \u2013<\/strong>\u00a0H\u00e1 uma s\u00e9rie de pensadores do Sul Global, como Jack Qiu e Rafael Grohmann , explorando a dimens\u00e3o do trabalho nas economias imateriais, especialmente na dimens\u00e3o de classes de um novo tipo de trabalhadores(as) das ind\u00fastrias de I.A., que podem variar de trabalhadores(as) inseridos na dimens\u00e3o do extrativismo material que d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o a essas tecnologias (e.g. trabalhadores de campos de min\u00e9rio e nas corpora\u00e7\u00f5es extrativistas que oferecem as mat\u00e9rias primas dos aparatos e dispositivos tecnol\u00f3gicos, como ocorre na Bol\u00edvia e muitos pa\u00edses latino-americanos) quanto trabalhadores de trabalhos manuais de assist\u00eancia a sistemas computadorizados.<\/p>\n<p>Com a sociedade em rede e o capitalismo imaterial, se articulam rela\u00e7\u00f5es de classe espec\u00edficas que acentuam processos de desigualdades constitu\u00eddos historicamente. Na Intelig\u00eancia Artificial do Sul Global, isso se revela por trabalhadores que d\u00e3o suporte \u00e0 infraestrutura fabril que permite a exist\u00eancia de algo como a Siri, da Apple, que depende de um conjunto de rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e de trabalho em f\u00e1bricas como da Foxconn. Al\u00e9m disso, como mostra a pesquisa de Jack Qiu, a China \u00e9 uma f\u00e1brica global tamb\u00e9m pelo trabalho intensivo de tagueamento e classifica\u00e7\u00e3o de imagens para machine learning, alimenta\u00e7\u00e3o de bancos de dados e &#8220;trabalhos semi-escravos&#8221;, por assim dizer, de trabalho n\u00e3o inteligente. S\u00e3o trabalhos prec\u00e1rios. Tagging labour, \u201ctrabalhos de clique\u201d e todos os tipos de trabalho que ocorrem para aprimoramento das t\u00e9cnicas de aprendizado de m\u00e1quinas e limpeza de bancos de dados. N\u00e3o h\u00e1 intelig\u00eancia artificial sem esse tipo de trabalho de clique, como argumenta tamb\u00e9m Antonio Casilli .<\/p>\n<p>Da perspectiva da dimens\u00e3o do trabalho, isso opera como um redimensionamento das rela\u00e7\u00f5es centro-periferia, por\u00e9m qualificado por essas &#8220;materialidades do trabalho digital&#8221;, utilizando aqui a express\u00e3o de Rafael Grohmann. O que precisamos desmascarar \u00e9 essa falsa ideia de que existe uma &#8220;economia imaterial&#8221; descolada da materialidade, como se toda a sociedade global pudesse se beneficiar de &#8220;trabalhos criativos e inteligentes&#8221; e uma prosperidade abundante a todos. Essa \u00e9 apenas uma das dimens\u00f5es de desigualdades que essa discuss\u00e3o provoca.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, in\u00fameras outras dimens\u00f5es de desigualdades, supress\u00e3o de diversidades e formata\u00e7\u00e3o de vis\u00f5es de mundo a um padr\u00e3o \u00fanico dominante, o que abre in\u00fameras discuss\u00f5es para minorias e justi\u00e7a social. Recentemente participei de um encontro com pesquisadores canadenses sobre Intelig\u00eancia Artificial e discutimos como seria poss\u00edvel justi\u00e7a social em c\u00f3digos, automa\u00e7\u00f5es e programa\u00e7\u00f5es que implantam uma l\u00f3gica Ocidental e uma gram\u00e1tica \u00fanica, tendente a conceitos un\u00edvocos para descri\u00e7\u00e3o das &#8220;coisas&#8221; em sociedades multiculturais e plurinacionais. Isso \u00e9 absolutamente problem\u00e1tico quando se pensa nas cosmovis\u00f5es ind\u00edgenas. Em Ideias para Adiar o Fim do Mundo (S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019), Ailton Krenak \u00e9 certeiro nesse ponto ao mostrar como que os Krenaks e os brancos pensam de forma distinta sobre o que \u00e9 uma montanha. Mas classificar a montanha de um modo, atribuir a ela um significado \u00fanico de &#8220;recurso natural&#8221; descolado do homem, j\u00e1 \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o de poder de uma sociedade espec\u00edfica, em detrimento a outros povos que pensam de forma distinta. Quando as tecnologias operam essas novas formas de intermedia\u00e7\u00e3o sobre a realidade, abre-se um conjunto de reflex\u00f5es importantes sobre essas rela\u00e7\u00f5es, que tamb\u00e9m est\u00e3o conectadas com desigualdades, apesar de pouco discutidas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Um argumento rasteiro, mas comum \u00e9 o de que se as pessoas est\u00e3o nas redes sociais n\u00e3o teriam porqu\u00ea exigirem o direito \u00e0 privacidade. Em que sentido isso \u00e9 uma fal\u00e1cia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rafael Zanatta \u2013<\/strong>\u00a0Um livro que se dedica a desmontar essa fal\u00e1cia \u00e9 Privacidade \u00e9 Poder (S\u00e3o Paulo: Contracorrente, 2021), da Carissa Veliz , traduzido no Brasil por Samuel Rodrigues (um autor importante no debate sobre reconhecimento facial no Brasil) e publicado pela editora Contraponto. Acredito que h\u00e1 in\u00fameras inconsist\u00eancias nessa argumenta\u00e7\u00e3o. A primeira \u00e9 que a utiliza\u00e7\u00e3o desses servi\u00e7os n\u00e3o \u00e9 mais luxo. \u00c9 uma necessidade imposta pelas condi\u00e7\u00f5es estruturais de sociabilidade e vida econ\u00f4mica. \u00c9 imposs\u00edvel para um &#8220;empreendedor de si mesmo&#8221;, como dizem os soci\u00f3logos, n\u00e3o utilizar Instagram, YouTube, Twitter, etc. Com a pandemia, a digitaliza\u00e7\u00e3o e a datifica\u00e7\u00e3o ocorreram \u00e0 f\u00f3rceps e s\u00e3o poucos os que podem se dar ao luxo &#8212; como faz o Yuval Harari &#8212; de n\u00e3o utilizar essas redes. N\u00e3o \u00e9 pequeno, tamb\u00e9m, o n\u00famero de escolas totalmente dependentes de aplica\u00e7\u00f5es de internet e redes sociais para operacionalizar dissemina\u00e7\u00e3o de conte\u00fado de natureza educacional. Nesse cen\u00e1rio, \u00e9 dif\u00edcil dizer se algu\u00e9m escolhe estar ou n\u00e3o estar.<\/p>\n<p>A segunda inconsist\u00eancia \u00e9 uma vis\u00e3o comodificada da privacidade e dos dados pessoais, como se fossem um bem que pudesse ser alienado, trocado, abdicado. H\u00e1 uma literatura enorme sobre limites morais dos mercados que apresenta uma argumenta\u00e7\u00e3o robusta sobre a inviabilidade social desse tipo de vis\u00e3o, em defesa de uma no\u00e7\u00e3o dignit\u00e1ria sobre direitos da personalidade (Margareth Radin , Marc Rotenberg e Stefano Rodot\u00e0 s\u00e3o apenas alguns exemplos). Nos EUA, esse debate sempre ressurge, d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada, desde as formula\u00e7\u00f5es economicistas sobre trade-off feitas por juristas de an\u00e1lise econ\u00f4mica do direito da d\u00e9cada de 1970, como Richard Posner . Mas mesmo intelectuais de peso da an\u00e1lise comportamental do direito, como Cass Sunstein , reconhecem que certos tipos de direitos n\u00e3o s\u00e3o cab\u00edveis em an\u00e1lise custo-benef\u00edcio e rela\u00e7\u00f5es de trade-off. Em Valuing Life (Chicago: University of Chicago Press, 2014), por exemplo, Sunstein apresenta esse argumento sobre a privacidade. \u00c9 um direito profundamente conectado a um conjunto de outros valores centrais da vida c\u00edvica e social. A privacidade possui um valor social e pol\u00edtico, sempre. A privacidade conecta-se \u00e0s estruturas sociais de uma sociedade e aos valores constitucionais. E por estar profundamente ligada \u00e0 autonomia e por fornecer condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas de desenvolvimento intelectual e c\u00edvico &#8212; como argumentou Alan Westin e argumenta hoje Julie Cohen &#8212; \u00e9 um direito de fei\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de dimens\u00e3o coletiva. Da\u00ed a import\u00e2ncia em refutar um atomismo metodol\u00f3gico e possessivo que ainda domina parte das an\u00e1lises intelectuais.<\/p>\n<p>No Brasil, nossa tradi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica \u00e9 muito bem constru\u00edda em torno das no\u00e7\u00f5es de direitos da personalidade. O direito do consumidor, que tamb\u00e9m foi uma profunda revolu\u00e7\u00e3o no pensamento liberal do s\u00e9culo XX, tamb\u00e9m trouxe \u00e0 tona a problem\u00e1tica da vulnerabilidade nas rela\u00e7\u00f5es de consumo, a din\u00e2mica desigual dos contratos de ades\u00e3o e o esfor\u00e7o social em reequilibrar pr\u00e1ticas abusivas em torno das no\u00e7\u00f5es de boa-f\u00e9 e transpar\u00eancia (gra\u00e7as ao trabalho de pessoas como Claudia Lima Marques , Antonio Herman Benjamin , Bruno Miragem e muitos outros). Esse argumento rasteiro n\u00e3o encontra terreno no Brasil. Nos mais importantes livros sobre o tema, desde Ren\u00e9 Ariel Dotti na d\u00e9cada de 1980 at\u00e9 Danilo Doneda e Laura Schertel Mendes nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, h\u00e1 uma concep\u00e7\u00e3o clara sobre a rela\u00e7\u00e3o entre direitos fundamentais e direito \u00e0 privacidade. Nos \u00faltimos anos, esse debate cresceu tanto a ponto de mobilizar o Supremo Tribunal Federal a realizar uma decis\u00e3o hist\u00f3rica sobre a prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais enquanto direito fundamental aut\u00f4nomo (o caso IBGE, de 2020). Essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante na medida em que a prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais se relaciona a princ\u00edpios de justi\u00e7a no fluxo dos dados, \u00e0 &#8220;integridade contextual&#8221; dos fluxos e um conjunto de obriga\u00e7\u00f5es, estatais e privadas, que minimizem os riscos gerados \u00e0s pessoas.<\/p>\n<p>Hoje est\u00e1 claro, e reconhecido pelo sistema de justi\u00e7a, que h\u00e1 uma dimens\u00e3o n\u00e3o-pre\u00e7o de troca no uso de redes sociais, operacionalizada pela cess\u00e3o dos dados pessoais (que s\u00e3o, em sua maioria, tomados do dispositivo e n\u00e3o simplesmente cedidos voluntariamente em fichas cadastrais). O fornecedor &#8212; seja qual for &#8212; possui deveres de boa-f\u00e9, n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o abusiva e cumprimento dos princ\u00edpios previstos na Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados Pessoais. Esse \u00e9 um grande avan\u00e7o civilizat\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como construir um ambiente digital, tal como o metaverso, que garanta a amplia\u00e7\u00e3o da cidadania e que n\u00e3o seja somente um espa\u00e7o da captura de dados para o capitalismo de vigil\u00e2ncia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rafael Zanatta \u2013<\/strong>\u00a0Essa \u00e9 uma das grandes quest\u00f5es pol\u00edticas do nosso tempo, como sustentava Stefano Rodot\u00e0, um grande humanista italiano. Como garantir redu\u00e7\u00e3o das assimetrias de poder, estimular a cidadania e tirar o melhor proveito poss\u00edvel das expans\u00f5es dos &#8220;laborat\u00f3rios eletr\u00f4nicos&#8221; da computa\u00e7\u00e3o? Essa \u00e9 uma pergunta cl\u00e1ssica, que nos acompanha desde a d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>H\u00e1 in\u00fameras alternativas na mesa, que passam por uma multiplicidade de a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, que se retroalimentam mutuamente: refor\u00e7o de gram\u00e1tica dos direitos fundamentais, esfor\u00e7o cient\u00edfico no estudo das discrimina\u00e7\u00f5es abusivas, transpar\u00eancia e accountability sobre processos de governan\u00e7a algor\u00edtmica, ado\u00e7\u00e3o de human rights due diligence por grandes corpora\u00e7\u00f5es, amplia\u00e7\u00e3o da contestabilidade moral de certos mercados pela amplia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o c\u00edvico e for\u00e7a da sociedade civil, ado\u00e7\u00e3o mandat\u00f3ria das avalia\u00e7\u00f5es de impacto \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais, inclus\u00e3o das vozes minorit\u00e1rias nos processos de controle social e defini\u00e7\u00e3o de danos causados por essas tecnologias, auditorias interdisciplinares movidas por componentes art\u00edsticos, amplia\u00e7\u00e3o de recursos para Autoridades Independentes de Prote\u00e7\u00e3o de Dados Pessoais, investimento em processos de escuta ativa da sociedade civil em prot\u00f3tipos pelas corpora\u00e7\u00f5es, incentivos premiais para projetos de interesse coletivo (e.g. museus interativos, projetos de conscientiza\u00e7\u00e3o ambiental, bibliotecas do bem comum), e muitas outras ideias.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 falta de ideias, que borbulham em centenas de entidades civis e centros de pesquisa. \u00c9 preciso, tamb\u00e9m, termos a consci\u00eancia de que vit\u00f3rias e conquistas institucionais n\u00e3o s\u00e3o permanentes e podem ser facilmente destru\u00eddas. Nossas constru\u00e7\u00f5es sobre direitos e sobre regula\u00e7\u00e3o s\u00e3o artefatos hist\u00f3ricos que precisam ser constantemente defendidos. Essa \u00e9 uma tarefa intergeracional permanente e incans\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Machado &#8211; Rafael Zanatta traz a conceitua\u00e7\u00e3o do metaverso, novo horizonte da Internet, e fala das possibilidades e limites que esta nova tecnologia deve trazer para a conviv\u00eancia humana nos ambientes f\u00edsicos e digitais A palavra \u201cmetaverso\u201d tem voltado ao vocabul\u00e1rio atual, sobretudo ap\u00f3s o salto na comunica\u00e7\u00e3o por videochamadas e do trabalho remoto 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