{"id":19285,"date":"2023-05-24T12:56:24","date_gmt":"2023-05-24T15:56:24","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=19285"},"modified":"2023-05-15T19:58:35","modified_gmt":"2023-05-15T22:58:35","slug":"o-brasil-de-cara-contra-o-muro-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2023\/05\/24\/o-brasil-de-cara-contra-o-muro-3\/","title":{"rendered":"O Brasil de cara contra o muro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Davi Carvalho &#8211; <\/strong>Em um dos momentos de crise mais complexos da sua hist\u00f3ria, o Brasil sofre com problemas que alimentam ainda mais o dif\u00edcil cen\u00e1rio j\u00e1 instalado. A falta de disposi\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo, a busca por culpados e a transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica em algo menor, supostamente sem import\u00e2ncia para a vida coletiva e individual, torna nebuloso ou invi\u00e1vel a possibilidade de um futuro esperan\u00e7oso para o pa\u00eds. Solu\u00e7\u00f5es simplistas e superficiais ganham notoriedade no debate nacional sobre a sociedade, a pol\u00edtica e a economia. Para entender como todos esses aspectos podem impactar e interferir na vida e na sa\u00fade das pessoas conversamos com Christian Ingo Lenz Dunker, professor titular de psican\u00e1lise e psicopatologia do departamento de Psicologia Cl\u00ednica da USP. Com tese sobre as patologias de linguagem ele aponta a revers\u00e3o de perspectiva de futuro como um dos principais problemas que trouxe o Brasil para o labirinto em que se encontra. \u201cEnquanto se tem um ideal, sabe-se para onde vai e como se enfrenta uma situa\u00e7\u00e3o. Mas quando se para de sonhar, em vez de o conflito nos orientar para a a\u00e7\u00e3o ele se manifesta em patologias sociais, intoler\u00e2ncia, desrespeito, crise da rela\u00e7\u00e3o entre poder e autoridade ou desestabiliza\u00e7\u00e3o de \u00a0refer\u00eancias simb\u00f3licas. Enfim, uma s\u00e9rie de coisas que temos visto acontecer de forma mais vis\u00edvel\u201d. Abaixo, confira a entrevista completa e ao final uma palestra de Dunker sobre o Brasil, no Caf\u00e9 Filos\u00f3fico.<\/p>\n<p><strong>Davi Carvalho: Existe uma defini\u00e7\u00e3o padr\u00e3o para o que se entende por sa\u00fade mental?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Christian Dunker<\/strong>: N\u00e3o trabalhamos com uma esp\u00e9cie de \u201cpadr\u00e3o ouro\u201d do que seria o perfil de normalidade. Ao contr\u00e1rio do que podemos pensar em rela\u00e7\u00e3o ao corpo humano, ao organismo, que tem uma rela\u00e7\u00e3o funcional entre os sistemas. A sa\u00fade mental se define muito mais pela capacidade de colocar-se em conflito, suportar seus pr\u00f3prios desvios, criar anomalias e conviver com o fato de que normalidade \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o de nossos desejo de adequa\u00e7\u00e3o e conformidade.<\/p>\n<p>Talvez, essa pergunta poderia ser substitu\u00edda por:\u00a0<em>o que \u00e9 uma vida bem vivida? Uma vida realizada em seus pr\u00f3prios termos?<\/em>\u00a0Para isso temos alguns crit\u00e9rios. Por exemplo, reconhecer e fazer reconhecer \u00a0seus desejos, a capacidade de criar \u00a0ideais e suportar suas desilus\u00f5es, a consequ\u00eancia delirante por tr\u00e1s de aspira\u00e7\u00f5es de independ\u00eancia e autonomia. Tudo isso forma os litorais da condi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica da experi\u00eancia humana. Reconhecer as condi\u00e7\u00f5es que permitem eleger fins que se deseja, tanto do ponto de vista da vida que foi individualizada quanto da hist\u00f3ria que tornou poss\u00edvel essa vida.<\/p>\n<p><strong>O cen\u00e1rio que o Brasil vive, de crises que se retroalimentam, que parece n\u00e3o apontar para um fim, torna as pessoas mais vulner\u00e1veis?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CD:<\/strong>\u00a0Sim! No fundo a vulnerabilidade \u00e9 uma palavra que modaliza uma atitude importante, que \u00e9 a capacidade de se deixar afetar e ser afetado. Nos \u00faltimos anos temos vivido um aumento de conflitos\u00a0 social, mas de certa forma ele ocorre pela maior visibilidade de contradi\u00e7\u00f5es antes silenciadas ou suprimidas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 porque temos conflitos que sofremos. \u00a0H\u00e1 conflitos que t\u00eam uma din\u00e2mica produtiva, por exemplo, os que envolvem mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o de classe, seja pela ascens\u00e3o, seja pelo medo de queda, a possibilidade de que as rela\u00e7\u00f5es se alterem \u00e9 extremamente produtiva, mesmo que dolorosa. Conflitos que atravessam a cria\u00e7\u00e3o de filhos s\u00e3o outro exemplo de como a arte pol\u00edtica nos \u00e9 exigida no cotidiano: uma educa\u00e7\u00e3o monotem\u00e1tica, unidimensional e baseada em valores certos e indiscutidos, ou seja, sem conflito, \u00e9 uma educa\u00e7\u00e3o em geral ruim ou muito empobrecedora. \u00a0A conquista cognitiva \u00e9 outro exemplo, o desafio do conhecimento envolve a constru\u00e7\u00e3o de conflitos produtivos, ela n\u00e3o acontece em meio ao conforto e a seguran\u00e7a.\u00a0 Nem por isso somos dominados pelo sofrimento que eles imp\u00f5em. Qual a diferen\u00e7a ent\u00e3o? \u00a0Temos uma esp\u00e9cie de arco de destino que sanciona ou rejeita certas gram\u00e1ticas de conflito, que valoriza ou desacredita outras gram\u00e1ticas. Ou seja, o que determina a val\u00eancia pol\u00edtica do sofrimento \u00e9 o saber sobre o conflito, \u00e9 a nossa teoria da transforma\u00e7\u00e3o que, por exemplo, l\u00ea o sofrimento como sacrif\u00edcio justo, como caminho para a reden\u00e7\u00e3o ou como iniquidade intoler\u00e1vel. A partir desta gram\u00e1tica de reconhecimento podemos acreditar ou nos demitir dos meios para enfrent\u00e1-los. Quando a maioria dos eleitores vota nulo, branco ou se abst\u00e9m, isso significa que nossa teoria da transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o reconhece mais o sistema partid\u00e1rio, representativo tal qual ele se apresenta, como meio leg\u00edtimo para lidar com sofrimento que nos toma e\u00a0 com os conflitos que o subjazem.<\/p>\n<p><strong>O que seria essa teoria?<\/strong><\/p>\n<p>Tivemos uma mudan\u00e7a social significativa, de pessoas que sa\u00edram da condi\u00e7\u00e3o de miserabilidade e formaram uma nova classe trabalhadora ou nova classe m\u00e9dia. Junto com isso aumentou brutalmente o acesso \u00e0 vida digital e suas redes sociais, com seus blogs e com seus\u00a0<em>youtubers<\/em>, com seu jornalismo alternativo. Rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de ambigua\u00e7\u00e3o e exerc\u00edcio de poder, como a que se via com os empregados dom\u00e9sticos, com os g\u00eaneros e com a monocultura discursiva, se desequilibraram. A vida em forma de condom\u00ednio havia organizado nossos ideais, mas ela n\u00e3o servia mais como uma boa teoria da transforma\u00e7\u00e3o, baseada no medo e na inveja como afetos pol\u00edticos dominantes. O Brasil viu florescer um novo tipo de religiosidade, neopentecostal, com uma cren\u00e7a pr\u00e1tica no sucesso e um saber bem definido sobre as modalidades de ascens\u00e3o social, prosperidade e prest\u00edgio. A judicializa\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade, da Educa\u00e7\u00e3o e da pol\u00edtica abriram espa\u00e7o para um novo tipo de apropria\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da justi\u00e7a.\u00a0 Tudo isso acontecendo levanta o esp\u00edrito nacional das promessas e esperan\u00e7as. Em parte elas nos decepcionaram porque se cumpriram, mas em vez do para\u00edso elas s\u00f3 nos levaram \u00a0a descoberta de um universo completamente novo de problemas.<\/p>\n<p>O tamanho do mundo se expandiu. Ideal mais simples tornam-se insuficientes para lidar com este tipo de abertura, nossas teorias sobre a transforma\u00e7\u00e3o entraram em colapso. Quando isso acontece sa\u00edmos da l\u00f3gica na qual luto para fazer-me reconhecer pelo meu desejo, cuja lei se concentra neste saber sobre a transforma\u00e7\u00e3o e regredimos para a contagem dos amigos e inimigos, para a detec\u00e7\u00e3o de quem somos n\u00f3s\u201d e quem s\u00e3o \u201celes\u201d. \u00a0Quando nossos sonhos se esgotam, em vez de o conflito nos orientar para a a\u00e7\u00e3o, seja a\u00e7\u00e3o de transformar o mundo seja o esfor\u00e7o de transformar a n\u00f3s mesmos, isso se manifesta em patologias sociais, intoler\u00e2ncia, desrespeito, crise ou desestabiliza\u00e7\u00e3o das refer\u00eancias simb\u00f3lica de autoridade.<\/p>\n<p>Quando a rela\u00e7\u00e3o entre nosso sofrimento e nosso saber sobre ele se desfaz isso come\u00e7a a produzir sintomas, efeitos massivos, generalizados, capilarizados que t\u00eam toda chance de afetar sistemicamente nossas formas de vida, definidas por uma certa rela\u00e7\u00e3o entre desejo, linguagem e trabalho. Se o conflito n\u00e3o evolui produtivamente, come\u00e7a a gerar confronta\u00e7\u00f5es com o seu vizinho, com a sua sombra, com seus inimigos imagin\u00e1rios.A tens\u00e3o social que n\u00e3o gera transforma\u00e7\u00e3o, mas uma esp\u00e9cie de impasse, porque a minha teoria da transforma\u00e7\u00e3o implica que a do outro tem que ser eliminada. O problema passa a ter um diagn\u00f3stico simples demais, simples e malthusiano:\u00a0<em>tem gente demais no mundo<\/em>. Tem algu\u00e9m que est\u00e1 gozando um pouco mais que eu. A felicidade que me falta pode ser corrigida distribuindo infelicidade para os outros, negando-lhes reconhecimento, cidadania ou pertin\u00eancia simb\u00f3lica. S\u00e3o respostas muito simples, respostas que polarizam.<\/p>\n<p>Especificamente sobre o Brasil, paramos de sonhar\u00a0 com o futuro que quer\u00edamos para nossos filhos, especificamente com os massivo investimentos em Educa\u00e7\u00e3o que seriam necess\u00e1rios para isso. Paramos de nos preocupar com o desenvolvimento da empresa e come\u00e7amos a pensar apenas no pr\u00f3ximo\u00a0<em>quarter<\/em>, em produzir um bonito balan\u00e7o para os acionistas. Paramos de nos preocupar com a ci\u00eancia e nos dedicamos a produzir\u00a0<em>papers<\/em>\u00a0que ningu\u00e9m l\u00ea para fazer pontos no curr\u00edculo Lattes. Paramos de nos preocupar com o sistema pol\u00edtico e nos importamos apenas com quem vai ganhar as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. Tudo isso \u00e9 simplesmente corrup\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o branca de nosso compromisso com o desejo. Paramos realmente de nos engajar no futuro com o qual queremos nos fidelizar e a discuss\u00e3o passou a ser quem \u00e9 quem. Ricos e pobres, negros e brancos, mulheres e homens, Direita e Esquerda. Primeiro vamos saber quem voc\u00ea \u00e9, depois pensamos se d\u00e1 para fazer algo juntos, finalmente depois disso podemos pensar em escutar o que voc\u00ea diz. Aqui a palavra \u00e9 decisiva para inverter esta crise identitarista que tomou conta do pa\u00eds. Primeiro vem a palavra, depois veremos quem voc\u00ea \u00e9. O sofrimento identit\u00e1rio \u00e9 uma armadilha, pois se h\u00e1 identidades que s\u00e3o sistematicamente silenciadas, tornadas invis\u00edveis e tratadas como zumbis, tamb\u00e9m \u00e9 preciso lembrar que quando deposito a causa do meu sofrimento em quem eu sou e n\u00e3o consigo transformar quem eu sou, a transforma\u00e7\u00e3o poss\u00edvel vai ser no choque com o outro, pelo \u00f3dio ao outro, pela identidade do outro. \u00c9 sempre muito mais f\u00e1cil suturar sua crise de identidade refor\u00e7ando a identidade mal\u00e9fica do outro.<\/p>\n<p><strong>A\u00ed se cruzam pol\u00edtica, economia, sociedade, indiv\u00edduos \u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>CD:\u00a0<\/strong>H\u00e1 poucos anos tinha-se um arco de futuro, uma expectativa ou esperan\u00e7a. \u00a0Uma hora voc\u00ea bate a cara contra o muro. Conforme voc\u00ea se aproxima desse muro ele se projeta para um novo horizonte, se isso n\u00e3o acontece ocorre essa muta\u00e7\u00e3o do saber que organiza nossa rela\u00e7\u00e3o com o sofrimento. Ora, se n\u00e3o tem futuro, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 que o passado n\u00e3o importa, mas voc\u00ea destr\u00f3i o verdadeiro presente. De certa maneira, isso tamb\u00e9m \u00e9 um processo global, \u00e9 um processo neoliberal.Viver sem pensar no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo. Reduzir o horizonte, aumentar o tamanho do eu e diminuir o tamanho do mundo. Isso est\u00e1 presente em processos como pol\u00edticas p\u00fablicas, que s\u00e3o projetos para se pensar 20, 30 anos. Em vez disso inventamos esta imbecilidade da PEC 241 e o congelamento preventivo do pior. A aceita\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o conseguimos conter nossa voracidade para devorar o futuro, nos faz assassin\u00e1-lo j\u00e1. \u00a0Ao fazer isso cria-se uma cadeia de consequ\u00eancias que gera pessoas com atitudes mais predat\u00f3rias, imediatistas, mais ego\u00edstas. N\u00e3o \u00e9 o triunfo do individualismo, como uma certa tradi\u00e7\u00e3o liberal quer nos fazer crer, mas o triunfo dos grupos organizados, com maior poder de press\u00e3o dentro do governo que poder\u00e3o \u201camassar\u201d os desperdi\u00e7adores de dinheiro p\u00fablico: Educa\u00e7\u00e3o, Cultura, Sa\u00fade, Direitos Humanos. \u00a0Tudo isso vai ser sentido como uma patologia do individualismo, a patologia pela qual eu s\u00f3 posso sofrer como um indiv\u00edduo, s\u00f3 posso sofrer na \u201cforma indiv\u00edduo\u201d. Se formos fazer valer Thomas Hobbes, e sua guerra de todos contra todos, eu vou me dar mal, se eu n\u00e3o for capaz de instrumentalizar a lei e o recurso que ela legitima, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de coibir a viol\u00eancia de quem transgride a lei, mas de praticar a viol\u00eancia em nome da lei. O que os estudantes das escolas ocupadas est\u00e3o enfrentando, e isso \u00e9 s\u00f3 o come\u00e7o da conversa, ou melhor da falta de conversa.<\/p>\n<p><strong>Mas para uma certa vis\u00e3o de mundo essa atitude \u00e9 funcional\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>CD:\u00a0<\/strong>Essa atitude que era a forma cl\u00e1ssica do liberalismo lidar com o sofrimento, ou seja proteger as rela\u00e7\u00f5es, as pessoas, os trabalhadores porque isso prejudica a produ\u00e7\u00e3o. E quando prejudica demais o Estado precisa intervir. H\u00e1 um certo limite pol\u00edtico de quanto sofrimento podemos aguentar. Esta pol\u00edtica vai sendo substitu\u00edda, como aconteceu no Brasil, de 2014 para c\u00e1, por uma concep\u00e7\u00e3o neoliberal que se especializa em instrumentalizar o sofrimento. Explorar pessoas com jornadas de trabalho al\u00e9m do exaustivo, medicalizar a inf\u00e2ncia, induzir sofrimento entre equipes para aumentar a competi\u00e7\u00e3o, instalar gestores interessados em extrair mais valor de mais sofrimento. E aquele sofrimento que n\u00e3o pode ser convertido em aumento de produtividade deve ser ignorado como desvio individual, como o \u201clobo solit\u00e1rio\u201d que se revolta contra o sistema e sai atirando em todo mundo como um terrorista, como o zumbi da cracol\u00e2ndia que ser\u00e1 legado \u00e1 sua pr\u00f3pria err\u00e2ncia. Ou seja, a gest\u00e3o do sofrimento passa a ser um cap\u00edtulo fundamental da maneira de entender e lidar com o novo mundo em forma de condom\u00ednio.<\/p>\n<p><strong>Isso tem a ver com o que chamamos popularmente de autoestima?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CD:\u00a0<\/strong>Eu diria que o conceito de autoestima \u00e9 muito ruim. Ele parece dizer alguma coisa imediata, descritiva e intuitiva, mas \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o problem\u00e1tica. Por exemplo, um indiv\u00edduo arrogante e que superestima, pode se sentir cronicamente com \u201cbaixa autoestima\u201d, porque n\u00e3o atinge seus ideais superinflacionados e na verdade sofre com um complexo de superioridade e n\u00e3o inferioridade. O Freud chamava de autoestima (<em>Selbstgef\u00fcllt<\/em>) seria melhor traduzido por sentimento de si, o que envolve nosso senso de familiaridade, temporalidade, nossa apropria\u00e7\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es de classe, ra\u00e7a, g\u00eanero.\u00a0<em>Autoestima<\/em>\u00a0sugere uma dimens\u00e3o de amor por si mesmo que n\u00e3o confere nem com o amor pr\u00f3prio (<em>amour prope<\/em>), nem com o amor de si (<em>amour sui<\/em>). A sede por \u201clikes\u201d, a obsess\u00e3o com a fama e o efeito celebridade decorre de uma ascen\u00e7\u00e3o do amor pr\u00f3prio com um rebaixamento do sentimento de si. Descobrimos assim que temos uma propriedade fundamental: n\u00f3s mesmos, nossa marca, nossa imagem, nosso personagem social. Como toda propriedade em um mercado de imagens seu valor depende da compara\u00e7\u00e3o com outras imagens do mesmo \u201csegmento\u201d.<\/p>\n<p>Mais uma vez \u00e9 preciso entender que o neoliberalismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um sistema econ\u00f4mico, mas uma forma de moralidade que tem como uma de suas principais caracter\u00edsticas a acelera\u00e7\u00e3o do tempo e da vida. O que voc\u00ea provoca em uma pessoa quando voc\u00ea diz que ela tem que viver, necessariamente, 10 anos em 2? Quando ela deve esperar ganhar seu primeiro milh\u00e3o aos 25 anos? Insatisfa\u00e7\u00e3o permanente. Isso \u00e9 que gera a sensa\u00e7\u00e3o de que seu sentimento de si \u00e9 baixo, ou seja, a suposi\u00e7\u00e3o que o amor pr\u00f3prio dos outros \u00e9 muito mais elevado.<\/p>\n<p><strong>Esse processo todo faz as pessoas perderem a capacidade de reconhecer seus sentimentos, emo\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CD:<\/strong>\u00a0Para entender isso \u00e9 preciso distinguir, no interior da dial\u00e9tica do reconhecimento, o que se reconhece (o si e o pr\u00f3prio), por quem se \u00e9 reconhecido (o outro e o Outro) e o ato real de reconhecimento. Nesta equa\u00e7\u00e3o a forma, o outro e o ato pelo qual somos reconhecido determina diretamente o potencial pat\u00f3geno em termos de sofrimento. Exemplo: caiu uma bomba. Estamos todos na mis\u00e9ria. Sofrimento real, sim, mas eventualmente n\u00e3o patol\u00f3gico, porque estamos todos juntos. Temos que aceitar a trag\u00e9dia que se abateu sobre n\u00f3s. Estamos diante de uma situa\u00e7\u00e3o que interpretamos como universaliz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ficamos sabendo que a bomba s\u00f3 afetou a zona leste da cidade, onde por acaso moramos. \u00c9 um problema. Alguns s\u00e3o reconhecidos de uma forma, outros se sentir\u00e3o neuroticamente culpados por sobreviver. Vamos dizer agora que a ONU designe equipes de resgate, mas que elas escolham salvar apenas os motoristas de taxi e os donos de supermercado. A mis\u00e9ria se transforma em revolta. Neste ponto surgem motivos teol\u00f3gicos que justificam que eles e n\u00e3o outros sejam salvos. Nosso pr\u00f3prio sofrimento \u00e9 transformado em reden\u00e7\u00e3o. \u00a0Veja como o teor de minha experi\u00eancia de sofrimento se altera em fun\u00e7\u00e3o da minha interpreta\u00e7\u00e3o da felicidade ou da infelicidade do outro, da justi\u00e7a ou da injusti\u00e7a, da autoridade que a nomeia, em fun\u00e7\u00e3o da narrativa que a explica.<\/p>\n<p><strong>E esse reconhecimento se d\u00e1 atrav\u00e9s do trabalho, do consumo, tudo que pode ser afetado em per\u00edodos de crise\u2026<\/strong><\/p>\n<p>CD: Um erro te\u00f3rico \u00e9 imaginar que se \u00e9 a favor ou contra o consumo. Se voc\u00ea pensar, o consumo \u00e9 uma inst\u00e2ncia extremamente democr\u00e1tica. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o de inclus\u00e3o. A possibilidade de voc\u00ea entrar em um loja e poder comprar algum produto e ser aceito naquele lugar, em termos de reconhecimento, \u00e9 um avan\u00e7o brutal. Ou seja, o consumo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma inst\u00e2ncia de exclus\u00e3o, que produz sonhos irrealiz\u00e1veis e insatisfa\u00e7\u00e3o infinita, mas de inclus\u00e3o tamb\u00e9m. O verdadeiro problema \u00e9 saber que tipo de gram\u00e1tica de reconhecimento vai aparelhar as rela\u00e7\u00f5es de consumo. Por exemplo, o Brasil da minha gera\u00e7\u00e3o, era conhecido como um lugar de consumo consp\u00edcuo onde o valor gozoso de um objeto est\u00e1 no fato de que eu posso humilhar o outro causando-lhe inveja. Ele \u00e9 propositalmente exagerado para que eu possa me exibir e gozar de que o outro n\u00e3o tem o carro, a escola, a roupa que eu tenho, e voc\u00ea n\u00e3o. Se voc\u00ea come\u00e7a estimular uma gram\u00e1tica de reconhecimento nesses termos, atravessando o consumo, isso vai terminar em viol\u00eancia. \u00d3bvio, o problema ocorre porque est\u00e1 se fazendo algo para ele acontecer. Voc\u00ea destila inveja, junta com \u00f3dio e termina em viol\u00eancia. A Esquerda n\u00e3o conseguiu se conciliar com o tema do consumo. Sua vers\u00e3o de interesse p\u00fablico associou-se demasiadamente com o interesse Estatal. Isso bloqueou seu di\u00e1logo com as teologias da prosperidade, com a colabora\u00e7\u00e3o da sociedade civil, com os movimentos sociais, com os coletivos de cultura, com as universidades. Cultivou-se uma esp\u00e9cie de horror ao dinheiro privado, como se todo ele fosse obviamente demon\u00edaco. Por outro lado, incentivou-se o consumo das fam\u00edlias, o que teve, sim, efeitos amplamente inclusivos. Ora, se todo dinheiro que toque a coisa e o interesse p\u00fablico s\u00f3 pode passar por dentro do Estado, isso constitui um foco e uma tenta\u00e7\u00e3o permanente para obter os meios de controle, por onde a corrup\u00e7\u00e3o e a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do Estado, com o pior dinheiro privado, pode se realizar bem debaixo de nossos olhos.<\/p>\n<p><strong>\u00d3dio e ressentimento \u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>CD:\u00a0<\/strong>Existe no Brasil uma ascens\u00e3o do ressentimento de classe, de g\u00eanero. Ele junta todas as problem\u00e1ticas. No fundo, o ressentimento \u00e9 uma cren\u00e7a demasiada na onipot\u00eancia do Outro, que \u00e9 quem me fez mal. A ideia de que a minha vida n\u00e3o est\u00e1 \u201cfuncionando\u201d direito porque o outro fez alguma coisa e me impediu \u00e9 duplamente problem\u00e1tica. Primeiro porque ela desconhece a no\u00e7\u00e3o de pacto social, ou seja, de que alian\u00e7as e oposi\u00e7\u00f5es se d\u00e3o entre sistemas de interesse que n\u00e3o desconhecem o todo. \u00c9 o que se percebe bem no golpe que assistimos hoje, de um lado a Esquerda sente que foi despojada do poder por meios semi-l\u00edcitos, por outro a Direita ficou envergonhada e temos reformas brutais em andamento, segundo o esp\u00edrito m\u00e1gico das m\u00e3os limpas, ou seja, sem que ningu\u00e9m pague realmente a conta. Aqueles que eram contra Dilma, de repente se saem com essa de que n\u00e3o eram a favor de Temer, eles s\u00f3 queriam a sa\u00edda de uma, n\u00e3o a entrada de outro. Logo, quem realmente est\u00e1 vendendo nossos 20 pr\u00f3ximos anos para pagar as contas? Quem est\u00e1 pulverizando a aposentadoria e os direitos sociais? Quem vai pagar a conta pelo sucateamento do SUS e das universidades? O senhor Ulisses Ningu\u00e9m, o Vampiro de D\u00fcsseldorf? O golpe n\u00e3o \u00e9 o impeachment, mas o truque de que ningu\u00e9m realmente quer isso que est\u00e1 acontecendo diante de nossos olhos. Isso \u00e9 t\u00edpico da cultura do ressentimento. Como ela trabalha em um sistema de covardia e desimplica\u00e7\u00e3o subjetiva, quando o \u00f3dio extermina seus inimigos, depois do duelo e do linchamento v\u00e3o todos para a casa e voltam a ficar em cima do muro. E na solid\u00e3o de suas colunas de jornal pensam: \u201cfoi ele que me fez fazer isso\u201d. Sa\u00edmos da cultura do ressentimento para a cultura da indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel tratar isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CD:\u00a0<\/strong>\u00c9 poss\u00edvel tratar o ressentimento e temos dois recursos para faz\u00ea-lo, mas est\u00e3o sendo completamente ignorados: primeiro a cultura e depois a pol\u00edtica. A experi\u00eancia cultural n\u00e3o \u00e9 orientada para um fim nem para um gozo imediato. Estamos falando de uma verdadeira experi\u00eancia cultural, que \u00e9 a experi\u00eancia de linguagem, de simboliza\u00e7\u00e3o, de coletiviza\u00e7\u00e3o e que envolve muitas outras coisas. \u00c9 muito estranho que em meio a tantos candidatos para a vilania, os grupos escolhidos como grandes \u201catrapalhadores do progresso nacional\u201d sejam gente como artistas e intelectuais, professores e alunos de escolas p\u00fablicas. Em meio a tantos cortes, seja o Minist\u00e9rio da Cultura o escolhido. Em meio a tantos problemas a quest\u00e3o para a Educa\u00e7\u00e3o tornou-se a Escola sem Partido. Obviamente n\u00e3o \u00e9 pelo poder, nem pela representatividade, nem pelo barulho que tais grupos podem fazer, ainda que tentem, mas porque eles representam este gr\u00e3o de mal-estar que \u00e9 preciso erradicar. Eles representam a possibilidade que tem que ser negada, ou seja, de que existe vida fora da produ\u00e7\u00e3o e do consumo, existe vida fora do agora. \u00c9 por isso que eles s\u00e3o representados como indolentes, aproveitadores e favorecidos. Eles n\u00e3o est\u00e3o sofrendo como o resto. E em parte isso \u00e9 verdade, eles sofrem de outra maneira.<\/p>\n<p>A segunda forma de tratamento \u00e9 a pol\u00edtica, mas n\u00e3o gostaria de reduzir esse termo \u00e0 pol\u00edtica representativa, institucional, partid\u00e1ria, que se transformou em um neg\u00f3cio. Isso n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica, \u00e9 o neg\u00f3cio da pol\u00edtica. \u00c9 a produ\u00e7\u00e3o e o consumo do empreendedorismo das leis e do uso da viol\u00eancia. Precisamos falar de outro entendimento de pol\u00edtica que \u00e9 uma forma de entendermos que o futuro tem que ver com aquilo que queremos. E o que a gente quer tem a ver com diferen\u00e7as. E diferen\u00e7as se resolve pela palavra. Ent\u00e3o, \u00e9 fundamental reinstituuir a pol\u00edtica propriamente dita, porque n\u00f3s paramos de faz\u00ea-la, porque nos convenceram de que tudo que ela pode nos dar \u00e9 este espet\u00e1culo farsesco de deputados e senadores. \u00a0Estamos fazendo outra coisa: gest\u00e3o de sofrimento, fam\u00edlia no poder, moral segregativa, religi\u00e3o de resultados. Tais coisas s\u00e3o a anti-pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica \u00e9 o campo produtivo das diferen\u00e7as: palavra indeterminada sob condi\u00e7\u00e3o de conflito, como na psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>No seu livro \u201cMal estar, sofrimento e sintoma\u201d voc\u00ea fala da \u201cl\u00f3gica do condom\u00ednio\u201d. Essa l\u00f3gica baseada na exclus\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio de sociedades como a nossa, com grande n\u00edvel de desigualdade? O que essa l\u00f3gica explica sobre o Brasil que vivemos hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>CD:<\/strong>\u00a0Essa l\u00f3gica \u00e9 coisa brasileira. O condom\u00ednio como tipo de habita\u00e7\u00e3o e moradia \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o que se disseminou pelo mundo, e n\u00f3s n\u00e3o fomos pioneiros nisso. H\u00e1 condom\u00ednios por toda parte, mas por aqui eles assumiram uma fun\u00e7\u00e3o social que nos \u00e9 pr\u00f3pria. O condom\u00ednio como ideia social de vida, com o muro em estrutura de defesa contra supostos inimigos violentos que ficaram de fora, com o s\u00edndico que \u00e9 o arremedo de pol\u00edtico, agenciador das leis, o espa\u00e7o p\u00fablico mimetizado e reconstru\u00eddo como uma simulacro em forma privada, uma est\u00e9tica\u00a0<em>kitsch<\/em>\u00a0baseada no corte de renda e no padr\u00e3o de diferencia\u00e7\u00e3o por exagero e disson\u00e2ncia de gosto. At\u00e9 os nomes das coisas s\u00e3o uma par\u00f3dia involunt\u00e1ria, \u201cAlphaville\u201d a cidade dos \u201calfas\u201d, de\u00a0<em>Godard<\/em>\u00a0inspirada pelo\u00a0<em>Admir\u00e1vel Mundo Novo<\/em>\u00a0e sua sociedade castas.<\/p>\n<p>Nos EUA, quando surgiu a ideia de se morar em condom\u00ednios, nos sub\u00farbios, isso tinha o apelo do \u201cvenha para c\u00e1 e resgate o multiculturalismo. Restitua o sentido de comunidade que est\u00e1 na origem do nosso pa\u00eds. Um lugar de diferen\u00e7as reconciliadas\u201d.<\/p>\n<p>No condom\u00ednio brasileiro a ideia \u00e9: \u201cvamos nos defender juntos, porque o mundo \u00e9 perigoso\u201d. \u00c9 outra coisa. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de demiss\u00e3o do Estado. Voc\u00ea empreita as responsabilidades. Mant\u00e9m alguma responsabilidade com o s\u00edndico. E s\u00f3.<\/p>\n<p>Dentro dessa l\u00f3gica o muro \u00e9 um s\u00edmbolo que impede de ver o outro. Se n\u00e3o vejo, n\u00e3o existe. Se n\u00e3o existe, n\u00e3o me afeta. Se n\u00e3o me afeta, estou dormindo tranquilo.<\/p>\n<p>Mas, quando eu n\u00e3o vejo o outro que me constitui, come\u00e7am a aparecer nos meus sonhos quest\u00f5es como: \u201co que tem do outro lado do muro?\u201d. O sonho vira pesadelo. A vida perfeita vem com vizinhos barulhentos, adolescentes agressivos, madames f\u00fateis, com a experi\u00eancia vazia da felicidade entre iguais. Tudo fica pior que na realidade. \u00c9 bicho que n\u00e3o tem na realidade, mas o sonho de minha raz\u00e3o e o embrutecimento de minha gram\u00e1tica de reconhecimento cria monstros. Na hora, uma parcela significativa de gente decide sair do \u201ccondom\u00ednio\u201d, o mundo revelou-se bem outro, e batemos de cara contra o muro que n\u00f3s mesmos criamos. Sua fantasia do outro como algu\u00e9m com quem n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sentar e conversar tornou voc\u00ea sozinho e pobre. A rua passa a ser vista como uma floresta, cheia de seres perigosos, porque eles podem ser apenas iguais a voc\u00ea mesmo, s\u00f3 que de outro modo, de um modo que anos de condom\u00ednio te impedem de perceber.<\/p>\n<p>Portanto, al\u00e9m da novidade pol\u00edtica da internet devemos acrescentar a completa inexperi\u00eancia pol\u00edtica daqueles que ficaram aprisionados durante anos em \u201ccondom\u00ednios\u201d. Quando falo de condom\u00ednio n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os residenciais. A l\u00f3gica do condom\u00ednio \u00e9 tamb\u00e9m a que vigora nas pris\u00f5es e seus PCCs, nas favelas e comunidades, \u00a0nos shopping centers e seus diferentes muros simb\u00f3licos.<\/p>\n<p><strong>Muito do que falamos tem assustado porque ganhou forma e cara nas redes sociais e foi para as ruas\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>CD:\u00a0<\/strong>Nas redes \u00e9 poss\u00edvel fazer muita coisa boa, mas ruim tamb\u00e9m. \u00c9 a primeira gera\u00e7\u00e3o que tem esse instrumento. N\u00e3o d\u00e1 para julg\u00e1-la esquecendo disso. Quando se descobriu a radia\u00e7\u00e3o todo mundo achava bonitinho. A coca\u00edna era usada como medicamento e fazia parte da f\u00f3rmula de refrigerantes. Diante das grandes inven\u00e7\u00f5es seus efeitos delet\u00e9rios s\u00e3o descobertos muito depois. \u00c9 um espa\u00e7o semip\u00fablico, estamos aprendendo, mas n\u00e3o sabemos us\u00e1-lo. Nossa fronteira clara e distinta entre o que \u00e9 p\u00fablico, o que \u00e9 espa\u00e7o p\u00fablico e o que \u00e9 interesse p\u00fablico est\u00e1 sendo redefinida. Tamb\u00e9m o que cham\u00e1vamos de espa\u00e7o privado, de intimidade, de pessoalidade passa por uma reforma.<\/p>\n<p>Como voc\u00ea tira o pior de algu\u00e9m? Para al\u00e9m de suas conten\u00e7\u00f5es de culpa, inveja, de educa\u00e7\u00e3o? A sabedoria popular j\u00e1 nos diz que basta dar poder e saberemos quem \u00e9 aquela pessoa. \u00a0E o palco da internet \u00e9 uma estrutura de poder. A m\u00eddia social te diz que agora voc\u00ea tem um palco, s\u00f3 seu. Junto com isso vem a ilus\u00e3o de que finalmente voc\u00ea ser\u00e1 ouvido, e o que os milh\u00f5es que te faziam sentir irrelevante v\u00e3o se dobrar diante de suas palavras e de suas imagens. Pior que a infelicidade banal \u00e9 a promessa de que ela \u00e9 passageira e ser\u00e1 superada.\u00a0 A\u00ed as pessoas se desvestem e come\u00e7am a falar, tem uma reverbera\u00e7\u00e3o, duas curtidas e voc\u00ea come\u00e7a a achar que voc\u00ea \u00e9 o Donald Trump. Obviamente n\u00e3o estamos falando de poder real, se bem que ele exista tamb\u00e9m nesta situa\u00e7\u00e3o, mas principalmente do poder imagin\u00e1rio, aquele que concorre para tornar a depress\u00e3o uma epidemia mundial.<\/p>\n<p>Na m\u00eddia tradicional n\u00e3o tem isso. Voc\u00ea s\u00f3 ouve. \u00c9 a voz do dono da empresa (jornal, televis\u00e3o, revistas). Antigamente havia uma express\u00e3o bem velha chamada \u201cchoque de gera\u00e7\u00f5es\u201d, para designar a tens\u00e3o social que faziam dos jovens uma turma de contestadores e revolucion\u00e1rios. Agora que todos s\u00e3o jovens,\u00a0<em>adultescentes<\/em>\u00a0e\u00a0<em>adoledultos<\/em>, esquecemos que h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o no poder que foi nascida e criada pr\u00e9-internet, e outra gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o consegue entender porque certos problemas n\u00e3o s\u00e3o tratados de forma mais transparente, democr\u00e1tica e com participa\u00e7\u00e3o direta dos interessados, inclusive por meio da democracia digital. \u00a0Fomos criados com a ideia de que quem fala \u00e9 que tem poder. Interessante perceber que o \u00f3dio, o ressentimento foram feitos em torno de discursos, n\u00e3o das pessoas se encontrando uma a uma.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O Brasil de cara contra o muro | Plataforma Pol\u00edtica Social &#8211; https:\/\/plataformapoliticasocial.com.br\/o-brasil-de-cara-contra-o-muro\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Davi Carvalho &#8211; Em um dos momentos de crise mais complexos da sua hist\u00f3ria, o Brasil sofre com problemas que alimentam ainda mais o dif\u00edcil cen\u00e1rio j\u00e1 instalado. 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